O Filho do Sheik Seguir história

twinflamespa Amanda Luna De Carvalho

Ocorre no deserto da Argélia, num território não menos propício a fertilidade das coisas, envolve paixões, lances amorosos, questões políticas, desavenças entre irmãos, filhos e pais e atos heroicos de raptos e violência, mas tudo sempre acaba dando certo no lar.


Clássicos Todo o público.

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CAPÍTULO I

O vento da madrugada soprava rijamente no deserto.

Três cavaleiros, envolvidos em albornozes rigorosamente fechados, as costas voltadas às correntes atmosféricas, trotavam pela obscuridade; procurando passagem pelo chão pedregoso ali existente e que se ocultava manhosamente debaixo de espessa camada de areia movediça, tendo aqui e ali sinais de patas de cavalo, e que constituíam verdadeiras armadilhas para os incautos e suas cavalgaduras.

Não havia caminho, permitindo passagem na treva.

A despeito, porém, da sofreguidão dos animais, que mordiam nervosamente os freios e respiravam ruidosamente, o que traía sua inquietação e apesar do cansaço que se estampava ainda no rosto de dois membros da comitiva, esta se pôs decididamente em marcha.

O chefe do grupo, embuçado em um negro albornoz, cujas extremidades pendiam de cada lado do arreio e que pareciam emergir imperceptivelmente da lustrosa negrura do cavalo, era quase invisível na escuridão, enquanto seus companheiros, que o seguiam a poucos passos, semelhavam dois esguios espectros.

Milha por milha avançavam eles, dando aos animais plena liberdade na escolha do caminho pelo perigoso trilho, confiando mais, evidentemente, no instinto das cavalgaduras do que nas sugestões de suas próprias cabeças.

Subitamente cessou o vento, e se fez um silêncio tão profundo que o mais imperceptível ruído podia ser facilmente ouvido. Era como se a terra, sustentada no vácuo, estivesse esperando, arquejante, o advento da manhã.

Somente o incessante bulício da areia e o ruído surdo das pedras ao contacto das ferraduras quebravam o silêncio.

Mas a calma passou e o vento se pôs de novo a soprar, agora mais frio.

Os dois árabes que fechavam a comitiva apertaram, entre pragas e imprecações, mais os albornozes e se abaixaram nos arreios. O chefe, entretanto, mostrava-se indiferente tanto ao rigor da temperatura, como aos murmúrios dos seus camaradas; a cabeça ereta, insensível aos grãos de areia que lhe açoitavam o rosto, parecia esquecido dos circunstantes imerso em profunda cisma.

De resto, os pensamentos lhe deveriam ser amenos, pois que se pôs a trautear entre os dentes uma pequena e alegre canção francesa. O cântico era muito baixinho, o que não impedia, contudo, que as notas atingissem, a poucos passos, o ouvido atento dos dois homens que o seguiam. Um deles puxou as rédeas do cavalo e tocou-lhe levemente nos ombros.

— Allah — murmurou — está cantando!

— É bom ser-se moço e amar, — fez o outro sentenciosamente.

Nestas palavras não se podia vislumbrar o menor toque de ironia, pois eram repassadas de doce simpatia tanto mais que eram proferidas por quem tinha poucos anos mais que o cantor.

A obscuridade do ambiente cada vez se tornava mais densa. Pouco a pouco, porém, o negrume da noite cedia aos clarões da manhã de um novo dia. A estrela matutina começava já a espargir sua luz ainda indecisa, como se a timidez a fizesse receosa de sua força, mas gradualmente se fortalecia, expondo à vista a total desolação do cenário na fria apoteose da madrugada.

Áspero deserto esparramava-se na sua solitária grandeza, — um oceano de areia entrecortado de pequenos outeiros pedregosos, que corriam em cadeias diagonais de norte a sul. Na meia luz, aqueles montículos assumiam proporções fantásticas.

O dia clareava. No firmamento as estrelas empalideciam e umas a uma iam morrendo. Depois, no horizonte longínquo, um traço rubro de luz explodiu, cresceu e se adensou até se tornar semelhante a uma chama de fogo que esbraseasse o céu. Era uma orgia de cores. Do seu leito carmesim o sol surgia como imensa bola de ouro. Com a sua vida, cessou o vento matinal.

Os árabes puxaram as rédeas e apearam. A oração matutina que os dois camaradas resmungaram foi apressada e curta. Enquanto o guia, conquanto não se ajoelhasse se limitava a apoiar a cabeça no cavalo negro em que viajava que, por sua vez, acariciava com o focinho o peito do dono, traduzindo dessa maneira rude o afeto que lhe dedicava.

Cinco minutos depois estavam todos novamente eretos na sela, galgando a primeira orla de outeiros, os cavalos a galopar corajosamente, na ânsia de vencer distâncias.

Na luz matinal, o deserto assumia um aspecto menos desagradável: misterioso ainda e algo amedrontador; em razão da sua vastidão desolada respirava, entretanto uma estranha atmosfera de quietude, em curioso contraste com a sua aparência selvagem.

Para os três homens que lhe devoravam a movediça superfície, era o deserto um livro aberto. Desde a mais tenra infância se haviam identificado com ele, de maneira que o conheciam bem através das múltiplas fases de suas súbitas transições, toda a sua calma sorridente e suas subitâneas fúrias tempestuosas. Nenhuma de suas feições lhes escapava, seja quanto aos elementos, seja quanto ao ponto de vista do homem.

O conhecimento que tinham era filho da experiência. Naturais de uma região onde os perigos ocultos se atocaiam perfeitamente tomavam certas precauções, mas nunca mostravam qualquer inquietação, aceitando o inevitável com a indiferença fatalista que é a herança daquela raça.

Soberbamente montados e bem armados, pareciam preparados para todas as contingências e se desinteressavam das consequências que porventura lhes pudessem advir. Aliás, no momento não se lhes divisava motivo algum para apreensões. Tanto quanto os olhos lhes permitiam crer, o deserto estava vazio.

Um terreno ermo, evitado pelas caravanas e onde as pegadas dos nômades não eram frequentes nem recentes, por não existir ali água nem vegetação que em poucas semanas ao menos pudesse rebentar do solo árido, rareava naquele ponto do deserto. Plana e desfigurada, esta parte da região não apresentava nenhum local em que um inimigo pudesse ocultar-se com vantagem, posto ali existissem desfiladeiros onde um corpo de exército pudesse facilmente entrincheirar-se. Mas o temor de uma emboscada, se existia, não parecia perturbar nenhum dos três cavaleiros.

A paz lhes inundava o ser enquanto se aproximavam do termo da jornada. Os cavalos, altos e imponentes, alimentados de modo a poderem vencer impavidamente as peripécias da viagem, correspondiam galhardamente aos esforços que deles eram exigidos. Tesos um atrás do outro, corriam o deserto como se fossem insensíveis à fadiga.

E os árabes, como centauros, cavalgavam-nos magnificamente. Imóveis em suas selas, com as dobras dos albornozes ondulando-lhes ao derredor do corpo, os rifles de prontidão nos joelhos, pareciam tão incansáveis e orgulhosos como os animosos animais que montavam.

Na ilusória atmosfera os vales pareciam mais altos e distantes do que realmente eram, mas havia momentos em que surgiam mais próximos e de proporções atenuadas.

Os dois camaradas se colocaram ombro a ombro com o chefe: era o primeiro vale que se atingia, com alegria também das cavalgaduras, que se detiveram subitamente à base de uma rocha alcantilada que ali surgia abrupta e ponteada.

O chefe apeou e voltando o cavalo para um dos camaradas, fixou a vista durante momentos para a direção percorrida. Aparentando vinte anos de idade, alto e delgado, ombros largos que prenunciavam maior desenvolvimento, sua aparência tinha muito de arrogante e solene. O rosto agradável, magro e bronzeado pelo sol, limpo e escanhoado, disfarçava uma barba firme e obstinada. A boca era apertada, denotando um caráter um tanto cruel. Sobrancelhas negras e carregadas lhe davam um ar carrancudo, sombreando-lhe dois olhos azulados que no momento se mostravam sombrios, pensativos.

Expressões várias lhe transmudavam a fisionomia. Os olhos estavam cravados na vastidão do deserto. Nada de concreto lhe objetivava a mente.

Dava a ideia de que em sua cabeça se travava um conflito entre uma dúvida e uma indecisão, que finalizava por uma decisão muito firme.

Encolhendo os ombros, como a disfarçar uma lembrança desagradável, repuxou o pesado Albornoz e dançando nos calcanhares, foi juntar-se aos seus homens que o aguardavam com ansiedade, entretendo-se em amistosa palestra sobre frioleiras.

Dos camaradas, um era alto e imponente como o seu chefe e o outro mais baixo e pesado, mas uma inconfundível similaridade de aspectos e de expressão mostrava que ambos eram irmãos.

Os dois se retiraram à chegada do chefe e o mais baixo deles lhe ofereceu tâmaras de uma sacola presa aos arreios. O moço recusou a oferta.

Jogou-se à areia e encostando os ombros numa pedra, tirou do bolso uma cigarreira de ouro e pegou um cigarro.

Quase meia hora ele ficou fumando, guardando um silêncio que os demais julgaram prudente não quebrar. Mas os olhos dos camaradas denunciavam a inquietação íntima que lhes sombreava a mente, exprimindo o constrangimento que assaltava cada um deles a seu modo. O mais velho imóvel, carrancudo como o seu chefe, enquanto o outro denotava desassossego, brincando com pedrinhas que havia guardado e lançando para as rochas um olhar de interrogação, como se temesse que lhe interrompessem a quietude.

Por último o jovem chefe se levantou e fez um sinal pedindo seu cavalo.

Mas o gesto que lhe acompanhou, a ordem paralisou-se-lhe quando viu os homens voltarem também, puxando os próprios animais.

Fez um gesto de desaprovação.

— Esses animais não eram necessários. Vou só — disse com acento peremptório, galgando os estribos que o mais velho segurava.

— Esperará aqui, Ramadan, está entendido! Você também, S'rir — ordenou ao mais moço que já quase havia subido aos arreios.

A isso se seguiu uma tempestade de protestos, um dueto de explosões de raiva que exprimiam franca revolta contra a ordem dada. Nada, porém, demoveu o chefe da decisão enunciada. Montado e sofreando com dificuldade o animal impaciente, parou perto dos camaradas excitado, rebelde e visivelmente incomodado, perdeu a paciência.

— Calem-se! — gritou furibundo. — Quem aqui dá ordens sou eu ou são vocês? Ouviram ou preciso repetir: "vou sozinho! Vou sozinho!"

Ramadan levantou a mão do estribo que ainda segurava.

— Iremos também — obtemperou.

— E por que motivo?

Os olhos do homem nadavam-lhes nas órbitas, mas ele não se deu por achado.

— Um perigo o ameaça — resmungou com relutância, como se as palavras lhe escapassem da língua.

Durante segundos, os olhos do chefe relampejaram. Mas como o vendaval que passa, a ira se lhe transmudou num sorriso quase infantil.

— Perigo, meu tímido rapaz, onde? Perigo de que resguardar-me, Ramadan?

— Velo pela sua e não pela minha segurança, senhor, — respondeu Ramadan com calor.

— Minha segurança ou sua é tudo tolice. Bem, Ramadan, basta! Vou sozinho. Espere-me voltar.

— E se não voltar?

O chefe chegou às esporas ao cavalo, fazendo-o erguer-se perpendicularmente.

— Se não voltar, — gritou zombeteiramente, — procure-me no céu ou no inferno, pois que num ou noutro lugar você entrará à minha procura.

Com um adeus com a mão partiu no meio duma nuvem de pó e areia.

Os dois irmãos o contemplaram até que uma saliência das rochas o furtou às suas vistas. Entreolharam-se e enquanto o mais velho soltava pragas e maldições, o mais moço sorria enigmaticamente.

— Se algum mal lhe suceder que será dele? — interrogou Ramadan subitamente.

O sorriso de S'rir se fez um trejeito em que não havia a mínima alegria e com um gesto muito significativo: — Diga antes, que será de nós, — respondeu de modo sugestivo.

Daí a pouco, porém, encolheu os ombros com real ou fingida indiferença, voltando os olhos em direção ao sol.

— Três horas, de acordo com o que ele nos disse na última noite — observou com a maior calma.

— Seja! Três horas o esperaremos, mas, meu irmão, se em três horas não voltar, teremos de ir vê-lo no céu ou no inferno. Enquanto isso vou dormir.

Com um leve sorriso, puxou as dobras do Albornoz, com que cobriu a cabeça, e deitou na areia, deixando seu menos filosófico irmão às voltas com um sentimento de responsabilidade que, carregado sem peso durante alguns anos, ultimamente se tornara ameaçador para a paz do seu espírito.

Além, nas dobras das rochas que o ocultavam de seus aflitos companheiros, o ousado cavaleiro corria no seu grande corcel negro sem que a menor inquietação lhe anuviasse a fisionomia. Esquecido da insistência de seus homens, na inconsciência da sua rígida têmpera, só se lembrava de sua mocidade, da sua força e dos prazeres que o esperavam e assim demandava rédeas soltas, a segunda raiz dos alcantis, que, como a precedente, se projetava adiante por uma ou duas milhas de areia.

Nos dois braços de rocha havia um anfiteatro natural, semelhando a uma grande ferradura: dois dos lados se apertavam na curva dos montes e o terceiro dava para um deserto aberto. Avermelhada pelo sol da manhã, a massa dentada da rocha erguia-se altaneira, de pé, num relevo apertado que desafiava o azul claro do céu sem nuvens, projetando sombra para a areia que, na base, o vento agitava.

O local era um cenário de grandeza e amenidade quase sem paralelo, mas o pensativo cavaleiro não tinha olhos para extasiar-se na selvagem majestade do espetáculo. Lançando olhares à direita e à esquerda, montado com o habitual aprumo dos árabes, não lhe sobrava outra preocupação que o objetivo da jornada.

Desfrutando irreprimida liberdade, que era sua máxima aspiração a fim de desembaraçar-se de sentimentos que o acompanhavam desde a infância, seu rosto se iluminou e seus olhos pensativos brilharam com ardor.

Desde a sua partida, só agora cantava com voz fresca de barítono aquela melancólica canção de amor, muito conhecida de todo o coração apaixonado existente nos estados bárbaros: — "Chora, chora, coração quebrantado", trauteava plangentemente, à moda de seus patrícios, candidamente esquecidiço de que tais palavras dificilmente se lhe poderiam aplicar, a ele que, longe de ser um desanimado, requeria de sua alimária o máximo que lhe poderiam dar suas patas para que o levassem aos pés de um ente amado.

Logo depois, a discrição o abandonou e a doce canção lhe morreu nos lábios ao avistar a raiz do monte, que assinalava o fim da viagem.

Havia no labirinto daqueles outeiros alguém que o esperava, o tipo delgado, virginal, de seus sonhos. Mas estava aqui uma terra estranha e era nada mais que um forasteiro e, pois lhe cumpria portar-se com a maior prudência. Quem sabia que ouvidos, que não os dela, estavam atentos à sua chegada?

Forçando o cavalo para um caminho que circundava monte, trotou vagarosamente até chegar à face de pedra no lado sul.

Aparentemente inacessível, ali havia um estreito desfiladeiro cortado por antigo rio que há muito secara. Oblíqua, disfarçada por pedras, era difícil encontrar a boca da passagem, mas ele estava ali e não podia hesitar.

De resto, o grande cavalo negro também tinha memória boa, pois que havendo o cavaleiro apeado para tentar com ele atravessar a sombria passagem, recuou tremendo como assaltado de grande terror. Foi somente após longa e teimosa luta que o animal consentiu em avançar, os olhos desmesuradamente abertos espreitando lado a lado a cetinosa capa molhada de suor, estremecendo nervosamente enquanto o amo o dirigia e impelia com paciência que os árabes raramente revelam.

Embrenhando-se pelos penhascos, tropeçando seguidamente naquele terreno pedregoso, prosseguiram através dos intricados ziguezagues do leito do rio, até que uma curva abrupta lhes revelou um vale encoberto que se assemelhava a uma algibeira no coração dos montes. Aí os muros que rodeavam o vale eram menos espessos e no rigor do dia o sol penetraria para aquecer a raquítica mataria que, aderindo teimosamente à vida, a espaços crescia entre os rochedos.

Liberto alfim do terrificante desfiladeiro, os nervos do animal se acalmaram e amansou, enquanto o dono, acariciando-o com as mãos e a voz, o amarrou a uma tamareira e então com uma carícia de despedida o deixou.

Atravessando a pequena depressão a passo largo, o homem partiu em demanda da direção oposta do vaiado. Era caminho mau, onde as pedras eram escorregadias e o chão frequentemente se lhe sumia aos pés. Mas, como um gato em perfeitas condições físicas, ele subia firmemente, amparado pelo volumoso albornoz e pelas rijas botas.

Parou somente uma vez durante a caminhada, para melhor acomodar o pesado revólver oculto no cinto que lhe envolvia o abdômen. O contacto da arma lhe fez lembrar os homens que o esperavam onde os deixara. Sorriu à lembrança da relutância com que o haviam deixado partir sozinho, da inquietação que mostraram quando, no dia anterior, lhes falara de seus planos.

Sacudiu a cabeça com impaciência. Não lhes cabia discutir seus passos e fazer oposição a seus desejos, pensou desdenhosamente entreabrindo os lábios com ironia. Nunca antes o haviam contrariado. Em todas as estúrdias infantis e em todas as peripécias de sua precoce virilidade, sempre lhe tinham sido auxiliares voluntários, verdadeiros protetores. Como se explicar então a nova atitude que assumiam? O tempo, porém, não lhe sobrava agora para cuidar desse assunto, que relegava para quando novamente se lhes juntasse.

No momento, contentava-se somente em pensar nas coisas agradáveis que lhe povoavam a mente.

Seguindo os traços apagados de um velho trilho que serpenteava o escarpado declive, atingiu finalmente o cume do outeiro, onde havia um pequeno "plateau" e de pé, durante momentos, contemplou o local.

A sua esquerda, o terreno sumia pontiagudo, desviando-se para estreita garganta de que emergiam espinhaços de rocha.

Voltando-se para a direita, relanceava o deserto. Poucos passos o levariam a uma suave descida que se entranhava por vastos pedregais e que terminava na garganta que em direção ao norte dava acesso a montes como aqueles nos quais penetrara no sul.

Esperava encontrá-la no "plateau", mas aquele tabuleiro de terra se lhe apresentava vazio de vida.

Sacudiu novamente a cabeça impacientemente, no ardor de sua tempera por demais ardente. Quão distante ela o imaginaria, para responder à mensagem ambígua que lhe mandara? Tinha galopado furiosamente durante a noite e devia passar o dia à procura de uma moça que se havia rebaixado em olhar? Com o cenho carregado hesitou por momentos entre o desejo de seguir para diante e o de retroceder vencido pelo orgulho.

Sorriu grotescamente. Castigá-la seria castigar a si próprio e tendo vindo de tão longe, de maneira alguma poderia pensar em voltar sem vê-la.

Arremessando para trás o albornoz, para dar liberdade aos braços, procurou vencer a subida do caminho, com a mão no gatilho do revólver que trazia ao cinto.

Livre do "plateau", o trilho se tornava mais e mais invisível, porque os pedregais existentes de cada lado pouco permitiam a visão de sua direção.

Com os sentidos firmemente alerta, ele vadeou rápida e silenciosamente as anfractuosidades e prosseguia através do vale, quando um ruído inesperado o fez deter-se instantaneamente, com os ouvidos atentos.

Era um som metálico que ecoava dentre as rochas à direita. Voltou-se para a direção de onde surgia aquele ruído e procurou segui-la palmilhando os pedregais mansamente e assim chegou a um pequeno recesso semicircular, existente entre as paredes do rochedo. Do lado oposto, no rasgão da face penhascosa, distendia-se-lhe uma vista aberta do deserto, como se fosse a janela escancarada de um edifício em ruína.

Oculta naquele desvão natural, estava ela sentada, delgado esgalho de uma moça que mal parecia haver saído da infância.

Vestida com um saiote debruado e uma curta jaqueta, uma capa lhe envolvendo o busto e uma touca a cobrir-lhe a pequena cabeça, ela caminhava inconscientemente, prendendo um "guesbo" nos lábios.

Desatenta a tudo que a cercava, toda a atenção se fixava numa cesta de que emergia uma grande serpente. Coleante, a fazer artifícios com a cabeça, o réptil respondia, fascinado, ao ritmo dolente de uma terna melodia que a moça arrancava de uma pequena flauta árabe.

Por instantes o jovem ficou contemplando as evoluções do réptil e o busto flexível da juvenil musicista. Falou então: — "Salamalek".

A saudação fora dita em voz grave.

Com um irado assobio, a cobra subiu rapidamente à borda da cesta e sumiu entre os rochedos, enquanto a moça pulava para perto do recém-chegado e o encarava com grandes olhos espantados.

Na atitude de um animal selvagem em fuga, ela parecia meio alegre e meio aborrecida com a chegada dele e como se lhe aproximasse, voltou-se-lhe com um pequeno gesto petulante.

— Demorou muito — murmurou em tom de reprovação.

— Mas vim — respondeu docemente. Decididamente, aquela saudação não era a que ele esperava, chocando-lhe o temperamento apaixonado.

— Por que veio me esperar aqui, se mandei dizer que aguardasse no platô, de madrugada? — perguntou abruptamente.

Com feminina intuição percebeu ela que não lhe seria conveniente replicar dizendo a verdade, que a madrugada a encontrara tiritante de frio e medo no cume do monte, que a superstição popular assinalava como o habitáculo de duendes e o terror a havia impelido para os rochedos onde encontrara agasalho amigo.

Sacudiu a cabeça e dele se afastou um pouco.

— Aqui é mais seguro — murmurou com voz fugitiva, mas logo os olhos o procuravam apaixonadamente.

Lançando-lhe um olhar carrancudo como se sentisse um protesto da arrogância natural dos temperamentos juvenis, ele devorou seu olhar, em que havia um misto de respeito e de súplica, o que lhe fez sentir uma emoção suavizada a golpe do sofrimento que lhe sobreviera.

Suas mãos delgadas, trigueiras, agarravam-lhe os ombros. Era a primeira vez que a tocava e o coração pulsou furiosamente quando os dedos apertaram aqueles ombros femininos.

— Jasmim! Jasmim! — exclamou, colhendo-a nos braços.

Moço como era, sempre a tratara com amor e era assim que queria tratá-la esta manhã, mas os fatos lhe haviam transtornado esse desejo. Já agora, o íntimo contacto com o seu corpo esplêndido de mocidade nele despertava o conhecimento de alguma coisa mais profunda e estranha, diferente do que havia sentido até aqui.

Mais e mais apertava-a contra o peito, mas o plano que havia arquitetado durante toda a noite agora lhe parecia de todo impossível. Ele próprio não se compreendia e não tentava sequer dominar o impulso que o constringia. Só uma coisa havia para ele bem real: era o sentimento de um desgosto íntimo que lhe sobreviera. E lutando consigo mesmo enquanto a sentia estremecendo contra ele, o flexível corpinho a ele aderido naquele abraço, podia perceber o terror que lho perturbava os grandes e límpidos olhos.

Com um tremendo esforço, conseguiu controlar o desejo que quase o dominava.

— Por que teme tanto, minha tímida pequena, — murmurou. — Meu amor é tão mau que a perturbe tanto? É tão horrível o meu beijo?

E inclinando a cabeça rapidamente, pousou os seus nos lábios rubros da moça.

Era essa uma forma de carícia a que os árabes não estão habituados e ele não estava preparado para o grito agudo que ela soltou, nem para a histérica torrente de lágrimas que emanava de seus olhos.

— Alma da minha alma, eu a machuquei? — perguntou aflito.

Durante algum tempo, ela não pôde responder. Cedendo aos seus abraços, por fim ela o apertou também e encobriu o rosto com o albornoz, chorando como se o coração lhe estivesse ao ponto de rebentar. Vencido por alguma coisa que lhe fosse superior ao entendimento, ele esperou em silêncio a explicação de tudo aquilo. Por último ela levantou a cabeça e o encarou com timidez.

— Perdoe-me, senhor — ciciou num longo suspiro. — Não me machucou. É que antigamente quando eu era ainda criança e feliz, era assim que me beijavam.

Ele a encarou com um inquieto franzir de sobrolhos.

— Eles, quem? — perguntou com o acento de sua anterior arrogância.

A moça sacudiu a cabeça como se não quisesse ou não pudesse esclarecer-lhe esse ponto.

— Esqueci — respondeu evasivamente, com os olhos se desviando dele. Desvaneceu sua traiçoeira curiosidade, disposto a não continuar a tratar de um assunto que positivamente nada tinha que ver com a familiaridade que se fizera naquele momento. Não havia motivo para ciúmes em simples reminiscências da infância.

Com as mãos entrecruzadas, o jovem par subiu a uma saliência da rocha, onde ambos se sentaram, com o olhar divagando pelo deserto.

Longo tempo deixou ele de falar, a face descansada na palma da mão, os cotovelos apoiados aos joelhos, estudando-a como se a estivesse vendo pela primeira vez. A moça suportava aquele exame com a sua característica paciência, sentada calmamente ao lado dele, os macios dedos fechados em derredor dos joelhos apertados um ao outro, esperando resignadamente que o companheiro sentisse prazer em dirigir-lhe a palavra.

Era uma linda face pequenina a que ele contemplava, estranhamente simples e perfeita. Uma opulência de cabelos negros como a noite sombreava feições muito regulares e bem talhadas: nariz aquilino, a boca pequenina, de traços delicados, e olhos negros discretamente expressivos.

Seu rosto ainda parecia tomado de espanto até que moveu mansamente os olhos, as maças do rosto enrubescidas de calor.

Mãos trigueiras procuravam sutilmente o jovem.

— Agrado-lhe? — aventurou ela com ar desconfiado. Com um sorriso meio irônico e meio terno, ele lhe atraiu a cabeça e a encostou ao peito.

— Você não é tão má, — fez ele. Mas a luz que brilhava nos olhos negros a satisfez e alguns momentos ela permaneceu quieta, brincando com as borlas douradas do albornoz, com um sorriso lânguido ao relato fortemente fantasioso dos perigos da jornada noturna, com que agora ele a distraia. Mas a sua atenção era aparente, pois que os pensamentos lhe esvoaçavam pela cabeça, tanto que interrompeu a narrativa, encarando-o com firmeza.

— Mas, finalmente, quem é o senhor? Nunca me disse. Ignoro até seu nome.

Os lábios do jovem entreabriram-se num meio sorriso. — Sou aquele que a ama, ó filha da curiosidade!

Estimulada pela evasiva da resposta, ela persistiu: — Diga-me seu nome!

O sorriso fugiu dos lábios do jovem e seu rosto se tornou um pouco sério.

— Para quê? De que adianta saber meu nome? — resmungou. — É coisa insignificante, creia, para passar de boca em boca, para ser murmurado pelos cantos das casas e chegar ao mercado, onde todos começarão a dizer que isto e aquilo se passou deste modo?

— Que mercado existe aqui? — Replicou ela apontando para o deserto aberto— e eu, note bem, eu não ando cochichando pelos corredores das casas, — acrescentou ela com altiva dignidade. — É por mim, somente por mim, que desejo saber seu nome.

E como ele ainda hesitava, ela lançou-lhe os braços ao pescoço, baixando-lhe a cabeça, os olhos brilhantes, fazendo-lhe o ardoroso apelo que lhe bailava nos lábios vermelhos.

— Diga-me, — murmurou mansamente.

Ele não respondeu desde logo. Seus negros cílios apertavam-se-lhe carrancudos, a boca obstinadamente fechada, encarando-a profundamente, como se estivesse sondando a razão oculta de tamanha insistência. Então, com um leve sorriso a desviou um pouco, acendeu um cigarro e ainda a seguindo com os olhos através da fumaça, disse finalmente : — Chamo-me Ahmed.

Um olhar de medo sombreou o rosto da moça.

— Ahmed! — repetiu vagarosamente. — Ouvi falar num grande senhor que existe além das montanhas do sul, um príncipe da tribo de Ben Hassan, que tem esse nome. Será o senhor acaso esse príncipe?

Surpreso lançou-lhe ele um olhar perscrutador que disfarçava por detrás de indolentes olhos semicerrados e depois sorriu displicentemente.

— Quem sabe? — respondeu encolhendo os ombros. Durante algum tempo fumou em silêncio e inquiriu: — Por que pergunta? Que ouviu falar de Ahmed Ben Hassan?

Essas palavras ele as disse com indiferença aparente, derrubando a cinza do cigarro numa pedrinha que sobressaía da rocha.

Um leve tremor perpassou pelo corpo da moça que se arrastou para um pouco mais longe, espreitando nervosamente para um lado e outro, como se a assaltasse o temor de ser ouvida por qualquer testemunha invisível.

— Ouvi sempre dizer que Ahmed é um demônio — aventurou ela com receio, os grandes olhos presos de inquietação. — Não é um verdadeiro árabe, nascido de mulher, mas um vampiro que todos temem porque a sua força e poder estão acima de todos os mortais. Ele governa suas tribos com feitiços e encantamentos, galopa mais que a tempestade e seus olhos são rajadas semelhantes aos raios que riscam os céus em dias de tormenta. E, além disso, é imortal, pois já houve muita gente que tentou matá-lo e não pôde. É isso o que dele tenho ouvido e mais não posso dizer, — disse ela horrorizada, tremendo de terror supersticioso, procurando ler o rosto inescrutável do seu interlocutor. — O senhor está bem "certo" de não ter com ele qualquer parentesco? — inquiriu trêmula.

Ele sorriu mais uma vez e segurou-a firmemente nos braços.

— E se eu fosse, não mais me amaria?

Poucos e rápidos segundos ela hesitou, estremecendo. Depois um suspiro profundo lhe explodiu dos lábios.

— Não! Não! — exclamou, agarrando-o. — Homem ou demônio, eu o amo, como jamais amei.

A pequena capa que a envolvia caiu ao lado e o cheiro de seus cabelos negros era como um tóxico sutil que deles se exalasse. Ele se curvou para ela, triunfante e jubilosa no esplendor de sua beleza.

— Jasmim, meu amor, minha flor da alegria, jamais vi uma moça tão linda!...

Suas palavras mergulharam no silêncio e atraídos para um local um pouco mais adiante, sentaram-se os dois, contemplando os olhos um ao outro, perdidos no abismo de sua felicidade.

Mas através de sua rápida, tempestuosa explosão de amor, refreava ainda os lábios, não parecendo ter pressa de fazer revelações e elucidar o mistério que envolvia sua personalidade.

E como se, se contentasse somente com o conhecimento do seu amor, não fez ela mais nenhuma tentativa para penetrar-lhe o segredo.

Tão silenciosos estavam que os próprios passarinhos lhes ignoravam a presença e um brilhante lagarto verde correu da rocha e deles se aproximou com a máxima naturalidade.

Os causticantes raios do sol não lhes davam noção alguma da passagem do tempo e eles não davam acordo dos longos momentos que decorriam pesadamente. Ahmed estava esquecido dos seus homens, dos perigos que assoberbavam aqueles montes, esquecido de tudo que não fosse aquela moça sentada ao pé de si, com as mãos delgadas pousadas ao colo.

Absorto, seus ouvidos nada mais ouviam que a música de suas doces palavras, e seus olhos ardentes nada mais viam que o encanto daquele talhe delicado.

Foi ela, que, olhando para o que estava escondido por detrás dele, viu alguma coisa. Foi ela que soltou o grito agudo que o fez tropeçar aos seus pés quando uma bala foi disparada contra a rocha, seguida logo de uma segunda que lhe passou perto da cabeça. Sacando o revólver da cinta, ele empurrou a jovem para trás de si e procurou divisar os assaltantes.

Mas ao voltar-se, uma chama de fogo crepitava pela sua testa e ele cambaleou. A sua arma estava descarregada.

Viu, em rápido relance, três vultos altos, vestidos de branco, e o sangue lhe escorria do rosto. Cambaleou, dando um passo à frente e lançou-se por um buraco da rocha. Era um recôncavo muito aberto, onde o ombro direito bateu na ponta de uma pedra, quebrada ou deslocada, que ele procurou remover com os dentes, enquanto com a mão direita procurava a arma que cairá para trás. Atordoado pelo choque e sofrendo forte dor, levantou-se nos joelhos, quando uma nova pancada o atingiu na cabeça e o fez debater-se. Como algo que se parecia com o bramido do mar nos ouvidos, pareceu-lhe que caía vertiginosamente no negror de um abismo.

Com abundantes náuseas, lutou para voltar à vida tendo consciência a princípio somente de uma dor fortíssima na cabeça. Uma sede febril o atormentava.

Um mero sentimento de perigo, fê-lo tentar mover-se, mas o primeiro esforço o prostrou, com vertigens na cabeça, o corpo a suar horrivelmente.

Por momento ficou quieto, com os olhos cerrados, esforçando-se para recobrar o domínio de si mesmo e vencer uma como nuvem que parecia toldar-lhe o cérebro. Não tinha lembrança do que se passara e mesmo a sua vida lhe parecia um mistério de que somente uma coisa emergia clara e distinta.

Lembrava-se de seu nome. Era Ahmed Ben Hassan e alguém lhe havia dito que seu pai era um demônio.

Mas isso era uma estúpida crendice. Se fosse verdade, como poderia sua mãezinha, que conhecera bem e sabia ser de fato um anjo, ter casado com tal demônio? E, ainda, quem era essa "mãezinha" e quem era verdadeiramente Ahmed Ben Hassan?

Pensar era sofrer, mas mesmo sofrendo ele se via às voltas com problemas angustiosos que a cabeça pesada recusava resolver, até que percebeu que lhe era de todo impossível pensar e uma raiva desesperada dele se apoderou, deixando-o exausto.

Sobreveio-lhe o medo na forma aguda de verdadeiro terror, medo de si mesmo, medo da treva mental que o envolvia. Com um grito estrangulado recaiu na inconsciência.

Uma ou duas horas mais tarde, despertou na plena posse dos sentidos.

Sentindo dores por todo o corpo e devorado de sede, seu primeiro desejo foi beber água. Mas o local em que se encontrava era completamente seco. Mesmo, porém, que ali existisse água, compreendia que lhe seria impossível apanhá-la porque tinha feridos os pés, as mãos e os ombros, o que o tornava de todo desamparado, incapaz de qualquer movimento.

Seu rosto estava duro e embebido do sangue que gotejava da ferida que se fizera na testa, sentia um gosto salgado que experimentava quando alguma gota lhe atingia os lábios secos, fazendo-o reviver os acontecimentos que se haviam desenrolado pela manhã.

Soltou um gemido e durante algum tempo se debateu desesperadamente, sentindo no coração a morte. Logo, porém, compreendeu que qualquer esforço que fizesse seria malbaratar inutilmente o que lhe restava de energia e tratou de aquietar-se, o rosto ainda convulsionado. Não era em si que pensava. Poderia aguardar sua sorte com a estóica indiferença que nele era, em parte, uma herança e em parte o resultado de um longo treino nas experiências da vida. Viver ou morrer era coisa que no momento pouco lhe importava. Era a jovem que lhe enchia a mente. Era por ela que estava sofrendo muito. A que perigo a havia induzido sua loucura? Em que situação desesperada estava ela naquele momento, enquanto ele ali estava amarrado como um animal impotente para socorrê-la!

Jasmim! Jasmim! Anjo da minha alegria! Outra mão, mais rude e grosseira que a sua, seria a eleita para cultivar a tenra flor que ele pensara acarinhar no jardim do seu amor!

Louco, três vezes maldito, tinha sido!

Fora por sua causa que ela havia afrontado os horrores daqueles mal afamados montes. Fora sua tola arrogância que o fizera partir sozinho para encontrá-la, desprezando a escolta cuja vigilância teria evitado a catástrofe que havia sobrevindo tão súbita e tragicamente.

Em si confiara, mas ei-lo ali impotente, havendo falhado miseravelmente, quer como homem quer como amante. Olhara para ele a fim de que a protegesse e na cega confiança do seu egoísmo havia ele descuidado até os rudimentos daquela prudência que aprendera desde a infância. Confiado em si, tinha chegado a proporcionar-lhe tais emoções e pensamentos somente em seu amor fora apanhado, como um rato imprudente que cai numa ratoeira.

Remorso e vergonha dele se apoderavam e um temor mortal o fazia contorcer-se furiosamente até que o sangue borbotou da ferida da cabeça e ele caiu da posição em que estivera, meio sentado, contorcendo-se em atroz agonia mental, como se seu espírito torturado conjurasse mil quadros, mil possibilidades de um arremesso ao reino da loucura.

— Jasmim! — balbuciava com lábios trêmulos, — meu doce amor, Jasmim!

Até poucas horas ela lhe fora mera distração passageira, uma diversão que buscava até que perdesse o interesse e eis que agora não podia compreender a vida sem ela!

A filha de um mouro errante, um encantador de serpentes, o destino colocara em seu caminho, certa vez que viajava pelo norte longínquo do seu território. Acampando uma noite nas imediações de uma estreita vilota, fora matar uma hora de tédio num ridículo café onde lhe ministraram horrenda beberagem com o nome da esplêndida rubiácea que rotulava a casa, enquanto aguardava qualquer divertimento que, como exceção, lhe parecesse suficientemente suportável. Mas o espetáculo proporcionado pelo encantador de serpentes o interessou mais que de costume. O mouro, um disforme e taciturno, gigante possuidor de um rosto brutalmente sinistro, lhe havia inspirado nada mais do que aborrecimento. A filha que o acompanhava, essa, sim, era um novo tipo que lhe surgia da fantasia errante.

Embora não se ocultasse por um véu e pertencesse a uma classe que inspirava pouco respeito, ela nada tinha do estouvamento de sua espécie. Ao contrário, revestia-a uma dignidade natural, discreta, que constituía um verdadeiro contraste com a profissão.

Indiferente aos olhares curiosos que lhe lançavam daqui e dali, desempenhava o seu papel com estranho ar de despreocupação, os olhos brincando-lhe nas órbitas como se os pensamentos lhe voassem ao longe. E não se misturou aos frequentadores do café, mas retraiu-se para um canto junto aos músicos, onde se sentou, brincando com a grande serpente negra que ainda se conservava enroscada em seus ombros.

Contemplando-a, o interesse lhe ia crescendo.

Na baixa atmosfera de um café de última classe ela lhe parecera uma coisa à parte e o maravilhara com aquele ar elegante, de delicada frescura e com a pureza de suas feições infantis.

Intrigado, tratou de procurá-la no dia seguinte e ficou sabendo que ela deixara a aldeia pela madrugada, em companhia do pai.

O fracasso inflamara um interesse que de outro modo talvez morresse com a mesma facilidade com que nascera. Com o cérebro vazio sem nada mais que os caprichos de uma vaga fantasia, seguira-a pelo norte, conseguindo encontrá-la em furtivas entrevistas cuja última fora a desta manha.

Quem os surpreendera, desgarrara a jovem e o aprisionara, não havia meios de descobrir mesmo em sonho. Este trecho da região era infestado por bandidos e ladrões e certamente algum nele divisara uma presa rica que lhe propiciaria gordo resgate.

A ignomínia de sua posição, devida exclusivamente ao descuido, despedaçava-o. Mas o pensamento nesse fato empalidecia e se anulava ante o fato esmagador de que permanecia chumbado a impotência para socorrer aquela cuja vida lhe era muito mais preciosa do que a sua própria.

A lembrança do fato o atormentava. Às vezes, mergulhava em meia consciência quando lhe era possível esquecer a miséria mental que o acabrunhava. Mas a vida moça era forte nele e os momentos de repouso eram muito fugazes. Deveria levantar-se e andar, embora como um animal enjaulado, os olhos penetrantes errando incessantemente pelo quarto para que fosse conduzido, procurando ansiosamente alguma coisa que o ajudasse a sair dali.

Mas aquele pequeno e sujo apartamento estava totalmente desprovido de quaisquer utensílios sem sequer um prego perfurando-lhes as paredes limosas. Sujo pela ação de anos incontáveis, tinha a aparência de estar de há muito desalugado.

Pela luz que penetrava por estreita fresta existente na "parede" um pouco acima de sua cabeça, de onde ele jazia podia ver a porta baixa que dava acesso ao aposento. Construída de madeira maciça encimada de ferro, a sua solidez lhe emprestava fascinação a que ele não pôde resistir. Atraía-lhe a atenção de maneira que olhava aquilo tão fixamente, que os olhos lhe arderam e ele se achou mecanicamente contando as cabeças de prego que guarneciam sua superfície. Estaria eternamente fechada aquela porta?

O escoar lento das horas aumentava-lhe os desvarios e foi num desses momentos que finalmente chegou a suspirada interrupção daquela solidão.

Não ouvira o abrir da porta.

Uma pancada brutal num ombro dolorido despertou-lhe a consciência.

Rangendo os dentes para abafar o gemido que quase deixara escapar, enfrentou com penetrante desconfiança os seus raptores. À vista dele, o coração bateu-lhe violentamente. Dos três homens que ali estavam ao seu lado, reconheceu um e esse era justamente, o que menos poderia esperar encontrar. O mouro sorria perversamente, com aqueles olhos que eram porventura mais frios e cruéis do que os mais repulsivos répteis.

Foram, porém, os dois estrangeiros que primeiro falaram, dirigindo-lhe perguntas que, confuso e irado como se achava, mal compreendia. Embora vestidos como árabes e falando essa língua correntemente, a dureza gutural da sua voz, tanto quanto sua aparência geral, tornavam-lhes duvidosa a nacionalidade. Árabes bem vestidos e bem penteados não são raros, mas estes eram diferentes de qualquer que ele houvesse visto. De modos arrogantes, de falar duro, imperioso, parecia que queriam arrancar dele alguma confissão.

Não estava acostumado a ser tratado com carranca como se fosse qualquer irracional e seu temperamento ardente despertou ao ouvir as perguntas que lhe faziam, sobre seu nome, sua tribo e sobre a natureza dos negócios de que tratava naquele recanto do país sobre o mundo de homens que com ele viajavam, não contando as palavras com que o acumulavam, de acusações que ele não compreendia e nas quais a palavra "espião" surgia com irritante frequência.

Estivesse ali somente o mouro e compreenderia de qualquer modo o que dele queriam. Dos três, porém, era o mouro o que menos interessado parecia. Os dois estrangeiros é que manifestavam maior interesse.

Não compreendendo por que intervinham em sua liberdade, jurava a si mesmo que, se vivesse, haveriam de pagar-lhe a bom preço a ousadia.

Cheio de ira, mas votando-se ao silêncio, estudava-os com muda passividade.

Ambos eram robustos, com aspecto de atletas, um orçando por meia idade e o outro por uns trinta anos.

Quanto mais os fitava, mais perturbado ficava. A despeito de sua atitude senhorial, era evidente que qualquer inquietação os amedrontava. E embora agissem conjuntamente, era palpável que não estavam inteiramente de acordo uns com os outros, porque com muita frequência se interrogavam e discutiam demasiadamente numa linguagem desconhecida para o seu involuntário ouvinte, Foi numa dessas discussões que o mouro se meteu pela primeira vez.

Com uma imprecação de impaciência, arrancou uma faca da cinta e se chegou rapidamente ao prisioneiro.

— Mato-o e pronto! — grunhiu, com a faca levantada para descarregar sobre a vítima. Os outros, porém, o empurraram para trás.

— Não o matarás enquanto ele não falar, — gritou o mais velho, com um gesto autoritário.

— Não te disse esta manhã, seu cabeça de fogo? Até sabermos o muito que ele sabe, viverá.

Começou uma nova e interminável discussão, mas o ferido nada compreendia. Havendo-se-lhe clareado a cabeça por momentos, esta se enfraquecera devido ao esforço que fazia de maneira a logo fazer-lhe perder o sentimento da realidade. Tudo aquilo lhe parecia um pesadelo. As perguntas eram feitas agora com aspereza sinistra e por último, nova pancada brutal o despertou.

— Nada sei, viajo somente por prazer — balbuciou, aderindo ao obstinado orgulho que o fazia não declinar sua identidade. O filho de Ahmed Ben Hassan não podia se rebaixar usando o nome poderoso do pai.

Por misericórdia de Allah, só ele deveria estar preso, porque fora um mouro que o capturara e portanto Jasmim deveria estar salva. Com visível alívio, diminuiu o controle que mantinha sobre si e no meio das fantasias que lhe povoavam a mente, a voz dura de um dos estrangeiros lhe despertou os sentidos.

— Tragam a garota. Ela deve ter mais alguma coisa a dizer.

Ele ficou rígido, com ar de horror que traía uma suspeita terrível que lhe perturbava a mente. Vira o mouro sacudir a cabeça e ouvira a recusa que havia resmungado.

— Não! Ela cumpriu o seu papel: disse tudo o que sabia. Sua boca agora se fechará.

E então, como se uma verdade amarga o queimasse, não pôde evitar um grito: — Jasmim, Jasmim!

— Eis aí, Jasmim, Jasmim — ironizou o mouro. — Pensavas que ela te amava, louco que não soubeste aproveitar o que era teu! Viste a última de Jasmim: ela fez o que devia e te mostrou que não era tua, cão do deserto.

Sua voz parou subitamente, convertendo-se num murmúrio, enquanto os dedos magros tremiam e pairavam, como que famintos, sobre o rosto agoniado do cativo.

— Queres viver? Queres de novo apertá-la nos teus braços? Fala, então, porque caso contrário, farei de ti objeto de escárnio e fugirão de ti as próprias bestas do mato.

Tais palavras foram ditas pausadamnte, o rosto traindo o gozo infernal que lhe inundava o ser.

Vagarosa e persistentemente pôs-se a delinear os métodos diabólicos com que pretendia extorquir a informação desejada.

Ouvindo-o, pela primeira vez em sua vida, o filho do sheik conheceu o medo, um medo entorpecedor que lhe convertia o sangue das veias em gelo.

Compreendera que de qualquer forma havia levado o pescoço a uma forca de que não poderia libertar-se; que de qualquer maneira se achava envolvido numa trama de circunstâncias misteriosas, totalmente superiores à sua compreensão e que lhe ameaçavam a própria existência. Havia visto a incredulidade claramente escrita nos rostos dos três homens, quando procurara convencê-los da ignorância das coisas que se lhe imputavam; tinha ouvido o riso de zombaria que acolhera suas palavras e compreendeu que toda negativa era inútil, compreendendo, também, que a ameaça de tortura não era uma palavra vã, mas uma certeza que se concretizaria a não ser que um milagre se operasse para salvá-lo. O homem com quem tratava era um mouro e não um árabe e dos costumes dos mouros alguma coisa conhecia. Bagas de suor lhe inundavam a testa enquanto se dispunha a aguardar os acontecimentos, orando somente para que a força não o desamparasse e lhe permitisse defrontar qualquer tormento como filho digno de seu pai.

Ainda se somente o matassem!... A morte em mil vezes preferível à tortura e à mutilação. E a vida poderia ser-lhe coisa preciosa, a ele que naquele dia perdera o amor, a fé e a esperança que lhe enchiam o coração?

Arremessou de si tais pensamentos e congregou todas as forças de que podia dispor para suportar as provações que agora lhe pareciam inevitáveis.

Mas um clarão de esperança lhe sobreveio de modo inesperado.

Os dois estrangeiros, que se haviam retirado por momentos para um canto, chegaram de novo e o mais moço parecia querer impor um ponto que o outro relutava em acolher. Porque interrompendo a eloquência do companheiro, com o mesmo gesto breve de autoridade de que há pouco se servira, e voltando-se para o encantador de serpentes bateu-lhe docemente aos ombros.

— Torna-se tarde, amigo — disse baixinho — e há perigos que sabes poderem sobrevir à noite. Não há mais tempo para gozares este longo divertimento. Deixêmo-lo dormir nas coisas que lhe prometeste e pode ser que amanhã se resolva a falar para salvar a pele.

Um estrepitoso riso de prazer acompanhou essas palavras e durante um momento seus olhos pousaram no prisioneiro com um ar de afetada indiferença.

O tom da voz então se lhe transmudou: — Eia, homem! — disse com acento de comando. — Amanhã é também um dia.

Com relutância, o mouro se ergueu sobre os pés, a face lívida transtornada por fria maldade, as mãos crispando como que repugnando largar a presa.

— Um dia a alvorecer, pode ser demasiado tardio — replicou com raiva e encostou brutalmente o calcanhar no estômago do cativo.

Contorcendo-se de dor, o filho do sheik atingiu o limite do que podia suportar.

— Allah te devore! — murmurou desmaiando. Quando voltou a si estava sozinho e o pequeno quarto estava submerso em trevas.

A solidão e a escuridade, porém, lhe eram gratas. Não tinha mais necessidade de manter o aprumo de estóica indiferença que se esforçara por aparentar momentos antes. Sozinho, poderia vencer a angústia mental que naquele momento lhe varrera toda a sensação de sofrimento físico, assim como o mistério que o envolvia e o perigo que ainda o ameaçava.

Jasmim, a quem amava, e amava com amor que sabia impossível igual, Jasmim que ele poupara, em razão desse amor, Jasmim o trairá.

Sua alma passou então por uma agonia que lhe parecia maior do que poderia suportar.

Enfraquecido pela perda de sangue e pela necessidade de comer, torturado pelo conhecimento da traição de sua amada, ele se sentia completamente vencido e, virando o rosto para a parede, chorou como uma criança, todo o corpo a tremer-lhe ante as lágrimas que lhe marejavam os olhos e que ele nem sequer tentava conter... Chegara-lhe a hora da fraqueza.

Exaurido física e mentalmente, mas senhor de si, aquietou-se, perscrutando as trevas com olhos esgazeados, ao passo que um grande amor aos poucos se convertia num grande ódio.

Doze horas antes havia ele compreendido o que significa o amor verdadeiro. E naquele momento recuperava a virilidade, tendo adquirido uma nova compreensão das coisas, uma nova ternura que sua natureza ardente dantes não conhecia.

Mas o amor morrera na brutalidade da traição e com essa morte desvaneciam-se-lhe a fé e a confiança. Desiludido e amargurado pela experiência terrível por que passara, a nova ternura que lhe surgira se evaporava como nunca houvesse existido.

Somente nele permanecia a selvageria primitiva, impondo-se como se fosse a única coisa que lhe restasse.

Seu rosto jovem se endureceu e ritus cruéis se lhe espessaram pela boca, mostrando que unicamente sentimentos de vingança exerceria, se vivesse. E, por Allah viveria sim, para exigir total pagamento daqueles que o haviam injuriado! Tal qual agora sofria, tinham eles de sofrer. E ela também!

Nem o sexo, nem a lembrança do amor que lhe dedicara salvá-la-iam. Amor?

Zombou de si mesmo em íntimo sarcasmo. Tinha procedido com amor! Jamais pouparia uma mulher que assim o condenava à horrível humilhação que agora o estava acabrunhando.

Louco e tolo tinha sido! Enganara-o uma moça que havia feito o que lhe era próprio, que tinha desempenhado o seu papel com a firmeza de uma atriz consumada!

Desde a primeira vez certamente o havia enganado. Confiante na atração de seus raros encantos, ela arquitetara seus planos com irresistível astúcia, iludindo-o com uma falsa timidez, e embrulhando-o com arranjada modéstia, até enredá-lo sutilmente nas suas tramas sinistras e finalmente havia jogado com a castidade de que se jactava, porque adivinhara o que lhe ia pela mente quando o encontrara naquela manhã fatal. Não poderia esperar, portanto, que ainda a poupasse. Para assegurar-se a vitória, não havia ela vacilado mesmo em correr esse risco!

E a trama de mentiras que seus lábios infantis engendravam!

Rendida em seus braços, arrancando-lhe beijos, tinha ela tramado uma centena de romances para mantê-lo a seu lado, dando tempo a que seus cúmplices chegassem.

Lembrava-se de suas insistentes perguntas a seu respeito, lembrava-se de uma dezena de incidentes aparentemente insignificantes, que agora serviam para prova de sua duplicidade. E durante tudo isso ela se rira dele, zombando do ardor de sua mocidade, escarnecendo dele como de um louco cego!

Ódio e orgulho ferido dominavam seu ser enquanto sorvia, gota a gota, o cálice de amargura. Amaldiçoando-se a si e a ela, enveredou os pensamentos por outra via.

A jovem não teria sido somente um instrumento dos infames que haviam urdido a armadilha em que tão facilmente caíra? Qual seria o motivo verdadeiro de sua captura? Sabia que penetrara em região mal afamada, onde a ilegalidade campeava com a desenvoltura permitida por um governo que não encontrava jeito de impor sua autoridade, que de resto ali era apenas nominal.

Sabia também que há muitos meses corriam rumores de desacordo entre as tribos ali existentes. Mas, que tinha ele com isso? Jamais servira de mediador nas contendas que surgiam entre as tribos. Absorvido pelos prazeres e divertimentos, nunca lhe passava pela cabeça a ideia de administrar o poderoso "clã" que seu pai governava com vara de ferro. Como, pois, se envolvera em enredo tão misterioso? De todo impossível se lhe afigurava resolver esse problema.

E, de resto, o motivo da captura não era tão importante como a necessidade de salvar-se da situação em que se achava.

Mas, ligado e impotente como estava, como poderia fugir? Amarrado de pés e mãos a cordas sólidas, ali jazia como um cão incapaz de dar um passo.

Sem se alimentar durante vinte e quatro horas, abrasado de sede, admirava-se por que não o vencia uma inconsciência completa. Já achava dificuldade em concentrar seus pensamentos.

Incidentes completamente destituídos de importância e divagações desconexas, fantásticas, povoavam-lhe o cérebro. Por vezes parecia que não estava só: figuras sombrias se acotovelavam perto dele, assobiando para as trevas, uma procissão de duendes que iam e vinham confusamente. E de vez em quando ele se voltava com uma praga ciciada, um suor frio percorrendo-lhe a espinha, quando de novo como se viu a face má do mouro curvar-se perto dele e mais uma vez ouviu suas sinistras ameaças, claras como se fossem faladas.

Ante a frequência da visão, amaldiçoava-se como covarde, tentando afugentar as loucas fantasias que lhe enchiam a cabeça. Forçou a mente para dizer-lhe quanto tempo ali jazeria?

Quanto faltava para amanhecer?

Fugitivo clarão da lua, filtrando-se pela janela, advertiu-o de que o tempo estava correndo e que antes de passarem muitas horas, ele teria de defrontar com uma realidade que a sua imaginação não poderia sequer entrever.

Rangeu os dentes e expeliu para longe as ideias.

Por bem ou por mal, estava nas mãos de Allah e a manhã não havia ainda chegado.

Rendendo-se por último ao cansaço, não mais procurou combater a sonolência que o vencia, mas ficou quieto, vendo as sombras desaparecerem do quarto, à intensificação da luz do luar.

Estava quase adormecido quando um som muito brando se fez ouvir na completa quietude do quarto, despertando-o subitamente.

Pôs-se à escuta, a princípio negligentemente e depois com crescente interesse. As batidas redobravam, parecendo-lhe de estranhar que as não tivesse ouvido antes.

O som continuava a chamar-lhe a atenção e ao aplicar os ouvidos para percebê-lo, um tremor percorreu-lhe o corpo e o coração bateu sufocado.

Aquelas batidas eram singularmente persistentes e soavam com monótona regularidade. Quase inconscientemente pôs-se a contar os segundos que decorriam de cada pancada.

— "Cinco - sete". "Cinco - sete".

Ramadan e S'rir, por Allah! Serviam-se de um código que há muitos anos arranjara numa febre de excitações para se unir a rapaziada árabe, em suas estúrdias noturnas. Ramadan e S'rir, como poderia tê-los esquecido?

Nova esperança inundou-lhe o ser e seus olhos cansados flamejaram enquanto se esforçava por corresponder ao sinal. Mas a sua língua estava seca e som algum podia ser emitido por seus lábios ressequidos.

Uma espécie de frenesi dele se apoderou à compreensão das consequências que lhe poderiam advir do silêncio.

Estava convencido de que seus homens ali estavam. Não deveria ficar sem correspondência a sua nobre dedicação. Poderiam dali se afastar somente por falta de resposta que lhe cumpria dar? Perder-se-ia essa perspectiva de salvação?

Se lhe fosse possível ao menos fazer qualquer movimento que pudesse ser percebido do outro lado daquela espessa parede!

Mas incapaz de falar, incapaz de se mexer, sabia que cada momento que passava era a probabilidade de salvação que mais e mais se desvanecia.

A esperança já quase cedia ao desespero, quando de repente uma sombra tênue levantou o trinco da janela, onde seus olhos se haviam fixado.

Os segundos pareciam-lhe horas enquanto esperava, sacudindo a cabeça com apreensão, esforçando-se penosamente para respirar, quando os rudes ferrolhos da janela cederam, vencidos por duas mãos poderosas.

Um por um foram sendo removidos calmamente e uma abertura se foi clareando até permitir a passagem do corpo de um homem.

Certamente, era Ramadan, cuja força era proverbial.

Houve o intervalo de um momento, um desconcertante lapso de tempo que produziu na mente atribulada do prisioneiro a sensação de mil temores, quando uma figura, mais delgada e ágil que a de Ramadan, penetrou pela abertura como um gato que pelo chão desliza sem fazer o menor barulho.

No momento que se seguiu, S'rir se curvava sobre ele com enorme faca na mão.

— No céu ou no inferno, senhor disse alegremente, e cortou as cordas que o atavam.

O vento da madrugada soprava rijamente no deserto.

Três cavaleiros, envolvidos em albornozes rigorosamente fechados, as costas voltadas às correntes atmosféricas, trotavam pela obscuridade; procurando passagem pelo chão pedregoso ali existente e que se ocultava manhosamente debaixo de espessa camada de areia movediça, tendo aqui e ali sinais de patas de cavalo, e que constituíam verdadeiras armadilhas para os incautos e suas cavalgaduras.

Não havia caminho, permitindo passagem na treva.

A despeito, porém, da sofreguidão dos animais, que mordiam nervosamente os freios e respiravam ruidosamente, o que traía sua inquietação e apesar do cansaço que se estampava ainda no rosto de dois membros da comitiva, esta se pôs decididamente em marcha.

O chefe do grupo, embuçado em um negro albornoz, cujas extremidades pendiam de cada lado do arreio e que pareciam emergir imperceptivelmente da lustrosa negrura do cavalo, era quase invisível na escuridão, enquanto seus companheiros, que o seguiam a poucos passos, semelhavam dois esguios espectros.

Milha por milha avançavam eles, dando aos animais plena liberdade na escolha do caminho pelo perigoso trilho, confiando mais, evidentemente, no instinto das cavalgaduras do que nas sugestões de suas próprias cabeças.

Subitamente cessou o vento, e se fez um silêncio tão profundo que o mais imperceptível ruído podia ser facilmente ouvido. Era como se a terra, sustentada no vácuo, estivesse esperando, arquejante, o advento da manhã.

Somente o incessante bulício da areia e o ruído surdo das pedras ao contacto das ferraduras quebravam o silêncio.

Mas a calma passou e o vento se pôs de novo a soprar, agora mais frio.

Os dois árabes que fechavam a comitiva apertaram, entre pragas e imprecações, mais os albornozes e se abaixaram nos arreios. O chefe, entretanto, mostrava-se indiferente tanto ao rigor da temperatura, como aos murmúrios dos seus camaradas; a cabeça ereta, insensível aos grãos de areia que lhe açoitavam o rosto, parecia esquecido dos circunstantes imerso em profunda cisma.

De resto, os pensamentos lhe deveriam ser amenos, pois que se pôs a trautear entre os dentes uma pequena e alegre canção francesa. O cântico era muito baixinho, o que não impedia, contudo, que as notas atingissem, a poucos passos, o ouvido atento dos dois homens que o seguiam. Um deles puxou as rédeas do cavalo e tocou-lhe levemente nos ombros.

— Allah — murmurou — está cantando!

— É bom ser-se moço e amar, — fez o outro sentenciosamente.

Nestas palavras não se podia vislumbrar o menor toque de ironia, pois eram repassadas de doce simpatia tanto mais que eram proferidas por quem tinha poucos anos mais que o cantor.

A obscuridade do ambiente cada vez se tornava mais densa. Pouco a pouco, porém, o negrume da noite cedia aos clarões da manhã de um novo dia. A estrela matutina começava já a espargir sua luz ainda indecisa, como se a timidez a fizesse receosa de sua força, mas gradualmente se fortalecia, expondo à vista a total desolação do cenário na fria apoteose da madrugada.

Áspero deserto esparramava-se na sua solitária grandeza, — um oceano de areia entrecortado de pequenos outeiros pedregosos, que corriam em cadeias diagonais de norte a sul. Na meia luz, aqueles montículos assumiam proporções fantásticas.

O dia clareava. No firmamento as estrelas empalideciam e umas a uma iam morrendo. Depois, no horizonte longínquo, um traço rubro de luz explodiu, cresceu e se adensou até se tornar semelhante a uma chama de fogo que esbraseasse o céu. Era uma orgia de cores. Do seu leito carmesim o sol surgia como imensa bola de ouro. Com a sua vida, cessou o vento matinal.

Os árabes puxaram as rédeas e apearam. A oração matutina que os dois camaradas resmungaram foi apressada e curta. Enquanto o guia, conquanto não se ajoelhasse se limitava a apoiar a cabeça no cavalo negro em que viajava que, por sua vez, acariciava com o focinho o peito do dono, traduzindo dessa maneira rude o afeto que lhe dedicava.

Cinco minutos depois estavam todos novamente eretos na sela, galgando a primeira orla de outeiros, os cavalos a galopar corajosamente, na ânsia de vencer distâncias.

Na luz matinal, o deserto assumia um aspecto menos desagradável: misterioso ainda e algo amedrontador; em razão da sua vastidão desolada respirava, entretanto uma estranha atmosfera de quietude, em curioso contraste com a sua aparência selvagem.

Para os três homens que lhe devoravam a movediça superfície, era o deserto um livro aberto. Desde a mais tenra infância se haviam identificado com ele, de maneira que o conheciam bem através das múltiplas fases de suas súbitas transições, toda a sua calma sorridente e suas subitâneas fúrias tempestuosas. Nenhuma de suas feições lhes escapava, seja quanto aos elementos, seja quanto ao ponto de vista do homem.

O conhecimento que tinham era filho da experiência. Naturais de uma região onde os perigos ocultos se atocaiam perfeitamente tomavam certas precauções, mas nunca mostravam qualquer inquietação, aceitando o inevitável com a indiferença fatalista que é a herança daquela raça.

Soberbamente montados e bem armados, pareciam preparados para todas as contingências e se desinteressavam das consequências que porventura lhes pudessem advir. Aliás, no momento não se lhes divisava motivo algum para apreensões. Tanto quanto os olhos lhes permitiam crer, o deserto estava vazio.

Um terreno ermo, evitado pelas caravanas e onde as pegadas dos nômades não eram frequentes nem recentes, por não existir ali água nem vegetação que em poucas semanas ao menos pudesse rebentar do solo árido, rareava naquele ponto do deserto. Plana e desfigurada, esta parte da região não apresentava nenhum local em que um inimigo pudesse ocultar-se com vantagem, posto ali existissem desfiladeiros onde um corpo de exército pudesse facilmente entrincheirar-se. Mas o temor de uma emboscada, se existia, não parecia perturbar nenhum dos três cavaleiros.

A paz lhes inundava o ser enquanto se aproximavam do termo da jornada. Os cavalos, altos e imponentes, alimentados de modo a poderem vencer impavidamente as peripécias da viagem, correspondiam galhardamente aos esforços que deles eram exigidos. Tesos um atrás do outro, corriam o deserto como se fossem insensíveis à fadiga.

E os árabes, como centauros, cavalgavam-nos magnificamente. Imóveis em suas selas, com as dobras dos albornozes ondulando-lhes ao derredor do corpo, os rifles de prontidão nos joelhos, pareciam tão incansáveis e orgulhosos como os animosos animais que montavam.

Na ilusória atmosfera os vales pareciam mais altos e distantes do que realmente eram, mas havia momentos em que surgiam mais próximos e de proporções atenuadas.

Os dois camaradas se colocaram ombro a ombro com o chefe: era o primeiro vale que se atingia, com alegria também das cavalgaduras, que se detiveram subitamente à base de uma rocha alcantilada que ali surgia abrupta e ponteada.

O chefe apeou e voltando o cavalo para um dos camaradas, fixou a vista durante momentos para a direção percorrida. Aparentando vinte anos de idade, alto e delgado, ombros largos que prenunciavam maior desenvolvimento, sua aparência tinha muito de arrogante e solene. O rosto agradável, magro e bronzeado pelo sol, limpo e escanhoado, disfarçava uma barba firme e obstinada. A boca era apertada, denotando um caráter um tanto cruel. Sobrancelhas negras e carregadas lhe davam um ar carrancudo, sombreando-lhe dois olhos azulados que no momento se mostravam sombrios, pensativos.

Expressões várias lhe transmudavam a fisionomia. Os olhos estavam cravados na vastidão do deserto. Nada de concreto lhe objetivava a mente.

Dava a ideia de que em sua cabeça se travava um conflito entre uma dúvida e uma indecisão, que finalizava por uma decisão muito firme.

Encolhendo os ombros, como a disfarçar uma lembrança desagradável, repuxou o pesado Albornoz e dançando nos calcanhares, foi juntar-se aos seus homens que o aguardavam com ansiedade, entretendo-se em amistosa palestra sobre frioleiras.

Dos camaradas, um era alto e imponente como o seu chefe e o outro mais baixo e pesado, mas uma inconfundível similaridade de aspectos e de expressão mostrava que ambos eram irmãos.

Os dois se retiraram à chegada do chefe e o mais baixo deles lhe ofereceu tâmaras de uma sacola presa aos arreios. O moço recusou a oferta.

Jogou-se à areia e encostando os ombros numa pedra, tirou do bolso uma cigarreira de ouro e pegou um cigarro.

Quase meia hora ele ficou fumando, guardando um silêncio que os demais julgaram prudente não quebrar. Mas os olhos dos camaradas denunciavam a inquietação íntima que lhes sombreava a mente, exprimindo o constrangimento que assaltava cada um deles a seu modo. O mais velho imóvel, carrancudo como o seu chefe, enquanto o outro denotava desassossego, brincando com pedrinhas que havia guardado e lançando para as rochas um olhar de interrogação, como se temesse que lhe interrompessem a quietude.

Por último o jovem chefe se levantou e fez um sinal pedindo seu cavalo.

Mas o gesto que lhe acompanhou, a ordem paralisou-se-lhe quando viu os homens voltarem também, puxando os próprios animais.

Fez um gesto de desaprovação.

— Esses animais não eram necessários. Vou só — disse com acento peremptório, galgando os estribos que o mais velho segurava.

— Esperará aqui, Ramadan, está entendido! Você também, S'rir — ordenou ao mais moço que já quase havia subido aos arreios.

A isso se seguiu uma tempestade de protestos, um dueto de explosões de raiva que exprimiam franca revolta contra a ordem dada. Nada, porém, demoveu o chefe da decisão enunciada. Montado e sofreando com dificuldade o animal impaciente, parou perto dos camaradas excitado, rebelde e visivelmente incomodado, perdeu a paciência.

— Calem-se! — gritou furibundo. — Quem aqui dá ordens sou eu ou são vocês? Ouviram ou preciso repetir: "vou sozinho! Vou sozinho!"

Ramadan levantou a mão do estribo que ainda segurava.

— Iremos também — obtemperou.

— E por que motivo?

Os olhos do homem nadavam-lhes nas órbitas, mas ele não se deu por achado.

— Um perigo o ameaça — resmungou com relutância, como se as palavras lhe escapassem da língua.

Durante segundos, os olhos do chefe relampejaram. Mas como o vendaval que passa, a ira se lhe transmudou num sorriso quase infantil.

— Perigo, meu tímido rapaz, onde? Perigo de que resguardar-me, Ramadan?

— Velo pela sua e não pela minha segurança, senhor, — respondeu Ramadan com calor.

— Minha segurança ou sua é tudo tolice. Bem, Ramadan, basta! Vou sozinho. Espere-me voltar.

— E se não voltar?

O chefe chegou às esporas ao cavalo, fazendo-o erguer-se perpendicularmente.

— Se não voltar, — gritou zombeteiramente, — procure-me no céu ou no inferno, pois que num ou noutro lugar você entrará à minha procura.

Com um adeus com a mão partiu no meio duma nuvem de pó e areia.

Os dois irmãos o contemplaram até que uma saliência das rochas o furtou às suas vistas. Entreolharam-se e enquanto o mais velho soltava pragas e maldições, o mais moço sorria enigmaticamente.

— Se algum mal lhe suceder que será dele? — interrogou Ramadan subitamente.

O sorriso de S'rir se fez um trejeito em que não havia a mínima alegria e com um gesto muito significativo: — Diga antes, que será de nós, — respondeu de modo sugestivo.

Daí a pouco, porém, encolheu os ombros com real ou fingida indiferença, voltando os olhos em direção ao sol.

— Três horas, de acordo com o que ele nos disse na última noite — observou com a maior calma.

— Seja! Três horas o esperaremos, mas, meu irmão, se em três horas não voltar, teremos de ir vê-lo no céu ou no inferno. Enquanto isso vou dormir.

Com um leve sorriso, puxou as dobras do Albornoz, com que cobriu a cabeça, e deitou na areia, deixando seu menos filosófico irmão às voltas com um sentimento de responsabilidade que, carregado sem peso durante alguns anos, ultimamente se tornara ameaçador para a paz do seu espírito.

Além, nas dobras das rochas que o ocultavam de seus aflitos companheiros, o ousado cavaleiro corria no seu grande corcel negro sem que a menor inquietação lhe anuviasse a fisionomia. Esquecido da insistência de seus homens, na inconsciência da sua rígida têmpera, só se lembrava de sua mocidade, da sua força e dos prazeres que o esperavam e assim demandava rédeas soltas, a segunda raiz dos alcantis, que, como a precedente, se projetava adiante por uma ou duas milhas de areia.

Nos dois braços de rocha havia um anfiteatro natural, semelhando a uma grande ferradura: dois dos lados se apertavam na curva dos montes e o terceiro dava para um deserto aberto. Avermelhada pelo sol da manhã, a massa dentada da rocha erguia-se altaneira, de pé, num relevo apertado que desafiava o azul claro do céu sem nuvens, projetando sombra para a areia que, na base, o vento agitava.

O local era um cenário de grandeza e amenidade quase sem paralelo, mas o pensativo cavaleiro não tinha olhos para extasiar-se na selvagem majestade do espetáculo. Lançando olhares à direita e à esquerda, montado com o habitual aprumo dos árabes, não lhe sobrava outra preocupação que o objetivo da jornada.

Desfrutando irreprimida liberdade, que era sua máxima aspiração a fim de desembaraçar-se de sentimentos que o acompanhavam desde a infância, seu rosto se iluminou e seus olhos pensativos brilharam com ardor.

Desde a sua partida, só agora cantava com voz fresca de barítono aquela melancólica canção de amor, muito conhecida de todo o coração apaixonado existente nos estados bárbaros: — "Chora, chora, coração quebrantado", trauteava plangentemente, à moda de seus patrícios, candidamente esquecidiço de que tais palavras dificilmente se lhe poderiam aplicar, a ele que, longe de ser um desanimado, requeria de sua alimária o máximo que lhe poderiam dar suas patas para que o levassem aos pés de um ente amado.

Logo depois, a discrição o abandonou e a doce canção lhe morreu nos lábios ao avistar a raiz do monte, que assinalava o fim da viagem.

Havia no labirinto daqueles outeiros alguém que o esperava, o tipo delgado, virginal, de seus sonhos. Mas estava aqui uma terra estranha e era nada mais que um forasteiro e, pois lhe cumpria portar-se com a maior prudência. Quem sabia que ouvidos, que não os dela, estavam atentos à sua chegada?

Forçando o cavalo para um caminho que circundava monte, trotou vagarosamente até chegar à face de pedra no lado sul.

Aparentemente inacessível, ali havia um estreito desfiladeiro cortado por antigo rio que há muito secara. Oblíqua, disfarçada por pedras, era difícil encontrar a boca da passagem, mas ele estava ali e não podia hesitar.

De resto, o grande cavalo negro também tinha memória boa, pois que havendo o cavaleiro apeado para tentar com ele atravessar a sombria passagem, recuou tremendo como assaltado de grande terror. Foi somente após longa e teimosa luta que o animal consentiu em avançar, os olhos desmesuradamente abertos espreitando lado a lado a cetinosa capa molhada de suor, estremecendo nervosamente enquanto o amo o dirigia e impelia com paciência que os árabes raramente revelam.

Embrenhando-se pelos penhascos, tropeçando seguidamente naquele terreno pedregoso, prosseguiram através dos intricados ziguezagues do leito do rio, até que uma curva abrupta lhes revelou um vale encoberto que se assemelhava a uma algibeira no coração dos montes. Aí os muros que rodeavam o vale eram menos espessos e no rigor do dia o sol penetraria para aquecer a raquítica mataria que, aderindo teimosamente à vida, a espaços crescia entre os rochedos.

Liberto alfim do terrificante desfiladeiro, os nervos do animal se acalmaram e amansou, enquanto o dono, acariciando-o com as mãos e a voz, o amarrou a uma tamareira e então com uma carícia de despedida o deixou.

Atravessando a pequena depressão a passo largo, o homem partiu em demanda da direção oposta do vaiado. Era caminho mau, onde as pedras eram escorregadias e o chão frequentemente se lhe sumia aos pés. Mas, como um gato em perfeitas condições físicas, ele subia firmemente, amparado pelo volumoso albornoz e pelas rijas botas.

Parou somente uma vez durante a caminhada, para melhor acomodar o pesado revólver oculto no cinto que lhe envolvia o abdômen. O contacto da arma lhe fez lembrar os homens que o esperavam onde os deixara. Sorriu à lembrança da relutância com que o haviam deixado partir sozinho, da inquietação que mostraram quando, no dia anterior, lhes falara de seus planos.

Sacudiu a cabeça com impaciência. Não lhes cabia discutir seus passos e fazer oposição a seus desejos, pensou desdenhosamente entreabrindo os lábios com ironia. Nunca antes o haviam contrariado. Em todas as estúrdias infantis e em todas as peripécias de sua precoce virilidade, sempre lhe tinham sido auxiliares voluntários, verdadeiros protetores. Como se explicar então a nova atitude que assumiam? O tempo, porém, não lhe sobrava agora para cuidar desse assunto, que relegava para quando novamente se lhes juntasse.

No momento, contentava-se somente em pensar nas coisas agradáveis que lhe povoavam a mente.

Seguindo os traços apagados de um velho trilho que serpenteava o escarpado declive, atingiu finalmente o cume do outeiro, onde havia um pequeno "plateau" e de pé, durante momentos, contemplou o local.

A sua esquerda, o terreno sumia pontiagudo, desviando-se para estreita garganta de que emergiam espinhaços de rocha.

Voltando-se para a direita, relanceava o deserto. Poucos passos o levariam a uma suave descida que se entranhava por vastos pedregais e que terminava na garganta que em direção ao norte dava acesso a montes como aqueles nos quais penetrara no sul.

Esperava encontrá-la no "plateau", mas aquele tabuleiro de terra se lhe apresentava vazio de vida.

Sacudiu novamente a cabeça impacientemente, no ardor de sua tempera por demais ardente. Quão distante ela o imaginaria, para responder à mensagem ambígua que lhe mandara? Tinha galopado furiosamente durante a noite e devia passar o dia à procura de uma moça que se havia rebaixado em olhar? Com o cenho carregado hesitou por momentos entre o desejo de seguir para diante e o de retroceder vencido pelo orgulho.

Sorriu grotescamente. Castigá-la seria castigar a si próprio e tendo vindo de tão longe, de maneira alguma poderia pensar em voltar sem vê-la.

Arremessando para trás o albornoz, para dar liberdade aos braços, procurou vencer a subida do caminho, com a mão no gatilho do revólver que trazia ao cinto.

Livre do "plateau", o trilho se tornava mais e mais invisível, porque os pedregais existentes de cada lado pouco permitiam a visão de sua direção.

Com os sentidos firmemente alerta, ele vadeou rápida e silenciosamente as anfractuosidades e prosseguia através do vale, quando um ruído inesperado o fez deter-se instantaneamente, com os ouvidos atentos.

Era um som metálico que ecoava dentre as rochas à direita. Voltou-se para a direção de onde surgia aquele ruído e procurou segui-la palmilhando os pedregais mansamente e assim chegou a um pequeno recesso semicircular, existente entre as paredes do rochedo. Do lado oposto, no rasgão da face penhascosa, distendia-se-lhe uma vista aberta do deserto, como se fosse a janela escancarada de um edifício em ruína.

Oculta naquele desvão natural, estava ela sentada, delgado esgalho de uma moça que mal parecia haver saído da infância.

Vestida com um saiote debruado e uma curta jaqueta, uma capa lhe envolvendo o busto e uma touca a cobrir-lhe a pequena cabeça, ela caminhava inconscientemente, prendendo um "guesbo" nos lábios.

Desatenta a tudo que a cercava, toda a atenção se fixava numa cesta de que emergia uma grande serpente. Coleante, a fazer artifícios com a cabeça, o réptil respondia, fascinado, ao ritmo dolente de uma terna melodia que a moça arrancava de uma pequena flauta árabe.

Por instantes o jovem ficou contemplando as evoluções do réptil e o busto flexível da juvenil musicista. Falou então: — "Salamalek".

A saudação fora dita em voz grave.

Com um irado assobio, a cobra subiu rapidamente à borda da cesta e sumiu entre os rochedos, enquanto a moça pulava para perto do recém-chegado e o encarava com grandes olhos espantados.

Na atitude de um animal selvagem em fuga, ela parecia meio alegre e meio aborrecida com a chegada dele e como se lhe aproximasse, voltou-se-lhe com um pequeno gesto petulante.

— Demorou muito — murmurou em tom de reprovação.

— Mas vim — respondeu docemente. Decididamente, aquela saudação não era a que ele esperava, chocando-lhe o temperamento apaixonado.

— Por que veio me esperar aqui, se mandei dizer que aguardasse no platô, de madrugada? — perguntou abruptamente.

Com feminina intuição percebeu ela que não lhe seria conveniente replicar dizendo a verdade, que a madrugada a encontrara tiritante de frio e medo no cume do monte, que a superstição popular assinalava como o habitáculo de duendes e o terror a havia impelido para os rochedos onde encontrara agasalho amigo.

Sacudiu a cabeça e dele se afastou um pouco.

— Aqui é mais seguro — murmurou com voz fugitiva, mas logo os olhos o procuravam apaixonadamente.

Lançando-lhe um olhar carrancudo como se sentisse um protesto da arrogância natural dos temperamentos juvenis, ele devorou seu olhar, em que havia um misto de respeito e de súplica, o que lhe fez sentir uma emoção suavizada a golpe do sofrimento que lhe sobreviera.

Suas mãos delgadas, trigueiras, agarravam-lhe os ombros. Era a primeira vez que a tocava e o coração pulsou furiosamente quando os dedos apertaram aqueles ombros femininos.

— Jasmim! Jasmim! — exclamou, colhendo-a nos braços.

Moço como era, sempre a tratara com amor e era assim que queria tratá-la esta manhã, mas os fatos lhe haviam transtornado esse desejo. Já agora, o íntimo contacto com o seu corpo esplêndido de mocidade nele despertava o conhecimento de alguma coisa mais profunda e estranha, diferente do que havia sentido até aqui.

Mais e mais apertava-a contra o peito, mas o plano que havia arquitetado durante toda a noite agora lhe parecia de todo impossível. Ele próprio não se compreendia e não tentava sequer dominar o impulso que o constringia. Só uma coisa havia para ele bem real: era o sentimento de um desgosto íntimo que lhe sobreviera. E lutando consigo mesmo enquanto a sentia estremecendo contra ele, o flexível corpinho a ele aderido naquele abraço, podia perceber o terror que lho perturbava os grandes e límpidos olhos.

Com um tremendo esforço, conseguiu controlar o desejo que quase o dominava.

— Por que teme tanto, minha tímida pequena, — murmurou. — Meu amor é tão mau que a perturbe tanto? É tão horrível o meu beijo?

E inclinando a cabeça rapidamente, pousou os seus nos lábios rubros da moça.

Era essa uma forma de carícia a que os árabes não estão habituados e ele não estava preparado para o grito agudo que ela soltou, nem para a histérica torrente de lágrimas que emanava de seus olhos.

— Alma da minha alma, eu a machuquei? — perguntou aflito.

Durante algum tempo, ela não pôde responder. Cedendo aos seus abraços, por fim ela o apertou também e encobriu o rosto com o albornoz, chorando como se o coração lhe estivesse ao ponto de rebentar. Vencido por alguma coisa que lhe fosse superior ao entendimento, ele esperou em silêncio a explicação de tudo aquilo. Por último ela levantou a cabeça e o encarou com timidez.

— Perdoe-me, senhor — ciciou num longo suspiro. — Não me machucou. É que antigamente quando eu era ainda criança e feliz, era assim que me beijavam.

Ele a encarou com um inquieto franzir de sobrolhos.

— Eles, quem? — perguntou com o acento de sua anterior arrogância.

A moça sacudiu a cabeça como se não quisesse ou não pudesse esclarecer-lhe esse ponto.

— Esqueci — respondeu evasivamente, com os olhos se desviando dele. Desvaneceu sua traiçoeira curiosidade, disposto a não continuar a tratar de um assunto que positivamente nada tinha que ver com a familiaridade que se fizera naquele momento. Não havia motivo para ciúmes em simples reminiscências da infância.

Com as mãos entrecruzadas, o jovem par subiu a uma saliência da rocha, onde ambos se sentaram, com o olhar divagando pelo deserto.

Longo tempo deixou ele de falar, a face descansada na palma da mão, os cotovelos apoiados aos joelhos, estudando-a como se a estivesse vendo pela primeira vez. A moça suportava aquele exame com a sua característica paciência, sentada calmamente ao lado dele, os macios dedos fechados em derredor dos joelhos apertados um ao outro, esperando resignadamente que o companheiro sentisse prazer em dirigir-lhe a palavra.

Era uma linda face pequenina a que ele contemplava, estranhamente simples e perfeita. Uma opulência de cabelos negros como a noite sombreava feições muito regulares e bem talhadas: nariz aquilino, a boca pequenina, de traços delicados, e olhos negros discretamente expressivos.

Seu rosto ainda parecia tomado de espanto até que moveu mansamente os olhos, as maças do rosto enrubescidas de calor.

Mãos trigueiras procuravam sutilmente o jovem.

— Agrado-lhe? — aventurou ela com ar desconfiado. Com um sorriso meio irônico e meio terno, ele lhe atraiu a cabeça e a encostou ao peito.

— Você não é tão má, — fez ele. Mas a luz que brilhava nos olhos negros a satisfez e alguns momentos ela permaneceu quieta, brincando com as borlas douradas do albornoz, com um sorriso lânguido ao relato fortemente fantasioso dos perigos da jornada noturna, com que agora ele a distraia. Mas a sua atenção era aparente, pois que os pensamentos lhe esvoaçavam pela cabeça, tanto que interrompeu a narrativa, encarando-o com firmeza.

— Mas, finalmente, quem é o senhor? Nunca me disse. Ignoro até seu nome.

Os lábios do jovem entreabriram-se num meio sorriso. — Sou aquele que a ama, ó filha da curiosidade!

Estimulada pela evasiva da resposta, ela persistiu: — Diga-me seu nome!

O sorriso fugiu dos lábios do jovem e seu rosto se tornou um pouco sério.

— Para quê? De que adianta saber meu nome? — resmungou. — É coisa insignificante, creia, para passar de boca em boca, para ser murmurado pelos cantos das casas e chegar ao mercado, onde todos começarão a dizer que isto e aquilo se passou deste modo?

— Que mercado existe aqui? — Replicou ela apontando para o deserto aberto— e eu, note bem, eu não ando cochichando pelos corredores das casas, — acrescentou ela com altiva dignidade. — É por mim, somente por mim, que desejo saber seu nome.

E como ele ainda hesitava, ela lançou-lhe os braços ao pescoço, baixando-lhe a cabeça, os olhos brilhantes, fazendo-lhe o ardoroso apelo que lhe bailava nos lábios vermelhos.

— Diga-me, — murmurou mansamente.

Ele não respondeu desde logo. Seus negros cílios apertavam-se-lhe carrancudos, a boca obstinadamente fechada, encarando-a profundamente, como se estivesse sondando a razão oculta de tamanha insistência. Então, com um leve sorriso a desviou um pouco, acendeu um cigarro e ainda a seguindo com os olhos através da fumaça, disse finalmente : — Chamo-me Ahmed.

Um olhar de medo sombreou o rosto da moça.

— Ahmed! — repetiu vagarosamente. — Ouvi falar num grande senhor que existe além das montanhas do sul, um príncipe da tribo de Ben Hassan, que tem esse nome. Será o senhor acaso esse príncipe?

Surpreso lançou-lhe ele um olhar perscrutador que disfarçava por detrás de indolentes olhos semicerrados e depois sorriu displicentemente.

— Quem sabe? — respondeu encolhendo os ombros. Durante algum tempo fumou em silêncio e inquiriu: — Por que pergunta? Que ouviu falar de Ahmed Ben Hassan?

Essas palavras ele as disse com indiferença aparente, derrubando a cinza do cigarro numa pedrinha que sobressaía da rocha.

Um leve tremor perpassou pelo corpo da moça que se arrastou para um pouco mais longe, espreitando nervosamente para um lado e outro, como se a assaltasse o temor de ser ouvida por qualquer testemunha invisível.

— Ouvi sempre dizer que Ahmed é um demônio — aventurou ela com receio, os grandes olhos presos de inquietação. — Não é um verdadeiro árabe, nascido de mulher, mas um vampiro que todos temem porque a sua força e poder estão acima de todos os mortais. Ele governa suas tribos com feitiços e encantamentos, galopa mais que a tempestade e seus olhos são rajadas semelhantes aos raios que riscam os céus em dias de tormenta. E, além disso, é imortal, pois já houve muita gente que tentou matá-lo e não pôde. É isso o que dele tenho ouvido e mais não posso dizer, — disse ela horrorizada, tremendo de terror supersticioso, procurando ler o rosto inescrutável do seu interlocutor. — O senhor está bem "certo" de não ter com ele qualquer parentesco? — inquiriu trêmula.

Ele sorriu mais uma vez e segurou-a firmemente nos braços.

— E se eu fosse, não mais me amaria?

Poucos e rápidos segundos ela hesitou, estremecendo. Depois um suspiro profundo lhe explodiu dos lábios.

— Não! Não! — exclamou, agarrando-o. — Homem ou demônio, eu o amo, como jamais amei.

A pequena capa que a envolvia caiu ao lado e o cheiro de seus cabelos negros era como um tóxico sutil que deles se exalasse. Ele se curvou para ela, triunfante e jubilosa no esplendor de sua beleza.

— Jasmim, meu amor, minha flor da alegria, jamais vi uma moça tão linda!...

Suas palavras mergulharam no silêncio e atraídos para um local um pouco mais adiante, sentaram-se os dois, contemplando os olhos um ao outro, perdidos no abismo de sua felicidade.

Mas através de sua rápida, tempestuosa explosão de amor, refreava ainda os lábios, não parecendo ter pressa de fazer revelações e elucidar o mistério que envolvia sua personalidade.

E como se, se contentasse somente com o conhecimento do seu amor, não fez ela mais nenhuma tentativa para penetrar-lhe o segredo.

Tão silenciosos estavam que os próprios passarinhos lhes ignoravam a presença e um brilhante lagarto verde correu da rocha e deles se aproximou com a máxima naturalidade.

Os causticantes raios do sol não lhes davam noção alguma da passagem do tempo e eles não davam acordo dos longos momentos que decorriam pesadamente. Ahmed estava esquecido dos seus homens, dos perigos que assoberbavam aqueles montes, esquecido de tudo que não fosse aquela moça sentada ao pé de si, com as mãos delgadas pousadas ao colo.

Absorto, seus ouvidos nada mais ouviam que a música de suas doces palavras, e seus olhos ardentes nada mais viam que o encanto daquele talhe delicado.

Foi ela, que, olhando para o que estava escondido por detrás dele, viu alguma coisa. Foi ela que soltou o grito agudo que o fez tropeçar aos seus pés quando uma bala foi disparada contra a rocha, seguida logo de uma segunda que lhe passou perto da cabeça. Sacando o revólver da cinta, ele empurrou a jovem para trás de si e procurou divisar os assaltantes.

Mas ao voltar-se, uma chama de fogo crepitava pela sua testa e ele cambaleou. A sua arma estava descarregada.

Viu, em rápido relance, três vultos altos, vestidos de branco, e o sangue lhe escorria do rosto. Cambaleou, dando um passo à frente e lançou-se por um buraco da rocha. Era um recôncavo muito aberto, onde o ombro direito bateu na ponta de uma pedra, quebrada ou deslocada, que ele procurou remover com os dentes, enquanto com a mão direita procurava a arma que cairá para trás. Atordoado pelo choque e sofrendo forte dor, levantou-se nos joelhos, quando uma nova pancada o atingiu na cabeça e o fez debater-se. Como algo que se parecia com o bramido do mar nos ouvidos, pareceu-lhe que caía vertiginosamente no negror de um abismo.

Com abundantes náuseas, lutou para voltar à vida tendo consciência a princípio somente de uma dor fortíssima na cabeça. Uma sede febril o atormentava.

Um mero sentimento de perigo, fê-lo tentar mover-se, mas o primeiro esforço o prostrou, com vertigens na cabeça, o corpo a suar horrivelmente.

Por momento ficou quieto, com os olhos cerrados, esforçando-se para recobrar o domínio de si mesmo e vencer uma como nuvem que parecia toldar-lhe o cérebro. Não tinha lembrança do que se passara e mesmo a sua vida lhe parecia um mistério de que somente uma coisa emergia clara e distinta.

Lembrava-se de seu nome. Era Ahmed Ben Hassan e alguém lhe havia dito que seu pai era um demônio.

Mas isso era uma estúpida crendice. Se fosse verdade, como poderia sua mãezinha, que conhecera bem e sabia ser de fato um anjo, ter casado com tal demônio? E, ainda, quem era essa "mãezinha" e quem era verdadeiramente Ahmed Ben Hassan?

Pensar era sofrer, mas mesmo sofrendo ele se via às voltas com problemas angustiosos que a cabeça pesada recusava resolver, até que percebeu que lhe era de todo impossível pensar e uma raiva desesperada dele se apoderou, deixando-o exausto.

Sobreveio-lhe o medo na forma aguda de verdadeiro terror, medo de si mesmo, medo da treva mental que o envolvia. Com um grito estrangulado recaiu na inconsciência.

Uma ou duas horas mais tarde, despertou na plena posse dos sentidos.

Sentindo dores por todo o corpo e devorado de sede, seu primeiro desejo foi beber água. Mas o local em que se encontrava era completamente seco. Mesmo, porém, que ali existisse água, compreendia que lhe seria impossível apanhá-la porque tinha feridos os pés, as mãos e os ombros, o que o tornava de todo desamparado, incapaz de qualquer movimento.

Seu rosto estava duro e embebido do sangue que gotejava da ferida que se fizera na testa, sentia um gosto salgado que experimentava quando alguma gota lhe atingia os lábios secos, fazendo-o reviver os acontecimentos que se haviam desenrolado pela manhã.

Soltou um gemido e durante algum tempo se debateu desesperadamente, sentindo no coração a morte. Logo, porém, compreendeu que qualquer esforço que fizesse seria malbaratar inutilmente o que lhe restava de energia e tratou de aquietar-se, o rosto ainda convulsionado. Não era em si que pensava. Poderia aguardar sua sorte com a estóica indiferença que nele era, em parte, uma herança e em parte o resultado de um longo treino nas experiências da vida. Viver ou morrer era coisa que no momento pouco lhe importava. Era a jovem que lhe enchia a mente. Era por ela que estava sofrendo muito. A que perigo a havia induzido sua loucura? Em que situação desesperada estava ela naquele momento, enquanto ele ali estava amarrado como um animal impotente para socorrê-la!

Jasmim! Jasmim! Anjo da minha alegria! Outra mão, mais rude e grosseira que a sua, seria a eleita para cultivar a tenra flor que ele pensara acarinhar no jardim do seu amor!

Louco, três vezes maldito, tinha sido!

Fora por sua causa que ela havia afrontado os horrores daqueles mal afamados montes. Fora sua tola arrogância que o fizera partir sozinho para encontrá-la, desprezando a escolta cuja vigilância teria evitado a catástrofe que havia sobrevindo tão súbita e tragicamente.

Em si confiara, mas ei-lo ali impotente, havendo falhado miseravelmente, quer como homem quer como amante. Olhara para ele a fim de que a protegesse e na cega confiança do seu egoísmo havia ele descuidado até os rudimentos daquela prudência que aprendera desde a infância. Confiado em si, tinha chegado a proporcionar-lhe tais emoções e pensamentos somente em seu amor fora apanhado, como um rato imprudente que cai numa ratoeira.

Remorso e vergonha dele se apoderavam e um temor mortal o fazia contorcer-se furiosamente até que o sangue borbotou da ferida da cabeça e ele caiu da posição em que estivera, meio sentado, contorcendo-se em atroz agonia mental, como se seu espírito torturado conjurasse mil quadros, mil possibilidades de um arremesso ao reino da loucura.

— Jasmim! — balbuciava com lábios trêmulos, — meu doce amor, Jasmim!

Até poucas horas ela lhe fora mera distração passageira, uma diversão que buscava até que perdesse o interesse e eis que agora não podia compreender a vida sem ela!

A filha de um mouro errante, um encantador de serpentes, o destino colocara em seu caminho, certa vez que viajava pelo norte longínquo do seu território. Acampando uma noite nas imediações de uma estreita vilota, fora matar uma hora de tédio num ridículo café onde lhe ministraram horrenda beberagem com o nome da esplêndida rubiácea que rotulava a casa, enquanto aguardava qualquer divertimento que, como exceção, lhe parecesse suficientemente suportável. Mas o espetáculo proporcionado pelo encantador de serpentes o interessou mais que de costume. O mouro, um disforme e taciturno, gigante possuidor de um rosto brutalmente sinistro, lhe havia inspirado nada mais do que aborrecimento. A filha que o acompanhava, essa, sim, era um novo tipo que lhe surgia da fantasia errante.

Embora não se ocultasse por um véu e pertencesse a uma classe que inspirava pouco respeito, ela nada tinha do estouvamento de sua espécie. Ao contrário, revestia-a uma dignidade natural, discreta, que constituía um verdadeiro contraste com a profissão.

Indiferente aos olhares curiosos que lhe lançavam daqui e dali, desempenhava o seu papel com estranho ar de despreocupação, os olhos brincando-lhe nas órbitas como se os pensamentos lhe voassem ao longe. E não se misturou aos frequentadores do café, mas retraiu-se para um canto junto aos músicos, onde se sentou, brincando com a grande serpente negra que ainda se conservava enroscada em seus ombros.

Contemplando-a, o interesse lhe ia crescendo.

Na baixa atmosfera de um café de última classe ela lhe parecera uma coisa à parte e o maravilhara com aquele ar elegante, de delicada frescura e com a pureza de suas feições infantis.

Intrigado, tratou de procurá-la no dia seguinte e ficou sabendo que ela deixara a aldeia pela madrugada, em companhia do pai.

O fracasso inflamara um interesse que de outro modo talvez morresse com a mesma facilidade com que nascera. Com o cérebro vazio sem nada mais que os caprichos de uma vaga fantasia, seguira-a pelo norte, conseguindo encontrá-la em furtivas entrevistas cuja última fora a desta manha.

Quem os surpreendera, desgarrara a jovem e o aprisionara, não havia meios de descobrir mesmo em sonho. Este trecho da região era infestado por bandidos e ladrões e certamente algum nele divisara uma presa rica que lhe propiciaria gordo resgate.

A ignomínia de sua posição, devida exclusivamente ao descuido, despedaçava-o. Mas o pensamento nesse fato empalidecia e se anulava ante o fato esmagador de que permanecia chumbado a impotência para socorrer aquela cuja vida lhe era muito mais preciosa do que a sua própria.

A lembrança do fato o atormentava. Às vezes, mergulhava em meia consciência quando lhe era possível esquecer a miséria mental que o acabrunhava. Mas a vida moça era forte nele e os momentos de repouso eram muito fugazes. Deveria levantar-se e andar, embora como um animal enjaulado, os olhos penetrantes errando incessantemente pelo quarto para que fosse conduzido, procurando ansiosamente alguma coisa que o ajudasse a sair dali.

Mas aquele pequeno e sujo apartamento estava totalmente desprovido de quaisquer utensílios sem sequer um prego perfurando-lhes as paredes limosas. Sujo pela ação de anos incontáveis, tinha a aparência de estar de há muito desalugado.

Pela luz que penetrava por estreita fresta existente na "parede" um pouco acima de sua cabeça, de onde ele jazia podia ver a porta baixa que dava acesso ao aposento. Construída de madeira maciça encimada de ferro, a sua solidez lhe emprestava fascinação a que ele não pôde resistir. Atraía-lhe a atenção de maneira que olhava aquilo tão fixamente, que os olhos lhe arderam e ele se achou mecanicamente contando as cabeças de prego que guarneciam sua superfície. Estaria eternamente fechada aquela porta?

O escoar lento das horas aumentava-lhe os desvarios e foi num desses momentos que finalmente chegou a suspirada interrupção daquela solidão.

Não ouvira o abrir da porta.

Uma pancada brutal num ombro dolorido despertou-lhe a consciência.

Rangendo os dentes para abafar o gemido que quase deixara escapar, enfrentou com penetrante desconfiança os seus raptores. À vista dele, o coração bateu-lhe violentamente. Dos três homens que ali estavam ao seu lado, reconheceu um e esse era justamente, o que menos poderia esperar encontrar. O mouro sorria perversamente, com aqueles olhos que eram porventura mais frios e cruéis do que os mais repulsivos répteis.

Foram, porém, os dois estrangeiros que primeiro falaram, dirigindo-lhe perguntas que, confuso e irado como se achava, mal compreendia. Embora vestidos como árabes e falando essa língua correntemente, a dureza gutural da sua voz, tanto quanto sua aparência geral, tornavam-lhes duvidosa a nacionalidade. Árabes bem vestidos e bem penteados não são raros, mas estes eram diferentes de qualquer que ele houvesse visto. De modos arrogantes, de falar duro, imperioso, parecia que queriam arrancar dele alguma confissão.

Não estava acostumado a ser tratado com carranca como se fosse qualquer irracional e seu temperamento ardente despertou ao ouvir as perguntas que lhe faziam, sobre seu nome, sua tribo e sobre a natureza dos negócios de que tratava naquele recanto do país sobre o mundo de homens que com ele viajavam, não contando as palavras com que o acumulavam, de acusações que ele não compreendia e nas quais a palavra "espião" surgia com irritante frequência.

Estivesse ali somente o mouro e compreenderia de qualquer modo o que dele queriam. Dos três, porém, era o mouro o que menos interessado parecia. Os dois estrangeiros é que manifestavam maior interesse.

Não compreendendo por que intervinham em sua liberdade, jurava a si mesmo que, se vivesse, haveriam de pagar-lhe a bom preço a ousadia.

Cheio de ira, mas votando-se ao silêncio, estudava-os com muda passividade.

Ambos eram robustos, com aspecto de atletas, um orçando por meia idade e o outro por uns trinta anos.

Quanto mais os fitava, mais perturbado ficava. A despeito de sua atitude senhorial, era evidente que qualquer inquietação os amedrontava. E embora agissem conjuntamente, era palpável que não estavam inteiramente de acordo uns com os outros, porque com muita frequência se interrogavam e discutiam demasiadamente numa linguagem desconhecida para o seu involuntário ouvinte, Foi numa dessas discussões que o mouro se meteu pela primeira vez.

Com uma imprecação de impaciência, arrancou uma faca da cinta e se chegou rapidamente ao prisioneiro.

— Mato-o e pronto! — grunhiu, com a faca levantada para descarregar sobre a vítima. Os outros, porém, o empurraram para trás.

— Não o matarás enquanto ele não falar, — gritou o mais velho, com um gesto autoritário.

— Não te disse esta manhã, seu cabeça de fogo? Até sabermos o muito que ele sabe, viverá.

Começou uma nova e interminável discussão, mas o ferido nada compreendia. Havendo-se-lhe clareado a cabeça por momentos, esta se enfraquecera devido ao esforço que fazia de maneira a logo fazer-lhe perder o sentimento da realidade. Tudo aquilo lhe parecia um pesadelo. As perguntas eram feitas agora com aspereza sinistra e por último, nova pancada brutal o despertou.

— Nada sei, viajo somente por prazer — balbuciou, aderindo ao obstinado orgulho que o fazia não declinar sua identidade. O filho de Ahmed Ben Hassan não podia se rebaixar usando o nome poderoso do pai.

Por misericórdia de Allah, só ele deveria estar preso, porque fora um mouro que o capturara e portanto Jasmim deveria estar salva. Com visível alívio, diminuiu o controle que mantinha sobre si e no meio das fantasias que lhe povoavam a mente, a voz dura de um dos estrangeiros lhe despertou os sentidos.

— Tragam a garota. Ela deve ter mais alguma coisa a dizer.

Ele ficou rígido, com ar de horror que traía uma suspeita terrível que lhe perturbava a mente. Vira o mouro sacudir a cabeça e ouvira a recusa que havia resmungado.

— Não! Ela cumpriu o seu papel: disse tudo o que sabia. Sua boca agora se fechará.

E então, como se uma verdade amarga o queimasse, não pôde evitar um grito: — Jasmim, Jasmim!

— Eis aí, Jasmim, Jasmim — ironizou o mouro. — Pensavas que ela te amava, louco que não soubeste aproveitar o que era teu! Viste a última de Jasmim: ela fez o que devia e te mostrou que não era tua, cão do deserto.

Sua voz parou subitamente, convertendo-se num murmúrio, enquanto os dedos magros tremiam e pairavam, como que famintos, sobre o rosto agoniado do cativo.

— Queres viver? Queres de novo apertá-la nos teus braços? Fala, então, porque caso contrário, farei de ti objeto de escárnio e fugirão de ti as próprias bestas do mato.

Tais palavras foram ditas pausadamnte, o rosto traindo o gozo infernal que lhe inundava o ser.

Vagarosa e persistentemente pôs-se a delinear os métodos diabólicos com que pretendia extorquir a informação desejada.

Ouvindo-o, pela primeira vez em sua vida, o filho do sheik conheceu o medo, um medo entorpecedor que lhe convertia o sangue das veias em gelo.

Compreendera que de qualquer forma havia levado o pescoço a uma forca de que não poderia libertar-se; que de qualquer maneira se achava envolvido numa trama de circunstâncias misteriosas, totalmente superiores à sua compreensão e que lhe ameaçavam a própria existência. Havia visto a incredulidade claramente escrita nos rostos dos três homens, quando procurara convencê-los da ignorância das coisas que se lhe imputavam; tinha ouvido o riso de zombaria que acolhera suas palavras e compreendeu que toda negativa era inútil, compreendendo, também, que a ameaça de tortura não era uma palavra vã, mas uma certeza que se concretizaria a não ser que um milagre se operasse para salvá-lo. O homem com quem tratava era um mouro e não um árabe e dos costumes dos mouros alguma coisa conhecia. Bagas de suor lhe inundavam a testa enquanto se dispunha a aguardar os acontecimentos, orando somente para que a força não o desamparasse e lhe permitisse defrontar qualquer tormento como filho digno de seu pai.

Ainda se somente o matassem!... A morte em mil vezes preferível à tortura e à mutilação. E a vida poderia ser-lhe coisa preciosa, a ele que naquele dia perdera o amor, a fé e a esperança que lhe enchiam o coração?

Arremessou de si tais pensamentos e congregou todas as forças de que podia dispor para suportar as provações que agora lhe pareciam inevitáveis.

Mas um clarão de esperança lhe sobreveio de modo inesperado.

Os dois estrangeiros, que se haviam retirado por momentos para um canto, chegaram de novo e o mais moço parecia querer impor um ponto que o outro relutava em acolher. Porque interrompendo a eloquência do companheiro, com o mesmo gesto breve de autoridade de que há pouco se servira, e voltando-se para o encantador de serpentes bateu-lhe docemente aos ombros.

— Torna-se tarde, amigo — disse baixinho — e há perigos que sabes poderem sobrevir à noite. Não há mais tempo para gozares este longo divertimento. Deixêmo-lo dormir nas coisas que lhe prometeste e pode ser que amanhã se resolva a falar para salvar a pele.

Um estrepitoso riso de prazer acompanhou essas palavras e durante um momento seus olhos pousaram no prisioneiro com um ar de afetada indiferença.

O tom da voz então se lhe transmudou: — Eia, homem! — disse com acento de comando. — Amanhã é também um dia.

Com relutância, o mouro se ergueu sobre os pés, a face lívida transtornada por fria maldade, as mãos crispando como que repugnando largar a presa.

— Um dia a alvorecer, pode ser demasiado tardio — replicou com raiva e encostou brutalmente o calcanhar no estômago do cativo.

Contorcendo-se de dor, o filho do sheik atingiu o limite do que podia suportar.

— Allah te devore! — murmurou desmaiando. Quando voltou a si estava sozinho e o pequeno quarto estava submerso em trevas.

A solidão e a escuridade, porém, lhe eram gratas. Não tinha mais necessidade de manter o aprumo de estóica indiferença que se esforçara por aparentar momentos antes. Sozinho, poderia vencer a angústia mental que naquele momento lhe varrera toda a sensação de sofrimento físico, assim como o mistério que o envolvia e o perigo que ainda o ameaçava.

Jasmim, a quem amava, e amava com amor que sabia impossível igual, Jasmim que ele poupara, em razão desse amor, Jasmim o trairá.

Sua alma passou então por uma agonia que lhe parecia maior do que poderia suportar.

Enfraquecido pela perda de sangue e pela necessidade de comer, torturado pelo conhecimento da traição de sua amada, ele se sentia completamente vencido e, virando o rosto para a parede, chorou como uma criança, todo o corpo a tremer-lhe ante as lágrimas que lhe marejavam os olhos e que ele nem sequer tentava conter... Chegara-lhe a hora da fraqueza.

Exaurido física e mentalmente, mas senhor de si, aquietou-se, perscrutando as trevas com olhos esgazeados, ao passo que um grande amor aos poucos se convertia num grande ódio.

Doze horas antes havia ele compreendido o que significa o amor verdadeiro. E naquele momento recuperava a virilidade, tendo adquirido uma nova compreensão das coisas, uma nova ternura que sua natureza ardente dantes não conhecia.

Mas o amor morrera na brutalidade da traição e com essa morte desvaneciam-se-lhe a fé e a confiança. Desiludido e amargurado pela experiência terrível por que passara, a nova ternura que lhe surgira se evaporava como nunca houvesse existido.

Somente nele permanecia a selvageria primitiva, impondo-se como se fosse a única coisa que lhe restasse.

Seu rosto jovem se endureceu e ritus cruéis se lhe espessaram pela boca, mostrando que unicamente sentimentos de vingança exerceria, se vivesse. E, por Allah viveria sim, para exigir total pagamento daqueles que o haviam injuriado! Tal qual agora sofria, tinham eles de sofrer. E ela também!

Nem o sexo, nem a lembrança do amor que lhe dedicara salvá-la-iam. Amor?

Zombou de si mesmo em íntimo sarcasmo. Tinha procedido com amor! Jamais pouparia uma mulher que assim o condenava à horrível humilhação que agora o estava acabrunhando.

Louco e tolo tinha sido! Enganara-o uma moça que havia feito o que lhe era próprio, que tinha desempenhado o seu papel com a firmeza de uma atriz consumada!

Desde a primeira vez certamente o havia enganado. Confiante na atração de seus raros encantos, ela arquitetara seus planos com irresistível astúcia, iludindo-o com uma falsa timidez, e embrulhando-o com arranjada modéstia, até enredá-lo sutilmente nas suas tramas sinistras e finalmente havia jogado com a castidade de que se jactava, porque adivinhara o que lhe ia pela mente quando o encontrara naquela manhã fatal. Não poderia esperar, portanto, que ainda a poupasse. Para assegurar-se a vitória, não havia ela vacilado mesmo em correr esse risco!

E a trama de mentiras que seus lábios infantis engendravam!

Rendida em seus braços, arrancando-lhe beijos, tinha ela tramado uma centena de romances para mantê-lo a seu lado, dando tempo a que seus cúmplices chegassem.

Lembrava-se de suas insistentes perguntas a seu respeito, lembrava-se de uma dezena de incidentes aparentemente insignificantes, que agora serviam para prova de sua duplicidade. E durante tudo isso ela se rira dele, zombando do ardor de sua mocidade, escarnecendo dele como de um louco cego!

Ódio e orgulho ferido dominavam seu ser enquanto sorvia, gota a gota, o cálice de amargura. Amaldiçoando-se a si e a ela, enveredou os pensamentos por outra via.

A jovem não teria sido somente um instrumento dos infames que haviam urdido a armadilha em que tão facilmente caíra? Qual seria o motivo verdadeiro de sua captura? Sabia que penetrara em região mal afamada, onde a ilegalidade campeava com a desenvoltura permitida por um governo que não encontrava jeito de impor sua autoridade, que de resto ali era apenas nominal.

Sabia também que há muitos meses corriam rumores de desacordo entre as tribos ali existentes. Mas, que tinha ele com isso? Jamais servira de mediador nas contendas que surgiam entre as tribos. Absorvido pelos prazeres e divertimentos, nunca lhe passava pela cabeça a ideia de administrar o poderoso "clã" que seu pai governava com vara de ferro. Como, pois, se envolvera em enredo tão misterioso? De todo impossível se lhe afigurava resolver esse problema.

E, de resto, o motivo da captura não era tão importante como a necessidade de salvar-se da situação em que se achava.

Mas, ligado e impotente como estava, como poderia fugir? Amarrado de pés e mãos a cordas sólidas, ali jazia como um cão incapaz de dar um passo.

Sem se alimentar durante vinte e quatro horas, abrasado de sede, admirava-se por que não o vencia uma inconsciência completa. Já achava dificuldade em concentrar seus pensamentos.

Incidentes completamente destituídos de importância e divagações desconexas, fantásticas, povoavam-lhe o cérebro. Por vezes parecia que não estava só: figuras sombrias se acotovelavam perto dele, assobiando para as trevas, uma procissão de duendes que iam e vinham confusamente. E de vez em quando ele se voltava com uma praga ciciada, um suor frio percorrendo-lhe a espinha, quando de novo como se viu a face má do mouro curvar-se perto dele e mais uma vez ouviu suas sinistras ameaças, claras como se fossem faladas.

Ante a frequência da visão, amaldiçoava-se como covarde, tentando afugentar as loucas fantasias que lhe enchiam a cabeça. Forçou a mente para dizer-lhe quanto tempo ali jazeria?

Quanto faltava para amanhecer?

Fugitivo clarão da lua, filtrando-se pela janela, advertiu-o de que o tempo estava correndo e que antes de passarem muitas horas, ele teria de defrontar com uma realidade que a sua imaginação não poderia sequer entrever.

Rangeu os dentes e expeliu para longe as ideias.

Por bem ou por mal, estava nas mãos de Allah e a manhã não havia ainda chegado.

Rendendo-se por último ao cansaço, não mais procurou combater a sonolência que o vencia, mas ficou quieto, vendo as sombras desaparecerem do quarto, à intensificação da luz do luar.

Estava quase adormecido quando um som muito brando se fez ouvir na completa quietude do quarto, despertando-o subitamente.

Pôs-se à escuta, a princípio negligentemente e depois com crescente interesse. As batidas redobravam, parecendo-lhe de estranhar que as não tivesse ouvido antes.

O som continuava a chamar-lhe a atenção e ao aplicar os ouvidos para percebê-lo, um tremor percorreu-lhe o corpo e o coração bateu sufocado.

Aquelas batidas eram singularmente persistentes e soavam com monótona regularidade. Quase inconscientemente pôs-se a contar os segundos que decorriam de cada pancada.

— "Cinco - sete". "Cinco - sete".

Ramadan e S'rir, por Allah! Serviam-se de um código que há muitos anos arranjara numa febre de excitações para se unir a rapaziada árabe, em suas estúrdias noturnas. Ramadan e S'rir, como poderia tê-los esquecido?

Nova esperança inundou-lhe o ser e seus olhos cansados flamejaram enquanto se esforçava por corresponder ao sinal. Mas a sua língua estava seca e som algum podia ser emitido por seus lábios ressequidos.

Uma espécie de frenesi dele se apoderou à compreensão das consequências que lhe poderiam advir do silêncio.

Estava convencido de que seus homens ali estavam. Não deveria ficar sem correspondência a sua nobre dedicação. Poderiam dali se afastar somente por falta de resposta que lhe cumpria dar? Perder-se-ia essa perspectiva de salvação?

Se lhe fosse possível ao menos fazer qualquer movimento que pudesse ser percebido do outro lado daquela espessa parede!

Mas incapaz de falar, incapaz de se mexer, sabia que cada momento que passava era a probabilidade de salvação que mais e mais se desvanecia.

A esperança já quase cedia ao desespero, quando de repente uma sombra tênue levantou o trinco da janela, onde seus olhos se haviam fixado.

Os segundos pareciam-lhe horas enquanto esperava, sacudindo a cabeça com apreensão, esforçando-se penosamente para respirar, quando os rudes ferrolhos da janela cederam, vencidos por duas mãos poderosas.

Um por um foram sendo removidos calmamente e uma abertura se foi clareando até permitir a passagem do corpo de um homem.

Certamente, era Ramadan, cuja força era proverbial.

Houve o intervalo de um momento, um desconcertante lapso de tempo que produziu na mente atribulada do prisioneiro a sensação de mil temores, quando uma figura, mais delgada e ágil que a de Ramadan, penetrou pela abertura como um gato que pelo chão desliza sem fazer o menor barulho.

No momento que se seguiu, S'rir se curvava sobre ele com enorme faca na mão.

— No céu ou no inferno, senhor disse alegremente, e cortou as cordas que o atavam.

14 de Dezembro de 2019 às 07:45 0 Denunciar Insira 0
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