O Sheik Seguir história

twinflamespa Amanda Luna De Carvalho

Diana Mayo é jovem, bonita, rica e independente. Entediada pelos pretendentes e festas da aristocracia inglesa, ela decide aventurar-se em um passeio a cavalo pelo deserto argelino. Dois dias depois da partida, ela é raptada pelo poderoso Sheik Ahmed Ben Hassan que a força à submeter-se à sua vontade.


Clássicos Todo o público.

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Capítulo I - Uma moça estranha

- Vai entrar e ver o baile, lady Conway?

-De maneira nenhuma. Desaprovo totalmente a expedição que se organiza com este baile. Ao contemplar uma expediçao assim, só no deserto, sem nenhum acompanhante ou servos de seu próprio sexo, com só cameleiros e empregados indígenas, Diana Maio obra com uma temeridade e falta de decoro destinadas a jogar um borrão não só sobre sua reputação, mas também sobre o prestígio de seu país. Ruborizo-me ao pensá-lo. Nós, os ingleses, não podemos descuidar nossa conduta no estrangeiro. Não há ocasião, por insignificante que seja, que não a aproveitem nossos vizinhos continentais para nos jogar pedras, e esta oportunidade é muito insignificante. É o caso mais é o pior caso de insensatez q já ouvi falar.

-Vamos, lady Conway! Não é tão grave. Certamente é algo fora do convencional E... este..., provavelmente não é muito prudente, mas lembre-se da educação pouco convencional de miss Maio...

-Não esqueci de sua educação pouco convencional -interrompeu lady Conway- foi deplorável. Mas nada pode desculpar isto. Conheci sua mãe faz muitos anos e considerei meu dever repreender a Diana e a seu irmão, mas sir Aubrey está fechado dentro de um muro de complacência egoísta que nada pode penetrar. Segundo ele, os Maio estão por cima de toda crítica, e a reputação de sua irmã é coisa exclusivamente dela. Quanto à moça, parecia francamente não compreender a gravidade de sua posição, e foi extremamente frívola se não um pouco mal educada. Lavo minhas mãos de todo o assunto, e não darei minha aprovação à festa de esta noite aparecendo nela. Já adverti ao gerente que, se o ruído continuar depois de uma hora razoável, deixarei o hotel amanhã.

E, enrolando-se em seu Xale de noite, com um ligeiro estremecimento, lady Conway atravessou majestosamente a ampla galeria do Biskra Hotel.

Os dois homens, que se achavam de pé junto à porta de acesso ao salão de baile do hotel, olharam-se sorrindo.

-Parece-me que assim é como se originam os escândalos -disse um deles, com marcado acento norte-americano.

-Que escândalo nem que diabos! O nome de Diana Maio nunca se viu nem sequer arranhado pelo escândalo. Conheço-a desde muito tempo, e é um criatura bastante estranha. Que o diabo se leve a essa velha! Seria capaz de destruir a reputação do arcanjo Gabriel se baixasse à Terra, e não digamos a de uma simples criatura humana.

-Não é uma moça muito humana precisamente -disse o norte-americano- Com segurança estava destinada a ser um homem e a trocaram num último momento. Parece um Menino com saias, um menino endemoniadamente bonito... e extremamente ativo e altivo -adicionou renda-se-. Escutei-a esta manhã no jardim fazendo picadinho de um oficial francês.

O inglês riu.

-O coitado devia estar lhe falando coisas de amor, suponho. Algo que ela não compreende e não tolera. É o ser mais frio do mundo, sem nenhuma idéia na cabeça fora do esporte e as viagens. Inteligente, entretanto, e valente... Também não acredito que conheça o significado da palavra temor.

"Há algo estranho na família, não é? Ouvi alguém que conversava disso outra noite. O pai ficou louco e perdeu a cabeça, conforme me disseram."

O inglês se encolheu de ombros.

-Pode chama-lo de louco se quiser -disse pausadamente-. Vivo perto dos Maio na Inglaterra e conheço a história. Sir John Maio era muito apaixonado por sua mulher; depois de vinte anos de matrimônio ainda eram amantes. Então nasceu esta moça e a mãe morreu. Duas horas depois seu marido se suicidou, deixando a menina só aos cuidados de seu irmão, que então tinha apenas dezenove anos, e era tão preguiçoso e egoísta como agora. O problema de criar e educar uma menina significava muito trabalho, assim solucionou o problema tratando-a como se fora um garoto. O resultado é o que vê.

Aproximaram-se mais da porta aberta, olhando o salão iluminado e cheio de gente que conversava alegremente. Sobre um tablado colocado em um extremo do salão, os anfitriões recebiam a seus convidados. Irmão e irmã eram singularmente distintos. Sir Aubrey Maio era alto e magro, acentuando-se mais a palidez de seu rosto ao contrastar com o cabelo negro bem escovado e seus espessos bigodes. Mantinha uma atitude de cortesia inata mesclada a um lânguido aborrecimento. Parecia muito cansado até para manter em seu lugar o monóculo que usava, porque lhe caía continuamente. Contrastando com ele, a moça que estava a seu lado parecia cheia de vida. Ela possuía uma estatura mediana e era extremamente esbelta, sua postura erguida lhe dava o porte solto e vigoroso de um jovem atlético, com a pequena cabeça elevada orgulhosamente. Sua boca depreciativa e o queixo firme mostravam uma determinação obstinada, e os olhos de um azul escuro eram extraordinariamente limpos e fixos. Os cílios longos e curvos que os sombreavam, e as sobrancelhas escuras, contrastavam com seus espessos e ondulados cabelos dourados, que tinham sidos cortados e apertados ao redor das orelhas.

-O resultado é digno de ser visto - disse o norte-americano com admiração, ao referir-se à última observação de seu companheiro.

Outro homem mais jovem se uniu a eles.

-Olá, Arbuthnot. Chegou tarde. Aquela deusa já está rodeada por filas de pretendentes para o baile.

Um forte rubor cobriu o rosto do jovem, que sacudiu a cabeça com ar irritado.

- lady Conway Deteve-me..., essa velha venenosa! Tinha muito que falar de miss Maio e sua expedição. Deveriam amordaçá-la. Acreditei que ia ficar falando a noite toda, mas no final escapei. De todas as afirmações, estou de acordo com ela em um ponto. Por que não pode essa besta preguiçosa de Maio acompanhar a sua irmã?

Nenhum pareceu poder lhe dar a resposta. A orquestra tinha começado a tocar e o salão estava repleto de casais alegres e buliçosos.

Sir Aubrey Maio saiu de lá e sua irmã ficou de pé, rodeada de vários jovens que esperavam com o programa de dança em mãos; mas ela os afastou com um sorriso e uma resolvida sacudida de cabeça.

-Parece que está animado -disse o norte-americano.

-Vai tentar a sorte? -perguntou-lhe o major dos dois ingleses.

O norte-americano mordeu o extremo de um charuto com um ligeiro sorriso nos lábios.

-Não penso. Essa jovem altiva me desprezou como bailarino quando mal nos conhecíamos. Não a censuro -acrescentou com risada um pouco grave-, mas sua sinceridade extrema ainda dói. Disse-me, com toda claridade, que não lhe interessava um norte-americano que não sabia montar a cavalo nem dançar. Respondi-lhe, muito delicadamente, que nos Estados Unidos havia infinitas oportunidades para os homens além de tocar fazendas e de dançar nos cabarés; mas me cortou com um olhar, e eu me afastei. Daqui a pouco jogarei bridge com sir Complacência Egoísta; isso está muito mais de acordo com meus gostos. Não é uma má pessoa no fundo, se a gente passar por cima de suas esquisitices, e é um sportsman. Eu gosto de jogar em sua companhia. Não se importa de perder ou ganhar.

-Isso não importa quando se tem uma conta corrente do tamanho da sua -disse Arbuthnot-. Pessoalmente acho o baile mais divertido e menos caro. Vou entrar na fila de dança de nossa anfitriã.

Seus olhos se voltaram animadamente para o extremo do salão onde a jovem estava sozinha, de pé, ereta e esbelta, com os lindos e brilhantes cachos que emolduravam seu pequeno rosto, formoso e altivo, dourados pela luz. Contemplava aos bailarinos com uma expressão ausente nos olhos, como se seus pensamentos estivessem longe do animado salão de baile.

O norte-americano empurrou ao Arbuthnot com uma risada

-Vá e queime as asas. Quando a bela cruel terminar de pisoteá-lo, irei recolher os restos. Mas, em troca, se sua coragem encontrar o êxito que merece, poderemos celebrá-lo adequadamente mais tarde - e tirando o braço do seu amigo o levou até a sala de jogo.

Arbuthnot cruzou a porta e avançou lentamente pego à parede do salão, esquivando aos bailarinos e abrindo-se.

Passou através de grupos de homens e mulheres de todas as nacionalidades, que conversavam animadamente. Chegou ao fim do tablado no qual ainda se encontrava Diana Maio e subiu até chegar a seu lado.

-Isto é sorte, miss Maio -disse, com uma segurança que estava longe de sentir- Tenho realmente a boa sorte de encontrá-la sem par?

Voltou-se ela lentamente, com uma ligeira ruga no sobrecenho, como se sua chegada fora inoportuna e interrompesse o fio de seus pensamentos, mas em seguida sorriu francamente.

-Eu não poderia dançar até que todo mundo tivesse começado -respondeu com tom mas bem de dúvida, olhando o salão abarrotado.

-Todo mundo está dançando. Cumpriu nobremente com seu dever. Não perca este baile -exortou-a, persuasivo.

Duvidando, e dando golpes nos dentes com o lápis do programa, respondeu.

-Não aceitei um montão de homens - disse, com um gesto e em seguida riu-. Vamos, sou conhecida por meus maus modos. Este não será mais que outro pecado.

Arbuthnot dançava bem, mas com a jovem em seus braços parecia ter perdido a fala. Giraram ao redor do salão várias vezes e logo se detiveram junto a uma porta aberta e saíram para o jardim do hotel, para sentarem numa poltrona de palha sob um farol japonês. A orquestra seguia tocando, e no momento o jardim estava vazio, iluminado fracamente pelos faróis coloridos pendurados das palmeiras e as luzes cintilantes que assinalavam os tortuosos atalhos.

Arbuthnot se inclinou para frente, com os joelhos entre as mãos.

-Acredito que você é a bailarina mais perfeita que conheci -disse com voz um pouco entrecortada.

-É muito fácil dançar quando se tem um ouvido musical e o costume de treinar o corpo para que faça o que alguém quer. Pouca gente parece estar acostumada a fazer que seus membros lhes obedeçam. Os meus me obedecem desde que era uma criança -adicionou com tom pausado.

O inesperado da resposta serve para emudecer ao Arbuthnot durante uns minutos, e a moça que estava a seu lado não parecia ter pressa por quebrar o silêncio. O baile tinha terminado e o vazio jardim se viu povoado de gente durante um momento. Logo os bailarinos voltaram para hotel ao quando a orquestra começou a tocar novamente.

-Está bom aqui no jardim-disse Arbuthnot. Pulsava-lhe o coração com extraordinária rapidez e em seus olhos, que estavam fixos nos joelhos, acentuava-se um olhar ansioso.

-Quer dizer que pretende ficar sentado comigo durante todo baile? -replicou a jovem com uma franqueza juvenil que o desconcertou ligeiramente.

Ela levantou o programa de dança à luz do farol.

-Prometi esta dança ao Arthur Conway. Brigamos cada vez que nos encontramos. Não posso pensar por que me pediu isso, renega de mim mais ainda que sua mãe..., essa velha tão metida. Ficará encantado de ficar livre. E não quero dançar esta noite. Espero o dia de amanhã com tanto entusiasmo! Ficarei falando com você, mas tem que me dar um cigarro para me conservar de bom humor.

Tremeu ligeiramente a mão ao lhe oferecer o fósforo aceso.

-Está decidida a realizar essa excursão? Ela o olhou surpreendida.

-Por que não? Faz algum tempo que estou arrumando tudo. Por que teria que mudar de idéia a último momento?

-Por que seu irmão a deixa ir sozinha? Por que não vai com você? OH, não tenho nenhum direito a perguntá-lo,

-Mas o perguntou - exclamou com veemência.

Encolheu-se ela de ombros, com uma risada.

-Aubrey queria ir aos Estados Unidos. Eu queria fazer uma excursão pelo deserto. Disputamos durante dois dias inteiros até meia-noite, e logo chegamos a um acerto. Eu teria minha excursão e Aubrey iria a Nova Iorque; e para demonstrar sua fraternal avaliação por minha graciosa promessa de segui-lo aos Estados Unidos sem falta ao término de um mês, consentiu em honrar minha caravana com sua presença em sua primeira etapa e em me dar sua bênção. Incomodou-lhe enormemente que não pudesse me ordenar a ir com ele, sendo esta a primeira vez em nossas vagabundagens que seus gostos e meus não se inclinaram na mesma direção. Alcancei a maioridade faz uns meses, e daqui em adiante posso fazer o que quiser. Não que eu tenha feito outra coisa -admitiu com outra risada-, porque os desejos do Aubrey foram meus até agora.

-Mas por um mês! Que diferença poderia haver para ele? -perguntou Arbuthnot assombrado.

-Assim é Aubrey - replicou miss Maio secamente.

-Essa viagem não é segura - persistiu Arbuthnot. Ela sacudiu descuidadamente a cinza do charuto.

-Não estou de acordo com você. Não sei por que todo mundo está preocupando-se tanto. Outras mulheres viajaram por territórios muito mais selvagens que o deserto.

Ele a olhou com curiosidade. Ela parecia ignorar totalmente que em sua juventude e beleza residia todo o perigo da expedição. Caiu na desculpa mais fácil.

-Parece reinar intranqüilidade entre algumas das tribos. Ultimamente circularam muitos rumores -disse com seriedade.

Ela fez um ligeiro gesto de impaciência.

- OH, isso é o que sempre dizem quando querem pôr obstáculos no caminho. As autoridades já me mostraram esse fantasma. Pedi fatos concretos e só me deram suposições. Perguntei se tinham poder para proibir minha excursão. Disseram-me que não, mas me aconselharam repetidamente que não a fizesse. Deixei claro que iria, a menos que o governo francês me detivesse... por que não ir? Não tenho medo. Não admito que haja nada nisso a não ser medo. Não acredito numa palavra sobre a intranqüilidade das tribos. Os árabes sempre estão movendo-se de um lado para outro, não é assim?

"Tenho um excelente condutor de caravanas, que responde até as autoridades, e estarei armada. Sou perfeitamente capaz de me cuidar. Sei atirar e estou acostumada a acampar ao ar livre. Além disso, dei minha palavra ao Aubrey de que estarei em Oram dentro de um mês, e não posso ir muito longe nesse tempo."

Havia um acento obstinado em sua voz, e quando cessou de falar, ele permaneceu em silêncio, consumido pela ansiedade, obcecado por sua beleza e atormentado pelo desejo de dizer-lhe. Logo se voltou repentinamente para ela, ao mesmo tempo em que ficava muito pálido.

-Miss Maio... Diana..., adie esta excursão só uns dias e me conceda o direito de ir com você. Eu a amo. Quero-a como esposa mais do que tudo nesta terra. Não serei sempre um ajudante pobre. Um destes dias estarei em condições de lhe dar uma posição a sua altura; não, nenhuma poderia sê-lo, mas pelo menos uma que não me envergonhe em lhe oferecer. Somos muito bons amigos; você me conhece perfeitamente. O mundo é um lugar diferente para mim desde que você entrou nele. Não posso me separar de voce. Você está em meu pensamento noite e dia. Eu A amo; a desejo. Meu deus, Diana! Uma beleza como a sua enlouquece aos homens!

-É a beleza tudo o que quer um homem em sua mulher? -perguntou ela, com uma espécie de fria estranheza em sua voz-. A inteligência e um corpo são me parecem coisas muito mais sensatas.

-Mas quando uma mulher tem as três coisas, como você as tem, Diana... -sussurrou ele ardentemente, cobrindo com suas mãos as finas mãos dela, que descansavam em seu colo.

Mas com uma força que parecia impossível, dado seu pequeno tamanho, Diana Maio as liberou de seu apertão.

-Basta, por favor. Sinto muito. Fomos bons amigos e nunca me ocorreu que pudesse haver outra coisa. Nunca pensei que pudesse me amar. Nunca pensei em você dessa maneira. Não o entendo. Nunca amei ninguém em minha vida. Meu irmão e eu nos toleramos mutuamente, mas nunca houve afeto algum entre nós. Fique no lugar do Aubrey. Imagine um jovem de dezenove anos, com uma natureza fria e reservada, encarregando de uma irmã recém-nascida, posta em suas mãos sem querer e nem esperá-lo. Era provável que pudesse sentir algum afeto para mim? Eu nunca o quis. Nasci com a mesma natureza fria. Fui criada como um moço e minha educação foi dura. A emoção e o afeto foram eliminados de minha vida. Simplesmente desconheço seu significado. Não quero sabê-lo. Estou muito contente com minha vida. O matrimônio para a mulher significa o fim da independência.

»Nunca obedeci a ninguém; não quero começar agora. Sinto muito lhe haver causado dano. Você foi um camarada esplêndido, mas esse lado da vida não existe para mim. Se tivesse pensado por um minuto que minha amizade ia causar tanto dano, não teria deixado chegar à intimidade, mas não imaginei porque é um tema no qual nunca penso. Um homem para mim é somente um companheiro com o qual saio a cavalo, ou a caçar, ou a pescar; um camarada, e isso é tudo. Deus me fez mulher. Por que? Só Ele sabe.

Sua voz pausada e tranqüila se deteve. Havia nela um tom de fria sinceridade que Arbuthnot pôde reconhecer. Sentia tudo que havia dito, pois não havia dito mais que a verdade. Sentia-se indiferente ante a admiração, e sua atitude invariável para os homens eram tão conhecidas como seu valor intrépido e sua obstinada determinação.

Com sir Aubrey Maio se conduzia como um irmão menor, e como tal recebia aseus amigos. Era popular, inclusive entre as mães de filhas casadoiras, porque apesar de sua fortuna e beleza, suas notórias excentricidades a faziam mais insignificante como rival que outras jovens mais feias e menos bem dotadas.

Arbuthnot continuou sentado em silêncio. Era pouco provável, pensou amargamente, que tivesse êxito onde tinham fracassado outros homens e alguns melhores que ele. Tinha sido um estúpido em sucumbir à tentação; conhecia-a bem demais para saber de antemão qual ia ser sua resposta. O temor verdadeiramente real por sua segurança, que lhe tinha inspirado a declaração, sua proximidade no mistério da noite oriental, as luzes, a música, tudo se tinha combinado para fazer brotar de seus lábios palavras que em outro momento nunca teria proferido. Amava-a, amaria-a sempre, mas sabia que seu amor era tão sem esperança como era eterno. Mas ela queria como amigos a homens que fossem homens, assim devia passar com valentia esse golpe amargo.

-Posso continuar sendo seu camarada, Diana? -perguntou com voz tranqüila.

Ela o olhou por um momento, mas à luz tênue dos faróis os olhos dele permaneceram firmes nos dela, e então lhe tendeu a mão com franqueza.

-Ficarei Encantada -disse-lhe com tom sincero-. Tenho muitos conhecidos, mas muito poucos amigos. Sempre estamos viajando Aubrey e eu, e nunca temos ocasião de fazer amizades. Raramente permanecemos tanto tempo em algum lugar como estivemos na Biskra. Na Inglaterra nos consideram muito maus vizinhos; estamos tão pouco lá! Geralmente vamos para casa por três meses no inverno para as caçadas, mas o resto do ano viajamos pela superfície do globo.

Ele manteve os finos dedos da moça apertados nos seus por um momento, segurando um louco desejo de levar-lhe aos lábios, coisa que sabia que teria sido fatal para sua amizade, e logo os soltou. Miss Maio continuou sentada a seu lado tranqüilamente. O acontecido não a havia desanimado de forma alguma. Tinha acreditado nele literalmente e o tratava como ao camarada que ele havia pedido. Não lhe ocorria que podia libera-lo de sua presença, como tampouco que esta podia ser embaraçosa. E enquanto seguiam sentados em silêncio, os pensamentos dela perdidos no deserto e os dele cheios de vãos desejos e lembranças melancólicas, elevou-se a voz grave de um homem na calma da noite.

-Mãos pálidas que amei junto ao Shalimar. Onde estão agora Quem tem cansado sob seu feitiço -cantava com uma voz apaixonada e vibrante de barítono. Cantava em inglês, e entretanto, a suave transição quase imperceptível de nota a nota era estranhamente pouco inglesa. Diana Maio se inclinou para frente, com a cabeça erguida, escutando atentamente com olhos brilhantes. A voz parecia surgir das espessas sombras ao fundo do jardim, ou talvez viesse de mais longe, do caminho, mais à frente do cerco de cactos. O homem cantava devagar, como se sua voz acariciasse as palavras, deixando morrer o último verso clara e brandamente até desvanecer-se, quase imperceptível, no silêncio.

Por um momento reinou a calma total; logo Diana se virou para trás, com um pequeno suspiro.

-A canção de Cachemira. Faz-me recordar a Índia. Ouvi um homem cantantdo-a neste país o ano passado, mas não assim. Que voz maravilhosa! Quem será?

Arbuthnot a olhou com curiosidade, surpreso ante o repentino acento de interesse que descobriu em suas palavras e uma rara animação de seu rosto.

-Você diz que não existe a emoção em sua natureza, e entretanto a canção desse homem desconhecido a comoveu profundamente. Como concilia ambas as coisas? -perguntou-lhe, quase com raiva.

-A apreciação da beleza é emoção? -perguntou ela elevando os olhos-. Com segurança, não. A música, a arte, a natureza, toda a beleza me atrai. Mas não há nada emocional nisso. É somente que prefiro as coisas belas às feias. Por esse motivo até dos vestidos bonitos eu gosto –adicionou.

-Você é a mulher melhor vestida na Biskra -admitiu ele-. Mas isso não é uma concessão aos sentimentos femininos que você despreza?

-Nada disso. Interessar-se por roupa não é um vício exclusivamente feminino. Eu gosto dos vestidos bonitos. Passo algum tempo pensando em combinações de cores que vão bem com meu cabelo horrível, mas lhe asseguro que minha costureira tem uma vida mais tranqüila que o alfaiate do Aubrey.

Ela ficou em silencio, esperando que o cantor não tenha ido embora, mas não se ouvia som algum, salvo o chiado de uma cigarra próxima. voltou-se no assento, olhando na direção de onde vinha.

-Escute. Que bichinho simpático! É o primeiro que ouço quando chego ao Port Said. Significa o Oriente para mim.

-Insetos enloquecedores! -disse Arbuthnot irritado.

-Esses insetos vão ser meus amigos nas próximas quatro semanas... Você não sabe o que esta excursão significa para mim. Eu gosto dos lugares selvagens. Os momentos mais felizes de minha vida eu passei acampando na América e na Índia, e sempre desejei conhecer o deserto mais que nenhum outro lugar. Vai ser um mês de pura alegria. Vou sentir-me enormemente feliz.

Deu uma risada de intenso prazer, e se voltou-se esperando Arbuthnot. Este ficou em pé a contra gosto e permaneceu em silencio a seu lado durante uns momentos.

-Diana, queria que me deixasse beijá-la só uma vez -exclamou com tristeza.

Ela levantou os olhos rapidamente, com um brilho de ira em seus olhos, e sacudiu a cabeça.

-Não. Isso não é conveniente. Nunca fui beijada em minha vida. É uma das coisas que não compreendo.

Pôs-se a andar sem pressa para o hotel, e ele partiu a seu lado pensando se teria perdido a amizade da jovem. Mas na galeria ela se deteve e disse com o tom de franca camaradagem com que sempre lhe tinha falado:

-Eu o verei pela manhã?

Ele a compreendeu. Não devia haver nenhuma nova alusão ao que tinha passado entre eles. O oferecimento de amizade se mantinha, mas so nos termos convindos. Refez-se.

-Sim. Combinamos que uma dúzia de nós irá para lhe servir de escolta, acompanhando-a nos primeiros quilômetros, e despedir-nos de você de forma adequada.

Ela fez um gesto sorridente de protesto.

-Serão necessárias quatro semanas de solidão para rebater a presunção que vou adquirir -disse ligeiramente, ao entrar no salão de baile.

Umas horas mais tarde, Diana entrou em seu dormitório e, acendendo a luz elétrica, colocou as luvas e o carnê de baile em uma cadeira. A casa estava vazia porque a donzela tinha sofrido uma vertigem ao ouvir que devia acompanhar a sua ama ao deserto, e teve que ser enviada a Paris para esperar ali sua volta. Tinha partido esse dia levando consigo a maior parte da bagagem pesada.

Diana se deteve no centro da habitação e contemplou os preparativos para a partida da manhã seguinte, com um pequeno sorriso de satisfação. Tudo estava em ordem; os acertos finais tinham ficado concluídos uns dias antes. A caravana de camelos com a equipe do acampamento devia sair da Biskra umas horas antes da hora fixada pelos Maio, para partir com o Mustafá Alí, o guia que as autoridades francesas tinham recomendado a contra gosto. As duas grandes valises que Diana levava consigo estavam abertas, com tudo preparado, so em espera das últimas coisas necessárias, e ao lado delas o baú de camarote, do que se encarregaria sir Aubrey, para deixá-lo em Paris aao passar por ali. Em uma chaise longue estava seu traje de montar, preparado para a manhã. Seu sorriso se acentuou ao olhar as calças bem cortadas e as botas de montar marrons. Era a roupa que tinha usado a maior parte de sua vida, e com a que se encontrava muito mais cômoda que com os vestidos bonitos dos quais se riu com o Arbuthnot.

Alegrava-se de que tivesse terminado o baile; não era uma coisa que lhe atraíra. Só pensava na iminente aventura. Estirou os braços com uma risada de felicidade: «É a grande aventura, e vai começar de novo amanhã pela manhã». Cruzou até a mesa penteadeira e, apoiando os cotovelos nela, olhou-se no espelho dirigindo um sorriso amistoso à imagem refletida. NA falta de outro confidente sempre tinha falado consigo mesma, sem pensar na beleza do rosto que lhe devolvia o olhar do espelho.

O único comentário que se fazia às vezes sobre seu aspecto era desejar que seu cabelo não fosse de um tom tão monótono.

Contemplou-se agora com um indício de curiosidade. «Queria saber por que me sinto tão especialmente feliz esta noite. Deve ser porque estivemos muito tempo na Biskra. Foi muito agradável, mas começava a me sentir muito aborrecida». Riu de novo e pegou seu relógio para lhe dar corda. Uma de suas peculiaridades era não usar jóias de nenhuma classe. Até o relógio que sustentava na mão tinha uma lisa correia de couro.

Despiu-se lentamente, e com cada movimento se sentiu mais vulnerável. Depois de ficar com um fino robe de chambre sobre seu pijama e acender um cigarro, saiu à ampla balaustrada que dava a seu dormitório. O aposento estava no segundo piso, de frente a sua janela se elevava um dos pilares esculpidos que sustentavam o balcão localizado sobre sua cabeça. Olhou aos jardins, abaixo. Era fácil subir, pensou com um sorriso juvenil...; muito mais fácil que muitas das escaladas que tinha realizado quando sentia imperiosamente a necessidade de uma escapada solitária; os serventes indígenas tinham o desconcertante costume de dormirem em qualquer lugar em que os vencesse o sono, e não fazia muito que desceu de seu balcão para cair totalmente sobre uma massa humana adormecida que tinha despertado meio hotel com seus uivos. Inclinou-se sobre o parapeito, tratando de olhar na galeria situada debaixo, e lhe pareceu discernir uma roupagem branca. Olhou de novo e desta vez se elevou sobre a larga borda do corrimão. Sentando-se comodamente, com as costas apoiada na coluna, olhou por cima dos jardins para a noite, cantarolando brandamente a canção de Cachemira que tinha ouvido pouco antes.

A lua cheia estava alta, e sua luz fria e brilhante enchia o jardim de espessas sombras. Contemplou algumas, que inclusive pareciam mover-se, como se o lugar estivesse animado por figuras que se arrastassem precipitadamente, e se divertiu as seguindo até a palmeira ou o cacto que as originava. Uma, em particular, resultou ser a sombra de uma grotesca estátua de chumbo, meio oculta por um arbusto em flor. Esquecendo a hora e as janelas abertas a seu redor, prorrompeu em uma gargalhada, interrompida pela aparição de uma figura, vista de maneira difusa através da grade que dividia seu balcão do próximo, e o som de uma voz irritada.

-Por amor do céu, Diana, deixe os outros dormirem, se você não pode fazê-lo.

-O que, bem interpretado, é deixar dormir sir Aubrey Maio -replicou ela, rindo-. Meu querido jovem, durme se quiser, mas não sei como pode fazê-lo em uma noite como esta. Viu alguma vez uma lua tão maravilhosa?

- OH, ao demônio com a lua!

-Não te zangue por isso. Volta para a cama e não a verá. Mas eu vou seguir sentada aqui.

-Diana, não seja idiota! se dormir, cairá no jardim e quebrara o pescoço.

-Tant pis pour moi. Tant mieux pour toi -disse ela, alegremente-. Deixei-te tudo que possuo no mundo, querido irmão. Pode ir mais longe o carinho?

Voltou a olhar ao jardim. Era uma noite maravilhosa, misteriosa, com o mistério inexplicável que existe sempre nas noites orientais, nas que o silêncio só é quebrado pelo monótono chiar das cigarras. Os aromas do Oriente se elevavam a seu redor; pareciam mais perceptíveis de noite que de dia. Com freqüência em sua casa tinha permanecido no pequeno balcão de pedra da habitação aspirando os aromas da noite: o aroma penetrante da terra depois da chuva, o aroma dos pinheiros próximos à casa.

Foram os aromas excitantes da noite os que primeiro a impulsionaram, de muito menina, a desprender-se de seu balcão, agarrando-se às grosas raízes da hera, para passear com uma deliciosa sensação de culpabilidade pelo parque iluminado pela lua e às vezes pelo sombrio bosque vizinho. Sempre esteve totalmente desprovida de medo.

Sua infância tinha sido estranha. Não houve parentes próximos que se interessassem na menina órfã que tinha ficado confiada aos tenros cuidados de um irmão perto dos vinte anos, horrorizado ante a carga que lhe tinha sido imposta. Interessado em si mesmo e na liberdade de saciar o anseio de viajar que o consumia, tinha evitado a responsabilidade da maneira mais fácil possível. Durante os primeiros anos de sua vida a criança tinha sido deixada em mãos de babás e serventes que a mimaram sem discriminação. Logo, quando ainda era muito pequena, sir Aubrey Maio retornou de uma longa excursão e, estabelecendo-se por um par de anos, ocupou-se da educação futura de sua irmã. Vestida e tratada como um moço aprendeu a montar a cavalo, a atirar e pescar, não como diversões, a não ser seriamente, a fim de poder mais tarde ocupar um lugar como companheira do homem cujos únicos interesses eram esses. Seu ar de fadiga era fingido. Em realidade tinha uma constituição de ferro, e sua intenção era que Diana chegasse a seu igual. Com esse objetivo, criou-a de maneira espartana, não fazendo nenhuma concessão ao sexo ou ao temperamento, e nada evitou para obter o resultado desejado.

A moça tinha respondido valentemente, dedicando-se em corpo e alma à vida árdua e fatigante que lhe tinham planejado. Os únicos obstáculos que lhe impediam de desfrutar perfeitamente desta existência eram as lições necessárias que devia receber, embora até estas podiam ter sido piores. Todas as manhãs ia a cavalo através do parque até a reitoria para estudar um par de horas com o reitor, cujo coração estava mais no estábulo que em sua paróquia, e cuja reputação era major caçando raposas que no pulpito. Seus métodos eram ásperos, mas ela era inteligente, e adquiriu uma quantidade assombrosa de conhecimentos da mais diversas espécies.

Mas sua educação ficou interrompida, em forma abrupta, quando cumpriu os quinze anos e chegou à reitoria um muchachote, que tinha sido enviado ao musculoso reitor como último recurso por seu desesperado pai. Este descobriu rapidamente o que aqueles, entre quem se criou, logo que notavam: que Diana Maio, com as roupas e maneiras de um moço, era na realidade uma jovem de formosura pouco comum.

Com a desenvoltura acostumada em seu tipo, tinha aproveitado a primeira oportunidade para se declararar com uma tentativa de obter o beijo que até então sua boa presença sempre tinha conseguido. Mas esta moça era moça só por um acidente de nascimento; mais rápida com suas mãos, muito melhor treinada que ele, e com a força natural acrescentada por uma raiva furiosa lhe enegreceu os olhos antes de que se desse conta do que acontecia, e quando o reitor apareceu ante eles, atraído pelo alvoroço, Diana dava voltas ao redor dele como um galo de briga enfurecido.

O professor apartou a briga, e logo, sem fôlego e irritado, cruzou o parque com a jovem e anunciou em poucas palavras a sir Aubrey, quepor acaso estava em casa em uma de suas estranhas visitas, que sua aluna era muito inteligente e bonita para continuar seus estudos na reitoria. Logo se despediu tão depressa como tinha chegado, deixando que sir Aubrey solucionasse o novo problema de Diana. E, como sempre, foi resolvido da maneira mais cômoda possível. No físico era perfeitamente capaz de desempenhar o papel para o qual sempre a tinha preparado; mentalmente supunha que sabia tudo o que era necessário que ela soubesse, e, de qualquer forma, o viajar em si era uma educação, e muito melhor que a que podia aprender nos livros. Assim, Diana iniciou incessantes viagens com seu irmão, e em quinze dias a velha vida tinha ficado atrás. Estes continuaram durante os últimos seis anos; anos de mudança perpétua, de excitação e de perigos.

Pensou em tudo isso, sentada na larga balaustrada do balcão, com a cabeça reclinada contra a coluna em que se apoiava. «foi uma vida esplêndida», pensou. «E amanhã..., hoje, começa a parte mais perfeita». Bocejou, sentindo repentinamente um sono desesperado. Voltou para a habitação, e deixando as janelas totalmente abertas, e tirando o robe de chambre, deitou-se na cama e dormiu quase antes de que sua cabeça tocasse o travesseiro.

Devia ser uma hora mais tarde quando despertou de repente, completamente acordada. Permaneceu imóvel, olhando com cautela entre suas espessas pestanas. O quarto estava banhado pela luz da lua, não se via nada, mas ela experimentava a sensação de que havia outra presença no quarto além da sua; tinha tido uma visão semi consciente no momento de despertar, de alguma coisa vaga, que tinha parecido desvanecer-se pela janela. Ao acordar passando para a realidade atual desse pensamento através do sono que embotava sua mente, e converter-se em uma sugestão concreta, saltou da cama e correu ao balcão. Estava vazio. inclinou-se sobre o parapeito, escutando atentamente, mas não pôde ver nem ouvir nada. Intrigada, voltou para o quarto e acendeu as luzes. Nada parecia faltar: seu relógio estava onde o tinha deixado, sobre o penteadeira, e parecia que ninguém havia mechido nas valises. Ao lado da cama se achava o revólver com culatra de marfim que sempre levava, tal como ela o tinha posto. Olhou de novo ao redor do quarto, franzindo o cenho. «Deve ter sido um sonho», pensou com ar de dúvida. «Mas me pareceu muito real. Parecia alto, branco e sólido, e o senti ali».

Esperouum momento ou dois, logo deu de ombros, apagou as luzes e se enfiou na cama.Seus nervos eram admiráveis, e cinco minutos mais tarde estava novamentedormindo.

14 de Dezembro de 2019 às 07:09 0 Denunciar Insira 0
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