Requiescat In Pace Seguir história

u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

Nos limites do mundo dominado por Roma... emerge, contra os conquistadores, uma ameaça a toda a humanidade.


Horror Horror zumbi Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#romanos #gore #terror #medieval #rei-arthur #morto-vivo #mortos-vivos #zumbi #zumbis #muralha-de-adriano #bretanha #idade-antiga #antiguidade #roma #império-romano
Conto
0
1.6mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Capítulo Único

Requiescat in Pace


Ele fitou o par de olhos inumanos à sua frente.

Nunca imaginara um dia encarar pupilas como aquelas numa pessoa viva. Ou melhor, a ausência delas – já que os olhos da mulher haviam se tornado globos cinza opacos, de detalhes indistinguíveis, perdendo todo o brilho e o aspecto de pertencerem a um ser natural. Ele, até então, só contemplara olhos como aqueles nas estátuas de deuses, imperadores e generais; olhos mortos, porém altivos, talhados em mármore. Antes daquele momento, admirara tal característica nas esculturas. Mas agora, aqueles órgãos leitosos só remetiam a dor e escuridão.

A mulher se debatia, amarrada à cadeira de madeira de assento em "U" – móvel requintado que indicava sua posição nobre, mesmo em meio a um local inóspito como aquele. De nobre, no entanto, nada parecia restar à criatura. Soltando urros aterrorizantes e selvagens, tinha os cabelos desgrenhados – deixando de exibir o mais remoto aspecto de seu anterior penteado; a pele extremamente pálida – que o fez lembrar mais uma vez do mármore – coberta de feridas e escoriações; exibindo uma boca repleta de dentes podres, porém afiados, tinha sangue fresco a escorrer pelo queixo e um claro ímpeto de atacar com fúria caso se visse livre das cordas. Um atroz odor de podridão provinha da personagem, como se seus intestinos houvessem se decomposto e ela inexplicavelmente sobrevivido à infecção.

- Você disse que ela investiu sobre uma de suas próprias criadas? – o homem diante da miserável dama indagou, de braços cruzados e rosto impassível, apesar da repugnância que sentia.

Uma voz masculina à sua direita respondeu, após breve momento de hesitação:

- Sim, comandante... E-ela a derrubou e mordeu seu pescoço, arrancando pele e carne.

O primeiro indivíduo assentiu levemente com a cabeça, tornando a olhar fundo nos olhos mortos da mulher diante de si, buscando nela desesperadamente algum resquício de vida, de civilidade. Como réplica, ela apenas se agitou ainda mais na cadeira, uma espessa baba amarela pendendo de seus lábios.

O observador suspirou. Levou a mão direita à bainha à sua cintura, retirando dela o gládio. Apertou com determinação o cabo da lâmina, em seguida avançando na direção da prisioneira. Antes que o homem à sua direita ou qualquer outra pessoa no pavilhão pudesse impedi-lo, enterrou a arma no pescoço da mulher num só golpe, esta soltando mais alguns grunhidos animalescos enquanto se engasgava com sangue e aço, líquido jorrando em profusão de sua garganta sobre os resquícios de sua túnica branca já imunda de terra... até que lentamente se silenciou, seu corpo emitindo os últimos tremores enquanto a cabeça se inclinava para frente.

- V-você matou a imperatriz... – o comandado ao qual antes dirigira palavra constatou estupefato, uma onda de incredulidade dominando também os demais combatentes na barraca.

Inabalável, o agressor retirou o gládio banhado em vermelho do pescoço da vítima, respondendo, sem se virar:

- A imperatriz Julia Domna já estava morta. Caiu vítima da feitiçaria dos bárbaros. O estado de loucura do qual foi acometida era irreversível.

Enquanto tornava a embainhar a lâmina, um inseguro centurião à sua esquerda afirmou:

- Temos de enviar um mensageiro ao Imperador. Ele precisa tomar conhecimento do fato!

Aquele que assassinara a esposa do governante romano levou uma mão ao queixo, refletindo imóvel por um instante antes de inquirir:

- Você havia afirmado que o Imperador Severus partiu numa expedição contra os bárbaros além da Muralha de Antonino?

- Sim, comandante, com a graça e proteção dos deuses.

O comandante torceu a face, em meio a um pesado silêncio que tomou o ambiente. Nenhum desses falsos deuses irá protegê-lo agora...

- Sinto informar, mas o imperador já está morto – concluiu de modo sombrio, voltando subitamente o semblante ao comandado.

O outro subordinado à sua direita assustou-se:

- Como assim, o que está dizendo?

- Estou nesta ilha há mais de dez anos, e sei do que falo. A magia dos povos aqui nativos é poderosa, e já a contemplei com meus próprios olhos. Os sacerdotes do povo além da Muralha de Adriano são chamados de druidae. Dominam as forças da floresta e são capazes de devolver a vida aos mortos, para que eles devorem os vivos. Já tinha me deparado com esse tipo de sortilégio algumas vezes em minhas expedições, e os bárbaros prometiam utilizar tal maldição como último recurso contra a ocupação de Roma. Parece que eles finalmente cumpriram a ameaça.

O comandante pôde sentir o terror de seus homens aumentar com sua exposição, tornando-se quase palpável no ar rarefeito daquela terra, ainda mais denso no interior do pavilhão.

- E o que devemos fazer? – um dos centuriões perguntou.

- Em primeiro lugar, queimem imediatamente o corpo da criada que foi morta pela imperatriz. Em segundo lugar, temos de reunir os dignitários e deixar este forte imediatamente. Vocês podem ser otimistas, mas para mim... o Império Romano acaba de perder a Britannia.

Os soldados pareceram um pouco incertos, trocando olhares amedrontados, porém logo em seguida partiram para cumprir as instruções. O comandante, por sua vez, permaneceu sozinho na barraca, única companhia ao cadáver desfigurado da imperatriz e já um pouco mais tolerante ao terrível cheiro que exalava. Como o Legatus daquela legião, Ulpius Dracon, partira na expedição do Imperador Severus, ele, Praefectus Legionis, era o comandante-em-chefe da tropa. Veterano de campanhas na Síria e na Dácia, achava-se capaz o bastante para lidar com ataques de exércitos inimigos. O pensamento, no entanto, de ter de conter uma horda de mortos caminhantes – incluindo seus companheiros tombados em batalha – conseguia fazer Lucius Artorius Castus estremecer.

Olhando uma última vez para a imperatriz morta e desejoso de encher os pulmões de ar mais saudável, deixou a barraca. Ganhou o pátio interno do forte de Eboracum, um dos principais núcleos de ocupação romanos na Britannia. Num canto junto à muralha de madeira, centuriões jogavam dados. Em outro, alguns serviçais aqueciam-se na manhã fria e nublada em torno de uma fogueira. No alto dos muros, combatentes faziam constante guarda. Mas serão essas barreiras suficientes?

Lucius caminhou pelo pátio, seu rosto barbado sendo fustigado pelo vento frio. Era em ocasiões como aquela, tomado pela ansiedade, que desejava poder munir-se publicamente de sua fé – melhor escudo que poderia ter.

Suas reflexões, todavia, foram interrompidas por um repentino grito de horror. E, num rápido raciocínio, o comandante concluiu o que se passava...

Correndo até os aposentos onde a imperatriz havia antes se instalado, Lucius, ao entrar, deparou-se com uma aglomeração assustada de soldados em torno de uma cena que ali tinha palco. Abriu caminho entre eles... apenas para encontrar um dos subordinados de sua legião, caído no chão de barriga para cima e rosto imóvel com os olhos esbugalhados... enquanto a criada anteriormente abocanhada no pescoço por sua ama, tendo a túnica em frangalhos e os mesmos perversos olhos leitosos, abria o abdômen do centurião com as mãos nuas, retirando um emaranhado de tripas com os dedos salpicados de sangue e mastigando-as vorazmente como se fossem linguiças.

Sem se abalar com visão tão atroz, o comandante adiantou-se com o gládio já em mãos... e, num só corte, fez a cabeça da criada reanimada rolar pela sala, batendo sonoramente na parede atrás de si e ainda movendo a mandíbula insistentemente, mesmo separada do corpo – este caindo de joelhos sobre o cadáver do qual se alimentava. Antes que os centuriões pudessem expressar algum tipo de reação, Lucius também decapitou o soldado morto, em seguida sentando-se ofegante no chão, apoiado em sua arma e tendo sua armadura e elmo tingidos de escarlate – ali, para seu infortúnio, longe de constituir uma cor nobre.

- Preparam-se... – ordenou, notando que era observado fixamente pelos outros militares. – Eles estão a caminho.

Os integrantes da legião, já munidos de suas lanças e escudos, mantinham-se em posição defensiva a noroeste das muralhas de Eboracum. As fileiras de soldados seguiam ordens claras do comandante Artorius, ainda que não as compreendessem. À linha de frente, o Aquilifer portava o estandarte da tropa, encimado por uma imponente águia dourada sobre a flâmula com o emblema romano. A cavalo, Lucius vistoriava a formação. Quem dera eu tivesse asas como uma águia e pudesse voar além desses montes para sondar a aproximação dos malditos... – pensou.

- Lembrem-se: caso precisemos recuar, os muros do forte serão nossa última defesa! – instruía-os conforme galopava. – Poderemos contê-los mais facilmente atrás das muralhas. Eles são lentos, porém perigosos. E, sob hipótese alguma, permitam que eles os mordam ou arranhem. Caso isso aconteça, se transformarão neles.

A vasta maioria dos centuriões acreditava que seu comandante havia perdido a razão, talvez devido ao choque diante dos terríveis acontecimentos envolvendo a morte da imperatriz. Começaram a mudar seu julgamento, entretanto, quando o vento frio trouxe uma estranha sinfonia. Aproximando-se devagar da direção que vigiavam, veio uma espécie de coro – porém diferente de qualquer um que já houvessem escutado. Parecia composto de lamúrias, como se centenas de pessoas, ao mesmo tempo, lamentassem seu destino. Mais alguns instantes, e as lamúrias foram identificadas na verdade como gemidos... Milhares deles. Uma profusão de vozes agonizantes que levava a crer que o Tártaro havia se aberto, Plutão não tendo mais espaço para as almas dos mortais e por isso regurgitando-as de volta à superfície terrena, para assombrar os vivos.

Os combatentes já tremiam, sentindo o peso de seu equipamento crescer em seus braços e corpos mais do que desejavam, quando a visão também resolveu traí-los. Centenas de metros adiante, sobre uma elevação, uma sinistra coluna surgiu. Os gemidos continuaram, revelando provirem dela, enquanto a formação descia pela encosta e revelava mais fileiras atrás de si, em grande número. Eram, à primeira vista, soldados romanos. Mas, conforme avançaram rumo ao forte, mostraram apenas o terem sido um dia – já que estavam separados de sua verdadeira existência por terrível mágica. Andavam aos tropeços, caindo sobre si, engatinhando como animais; porém sempre persistentes, insistindo a todo custo em seguir seu caminho e colocar-se de pé. Usavam lorigas, escudos e elmos familiares... mas cobertos de sangue, como se houvessem imergido num rio em que ele corresse antes de chegarem ali. Seus corpos também se encontravam despedaçados, muitos sem algum braço, metade da cabeça, tendo as entranhas expostas... Havia os que até mesmo tinham sido desprovidos de suas pernas, arrastando-se pela grama com os tocos ensanguentados pendendo das cinturas. À frente, um centurião curvado carregava o estandarte com a águia da legião – o mesmo, porém, estando quebrado; o pássaro pintado de rubro entortando para a direita enquanto a haste que o sustentava não se rompia por completo. A flâmula, com as iniciais romanas "S.P.Q.R." rodeadas por louros, estava ao contrário, invertendo as letras e fazendo Artorius remeter a outro significado:

- Requiescat in pace... – murmurou. – "Descanse em paz".

Conforme suas ordens, os arqueiros, dispostos na muralha da fortificação, agiram primeiro. E, mais de cem metros antes de a primeira coluna de mortos-vivos atingir os defensores, flechas flamejantes caíram sobre eles.

Vários dos amaldiçoados se converteram em tochas ambulantes, ainda assim continuando a avançar em seu caminhar lento e trôpego – para, dentro de segundos, caírem carbonizados no solo. Para fortuna da legião ainda viva, as chamas consumindo os monstros diretamente atingidos pelas setas passaram para alguns outros próximos de si – mas não fora suficiente. Eles ainda eram muitos, e possuíam resistência acima de um homem comum.

Lucius, ainda sobre o cavalo, ergueu um braço em sinal, e mais uma nuvem de flechas foi disparada – iluminando a tarde cinza. Outras dúzias de mortos-vivos desabaram em meio ao fogo, porém já estavam próximos demais das fileiras de defensores. Sentindo o cheiro de carne fresca, aceleraram o passo, saltando sobre os centuriões. O comandante ouviu os primeiros gritos quando alguns de seus homens tiveram os pescoços e troncos rasgados pelos dentes das criaturas, que conseguiam perfurar a couraça das lorigas como se fosse pano. Uma desordem se instalou, vivos e mortos misturando-se numa confusão sangrenta. Os primeiros conseguiam arrebentar os crânios de alguns dos atacantes a golpes de escudo ou decapitando-os com os gládios; outros eram empalados pelas lanças e, erguidos acima do chão, desmanchavam-se a olhos vistos, seus braços decepados se esgueirando pelo chão entre os pés dos soldados e arranhando-os como se tivessem vida própria. Os segundos, por sua vez, lançavam mordidas violentas contra os antigos compatriotas, arrancando-lhes pedaços da garganta, do rosto. Esguichos de sangue brotavam de toda parte, ensopando a legião como se chovesse vermelho. E, mesmo com a visão dificultada pela aglomeração da batalha, Artorius pôde notar que os mortos-vivos levavam vantagem... abrindo caminho, pouco a pouco, até a muralha – e tendo em seu contingente novos soldados a todo momento, visto que os romanos mortos se levantavam aos gemidos, em busca de carne humana, poucos segundos depois de sua desgraça. O comandante não podia contar com tal luxo, e logo seu número de homens via-se drasticamente reduzido.

- Recuar! – exclamou, direcionando o cavalo rumo ao forte. – Recuar, agora!

Os poucos centuriões ainda vivos seguiram-no às pressas, com os monstros em seus calcanhares – em muitos casos literalmente, mordendo-os e puxando-os incapacitados para o meio da multidão desmorta. Lucius procurava ignorar os berros de suplício atrás de si enquanto ganhava o pátio de Eboracum, o portão se fechando atrás de si. No alto dos muros, os arqueiros disparavam mais flechas contra a legião inimiga. Poderiam resistir um bom tempo ali, mas uma hora aquelas barreiras cederiam.

- O que faremos, senhor? – indagou um de seus subordinados, em tom apavorado.

Eu não sei... mas como vou dizer isso a ele?

Subitamente, ao olhar para seu gládio ensanguentado, Artorius teve um rápido pensamento. Logo depois saltou do cavalo, respondendo ao combatente, enquanto se distanciava:

- Esperem aqui, eu volto logo!

Havia um antigo cemitério dentro das muralhas da fortificação, antes utilizado pelos bárbaros, e então pelos romanos. O comandante nele estivera poucas vezes, porém se lembrava de que era costume local que guerreiros mortos tivessem suas espadas cravadas em seus túmulos, como uma espécie de lápide. Julgava ter compreendido um dos motivos da rápida derrota de seus homens ao constatar que o gládio, uma lâmina curta, não era tão eficiente contra uma grande quantidade daqueles inimigos reanimados. Ele precisava de uma maior... e se encontrasse outras, as concederia aos seus soldados.

Os mortos que nos perdoem, mas precisamos delas para combater outros mortos...

O cemitério estava tomado pela névoa, que transformava em meros vultos os montes de pedras empilhadas demarcando as covas dos celtas e as árvores secas, de galhos extensos e retorcidos, que se estendiam pelo lugar como prenunciadoras da danação. Após procurar por alguns instantes, Artorius finalmente visualizou, em meio à bruma, um sabre de lâmina longa enterrado na terra junto a um túmulo improvisado, o contorno composto pelo cabo lembrando ao militar a cruz, símbolo de sua fé. Ocultava aquilo de tudo e todos, devido às perseguições, porém mantinha-se firme na sua conversão ao cristianismo, a qual já remetia há alguns anos.

Determinado, retirou a espada das pedras sem dificuldade, erguendo-a em seus punhos. Mantinha-se afiada, e seu acabamento era admirável. Empunhando lâmina como aquela, certamente teria maior eficiência em ceifar os mortos-vivos. Ofegante, já se preparava para procurar mais armas para seus comandados, quando ouviu um som.

Aos seus pés, a terra se revolvia... e uma mão esquelética, contendo ainda alguns últimos restos de carne podre, agarrou fortemente sua perna esquerda. Gemendo, Lucius fez de tudo para se libertar; mas o agarrão do cadáver era extremamente forte – e logo uma outra mão, também quase puro osso, brotou do solo. Utilizando-a como apoio, a criatura emergiu vagarosamente do túmulo, mantendo o romano preso por todo tempo necessário para que se levantasse. Quando o fez, o militar vislumbrou seu aspecto, gelando da cabeça aos pés e sentindo que o coração derreteria no peito sem ar: o morto-vivo vestia farrapos de roupa e tinha todas as costelas expostas, andando graças às pernas um pouco melhor conservadas, onde ainda restavam músculos. A cabeça ainda possuía tiras de pele na região do rosto, mas o nariz era inexistente – assim como uma das orelhas, estando a outra carcomida. Nas órbitas onde deveriam estar os globos oculares, Artorius não encontrou sequer os olhos leitosos que lembravam estátuas de mármore. Em seu lugar havia duas cavidades escuras; e por uma delas vermes dançavam, esparramando-se para fora do crânio... e despencando aos pés do comandante.

Só então notou o detalhe mais sórdido: o monstro trazia uma tabuleta pendurada ao pescoço, disposta sobre seu peito em frangalhos. Havia sido executado pelos romanos sob acusação de algum crime, mas na placa estava legível apenas seu nome... "Mordred".

Enquanto era empurrado e derrubado pelo esquelético inimigo, Lucius sentiu uma terrível dor em sua barriga. A criatura abria-lhe o estômago, e percebeu o sangue quente vazar e lhe escorrer pelas pernas. Enquanto gritava e se debatia, inutilmente, viu outros corpos decompostos se erguerem das tumbas vizinhas, soltando gemidos demoníacos. Iniciaram uma lenta marcha para fora do cemitério, prestes a surpreender seus comandados, que se julgavam seguros dentro do forte. Em meio aos últimos pensamentos, lembrou-se do Apocalipse de João, apóstolo do Cristo, que predizia desgraças e uma era de escuridão antes do retorno do Salvador... e imaginou se aquela maldição conjurada pelos bárbaros não seria seu início.

Essa praga não pode sair desta ilha, ou todo o mundo conhecido cairá, junto com Roma...

Enquanto tinha os órgãos retirados e devorados por seu algoz, Artorius emitiu um último espasmo... e seus olhos se fecharam, fazendo o punho direito soltar a espada que nem sequer tivera chance de brandir.


+ + +


O céu estava nublado há dias, e o mar mais agitado do que o costume. Os dois centuriões romanos caminhavam pela orla litorânea, realizando uma ronda rotineira nas cercanias de seu forte. A região da tribo Morini mostrava-se pacífica nos últimos tempos, tendo sido subjugada por Augusto, primeiro Imperador, mais de cem anos antes. Isso não significava, no entanto, que poderia ser ignorada. Aquela terra constituía ponto mais próximo da Britannia na Gália, e seus portos ofereciam o caminho mais rápido para a travessia do mar que a separava do continente. Não era raro visualizar navios transitando por toda a costa, e naquela manhã não era diferente. A dupla de soldados logo avistou, ao longe, uma embarcação se aproximando.

- Será um navio mercante ou militar? – um dos romanos indagou, apontando para ela.

O outro estreitou os olhos... mas, quando a nau se aproximou mais e ele pôde enxergar suas velas, julgou haver algo errado.

A galera era claramente militar, mas as iniciais de Roma, gravadas no tecido impulsionado pelo vento, estavam por algum motivo ao contrário... lendo-se "R.Q.P.S.".

26 de Dezembro de 2019 às 18:53 2 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

Comentar algo

Publique!
Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Olá, autor! Escrevo-lhe para parabenizá-lo por ter tido seu conto "verificado". E que conto, hein! Mas não podia esperar nada além do melhor vindo de você. Fiquei bastante encantada com o final da trama, principalmente porque, no começo, imaginei que eles recorreriam a alguma feiticeira ou algo parecido a fim de tentarem desfazer a magia. Eu gostei bastante do falso calmo caminhar que a narração causa durante a leitura: senti como se as coisas estivessem acontecendo em um ritmo lento, mas, quando menos percebi, a guerra já estava diante de mim. Com relação à sua sinopse, apesar de ser pequena, cumpre bem com o propósito. Fala muito sobre a história e consegue aguçar a curiosidade sem dar spoilers ( que é ótimo hahaha). Também gostei bastante do personagem principal: quando ele é mostrado, percebemos que a personalidade dele não é construída durante a história, como muito acontece, mas que ela já existe e está muito bem estabelecida e está apenas sendo mostrada a nós, e isso é ousado e bacana, além de ter sido feito com maestria. Eu percebi que não há tantas descrições, porém as que foram colocadas na história ficaram muito boas, principalmente a da imperatriz e a do morto-vivo que trouxe o final de Lucius — voltando à imperatriz, o uso de "personagem" para remeter a ela foi muito perspicaz, pois aumentou a sensação de que aquela criatura parecia surreal para quem olhava. Com relação à sua gramática e ortografia, muito boas como sempre, porém gostaria de deixar algumas observações para caso resolva mexer na história em algum momento ou até mesmo para seus contos futuros: uso de hífen em vez de travessão para marcar falas. Não é algo que realmente incomode a leitura, porém seria interessante se pudesse fazer a troca, já que hífen é usado para a junção de duas palavras, enquanto travessão é usado para marcação de falas e como vírgula. Além disso, há o uso de "mesmo" no lugar de pronome pessoal: "mesmo" é pronome demonstrativo, que é usado para reforçar um termo de natureza substantiva ou retomar uma oração, portanto em "o mesmo, porém, estando quebrado" deveria ser "ele, porém, estava quebrado". Obrigada pelo conto maravilhoso e sucesso pra você e suas histórias. Abraços!
January 02, 2020, 13:03

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Olá. Muito obrigado por ter lido e verificado meu conto :) Fico feliz pelos elogios. O Lucius é uma das supostas versões históricas do Rei Arthur, hauahaua. A história foi inspirada pelo filme de 2004, que aborda essa versão. Achei legal você ter destacado os rumos narrativos e ter ficado surpresa por isso, pois foi uma virada abrupta até quando escrevi. Valeu pelos toques também. Confesso que os hifens para marcar diálogos foi um vício adquirido por ter dificuldades em inserir travessão no Word, hauahua, mas os textos mais recentes já não contam com isso. E obrigado também quanto à dica sobre o "mesmo". Sucesso igualmente. Muito obrigado. Abraços. January 02, 2020, 13:45
~