O inesperado agora Seguir história

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f.j. siqueira


“Não é porque um capítulo foi ruim, que você deve desistir da história inteira”. A adolescência, por si só, é uma fase conturbada na vida de qualquer pessoa, e para Lucas, um jovem de 17 anos, não é diferente, entretanto, ele não contava com as sobrecargas que acabam recaindo sobre os seus ombros: a decisão de seus pais de se separarem, colocando à venda o apartamento onde moram, e a descoberta de que seu (recente) ex-namorado, David, que lhe havia dito ter "se encontrado" como hétero, na verdade o trocou por outro homem e, diga-se de passagem, bem mais velho. Como se tudo isso já não bastasse para deixar Lucas à beira de um ataque de nervos, sua mãe decide que eles irão se mudar para Laranjeiras, interior de Minas Gerais, onde mora a avó materna, com o propósito de recolocar a vida novamente sobre os trilhos. Claro que diante dessa irrevogável resolução, somada às incertezas de como será sua existência em um local onde não conhece ninguém, já que o único contato que teve com esse lado da família foi há doze anos, Lucas não tem alternativa a não ser atravessar uma temporada de angústia, estresse, ansiedade e resistência ao ter que se despedir dos amigos, da escola, do seu mundo, contudo, ao conhecer Thiago, poucos dias antes de sua partida, suas esperanças, no meio desse tsunami, parecem renascer das cinzas.


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Pare o mundo que eu quero descer

Li alguma vez, em algum lugar, um pequeno texto que se utilizava de uma metáfora gastronômica para resumir o suplício que é existir dentro do "universo paralelo", do turbilhão de mudanças carregado de crises, angústias e conflitos, que é a adolescência. Essa fase humana tão legal, às vezes divertida, mas também tão difícil, e quase sempre ruim, seria uma espécie de massa de bolo, crua, grudenta, nos agarrando de maneira tal, como uma super vilã, não nos deixando alternativa salvo a de lutar bravamente, com sangue suor e lágrimas, para nos libertar.


Nome: Lucas

Idade: 17 anos

Status: SEM PACIÊNCIA


A pergunta que não quer calar: como alguém, em pleno uso de suas faculdades mentais, vivendo dentro do mesmo planeta e respirando o mesmo ar, pode afirmar aos quatro ventos que a melhor fase da vida é a adolescência? Que as preocupações desses seres humanos que não são mais crianças, mas também não são adultos, se resumem a ir para escola, tirar boas notas e CURTIR?


Hellooo!


Curtir o quê, pelo amor do Criador?


Qual é a curtição em não ter dinheiro para sair, pais pegando no seu pé, repetindo a mesma ladainha de que no tempo deles as coisas eram diferentes e mais difíceis, e que agora somos abençoados, tendo tudo nas mãos?

E o "toque de recolher", que nos proíbe de acessar a internet, games ou televisão durante a madrugada?

E a escola, aonde os professores despejam matérias e mais matérias, nos forçando a escrever por mais de cinco horas seguidas, e que somente por uma intervenção divina, depois dessa maratona, não adquirimos uma tendinite ou uma bursite, ou qualquer outro tipo de inflamação nos tendões, nos ossos ou nos músculos?

Aliás, aproveitando esta deixa, não podemos ignorar que uma boa parte do que estudamos é inútil. E não digo isso, tipo, jogando conversa fora, querendo desmerecer a importância de se ter uma boa formação acadêmica, até mesmo porque alguns conhecimentos são necessários para desenvolverem as propriedades cognitivas do cérebro.

Mas, vamos lá...

Convençam-me da relevância em decorar as capitanias hereditárias? Ou por qual razão precisamos ter conhecimento de que a minhoca é um ser hermafrodita incompleto? Ou, ainda, o motivo incontestável para aprendermos a distinguir dinossauros? Por acaso existe alguma possibilidade, por mais remota que seja, de toparmos com algum fóssil perdido por aí, a não ser que façamos as malas e embarquemos felizes da vida para o Jurassic Park?

E a famigerada matemática, com aquelas fórmulas absurdas, equações, juros compostos, progressão aritmética, progressão geométrica, probabilidade, trigonometria? Em que exato momento de nossas vidas, se por acaso não almejamos nos tornar engenheiros civis, matemáticos ou economistas, vamos utilizar matrizes quadradas e determinantes?

Na boa, não estou conseguindo pensar em nada positivo neste momento. Na verdade, nem nestes últimos dias e tampouco pretendo me esforçar para que isto aconteça. Como já sinalizei, estou sem paciência e também estressado, revoltado e muito, muito nervoso e tenho motivos de sobra para isso. Minha vida mudou de uma hora para outra. Há um mês eu tinha uma família perfeita, morando em um apartamento show de bola, tinha amigos, minha rotina, até que meus pais concluíram, sabe-se lá quando e como, que a convivência entre eles não seria mais possível e decidiram vender nosso apartamento, dividir o dinheiro e seguir com suas vidas...

Só se esqueceram de um pequeno detalhe:


E A MINHA VIDA?


Nas últimas duas semanas estou tendo que me despedir dos meus amigos, ao mesmo tempo que venho doutrinando o meu cérebro com a ideia de que deixar para trás a minha existência na capital carioca é o melhor a ser feito. E isso tomando por base a linha de raciocínio da minha mãe, que afirma de maneira entusiástica, que apesar dos aspectos negativos e das perdas proporcionadas por este momento, há um mundo inteiro de descobertas pela frente.

Oi? Um mundo inteiro?

Estamos nos mudando para um lugar de nome Laranjeiras, onde mora minha avó, porque minha mãe acha que não terá forças para continuar habitando o mesmo apartamento (e cidade) em que viveu praticamente toda a vida de casada. Só que esse tal lugar fica no interior de Minas Gerais, a 189 km de Belo Horizonte, a três horas e três minutos de viagem, e por terra, já que não existe sequer um aeroporto construído lá no mundo de Oz.

Será que ela, a minha genitora, consegue imaginar o impacto que essa mudança terá para um garoto de dezessete anos que passou toda a sua vida em uma metrópole, e de repente precisa adaptar todo o seu mundo, suas referências e suas diretrizes para se transformar em um Jeca Tatu, um Chico Bento, dobrando as palavras, com os pés descalços e um pedaço de mato pendurado no canto da boca?

Claro que fui pra internet pesquisar o modus vivendi da cidadezinha da minha avó, ate porque minha mãe só me levou lá uma única vez, quando eu tinha uns cinco anos. Juro que tentei seguir adiante com a minha busca, mas assim que acessei a primeira imagem do lugar e me deparei com a via principal dividida por um canteiro extenso, tipo aqueles da primeira metade do século XX que cruzavam a Rio Branco, e, como se não bastasse, também uma carroça estacionada com um cavalo ou burro engatilhado nela, não deu, desisti e fechei o note com uma vontade absurda de fazer minha mala e sair correndo pelo mundo ou ir para Curitiba, morar com meu pai, que aceitou uma proposta de trabalho por lá, mas ainda não pode ficar comigo porque precisa se estabelecer...

Curitiba ou Laranjeiras? Oh! Dúvida cruel.

Como bem disse Oscar Wilde, às vezes podemos passar anos sem viver em absoluto, e de repente toda a nossa vida se concentra num só instante.

Aliás, vocês acreditam que Laranjeiras tem apenas um shopping?

U M S- H- O- P- P- I- N- G?

Como se não bastasse estar sem os meus amigos, não terei muitas opções para me divertir. Como sobreviverei sem as minhas festas? Meus rodízios de pizza? E a minha saúde? Onde vou praticar minha natação, minha musculação e o judô? E a escola? Minha mãe disse que já conseguiu me matricular no novo colégio. Alguém avisou pra ela que estamos em abril e que as aulas já começaram e que as provas do 1.º bimestre já foram aplicadas?


QUE - MAL - EU - FIZ - AO - CRIADOR?


O bom desse lance de mudança é que não estou precisando lidar com as ameaças e chantagens da minha mãe para manter meu quarto arrumado. Não que o meu espaço seja parecido com o covil de um arquivilão de HQs, mas é que o nosso conceito de organização segue caminhos muito, muito diferentes.

Qual o problema em deixar alguns livros, alguns copos, meias, tênis, minha mochila e algumas peças de roupas espalhados pelo chão? Ou "guardados em grupo" dentro do meu armário?

Um estudo feito por uma Universidade de Minnesota afirma que as pessoas mais criativas surgem da desordem. Albert Einstein, cuja genialidade é incontestável, levantou a seguinte questão: se uma mesa desarrumada é sinal de uma mente desarrumada, o que devemos pensar de uma mesa vazia? Bem, para dona Lúcia o que Einstein disse ou deixou de dizer pouco importa, ela quer, ou melhor, exige que o meu castelo esteja sempre arrumado, e vez por outra abre gavetas, armários, vasculha bolsos de calça, mochila...

Como que de uma hora para outra nossos pais parecem não entender uma palavra do que falamos? Em que momento eles se tornaram tão chatos?

Minha melhor amiga, Gabriela, sugeriu que eu extravasasse as frustrações escrevendo para outros adolescentes, dividindo com eles essa experiência pela qual estou passando, a diversão, a aventura, as descobertas, os conflitos... Perguntei se ela estava consumindo algum tipo de substância pesada ou ilícita. Ou as duas ao mesmo tempo. Tirando a parte dos conflitos, só tenho esbarrado em devastação e desespero.

De tanto que ela insistiu, acabei cedendo. Mergulhei no universo das fanfics para ver no que isso podia dar e definitivamente não foi uma boa ideia.

De dez fics escritas, onze falam sobre um adolescente que vê seu mundo virado de pernas para o ar ao ser obrigado a se mudar para outra cidade, quase todas fora do país e consideradas verdadeiros centros cosmopolitas, como Nova Iorque, Toronto e Londres. E os pobres coitados ainda fazem cara feia. Resistem. Batem o pé. Alegam que os pais, ou os tutores, estão predispostos a acabar com suas vidas. E como se não bastasse essa controversa demonstração de amor arraigado à pátria, uma grande parte do texto dessas histórias quase sempre comete um verdadeiro "genocídio" contra a nossa gramática.

Larguei várias pelo caminho.

É mais fácil tentar entender um hieróglifo do que conseguir decifrar uma frase em que 98% das palavras estão abreviadas no pior estilo internetês. Sem falar no excesso de repetição de algumas (muitas) expressões. E a overdose de adjetivos e advérbios? E os parágrafos onde se encontra de tudo e com tamanhos desesperadores? E o samba lelê misturando a primeira e a terceira pessoa?

Tramas e mais tramas em que nada se cria e tudo se copia.

Ah! Já ia me esquecendo dos futuros casais que se esbarram pelos corredores da vida e ficam perdidamente apaixonados em questão de segundos e depois de meia dúzia de parágrafos se casam e antes mesmo do final do capítulo já engravidaram.

Também não posso deixar de lado os enredos hot's e seus traços de 50 tonificações, onde sem mais, nem por que, o mocinho começa a desfilar com sua cueca Boxer e a mocinha com sua lingerie bela e combinada. Ele, um CEO experiente e dominador. Ela, uma jovem estudante e insegura.


T - É - D - I - O!


Para não dizer que estou sendo preconceituoso, ou até mesmo parcial, também dei uma olhada nas fics yaoi.

Sim, sou gay.

As histórias com conteúdos homossexuais, além de carregadas de clichês mal usados, fogem de uma maneira irritante da realidade em que vivemos.

No mundo cor-de-rosa em que a maioria dessas fanfics se passa, o casal de meninos/rapazes curte o seu amor a qualquer hora do dia ou da noite e em qualquer lugar sem sofrer um resquício de manifestação preconceituosa. Ainda que silenciosa. Tácita.

Chega a ser ofensivo.

E a associação estereotipada, homem/mulher, que os autores submetem seus protagonistas em relação à postura sexual? Um dos dois é o macho alfa, duro na queda, imponente, do tipo que não leva desaforo para casa. O outro é super, hiper, mega sensível, uma fina flor que chora por quase tudo e não consegue tomar uma decisão, sequer, por si próprio.

Por sinal, fiquei surpreso com o fato das mulheres praticamente não existirem nessas histórias yaoi. Contudo, quando estão lá são para causar, assumindo o papel da vadia que vai atrapalhar o casal de garotos, sendo odiada eternamente por tudo e por todos. Uma verdadeira vilã à lá mexicana, do calibre da psicopata Soraya Montenegro, completamente ensandecida, disposta a qualquer coisa para alcançar os seus objetivos.

Ou então colocam a pobre coitada fazendo a linha da típica adolescente patricinha que é capaz de vestir pele de cordeiro, de griffe, claro, e que não chega a ser tão louca como a rival da Maria do Bairro, mas sabe fazer bom uso da alcunha "o diabo veste Prada".

Ser gay não tem nada a ver em enxergar o sexo oposto com rivalidade. Chega a soar um tanto radical, preconceituoso e até mesmo sexista.

Meu celular está tocando e adivinhe o número de quem está no visor?

Meu ex.

Óbvio que eu não vou atendê-lo. Ainda não me recuperei do chute na bunda que ele me deu. O David me dispensou há pouco mais de três semanas, praticamente quando o meu inferno astral estava começando. Ele sabia de tudo. Da separação dos meus pais. Da minha mudança para Laranjeiras. Do apartamento que vai ser vendido. E mesmo assim, três dias depois do Armageddon ter caído sobre a minha cabeça, o patife simplesmente avisou que não ia dar para continuar, pois o que rolou entre a gente o fez ter a certeza de que preferia as meninas... Perguntei se a desculpa esfarrapada tinha que ser encarada como um elogio.

Um escroto, isso que ele foi e é. Nos quatro meses em que namoramos, o David nunca mencionou que estava em dúvida em relação à sua orientação sexual, e quando ficávamos suas investidas e preferências não lembravam nem um pouco as de um macho alfa, pelo contrário...

Pronto. Desistiu.

Será que achou que eu ia largar tudo para falar com ele?

O imaturo nessa história deveria ser eu. O cretino tem 21 anos e não consegue ter a hombridade de assumir que não tá mais a fim de um relacionamento? Para alguém que se descobriu hétero, ou sabe-se lá que nome dar para essa epifania de gênero, frequentar boates gays seria um dos primeiros lugares que deveria manter-se afastado, não?

Meu celular de novo. É a minha amiga Gabriela.

— Fala!

— O David acabou de me ligar — ela dá a notícia um tanto temerosa — E disse que quer se despedir antes de você ir embora.

— Como é que é?

— Eu também não acreditei quando ouvi isso, Lucas, mas ele disse, e foi firme nas palavras: não vai deixar você se mudar com esse mal entendido que ficou...

— Não vai deixar que eu me mude? Mal entendido?

Explodo gritando no celular ao tempo que me jogo sobre a cama, caindo de costas no colchão.

— Qual parte do fora que ele me deu que não ficou claro?

— Eu sei e tentei argumentar, demovê-lo dessa ideia, mas foi como se eu estivesse falando com um pedaço de pano...

— O idiota ligou pra você agora, não é isso?

— Acabei de falar com ele...

— Ele me ligou antes e eu não atendi...

Meneio a cabeça bem devagar, sem desviar os olhos do teto. A respiração da minha amiga no outro lado está tão pesada como a minha.

— Não queria de maneira nenhuma que você fosse pego de surpresa Lucas.

— Se esse ser humano tentar se aproximar de mim, você anota aí Gabriela, vou virar assunto do New York Times, do O Globo, do Le Monde, da porra toda...

— Pois eu acho que se ele te procurar, você deve se mostrar superior...

— Ainda não alcancei esse grau de elevação espiritual, e não me peça para me portar como uma mosca morta...

— Não estou pedindo isso...

Ouço minha amiga inspirar, forte. Parece cansada, e com toda certeza, afinal foi ela quem segurou minha barra nos primeiros dias de bad e acho que não está preparada para uma nova temporada de "Todo mundo odeia o David".

— Só quero que você mostre ao seu ex que está inteiro depois do fim do namoro e que um pedaço de merda no chão e ele são a mesma coisa.

Essa é uma das peculiaridades de Gabriela: conseguir enxergar um problema de forma racional, sabendo colocar os devidos pingos nos is.

— Gabriela — meu tom de voz beira o descontrole — Ainda que o Shawn Mendes aparecesse na minha frente sensualizando, só de cueca, e com aquele tanquinho que deixou o mundo impactado na nova campanha da Calvin Klein. Ou se o Justin Bieber surgisse nu, com todas aquelas tatuagens, me prometendo horrores, eu não ia permitir que o David viesse trocar meia palavra comigo. Você sabe muito bem o quão covarde ele foi. Com toda certeza deve estar com a consciência pesada e quem sabe até querendo voltar...

— Ele tá namorando...

— Oi? — projeto o meu corpo para frente até conseguir ficar sentado sobre a cama e em seguida dou um salto, postando-me de pé. Todos esses gestos realizados na velocidade da luz — E quem é a pobre coitada? — não consigo esconder meu recalque disfarçado de curiosidade mórbida...

— É um homem, Lucas — minha amiga hesita antes de continuar — Dizem que é um cara mais velho, aparentando ter um pouco mais de 30...

Não contenho minha indignação e dou um berro, só que dessa vez bem parecido com aqueles que as mocinhas dos filmes de terror soltam segundos antes de serem assassinadas.

— Mas o veado disse que descobriu que gosta de meninas...

— Bom, pelo jeito ele continua em dúvida...

— Eu tô meio que sem ar, Gabriela — sinto o quarto começar a girar ao meu redor — Depois a gente se fala.

— Ok. Mas o David não merece que você deixe sua autoestima embaixo do pé.

— Tá.

Desligo o celular muito puto da vida. Não tô acreditando que o David está namorando um homem... Eu sabia que ele estava mentindo. Ordinário. Filho de uma puta...

Corro para a escrivaninha e abro o meu notebook com uma veracidade e impaciência tamanhas ao mesmo tempo em que vou xingando todos os palavrões que conheço.

É claro que irei me vingar desse frizek metido a garanhão...

Batidas na porta...

— Lucas, querido, preciso falar com você.

É minha mãe. Quem mais poderia ser? Não tô em condições de conversar com ela nesse momento, mas como sempre minha opinião não vale um real sequer; dona Lúcia já está invadindo o meu quarto. Não sei pra quê bate antes de entrar se não espera a minha resposta...

— Precisamos conversar querido.

Respondo um "tá" entre os dentes, permanecendo de frente para o meu note...

Um instante de silêncio reina absoluto e detesto quando isso acontece, pois tenho certeza que dona Lúcia está sentada na minha cama, parada, olhando para mim, esperando que eu me vire para que possa começar um dos seus discursos, mas dessa vez vou resistir o quanto puder. Não posso deixar passar essa oportunidade em que minha raiva alcançou o pico máximo do Monte Everest para acabar com o David nas redes sociais, destroçá— lo, transformar essa sua pretensa masculinidade em pó!

— Lucas!

O chamado de dona Lúcia soa bastante ameaçador.

— Eu não tenho o dia todo para ficar esperando você acabar seja lá o que for nesse seu computador. Precisamos conversar agora.

Minha muralha cai, meu exército bate em retirada e eu me viro, a contragosto, mas me viro, e faço questão de deixar isso claro em cada linha de expressão do meu semblante.

Como havia previsto, dona Lúcia está sentada na cama, com as costas eretas, encarando-me com uma expressão quase inabalável dentro do jaleco de microfibra bege que comprou para usar enquanto encaixota coisas para a mudança...

Segundo uma análise computadorizada do sorriso de Mona Lisa, ele expressaria 83% de felicidade, 9% de desgosto, 6% de medo e 2% de irritação.

Pois bem!

Se Da Vinci pintasse o rosto de minha mãe, neste momento, deixaria registrado para a posteridade 50% de pura irritação e os outros 50% de completa impaciência.

— O que a senhora quer? — deixo os meus ombros caírem — Já está tudo decidido e explicado, não? Depois de amanhã estamos indo para Nárnia...

— Deixa de ser sarcástico — ela cruza as pernas no melhor estilo Miranda, em "O diabo veste Prada", e pousa as mãos sobre a coxa — Houve uma pequena mudança de planos.

— Mudança de planos? — me projeto para frente da cadeira num movimento quase involuntário — Como assim mudança de planos?


— Querido, você vai para Laranjeiras antes de mim.

— Como assim?

20 de Novembro de 2019 às 22:08 0 Denunciar Insira 0
Continua…

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