Party Girls Seguir história

neotic neotic

[drabble; seulrene; angst; alcoholism] Seulgi queria ser invencível, mas sempre perdia para a bebida.


Fanfiction Bandas/Cantores Para maiores de 18 apenas.

#irene #seulgi #seulrene #redvelvet #red-velvet
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Intocável

Eu gostava de pensar que era invencível.

Eu era, de fato.

Até conhecer Joohyun e entender que a vida se estendia além da minha.

Eu costumava ser livre, liberta. Sempre soube disso. Não havia nada que pudesse me impedir de dar um passo a frente na hora de tomar uma decisão. Era fácil decidir por mim mesma quanto tudo girava em torno dos meus poréns e não havia ninguém o qual eu precisasse segurar pela mão. Era eu contra o mundo, contra as bebidas e as noites mal dormidas sobre a grama de um quintal qualquer.

Eu era Seulgi, A invencível. Seulgi, a que virava o enésimo copo de cerveja sem tremer ou engasgar. Eu me sentia no topo do mundo da mesma forma que uma formiga pensa que alcançou o céu quando sobe em uma moita. Formigas pensam?

Tudo muda quando Joohyun aparece na minha vida. Eu pensei que ela fosse igual a mim quando na verdade eu apenas havia criado aquela ideia na minha cabeça, como uma desculpa pra empurrá-la comigo sem pensar que ela pudesse se machucar.

Eu tinha o péssimo costume de fingir que determinadas coisas não eram o que de fato eram. Eu queria ser corajosa, mas mesmo nunca havendo ninguém em casa eu trancava a porta do meu quarto numa tentativa de me esconder de algo que eu nem sabia bem o que era. Ainda faço isso, pra ser sincera, mas hoje eu tranco a porta com medo de que Joohyun entre e diga coisas que eu não quero ouvir.

Ela entrou na minha vida de maneira tão simples que hoje eu entendo que trancar a porta não é o suficiente porque ela sempre encontra um jeito de entrar. Joohyun era invencível, mas não da maneira que eu pensava, como eu era. Eu deveria ter notado mais cedo que tudo estava ruindo entre nós duas, que ela ruía, mas eu me recusava.

Ela chegou tarde da noite na casa de um dos nossos amigos; o som alto chacoalhando meu cérebro. Ela vestia um moletom rosa um tanto infantil, rabo de cavalo feito às pressas e os óculos de armação fina. Ela não estava vestida pra festa e eu sabia, mas ignorei. Abracei ela pelo ombro e empurrei um copo vermelho com cerveja. Me lembro de ela ter segurado aquele pedaço de plástico entre os dedos como se segurasse a coisa mais asquerosa do mundo, mas fingi que não vi enquanto a puxava pra dentro da casa.

Há tempos eu vinha notando que nós não estávamos mais em sintonia. Eu preferia pensar que sim. E quando ela deixou o copo sobre a mesa e disse que precisava conversar, eu mais uma vez a negligenciei. Eu sabia sobre o que ela queria conversar, então atrasar aquele assunto parecia ser o melhor a se fazer. Porém, naquele dia ela estava decidida a não me deixar fugir. De certa forma eu sabia. Eu soube quando a vi entrar naquela casa vestida como se tivesse pegado a primeira roupa que viu pela frente, como quando a gente sai de casa sabendo que vai voltar logo e não liga muito pra aparência.

Eu tinha virados uns bons copos, mas eu não era fraca, não estava bêbada. Desejei o contrário.

“Não dá mais.”

O pesar no olhar dela dizia o contrário, mas as palavras soavam necessárias. Talvez naquela noite Joohyun apenas quisesse que eu a enxergasse como ela realmente era, que eu segurasse a mão dela e fossemos embora. Porém, mais uma vez, eu a negligenciei. Segurei ela pelo rosto e a beijei dizendo que tudo ficaria bem e que nós passaríamos daquela fase ruim.

“Você não entende, Seulgi, eu cansei. Eu quero você, quero de verdade, mas não dessa forma.”

Ri meio sem graça, desentendida.

“Eu realmente não entendo.”

Ela abaixou a cabeça e fitou as próprias unhas descascadas, depois virou as costas e foi embora. Me lembro de ter gritado o nome dela, mas ela não voltou, então gritei mais alto dizendo que estava tudo acabado se era assim que ela queria. Eu sei que ela havia chorado depois de ouvir as minhas palavras, porque durante o caminho ela abaixou a cabeça e andou mais rápido. Ela sempre fazia isso quando chorava, ela sempre se escondia e fugia pra que ninguém visse as lágrimas dela.

Eu deveria ter ido atrás dela naquele dia. E às vezes eu penso que não tenho cabeça pra processar o quanto eu me arrependo de ter ficado naquela casa.

Eu bebi como nunca antes havia feito, porque eu queria me lembrar do quanto eu era forte e intocável. Queria me convencer de que Joohyun não podia me afetar. Era apenas eu e o mundo, eu e meus shots de vodca.

Me lembro de ter apagado naquela noite vendo as estrelas girarem sem parar enquanto a grama pinicava minha pele. Eu estava tão alheia a tudo, mas não a Joohyun, então eu chorei. Chorei enquanto pensava o quanto ela amava observar as estrelas e o quanto eu amava o sorriso dela, o quanto eu queria que ela fosse invencível ao mesmo tempo que eu sabia o quão frágil ela era. Chorei talvez sabendo que nunca mais a veria, como algo instintivo. Eu a vi desparecer por entre os meus dedos naquela noite e mal pude dizer o quanto a amava porque estava ocupada demais me escondendo de mim mesma, sendo alguém que eu não era.

No dia seguinte eu acordei com a visão do verde da grama e do vermelho dos copos. O sol da manhã queimava minha pele e eu estava mal. No meu celular havia dezenas de chamadas perdidas e, mesmo ainda inerte, eu tive consciência de que algo estava errado.

E realmente estava.

É difícil descrever a sensação pesada de quando se perde alguém. Não dá pra colocar pra fora de alguma forma, você só sente. Sente e espera que alguém com a uma situação semelhante aparece pra conseguir te entender. E foi o que eu fiz. Eu sentei na grama e esperei enquanto algo dentro de mim se contorcia e repuxava.

Lembro de ter corrido pra casa dela pensando que aquilo era errado, que ela não merecia minhas lágrimas; que ela parecia tão frágil e pequena dentro daquele moletom rosa enquanto fugia pra que ninguém visse seu coração partido. E tudo por minha culpa.

Joohyun morreu porque eu estava ocupada demais fingindo que nada poderia nos tocar. Se eu tivesse ido atrás dela naquela noite e tentado entendê-la, talvez ela ainda estivesse comigo. Mas eu não quis descer do topo do meu ego, e encher a cara me pareceu bem melhor.

Tudo leva tempo. Nós estamos presos dentro dele, afinal. Mas eu me recusei a lidar e a perda doeu por mais tempo do que eu imaginava. Até hoje não consigo abrir a porta esquerda do guarda-roupas e encarar as roupas que ela esqueceu na minha casa.

Tudo o que eu queria era poder voltar pra aquela noite e dizer a Joohyun o quanto eu a amava e que a partir daquele dia eu a amaria sóbria, que eu a enxergaria como ela realmente era e que não a arrastaria de novo pra minha ilusão de invencibilidade. Mas eu fui fraca e a perdi. Pra sempre.

E talvez um dia eu supere, pare de beber pra esquecer ela e volte a olhar as estrelas acima de mim e não abaixo, assim eu não precisarei mais trancar a porta com medo de que algo entre.

Mas por hoje eu quero apenas beber e esquecer.

17 de Novembro de 2019 às 06:40 0 Denunciar Insira 0
Fim

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