O Lago dos Elefantes Seguir história

pat-gubsky1574632958 Pat Gubsky

Carol é deliciosamente impetuosa e tem uma carreira profissional brilhante em New York. Após uma epifania decide repentinamente viajar à Namíbia no intuito de investigar uma das fábricas de seu cliente, a Sassy Cosméticos, para desenvolver uma nova campanha publicitária. Encontra Arusi, seu alvo para garoto propaganda. Ele é um trabalhador da fábrica e não tem ideia que será abordado pela profissional até que o encontro acontece. Acostumado com a vida regrada e estável do interior do país, ele estranha a proposta da forasteira. Os dois seguem uma jornada de descobertas entre as culturas antagônicas, mas que se convertem em uma transformação única. É uma história de renovação e coragem embalada pelas belíssimas paisagens da Namíbia. Ela conhece pessoas extraordinárias em sua jornada e descobre, que ao mirar em um objetivo profissional, acabou encontrando um objetivo de vida totalmente fascinante a ponto de transformar as suas verdades para sempre!


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A Epifania

Carol despertou às 7 da manhã, como de costume. Esfregou os olhos verdes e pequenos com as palmas das mãos, deu um suspiro e levantou-se para tomar o café da manhã. Das refeições do dia, esta era a mais completa. Não porque ela se importasse com as instruções de nutricionistas e magos das dietas, mas porque era a mais fácil : cereal com leite, pão de forma com queijo e suco.

Levou o copo de suco até os seus lábios também pequenos e o sugou em pequenos goles. Sintonizou o rádio em sua estação predileta no volume mais alto que uma manhã de trabalho pudesse suportar, colocou a louça na máquina de lavar e foi tomar o seu banho.

Para ela, o banho era a parte favorita no processo entre acordar e estar a postos em sua mesa de trabalho. A água quente e forte massageando o seu corpo, os aromas dos sabonetes, shampoos e óleos de banho, tudo se misturando ao vapor da água que subia lentamente e escapava pela pequena janela do box que tinha uma das melhores vistas da cidade : o grande rio que a cortava como uma artéria furiosa irrigando seus habitantes. Estranhamente, era no banho que tinha várias de suas ideias para as campanhas de marketing que desenvolvia na agência de publicidade em que trabalhava.

Pegou o shampoo da sua marca favorita, a Sassy Cosmetics, para massagear os cabelos. A Sassy era seu cliente na agência. Uma empresa que tinha como filosofia a cosmética natural, artesanal e que não testava seus produtos em animais. Abriu a tampa do pote de shampoo pastoso, puxou um pouco do produtocom os dois dedos e, antes que pudesse colocar em seu cabelo, paralisou. Seus olhos fixaram-se em uma imagem: um pequeno selo colado na embalagem. Era umafigura humana. Logo abaixo do pescoço percebeu que havia uma frase escrita. Aproximou o pote para poder ler quais eram as palavras: "este produto foi feito por Arusi". Franziu o cenho, a água quente continuava a escorrer em suas costas. Voltou-se novamente para a imagem e observou um rapaz negro, sorrindo. Fitou-o por um tempo. O suficiente para perceber que aquele era um momento de epifania. Criativa que era, a partir dali uma série de ideias começaram a brotar em sua mente. Sentiu pequenos choques em seu cérebro como se fossem fogos de artifício explodindo. Reconhecia aquela sensação, já a tinha tido em outras ocasiões em que as ideias para as campanhas dos clientes tinham sido absoluto sucesso. E percebeu que mais uma vez a sorte estava ao seu lado e que ninguém melhor que ela para aproveitar aquele momento. Deu um sorriso triunfante. Deixou o pote inteiro de shampoo se espatifar no chão, saiu do banho mal tendo tempo de secar os cabelos e seguiu para o trabalho.

Carol finalmente tinha encontrado o mote da campanha para a Sassy, sua empresa de cosméticos favorita! Começou a imaginar como seria se entrevistassem as pessoas que trabalhavam naquele produto, suas vidas, sua cultura, suas ideias. Colocar um rosto por traz da companhia! Aquilo era genial! Humanizar, conscientizar o consumidor, aproximar as pessoas. Isso tinha tudo a ver com a Sassy e eles iriam adorar! Ela arrancou o selo com a sua unha esmaltada e guardou-o na bolsa para que pudesse pesquisar sobre a tal figura humana estampada no selo de suposto nome Arusi.

Começou a imaginar como seria a campanha. Para apresentar essa ideia que considerava tão brilhante, precisaria conhecer um pouco do mundo daquelas pessoas que preparavam um a um os produtos que seriam utilizados por milhões de pessoas no mundo inteiro. Será que elas tinham a consciência de que o consumidor final se atentava para aquele pequeno selo com um desenho pobre de seus rostos colado na embalagem? Apostou que não, e enxergou a beleza de apresentar ao seu consumidor quem era de fato o seu "artesão particular". Como seria a vida desse tal de Arusi que preparava o seu shampoo? Será que ele realmente existia? Aonde será que vivia? Será que ele estava ciente de que o seu rosto sorridente estava rodando o mundo inteiro e eventualmente ajudando profissionais de marketing a desenvolverem campanhas que trariam milhões para o seu cliente?

Carol era uma profissional de campo. Ela precisaria fazer uma pesquisa sobre isso para preparar um material consistente e seguir com a apresentação da ideia ao seu cliente.

A agência de publicidade era uma das mais importantes do mercado e se orgulhava por ter grandes clientes em seu portfolio. O andar enorme com pessoas apressadas andando de um lado para o outro seguia a tendência de implementação de todos aqueles clichês para a satisfação dos funcionários, desde videogames, passando por comida à vontade, e uma sala com algumas camas para quem quisesse tirar uma soneca.

O ambiente competitivo transpirava egos que flutuavam pelo escritório esmagando os mais sensíveis. Eram 200 pessoas disputando a atenção dos sócios. Carol, segura de si, adorava o seu trabalho e o mais importante, era bem-sucedida com ele. Tinha alguns amigos que frequentemente saíam para um happy hour ou jantar. Ela adorava salada acompanhado de um belo vinho tinto. As pessoas perguntavam:

- Você não vai pedir nada além de mato?

Ela enchia a boa para dizer:

– Não, só o mato e uma taça de vinho tinto, por favor.-todos riam e brindavam.

Chamavam-na de trator pois passava por cima de qualquer argumento e qualquer um para alcançar os seus objetivos que estavam calcados geralmente em ganhar a conta do cliente. Sua ética era impecável, mas o seu foco, implacável. Se o seu oponente não fosse realmente superior, ela o nocauteava sem dó e nem piedade. Ria alto, pensava rápido, seu discurso parecia uma metralhadora de palavras. Tudo o que tinha de diminuto fisicamente – estatura, olhos, boca – eram compensados com a grandeza de seu caráter, um largo sorriso, um grande coração, enorme inteligência e personalidade desafiadora.

Certa vez, em uma reunião com um cliente da área imobiliária, desconcertou os 7 participantes quando discordou veementemente do diretor da empresa. Todos ficaram apreensivos, mas no final da reunião, foi aplaudida de pé. Carol era assim, falava o que pensava, não tinha medo de ninguém e era dona de sua vida.

Naquela manhã chegou esbaforida com a sua nova ideia a ser desenvolvida. Precisava se organizar. Então a primeira coisa que fez foi pesquisar no Google aonde o seu cliente possuía as fábricas de cosméticos. Não queria perguntar à ninguém da empresa antes de considerar que a sua ideia era viável. Claudia, que sentava ao seu lado, percebeu a sua empolgação e já jogou uma indireta dando a entender que sabia que viria uma de suas ideias. Carol disfarçou e disse apenas teve uma noite agitada. Mas Claudia sabia que a amiga estava mentindo porém preferiu não forçar o assunto. No momento certo ela iria revelar o que estava acontecendo.

A ansiedade acelerava o seu coração até quase pular a boca. Só pensava no tal do Arusi. Seu plano inicial era procurá-lo para conhecê-lo. Estava extremamente curiosa em saber quem ele era, aquele moço que fazia o seu shampoo. E queria mostrar ao mundo, através de sua campanha de marketing, não só a figura dele ele como a de vários outros trabalhadores que faziam com as suas próprias mãos os cosméticos que milhões de pessoas utilizavam. Haveria ideia mais descolada? Carol achava que não.

Seus olhos ficaram vidrados na tela do computador. Seu pescoço inclinado para a frente.

Carol descobriu que a Sassy tinha 4 fábricas no mundo. Uma nos Estados Unidos. Outra na Polônia, outra na Indonésia e outra na Namíbia. Basicamente era uma em cada parte do mundo, pensou. Como é que eu vou achar este cara? Sua consciência sugeriu que ela passasse a mão no telefone, ligasse para o seu cliente e perguntasse mais detalhes sobre a sua operação no mundo, seus funcionários, etc. Seria muito mais fácil, prático e eficiente. Mas Carol não gostava de fácil, além de ser extremamente supersticiosa. Tampouco era de dividir as ideias quando ainda estavam cruas. Ela precisava vivenciar as experiências para acreditar nelas e vender o produto do cliente da melhor forma possível. Certo ou não ela vinha colecionando vitória atrás de vitória com este método.

Arusi...– pensou – Arusi... Bem, não me parece um nome Polonês. Já podemos eliminar um país. Faltam 3! – Seus olhos continuavam grudados na tela. Sentiu um leve tapa em seu ombro. Era Arthur, o cara que disputava a maioria das contas com ela. - Não ouvi a sua risada hoje, Carol, está de mau humor? - ela saiu de seu estado de transe e riu de maneira escrachada – Você alguma vez me viu de mau humor, Art? Com todas as contas que ganhei nos últimos anos tenho mais é que rir eternamente! – Arthur deu um gole na caneca de café e saiu andando. Claudia comentou que Arthur estava preocupado pois não havia conquistado muitas contas para a agência nos últimos meses. Carol sentiu pena de seu colega de trabalho, mas ao mesmo tempo um fundo de prazer pois anos atrás ele havia roubado uma ideia sua para uma campanha que acabou ganhando um prêmio em Cannes, fato que Carol jamais esqueceu.

Ela então resolveu colocar o nome Arusi no Google. Digitou lentamente ARUSI. Na tela, apareceram milhares de referências mas seus olhos brilharam quando descobriu que este era um dos nomes mais populares da África. Sorriu triunfante e pensou – ele só pode estar na Namíbia! Anotou o nome da cidade da fábrica da Sassy. Ficava há 100 km da cidade de Swakopmund, uma das principais cidades costeiras daquele país.

"Vou para lá" – pensou num impulso súbito

Na mesma hora acessou o site de passagens e comprou a sua passagem para Windhoek, a capital do país, para o dia seguinte. Solicitou à secretária, Lucia, que providenciasse a estadia e o transporte para uma semana. Ela ficaria um dia em Windhoek e depois partiria para Swakopmund para tentar encontrar Arusi, o homem estampado no selo de seu shampoo que aparentemente trabalhava à 100km de Swakopmund, em uma das fábricas da Sassy. Ela nunca tinha estado no continente Africano antes e aquela lhe pareceu uma aventura bem excitante. Ao final do expediente, bateu na porta da sala de seu chefe. – Trator! Pode entrar !

Carol estava nervosa. Nunca havia tomado uma decisão tão impetuosa antes. Sim, ela era um trator. Sim, ela fazia acontecer e o chefe poderia contar com ela para qualquer coisa. Sim, ela era corajosa. Mas não, ela nunca tinha batido na sala do chefe para avisar que se ausentaria por uma semana na África a começar pelo dia seguinte.

- Aonde fica isso? - perguntou o chefe confuso.

Ela explicou que tinha tido uma ideia brilhante e que a Sassy ficaria muito satisfeita com o resultado, que ela tinha certeza que com aquela campanha ganhariam todos os prêmios disponíveis no mercado e que provavelmente a conta da Sassy ficaria vitalícia! Disse também que, como ele sabia, ela não podia revelar nada pois a ideia ainda estava muito crua. Frank gostava de prêmios e contas vitalícias também. Embora para esta última ele sabia que Carol tinha forçado a barra. O chefe disse à sua pupila que o risco era dela e que se ela achava que a ideia era tão sensacional, deveria seguir os seus instintos. Mas que se a campanha não agradasse o cliente ela provavelmente perderia muitos pontos com os sócios no quesito promoção de cargo. Carol deu uma risada alta tentando disfarçar o nervosismo e disse à Frank para confiar nela. A bem da verdade era que ele realmente confiava.

Despediu-se então e disse que voltaria em uma semana. O chefe ergueu o dedo indicador e reafirmou:

– Uma semana !

- Arusi, Arusi, você vai ter que me ajudar nessa! – Carol citou o nome de seu suposto garoto-propaganda como se fosse um mantra. Era uma mistura de ansiedade e expectativa. Estava dirigindo de volta para casa quando seu telefone tocou. Era Claudia.

- Quer me dizer o que está acontecendo? Vi você conversando com o chefe e não consegui entender nada!

A publicitária contou o seu plano à amiga. Ao contrário de Carol, Claudia era calma, centrada, racional e totalmente desprovida de vaidade. Elas haviam criado algumas campanhas em conjunto e o chefe dizia que uma era o Yin e outra o Yan. Ao ouvir toda a história, Claudia começou a ponderar:- Quer dizer que você vai atrás de um tal cara chamado Arusi, para um país que você nunca pisou antes e pior, que você nem sabe se trabalha lá mesmo.

Carol riu.

– Eu sei, louco né? Mas eu quero, eu tenho que seguir os meus instintos, Clau.

A amiga tentou mostrar a insanidade do plano. Aquilo não fazia sentido algum! O cara poderia morar nos Estados Unidos, na Indonésia ou mesmo na Polônia. Ironizou que hoje em dia existiam aviões que levavam as pessoas de um continente ao outro proporcionando plena mobilidade para qualquer pessoa estar no país em que ela quisesse.

Carol respondeu que queria seguir o seu palpite e explicou o episódio daquela manhã. Comentou sobre a sensação de fogos de artifício propagando em seu cérebro.

- Tem certeza de que os fogos de artifício não eram as pontadas na cabeça depois das garrafas de vinho que bebemos ontem no jantar?- provocou

Carol deu uma gargalhada e disse que conhecia muito bem a diferença de uma ressaca e de uma epifania

– Não que eu tenha tido várias. Epifanias, eu digo, não ressacas! – As duas riram e Claudia não tinha outra alternativa senão desejar boa sorte.

O voo foi cansativo. A rota teve turbulência e Carol não era fã de aviões. Teve problemas para dormir, principalmente por conta de seus objetivos naquela viagem. Levou um guia de viagens consigo e tentou aprender um pouco sobre o país que iria visitar. Mas as perguntas martelavam a sua mente : Será que Arusi a receberia bem? Era casado? Tinha filhos? E, mais importante que tudo, será que ela conseguiria encontra-lo? Muito da sua carreira estava em jogo nesta empreitada que ela sabia que era quase como uma loucura.

Ao chegar em Windhoek, começou a cair em si sobre o que havia feito. Será que seu plano seria bem-sucedido? Talvez tivesse feito mesmo uma loucura. Haveria alguma coisa para ela comer naquele país? Na capital com certeza, mas o que dizer da cidadezinha há 100km de Swakopmund, um lugar no meio do nada? Em seguida considerou que se o seu objetivo era somente conhecer Arusi poderia fazê-lo em um dia. Poderia sair da cidade costeira de manhã cedo seguir para a cidadezinha aonde a fábrica estava localizada e voltar no fim da tarde. Ela tinha lido que Swakopmund era uma cidade estruturada e turística. Por conta disso, havia bares e cafés. Naquele lugar, pelo menos, haveria algo que comer – pensou

Ao sair do taxi que a levou ao hotel, apreciou um vento quente e suave em seu rosto. Foi uma sensação como se estivesse recebendo as boas vindas do país, um acolhimento. Deu um leve sorriso e seguiu para a recepção. A pedido da agência, haviam providenciado um carro com motorista particular para acompanhá-la em toda a viagem. No quarto, a primeira coisa que fez foi tomar um banho. Sentiu falta do seu shampoo da Sassy. Produto que a havia levado até "aquele fim de mundo".

Abriu o seu computador e verificou os e-mails. Nada muito importante.

No dia seguinte faria uma viagem de quase 350 km de Windhoek, a capital, até Swakopmund. Era lá que seria a sua base para a sua suposta jornada com Arusi. Adormeceu sobre o computador ainda aberto e com as informações sobre a fábrica da Sassy na tela. Naquela noite não jantou. Se alimentou apenas de sonhos.

24 de Novembro de 2019 às 22:12 3 Denunciar Insira 2
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Karimy Lubarino Karimy Lubarino
Olá, Pat Gubsky! Para pedir uma betagem, sua história não precisa ter passado pela equipe de Verificação antes. O pacote de betagem pode ser comprado ou trocado por cripto moedas, então é bom conferir se você tem moedas suficientes (esse poderia ser um dos motivos pelo qual a opção não aparece). Pelo que sei, também, os capítulos com 5 mil palavras para cima ainda não estão sendo aceitos pela equipe de betagem, portanto esse também é um requisito para conseguir adquirir o serviço. Caso ainda tenha interesse em adquiri-lo, peço, por favor, que observe essas questões e, caso esteja tudo conforme o permitido, que tente mais uma vez fazer a compra do serviço. Se ainda assim não conseguir desbloquear a betagem, peço que responda esta mensagem relatando o que ocorreu. Obrigada!
November 28, 2019, 12:46

  • Pat Gubsky Pat Gubsky
    Ok, vou ver, obrigada. Quais os próximos passos para a verificação? November 28, 2019, 15:07
  • Karimy Lubarino Karimy Lubarino
    A sua história já foi dada como verificada. 🙃 É provável que receba um e-mail e uma notificação com a mudança. 🤗 November 28, 2019, 15:31
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