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lara-one Lara One

Dois agentes enlouquecidos numa ilha deserta. Enlouquecidos em todos os sentidos… Nota: desipere in loco (latim): ‘Enlouquece-te de vez em quando’. Conselho de Horácio a Virgílio para que misture um pouco de loucura à prudência que caracteriza suas obras...


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

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S06#23 - DESIPERE IN LOCO


Quando desistires, me terás...


INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

[Som: Billy Paul – Me and Mrs. Jones]

Sunflower & Cinnamon Cafe - Washington, D.C. – 6:31 P.M.

A jukebox tocando a canção. Mulder, de terno e gravata, sentado à mesa do café. Scully sentada de frente pra ele, num tailleur. Pastas de trabalho num canto da mesa.


Me and Mrs. Jones... We got a thing going on...

Eu e a Sra. Jones... Tem algo acontecendo entre nós...

We both know that it's wrong but it's much too strong to let it cool down now

Nós ambos sabemos que está errado, mas é muito mais forte para deixar esfriar agora


Mulder cabisbaixo, segurando o copo de uísque sobre a mesa, lendo um documento. Scully toma um chá, olhando pra ele, tristemente.


We meet every day at the same café... Six-thirty... I know

Nós nos encontramos diariamente no mesmo café... Seis e trinta... Eu sei

I know she'll be there... Holding hands... Making all kinds of plans

Eu sei que ela estará lá... De mãos dadas... Fazendo todos os tipos de planos

While the jukebox plays our favorite song

Enquanto a vitrola toca nossa canção favorita


Mulder respira fundo.

MULDER: - Tem uma caneta?

SCULLY: - (ENTREGA A CANETA) Estou me divorciando de você se assinar isso.

MULDER: - Eu sabia que você não ia adiante.

SCULLY: - Mulder, eu... Você me pressiona por uma decisão num momento em que não estou pronta para tomá-la.

MULDER: - Lamento, não posso mais esperar por você, Scully. Já esperei demais.

Mulder assina o papel. Entrega pra ela.

SCULLY: - (TRISTE) Mulder tem certeza do que está fazendo?

MULDER: - Tenho. Skinner chegará na segunda. Entregue minha demissão. Sairei da cidade no domingo, vou ficar algumas semanas fora para arejar a cabeça.

SCULLY: - Mulder... Você lutou tanto pela sua carreira de agente. Vai jogar tudo pra cima? Sua aposentadoria, seus anos de trabalho, um emprego público, um salário certo e...

MULDER: - Já perdi mais do que isso, Scully. Não tem mais nada pra mim naquele lugar, exceto continuar a ser alvo fácil e colocar a minha vida, a sua e a da nossa filha em risco.

Ellen arruma os doces no balcão, angustiada, sem desviar os olhos de Mulder e Scully. Mulder tira um cartão do bolso e entrega pra Scully.

MULDER: - Meu advogado. Ele vai entrar em contato com você. Eu não quero nada, apenas minha filha. Podemos compartilhar a guarda, você é a mãe dela e eu não vou negar a você o direito de vê-la. Então, se puder assinar o divórcio o mais rápido possível... Só para que a dor seja menos cruel... Eu agradeço.

O silêncio fica no ar. Scully guarda a demissão de Mulder na bolsa.

MULDER: - Agora terá os Arquivos X todos só pra você. Espero que coloquem um parceiro a sua altura.

SCULLY: - Mulder... Isso é injusto com você, sabia? Foi você quem construiu aquele departamento!Aquele porão é a sua vida, Mulder! Não existem Arquivos-X sem você!

MULDER: -Não mais, Scully. Tudo o que ganhei naquele porão eu também perdi naquele porão... Eu encontrei minha irmã, eu não quero mais acreditar porque eu acredito e a verdade eu já descobri há muito tempo.

SCULLY: - Mas o que fazemos lá é ajudar as pessoas, Mulder.

MULDER: - Eu vou poder ajudar muito mais as pessoas se estiver livre pra fazer isso. Eu já fui humilhado demais, perseguido demais... Eu já dei meu sangue pelo FBI. Eu fiz minha parte e não quero envelhecer lá dentro, aturando as mesmas coisas, sofrendo as mesmas coisas. A verdade não está lá, Scully. Nunca esteve. Nem está lá fora. A verdade está dentro de cada um de nós. Você foi a única verdade que eu encontrei naquele porão. E como eu disse... Tudo o que ganhei naquele porão, eu também perdi.

Mulder olha pro relógio.

MULDER: -Vou pra casa. Baba e Victoria não estão. Vou aproveitar para fazer algumas coisas.

SCULLY: -Não reconheço mais você, Mulder.

MULDER: - Lamento que pense assim, Scully. Porque eu ainda sou o mesmo homem. Com alguns fios brancos na cabeça e mais maduro para entender que a vida é apenas uma. Eu perdi você por isso. Eu sei que foi. Minha busca era prioridade. Você vinha em segundo plano.

SCULLY: - Mulder, não faça isso com você mesmo. Sabe que não, eu nunca me senti em segundo plano. Então somos culpados em igualdade porque eu alimentava a sua busca!

MULDER: - Agora você falou tudo, Scully. Você me alimentava. Eu não tenho mais alimento. Muito menos fome... Mas não se sinta culpada pela minha decisão. Ela não tem nada a ver com você, é uma escolha minha. Apenas minha. Eu cansei.

Mulder deixa o dinheiro sobre a mesa. Pega as pastas e sai do café. Scully o acompanha com os olhos cheios de lágrimas.

VINHETA DE ABERTURA: BACK TO MY LIFE



BLOCO 1:

Clube - 10:18 A.M.

Ellen e Scully tomando banho de sol na piscina. Ellen lê uma revista. Scully de óculos escuros, calada.

ELLEN: - Parece loucura apostar em alguém que eu nem conheço direito, mas ninguém nunca se conhece direito... Eu gosto do Walter, ele gosta de mim. Nos casamos não foi por amor. Nos casamos conscientes da necessidade de ter alguém, do cansaço da solidão... E estamos nos apaixonando. Dana, vamos tomar um suco?

Ellen guarda a revista na bolsa. Scully veste uma blusinha e uma saia longa. Ellen coloca um vestido de praia. As duas saem em direção a lanchonete do clube.

SCULLY: - (INTRIGADA) Mulder não disse uma piada ontem... Trabalhamos o dia todo sem ele abrir a boca pra nada. Quando fomos pro café, como temos feito, ele me entregou a demissão e o cartão do advogado dele. Mulder está indo, Ellen. Eu o perdi. Você tem razão nas coisas que disse. Mulder desistiu de mim, desistiu do FBI. E eu acho que tem mulher nessa história. E estou furiosa com você!

ELLEN: - Comigo? Que culpa eu tenho nisso? Eu não tenho nada com o Mulder!

SCULLY: - Você vendeu aquela casa na frente da minha casa!

ELLEN: - Espera aí, "sua casa" Dana? Que eu saiba Mulder é quem mora lá! E eu precisava vender a casa o mais rápido possível!

SCULLY: - Ah, então se você sabe que é Mulder quem mora lá, então por que vendeu a casa para a perua louca?

ELLEN: - Ah, eu não acredito que estou ouvindo isso! Você não está falando sério!

SCULLY: - Não tinha mais nenhum comprador ou você fez questão de vender pra ela? Seja sincera comigo, Ellen!

ELLEN: - Dana, por favor! Eu comentei com a Barbara sobre a casa, ela queria se mudar do apartamento por questões de segurança, você sabe que já tentaram matá-la! O apartamento dela é uma cobertura em Washington, super valorizado, fizemos um bom negócio e... Ok. Eu dei preferência pra Barbara Wallace porque ela é uma boa pessoa, é mulher e também uma lutadora. E joga no nosso time, se você ainda não sabe. Ela agora é uma "X-Woman" como nós.

SCULLY: - Você fez de propósito! Admita, Ellen!!!

ELLEN: - Dana, mas o que tem demais? A Barbara é uma pessoa legal e...

SCULLY: -Ela vai morar na frente do Mulder!

ELLEN: - Eu não acredito no que estou ouvindo! Por que você nunca implicou com a loura da Modeski? Ahn? Ela também é amiga do Mulder. Eu também sou!

SCULLY: - Ah, por favor, Ellen! Susanne Modeski é minha amiga também, nos conhecemos há anos, já trabalhamos juntas e ela está casada com o Byers. Você é amiga de infância e está casada com o Skinner.

ELLEN: - Certo. E a Barbara está com o gostosão malvado da jaqueta de couro e brinco na orelha.

SCULLY: - É diferente, Ellen! E Mulder agora está solteiro. E ela... Aquela mulherzinha inveja o que é meu!!!

ELLEN: -Dana, seja razoável! Você cismou com a mulher! Está se escutando? Desde quando Mulder e Barbara tem alguma coisa? Ela não está com o bonitão da jaqueta de couro? Ou você é quem gostaria de estar com ele? Ahn? Seja sincera, amiga, eu sei que o russo lá é bem tentador. Aposto que ele é quente! Que Walter não me escute!

SCULLY: - Não, tá maluca? Eu não quero nada com o Alex Krycek! Eu só acho que ela é uma mulher bonita e atraente e o Mulder gosta de morenas e... Ai, Ellen... Eu tô surtada, não estou?

ELLEN: - É. Ainda bem que percebeu. Pensa comigo, é melhor que ela seja vizinha do Mulder do que uma outra desconhecida da qual você não saiba as intenções. Pelo menos ela é confiável e é da nossa turma. E pode ficar de olho no seu Mulderzinho e avisar se ele sair da linha. Dana, essa sua insegurança e ciúme doentios isso sim é o que irrita o Mulder. Pode apostar! Imagina, a Dona Rata... Ela tá caída pelo rato dela, não notou? E ela tem ciúmes de você.

SCULLY: - Eu não quero nada com o rato dela, meu negócio é raposa! Quer saber? Ellen, eu quero sair correndo e me atirar nos braços do Mulder, mas sinto um aperto no meu coração. O meu maior medo é que aquele demônio fez tanto pra nos separar... O que poderá fazer se voltarmos a ficar juntos? Eu penso em Mulder e Victoria. Tenho medo do que pode acontecer a eles se eu voltar. E a culpa que sinto? Depois de todas as coisas que eu fiz e disse, como posso encarar Mulder?

As duas entram na lanchonete. Sentam-se.

ELLEN: - Você não vai saber se não tentar. Acha justo sacrificar sua vida por medo? Encare, Dana. Você já foi mais forte, agora tem medo de tudo? Você enfrentou tanta coisa pra ficar com Mulder e agora vai desistir?

SCULLY: - ... Acho que perdi o encanto aos olhos do Mulder. Não sei se a minha volta despertaria o mesmo encanto que ele sentia por mim. Acho que acabou mesmo. Confesso, eu fui a culpada. Eu vou carregar essa mágoa pro resto da vida, porque fui feliz, não soube lidar com isso e deixei as coisas se abaterem até tornar a vida dele um inferno. Se eu estou sofrendo?

ELLEN: - ...

SCULLY: - Eu sofro por ele. Eu choro por ele. Mas é bem feito. Eu ainda tenho que chorar muito e todas as lágrimas que eu derrubar na vida, não irão equivaler as lágrimas que ele derrubou por mim. Espero que ele seja feliz. Não vai ser difícil alguma mulher amar o Mulder. Ele não pede muito em troca.

ELLEN: - Amiga...

SCULLY: - Vou trocar de roupa. Pede um suco de abacaxi e uma salada.

Os dois homens distintos, Michel e Orlando, e a loura Debbie, estão bebendo drinques e observando as pessoas. Michel observa atentamente o aeroplano no campo de pouso enquanto segura uma valise. Percebe Scully indo pro vestiário.


Residência dos Mulder – 11:39 A.M.

[Som: Barry Manilow - Ready to Take a Chance Again]

Sótão. Close no telefone fora do gancho. Embalagem de pizza no chão, latas de cerveja, sementes de girassol.

Mulder deitado no sofá, calças do pijama, segurando a garrafa de uísque na mão. Cookie termina de comer as últimas fatias de pizza, espalhando mais sujeira pelo chão. Mulder empina a garrafa já pela metade, bêbado.

MULDER: -(IMITANDO SCULLY) "Não reconheço você, Mulder"... Ahn! As mulheres passam anos tentando mudar seus maridos, depois reclamam que eles não são os mesmos com quem se casaram!

Mulder toma outro gole. Fala sozinho, apontando pro cachorro.

MULDER: - Eu fui duro com ela, Cookie... Ah, você precisava ver! Estava com os olhos arregalados pra mim feito duas jabuticabas! Vou ensinar respeito pra ela. Eu vou! Pensa que vou ser palhaço a vida toda? Ainda vou enfiar um par de chifres nela! Sabe? Aqueles que chegam a dobrar de tão grandes!

Mulder levanta-se tonto.

MULDER: - A quem eu quero enganar? Eu não consigo traí-la nem que eu queira! (DEPRIMIDO) ... Ela me dá pena. Sabe, cão, eu tenho pena dela. Por ter jogado tudo fora. (SEGURA AS LÁGRIMAS) Não, hoje eu não vou chorar. Estou prestes a sair de um cargo público com um salário certo, uma aposentadoria boa e estou aqui chorando por causa dela! (REVOLTADO) Dane-se o FBI, cão! Aquilo não é um emprego, é um reality show pro Sindicato assistir e manipular a minha vida como querem, me usar como peão e ferrar a vida da Scully! Nunca teremos paz continuando ali, mas a Scully não percebe isso! Sabe como sinto naquele lugar? Como um boneco exposto na vitrine de uma loja de armas com uma placa no pescoço escrita "atire, sou o alvo!" Chega! Eu só quero viver a droga da minha vida um pouquinho... E quero a minha Scully de volta!

Mulder desce as escadas, apoiando-se na parede. Cookie vai atrás dele.

MULDER: - (REVOLTADO/ RESMUNGANDO)Arquivos X... Sabe por que o X? Não é porque tem mais espaço no arquivo não. Cheguei a conclusão que o X sou eu. Alvo marcado. Atire no idiota do porão! Jogue a culpa no idiota do porão! Minta, omita e use o idiota do porão! O X foi tatuado na minha testa!

Mulder chega na sala, cambaleando. Vira a garrafa na boca. Liga a TV. Cookie pula pra poltrona, se ajeitando. Mulder vai sentar-se no sofá, mas para. Solta a garrafa na mesa de centro. Tira a coelha enorme que está sentada no sofá. Mulder senta-se. O periquito vem andando pelo encosto se aproximando de Mulder. Sobe em seu ombro, mordiscando sua orelha, fazendo carinho. Mulder pega as sementes de girassol. Entrega uma pro periquito e coloca outra na boca.

Clube - 12:05 P.M.

A lanchonete do clube fechada. Michel mantém Scully contra si, braço em volta do pescoço dela, arma na cabeça.

MICHEL: - (AOS GRITOS) Eu não vou negociar mais nada! Ela vai morrer! Eu quero o avião agora ou mato a agente federal!!

SCULLY: - (MURMURA) Que ótimo final de semana... Primeiro Kersh com serviço extra. Depois Mulder. Agora esse idiota.

A polícia cercando o local. Carros do FBI chegando.


Residência dos Mulder –12:17 P.M.

Mulder levanta-se do sofá. Tropeça nos brinquedos espalhados pela sala. Entra no banheiro. Para em frente ao vaso, descendo o pijama. Percebe a toalha de rosto, com o nome 'Dana' bordado. Joga a toalha no lixo.

Na TV da sala, carros de polícia e do FBI parados no clube, em frente a lanchonete. Os atiradores de elite posicionados em locais estratégicos, mirando as janelas.

APRESENTADOR (OFF): - ... Na NBA. Agora vamos as notícias do caso Lorran. O empresário Michel Lorran, procurado por crime de sonegação de impostos, foi encontrado pela polícia esta manhã na sede de um clube na Virgínia, onde mantém uma refém. Michel já estava com sua fuga planejada, de posse de seu jato particular, juntamente com a namorada Debbie Lancaster e um homem ainda não identificado. Já temos informação confirmada. A refém chama-se Dana Scully e é agente do FBI.

Mulder arregala os olhos, saindo rápido do banheiro. Pega a arma e o distintivo e sai porta à fora, só com as calças do pijama. Nancy varrendo o pátio olha pra ele.

NANCY: - Seu indecente pervertido!!!

MULDER: - Vá se ferrar, sua carola do capeta! Por que não pega essa vassoura e sai voando?

Nancy fica escandalizada.

NANCY: - (AOS GRITOS) George! George! O taradão está bêbado e me ofendendo!!!

Mulder faz cara de sacana. Leva a mão no meio das pernas agarrando as partes íntimas sobre o pijama. Nancy dá um grito, solta a vassoura e corre pra dentro de casa.

MULDER: - Um a zero pra mim, bruxa fofoqueira!!! Vá cuidar da sua vida e pare de me difamar, sua cobra peçonhenta!

Mulder entra no carro e sai virando as latas de lixo. Quase atropela o jornaleiro.


12:31 P.M.

Carros da polícia e do FBI espalhados pelo clube e pela pista de pouso. Mulder estaciona o carro, saindo rapidamente, só com as calças do pijama e cambaleando de bêbado. Kersh ao vê-lo arregala os olhos. Skinner ao lado de Ellen, que está aflita.

SKINNER: - Mulder, está tudo sob controle!

KERSH: - Agente Mulder, não está nesse caso! Volte pra sua casa! Você está de pijamas!

MULDER: - (BÊBADO) Não enche!

KERSH: - Agente Mulder, saia agora daqui ou considerarei insubordinação!

Skinner segura o riso, abaixa a cabeça.

ELLEN: - O que deu nele? Está bêbado?

SKINNER: - Está apenas aproveitando pra fazer coisas que tem vontade, antes que saia do Bureau.

Mulder segue caminhando em direção a lanchonete.

KERSH: - Agente Mulder!!!!!!!! Se entrar aí, vou suspendê-lo por um mês!

Mulder abaixa o pijama e mostra o traseiro pra Kersh. Os agentes e policiais começam a rir.

KERSH: - Agente Mulder, está suspenso!!!!!

Mulder ergue as mãos e aproxima-se da porta de vidro da lanchonete. Coloca o distintivo contra o vidro. Michel, segurando Scully em frente ao corpo, ao ver Mulder na porta, acena para os outros dois. Mulder entra cambaleando, mãos pra cima. Tropeça nas pernas. Scully olha pra ele, surpresa.

MULDER: - Estou desarmado!

Michel faz sinal pra Debbie. Ela aproxima-se de Mulder, se agacha e desliza as mãos pelo pijama revistando Mulder.

DEBBIE: - Ele está mentindo. Tem alguma coisa grande aqui... (FICA CORADA) ... Esquece.

Mulder olha debochado pra ela.

MULDER: - Cuidado, 'ele' é grande, mas é sensível.

Scully fulmina Mulder com os olhos. Debbie levanta-se.

DEBBIE: - Está desarmado, amor.

MICHEL: - O que quer aqui? Eu disse que não quero outro negociador!

MULDER: - (APONTA PRA SCULLY) Ela.

MICHEL: - (RINDO) Tá brincando...

MULDER: - Olha pra minha cara, palhaço, e me diz se eu tô brincando? Fique comigo e solte essa mulher.

Mulder aproxima-se do bar. Serve um uísque. Escora-se no balcão.

MICHEL: - Quem você pensa que é? Ahn? Chuck Norris?

MULDER: - O marido dela. Ou o 'monstro'. Pergunte a ela. Eu sou um monstro.

SCULLY: - Mulder, você está bêbado!Ele não é meu marido!

MULDER: - Como não sou? Enquanto você não oficializar o divórcio eu continuo sendo seu marido! (BATE NO PEITO) Seu marido! Seu dono!

Os bandidos alternam o olhar entre Mulder e Scully, como numa partida de tênis.

SCULLY: - Dono? (TENTA SE SOLTAR DO BANDIDO/ ENFURECIDA) Quem você pensa que é pra ser meu dono? Eu não tenho dono!!!!!! Eu não sou cachorro, não sou mercadoria, sou uma mulher livre e independente, seu machista hipócrita!!!!!!

MULDER: - Mulher? (RINDO) Você é uma máquina mortífera, não uma mulher! Você é uma nanica metida, irritante e chata!

SCULLY: -Estamos separados e isso não dá a você o direito de se meter na minha vida!

MULDER: - Eu? Eu não me meto em sua vida! Vim aqui salvar você!

SCULLY: - Não preciso que me salve! Eu não quero sua ajuda! Mulder, você está bêbado!!!!!

MULDER: - E daí?

MICHEL: - (GRITA/ IRRITADO) Calem a boca!!!!! Eu vou matar essa mulher e mato você junto!

MULDER: - Pode matar. Quem liga? Já vivo num inferno mesmo! Acaba comigo, acaba com ela, acaba com aquele otário lá fora que comanda a operação toda... Hum, gostei da sua arma. É um Colt 45?

SCULLY: - O que veio fazer aqui? Eu não preciso que venha me defender!

MULDER: - Sempre que viro as costas você se mete em encrenca!

SCULLY: - Ninguém pediu pra vir aqui! Eu sei me defender sozinha!

MULDER: - Ah sabe? Deve saber mesmo, porque quem sabe morder sabe se defender.

SCULLY: - Você é um cretino, Fox Mulder! Um cretino! Aposto que ia pra casa fazer festinha privê com a 'imprensa'! Pensei que isso levaria o sábado todo! Ou Krycek apareceu e estragou os planos?

MULDER: -(PROVOCANDO) Você é quem estragou tudo! Como faz sempre! Nem deu tempo da Barbara pegar no meu microfone!

SCULLY: - (AOS GRITOS) Me solta!!!! Eu quero esganar ele!! Só um pouquinho!!!!

Os dois começam a bater boca. Os bandidos observam incrédulos.

MICHEL: - (GRITA) Tirem esse cara daqui! Eu só quero essa ruiva como refém!

MULDER: - Eu não vou sair! Pode ficar com ela de refém, mas eu vou ficar aqui!

DEBBIE: - É aquela coisa de juramento, na saúde e na doença, na tristeza e na alegria...

MULDER: - E no sequestro e no resgate. É. Sou um sujeito de palavra. Jurei, tá jurado. Se ela vai morrer, eu vou morrer junto.

DEBBIE: - Ai, que lindo! Amor, você viu isso? Que romântico! Parece a gente!

MICHEL: - (INCRÉDULO) Se quer ficar fique, mas não atrapalhe minha fuga! Eu não quero matar ninguém, só quero sair do país com minha garota, meu contador e meu dinheiro!

Mulder pega uma bebida e senta-se.


7:32 P.M.

Mulder sentado no chão, bebendo numa garrafa. Relaxado e calmo. Michel ainda mantém a arma apontada na cabeça de Scully. Scully em pé, amarrada, olhos arregalados, suando frio. Michel pega o rádio.

MICHEL: - (AO RÁDIO) Eu juro que vou estourar a cabeça dessa mulher se não liberarem a pista de pouso!!! Quero meu avião!!!! Ou vou começar a matar gente, a começar pela cadela aqui.

MULDER: - (PROVOCANDO/ BÊBADO) Como sabe que ela é cadela, pelo fato de eu ser tratado como cão?

SCULLY: - (IRRITADA) Cala a boca, Mulder! Você é um cão!

MULDER: - (DEBOCHADO) Au au au.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Vem meu cachorrinho a sua dona tá chamando...

Mulder se levanta furioso. Orlando o empurra.

MICHEL: - Calem a boca!!!!!!!! (AO RÁDIO) Cinco minutos pra liberarem a pista antes que eu fique doido com esses dois!!!!!

KERSH (OFF/RADIO): - Já estamos liberando a pista, mas queremos garantia da vida dos nossos agentes.

MICHEL: - (AO RÁDIO) Cinco minutos. Ou eu mato a vaca e logo em seguida...

Michel olha pra Mulder, que olha pra ele debochado.

MICHEL: - (AO RÁDIO) Essa coisa feia e nariguda com distintivo... Cinco minutos!

Michel desliga o rádio. Orlando fuma um cigarro.

MULDER: - ... Acha que você e o Mr. Malboro Man vão se safar?

MICHEL: - Cala a sua boca, você está me tirando do sério! Que tipo de agente federal desfila por aí desse jeito, só com as calças do pijama?

MULDER: - O tipo marido traído.

SCULLY: - Eu nunca traí você!

MULDER: - Tem provas?

SCULLY: - Mulder, cale essa maldita boca, sou eu quem está com uma arma na cabeça e você está deixando o sujeito aqui nervoso!

MULDER: - O que vai acontecer é que se não se entregarem, vão entrar aqui e matar vocês.

MICHEL: - Ah é? Pois eu mato vocês antes disso.

MULDER: - Você não mata ninguém aqui, seu palhaço! Acaba logo com essa merda toda porque eu tô cansado! Faz mais de sete horas que você ameaça... E o pior de tudo, acabaram as bebidas!!!

MICHEL: - Se não calar a sua boca eu mato você primeiro!

MULDER: - Que mata o quê!

SCULLY: - (TENSA) Mulder, cala a boca!!!!!!

MICHEL: - E mato a vaca da sua ex-esposa!

MULDER: - Se tem um chifrudo nessa sala sou eu! Se me matar, ela vai se livrar do traste aqui e ficar com minha apólice de seguro pra gastar tudo com o próximo marido otário!

SCULLY: - (IRRITADA/ GRITA) Cala a sua boca Mulder!

Mulder fica quieto. Michel olha pra Scully.

MICHEL: - Se eu tiver que matar alguém, vou fazer o favor pra você de matá-lo primeiro.

Scully olha atravessado pra Mulder.

SCULLY: - Faria um serviço pra humanidade!


6:31 A.M.

Mulder e Scully amarrados, sentados no banco traseiro do aeroplano, ao lado de Orlando. Debbie e Michel na frente. Michel pilota o avião.

SCULLY: - Se tivesse calado sua boca, eles teriam nos soltado! Mas não, você fala, fala, fala e irrita todo mundo...

MULDER: - Eu? Quem não parou de falar até agora foi você! Vira o disco!

MICHEL: -(AOS GRITOS) Pelo amor de Deus, vocês dois querem parar??????

MULDER: - (BEIÇO) Ela começou!

SCULLY: - Eu? Se eu não tivesse amarrada eu matava você com minhas próprias mãos!

MULDER: - Ha-ha-ha... Olha só!

SCULLY: - Ando com uma raiva de você, Mulder! Não tem tamanho a vontade que estou de esganar você!

MULDER: - É recíproco!

MICHEL: - Orlando, livre-se deles antes que me deixem louco!!!!!!!!!!

MULDER: - Como assim? Vai aterrissar? Na água?

MICHEL: - Quem falou em aterrissar? Espero que saibam nadar!

Corte.


Foco no mar de águas claras. Mulder cai na água. Scully cai em seguida. Mulder volta à superfície. Scully também.

SCULLY: - (HISTÉRICA/ AOS GRITOS) Seu idiota! Se tivesse ficado de boca calada eles iam nos deixar no aeroporto!!!

MULDER: - (GRITA) Ah agora a culpa é minha se você fala pelos cotovelos?

SCULLY: - (GRITA) Mulder, eu vou te matar!!!!!!!!!!

Scully se atraca em Mulder, aos tapas. Mulder desvia, puxa os cabelos dela. Os dois brigam na água. Mulder mergulha e a puxa pelo pé. Scully esperneia, se soltando. Empurra a cabeça de Mulder pra baixo.

SCULLY: - (FURIOSA) Morre!!!!!! Morre seu desgraçado!!!!!!

Mulder se solta. Nada pra longe. Os dois ficam se olhando com raiva.

SCULLY: - (CUSPINDO ÁGUA/ GRITA) Me desamarra!

MULDER: - (GRITA) Eu não! Me desamarre você primeiro!

SCULLY: - (GRITA) Me solta primeiro!

MULDER: - (GRITA) Pra depois você me afogar, indefeso aqui?

Scully range os dentes. Mergulha. Mulder dá um grito, soltando as mãos.

MULDER: -(IRRITADO) Você mordeu a minha bunda, Scully!

SCULLY: - E vou morder outra coisa se não me desamarrar!

MULDER: - Hum, gostei da ideia...

SCULLY: - (GRITA) Seu maldito porco ofensivo! Mulder, você só pensa em sexo nessa sua cabeça doente e pervertida!

MULDER: - (GRITA) Não mesmo, sua mentirosa! Eu também penso em alienígenas e conspirações governamentais! Não necessariamente nessa ordem!

Mulder respira fundo e mergulha. Solta Scully. Volta à tona, observando ao redor.

MULDER: - Aonde será que estamos?

SCULLY: - (FURIOSA) Na puta que pariu, Mulder!

MULDER: - (INCRÉDULO) Scully, credo! Que boca suja!

SCULLY: - (HISTÉRICA) Estou fora de mim e você nem ouviu nada ainda!!!!

MULDER: - (IRRITANTE) Isso tudo é TPM ou é falta de sexo?

SCULLY: - (FULMINANDO MULDER COM OS OLHOS) Eu vou matar você, com as minhas próprias mãos, Fox Mulder!!!!!

MULDER: - (IRRITADO) Hei! Fox não!

SCULLY: - (IRRITADA) Fox, fox, fox!!!

Mulder faz careta pra ela. Scully atira água nele.

MULDER: -Para sua louca! Como vamos sair daqui? Não vejo terra alguma! Vamos morrer afogados!

SCULLY: -Olha aquele tubarão que lindinho! Deve ter uns 15 metros!

Mulder se agarra em Scully aos gritos. Scully na maior calma.

MULDER: - (PÂNICO) Vamos morrer devorados por um tubarão? Faça alguma coisa! Ele vem vindo em nossa direção!!!!

SCULLY: - (DEBOCHADA) Mulder...

MULDER: - (HISTÉRICO) Como pode ficar calma com um tubarão medonho como aquele??? Eu vou morrer! Morrer aqui comido por um tubarão! Que final mais triste pra Mulder, o Estranho!

SCULLY: - (DEBOCHADA) Mulder... Quer se acalmar? É um tubarão baleia...

MULDER: - (PÂNICO) Baleia? Ah meu Deus! Uma bocada só e eu já era!

SCULLY: - Ele não é carnívoro, se alimenta de plânctons e algumas vezes come peixes grandes como o atum.

MULDER: -(PÂNICO) T-tem certeza?

SCULLY: - Absoluta. Agora quer me largar que estou me afogando?

Mulder solta-se dela, com um semblante de 'que papelão!'. Scully olha-o com deboche.

SCULLY: - Tisc, tisc... No que um homem se transforma depois de assistir filmes com a palavra tubarão no título!


Manhã

Mulder atirado na areia. Scully acorda-se. Tenta se localizar. Olha para o mar. Olha para a ilha. Suspira. Senta-se na areia. Mulder se acorda.

MULDER: - Aonde estamos?

SCULLY: - (GRITA) Já disse que não sei!

MULDER: -Nhac nhac... E lá vem dentada gratuita de novo!

SCULLY: -Eu vou te dar "nhac nhac" nessa sua cara debochada, Mulder!!!!

MULDER: - O que eu fiz? Tô imitando o Tutubarão.

SCULLY: - (SANGUE FERVENDO) Por que não imita o Kenny, do South Park, e morre?

MULDER: - (PÂNICO) ... É uma ilha. Deve ter algum povoado, pescadores...

SCULLY: - Não está vendo que isso aqui deve ser uma ilha deserta? Não viu o que falavam sobre estarem indo pra Indonésia, seu bêbado estúpido e bastardo? Estamos do outro lado do pacífico sul! Há centenas de ilhas desertas, nunca mais vão nos achar e o pior de tudo isso é ter que passar o resto da minha miserável vida comendo cocos e olhando pra sua cara imbecil!!!!!! Eu preferia o Senhor Wilson!!!

MULDER: - Au! Au! Au!

SCULLY: - Grrrrrrrrrrrr

MULDER: - (LEVANTA-SE) Vou buscar ajuda. Se eu não voltar... Fui comido por canibais.

SCULLY: - Se isso acontecer, devem estar muito desesperados por sexo!

MULDER: - Como você é engraçadinha. Está me agredindo gratuitamente!

SCULLY: - Eu? Não sou eu quem nos enfiou nessa maldita encrenca porque não sabe calar a maldita boca e acabou irritando os bandidos!!!

MULDER: - Já que estamos sozinhos aqui, não tem nada a milhares de quilômetros e nenhuma câmera, nenhuma testemunha... Eu quero dizer uma coisa entalada na minha garganta: Scully, vá se fu...

SCULLY: - Vá você com os seus canibais!

Mulder entra pelo meio dos coqueiros, completamente irritado. Scully fica sentada. Abaixa a cabeça sobre as pernas.

SCULLY: - É muito castigo! Eu não merecia isso! Ficar aqui com esse idiota me torrando a paciência!!!!! Canibais? Canibais na Indonésia? O que faz o uísque na cabeça de um homem! Daqui à pouco ele pensa que é o Elvis, faz uma prancha e começa a cantar com um colar de flores no pescoço!

Scully suspira.



BLOCO 2:

Tarde.

Scully sobre uma pedra, observa o horizonte, com a mão na testa. Apenas mar. Scully põe as mãos na cintura. Mulder se aproxima, tenso.

MULDER: - É uma ilha deserta mesmo, "Sexta-Feira". Não tem nada aqui além de areia, mato e cocos!!!!! Tem um rio ali atrás, com uma cachoeira. Pelo menos tem água doce. Quer fazer uma cabana?

Mulder, irritado, começa a chutar a areia.

MULDER: - (AOS GRITOS) Merda! Merda! Merda!!!!!!!!!!!!!!!!!

Mulder sem querer chuta uma concha enorme enterrada. Começa a pular num pé só. Scully suspira, erguendo o olhar.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Não entendo a sua reação, "Robinson Crusoé". Não estava achando engraçado? Não é você quem fica assistindo Temptation Island?

MULDER: - (IRRITADO) Mas isto não é Temptation Island! Não tem lindas gatas peitudas, aliás, nem vejo mulher aqui! Só vejo uma anã pintora de rodapé, chata, briguenta e metida!!!

SCULLY: - (IRRITADA) Anã? Pois a Anã aqui vai dar uma voadora na sua cara, Fox Mulder! Não é Temptation Island mesmo, porque não vejo nenhum garotão gostoso e saradão!!! Só vejo um velho irritante e ranzinza com cabelo pintado que não para de resmungar!!!

MULDER: - (IRRITADO) Cala a boca, Scully!!!

SCULLY: - Hei! Cala a boca você, Mulder!!! (DESCE DA PEDRA APONTANDO O DEDO EM RISTE NA CARA DE MULDER) Foi você quem nos meteu nessa fria! Quem tem o direito de estar indignada aqui sou!

MULDER: - (GRITA) Que culpa eu tenho se aqueles malucos nos jogaram no mar? Se você estivesse em casa e não curtindo piscina em clube com a Ellen, falando mal de mim e mostrando seu corpo por aí nesse... (OLHA PRO CORPO DELA) Nesse... (DESVIA O OLHAR) Isso nunca teria acontecido!

SCULLY: - (GRITA) É! E se o Pica-Pau tivesse comunicado à polícia, isso também nunca teria acontecido! Ora, Mulder, você não calou sua boca!!!!!! Você nunca cala sua maldita boca, Mulder! Se tivesse ficado quieto estaríamos em algum aeroporto rumando pra casa! Agora olha pra nós! Por sua causa estamos aqui nessa ilha, perdidos, desesperados e sem nenhuma perspectiva de que sobrevivamos e que nos encontrem!

MULDER: - (GRITA) Admita, você está indignada porque vai ter que olhar pra minha cara por sabe lá quanto tempo!!!!!!!!

SCULLY: - (GRITA) É! Essa é a pior parte!!!

MULDER: - (SACANA) Pense assim. Eu e você sozinhos numa ilha deserta fazendo sexo feito dois animais selvagens, convivendo por muito tempo... Quer brincar de pirata? Eu entro com a espada e você com o baú do tesouro...

Scully se indigna. Caminha furiosa até os coqueiros. Pega um graveto. Vem recuando de costas até o mar, traçando uma linha divisória.

MULDER: - O que está fazendo? Vai escrever S.O.S?

SCULLY: - (MOSTRANDO COM O GRAVETO) Seu lado da ilha. Meu lado da ilha.

MULDER: - (INCRÉDULO) ...

SCULLY: - Aviso: Se ultrapassar essa linha é um homem morto, Mulder!

MULDER: - (PÂNICO) Mas... Scully, precisamos um do outro pra sobreviver aqui até que nos encontrem.

SCULLY: - Não preciso de homem pra sobreviver nem em uma ilha deserta! Me ignore, não estou aqui!

Scully dá as costas e segue pelo seu lado. Mulder senta-se na areia. Olha pro mar e suspira.

MULDER: -(IRRITADO) E eu pensando que ia me dar bem... Eu nunca me dou bem!!!


Final de tarde.

Scully ajeita alguns gravetos na areia. Tenta fazer fogo, com uma pedra e folhas secas. Não consegue. Mulder, sentado na areia, olha debochado pra ela.

MULDER: - Quer ajuda?

SCULLY: - Não!!!!!!!!!

Scully desiste. Some pelo meio dos coqueiros, entrando na ilha. Mulder observa o mar, pensativo.

Corte.


Scully volta com dois pedaços de graveto e algumas palhas secas. Senta-se na areia. Começa a afiar a ponta de um graveto na pedra. Mulder a observa calado e curioso. Scully leva o cabelo pra trás das orelhas. Continua raspando o galho na pedra com força, cansando algumas vezes.

MULDER: - O que vai fazer com esse pau?

Scully vira-se maquiavélica pra ele.

SCULLY: - Não vai querer que eu responda.

MULDER: - Por que está tão mal educada e boca suja comigo?

SCULLY: - Porque não há ninguém aqui além de nós dois pra ver a doce agente Scully virar uma menina má!!! Você me irrita, Mulder!!! Por sua culpa estou presa nessa droga de ilha! As pessoas me criticam dizendo que me irrito fácil, mas elas não dormem com você e não aguentam suas piadinhas chatas por mais de oito horas ao dia! Meu Deus, eu vou assinar logo esse divórcio!!!

MULDER: - Ah, então é assim? Vamos começar a lavar roupa suja? Ótimo!

SCULLY: - Mas claro! Quer lugar melhor pra fazer isso? Não há ninguém por perto para se meter na nossa vida! Podemos nos matar aqui e ninguém jamais vai saber o que aconteceu com "aquele casal tão bonitinho feitos um para o outro".

MULDER: - Então está certo! Eu também estou metido nessa por você! Você me culpa por estar nessa ilha, agora quem eu vou culpar por estar vivendo sozinho todos os dias da minha vida? Quem? Aquela que me fez juras eternas de amor e caiu fora me deixando sozinho com a nossa filha? Procurando alguém por aí melhor do que eu? Nunca vai encontrar outro Mulder idiota para manipular e ceder aos seus caprichos!!!

SCULLY: - (LEVANTA-SE) Quem vou culpar? A mim mesma! (BATE NO PEITO) Culpe a mim! Sou eu a culpada da sua vida feliz ter se tornado uma vida patética! Não culpe o diabo pelos meus erros!

MULDER: - Como fomos terminar assim, se odiando? Pode me explicar?

SCULLY: - Você me odeia? Eu não odeio você!

MULDER: - Eu não odeio você. Pensei que me odiasse.

SCULLY: - Eu odeio a mim mesma. Mas isso não exime o fato de que você estava bêbado e criou toda essa confusão. E agora estamos aqui nessa droga de ilha deserta!

MULDER: - O que quer que eu faça? Ahn?

SCULLY: - Pare de beber! Desde quando está fazendo isso?

MULDER: - ... Não faço na frente da nossa filha.

SCULLY: -Ótimo, fuja pra bebida, os covardes fazem isso. Enfrentam os problemas dentro de uma garrafa.

MULDER: - Eu nunca disse que não era um covarde! Eu quero desligar da realidade! Ela dói! Estou magoado com você e a cada dia que passa, a mágoa só aumenta, porque a lucidez vai chegando e o amor vai sumindo!

SCULLY: - Homens... Vocês esquecem rápido os sentimentos! Ótimo que esta droga toda tenha acontecido agora. Estamos sozinhos, cara a cara, pra lavar toda a roupa suja. Pode começar. Fale porque eu sei que você tem muita coisa pra falar!

MULDER: - Eu não quero falar, porque se eu começar a falar você vai sair daqui nadando em disparada, de tanta razão que eu tenho! Esquecer fácil? Acha que o que você me fez foi coisa pouca pra passar uma borracha em cima, Scully? Com ou sem diabo, eu não consigo esquecer!!!

Scully se levanta e sai caminhando para o outro lado da ilha, cabisbaixa. Mulder levanta-se. Põe as mãos na cintura, observando o mar. Morde os lábios. Olha pra Scully se afastando cabisbaixa.

MULDER: - Ignorante. Você é um maldito ignorante, Mulder! Sabe que ela não tem culpa. Devia ferrar os verdadeiros culpados e não magoar quem já sofreu demais com isso.

Mulder vai até os gravetos que Scully deixou. Pega todo o material e vai para perto dos coqueiros, longe do vento. Ajeita os gravetos para fazer uma fogueira. Coloca a palha no chão. Começa a friccionar um graveto no outro. Consegue uma brasa. Coloca sobre a palha e assopra aos poucos, conseguindo fogo e fazendo a fogueira.

MULDER: - Pronto, minha baixinha dos pés gelados. Pelo menos você não vai passar frio nesse lugar... Vou buscar mais lenha.

Mulder entra na ilha.


Noite.

Scully sentada na areia, assando um peixe na fogueira. Mulder comendo banana, deitado com a cabeça no enorme cacho. Scully séria.

SCULLY: - Obrigada pela fogueira. Foi gentil da sua parte.

MULDER: - Agradeça aos programas de sobrevivência na TV a cabo.

Mulder ergue uma banana em direção a ela.

MULDER: -(DEBOCHADO) Te dou minha banana se você me der o seu bacalhau...

SCULLY: - Bacalhau é a periquita da sua mãe! A minha tá bem cheirosinha! E ofereça a sua banana pra qualquer macaca!!!

Mulder atira a casca da banana na areia. Aproxima-se da linha divisória.

MULDER: - Não vamos chegar a lugar nenhum agindo feito duas crianças birrentas.

SCULLY: - Me avise quando virar adulto.

MULDER: - Eu sou criança, se esqueceu disso? Aquele menino crescido que você dizia amar, mas que provou o contrário.

Scully se levanta. Fica de frente pra ele, cabeça erguida, na ponta dos pés o encarando.

SCULLY: - Olha aqui, Mulder. Eu errei! Eu sei que errei. Sei que não mereço perdão. E sei que você está engasgado pra me jogar tudo isso na cara, então o faça de uma vez, porque eu também não mereço ter que ficar ouvindo isso pro resto da minha vida!

MULDER: - (OLHANDO PRO CHÃO) Você está invadindo meu lado da ilha.

SCULLY: - Não mude de assunto!

MULDER: - Olha aí... Seu dedão está do meu lado...

SCULLY: - Eu invado o que eu quiser!

MULDER: - Foi você quem inventou essa coisa de delimitação de território. Então respeite.

Scully se enfurece. Atraca-se em Mulder, os dois caem na areia. Ela batendo, ele se defendendo.

SCULLY: - Eu vou te matar!!!!!!

MULDER: - Aahhhhhhhhh!!!!!!!!!!!

SCULLY: - Eu vou sufocar você até morrer!!!!!!

MULDER: - Me solta sua louca!!!!!!!!! Para, para! Isso dói!!!!!

SCULLY: - Eu quero esganar você, Mulder! Esfolar o seu couro, seu bastardo, irritante e implicante!!!!!!!!!

Scully o segura pelo pescoço dando com a cabeça de Mulder na areia.

MULDER: - (ENGASGANDO) Para! Para! Você está me sufocando!!!

SCULLY: - Eu vou matar você, seu cretino! Eu tô com raiva de você, você me irrita Mulder!!!!!!

Mulder fecha os olhos, imóvel. Scully solta o pescoço dele.

SCULLY: - Mulder?

MULDER: - ...

SCULLY: - (PÂNICO) Mulder!!!!!!!!

Scully, completamente nervosa, deita a cabeça no peito dele pra ouvir o coração. Mulder abre um dos olhos, fingindo, olhando pra ela. Scully ergue a cabeça. Mulder fecha o olho.

SCULLY: - Mulder... (DESESPERADA) Mulder, fala comigo!!!!!! Oh meu Deus, eu matei o Mulder!

MULDER: - ...

SCULLY: - (ASSUSTADA) Mulder, foi... Foi sem querer, eu não queria dizer aquilo.

MULDER: - ... (SEGURANDO O RISO)

SCULLY: - Mulderzinho, fala comigo... Ai meu Deus, eu sou uma assassina!

MULDER: - (ABRE OS OLHOS) Te peguei.

Mulder a agarra, rolando por cima dela. Scully tenta se soltar, usando as pernas pra fugir dele. Levanta-se, enfurecida.

SCULLY: - Seu desgraçado! Eu pensei que tivesse morrido!

MULDER: - (DEBOCHADO) Ficou apavorada não?

Scully chuta areia nele. Vai caminhando enfurecida para seu lado da ilha.

SCULLY: - Não fala mais nada comigo!!!!!!!

MULDER: - Nada.

Um coco voa na cabeça dele. Mulder cai deitado na areia.

SCULLY: - (DEBOCHADA)Strike, Dana Scully!


Noite.

Mulder sentado na areia. Scully perto da fogueira, tremendo de frio, sentada do seu lado da ilha. Os dois de costas um pro outro. Mulder deita-se na areia. Vira-se de bruços, olhando pra ela com cara de cachorrinho pidão e fazendo pose sexy.

MULDER: - Não gostaria de uma televisão?

SCULLY: - ...

MULDER: - Quer fazer algo pra passar o tempo? Hum? Contar estrelas, cantar algo do Creedence pra mim ou... Fazer coisinhas?

SCULLY: - Prefiro me coçar com uma cenoura!

MULDER: - Não há cenouras aqui, Scully, apenas uma coelhinha baixinha e com frio... (BATE NA AREIA/ PIDÃO) Vem aqui, hum?

SCULLY: - Não vai me dobrar com suas cantadas baratas e nem com essa carinha, Mulder!

MULDER: - (MAIS PIDÃO) Só sexo. Como você queria.

SCULLY: - Isso é passado! Era o único jeito de ficar com você sem que aquele demônio do inferno me punisse. Eu não quero apenas... Ah, deixa pra lá! Eu quero esquecer aquilo tudo, aquele desgraçado destruiu a minha vida.

MULDER: - Tá bom... Não quer brincar mesmo?

SCULLY: - Não!

MULDER: - Ok. (LEVA A MÃO DENTRO DO PIJAMA) Então eu vou brincar sozinho.

SCULLY: - Mulder não se atreva a fazer isso na minha frente!

MULDER: - Por quê? Você me pedia pra fazer, agora não quer?

Scully vira-se de costas pra ele. Mulder senta-se na areia. Abraça as pernas, olhando pra Scully, com deboche.

MULDER: - (GEMENDO) Hum... Isso é bom.

SCULLY: - (SEM SE VIRAR) Eu não acredito, Mulder!!!!!! Você não está fazendo isso!

MULDER: - (GEMENDO/ SEGURANDO O RISO) Estou... E pensando em você... Oh yeah!

SCULLY: - (EXCITADA) Seu... Seu porco tarado... Monstro, cachorro...

MULDER: - (SEGURANDO O RISO/ GEMENDO MAIS ALTO) ...

Scully fecha os olhos. Calor subindo pelo corpo, mas ela resiste, mordendo os lábios.

MULDER: - (LEVANTA-SE/ GEMENDO MAIS AINDA)

Scully vira-se, empolgada. Mulder em pé, com as mãos na cintura, a encara.

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu também consigo fingir um orgasmo!

Scully fica corada. Vira-se de costas pra ele, num beiço. Mulder, rindo, senta-se na areia.

MULDER: - Você pode dizer que eu mudei, Scully. Concordo. Mas você também mudou. Eu mudei em alguns aspectos, como você mudou em outros. Isso é amadurecimento e é normal do ser humano. Eu sou pai e sou marido. Você é mãe e esposa. A responsabilidade aumentou e nos forçou a mudar. Mas eu não mudei em muitas coisas. Como você também não mudou. E uma delas é o quanto amo irritar você porque no fundo você adora isso em mim, tanto quanto eu adoro quando você me despreza se fazendo de difícil. Esse nosso joguinho é muito excitante e animador, sabia?

Scully morde os lábios, segurando o riso.

MULDER: - A mágica entre nós nunca vai morrer, Scully. Só quando um de nós partir dessa vida. Porque essa mágica está dentro de mim e dentro de você. E quando a gente está junto, ela acontece.

Mulder se ajeita pra dormir debaixo de um coqueiro. Fecha os olhos e cruza os braços.

MULDER: - Se sentir frio, sabe aonde estou. Sem palhaçada agora.

Scully enche os olhos de lágrimas. Olha pra ele.

SCULLY: - (MURMURA BAIXINHO) Eu te amo, Mulder. Você trouxe a mágica na minha vida sem graça. Acho que o final da nossa história é "e viveram de implicância um com o outro e assim foram felizes para sempre".

Scully suspira de amor. Derruba lágrimas. Olha para as estrelas.


Manhã.

Scully tira a saia. Fica apenas de biquíni e blusa. Mulder deitado na areia, tomando banho de sol, observando Scully do outro lado da linha. Scully algumas vezes olha pra ele, disfarçadamente. Mulder percebe e disfarça também. Scully olha pro corpo dele molhado, calças do pijama molhadas e coladas no corpo. Mulder, debochado, faz pose sexy na areia. Scully finge não prestar atenção. Começa a rasgar a saia, com raiva, transformando num pano. Mulder, cotovelos apoiados na areia, inclina a cabeça para trás.

SCULLY: - Não adianta ficar aí fazendo pose sexy, Mulder. Você não é bonito e nem sexy.

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu? Eu não preciso fazer pose, eu sou bonito e sexy por natureza, Scully. Não adianta é você ficar aí de biquíni me provocando. Você não é quente!

Scully atira um coco nele. Mulder desvia.

MULDER: - Ah é? Agora vai fazer guerra de cocos? Estou em desvantagem!

Mulder se levanta.

MULDER: - Me aguarda. Me aguarda, mulher, você vai ver do que sou capaz. Você quer guerra? Pois terá guerra!!!

Corte.


Scully com as mãos nas bochechas, acenando negativamente com a cabeça, enquanto olha pro mar. Mulder, numa trincheira cavada na areia, cheio de cocos ao redor, com um chapéu feito de palha de coqueiro verde, rosto pintado com seiva de árvore. Coloca as mãos em forma de binóculo na frente dos olhos, observando Scully.

MULDER: - Inimigo não está em posição de ataque, senhor. Parece estar pensativo, planejando o próximo movimento.

Scully abaixa a cabeça, segurando o riso.

MULDER: - Agora entendo porque Adão comeu a maçã. Viver com uma mulher sozinho no Éden era o inferno! Nenhum movimento suspeito, senhor. Scully Fú planeja algum ataque.

SCULLY: - Mulder, eu vou sair daqui e você vai sentir na pele a Scully Fú.

MULDER: - (PÂNICO) Uh!!!! (DEBOCHADO) Me atira na areia, me usa, abusa e lambuza!

SCULLY: - Mulder, não me irrita!

MULDER: - Você começou! Estou defendendo meu território! Vai precisar passar em cima do meu cadáver pra tomar o meu lado da ilha.

Scully se indigna. Levanta-se. Mulder pega um coco.

SCULLY: - Essa ilha é pequena demais pra nós dois, Mulder!!!!

MULDER: - Inimigo atacando! Mayday, mayday!!!!

Os dois começam a trocar tiros de cocos. Scully se esconde atrás de um coqueiro.

MULDER: - Não vale!!!!!! Assim você fica cheia de munição!

Um coco passa raspando a cabeça dele. Mulder atira um coco nela. O coco acerta a cabeça de Scully que cai na areia. Mulder se levanta.

MULDER: -(PÂNICO) Scully???

Mulder corre até ela. A toma nos braços, sentando na areia. Ergue o braço dela e solta. Scully com o corpo amolecido. Mulder em pânico.

MULDER: - Scully, pelo amor de Deus! Eu juro que nunca mais faço esse tipo de brincadeira! Era só uma brincadeira, eu adoro ver você ficar furiosa comigo, porque assim eu sei que você percebe que eu existo.

SCULLY: - (ABRE OS OLHOS) Te peguei.

Mulder a solta na areia. Sai furioso. Scully se levanta.

SCULLY: - Ah, viu como é engraçado essas brincadeiras bestas?

Mulder senta-se na areia emburrado, num beiço quilométrico. Scully senta-se ao lado dele. Os dois viram a cara. Scully começa a rir. Mulder olha pra ela.

SCULLY: - Olha pra nós dois aqui! Atirando cocos um no outro, feito duas crianças!

MULDER: - ... (COMEÇA A RIR) ...

SCULLY: - Mulder, Ellen tem razão.

MULDER: - (OLHA PRA ELA)

SCULLY: - Ellen me disse que não sou uma pessoa light.

MULDER: - Pra mim você tá light até demais! Mais light e vai parecer um esqueleto. Eu magro, você magra, e de noite ninguém dorme porque fica aquele barulho de ossos se batendo em cima do colchão...

SCULLY: - (RINDO) Mulder é sério! ... Ellen tem razão. Eu levo tudo a sério, não sei brincar, ser mais solta... Fico irritada facilmente. Você não. Você sempre transforma as coisas em piadas, em brincadeiras...

MULDER: - (ABAIXA A CABEÇA) Nem sempre... Só não quero ficar remoendo mágoas.

SCULLY: - Sei que está magoado comigo.

MULDER: - Mas eu disse que perdoava você, então não fui sincero quando disse. Se tivesse sido sincero, não estaria magoado ainda.

SCULLY: - ... Quero fazer amor com você.

Mulder levanta-se. Sai caminhando pela praia, cabisbaixo e magoado. Scully abaixa a cabeça, derrubando lágrimas.


Tardinha.

Scully caminha pela praia. A água do mar de encontro a seus pés. Mulder sentado sobre uma pedra, observa triste o horizonte. Scully se aproxima, entrando na água. Sobe na pedra e senta-se ao lado dele.

SCULLY: - Mulder, desculpe o que eu disse antes... Sempre que esse tipo de coisa partir de mim, de agora em diante, será pra você uma ofensa. Soará como se eu quisesse usar você. Depois das coisas que fiz, eu não deveria mais me atrever a propor sexo pra você.

MULDER: - (SÉRIO) ...

SCULLY: - Mas eu falei espontaneamente, Mulder. Eu não disse quero fazer sexo com você. Eu disse que queria fazer amor. E eu queria mesmo.

MULDER: - Já fizemos amor diversas vezes no passado, Scully. Já fizemos sexo também. Agora, melhor que não façamos nada.

SCULLY: - ...

MULDER: - Tenho consciência do que aconteceu, que você ficou fraca e se tornou um alvo fácil mental e espiritualmente. Mas dentro de mim fica vagando aquela dor da rejeição, das palavras cruéis, do abandono. Eu fico pensando que não merecia isso, pelo tanto que fazia por você. Não estou cobrando nada, eu faria tudo de novo, talvez seria mais atento a você e não tanto ao trabalho.

SCULLY: - Você era atento a mim, Mulder. Muito atento. Não se culpe por algo que você não fez. Eu sempre soube que eu era mais importante que os Arquivos X. Sempre. Mas a minha maldita insegurança, aquilo que Ellen denomina 'não ser light', sempre criava atritos e minhocas na minha cabeça. Deus, por que eu não fui mais solta com você? Por que eu via coisas que não existiam?

MULDER: - Você não sabe o que passei. Fiquei sozinho com um bebê, tendo que trabalhar e cuidar dela. Tendo que fingir pra que a nossa filha não sofresse. Sua falta doeu. Doeu em nós dois. E quando eu lembro dessas coisas, eu...

SCULLY: - ... (ABAIXA A CABEÇA) E Alex?

MULDER: - Krycek não significou nada, Scully. Eu percebi que mesmo que você tivesse me traído, isso não mudaria o que eu sentia por você. Minha confiança em você é cega. Se me disser isto novamente, eu não acreditarei. Não seria você, entende? Não a minha Scully, ela jamais me trairia! (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) O que machucou mesmo, foi a sua rejeição a mim e a nossa filha. O seu asco. Você olhar pra mim como uma aberração... Scully você me humilhou demais. E-eu me senti a pior coisa do mundo! Nem um animal asqueroso merece aquele olhar que você me deu...

SCULLY: - ... Eu sei, Mulder.

MULDER: - Você machucou fundo. As palavras feriram a minha alma. Pode entender a dor? Imagine-se no meu lugar e eu fazendo isso pra você, depois de todas as coisas que tivemos... O pior de tudo é que... (TOMA AR) ... Estou me acostumando com a ideia de não ter você nunca mais. Não estou tranquilo com isso. Fico revirando dentro de mim pra encontrar aquele amor que eu tinha, mas ele foi embora. Eu não posso mais dizer que amo você, Scully. Não sei mais o que sinto.

SCULLY: - Eu... Eu posso entender isso, Mulder. Não é que você não me ame mais. Você está magoado, humilhado, doído. Passamos muitas coisas pra ficarmos juntos, mas desta vez, o golpe deles pra nos separar foi certeiro. Eu só quero que você saiba que quando eu chamo você de monstro é apenas... Aquela palavra que eu usava pra me referir com carinho a você e não aquela palavra que magoou você. Você é o meu monstro... Aquele que me agarra feito uma mocinha indefesa. E eu gosto disso.

MULDER: - ... (INDIFERENTE)

SCULLY: -Perdi você, Mulder. (DERRUBA LÁGRIMAS) ... Eu perdi tudo na minha vida. Perdi por ser tola. Por exigir demais, por ser séria demais, por não viver sem me estressar. Por não pedir ajuda pra você. Por querer ser forte, fui fraca.

MULDER: - Nunca fomos iguais, Scully. Sempre fomos opostos. E por isso nos completamos. Mas onde está agora aquilo tudo que tínhamos? Você me deu um mundo que eu não conhecia. E depois você o tirou de mim. O que resta agora são ruínas espalhadas que eu cansei de tentar reconstruir sozinho.

SCULLY: - ... Eu menti. Precisava de um tempo para me perdoar, mas não foi por isso que pedi tempo para você. Eu pedi tempo porque eu quero que me esqueça. Quero, mas não quero. Entende isso?

MULDER: - Por que quer que eu esqueça você? Não sente mais nada por mim?

SCULLY: - Mulder, eu prefiro que me esqueça. Tenho medo de voltar pra você, de cair novamente e de cometer os mesmos erros que magoaram você. Eu não quero mais magoar você, Mulder. Eu não quero arriscar a pisar novamente em nossa casa e trazer perigo pra você e Victoria. Mulder, se o Sindicato e o Moedinha fizeram tudo isso para nos separar, imagine o que farão quando souber que voltamos novamente?

MULDER: - (MAGOADO) O que mais mentiu pra mim Scully?

SCULLY: - (MAGOADA) Posso ter mentido sobre isso Mulder. Mas quanto a amar você, eu nunca menti.

Mulder abaixa a cabeça. Scully chora calada, secando as lágrimas.

MULDER: - Onde está a nossa força? Onde está aquilo que tínhamos? Caíam tempestades e ainda estávamos de pé? Aonde perdemos a coragem, Scully? A coragem de lutar pelo amor que dizíamos ter? Ahn? Eu olho pra dentro de mim, mas não vejo mais amor. Não odeio você, a verdade é que não sinto mais nada por você. É como se você fosse apenas uma pessoa qualquer que cruzou minha vida.

SCULLY: - (CHORANDO) ...

MULDER: - Não quero magoar você, mas quero que saiba a verdade. Não quero que fique se iludindo. Também não quero que pense que estou me vingando. Há algum tempo atrás você disse que não me amava mais. Hoje, eu digo isso pra você.

Scully desce da pedra, chorando. Corre pela praia. Mulder olha pro horizonte, olhos cheios de lágrimas.



BLOCO 3:

Noite.

Chuva fina.

Scully sentada debaixo de alguns coqueiros, as lágrimas e a chuva se misturam em seu rosto. Completamente molhada, tremendo de frio, abraçada ao corpo, enrolada na saia que rasgou. Scully abaixa a cabeça, chorando. Então sente o corpo quente sentar-se a seu lado. Ergue a cabeça.

MULDER: - Não fala nada. E-eu não quero falar, não quero pensar... Eu só quero ficar quieto aqui do seu lado.

Scully sorri entre lágrimas. Mulder inclina a cabeça, deixando a chuva cair no rosto. Então olha pra ela.

MULDER: - Está com frio?

SCULLY: - (TREMENDO) Não.

MULDER: - (DEBOCHADO) Que baixinha mais birrenta você, não?

SCULLY: - (SORRI) ...

Mulder a envolve nos braços. Scully fecha os olhos, se aninhando nele. Mulder parece indiferente. Ela parece realizada. Os dois em silêncio. Trovoadas. Chuva incessante.

MULDER: - (DEBOCHADO/ OLHANDO PRA CHUVA) ... Se choverem sacos de dormir, talvez tenha sorte.

Scully olha pra ele, rindo, secando as lágrimas e a chuva. Mulder olha pra ela com ternura.

SCULLY: - É esse olhar, Mulder. É esse seu olhar que eu não via há muito tempo. Esse seu olhar me diz tudo, eu me reconheço nele.

MULDER: - ... É essa sua entrega frágil que eu não via há muito tempo, Scully. É essa sua entrega que me faz reconhecer a doce Scully que eu sempre quis proteger. Mas que pouco se permite entregar.

Os dois ficam se olhando. Mulder leva as mãos ao rosto dela. Fecha os olhos.

MULDER: - Talvez a falta traga sensações falsas que se vão, quando a presença torna-se completa.

SCULLY: - (FECHA OS OLHOS/ DERRUBANDO LÁGRIMAS) Eu ainda amo você, Mulder. Cada vez mais forte, cada vez mais latente e aquela angústia que havia no meu peito, ela nunca foi embora e torna-se maior a cada dia... Aquela angústia de amar demais. Aquele sufoco, aquela dor no peito, como se o coração estivesse explodindo de tanto amor... Como quando eu me apaixonei por você.

MULDER: - Acho que é a hora e o lugar. Estamos sozinhos, sem perturbações e podemos resolver todas as nossas pendências. Fala Scully. Fala porque se você falar, talvez suas palavras acendam de novo aquela chama que se apagou dentro de mim.

SCULLY: - (SORRI/ OLHANDO PRA ELE) ... Acho que não se apagou. Está apenas sem combustível...

MULDER: - (OLHOS FECHADOS/ SEGURANDO O ROSTO DELA)

SCULLY: - (RINDO E CHORANDO) Mulder, eu te amo.

Mulder aproxima os lábios dos dela. Scully se entrega num beijo suave e demorado. Mulder aprofunda o beijo, ela corresponde, envolvendo os braços nele. Eles soltam os lábios, olhando um pro outro. Scully em lágrimas. Mulder seca as lágrimas dela com os polegares. A abraça com força. Os dois ficam abraçados, aos beijos, debaixo da chuva.


Madrugada.

A chuva parou. Scully sentada na areia, observando a fogueira. Mulder sentado perto dela, observa o céu.

MULDER: - ... Victoria arrumou um periquito.

SCULLY: - Ela me falou. Ela já está falando tudo!

MULDER: - (SORRI) Ela tá ficando mais esperta... Aquela coelha parece que tomou hormônio. Tá quase do tamanho do cachorro!

SCULLY: - Mulder, não exagera. Ela é grande, mas nem tanto.

MULDER: - Não bastasse, há três dias atrás ela apareceu com um pombo machucado. Quando o bicho melhorou saiu voando e ela ficou berrando por horas. Dois dias atrás apareceu um gato. Fui obrigado a me desfazer. Imagine um gato numa casa com passarinho, peixe, coelho e cachorro. Ia dar tragédia! Pro lado do gato, acredite!

SCULLY: - O que fez com o gato?

MULDER: - Baba deu ele para o pastor da igreja. Victoria esperneou, mas ela precisa ter limites.

SCULLY: - Desconfio que vou ter uma veterinária na família.

MULDER: - Scully é sério. Eu fico com pena, mas não dá. Cada bicho que ela vê, ela quer! Dia desses tava enfiando roupa na coelha! Ensinou o periquito a comer batatinha. Agora é um inferno disputar batatinha com o bicho. Pra dizer a verdade, aquele periquito está crescendo e ficando esquisito. Eu nem sei se é realmente um periquito!

SCULLY: - (RINDO) ...

MULDER: -Victoria tem dom com os animais. Precisava ver no zoo. Parecia a própria Sheena, a rainha das selvas. Estava se sentindo em casa! Queria entrar no espaço dos macacos! Tive que segurar, ficou esperneando e berrando.

SCULLY: - (RINDO) Meu Deus! Imagino a cena...

MULDER: - Queria trazer os macacos, elefantes e até os ursos pra casa! Ela fica olhando pra eles, os animais parece que falam com ela.

SCULLY: - E talvez ela fale com eles, oras!

MULDER: -Eu não duvido mesmo. Não, nossa casa não é a Arca de Noé. Já disse que no máximo outro peixe dourado. Não quero mais nada que ande ou voe pela casa. Daqui à pouco ela resolve querer uma cobra, um jacaré na piscina, um tigre na sala... Aí eu que não durmo mais.

SCULLY: -Estou com saudades dela. Sabe que Victoria se queixou pra mim que o papai não deixa ela ter bichinhos?

MULDER: -Chega de bichinhos. Eu não sei mais viver longe daquele pingo de gente. (BOCEJA) Estou com sono.

SCULLY: - Eu faço o primeiro turno.

Mulder deita a cabeça no colo dela. Scully recosta-se no coqueiro. Mulder fecha os olhos, Scully afaga os cabelos dele. Olha para o mar.

SCULLY: - (CANTANDO) Baby beluga in the deep blue sea... Swim so wild and you swim so free...

MULDER: - (ABRE OS OLHOS/ INCRÉDULO) ...

SCULLY: - (CANTANDO) Heaven above and the sea below... And the little white whale on the go... Baby beluga, baby beluga... Is the water warm, is your mama home... With you so happy...

MULDER: - Scully, não me leve a mal, mas Baby Beluga? Você tem um péssimo gosto pra repertório. Não sai nada dos Beatles aí?


Manhã.

Close da fogueira apagada.

Mulder dorme na areia, debaixo de um coqueiro. Scully dorme de bruços. Apenas os rostos deles se tocam e a mão dela sobre o peito dele. Scully abre os olhos, olhando pra Mulder. Ergue-se. Pousa os lábios na testa dele. Roça o nariz aspirando o perfume do rosto e ombro dele, com desejo. Mulder abre os olhos. Leva a mão ao pescoço dela a puxando pra um beijo. Mulder senta-se. Scully vira-se de costas pra ele. Mulder envolve os braços nela. Scully segura-se nas pernas dele, acariciando-as.

Mulder consome em beijos os ombros e a nuca de Scully, com desejo latente. Scully sôfrega, entrega-se. Mulder desata os cordões da blusa, deixando-a de biquíni. Agarra-lhe os seios. Scully leva as mãos para trás, envolvendo-as no pescoço dele. Os dois trocam um beijo voraz e ansioso, línguas afoitas. Scully vira-se de frente pra ele. Pousa os lábios sobre o peito de Mulder. Mulder joga os braços pra trás, apoiando as mãos na areia. Scully afaga o peito de Mulder, percorre com a língua, acariciando-lhe. Desce a mão pra dentro das calças dele.

MULDER: - Você disse que eu não devia fazer isso...

SCULLY: - Você não pode. Eu sim... Hum, adoro fazer isso.

MULDER: - Eu sei que você adora. 'Ele' também adora.

SCULLY: - (RINDO) 'Ele' me parece feliz... (DESCE AS CALÇAS DE MULDER) ...

MULDER: - Scully, não posso ficar pelado aqui!

SCULLY: - E daí? É uma ilha deserta, ninguém tá vendo...

MULDER: - (INCLINA A CABEÇA PRA TRÁS) Hum...

SCULLY: - Ah eu não posso ficar tocando em nada. Eu tenho que provar!

Scully abaixa a cabeça entre as pernas de Mulder. Mulder agarra a areia com força.

SCULLY: - Dói?

MULDER: - Não... Ai, assim dói!

SCULLY: - ...

MULDER: - Isso não vai dar certo... Scully, para, eu estou a mil e se você continuar a fazer isso, não vai durar muito tempo.

Scully ergue o corpo, empurrando Mulder pra areia com os pés. Tira o biquíni rapidamente. Senta-se sobre Mulder.

SCULLY: - Mulder, a situação aqui é a seguinte: Você está numa ilha deserta com um vulcão ruivo em erupção. Não quero preliminares!

Mulder ergue o corpo, beijando Scully. Scully agarra os cabelos dele. Mulder se ajeita. Scully solta um gemido. Inclina o corpo pra trás, pressionando-se mais fundo contra Mulder. Mulder inclina-se pra frente, devorando os seios dela, enquanto a segura pela cintura, movendo-se sutilmente contra ela.

SCULLY: - (OFEGANTE) Continua... Ohhhh... Assim, assim...

MULDER: - (OFEGANTE) Não mexe...

SCULLY: - Não tô gostando disso. Tá sem graça.

MULDER: - Prefiro você deitada nessa areia...

Scully deita-se na areia. Mulder sobe sobre o corpo dela. Os dois rolam pela areia, trocando beijos famintos, mãos ansiosas. Ela joga os braços pra trás, olhando pra ele, ansiosa. Mulder a agarra pelos pulsos. Os dois olham-se nos olhos.

MULDER: - (SÉRIO) Não tô a fim de brincadeira agora.

SCULLY: - (SÉRIA) Mas eu quero ser apenas o seu brinquedinho na areia da praia...

Scully se entrega, virando o rosto e fechando os olhos. Mulder percorre o pescoço dela com a língua. Scully suspira profundamente. Mulder desliza as mãos pelo corpo dela, suavemente, enquanto mordisca sua orelha. Scully morde o polegar, permitindo seu corpo para ele, sem reagir. Mulder desce os lábios pelo corpo dela, aos beijos de adoração. Scully continua imóvel, olhos cerrados. Leva as mãos aos cabelos dele, abrindo as pernas. Mulder desce o rosto entre as pernas dela, mordiscando-lhe a coxa. Ergue as pernas dela por sobre seus ombros, enlaçando-as com os braços. Scully morde os lábios, agarrando os cabelos dele com força. Mulder estende as mãos e enquanto brinca entre as pernas dela, agarra-lhe os seios. Scully pousa suas mãos sobre as mãos dele. Mulder sobe pelo corpo dela, procurando o pescoço. Scully vira o rosto, ofertando-lhe o outro lado. Mulder a penetra suavemente. Scully segura um gemido, envolvendo os braços nas costas dele. Mulder move-se devagar contra ela. Scully mantém as pernas dobradas pressionando-as contra o corpo dele. Mulder, mãos apoiadas na areia, inclina o corpo pra trás, movimentando-se com mais força. Scully geme baixinho, segurando-se nos pulsos dele. Um misto de prazer e felicidade se esboçam em seu sorriso.


Tarde.

Scully enrolada na saia, sentada na areia. Cabelos voam com a brisa. Observa o mar, num semblante de contentamento. Vira o rosto, olhando Mulder dormir de bruços na areia. Olha novamente para o mar. Abraça-se as pernas. Olha para o céu num sorriso.

SCULLY: - Quero minha vida de novo. Quero forças para nunca mais cair como eu caí. Quero continuar acreditando em Você, ter minha fé pulsando dentro de mim. Só rogo-lhe que me dê a benção de ter meu marido de volta. Moverei Céus e Terra em nome desse amor, em nome dessa segunda chance. (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) Se foi minha sina passar por isto, não tenho a pretensão de derrotar algo que Você irá destruir. Mas eu lutarei contra meus demônios. Eu rezarei todos os dias agradecendo pela benção de ter Mulder do meu lado. Não o afaste de mim. Em Você eu tenho a força para resistir as quedas deste mundo, mas em Mulder eu tenho o conforto para acordar a cada dia. Perdoe os meus pecados cometidos... Eu tive minha lição. Não quero mais errar...


Tardinha.

Scully termina de acender a fogueira. Olha para os peixes jogados sobre sua saia. Mulder aproxima-se, sentando-se ao lado dela, com uma folha de bananeira embrulhada.

SCULLY: - O que é isso?

MULDER: - (SORRI) Um presente.

Mulder abre a folha. Várias amoras silvestres.

SCULLY: - (SORRI) Aonde conseguiu?

MULDER: - Perto da cachoeira.

Mulder coloca uma amora na boca de Scully.

SCULLY: - Hum... Temos peixe pro jantar. Amora pra sobremesa... Queria saber pescar camarão.

MULDER: - Minha rainha quer camarão pro jantar?

SCULLY: - (RINDO) Rainha? Nossa!

Mulder levanta-se, enigmático.

MULDER: - Ok, quer camarão? Terá camarão. Vou provar que sou pescador.

SCULLY: - Pesque um bote pra nós, Mulder!

Mulder se afasta rindo. Scully pega os peixes e começa a limpá-los com uma lasca de pedra. Mulder entra na ilha.


Madrugada.

Scully ao lado da fogueira, desenha na areia um coração com o nome de Mulder nele. Scully sorri. Rabisca a areia. Mulder se aproxima com um cesto improvisado.

MULDER: - Advinha o que tenho aqui?

SCULLY: - Um bote?

Mulder abre o cesto e deixa cair um monte de camarões. Scully olha pra ele rindo.

SCULLY: - Como conseguiu?

MULDER: - Não vou revelar meus segredos de pescador. Eu quero saber aonde vamos cozinhar isso.

SCULLY: - (OLHANDO PRA ILHA) ... E eu que tenho pavor das panelas... Queria uma agora. Camarão assado... Será que fica bom?

MULDER: - Não sei.

SCULLY: - E que tal enrolar em folha de bananeira, como fiz com os peixes?

MULDER: - (DEBOCHADO) Um a um?

SCULLY: - Não, seu bobo! Iríamos levar a noite toda enrolando camarão!

Scully pega as folhas de bananeira a seu lado. Entrega uma pra Mulder.

SCULLY: - Eu enrolo e você amarra. Faça uns cordões com isso.

Os dois começam o trabalho.

MULDER: - Você está diferente.

SCULLY: - Diferente?

MULDER: - Parece a Scully que eu conhecia. Está com um brilho nos olhos que faz inveja ao azul daquele mar ali.

SCULLY: - (SORRI) Como você é galanteador, Mulder. Eu estou feliz sim. Por estar com você aqui.

MULDER: - Pensei que me odiava por nos ter colocado nessa enrascada.

SCULLY: - Enrascadas servem pra alguma coisa. Qual a lição que aprendemos desta vez?

MULDER: - Problemas podem ser soluções? Nada como uma ilha deserta para colocar juízo em nossas cabeças?

Os dois riem.

MULDER: - Detestava quando minha mãe dizia isso. (IMITANDO) Que lição aprendemos com isso, Fox? Eu ficava louco! Não via nenhuma lição em nada, sinal que sou burro mesmo pras coisas, mas lá vinha ela com a tal lição.

SCULLY: - Eu tinha uma tia, irmã de meu pai, que sempre falava isso quando eu ia passar férias na casa dela. Tudo que fazia era errado. Você sabe, crianças gostam de correr, de explorar o mundo. Não podia fazer nada, nem falar alto. Ela odiava barulho. Correr nem pensar. Eu ficava o tempo todo sentada e assistindo TV.

MULDER: - (SORRI) Não me mate. Esses dias eu tava cheio de trabalho, Baba estava com gripe e de cama. Victoria não parava quieta. Eu tentando me concentrar e ela correndo pela casa. De minuto em minuto eu tinha que largar tudo pra ver o que ela estava fazendo. Perdi a cabeça. Peguei o grampeador e grampeei ela pelo vestido sentada no chão, de frente pra TV.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Você grampeou nossa filha, Mulder?

MULDER: -(RINDO) Precisava ver o beiço da Scullyzinha teimosa.

SCULLY: - (COMEÇA A RIR) Mulder, que maldade!

MULDER: - (RINDO) É, não é algo muito ortodoxo em matéria de educação, mas pelo menos terminei o relatório.

SCULLY: - ... Essa minha tia tinha uma mania que eu acho horrível. A mania de chamar o meu tio de 'papai'. Ele chamava ela de 'mamãe'. Era mamãe, o que tem pro jantar? Papai, você quer cerveja?

MULDER: - Também acho horrível isso. Imagina na hora da cama que desentendimento? Vem no papai, vem na mamãe... Cruzes!

SCULLY: - (COMEÇA A RIR) ...

MULDER: - Eu brochava na mesma hora! Pessoas que fazem isso devem ter uma certa propensão ao incesto.

SCULLY: - (RINDO) Chamar você de papai... Ia parecer que estava transando com meu pai! Você não é meu pai, oras.

MULDER: - E nem você minha mãe!

SCULLY: - Mulder, vem com a mamãe...

MULDER: - (RINDO) Isso é broxante, Scully! Mas Freud explica!

Corte.


Os dois sentados comendo peixe e camarão.

MULDER: -... Então acho que valeu a pena todo o sacrifício. Voltar pra universidade nessa fase da minha vida me fez ver a psicologia de um jeito diferente. Dessa vez não serviu pra eu me descobrir, me resolver interiormente e ter uma faculdade pra entrar no FBI. Eu fui pra pós com o objetivo de resolver o seu problema, de aprender coisas pra ajudar os outros e... (RINDO) Sair do FBI?

SCULLY: - Conclusão: A psicologia colocou e tirou você do FBI, Mulder.

MULDER: - Eu achava tão chato clinicar, não tem a empolgação de traçar perfis, de lidar com loucos de pedra como assassinos seriais. Mas de repente, sei lá... Fiquei empolgado em descobrir que posso fazer isso. Que não sou dos piores. Que os problemas comuns das pessoas comuns também são interessantes... O Krycek se ferrou nessa, mas ele foi um paciente bem complexo... Devo minha nota a ele, porque o professor ficou fascinado pelo caso. E devo a você, que foi minha paciente sem saber, as ideias pra uma tese de mestrado.

SCULLY: - (RINDO) Juro, eu não imagino essa cena de psicólogo e paciente com você e Krycek sendo sérios! Realmente, Mulder, o Krycek faz de tudo pra se redimir com você. Até servir de cobaia pra relatórios do seu pós. Só não consigo entender o que Krycek tem pra resolver num divã!

MULDER: - Segredo médico-paciente, Scully. Mas ele precisa. E muito.

SCULLY: - Mulder, então segue mais um tempo, faz o mestrado. Você pode vir a ser professor, não acha interessante?

MULDER: - Ah não. Acho mais interessante os pacientes. E depois que a Baba me sugeriu trabalhar com pessoas abduzidas... Aí eu fiquei mais empolgado. E pensei, se você que é cientista e médica foi enganada por um esperto que sugeriu que você tinha personalidades múltiplas enquanto o caso era de certa forma possessão demoníaca... Quanta gente toma medicação por nada, apenas por perturbações espirituais? Ou gente que acha que tem perturbação espiritual enquanto é doença. Eu quero fazer uma tese em cima disso, Scully.

SCULLY: - Bom ver você empolgado em estudar novamente, Mulder. Eu também quero voltar a estudar, mas eu quero lecionar. Eu quero ensinar, quero gente nova e curiosa ao meu redor.

MULDER: - Sério? Não quer um consultório? Um jaleco no hospital? Uma função em Quântico?

SCULLY: - Não tem desafios num consultório, Mulder. E num plantão de hospital tem demais! E em Quântico... Hum, até seria interessante. Mas uma universidade... Isso seria ótimo. Eu não posso deixar de ser legista, entende? Eu gosto disso, é o meu espírito policial que habita ali, o meu lado investigador. Eu preciso disso. Como você que descobriu como continuar sendo policial e investigador mesmo sentado num consultório psicológico. Acho que eu seria feliz ensinando anatomia ou medicina legal, por exemplo. É, seu Freud explica porque eu, que temo tanto a morte, tenho necessidade de estar perto dos mortos.

MULDER: - O jantar está bom, mas faltou um limão.

SCULLY: - Pelo menos não podemos nos queixar da falta de comida natural: amoras, bananas, peixe, camarão, água de coco.

MULDER: - Se der dor de barriga estamos ferrados!

Scully começa a rir. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Adoro quando ri.

SCULLY: - E dá pra ficar séria do seu lado?

MULDER: - Pode ficar séria sem dar.

SCULLY: - (RINDO) Para, Mulder!

Os dois trocam um selinho. Scully coloca um camarão na boca de Mulder.

SCULLY: - Fique quieto.

MULDER: - Isso ficou gostoso. Ou sou eu que estava com fome.

SCULLY: - Fizemos sexo a manhã e a tarde toda, claro que estamos famintos... Hum, tem bastante sal.

MULDER: - Sal é o que mais tem aqui. O que mais podemos querer pra um jantar a luz de fogueira?

SCULLY: - Hum... Uma música caía bem.

MULDER: - (DEBOCHADO) Não vou perder essa.

SCULLY: - (RINDO) Fala.

MULDER: - Não precisa de música, Scully. Escute a música do vento, a música do mar, a música harmoniosa da natureza e o ritmo pulsante da batida dos nossos corações.

SCULLY: - Péssimo, Mulder...

MULDER: - Admita, melhor que aquela 'eu te conheço de algum lugar'.

Os dois riem.

SCULLY: - Barbara realmente vai se mudar pra lá?

MULDER: - Já se mudou.

SCULLY: - ...

MULDER: - O que tem contra ela?

SCULLY: - Nada, além do fato que ela atira pra cima de você.

MULDER: - (SÉRIO) Barbara e eu somos amigos. Nada mais do que isso. Você vê coisas aonde não existem. Ela está com Krycek e é apaixonada por ele.

SCULLY: - ...

MULDER: - (DESVIA O ASSUNTO) Victoria deixou as fraldas. Só as usa pra dormir.

SCULLY: - Sério?

MULDER: - Está fazendo xixi no penico que você deu pra ela. Depois de tentar por mais de três vezes me imitar, desistiu. Foi pro penico.

SCULLY: - (RINDO) ...

MULDER: - Algumas vezes quer fazer a barba. Eu explico que meninos fazem coisas que meninas não fazem e que meninas fazem coisas que meninos não fazem. Mas ela ainda não entende a diferença de menino e menina.

SCULLY: - Ela evolui em algumas coisas, mas outras ela evolui como uma criança normal. Percebo que mentalmente, em matéria de raciocínio ela é rápida para cálculos, para compreender formas, o certo e errado moralmente e eticamente... Mas em matéria de funções físicas ela é comum e algumas vezes até mais retardatária que outras crianças. Ela demorou para falar claramente e para caminhar.

MULDER: - Ela está crescendo, Scully. Logo vai ir pra escola. E eu já começo a me preocupar com isso. Conviver com outras crianças vai mostrar a ela o quanto é diferente.

SCULLY: - Penso nisso também Mulder. Não podemos deixar a peteca cair. Os problemas virão com certeza... Me dói porque ela nunca terá irmãos. Se tivesse, teria companhia.

MULDER: - ... Ainda pensa nisso?

SCULLY: - Não me queixo mais 24 horas por dia. Mas algumas vezes eu olho pra ela e penso: é tudo que eu tenho. Nunca mais eu sentirei a felicidade de ter um bebê dentro de mim. O prazer de arrumar as roupinhas, de amamentar... Minha filha desmamou forçada.

MULDER: - Não se culpe por isso. Victoria não ficou mentalmente perturbada.

SCULLY: - Mas podia ter ficado com raiva de mim. Ela podia me rejeitar.

MULDER: - Ela é evoluída demais pra isso, Scully. Ela sentiu, nos avisou do perigo, desde bebezinha, mas nós não entendíamos o que era o tal bicho que ela falava. Se soubéssemos que era o diabo... Talvez nem acreditaríamos.

SCULLY: - A amo demais, Mulder. Quero poder recompensar tudo que não fiz por ela. Esse tempo de ausência. Não posso culpa-la por ser mais ligada ao pai. O pai estava ali, a mãe não.

MULDER: - Scully, precisamos enterrar muitas coisas do passado. Nem tudo é perfeito, a vida não transcorre num mar de graças. Sinta-se feliz por sua filha saber disso. Por estar se preparando pra ser uma adulta.

SCULLY: - Será que vamos ver isso?

MULDER: - Eu não tenho medo de morrer. Mas peço pra morrer depois de ver Victoria crescida. E depois, eu não posso morrer e deixar uma morena de olhos verdes arrasa-quarteirão na mão desses aproveitadores!

SCULLY: - (RINDO) Eu só espero que ela tenha a sua altura. Ela vai realizar aquilo que a mãe dela queria ser. Quanto aposta que Victoria será vaidosa, alta e linda?

MULDER: -Alta e linda até pode ser. Eu não quero tirar a sua alegria, mas... Ela adora andar de bermuda, camiseta, boné e tênis.

SCULLY: - Você não está acostumando a minha filha a se vestir como uma desleixada, Mulder!

MULDER: - O que posso fazer? Ela tá mais pra Indiana Jones que pra Rapunzel! Fico pensando, que profissão ela vai ter?

SCULLY: - Não quero ela no FBI ou em qualquer função policial.

MULDER: - Ela é investigadora por natureza, Scully. Tem curiosidade das coisas. Acho que será cientista.

SCULLY: - Veterinária?

MULDER: - Ela adora animais. Mas adora pessoas. Quem sabe médica?

SCULLY: - Ela detesta sangue. Você viu aquele dia que a levamos ao parque e ela se machucou. Ficou gritando horrorizada com o sangue. E depois não daria certo, Victoria chamaria a atenção demais. Iria curar todos os pacientes. Não ia deixar ninguém morrer... Ai, Mulder... Pobre da nossa filha. As coisas serão difíceis pra ela.

MULDER: - Scully, melhor a gente nem pensar nisso agora. Mas vamos nos preparar, porque não vai ser fácil mesmo.



BLOCO 4:

Madrugada.

Scully e Mulder sentados no tronco de um coqueiro, um de frente para o outro. Os dois quietos. Scully reclina-se contra o coqueiro, olhando safadamente pra Mulder. Leva as mãos pra cima, segurando-se no coqueiro, insinuando-se. Mulder leva as mãos as coxas de Scully, afagando-as. Scully vira o rosto.

SCULLY: - Não pode saber a sensação do seu toque... O quanto é reconfortante e excitante pra mim...

Mulder acompanha com os olhos os movimentos de suas mãos nas pernas de Scully, enquanto as toca com suavidade e algumas vezes aperta. Scully murmura baixinho. Mulder toma os lábios dela num beijo. Scully solta as mãos do coqueiro, mas quase cai. Segura-se rapidamente. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Segura firme aí porque vamos sacudir essa ilha.

SCULLY: - Hum, a Terra vai tremer?

MULDER: - Bem... Depende de você. (MORDISCA O PESCOÇO DE SCULLY) ... Não de mim.

SCULLY: - (RINDO) Essa coisa de Terra tremer é mentira. O corpo que treme. Você nem consegue saber o que está acontecendo.

MULDER: - (MORDENDO A ORELHA DELA) Mas você sabe o que está acontecendo agora...

SCULLY: - Hum... Estamos prestes a fazer coisinhas num coqueiro?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não... Você é uma garota de família, eu não me atreveria a fazer coisinhas com você em um coqueiro. Afinal se você é direita, o coqueiro é torto. Scully, eu não queria dizer isso, mas você já é gostosa in natura, à milanesa nessa areia então...

Scully solta uma risada. Mulder a admira num sorriso. Então devora os lábios dela, enquanto abre-lhe a blusa. Os dois ofegantes. Scully segura-se no coqueiro, erguendo as pernas ao redor de Mulder.

SCULLY: - Mulder, eu não aguento mais... Eu não estou com paciência pra preliminares!

MULDER: - (DEBOCHADO) Yhaaaaaaa Dana Scully!!!

Os dois quase caem. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Não vai dar certo. Senta você em cima de mim. Eu não tô gostando de ficar sentado em cima de um pau!

SCULLY: - Não quero ficar por cima, quero ficar por baixo!

MULDER: - Tá bom, mas se cairmos grudados um no outro, aposte que vai doer!

Scully o cala num beijo. Os dois empolgados. Na empolgação, ela solta o coqueiro. Perde o equilíbrio e cai ao chão em cima de Mulder. Os dois começam a rir. Scully vira-se, puxando Mulder sobre ela.

MULDER: - O que você tem hoje que eu não posso ficar por baixo?

SCULLY: - Eu não quero dominar nada. Hoje eu quero ser dominada.

MULDER: - Ah, Dana Scully... A feminista se entregando?

SCULLY: - Ando doida pra me entregar, pra virar sua escrava sexual, ser usada, molhada, cuspida...

MULDER: - Para! Sabe o que estímulos auditivos me causam.

SCULLY: - Seu cachorro, cretino, aproveitador de cientistas céticas indefesas...

MULDER: - Scully tira essa perna do meu rosto.

SCULLY: - O que quer que eu ponha no seu rosto então?

MULDER: - Eu vou ficar quieto.

SCULLY: - Deixa eu colocar no seu ombro.

MULDER: - Você não vai colocar nada, quem coloca aqui sou eu!

SCULLY: - Você não coloca nada. Você só fala, fala e fala e... Oh minha nossa!!!!!! Como é gostoso o meu agente do FBI...

MULDER: - (OFEGANTE/ SEGURANDO O RISO)

SCULLY: - Não vale me chamar de mamãe.

MULDER: - Scully, não me broxa!

SCULLY: - Hum, assim... Assim... Vem meu raposão! Vem pra sua ruivinha. Hummmmmmmm.

MULDER: - Ela não é ruivinha... Aliás, 'ela' anda meio skinhead...

SCULLY: - Cala a boca, Mulder, tô falando de mim e não de partes do meu corpo.

MULDER: - (MOVENDO-SE CONTRA ELA/ QUASE RINDO) ...

SCULLY: - Gosta de skinhead?

MULDER: - (RINDO) Scully, para! Eu não vou conseguir fazer isso rindo!

SCULLY: - Não consegue transar e rir, Mulder? Homens... Eu consigo transar, passar roupa e ainda falar ao telefone enquanto sirvo a mesa!

MULDER: - (RINDO) Eu preciso me concentrar nisso ou a brincadeira acaba.

SCULLY: - Agora é sério. Você prefere noviça rebelde ou skinhead?

Mulder cai por cima dela, se matando de rir. Scully olha pra ele num beiço.

SCULLY: - Hei! Vai ficar aí caído e o faz-me rir termina aqui?

MULDER: - Scully, acho que os camarões fizeram alguma coisa com você. Te deixaram doidinha.

SCULLY: - Anda, Mulder! Andale, andale, andale! Isso tá sem graça!

MULDER: - Ok... Assim?

SCULLY: - Hum... Assim tá bom, mas você já fez melhor. Eu quero ver estrelas, Mulder!

MULDER: - Mas você está deitada na areia, deve conseguir vê-las.

SCULLY: - Não essas estrelas, Mulder. Quero ver estrelas, quero que o chão inteiro trema e quero gritar feito louca porque aqui não tem mais ninguém. Eu quero gritar de prazer!!! Você sabe que sou escandalosa.

Mulder move-se mais rápido. Scully enlaça as pernas nele, aos gritos extasiados. Mulder a devora em beijos. Scully vira o rosto de um lado pra outro.

SCULLY: - Oh Mulder! (GRITA) Yes! Yes!!!! Faz assim! Assim!!!!!

MULDER: - (OFEGANTE) Eu tô enlouquecendo... Não provoca.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Enlouquece!!!!!!!!!!

Mulder ergue as pernas dela. Scully geme alto, grita, bate as mãos na areia. Mulder a solta. Segura-a pela cintura, forçando-a a se virar. Scully vira-se, ficando de quatro e apoiando as mãos no coqueiro, ofegante, cabelos desgrenhados. Mulder move-se contra ela, a segurando pela cintura, inclinando-se sobre ela, percorrendo as costas de Scully com os lábios e mordiscadas. Scully agarra-se no coqueiro, movendo-se contra o corpo de Mulder. Os dois suam, com uma fome insaciável um do outro.

SCULLY: - Oh céus! (GEMENDO) Isso Mulder... Mais forte... Mais forte... Selvagem... Deixa eu gritar!!!! Ahhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!

MULDER: - (SÔFREGO) Devassa... Scully, você é quente! Muito quente!

SCULLY: - Eu sei disso. Você não consegue comer outra, ficou viciado.

MULDER: - (SEGURA O RISO) Scully, você tomou um porre de água de coco?

SCULLY: - Hummmm... É saudade das nossas loucuras, Mulder, meu empalador.

MULDER: - (RINDO) Para com as piadas ou a estaca amolece!!!

SCULLY: -Não ouse amolecer o meu raposão, Mulder! Nem transando a gente consegue ser sério? Uh, Mulder, eu quero gritar! Não tem vizinho por perto!!! Me agarra pelos cabelos e me faz gritar!!!


Manhã.

Mulder sentado na areia, olhando para o mar. Scully se aproxima, sentando-se ao lado dele. Mulder está sério.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - ... Nada. Só estou admirando o mar.

SCULLY: - ... Está com medo de mim.

MULDER: - ...

SCULLY: - Tudo bem, é compreensível. Eu só quero que saiba que não estou falando coisas vãs pra você.

MULDER: - Mas é difícil pra alguém que foi machucado acreditar nas coisas. Eu quero acreditar novamente em você. Sabe que eu moveria céus e terra por você. Eu iria até o inferno por você.

SCULLY: - Não precisa ir ao inferno por mim, Mulder. Quando quiser me encontrar, eu estou dentro do seu coração, que é onde eu tenho o meu porto seguro.

MULDER: - Eu apenas preciso saber se isso é sério, Scully. Não quero mais me machucar.

SCULLY: - O que posso dizer para que você tenha essa certeza, Mulder? A certeza do meu amor?

MULDER: - Eu tenho a certeza do seu amor, Scully. O que eu não tenho mais certeza é se você aceita ou não pagar o preço de viver comigo. Separe amor de todo o resto. Amar alguém não significa que consiga viver com essa pessoa.

SCULLY: - ... Mulder, nem pensar em voltar ao que éramos, dois idiotas numa paixão recolhida.

MULDER: - E se você voltar pra mim? Já pensou na vida que voltaremos a ter? Nos problemas? Não basta amar, eu quero saber se está pronta pra encarar a vida a dois. Isso é o que me preocupa. Não vai começar tudo de novo? Você dizendo que está cansada, entrando em crise, se deixando abater, reclamando dos dias de rotina?

SCULLY: - ... Como posso dar a você uma certeza que nem eu tenho? Você pode me garantir que se voltarmos, você também não vai cansar algum dia? Não terá seus dias de crise? De rotina?

MULDER: - ... Era o que eu queria ouvir... Eu sei que não sou fácil. Mas você não facilita também.

SCULLY: -Ambos somos geniosos, Mulder. Admito, você sempre cedeu mais. Eu vou mudar isso em mim.

MULDER: - Preciso saber se vai ficar comigo.

SCULLY: - Eu não vou sair do FBI. Passei a noite pensando nisso. Meu negócio com a Ellen ainda vai levar tempo pra dar retorno financeiro. Mulder, não quero voltar a trabalhar num hospital, ficar frustrada e as brigas entre nós começarem. Já vivemos essa experiência. Sabemos o quanto foi difícil e desgastante quando estávamos desempregados e minha mãe nos ajudando financeiramente. Você agora quer sair do FBI. E eu estou com medo. Medo que você fique deprimido novamente por estar longe do que gosta de fazer, que não consigamos vencer as contas e criar a nossa filha. Vamos ser lógicos, Mulder. Você está trocando o certo pelo duvidoso.

MULDER: - Entendo suas preocupações, Scully, mas dessa vez eu vou sair do FBI e não ser expurgado de lá com uma mão na frente e outra atrás. Guardei reservas, adiantei os pagamentos da casa. E agora tenho capital pra começar algo que eu gosto de fazer. E se não der tão certo, sou psicólogo clínico pós-graduado.

SCULLY: - Sabe o que eu queria mesmo? Ter mais tempo pra cuidar da nossa filha, de você... Mas não quero virar uma dona de casa, Mulder. Se eu sair do FBI o que vou fazer? Tá, vamos trabalhar juntos nessa sua agência de investigação, sei disso. Mas se a coisa der errado?

MULDER: - Você não queria estudar mais? É a sua chance. Faça algo que goste. Scully, na verdade não importa o FBI. Sua vida profissional é a sua vida profissional. Você tem liberdade pra decidir o que é melhor pra você. Se quer ficar lá, eu não vou me opor. Eu só quero saber se você vai voltar pra mim. Isso é a única coisa que importa. Se vamos ou não continuar a trabalhar juntos, isso não tem importância. Eu gostaria, mas não tenho o direito de impor nada pra você. É a sua carreira.

SCULLY: - ... E os Arquivos X? Depois você vai dizer que os largou por minha causa.

MULDER: -Tá maluca, Scully? Eu decidi e não vou voltar atrás. Decisão minha, eu já disse pra você. Eu não vou sair dos Arquivos X. Vou sair do FBI. Se quiser ficar, fique. O que me importa mesmo é se você vai voltar pra mim. Eu não tenho mais vontade, idade e nem tempo pra ficar brincando. Eu quero você ao meu lado.

SCULLY: - Isso faz alguma diferença?

MULDER: - Toda a diferença do mundo. Se não quer mais morar na Virgínia, nos mudamos. Mas eu quero que volte pra casa, pra minha vida e pra vida da sua filha. Não quero brincar com meu coração, ficar cheio de esperança e ver que apenas insisti num erro.

SCULLY: - (FECHA OS OLHOS) Vai me aceitar de volta?

MULDER: - A hora que quiser. Aquela também é a sua casa, Scully. Somos uma família. Eu não quero pressionar você a nada, mas entenda que estou cansado e que perdi tempo demais na vida. Nós dois já perdemos tempo demais um longe do outro.

SCULLY: - ...

MULDER: - Só que você precisa entender que agora as coisas são diferentes. Eu nunca reatei com alguém que tivesse terminado comigo. Posso parecer uma criança, mas eu sou bem maduro pra saber que isso não será fácil. E justamente por isso eu acho melhor conversarmos e colocarmos toda a nossa raiva, todas as mágoas, queixas e desavenças aqui nessa conversa. Porque eu não quero voltar com você pra vivermos um festival de ofensas tanto da minha parte quanto da sua.

SCULLY: - Você tem razão nisso.

MULDER: -Sou o velho Mulder que você conhece, mas algumas coisas eu não vou admitir mais. Pelo motivo de que essas coisas que eu admitia antes, foram as mesmas que me fizeram perder você.

SCULLY: - ...

MULDER: - Eu dou tudo e nunca peço nada em troca. Mas eu não vou mais admitir que você esconda de mim seus problemas. Quando estiver cansada, deprimida, enjoada da vida, por favor me avise. Vamos juntos resolver as coisas. Se você tivesse me pedido ajuda quando aquilo tudo começou, o desgraçado do Moedinha não teria nos separado. Eu choro nos seus braços e deixo de ser homem por causa disso? Qual o problema você admitir que não pode superar um problema sozinha? Isso vai fazer você menos mulher? Por favor, Scully. Sou eu, o Mulder. Nós somos casados, não tem essa besteira de sexismo.

SCULLY: - Tem razão, Mulder. Mas admita também que você nunca me leva pra sair. Um casal precisa sair juntos, se divertir... A gente passava mais tempo trabalhando e dentro de casa. Poucas vezes você me levou pra sair. Começou a fazer isso quando viu que eu estava na última gota do copo!

MULDER: - Concordo. Levar minha mulher pra jantar, dançar, ir ao cinema, aonde ela quiser ir. Deixar de ser antissocial. Outra coisa que me incomoda: Não vou mais ficar calado quando você me acusa de coisas que não fiz. Eu não sei viver sem você, mas isso não significa que eu tenha que ficar louco. Já sofri demais nessa vida, Scully. Carrego cicatrizes profundas dentro de mim. Estou com medo de fazer planos com você e quebrar minha cara novamente.

SCULLY: - Mulder, de que coisas eu acusei você? Eu não lembro.

MULDER: - É justo comigo. Eu sempre fui justo com você. Mas não é saudável eu me anular como fazia. Engolir a raiva que ficava quando você me acusava dessas coisas. Quando você brigava comigo por besteiras. Serei o mesmo marido que fui pra você, atento às suas necessidades. Mas eu atentarei também a mim, aos meus direitos. Se você concordar, tudo bem. Se não concordar, então melhor que não sigamos adiante. Porque de todas as coisas, essa é a maior briga entre nós dois! E sempre termina em discussão, porta batendo e cara amarrada. Cansei disso.

SCULLY: - Você está me colocando na parede, Mulder. Do que eu acuso você que irrita tanto?

MULDER: -Eu já chego lá. Não irrita, magoa. Estou sendo sincero porque não quero que haja equívocos. Tudo que exijo é mais respeito da sua parte para comigo. Somos amantes agônicos, Scully. E enquanto isso acontecer, será melhor pra nós. Seu mundo é seu. Meu mundo é meu. Se eu aceito o seu, terá de aceitar o meu. Se eu topo comer saladas, terá que ceder pra comer sanduíches. Se eu aceito sua família, terá de aceitar meus amigos. Se aceito seus amigos, terá de aceitar minhas amigas. A sua insegurança como minha mulher me deixa maluco. É isso que estou tentando dizer. Eu só quero um pouco de respeito. Acho que é justo que não apenas eu fique cedendo aos seus caprichos.

SCULLY: - Quando eu desrespeitei você, Mulder?

MULDER: - Diversas vezes. Talvez não percebesse, mas aquilo me deixava magoado. Eu vou resumir numa palavra o seu desrespeito todo: ciúme doentio! Diversas vezes você insinuou que eu tivesse outra mulher. Isso me magoava muito, porque eu só tinha olhos pra você e nem isso você enxergava. Do que adiantava eu dizer que amava você, se você não acreditava na prática? Ahn? Você pode ter amigos homens, mas eu não posso ter amigas mulheres? Isso é justo? Eu ceder e você não? Você transa com seus amigos? Não. Eu também não transo com as minhas amigas. Nós sabemos o que significa respeito e respeitamos a cara do outro, confiamos um no outro. E também sabemos, por relacionamentos passados, que quando a confiança morre, acaba o relacionamento. Então, eu não vou mais aturar isso, Scully.

SCULLY: - ... Por que não disse o que sentia antes, Mulder?

MULDER: - Pra não magoar você e tornar tudo um caos. Por isso tô dizendo que agora não vou mais calar quando você faz aquelas cenas histéricas de ciúmes. Scully o seu ciúme me rasga por dentro. Ele é doente. Ele é insano. Você difere de mim, isto é bom, mas eu não vou mais admitir suas cenas ridículas de desconfiança. Eu nunca dei motivo pra desconfiar de mim. Não adianta abrir a boca e dizer 'Mulder eu te amo' se quando eu faço alguma gracinha você me acusa de adúltero. Isso é redundante, percebe? Há uma grande diferença entre cenas de ciúmes charmosas e cenas de ciúmes doentias. Eu provoco, sei disso. Gosto de criar ciúmes em você.

SCULLY: - Então não me provoque, você sabe que sou assim.

MULDER: - Aí é que está Scully. E você sabe que eu sou assim, brincalhão. Por que eu tenho que ceder e você não? Percebe? Por que eu preciso deixar de ser brincalhão porque você é ciumenta? Por que você não deixa o ciúme doentio e debocha das minhas brincadeiras? Ou você acha realmente que eu traio você? Hum? Você confia sua vida nas minhas mãos, mas não confia em mim quando o assunto é fidelidade no casamento? Scully, isso magoa. É o mesmo que me chamar de mentiroso quando eu digo que amo você. Entende? Você diz que me ama, vai fazer suas coisas e se chega tarde eu nunca pedi explicação e nunca acusei você de estar com outro cara. Mas se sou eu quem chega tarde sem dar explicações... Pronto. Dana Scully faz um beiço, ergue a sobrancelha e já vem com as acusações. Se vou jogar boliche com os Pistoleiros, pra você tinha mulher no meio. Se saio com o Krycek é porque vou pra farra. Você sai com a Ellen e eu não fico reclamando ou dizendo que vocês foram arrumar homem. Porque eu confio em você. Você é que não confia em mim.

SCULLY: - ... Mulder, você está sendo cruel comigo. Parece estar querendo colocar empecilhos na nossa volta. Parece que não quer que eu volte pra você. Estou ficando com medo!

MULDER: - Não é isso, Scully. Pode ser que, na sua cabeça, pelo fato de eu ser homem, você me vê com o estigma machista da promiscuidade, mas eu não sou promíscuo! Quanto tempo estou longe de você? Acha que arrumei outra mulher nesse tempo? Que transei com outra? Pode até pedir relatório pra Baba se duvida aonde eu passava minhas noites. Scully, eu só tenho olhos pra você, eu amo viver com você, transar com você, chorar e rir com você. Na verdade, eu ainda amo você. Entenda de uma vez por todas que você me basta como mulher, como eu já entendi que eu basto como homem pra você, mesmo não sabendo até hoje o que uma mulher como você viu num sujeito como eu. Até tenho pena dos imbecis que deixaram você escapar da vida deles, porque perderam uma mulher incrível. Eu não quero que você escape da minha vida, porque eu sei o seu valor. Scully, quem tem você nunca mais precisa de outra. Você é uma mulher completa. Pode até ser pequenina, mas é nos pequenos frascos que se escondem os melhores perfumes. Bem concentrados. A essência pura.

SCULLY: - (SEGURA O RISO) ...

MULDER: - Eu estou ferido. E quero exaurir todas as possibilidades agora, pra não restar dúvidas. Não vou admitir que amanhã você volte atrás. Pense bem, porque quem vai sair ferido nisso sou eu. E não vou suportar perder você de novo, Scully. Eu tô falando sério. Não quero colocar pressão em cima de você, mas se você me abandonar novamente eu vou fazer bobagem. E acredite, eu quase fiz.

SCULLY: - Acha que não estou ferida? Que eu não sofri? Que não tenho sofrido?

MULDER: - Acho que sofreu. Acho que está sofrendo. E quero deixar claro que ajudo você a superar esse problema de desconfiança. Porque é o mesmo problema de auto-estima que você tinha. Apenas se concentrou em ciúmes.

SCULLY: -Não vai dar uma de psicólogo comigo, Mulder. Acha que estou fingindo pra conquistar você?

MULDER: -Não. Mas é compreensível que eu esteja com medo e agindo desse jeito. Ou você queria voltar e encontrar um Mulder chorão e de braços abertos agradecendo por você ter voltado? Caia na real, Scully. Nenhuma pessoa sai de algum relacionamento sem ter aprendido alguma coisa. Eu aprendi com meus erros. Tenho consciência deles. E também vou mudar isso pra você ser mais feliz. Então não pode mudar o que me agride em você pra que eu possa ser mais feliz também?

SCULLY: - ... Não tenho queixas de você. Ok, Mulder, eu errei. Se eu comi a carne, agora vou ter que roer o osso. Não tem problema.

MULDER: - Ah, tá vendo? Você já se magoou. Entendeu tudo errado.

SCULLY: - Não estou magoada. Estou ciente de que agora as regras são suas e antes eram minhas. Eu abri o precedente pra você me dizer isso. Não importa nada. Eu aceito suas regras. Contanto que eu tenha você.

MULDER: -Eu não estou colocando regras. Estou sendo sincero e abrindo meu coração pra você, pra gente melhorar como um casal. E essa mulher que aceita tudo não é a Scully.

SCULLY: - É sim. É a Scully, a mulher apaixonada que se entrega sem questionar.

MULDER: - Não quero que se anule, Scully. Se fizer isso, voltaremos a mesma coisa de antes, só inverteremos os papéis. Quero que seja você. Eu é que passarei a ser mais eu. Você não tem culpa se eu me calava com as coisas que você fazia e que me magoavam. Quero você, a mulher que conheço do meu lado, nós dois aprendendo juntos, os dois cedendo, os dois falando o que não está bem, o que incomoda. Eu não quero uma mulher apaixonada que se cala para manter um casamento. Se fizer isso, vamos nos perder de novo.

SCULLY: - Eu não quero mais perder você, Mulder.

MULDER: - Pelo mesmo motivo que o seu, é que estou colocando os pratos na mesa. Não quero mais perder você. Nunca mais. Me prometa que vai me pedir ajuda se precisar. Eu não farei piadas disso. Se permita uma entrega, Scully. Eu não vou fazer piadas machistas e imbecis se você disser "Mulder, eu não consigo resolver isso sozinha, me ajuda". Não vai afetar seu ego ou sua visão feminista se pedir ajuda pra seu homem. Eu preciso ser homem pra você, Scully. Eu gosto de ser o seu homem. Eu me sinto importante pra você. E me sentir importante pra você... Nossa, Scully! É dar alegria pra um cara que acha que não merece uma mulher como você. Ou custa muito fazer um sanduíche pra mim se eu te levo café na cama todos os dias? Um agradinho pro marido se sentir importante pra mulher dele, como eu faço agradinhos pra minha mulher se sentir importante? Você vai ser menos mulher por isso? Eu não me acho menos homem quando faço panquecas pra você, lavo a roupa e cuido da nossa filha. Essa coisa de machismo e feminismo é uma idiotice sem tamanho. Só atrapalha a colaboração entre um casal. Se eu ainda fosse um homem que me negasse a fazer coisas que a sociedade diz que são coisas de mulher... Dane-se a sociedade, Scully. Nós fazemos nossas regras dentro da nossa casa. A felicidade é a gente quem constrói, não as regras que alguém impôs por ideologias. Queime seu sutiã em protesto, Scully, mas não queime seus peitos. Entendeu?

Scully abaixa a cabeça.

SCULLY: - Olha o que eu fiz a você, Mulder... Como posso me perdoar? Você tornou-se amargo...

MULDER: - Não me tornei amargo. Eu amadureci, Scully. Esse foi o lado bom da nossa separação. Eu aprendi a ser responsável. A valorizar você. Eu aprendi a ser um homem de verdade. Acho que agora eu posso realmente dizer que sou homem pra você.

SCULLY: - Eu vou trazer aquele brilho que você tinha de volta. Eu vou fazer você mais feliz do que você dizia ser. Nada mais vai faltar pra você. Se eu era sua prioridade, você será a minha agora. Eu também aprendi a duras penas. Eu quero seu sorriso de novo, Mulder. Suas palhaçadas. Nossas risadas e brincadeiras bobas. O homem pelo qual eu me apaixonei nunca foi um cara sério. O bom humor dele é o que energizava minha vida séria. Opostos que se completavam. Éramos felizes, tão felizes que eu tinha a sensação de não ter mais nada a conquistar. Mas eu estava errada, Mulder. A conquista é diária. Um dia de cada vez. Um namoro eterno, como você me disse há muitos anos atrás. Seremos namorados, Mulder. Acho que aprendemos a jogar o jogo do amor eterno. Ele só existe se a conquista for diária. Eu serei mais light. Você mais responsável.

MULDER: - Eu quero sua ajuda pra que isso volte a acontecer. A gente funciona junto, Scully. Separados somos dois seres perdidos e patéticos.

Os dois perdem os olhos no mar. Mulder leva a mão à mão dela, a apertando firme.

MULDER: - Começar de novo, Scully?

SCULLY: - Não Mulder. Continuar o que começamos e foi atrapalhado. Só que agora mais fortes do que nunca. Eu não vou ficar no FBI. Vou sair com você. Não tem mais nada pra mim naquele lugar sem você do meu lado. Valeu porque conheci lá o meu amigo, parceiro, marido, namorado, amante. E talvez tenha sido por isso que fui parar naquele porão pequeno e miserável, pra ter a chance de conhecer o pai da minha filha, o amor da minha vida, aquele que me deu a felicidade que eu nunca pensei que conseguiria ter, nem a filha que eu achava que jamais teria. Passamos tantas desgraças naquele lugar, perdemos tanta coisa, até nosso direito básico humano de sermos pais, de ter uma família. Perdemos nosso filho ali. Ou nossos filhos, porque Emily, Gibson, nunca tivemos respostas... Eu perdi todas as minhas chances de ser mãe novamente e você de ser pai. Nos perdemos de nós mesmos. Você tem razão, Mulder, chega disso, nunca vai mudar, só vai piorar. Nós é que precisamos evoluir. Você encontrou a verdade que procurava, encontrou sua irmã, chega de ficarmos lá como alvos fáceis, implorando pra que acreditem na gente, sendo usados no jogo do Sindicato. Acabaram os bodes expiatórios dentro do FBI. Agora temos uma filha, que eu sei que é nossa mesmo, nós a fizemos juntos. Somos uma família. Vamos cuidar do nosso anjinho, ter mais tempo pra nos curtirmos e seguir pra próxima etapa da vida.

MULDER: - Ainda bem que você entendeu, Scully.

SCULLY: - E quer saber? A gente vai vencer. Vamos continuar correndo atrás de coisas estranhas, mas nós vamos escolher quais coisas estranhas vamos perseguir. Sem jogos e mentiras, sem sermos usados e terminar sem provas, de mãos vazias e frustrados. E vamos ser mais felizes fora daquele porão do que tendo que ficar por lá todos os dias batendo cartão e aguentando mentiras.

Mulder sorri. A puxa contra si. Scully recosta-se nele, num sorriso.


Uma semana depois...

FBI – Gabinete do Diretor-Assistente Skinner – 9:34 A.M.

Skinner lê um relatório. Mulder e Scully entram e se sentam. Skinner solta o relatório sobre a mesa.

SKINNER: - Bom ter vocês novamente aqui. Pegamos Lorran, a namorada e o cúmplice.

MULDER: - (TRISTE) ... Que bom.

SKINNER: - Agradeçam aos pescadores por terem encontrado vocês. Não passou pela cabeça de vocês que do outro lado da ilha havia uma aldeia?

SCULLY: - (CORADA) Se soubéssemos disso... Algumas coisas não... Teriam acontecido.

Mulder começa a rir.

MULDER: - Bom que não sabíamos mesmo.

SKINNER: - (RINDO) Nem vou perguntar o que aconteceu nessa ilha. Nem me interessa!

MULDER: - Melhor não saber.

Mulder abre o paletó tirando um papel e entrega pra Skinner.

SKINNER: - (TRISTE) Mulder... É o que estou... Pensando?

MULDER: - Melhor fazer isto agora, antes que façam comigo, sujando meu lado profissional. E acredite, vão fazer de novo. Sempre fazem. Você sabe disso, Skinner.

Scully levanta-se, saindo da sala. Skinner olha pra porta. Olha pra Mulder.

SKINNER: - Mencionei sobre sua demissão com o Carter. Ele vai aceitar. A Casa Branca, a mesma que vocês ajudaram algum tempo atrás... Não se opõe. Tenho aqui um memorando cortando definitivamente as verbas para o seu departamento e ordenando o fechamento dos Arquivos X. Não vão mais sustentar um departamento invisível. Como previu isso, Mulder?

MULDER: - Um fumante me avisou... E se eu ficasse, o que fariam comigo?

SKINNER: - Transferência para o escritório de Chicago. Agente de apoio.

MULDER: - (SORRI/ MAGOADO) Agente de apoio... Depois de todos esses anos, levando o nome do Bureau e da justiça, ajudando e protegendo os cidadãos desse país, é tudo o que mereço?

SKINNER: - (CABISBAIXO) ... Não é o que eu penso de você, Mulder.

MULDER: - Eu sei, Skinner. E a Scully? Vão mandá-la pra onde? Quântico?

Scully entra na sala. Joga um papel sobre a escrivaninha de Skinner.

SCULLY: - Estou me demitindo, senhor. Mulder e eu vamos trabalhar por conta própria.

SKINNER: - Sente-se, Scully. Como eu disse ao Mulder, vão fechar os Arquivos X. Você tem duas opções. Sair do FBI ou se mudar para Nova Iorque, onde ficará no departamento de análises forenses.

SCULLY: -(INCRÉDULA) O quê? Nova Iorque? E deixar meu marido aqui?

MULDER: - Em Chicago, eu seria transferido pra lá. Iam nos separar, Scully... Como sempre.

Mulder se levanta. Entrega a arma, o crachá e o distintivo. Scully faz o mesmo. Skinner assina os papéis.

SKINNER: - Vou guardar esse memorando. Vou dizer ao diretor Carter que ainda não o li. Exonerei vocês do cargo de agentes federais por opção de vocês. Fichas limpas no governo, poderão se candidatar a qualquer cargo federal, sem problema algum. Se esperarem pelo conhecimento desse memorando, vão exonerar vocês por não aceitarem transferência, sujando o nome de vocês. Lamento muito. Muito mesmo, mas eu perderia vocês de qualquer jeito. Não há mais espaço pra competência de vocês aqui dentro. Criem suas asas e voem pra mais longe.

Mulder olha pro distintivo, triste. Scully segura as lágrimas, olhando para a bandeira do FBI.

MULDER: - Minha vida... Mas... Algumas vezes é necessário que... Optemos por coisas novas.

SCULLY: - E coisas novas sempre dão a sensação de medo. Mas são necessárias. A natureza precisa evoluir. As pessoas também. É mais que justo.

SKINNER: - ... Dois anos. Em dois anos estarei sentado naquela sala lá em cima, nem que tenha que sorrir pra quem eu não gosto. E quando isso acontecer... Se quiserem voltar...

MULDER: - Nunca mais.

SKINNER: - Nunca diga nunca, Mulder. Vocês dois foram os melhores agentes com quem trabalhei. Tenho aqui cartas de recomendação para vocês, caso precisem. As portas do FBI estarão abertas pra vocês. Bem como algum convite extra para dois agentes 'mortos', em alguma investigação muito sigilosa, que envolva algo não explicável.

SCULLY: - Terão que implorar muito para que eu queira me tornar uma agente morta.

MULDER: - Faço dela as minhas palavras.

Os dois se dirigem para a porta.

SKINNER: - Se tiverem algum tempo, Ellen e eu gostaríamos de oferecer um jantar.

SCULLY: - Terá que ficar para a próxima, senhor. Hoje temos um compromisso.

SKINNER: - Scully, agora pare de me chamar de senhor. Sou padrinho da sua filha e marido da sua melhor amiga.

Scully sorri. Mulder abre a porta. Scully sai. Mulder olha pra Skinner.

MULDER: - Vou sentir falta de você, Girafão. Mas sabe aonde acontecem os churrascos no domingo.

SKINNER: -(SORRI) É só ligar, Mulder. Levo a cerveja.

MULDER: - Obrigado por tudo, meu amigo. Por tudo mesmo. Por tudo o que fez por Scully e eu aqui dentro. Pelas tantas vezes que nos salvou, nos deu cobertura e tirou o meu da reta aqui dentro. E obrigado principalmente por aquele caso, anos atrás, lá no Nepal.

SKINNER: - Mulder, por sete anos eu aguentei vocês dois aqui dentro se olhando e sem coragem. Eu apenas dei uma forcinha. E acredito que valeu a pena.

MULDER: - Santo Skinner, padroeiro dos solteiros tímidos e sem coragem. Você tem razão. Se Scully voltar pra mim, eu vou realizar o sonho dela.

SKINNER: - Ótimo. Meu terno de padrinho está esperando. Não me desaponte. Afinal, Scully pegou o buquê da Ellen. Faça acontecer.

Mulder sorri e sai da sala. Skinner suspira.

SKINNER: - Acabou a graça nesse lugar... Quem vai me dar dor de cabeça agora?


Arquivos X – 10:14 A.M.

Mulder termina de enrolar seu pôster, o colocando na caixa com seus pertences. Scully segurando sua caixa, olha para a sala com uma saudade incontida.

SCULLY: - Não é fácil pra mim. Imagino o quanto não é fácil pra você, Mulder.

MULDER: - Não foi fácil tomar essa decisão, menos ainda enfrentar a saudade que sentirei de ser um agente federal. Mas não tem volta, Scully. O que fazemos aqui podemos fazer lá fora. Sem as ameaças, sem a burocracia e sem Kersh, Carter e companhia.

SCULLY: - Nesta sala, eu conheci você.

MULDER: - Nesta sala, nossas vidas mudaram. Mas fora dela, mudarão mais ainda... Vai fazer alguma coisa agora? Quem sabe tomamos um café na sua cafeteria?

SCULLY: - Lamento, Mulder. Tenho um compromisso inadiável. O café fica pra depois.

Scully sai, triste. Mulder pega a plaquinha de sua mesa. Sorri. A coloca na caixa. Dá uma última olhada na sala.

MULDER: - Adeus, passado. Foi bom enquanto durou. Mas eu não quero mais acreditar. Eu agora, acredito.

Mulder apaga a luz. Fecha a porta, levando a caixa. Olha para a plaquinha da porta. Passa a mão sobre ela. Sai, num sorriso de dúvida e saudade.


Residência dos Mulder – 6:33 P.M.

[Som: My Love – Paul McCartney]

Mulder sentado na sala. Olha para a plaquinha com seu nome em suas mãos. Olha para a caixa sobre o sofá. Tristeza. Solidão.

Batidas na porta. Mulder levanta-se. Abre a porta. Scully parada ali com uma mala e uma caixa, cabisbaixa. Coloca a caixa no chão.

SCULLY: - Dana Scully ainda mora aqui?

MULDER: - (OLHOS EM LÁGRIMAS/ SORRI) Ela nunca foi embora.

Os dois se abraçam chorando. Mulder a beija na testa. Scully chora convulsivamente.

MULDER: - (SORRI) Acabou, Scully. Ficamos mais fortes... Nosso amor ficou mais forte...

Scully segura o rosto dele. Os dois olham-se nos olhos, recostando suas testas.

SCULLY: - Eu sei... Mulder, eu amo você. Estou aqui, pra sempre. Do seu lado, pra onde você for. Vamos enfrentar o que vier, um com o outro. Eu serei seu apoio. Não vai mais ter que ficar sozinho.

MULDER: - (SORRI/ SECANDO AS LÁGRIMAS) Perdi os Arquivos X, mas ganhei a parceira de volta.

SCULLY: - Não, você não perdeu. Você apenas terá um novo Arquivo X. Sem tantos problemas, sem tanta pressão.

MULDER: - Achei que tinha perdido você também.

SCULLY: - Você não me perdeu. Apenas terá uma nova mulher do seu lado. Sem tantas culpas, sem tanta insegurança.

MULDER: - Posso dizer uma coisa do fundo do meu coração?

SCULLY: - ...

MULDER: - Eu ainda te amo, com mais força do que antes.

Os dois trocam um beijo apaixonado. Se abraçam, ficando abraçados um no outro, sem se mover, de olhos fechados.

MULDER: - Vamos pra cozinha? Você me deve um café.

Mulder a puxa pela mão a levando pra cozinha. Scully ao chegar na cozinha cerra o cenho pra chorar. Balões e uma faixa escrita "bem vinda ao lar". Baba segura Victoria no colo, as duas sorrindo. Victoria estende as mãos.

VICTORIA: - (FELIZ)Mama!!!

Scully corre e pega a filha, a abraçando com força, chorando e beijando-a nos cabelos.

BABA: - Bem vinda de volta, mama!

MULDER: - Pinguinho, mostra pra mamãe o que você fez pra ela.

Mulder entrega uma folha pra Victoria que mostra orgulhosa pra Scully o desenho de um coração pintado em aquarela com os dedinhos. Scully sorri, emocionada, entre lágrimas.

SCULLY: - Oh, minha filhinha fez seu primeiro desenho pra mamãe?

VICTORIA: - Colação. Bem gandão! Vic ama mamãe!

SCULLY: - E a mamãe ama a Victoria.

Mulder se abraça nelas. Baba vai saindo de fininho.

SCULLY: - Aonde você vai?

BABA: - Deixar a família curtir seu momento.

MULDER: - Você já faz parte da família.

Mulder estende o braço. Eles se abraçam. Baba segura as lágrimas.

BABA: - Acho que não serei mais útil por aqui.

MULDER: - Tá brincando, né? Quem vai distrair a fera quando eu quiser namorar?

SCULLY: - E quem vai me ajudar a pôr esse homem na linha?

VICTORIA: -(BEIÇO) Brincá com a Vic...

BABA: - É... Acho que arrumei uma família.

MULDER: - Eu acho que você só arrumou mais problema.

[Fade to black - Tela escura]


[Fade to up - Tela abre]

O quarto de Mulder e Scully parcialmente iluminado. Roupas pelo chão.

Os lábios dele sobem pelo ventre desnudo dela. Pousam em seu pescoço, em beijos suaves.

As mãos dele sobem pelo colchão, enlaçando seus dedos nos dedos dela.

Ele recosta o rosto entre os seios dela.

Ela o envolve nos braços.

Ele fecha os olhos num sorriso sereno.

Ela acaricia os cabelos e as costas dele.

Ele a procura para um beijo.

Os dois trocam um beijo suave e apaixonado.

Os dois olham-se nos olhos. Ele fecha os olhos num sorriso, nos braços dela.

Ele murmura um 'eu te amo', olhando pra ela. Fecha os olhos, num sorriso. Ela sorri, olhar perdido na fisionomia apaixonada dele.

Os dois se olham num sorriso bobo, como se fosse a primeira vez. Aproximam os lábios. Línguas que se procuram.

O telefone toca. Os dois se olham frustrados. Riem juntos.

[Fade to black - Tela escura]

MULDER (OFF): - Já começaram a nos atrapalhar de novo?

SCULLY (OFF): - E se for alguma emergência, Mulder?

MULDER (OFF): - Nós estamos em situação de emergência, Scully. Eu tô sofrendo!

SCULLY (OFF): - (DEBOCHADA) Oh, pobrezinho! Está sofrendo? Vem aqui que a 'mamãe' cuida de você.

MULDER (OFF): - (RINDO) Scully, não me broxa!



X


17/03/2002


21 de Dezembro de 2019 às 12:49 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da L. One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. Siga-me para mais em https://www.facebook.com/laraone1

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