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boaswain uanine oliveira

Yoongi e Taehyung dividem um apartamento perto da universidade e mal se conhecem mesmo depois de um ano morando juntos, mas tudo muda na véspera do natal quando Taehyung some por dois dias e volta machucado.


Fanfiction Bandas/Cantores Para maiores de 18 apenas.

#homofobia #romântica #fluffy #natal #yoongi #taehyung #vsuga #taegi #bts
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Apenas esta noite

Min Yoongi tenta passar despercebido na maioria das vezes, ele realmente não gosta de atenção, principalmente quando essa é voltada para ele. As pessoas dizem que esta é a conduta de alguém que tem algo a esconder, mas com o Min é mais como que se ele não quisesse mostrar demais, na verdade. Os poucos amigos o descreviam como calado e neutro, nunca a pessoa que anima as festas (porque geralmente ele trabalha como DJ nas baladas universitárias, mas é 2019 num centro acadêmico de humanidades, quem não é DJ?), nunca aquele que se sobressai num grupo. Para falar a verdade, o garoto de cabelos pretos e pele pálida estava mais do que satisfeito em não ser nenhum desses dois exemplos.

Ele gostava de viver sua vida dentro dos limites do calmo. Todas as suas disciplinas começavam depois das dez da manhã, assim ele nunca acordava tão cedo e nem tão tarde. Mesmo assim, Yoongi ainda tinha o hábito de se levantar seis horas antes, às quatro da manhã para tomar uma xícara de café. Ele adora o som dos pássaros cantando na sua janela nesse horário, menos nos dias que ele odeia porque acorda de mau humor, então esse calmo horário entre a madrugada e a manhã serve como um relaxador para o Min enquanto ninguém está olhando. Ele volta a dormir na sua cama de solteiro e acorda em paz horas depois, pronto para mais um dia de aula.

Essa é uma das vantagens de morar no campus: ele nunca está cansado demais quando chega em seu dormitório. Não é uma caminhada desagradável ou longa, na verdade, com seus fones e seus passos lentos, nenhuma caminhada é desagradável ou longa. Yoongi curte, na verdade. E quando ele se jogava sua cama, é a melhor sensação do mundo, deixando que esse loop rotineiro se repita no dia seguinte.

Yoongi tem um colega de quarto — a não ser que você seja podre de rico ou filho do presidente (e podre de rico) ou finja alguma doença, você não vai conseguir um dormitório individual nesta instituição. Mas para ser sincero, Yoongi nunca se importou demais com isso, ele até que achava legal porque dividiam as tarefas. Silenciosamente. Os dois, ele e Kim Taehyung, que cursava Letras ou Cinema ou Psicologia... Algo assim; nunca trocaram mais de duas palavras. E até onde Yoongi sabia, os dois estavam de bem com isso, não era como se fossem realmente relevantes na vida um do outro.

Como você pode ter desconfiado à essa altura, um dia, isso mudou.

Era mais uma sexta-feira rotineira como todas as outras do ano letivo. Depois da sua aula, Yoongi ia até o bar com Seokjin e Namjoon, ficava por vinte minutos, o suficiente para se atualizarem dos memes que rolavam na internet, discutirem política e então os dois amigos começassem uma briga infantil sobre animes, que era a deixa para o Min vazar dali e voltar para o seu dormitório. No entanto, era véspera de feriado — que é quase não considerado feriado já que cai no fim de semana —, e ao invés de brigarem, os três falaram sobre seus planos para o feriado enquanto bebiam suas bebidas.

No Natal, era meio óbvio que se viajasse para encontrar a família, ainda mais aqueles estudantes que não moravam na capital, e que assim poderiam viajar até as aulas voltarem, mas com Yoongi era um pouco mais complicado que isso. Ele era um desses estudantes, não era de Seul, sua família e passado pertenciam à Daegu e de vez em quando pegava um trem para visitar os familiares em alguma festividade, mas havia decidido pular desta vez e permanecer no ambiente acadêmico.

Agora devem pensar que algo o distancia da família, mas é completamente o contrário. O Min vem de um lar amoroso e confortável, sua estabilidade emocional e calmaria provém disso, mas ele sentia que algo o prendia àquela cidade naquele feriado. Sua mãe e suas tias não ficariam bravas, elas iriam dançar e comer por ele, como haviam prometido.

Seokjin iria para a praia com a família da cunhada e Namjoon iria viajar com os pais para cumprirem a tradição natalina que mantinham há anos. Yoongi iria só... fazer biscoitos e permanecer no dormitório assistindo séries. Dito isso, ele colocou a mochila sobre os ombros e se despediu dos amigos, desejando ótimas festividades, começando a caminhar até seu quarto.

Aquela caminhada agradável e curta que o fazia pensar em banalidades do dia a dia. Como o fato de fazer dois dias que ele não via o companheiro de dormitório. Não é como se ele sentisse falta do Kim, mas era de alguma forma tão natural que ele estivesse ali sempre para um “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”, que o Min notou imediatamente quando ele não voltou da sua aula noturna. Assim, a louça também estava acumulada na pia, porque essa era a tarefa dele, e Yoongi não faria, mas também não estava dificultando sujando mais, a maioria das coisas que comia eram enlatadas. Roía as unhas pensando no momento que o mais novo passaria pela porta e ele iria precisar conter o sorriso ao dizer “a louça é sua”.

Ele e Taehyung não tinham mesmo muita intimidade, mas de vez em quando, quando o clima estava realmente descontraído, conseguiam fazer piadas e conversar como dois indivíduos socialmente desenvolvidos. No resto do tempo, só compartilhavam o mesmo oxigênio do quarto e se ignoravam, mas era um ignorar consciente, de se levantar e perguntar se o outro precisa de algo, de trocarem horários para não atrapalharem os planos e chegar percebendo se o outro esteve ou não ali.

Quer dizer, era um apartamento pequeno, cada movimentação era bastante perceptível, então estava claro para Yoongi, assim que ele abriu a porta, que Taehyung não tinha voltado. Não haviam tênis sujos largados pelo meio da casa nem música tocando, nem portas de armário abertas na incessante busca do Kim por comidas que ele já tinha comido mas não lembrava.

De certo modo, Yoongi estava preocupado. É claro que Taehyung poderia ter viajado ou simplesmente dormido fora, mas ele costumava avisar, até mesmo porque eles tinham os números de celular um do outro e o Min estava estalando os dedos já fazia algumas horas ponderando sobre enviar ou não uma mensagem. A última no aplicativo era de um mês atrás, avisando que a lâmpada tinha queimado.

Ele escolheu não se preocupar tanto assim, não haviam motivos para tal. Tomou um banho, se forçando a ignorar a pia cheia de louça suja e apagou as luzes, deitando-se na cama com o notebook no colo, dando play em uma série da Netflix, o que meio piorou as coisas porque já no segundo episódio o amigo/amante do protagonista morre. E se Taehyung estivesse morto?

A tranca da porta se mexeu inesperadamente, assustando o Min. Por um segundos ou dois, ele achou que estava presenciando uma tentativa de arrombamento, mas tirou isso da mente quando escutou um xingo do outro lado da parede fina, deixando o notebook de lado e correndo para destrancar e abrir a porta. O corpo sem forças de Taehyung caiu por cima de si e ele quase não teve reflexos o suficiente para o segurar, mas segurou, mesmo que petrificado e sem reações.

O mais alto se apoiou na cômoda para se pôr de pé e Yoongi percebeu que havia sangue na sua camiseta, a que acabara de vestir. Taehyung estava sangrando — e se arrastando até a sua cama, deixando os sapatos pelo caminho, como era de costume. Yoongi não sabia bem o que pensar, nem o que fazer. Parou na soleira da porta e observou para além do corpo sangrento e machucado na cama ao lado da sua. O cérebro estava em estado de choque, não conseguia processar o que estava acontecendo, mas, calmamente, fechou e voltou a trancar a porta.

— Está tão mal assim? — Taehyung murmurou, fazendo uma careta enquanto se contorcia na cama tentando tirar o casaco.

— Eu — Yoongi murmurou de volta, mas não disse nada. — Vou chamar a polícia.

Rapidamente, o mais velho se debruçou sobre sua cama procurando seu celular.

— A ambulância, Yoongi.

— O quê? — perguntou, já discando os números da emergência.

— Eu estou ferido — Constatou o óbvio. — Deveria chamar a ambulância, não a polícia. Mas não há necessidade.

— Você está sangrando e — Engoliu em seco antes de prosseguir. — Sumiu por dois dias.

Só que de repente tudo aquilo parecia tão irrelevante, a ligação, a louça suja, o sumiço do mais novo. Quer dizer, com certeza isso tinha ligação com seus machucados, mas não era a preocupação principal. Taehyung tinha visivelmente levado uma surra, e Yoongi estava tremendo de medo.

— Não achei que fosse notar, foi mal — disse, conseguindo finalmente se desvencilhar do casaco.

— Não se esforce falando demais — Yoongi sussurrou, nervoso. Preso naquela situação. E continuou gaguejando. — Vou ajudar você. Quer que eu te ajude?

Taehyung sentou-se na sua cama, dolorido e gemendo pelos movimentos fortes, segurando sua costela que por sinal doía sem moderação. Agora era mais fácil notar seus ferimentos — o rosto estava roxo e inchado, e além do corte grave no supercílio, cortes menores desciam sua bochecha até o queixo; o nariz sangrava e hematomas cobriam seus braços fortes. O casaco que antes usava estava coberto de sangue, deixando pingar sobre os lençóis e almofadas da cama que permaneciam no mesmo lugar onde havia deixado. Parecia que um caminhão tinha passado em cima dele.

— Meu Deus! — exclamou, tapando a boca tarde demais, chocado com o que presenciava. — Vou pegar o kit! Não se mexa!

As mãos do Min tremiam. Taehyung tinha levado uma surra (e trazido para dentro de casa), mas de quem? Por quê? Seria possível que o Kim estivesse envolvido em algum esquema ilegal ou acerto de contas? Só a ideia congelava Yoongi e fazia um arrepio descer sua espinha.

Mais rápido do que fora, voltara com a caixa de primeiros socorros em mãos, atirando-se no chão ao lado da cama de Taehyung. Não tinha experiência nenhuma com primeiros socorros (apenas duas aulas de educação física do ensino médio), mas agiu tão naturalmente que poderia ser confundido com um estudante de enfermagem. Mesmo que suas mãos tremessem e ele mesmo não se sentisse 100% confiante devido àquela situação, preparou bem os utensílios para limpar as feridas do Kim e ainda sugeriu que este segurasse uma compressa de gelo contra as áreas inchadas do rosto. Respirou fundo, tirando uma tesoura da caixa com a hesitação e ansiedade pelo que planejava fazer com ela.

— Eu — começou, baixinho, evitando o olhar sôfrego do Kim, mas engoliu em seco e se obrigou a prosseguir. — Vou precisar cortar sua blusa, pra não se esforçar ou...

— Eu sei — Taehyung o interrompeu, trazendo o olhar do Min para si e assim ficaram. Se encarando por muito tempo. Para Yoongi não era tão estranho, estava vendo de perto todos os machucados no rosto do outro, em como ele parecia incrivelmente abatido e ainda conseguia manter aquele brilho no olhar, mas não poderia dizer o que Taehyung observava nele. Não havia nada de especial para observar. — Tudo bem.

Voltando à realidade, Yoongi suspirou forte, buscando coragem para prosseguir, mesmo que aquilo não fosse um ato de coragem e mais de cuidado. Apostava com base em suas memórias que nunca tinha visto Taehyung sem camisa. Houve uma vez em que se encontraram em uma festa no Departamento de Educação Física e os dois, coincidentemente, haviam descartado a possibilidade de entrar na piscina.

A tesoura rasgou o pano fino da camisa do mais novo e abriu uma fenda grande que expôs todo o abdômen do Kim. Primeiramente, Yoongi se prontificou em segurar com delicadeza o corpo de Taehyung para que pudesse puxar o restante da camisa de suas costas e a jogar no chão do quarto sem cerimônia, mas logo depois se assustou com os hematomas brutais que apareciam no torso do rapaz. Um maior que chamava mais atenção era o que se concentrava em sua barriga, e o Min não era nenhum expert em ferimentos mas aquilo parecia ter sido resultado de um chute. Vários chutes, na verdade.

Entre gemidos de dor e múrmuros de irritação, Taehyung disse:

— Não precisa fazer isso.

Por alguns segundos, Yoongi não percebeu que aquela fala era voltada a si. Afinal, a conversa entre os dois ainda era recente, nada habitual e estranha, e o fato de ter se prologado apenas nesta dada situação horrível deixava tudo mais estranho ainda; mas quando o Min voltou sua atenção ao colega de quarto, o fitou com olhos descrentes de quem não sabia responder e logo voltou ao seu trabalho manual de curativos para se esquivar da pergunta.

— Não é como se eu tivesse muita escolha — riu, baixo. — E deixar você sangrando até morrer?

Taehyung esboçou um sorriso e Yoongi suspirou. Aquilo já era mais palavras do que haviam trocado em todos os onze meses dividindo aquele quarto, coisa demais para o Min ministrar, mesmo assim, rendido a naturalidade que aquilo tinha naquela específica situação, teve coragem de proferir mais algumas falas:

— Precisa ir no médico, pode ser que tenha machucado algo por dentro.

— Não — negou, rapidamente. — Estou bem.

— Não parece bem — cortou o Min, franzindo os lábios e logo notando o olhar de Taehyung grudado em si, fazendo com que corasse. — Desculpa, não queria me intrometer na sua vida.

Taehyung suspirou — meio cansado, meio risonho, meio dolorido também, mas ao tentar tocar a ferida no seu abdômen, seus dedos esbarraram nos do Min, alertando-o. Rápido, Yoongi se levantou e foi até a cozinha, voltando com um comprimido e um copo d’água e entregando para Taehyung.

— Tudo bem — murmurou, rouco, não se esforçando muito e ao mesmo tempo se esforçando pra caralho para não deixar a voz vacilar em um suspiro de dor. — Eu vou ficar bem, é sério, não precisa se preocupar, não quero estragar seus planos pro feriado.

Yoongi piscou os olhos mais de uma vez e largou as gazes dentro do kit, procurando entender o que o mais novo tinha dito. Por fim, sorriu, genuinamente, balançando os ombros de forma suave.

— Você não tá atrapalhando nada — disse. — Ainda posso assistir séries e cuidar de você ao mesmo tempo.

— Não vai viajar? — o Kim perguntou, arqueando as sobrancelhas. Yoongi apenas negou com a cabeça, fechando o kit. — Obrigado.

Yoongi sorriu fraco, suspirando por receber o agradecimento sincero do outro. Que loucura, véspera de Natal e eles dois ali, um sangrando e o outro fazendo papel de enfermeiro. Estranhamente, tudo o que o Min pensava em fazer no momento era cuidar de Taehyung, resolver a situação, ver que ele estava bem e recuperado. Ele provavelmente deveria escrever uma carta para o Papai Noel pedindo isso de Natal.

Se levantou e observou com um olhar calmo e suave o Kim deitado em sua cama. Outra vez, que loucura. Logo ele que sempre fugia de situações chamativas e preocupantes, que não gostava nada de se meter em confusão ou chamar atenção, parecia que naquele dia, o problema tinha puxado o pé de Min Yoongi.

— O analgésico vai diminuir a dor e depois a gente vê como estão os ferimentos. — anunciou. Em poucos passos, guardou novamente o kit. — Você precisa descansar. Pode ficar na minha cama, eu limpo seus lençóis e te faço algo pra comer.

Taehyung riu.

— Sinto que estou me aproveitando de você.

— Pode retribuir melhorando logo e lavando a louça — alfinetou, rindo também.

Ajudou Taehyung a passar para a sua cama e o convenceu a tentar cochilar, com poucas palavras como sempre, e sob os protestos do Kim de que não queria atrapalhar. Ao final, suspirou, assistindo quase que desconfiado e com um prazer secreto, o corpo quieto e pacífico do Kim. Mesmo nas suas costas tinham arranhões e hematomas, Yoongi desviou o olhar com uma sensação ruim e se prontificou a juntar os lençóis sujos de sangue, indo até a lavanderia minúscula do dormitório e colocou-os na máquina de lavar, mas não resistiu muito tempo, desabou enquanto configurava o modo de lavagem dos tecidos, começando a chorar desesperadamente. Fugou, ficou sem ar, soluçou; há muito tempo não chorava assim. Fechou a porta para que os barulhos não atrapalhassem o sono do Kim, mas lágrimas grossas escorriam pelo seu rosto.

Porque ele se importava. E estava assustado.

Não podia dizer mais do que duas coisas sobre Kim Taehyung (nem mesmo do curso dele tinha certeza), mas sabia que ele era um homem bom, o sorriso dele o dava uma sensação boa, o deixava esbaforido de felicidade, tinha que sempre se segurar para não rir quando ouvia ele rindo aos áudios no grupo de amigos, e ele nunca tratou ninguém mal, nunca tinha ouvido falar em nada do tipo, apenas odiava um de seus professores, mas isso não era nada visto que Yoongi odiava todos os seus. Cobriu a boca, tentando estabilizar suas emoções. Estava triste, desolado, parecia que seu coração tinha se estilhaçado no peito. Quem fizera isso com Taehyung?

Ligou a máquina e respirou fundo, enxugando os olhos ao sair da lavanderia. Sentou-se no sofá, conectando os fones de ouvido e trazendo o notebook ao colo, mas não sem antes dar uma olhada no sono de Taehyung. Recomeçou a série de onde tinha parado, rapidamente se envolvendo com os personagens, mas o constante desajuste da respiração sempre o lembrava de verificar o mais novo em sua cama. Nessas, logo percebeu que ele se movia um pouco demais, tremendo. Tirou os fones e observou, com medo de se precipitar à toa, mas logo o Kim estava se debatendo, virando de um lado para o outro e chutando em cima da cama. Yoongi deixou a série de lado e se ajoelhou novamente ao seu lado, o sacudindo ao mesmo tempo que tentava o conter com sua força mediana.

— Min... — Taehyung murmurou quase que esperançosamente quando abriu os olhos, dando de cara com o mais velho.

— Tá tudo bem, sou eu — disse, mostrando um sorriso acolhedor. — Tá tudo bem — repetiu porque sentiu necessidade de assegurar o mais novo, que naquela hora parecia tão assustado e medroso, de que não tinha nada pra temer ali.

Taehyung parecia apavorado, hesitando entre a verdade dos olhos amenos de Yoongi e seus sonhos violentos, mas logo se deu conta de onde e com quem estava e suspirou aliviado. No entanto, sentia um desconforto tangível.

— Desculpa.

— Pelo quê?

— Vou pra minha cama — anunciou, erguendo o torso e fazendo uma careta.

— Não — Yoongi protestou, segurando-o com cuidado. — Ainda não lavei seu colchão. Você precisa descansar.

— Você não pode ficar no sofá, eu não quero ser um fardo, você não precisa cuidar de mim.

— Você tá machucado, para de se mexer — continuou o menor. — Taehyung!

— Eu não quero atrapalhar seus planos, suas séries e...

— Tudo bem, tá — Min disse rápido, se deitando no colchão e encurralando o corpo ferido do outro na parede.

Era uma cama de solteiro, afinal, pequena demais para os dois, e desconfortável demais naquela posição, naquele aperto. Com certeza, a velocidade com que Yoongi tinha reagido de repente tinha machucado Taehyung, mas ele parecia alheio a isso. Estavam próximo até demais e se olhavam, tentando entender o que tinham feito para chegar até ali.

— Pronto, tô na minha cama, não tô mais no sofá — Yoongi sussurrou muito baixo, não precisava elevar seu tom mais que isso para ser ouvido pelo outro na sua frente. Os narizes poderiam se encostar se os dois não tivessem tão petrificados e relutantes devido à proximidade exagerada. — Não precisa mais sair.

Inesperadamente, Taehyung abriu um sorriso, um dos bonitos, aqueles que tiram o fôlego, e olhando de perto, Yoongi se viu fascinado na beleza do colega de quarto.

— Ok — sussurrou de volta, rindo. — Isso é estranho.

— Se sente melhor? — Yoongi perguntou sobre a voz do Kim, desviando do assunto “eles dois ali, deitados próximos”, e o mais novo apenas assentiu. — Quer que eu cozinhe algo pra você?

— Não precisa. Não precisa cuidar tanto de mim, tô falando sério — disse, remexendo-se na cama para finalmente ficar confortável. Yoongi congelou ao sentir o corpo dele esbarrando com o seu e continuou na mesma posição. — Você já ajudou muito, vou me recuperar logo.

Os olhos de Taehyung foram do Min até o teto e lá ficaram, e sem ser observado por ele, Yoongi se sentiu um pouco menos nervoso, mas ainda nervoso pelo quão grudados estavam, então se ajustou no colhão, ficando o mais confortável possível, com cuidado para não esbarrar sem querer nas partes do corpo do Kim que doíam. Permaneceram em silêncio, o que era estranho demais, principalmente para Yoongi que já tinha se acostumado com o som da voz de Taehyung no ambiente, porque a voz dele era linda. Rouca, grave, parecia uma canção hipnotizante, ele se via preso nela.

Felizmente, logo que o Kim falou outra vez, teve a sorte de poder desfrutar de seu tom grave.

— Minhas aulas terminaram mais cedo — disse, como quem não quer nada. — Na terça, então eu aproveitei pra antecipar minha viagem de Natal. Não foi mesmo uma viagem, meus pais moram aqui, em Seul, mas passo pouco tempo com eles então achei que indo antes do Natal poderia voltar a tempo de fazer os trabalhos finais das matérias que ficasse reprovado. Inclusive, preciso verificar isso.

Yoongi sorriu. Taehyung não faria trabalho nenhum naquele estado, mas preferiu não pontuar aquilo enquanto imaginava como estariam rindo daqui há um semestre quando o mais novo finalmente terminasse a disciplina em que havia reprovado e eles lembrassem dessa noite.

— Não avisei porque — Voltou a dizer, agora mais baixo, Yoongi não conseguia dizer o motivo, mas previa uma tempestade chegando. — Sei lá, achei que não fosse notar, ou se importar, na verdade esperava que estivesse viajando quando voltasse e eu ia voltar só no fim de semana, mas...

— Tá tentando me dizer como conseguiu os ferimentos? — Yoongi perguntou.

— É.

— Não precisa se não quiser.

— Foi meu pai.

E doeu até mesmo ouvir aquilo. Os dedos do Min se contorceram de medo, pavor ou sei lá o quê, ele se sentiu desconfortável na mesma hora, imediatamente, e ficou paralisado no lugar, olhando para o teto enquanto sua mente estava em branco. Até aquele momento ainda não tinha parado para imaginar a causa dos hematomas, mas agora as cenas vinham na sua cabeça quase como flashbacks de algo que ele não tinha vivido. O sangue no chão, as lamúrias, os chutes.

Sem que percebesse, entrelaçou sutilmente os dedos de Taehyung nos seus, num carinho puro e sincero. Sabia que tinha sido ele o machucado, mas queria receber colo agora também, porque simplesmente não concebia a ideia de que alguém pudesse machucar algo tão belo e calmo quanto ele.

— Sinto muito — murmurou, a voz meio fraca. — Não precisa...

— Ele descobriu sobre mim — e parecia que tinha terminado, assim, com um mistério, enquanto Yoongi tentava desvendar. — Que eu sou bissexual.

Taehyung. Bi? Isso sim era uma grande revelação. Yoongi percebia apenas agora que realmente não sabia nada do mais novo — e apenas sabia que esse era mais novo porque estava alguns semestres adiantados na faculdade e porque o Kim sempre o tratou com as cordialidades formais para tal —, não sabia quantos anos tinha, onde morava, do que gostava. Passou meses ao seu lado e não foi capaz nem de prever que o rapaz era bissexual, lembrava que havia se sentido meio eufórico quando levou um garoto que estava se relacionando para o apartamento, e de como ficou aliviado por Taehyung simplesmente fazer pouco caso disso. De começo achou que o Kim simplesmente prezava a privacidade e não metia o nariz onde era chamado, mas passou a acreditar na opção que mais lhe alegrava, que era a de que o colega de quarto era livre de preconceitos e agora tinha uma razão óbvia para isso.

Mesmo que ainda fosse lamentável o que lhe havia acontecido, Yoongi se sentia diferente com a notícia, como se tivesse descoberto um novo conforto em Taehyung.

— E aí isso aconteceu — Agora sim parecia ter finalmente terminado seu relato pouco detalhado, mas Yoongi não precisava de detalhes, seu cérebro já conseguia imaginar bem demais as cenas que Taehyung tinha vivido, tudo a base de medo e preocupação. Continuou calado, sem saber como reagir. — Não sei porque mas sempre tive a esperança de que não fosse tão radical assim, mesmo tendo vivido a vida inteira sobre diversos comentários contrários, achava que por um filho, pudesse me aceitar.

— Taehyung — murmurou, sem muita fé no que dizia, parecia vazio. — Eu sinto muito que tenha passado por isso, você não merecia nenhuma dessas cicatrizes.

— Isso é o de menos — sorriu, virando o rosto para Yoongi. — Elas saram rápido e a dor passa logo, menos a que fica dentro, encravada no peito e na memória.

— Eu sei — suspirou o Min, virando-se também para o olhar com atenção. — Como você está agora? O que vai fazer?

O olhar bonito de Taehyung se perdeu em pontos aleatórios ao redor do Min, pensativo. Ele não sabia que passo tomar em seguida, o que era, para falar a verdade, compreensível. Problemas familiares são os piores para lidar e os mais difíceis para se desvincular.

— Bem, eu estou aqui com você, posso ignorar isso até... Não sei, até sentir que é o tempo certo para tentar outra aproximação. Uma menos violenta e sangrenta — sorriu, mas com uma dor tangível no semblante.

Lágrimas estavam presas no canto dos olhos do Min e era perceptível para Taehyung, mas o mais novo não sabia o que fazer. Ainda eram estranhos — estranhos que, de repente, estavam deitados na mesma cama, conversando sobre um trauma. Não podia simplesmente adivinhar qual era seu papel em toda aquela estranheza pouco familiar, mas observou com serenidade os traços suaves do rosto do Min, a palidez de seu rosto, o arredondado do nariz, o brilho dos olhos negros empáticos. Min Yoongi era bonito; Taehyung nunca tinha notado.

— Quer descansar mais? — perguntou o menor, mudando de assunto. Taehyung demorou-se a responder, meio hesitante. Gostava da áurea que os dois tinham criado juntos, a intimidade no pouco espaço que os separava naquele momento, mas acabou assentindo, seu corpo não aguentava tanto esforço ainda. — Quer que eu saia?

E ele teve que segurar um sorriso nos lábios, mas com certeza deu indícios disso, pois gostou da forma que o Min se portou ao perguntar aquilo. Era diferente. Pra falar a verdade, Taehyung não queria. Yoongi o trazia conforto, paz, segurança. E talvez ele sentisse a mesma coisa apenas pelo fato de ter se preocupado em perguntar antes de simplesmente se levantar e ignorar o Kim. Talvez ele também quisesse ficar próximo.

Taehyung fechou os olhos e suspirou, negando — e evitando a reação do Min, por consequência perdendo o sorriso que esse abriu ao aconchegar-se mais no colchão. Yoongi não dormiu, mas gostou da sensação de observar o Kim cair no sono, parecia algo secreto, algum tipo de espionagem, um privilégio apenas seu — pelo menos assim ele gostou de pensar. Passou aqueles momentos da clandestinidade da dúvida se o tocava ou não, mesmo machucada, a pele de Taehyung parecia tão macia, tão irresistível. Yoongi memorizou o compasso de sua respiração e passou a imitá-la, entrando em sintonia com o mais novo por puro capricho. Não havia nada para fazer, mas se contentava em estar ocupado fazendo companhia para o corpo adormecido do Kim. E ali ficou.

Pensou até chegar na conclusão que o curso dele era Letra. Analisou todas suas curtas memórias com ele para entender que Taehyung usava uma variação pequena de camisas azuis e brancas, e ou ele tinha apenas um casaco ou aquele jeans preto acabado era seu favorito. Nunca tinha percebido o quanto deixava passar do outro, até finalmente se atentar aos detalhes que havia perdido ao longo do tempo. Os sinais que se espalhavam pelo seu rosto, seus traços, suas singularidades.

De certa forma, estava tão inerte em sua singela adoração pelo dorminhoco, que não esboçou nenhuma reação exagerado ao ver suas pálpebras se abrirem, pois já ansiava por isso, por testemunhar o movimento bonito delas ao deixar os olhos do Kim aparecerem.

— Oi — ele murmurou, voltando a fechar os olhos.

— Fiquei com medo de te acordar se saísse daqui — mentiu pela pura delícia de mentir e guardar consigo, no fundo, a verdade de que tinha o observado aquele tempo inteiro. — Tá com fome?

Taehyung negou, soltando grunhidos típicos de alguém que acaba de acordar.

— Que horas são? — continuou murmurando, seria quase impossível entender o que ele estava dizendo se Yoongi não estivesse tão perto.

— Nove da noite — respondeu baixo. — Você precisa comer pra se recuperar logo. Vou fazer uma sopa.

Taehyung apenas gemeu de sono em resposta e se remexeu no colchão, fazendo o Min sorrir ao se levantar em direção a cozinha. Estava experimentando uma sensação tão boa de repente, como se soubesse que algo bom estivesse prestes a acontecer, mas não pudesse contar a ninguém e só esperasse a reação dos outros. As bochechas estavam ardendo do tanto que reprimia um sorriso permanente, mas algo nele estava diferente.

Algo naquela noite estava diferente.

Não fazia ideia do que Kim Taehyung gostava na sua sopa mas estava simplesmente seguindo sua intuição e estava confiante de estar fazendo o certo — afinal, ele estava machucado, não tinha muito do que reclamar.

— Você dormiu? — Escutou o mais novo perguntar do quarto. Não tinha paredes separando os cômodos, era fácil ser ouvido assim.

— Um pouco — mentiu. — Se sente melhor?

— Um pouco também.

Era engraçado. Esse era o tipo de diálogos que eles costumavam ter dentro daquele apartamento. Rasos, monossílabos, curtos; mas de alguma forma, de repente, não era mais momentâneo. Não era mais só aquilo e um tchau, era quase como se esperassem e tivessem a certeza que vinha mais em seguida.

Yoongi voltou ao quarto com as mãos enluvadas e uma fumacinha subindo do prato com a sopa. Taehyung parecia, ao contrário do que tinha dito, faminto e se sentou no colchão para receber o prato, com o cuidado para não queimar as mãos, apoiando-o sobre um travesseiro em seu colo.

— Obrigado. — O mais novo colocou o prato na altura dos lábios e começou a soprar suavemente. — Parece delicioso.

O Min sorriu e se sentou na ponta da cama para observá-lo de perto novamente, com atenção e cuidado e ficou assim por alguns segundos, estudando o bico de Taehyung e como ele assoprava a comida.

— Eu não sei dizer porque nunca nos tornamos amigos — disse, de repente.

Yoongi se alertou imediatamente, arregalando os olhos, mas o mais novo parecia mais interessa na sopa (na verdade, em desviar da reação de seu hyung, seja ela qual fosse). O fato era que Yoongi não saberia responder aquela pergunta, tinha a mesma dúvida às vezes, mas sempre foi indiferente demais para se importar. Agora, importava, e mesmo assim , ele não sabia dizer o porquê disso também.

— Do que você tá falando?

Como sempre, a melhor saída era se fazer de desentendido.

— Nós nunca nos falamos muito, nem fomos próximos.

— Não sou muito de falar, você sabe.

— Mas eu sou muito de me aproximar — interrompeu com um ar de divertimento. — Acho que sempre achei que você não fosse com a minha cara, talvez seja que eu tivesse medo de me aproximar e você ser rude. Depois só virou o padrão, sabe, ser distante.

— Sei.

Suspirou, tomando tempo para responder, mas o que responderia? De certo, eles eram distantes. Colegas de quarto distantes. Se apostasse, mesmo que seus melhores amigos tivessem invadido o apartamento nesse dia com balões e bolo, Taehyung não seria capaz de dizer o dia do seu aniversário. E ok até aí porque Yoongi também não sabia o dele. Mas sabia que agora as coisas estavam diferentes, tudo tinha mudado. Dormiram juntos, Yoongi cuidou de Taehyung, Taehyung contou sua história para Yoongi. Talvez fosse exagerado, mas o Min mantinha na sua cabeça que agora eram confidentes. Poderia ser que no dia após esse voltassem a ser estranhos, distantes, mas teria sempre aquele pedaço de confiança um no outro que surgiu ali.

— Temos muito tempo pra nos aproximar agora — sorriu de volta, e apesar de parecer que o que dizia era vazia, Yoongi gostava de como soava uma promessa. Tinha que recuperar o tempo perdido. — Vou lavar seu colchão, pra você voltar logo pra sua cama e poder descansar mais tranquilo.

— Não — Taehyung disse, tomando a sopa devagar para não queimar a língua. — Gosto da sua cama.

Yoongi sorriu, balançando a cabeça, desacreditado, e se levantando dali para longe do rapaz machucado em sua cama. Tirou o colchão do outro, e ficou satisfeito ao ouvir os barulhos que ele fazia sugando a sopa para fora do prato, levou-o para a lavanderia e demorou um pouco demais para voltar, enxaguando-o e colocando-o na varanda do apartamento para que pudesse secar mais rápido com o vento que passava ali. Passou pela cozinha sem se esquecer de pegar mais um comprimido e um copo d’água para o seu paciente favorito.

Sentou-se novamente na beirada da cama, observando, gracioso, o Kim terminar a sopa, com os cantos da boca sujos de molho. Yoongi riu, o entregando o comprimido.

— Toma — disse, esticando também o copo. — Isso vai fazer você se sentir melhor. Depois vamos ter que trocar os curativos.

— Não sabia que era tão bom cuidando de pessoas — Taehyung falou, entregando para o Min o copo vazio. — Quantos rapazes machucados aparecem na porta do seu apartamento?

— Pra falar a verdade — começou, estendendo a mão para alcançar o rosto do mais novo e esfregar seu polegar com suavidade pela tez macia, levando consigo a sujeira de molho que antes ali estava. — Você foi o primeiro.

Aquele momento durou anos. Séculos, se me permitirem o exagero. Tudo isso porque o olhar do Kim era simplesmente hipnotizante, Yoongi não conseguia desviar dele, queria estudar e analisar cada brilho, cada detalhe que vinha de Taehyung, estava fascinado com quão bonito seu colega de quarto era, e como mesmo machucado (pode dentro e por fora) ele conseguia transmitir um ar de felicidade e satisfação com um simples olhar. Já o mais novo ficou perdido e encantado no carinho do Min, porque apesar de nunca terem ao menos tentado criar uma proximidade, ele estava adorando a atenção que Yoongi lhe dava, adorava estar perto do mais velho e por este ser cuidado.

Taehyung sorriu sem jeito, meio torto mas completamente adorável. O comprimido parecia preso na sua garganta, congestionado com outras coisas que o Kim sentia vontade de dizer de repente e se sentia estranho por isso.

O mais velho se levantou depois de hesitar por tempo o suficiente e mesmo em pé, ainda observou por um tempo o corpo amadoramente enfaixado de Taehyung, antes de se distanciar para a cozinha. Pela distância, o mais novo já não se sentia tão fechado dentro do encanto do olhar de Min Yoongi, então respirou fundo, limpando a garganta antes de falar:

— Podemos fazer alguma coisa agora — Em um tom alto o suficiente para que o baixinho o ouvisse do outro cômodo. — Não estou mais com sono.

— Quer jogar Just Dance? — O Min questionou, bem-humorado.

— Eu posso tentar — respondeu com um riso. — O que você tava assistindo?

— Uma série nova da Netflix — disse, aparecendo novamente na frente do Kim. — Quer ver?

Taehyung cresceu um sorriso e assentiu, provocando um sorriso igual no companheiro de quarto que se virou apenas para alcançar o notebook e subir mais uma vez na sua cama, ao lado do rapaz de cabelos castanhos. Yoongi deu um breve resumo do que se tratava a série e logo deu play, se esticando naquela mesma posição confortável que tinham achado horas atrás. Eles ficaram em silêncio, concentrados na trama dos personagens e chegaram rápido no último episódio, sem pausas entre os anteriores.

Isso sim era estranho: que Yoongi não se sentia nenhum pouco estranho em estar com a cabeça de Taehyung apoiada no seu ombro e que os cabelos do mais novo roçassem levemente na sua bochecha quando ele bocejava, na verdade achava adorável e podia ficar assim pelo resto da madrugada, visto que já passava da meia-noite. Por esse motivo, Yoongi pausou no começo do último episódio e se levantou, acendendo as luzes. Taehyung o olhou confuso e acompanhou seus movimento enquanto o menor puxava sua blusa para baixo.

— Vamos refazer os curativos agora, tá bom? — anunciou.

— Pode ser no banheiro? Quero fazer xixi

O Min virou o rosto para que o mais novo não percebesse seu rubor mas murmurou uma resposta positiva, pegando novamente o kit.

— Precisa de ajuda?

— Um pouco.

Taehyung estendeu sua mão e Yoongi a segurou, firme. Tinha esses mistérios: como um toque firme podia ao mesmo tempo ser tão carinhoso? O Kim se apoiou no corpo do mais baixo com pouco do seu peso e os dois caminharam juntos até o banheiro.

— Ainda precisa de ajuda?

— Eu só tô machucado, não paraplégico — Taehyung zombou, sorrindo ao se apoiar na pia. — Ao menos que queria me ajudar.

— Idiota — Yoongi o largou com um leve empurrão, rindo também ao fechar a porta.

O estudante de Música se encostou na parede do lado de fora e observou a janela aberta e a cidade escura com as luzes dos pôster parecendo estrelas. Que reviravolta, não? Des estranhos à... ele nem ao menos sabia o que dizer, como definir o que ele e Taehyung eram agora. Se conheciam tinha um ano ou mais, e mesmo assim só agora estavam realmente rindo um para o outro, um do outro, se confiando, se cuidando. Yoongi não conseguia explicar o que de tão diferente e anormal tinha nisso, semana passada mesmo havia ficado mais próximo de um colega de sala e não foi nada demais, mas com Taehyung parecia uma exceção.

Talvez fosse a situação no geral, na infelicidade de terem começado a partir de um infortúnio. O menor não teve tempo para divagar mais sobre o assunto, no entanto, quando o Kim abriu a porta, o convidando para dentro já sem a camisa. O banheiro, assim como o resto do apartamento, era apertado demais para os dois, mas Yoongi estava muito mais preocupado em não machucar o outro naquele espaço pequeno então sentou-se na beira da banheira, colocando o kit com as gazes no chão e apontando para o vaso para que o Kim se sentasse ali.

Ainda dava arrepios gélidos na espinha dele ouvir os gemidos sôfregos de Taehyung com pequenos movimentos, ele se sentia travado e agoniado por isso. Era quase como se também tivesse vivido aquele trauma com ele.

O mais novo respirou fundo ao sentir as mãos do Min sobre sua pele, começando a retirar lentamente os curativos dali. Nessa altura Yoongi já estava expert em fingir que o peito desnudo de Taehyung não o afetava nadinha, mas a verdade era que... Bem, era um abdômen e tanto, definitivamente seu tipo, mesmo que ele duvidasse que Taehyung não fosse o tipo de alguém, a beleza dele era de tirar o fôlego, mesmo ali, com os cortes e roxos pelo rosto, ainda estava bonito.

— Por que não viajou?

Foi pego de surpresa pela pergunta, estava concentrado demais em trocar as gazes no silêncio confortável com o mais novo, mas não tinha muito o que responder. Taehyung podia estar ferido mas tinha uma história, Yoongi só era simples demais, calmo demais.

— Não sei, decidi de última hora que preferia ficar — resumiu. — Mas sei que vou me arrepender de última hora também, foi estupidez trocar a ceia da minha mãe por... O que a gente tem mesmo pra comer aqui?

Os dois riram juntos.

— Mas pelo menos eu estou aqui pra cuidar de você — acrescentou, mais baixo.

A verdade é que ele queria parecer concentrado o suficiente para fingir não se importar com o que mais novo iria responder, mas no fundo ele se importava até demais.

— Obrigado — murmurou. — Você não precisava.

— Taehyung — Yoongi o interrompeu, olhando nos seus olhos. — Eu fiz o que qualquer um faria.

— Não — o Kim bufou, rindo. — Não meu pai, não minha mãe, não o motorista do Uber que eu chamei para vir para cá, não os alunos que me viram entrar no campus e nem o porteiro do prédio. Só admita que você é uma boa pessoal, Yoongi, é a verdade. Você é diferente e especial.

Ele era? O moreno parou o que fazia e continuou olhando a feriado perto do peito do maior, se ele estivesse fazendo uma análise médica apenas visual e amadora poderia dizer que Taehyung estava melhorando, seu corpo não estava mais tão colorido quanto antes, talvez seu pai não tenha o batido com tanta força, talvez não tivesse durado muito, todos aqueles inchaços fossem apenas porque o Kim era doce demais para revidar uma agressão vindo de uma figura paterna, o que significava que ele era bom. Agora: Yoongi? O próprio duvidava. Como Taehyung poderia dizer isso com base em meses de poucas palavras trocadas e uma noite de curativos? Parecia seco demais e nadinha especial.

— Você percebeu isso tudo só hoje com a minha sopa?

— Qual é — Taehyung sorriu, chamando a atenção do Min. — Eu percebi no segundo dia que estive aqui. No primeiro, eu bati minha cabeça duas vezes no armário quando entrava, e no dia seguinte você tinha trocado o armário de lugar. A gente pode até nunca ter se falado muito, mas eu sempre notei você e você sempre me notou.

Outra vez, lá estavam os dois estranhos (ou ex-estranhos devido às circunstâncias): presos no olhar um do outro e no momento. Yoongi realmente não sabia o que dizer ou o que pensar então não agiu em resposta de forma alguma, aceitava a fala de Taehyung porque era verdade, ele sempre havia notado o outro ali, mas nunca esperou ser notado de volta, logo ele, que fugiu disso sob todas as formas.

— Mas não se preocupe, eu vou te recompensar por isso.

— Não precisa — adicionou rapidamente em seguida, voltando a fazer seu trabalho.

— Eu quero — Taehyung sorriu, charmoso.

Yoongi rolou os olhos percebendo o quão teimoso o Kim era em suas decisões. Ele se levantou após terminar de restaurar as gazes pelo abdômen do outro, orgulhoso que os cortes menores e alguns ferimentos já estavam bem recuperados e sumindo, se aproximou do outro para que pudesse tirar os curativos de seus machucados no rosto e com um algodão úmido começou a limpá-los suavemente, preocupado com as expressões faciais de Taehyung com isso, mas o mais novo parecia se divertir secretamente.

— Diga algo que quer muito — insistiu o Kim.

— Que pare de falar e fique quieto — brincou.

— Diz logo.

— Ok — suspirou, se rendendo ao acastanhado. O que ele era? Papai Noel atendendo pedidos de criancinhas? Afinal, era Natal e Yoongi merecia um desejo concedido. — Hm, que tal uma ceia de Natal?

— Você vai ter, eu prometo.

Ele apenas riu, voltando a tratar das feridas de Taehyung, as que pintavam seu belo rosto. O roxo embaixo de seu olho estava mais escuro, o que significava que já estava sarando, e os inchados também estavam diminuindo, ele notou ao acariciar as regiões sensíveis. Apesar de tudo, estava feliz e orgulhoso por estar ajudando no processo de recuperação do mais novo, era como se fosse uma conquista para ambos. Ao tirar o curativo do corte em seu supercílio, o algodão acabou caindo de sua mão para o lado de Taehyung, este que se curvou junto ao Min para pegá-lo e os dois acabaram esbarrando a cabeça na tentativa.

— Desculpa, eu — Yoongi disse alto demais, rindo nervoso ao perceber o quão loucamente próximo estava de Taehyung. Um centímetro a mais do que isso e as consequências seriam desastrosas. Ele até mesmo estava com a ponta do nariz tocando a do Kim, então ele não se mexeu, por segundos, não queria que o finale daquela situação estivesse em suas mãos então esperou que o próprio Taehyung fizesse algo, mas este também não fez nada, apenas rodeou o pulso do Min com seus dedos, incrivelmente o prendendo no lugar. Realmente, aquele banheiro era pequeno demais para os dois. — Tae...

O mais novo fechou os olhos suavemente e respirou fundo para então passar a língua pelos lábios. Meu Deus, ele percebia o que estava fazendo? Um mero centímetro a mais e a sua própria língua tocaria os lábios de Yoongi e por isso o menor se apavorou, arregalando os olhos, mas parecia que para o seu corpo não era impulso o suficiente para se afastar de Kim Taehyung, então seus olhos apenas viajavam pela face do mais novo em descrença (ou expectativa).

— Você tá machucado? — ele perguntou, parecia preocupado, focado, mas ainda sim, distante daquele momento. Não daquele momento, ao contrário, Taehyung parecia bem presente, mas distante daquele cenário.

Yoongi demorou para raciocinar. De repente, o arrocho em seu pulso se suavizou, mas ele não tinha força o bastante no corpo para se afastar daquele olhar e nem para responder, então apenas negou com um leve movimento de cabeça.

— Tem certeza?

Sua mão tomou outro espaço: o rosto do Min, e por tomou quero dizer conquistou, capturou, arrebatou, de uma maneira tão íntima e avassaladora que Yoongi estranhou ter se rendido tão fácil àquele espetáculo de sensações. O polegar de Taehyung acariciou tão suave e amenamente a região na pele do outro onde tinham acidentalmente se esbarrado, o simples gesto deixou Yoongi sem fôlego, capturando atentamente cada movimento do Kim. O maior levantou o algodão ainda úmido e o pressionou contra a testa do moreno, parecendo incrivelmente professional ao fazer isso.

Yoongi segurou o sorriso de pintou o canto de seus lábios e juntou os dedos ao do outro, tomando o algodão para si e só então levando-o até o supercílio machucado de Taehyung — era ele o paciente ali. Só quando voltou a si, à realidade, pode se afastar do controle magnético que o maior parecia ter sobre si, mas sem parar de analisá-lo. Até sua reação ao afastamento do menor era adorável.

— Estou bem, quem está machucado é você. — murmurou, a voz rouca. — Segura, eu vou na cozinha.

Fugiu daquela cena o mais rápido que pôde, quase tropeçando nos próprios pés ao fechar a porta e se encostar na parede, com a mão no coração acelerado repentinamente, fechando os olhos e suspirando enfim. Por um segundo achou que iam se... O pensamento o fez levar a mão até os lábios, em um devaneio, e depois, suave, replicando o toque do Kim, até sua testa. Não lhe importava galo nenhum que pudesse crescer ali, importava que Taehyung se importava também.

De qualquer forma, aquilo não era muito importante agora — até porque o baixinho não sabia o que fazer, então o melhor era seguir o roteiro de enfermeiro que estava tendo naquela noite. Olhou o relógio, já passava de uma da manhã, eles realmente precisavam descansar. Os dois. Taehyung porque não tinha como ele ter sobrevivido com as energias renovadas daquela noite apenas com um cochilo cheio de pesadelos, e Yoongi porque também era muita pressão e adrenalina e emoções num dia só para ele digerir. Um sono longo faria bem a ambos.

Adentrou o banheiro outra vez, lavando as mãos antes de tirar o algodão do ferimento do Kim.

— Tá tudo bem?

— Claro — sorriu, nervoso, ao se aproximar e colocar um band-aid ali. Era quase imperceptível mas suas mãos tremiam. — Por que não estaria?

Taehyung deu de ombros; fofo. Yoongi suspirou fortemente, dando espaço para o mais novo.

— Acha que pode ficar de pé e caminhar? Tem algo machucado nas suas pernas?

— Acho que não, elas só estão doloridas de andar pelo campus — ele respondeu. — Vou no hospital, amanhã, digo que me envolvi em uma briga, não precisa se preocupar.

— Você sabe que eu me preocupo — o mais velho ressaltou. — Quer que eu vá com você?

Ele deu um movimento brusco e corajoso, ficando de pé sozinho sem se apoiar em lugar nenhum e Yoongi deu um passo para trás, batendo a cabeça contra a parede.

— Cuidado aí — Taehyung esticou seus braços na direção do menor e este os segurou firme com medo de que seu paciente caísse.

— Cuidado você.

O Kim sorriu, bobo, fofo, adorável e se soltou aos poucos.

— Posso ir sozinho — constatou, abrindo a porta e passando por ela bem devagar. — Viu? Vai ser rápido, aposto que só farão alguns exames. Eu não quero que comecem a questionar você também, vai que acham que eu tô preso dentro de um relacionamento abusivo. Ainda mais com você! Tenho certeza que não machucaria uma mosca!

Yoongi riu da imprudência do outro ao andar pelo apartamento até a sua cama. Rendido, fechou o kit e apagou as luzes, acompanhando Taehyung até o quarto.

— Nesse caso você precisa dormir — alertou o mais novo. — Para estar em condições de sair de casa amanhã.

— Vou dar seu nome no hospital, dizer que fui muito bem tratado pelo enfermeiro Yoongi.

— Doutor Yoongi — corrigiu com humor.

Sentou-se na ponta da cama e subiu os pés, só porque, afinal, era a sua cama, e se sentia à vontade o suficiente perto de Taehyung; assim, continuou o observando, aquele meio sorriso que ele exibia praticamente o tempo todo que dava uma sensação de calma.

— Certo, Doutor Yoongi, mas eu não tô com sono. Vamos assistir o próximo episódio.

— Já são uma na manhã.

— Vamos dormir às duas — insistiu.

— Só porque você é meu paciente favorito.

Puxou o notebook para seu colo e deu play. Nessa altura, ele nem estava aproveitando a série, apenas o momento em silêncio que tinha para poder pensar calmamente sobre os acontecidos. Sobre o que estava sentindo. Tudo isso — o recente, a proximidade, a intimidade, as coincidências — tinham um propósito, estavam levando aquela noite, Yoongi até um lugar, ele sabia, mais que isso, sentia isso, mas estava apavorado por apenas finalizar esse pensamento, porque era cedo demais, novo demais, pra falar a verdade, era até um pouco assustador. Taehyung apoiava a cabeça em seu ombro, massageava seu braço por vezes, assim, inocentemente, e mesmo assim Yoongi estranhava, porque sentia o coração palpitar forte, e nunca sentirá aquilo antes, não sobre o colega de quarto. Sempre estava ciente da presença de Taehyung, mas nunca do que sentia por ele.

Agora, no entanto, parecia que algo havia acordado dentro dele. Uma admiração, um carinho, uma vontade louca de fazer aquilo evoluir, o Min ainda não sabia com certeza para onde. Talvez, no final de tudo, fosse apenas o espírito natalino tomando posse dele.

O episódio se encerrou e o nome do elenco e produção começou a aparecer na tela, só então Yoongi notou que o mais novo cochilava apoiado em si. Com muito cuidado, saiu da cama, levando consigo o notebook e colocando-o na sua escrivaninha.

— Yoongi? — resmungou o mais novo, da cama. O Min resmungou de volta. — Pode colocar alguma música para tocar?

Não respondeu. Taehyung estava sonolento, de olhos fechados, se remexeu na cama pouco, apenas o suficiente para que o menor pudesse deitar-se ao seu lado, mas Yoongi não sabia se era uma boa ideia. Talvez pudesse preferir escolher dormir no sofá, talvez ficar tão próximo no Kim não fosse bom naquele momento frágil de ambos. Mas ele colocou uma música para tocar. Best Part, Daniel Caesar.

Combinou perfeitamente com a atmosfera do ambiente. Por alguns segundos, observou o corpo de Taehyung sobre a sua cama, se perguntando quando aquilo havia se tornado normal para ele.

— Vem — Ouviu o outro resmungar.

E obedeceu. Subiu na cama com cuidado e se esticou nela ao lado de Taehyung, controlando sua respiração para que não batesse nas costas do maior. Ainda estava com os olhos abertos, pensando, mas logo adormeceu.

Quando Yoongi acordou, música nenhuma tocava, mas diferentemente das horas passadas, uma luz radiante invadia todo o apartamento pela janela da varanda e iluminava suficiente o ambiente, fazendo assim o Min notar pequenas coisas que antes, na penumbra da noite, tinha lhe passado em branco, como as pequenas manchas de sangue pelo carpete e na lateral da porta do banheiro, ele percebeu ao seu levantar para escovar os dentes. Taehyung parecia já ter saído para o hospital, e Yoongi se pegou pensando se o mais novo tinha chegado em segurança, se estava tudo bem, se voltaria logo. Parecia extremamente estranho não ter o Kim ali, da mesma forma dos dias anteriores, em que estava sumido.

Em uma noite só havia despertado no Min a necessidade da sua presença, sem ela ali, o apartamento parecia bagunçado — de fato estava, mas parecia ainda pior sem o sorriso de Taehyung para complementar e embelezar a bagunça, porque era isso que ele fazia com os pensamentos de Yoongi: bagunçava.

Yoongi arrumou todo o apartamento, limpou, lavou e passou o pano — numa lentidão tão não habitual dele que quem visse estranharia. A verdade era que estava esperando a porta ser aberta a qualquer momento para que nenhuma tarefa fosse exaustiva demais ao estar sozinho. E com saudade. Em respeito dessa última citada — e vamos sustentar essa desculpa mesmo que não pareça a mais apropriada —, ele optou por deixar os pratos ainda intocados, esperando o garoto encarregado daquele trabalho voltar. Tirou o colhão já seco do Kim da varanda e arrumou a cama dele para quando voltasse, o que era impensável de certa forma e no fundo, Yoongi esperava que ainda dormissem juntos de vez em quando, por mais incomum que aquilo pudesse parecer, queria fazer um “padrão” novo com Taehyung, baseado em como passaram a noite anterior.

Minutos que pareciam horas entediaram o Min e ele decidiu finalmente sair de casa, respirar o ar livre. Vestindo apropriadamente para o frio que fazia lá fora, ele imaginou se Taehyung também estava bem agasalhado, não fazia bem que com os seus ferimentos, ele contraísse uma bactéria. Passou num café e pediu um latte para se esquentar. Sentou na mesa próxima à rua, observando a passagem de pedestres pela calçada, estava movimentado afinal era Natal e todos os atrasados estavam em busca do presente certo nas lojas.

Deveria comprar um para Taehyung? De certo estava pensando demais, não tinha nenhuma garantia que o mais novo voltaria para casa no final do dia, podia escolher passar o Natal com os amigos próximos, contar a eles o que lhe havia acontecido, talvez mencionar o fato do colega de quarto ter cuidado dele, porque se importava.

— Posso sentar aqui?

Olhou para cima de onde vinha a voz e sorriu largo ao se deparar com Seokjin, seu amigo.

— Achei que já tivesse viajado — disse, gesticulando para o maior sentar-se.

— Só daqui umas 6 horas. — explicou. — E você? Como planejou o natal solitário?

Yoongi suspirou e encarou seu copo de café, piscando e trazendo de volta as memórias da noite passada então sorriu e começou a falar. Não sentia vergonha, estava se abrindo porque manter aquilo tudo para si parecia crime e precisava de uma segunda opinião. Seokjin parecia surpreso pela narração dos acontecimentos, nunca imaginar que logo Yoongi, tão neutro, se envolveria em algo assim, ou sentisse algo assim, era radical e repentino demais para a imagem calma que ele mantinha.

— Uau — disse, por fim. — Onde você entra na história? Porque esse, com certeza, não é o Yoongi que eu conheço.

O mais novo sorriu desconcertado.

— Taehyung não é aquele de Letras? — perguntou ao que o Min concordou com um aceno. — Bem, ele já viu um lado seu que eu nunca vi, e olha que tô te aturando têm sete semestres.

— Ele disse que eu sou especial.

— Meu Deus, o que você colocou na cartinha pro Papai Noel? Que queria um príncipe encantado?

Yoongi riu com o comentário. Taehyung se encaixava nessa categoria, tinha surgido de repente numa noite encantada para o fazer companhia e lhe roubar suspiros. Mesmo assim, subiu o olhar para o amigo, pedindo um conselho.

— Não tenha medo, se ele estiver só sendo legal, que bom, você tem um colega de quarto que não é irritante mas essa nunca foi mesmo uma variável — disse. — Se ele estiver, sabe, na sua, tá na cara que você também tá na dele, e amores que surgem no natal duram mais, você sabe. Aquele da Netflix já tá na quarta sequência.

— Idiota — riu.

Continuaram conversando até a hora do almoço, apenas porque o assunto ainda era Taehyung e Yoongi se perdia falando dele ou ouvindo Seokjin supor coisas sobre ele. O mais velho teve que se despedir para partir para sua viagem e Yoongi o acompanhou na despedida, rumando par seu próprio apartamento. As mãos enluvadas tremiam mas ele suspeitava que não fosse por frio enquanto seus passos o aproximavam de sua casa, o sorriso também crescia em seu rosto de vez em quando, o fazendo parecer louco. Esperava que Taehyung já tivesse chegado, queria encontra-lo, saber como ele estava.

Para sua surpresa, não apenas Taehyung estava no apartamento quando ele entrou, mas também uma mesa inteira preparada com comidas e enfeites natalinos. Fechou a porta chamando a atenção do mais novo que se virou para si de onde estava, o balcão da cozinha. O Kim estava com curativos novos e mais profissionais, sinal que tinha voltado do hospital e parecia visivelmente bem.

— Oi — Yoongi murmurou tirando as luvas, a touca e o cachecol.

— Não pode me culpar por estar tão desorganizado — Taehyung sorriu, colocando os talheres sobre a mesa. — Eu esperava que você estivesse aqui quando eu chegasse com as compras para poder me ajudar.

— Desculpa, eu sai para...

— Não se desculpe por isso, foi até bom porque só assim eu posso dizer — ele riu, tirando o avental de si mesmo e correndo até a frente de Yoongi. — Surpresa!

O menor se contagiou com a alegria de Taehyung e riu junto, nem sabia do quê.

— O que é isso tudo?

— Sua ceia de Natal, eu prometi que você teria uma — explicou.

— Taehyung — Yoongi balbuciou, lisonjeado. — Meu Deus, não precisava. Você se esforçou demais sozinho.

— Não, só fiz o arroz, o resto pedi pelo aplicativo. Especial de Natal — ele riu, contente, colocando o vinho na mesa e rodeando para puxar uma cadeira. — Então por favor, senhor Min.

Com uma cor nas bochechas pálidas, Yoongi aceitou e sentou-se na cadeira da ponta da mesa. Nunca tinha tido uma experiência próxima a essa na vida, então tudo era novo. Taehyung era novo, novo e excitante. O Kim puxou a cadeira ao lado do Min e sentou-se também.

— Como foi no hospital? — perguntou, deixando Taehyung o servir um copo de vinho.

— Eles passaram analgésicos, mas disseram que o que você fez melhorou muito minha recuperação. Não tenho nada quebrado ou traumatizado, bem, só a mente, mas isso é algo humano e sem reparo.

— Posso tentar reparar — sorriu, encarando o mais novo.

— Você já está reparando — concordou. — Bem, vamos dar início ao nosso mais novo costume de Natal, e ver se essa ceia vale 5 estrelas no aplicativo.

— Feliz Natal — disse o Min, antes de garfar o peru.

— Feliz Natal.

Quatro estrelas e meia, um pouco mais de tempero na salada e tudo estaria perfeito, isso nas palavras de Taehyung porque para Yoongi tudo já estava perfeito. Ligou o aquecedor da casa e tirou seu agasalho quando terminaram a refeição, começando a tirar os pratos da mesa, quando o mais velho os levou para a pia encontrou esta vazia e limpa e sorriu, ainda sem motivo, só porque aquilo significava que Taehyung estava lá.

Sua presença já era tão significativa e notável que ele mesmo ligou a TV e colocou um clipe de Natal para tocar, chamando a atenção do Min, que riu para os movimentos melódicos dele.

— Acho que quero adicionar uma valsa pro nosso costume natalino — Deu de ombros, dançando até o Min.

— Não danço.

— Nas festas que você toca, fica parado? — perguntou, arqueando as sobrancelhas.

— Eu pulo — revirou os olhos.

— Podemos pular também — declarou o Kim, subindo descalço no sofá e começando a pular ao cantar a música natalina. — Vem.

Isso seria uma coisa que Yoongi nunca faria, mas de algum modo, com Taehyung, ele sentia uma vontade dilaceradora de fazer, então sorriu antes de correr e se juntar ao mais novo no sofá, pulando e balbuciando a letra que não sabia de cor. Taehyung segurou sua mão e o girou, dançando com ele. Estava tão acalorado e empolgado que não notara aquela fração de segundo do Kim se desequilibrando nas próprias pernas e caindo com força do sofá para o chão.

— Meu Deus, Taehyung! — se exasperou o menor, indo para o chão e se ajoelhando ao lado do corpo do Kim. — Você tá bem? Se machucou?

— Tá doendo aqui — murmurou.

— Vou pegar o kit — avisou, mas foi impedido quando o mais novo segurou seu pulso. Observou Taehyung e ele apontava para o próprio coração. Yoongi franziu as sobrancelhas, sorrindo. — Seu coração tá doendo?

Taehyung meneou com a cabeça, rindo, mas se esforçou para se levantar do chão, ficando cara a cara com Yoongi. Ficar perto do menor lhe dava aquela sensação de que estava no lugar certo com a pessoa certa. Não fugiria dali por nada — o que queria para o Natal era aceitação, mas ganhara o contrário, porém acreditava em ditados sobre chuvas e arco-íris e Yoongi era um arco-íris lindo, hipnotizava só de olhar.

Passou os dedos pelo cabelo do Min e segurou sua bochecha com um carinho. Diferente da noite anterior, Yoongi parecia confortável com o toque de Taehyung, como se fosse aquilo que ele queria.

— Podemos fingir que tem um visco em cima de nossas cabeças agora?

Yoongi não respondeu verbalmente, mas sorriu e assentiu quase que imperceptivelmente, mas Taehyung percebeu porque uniu seus lábios suavemente em um toque calmo e especial. Calmo e especial como Yoongi. O menor aproveitou o contato, levando suas mãos para segurar o rosto do Kim, sentindo todos os band-aids que escondiam suas feridas.

— Posso por favor deixar a louça acumular e só beijar você a noite toda? — perguntou outra vez, com o nariz acarinhando pele de Yoongi.

— De jeito nenhum — reclamou o mais velho, rindo e se levantando. Taehyung levantou-se também, não o deixando escapar de mais um beijo. — Vou arrumar sua cama enquanto termina.

— Minha cama? — Taehyung perguntou, confuso.

— Seu colchão já está limpo e seco — Yoongi explicou.

— Isso significa que você vai dormir na sua cama e eu na minha? Como nos velhos tempos? — questionou com humor.

— Pode deitar comigo essa noite — disse com um sorriso arteiro nos lábios.

— Só essa noite?

— Só porque é Natal.

24 de Dezembro de 2019 às 15:45 0 Denunciar Insira 0
Fim

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uanine oliveira i was a little bit lost, but i'm not anymore

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