Newera Seguir história

ana19942 Ana Maria Rodrigues Silva

Se passando no próximo milênio, quando a humanidade criou seus sucessores e, por eles, foi vencida. Ocorreu a terraformação de um exoplaneta, onde esses sucessores, denominados como Derivantes, atualmente vivem sob um governo totalitário meramente referido como A Ordem, que inclusive esconde das mais novas gerações desse novo mundo sobre suas origens terráqueas. Por meio de diferentes personagens, nas mais diversas – e perigosas – circunstâncias que se conectam e encaixam umas às outras, todo um enigma sobre a ancestralidade dos Derivantes e de um suposto colapso de seu mundo, se desdobra. E exatamente graças a investigação de alguns, a capacidade bisbilhoteira de outros, ou apenas a sorte, “se resolve” um problema para que se iniciem outros ainda maiores, dando continuidade às sofrências tanto dos humanos quanto dos derivantes. Obs.: A história ainda está em produção, e irá muito mais longe. A compreensão completa da narrativa, que inclusive NÃO É diretamente linear, requer a leitura de todos os capítulos, e um pouco de esforço para se associar os pontos. E sim, tudo aqui foi registrado, portanto, que ninguém banque a besta de plagiar ou roubar qualquer parte da obra.


Ficção científica Para maiores de 18 apenas.

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HORA DE ACORDAR - Os pesadelos que temos acordados, podem se chamar fatos

Embora menor, exoplaneta Hera é similar à Terra. Necessitou de terraformação como complemento; para adequar-se aos seus colonizadores.

Só que frequentemente vazam boatos de que esse mesmo mundo anda à beira de um colapso. Não suportará por muito mais tempo. Conspiracionistas não creem que a Ordem, o governo único de Hera, irá condicioná-lo para sempre disfarçando tais alterações climáticas, que, muito provavelmente, custarão países inteiros e a vida de milhões de pessoas, senão a própria possibilidade ao menos de sobrevivência ali.

E a Ordem aparentemente mente. Nega, desvirtua esses assuntos. “Não deem ouvidos a um bando de loucos”, respondem seus cabeças, acerca dos ‘fofoqueiros’ sensacionalistas que desde que aprenderam a usar a internet espalham esse tipo de merda.

Não acontece nada demais. Apesar de parecido com a Terra, Hera tem suas peculiaridades.

Aliás, que Terra? Heranos não devem saber.

Não se fala nisso.

Não existe nada disso.

É um tabu, ou meramente uma lenda.

Entretanto, e se for verdade, que tudo pode ruir de um dia para outro? É simples, ao menos aos ordeneiros, com recursos às mãos para se mandarem do exoplaneta, se refugiando em misteriosas – e secretas – bases espaciais.

Que, também, heranos não devem saber.

Sociedades por toda Hera sustentam a Ordem. Desde os ricos aos pobres. Qualquer um que exerça qualquer atividade. Eis aí o porquê de se valorizar tanto aqueles que não são ‘vadios’. Eles definitivamente servem pra alguma coisa, em detrimento dos desclassificados marginalizados ou reclusos.

Se Hera morrer, claramente que maioria esmagadora de seus habitantes irão junto. Quem alimentará os ordeneiros, então? Será que eles arregaçariam suas mangas e enfiaram a mão na massa – num sentido que não seja NOS RECURSOS das massas?

Já pensaram nisso, inclusive.

Não se preocupe... Se você pertencer à elite, obviamente.

Além das bases espaciais ‘sementes’, que servirão de colonizadoras de novos exoplanetas, seus detentos, ‘controlados’ por uma espécie de verme, darão literalmente os primeiros passos nos novos ambientes que a Ordem julgar conveniente para a sobrevivência de sua soberania.

A Ordem nunca para. Sempre existe um plano B, um coringa em sua manga.

Apenas membros da elite lidam com fatos. Um deles é de que milhares de humanos, todos os dias, são ‘acolhidos’ em Hera, como escravos. Tais não podem contatar cidadãos, nem saírem do decidido por seus mestres.

Aparentemente, muitos humanos pensam que se submeter visceralmente a magnatas heranos é melhor que morrer na precariedade e morbidez da Terra.

E não, esses escravos não dispõem de leis ou direitos, sequer de identidade. São coisas e ponto final.

Ivan Volkov, um humano sobrevivente de um procedimento intrusivo – e quase sempre fatal às cobaias – de mutação, para que adquiram os mesmos poderes que os derivantes, se apresenta ao setor de imigração herano. O plano dele, ou melhor, de todo um movimento revolucionário terráqueo é simples: arruinar o sistema ordeneiro, indiferente ao quanto comprometerá os cidadãos.

Se bem que, para Ivan, são mais cúmplices do que testemunhas ou vítimas da Ordem. Ser manipulado não implica necessariamente em ser oprimido. Só os fazem de idiotas.

Pandora Rothschild, oriunda da elite, tenta provar independência da família rica mesmo sem necessidade. Ninguém nunca lhe disse nada sobre não ser capaz ou sobre ter de se virar sozinha, pelo contrário, todos se perguntam por quê diabos pira tanto, sob esse aparente complexo de inferioridade.

E, volta e meia, ela repensa na própria vida. Esse é o sofrimento dela, provar algo aos outros. Na Terra, no entanto, qual seria o sentido de tamanha vaidade à face da luta pela sobrevivência?

Por mais que se desligue de seus familiares e círculos aristocráticos íntimos à Ordem, percebe o quão fácil é para alguém acostumado ao topo crer em meritocracia e força de vontade, quando não precisa preocupar-se com mais nada além de conquistar mais e mais.

Hilário quando tais crenças vêm de camadas inferiores.

O famigerado sonho de largar todo fardo e ocupar um lugar deslumbrante, fazer parte da alta classe e desfrutar de seus mais finos privilégios, ao mesmo tempo que, na ordem de mantê-los, podam até as mínimas liberdades das ralés.

É o que ela pondera sob uma ótica otimista, de que todos têm seus valores.

Existe quem simplesmente semeie destruição.

Uma ironia. Conspiracionistas se esquentam tanto com nova ordem mundial, com um mundo totalitário e condicionador, enquanto muitos deles defendem de que inexistem vítimas, além de que ricos e detentores de grande poder – especialmente empreendedores – apenas colhem os frutos de seus investimentos.

E a Ordem não é assim?

Por quê?

Eis que essa motoqueira com um dos braços fechados de tatuagens – que na verdade são ‘marcas do diabo’, devido seus poderes infernais –, é a chefia do setor de imigração, lidando rotineiramente com humanos afoitos para entrar e permanecer em Hera a qualquer custo.

A princípio, quarentenam esses candidatos. Pode demorar até anos para que recebam aval ou rejeição definitiva. No segundo caso, se retornaria para a Terra, mas os ordeneiros nem sempre dispõem de verba para devoluções...

E o que acontece com essas pessoas? Uma vez que não lhes aprovaram nem para serem escravas, não há muito que fazer com elas. Execução rola solta, e descobrir de que será abrigo de vermes controladores de cérebro em bases espaciais é igualmente uma sentença de morte... Ou ainda mais aterrador.

Entra em seu escritório um humano por vez, para entrevista. Chefes anteriores mal levavam vinte minutos checando seus dados ou os ouvindo, mas ela dispõe de horas. Ela realmente aprecia suas histórias. E essa lentidão chateia seus colegas, bem como os demais candidatos ansiosos na fila. A culpam pela burocratização, inclusive – e todo esse processo não depende dela; ela mais inicia ou finaliza, sem que a amputação dos fatos e inspeção dos requisitos seja exatamente seu dever.

Não há um único dia em que ela não pense, no fim de seu expediente, enquanto o sol se põe, desligando todo seu escritório um tanto frio e de cores neutras, nas assolações vividas pelos humanos. Pelo que relatam, se encontram inevitavelmente numa série de catástrofes.

Porém, seu estômago se retorce pra valer quando para pra pensar no que os envolve quando ‘os aceita’ em Hera.

— Prefere que retornem à Terra – à pobreza e à morte? — Indaga uma colega de trabalho, Kim, que parece ler sua mente.

Kim meio que pode ler mentes alheias, já que se trata de uma vampira, proveniente diretamente de Gaia.

— Sei lá... Só não queria ser exatamente a pessoa responsável pelo bicho que ‘se correr, pega, mas, se ficar, come’.

— Então não deveria estar trabalhado com isso. — Responde Kim, deixando o elevador. — Talvez nem devesse mais sair de casa.

E mesmo com saltos agulhas, ela dispara pelo corredor, às pressas para seu horário no andar em questão, um tanto distante de Pandora – consideravelmente uma de suas superioras.

Apesar dessa frieza, a voluptuosa Kim deve ser a coisa mais próxima de uma amiga que Pandora tem por ali. É que mais ousa tratá-la como ‘outra coisa’, sem se submeter cegamente à sua maior autoridade, ou ao peso de suas origens burguesas.

Portanto, uma colega informal como uma amiga, e casual como uma próxima.

Mais do mesmo, no dia seguinte. Humano entra, humano sai.

Inúmeras vezes.

Um rapaz ruivo, no entanto, a surpreende em seu tédio e monotonia. Senta-se à sua frente, e não hesita em responder nenhuma de suas perguntas, com um forte sotaque.

O que mais a espanta é de que ele não se acomete pelo suspense de ser aceito ou rejeitado, pelo contrário, expressa, confortavelmente, na maior calma do mundo, indiferença em sua face, postura e fala.

Tal apresentação por si a perturba. Não vê nada de anormal nele, mas... Ainda nas primeiras questões, sobre o ecossistema da Terra, e sobre as condições nas quais ele vivia, ela sente-se cada vez mais desligada, dissociada do momento.

Sua cabeça dói, com um maldito ruído. Parece uma televisão fora do ar, no último volume.

Ele sorri. — A situação por lá não é das melhores, você sabe. E como qualquer pessoa, eu também tenho meus sonhos, meus desejos.

Os olhos dele, de alguma forma, mudam. Surge um círculo em torno das pupilas – o ‘sinal de saturno’, comum dos primarcas, uma espécie derivante.

Não poderia ser.

Um humano simplório, sem dúvidas da Terra, com características de uma população indiscutivelmente herana.

— Eu preciso ver seus exames, por favor. — Solicita ela, tonta e nauseada. “Eu preciso saber se você é realmente humano”.

E ele lhe passa os papéis, tranquilamente.

Daí por diante, para ela, escuridão.

Sem menor remorso, Ivan termina sua entrevista, a forçando encerrá-la. Ela caíra facilmente em sua manipulação psíquica – incompleta, que mal se pareia aos primarcas que possuem tal capacidade genuína. Assim que ele deixa o escritório, com sua aprovação, secretários encaminham outro humano pra ela, que, como efeito colateral, continua ‘presa’ à dissociação.

O que virá a acontecer não é totalmente sua culpa. Ele não a mandou fazer nada disso, nem tem ideia do porquê terminou assim. Provavelmente, deve ser fruto de seu próprio subconsciente.


Quando Dora recebeu sua aprovação no departamento de imigração, naturalmente comemorou, expondo inclusive em redes sociais.

— Você sabe no que está se metendo? — Indagou sua rival, durante um campeonato de xadrez.

Dora a conhece desde criança. Nunca foram, contudo, amigas, mas sim oponentes em quase tudo.

Rachzariel – ou simplesmente Rachel – Hendressen, também pertencente à elite ordeneira, disputava o primeiro lugar com Dora. Quem perdesse, deveria competir com o desclassificado anterior pelo segundo lugar, no caso, Dricko Rivera.

A ruiva encarava furiosamente a gordinha... Ninguém se espantaria se elas resolvessem pular uma no pescoço da outra. Pra piorar, o ‘crush’ que tinham em comum, Dricko, as observava, à espera.

Embora também pertencesse à alta classe, Dricko mais seria um cara endinheirado do que propriamente um burguês. Não pertencia; sequer sentia o cheiro de um convite para pertencer à elite.

— Você definitivamente não pensa, em nada. Você é simplesmente inútil. — Provocava Rachel, risonha.

— Melhor calar sua boca, antes que eu enfie seus óculos por sua goela abaixo. — Murmurou Dora, profundamente enraivecida.

Rachel, com suas peças brancas, perdia o jogo. Mais aguardava por um deslize de Dora do que contava com suas habilidades.

Dora, por outro lado, movia implacavelmente suas peças vermelhas à vitória. E logo anunciavam a vencedora, que riria à face da petulante perdedora.

— Não tem problema. — Disse Rachel, exuberando confidência. — Mas, me deseje sorte com Dricko.

Dora parou de imediato com seu caçoar. “É mesmo, ela vai enfrentar ele agora, pelo segundo lugar.”, relembrou. “E vai ficar perto dele... Só com ele, cara a cara...”

Assim que Rachel se virou, pretendendo ir até Dricko, mais triunfante que a própria campeã, levou uns tapas. Sem demora, revidou – e começaram a se espancar pelo chão do auditório, para horror dos colegas de escola, familiares e outros de suas comunidades que assistiam.

— Que adianta vencer um campeonato de merda como esse, e perder todo o resto? — Berrava Rachel, enquanto as apartavam. — Eu prefiro continuar com pouco, do que tentar ter muito, como você, e me foder.

— Você é uma incauta, conformista do caralho! — Retrucava Dora, também aos gritos.

Um verdadeiro escândalo. Ainda na frente do crush, que assistia à loucura toda, embasbacado.

Não era a primeira, nem seria a última briga, muito menos a de maior alarde.

Entretanto, Rachel, de certa forma, acertava sobre Dora, que nunca ‘se conformou’ de não ter tudo que pensa que deve ter.

— Você não sabe perder! — Berrou Rachel, escapando das mãos que tentavam contê-la, e avançando de novo em Dora.

Era verdade.

Sempre é.

Sendo empurrada por Rachel sobre uma das mesas, Dora sentiu os cacos se espalharem sob suas costas, antes de cair totalmente sobre eles – e tê-los cravados nelas.


Dora ‘desperta’ caída no chão, sobre cacos. Sangue, numa pequena quantidade, escorre de seus braços e pernas, e é crescente a dor dos pedaços fincados em sua carne. Kimberli, junto com outros colegas, tentavam reanima-la por chamados, já que prefeririam não arriscar tocá-la e piorar seus ferimentos.

Dora se move, com gemidos agoniados. — O que aconteceu? — E olha desorientada ao pessoal afoito.

— O que te levou a fazer isso? — Questiona Kim, agachando-se ao seu lado para fazê-la ficar quieta, evitando novos cortes. — Por quê?

— A fazer o quê?

— Você se jogou de uma das janelas! No que estava pensando? O que aconteceu pra VOCÊ tentar uma coisa dessas?

Dora assimila bem o enfático “você” – quais motivos ela teria pra suicídio? Proveniente de uma realidade oposta à de Kim, nenhum.

Kimberli Edan nasceu e cresceu numa das regiões mais violentas de Hera: Gaia. Não só assolada por um fenômeno maligno que torna as pessoas periodicamente em monstros, ainda por cima vivera numa cidade dominada por uma seita ultrafundamentalista. Nunca se opôs a tradição, valores morais ou a qualquer clichê conservador, mas quando começava a pregar misoginia, como ‘mulheres não devem falar até que um homem permita’, complicava.

Ao sentir uma de suas palmas pressionar alguns fragmentos, Dora dá uma olhada da janela – ou do que sobra dela – da qual pulou. — Eu quebrei aquilo... Com minhas próprias mãos?

— É, você enlouqueceu.

Paramédicos chegam.

O socorro procede com uma ida ao hospital, mas o drama só se encerra num consultório psiquiátrico, em que lhe receitam medicamentos mais ordem de afastamento por tempo indeterminado. “Até que sua sanidade se restabelecesse”.

Que irritante.

Quando não se depara com falsos e interesseiros, a chamam de louca por agir diferente – dos códigos aristocráticos, claro. Ao mesmo tempo, mal consegue ‘agradar’ pessoas como Kim, que veio de meios menos exigentes.

Conclui de que prepararam sua saída da chefia, ou melhor, de qualquer ramo no departamento. E, de fato, nenhum chefe desse setor dura muito tempo. Quem não enlouquece administrando escravos, se mata por mandá-los à exploração. Deve-se lidar com um peso na consciência avassalador.

E todos imaginam que ela endoidou por causa desse trabalho tão desumano. Ninguém suspeita de ‘Ivan’, que, para ela, é quem começou com essa bagunça.

Como não lhe permitem acessar seus últimos relatórios e outros documentos de trabalho – afinal, ela deveria descansar –, inferniza Kim para que o faça em seu lugar.

— Você quer que eu coloque meu pescoço em risco? — Indaga Kim, perplexa, por celular.

— Confia em mim, não vai te acontecer nada... Só se você contar para alguém. Mas, mesmo que te peguem, diga que eu quem te mandei.

— Não! Absolutamente, não.

Dora bufa, enraivecida. “Que custa, porra!?”. Anda de um lado para outro, agitada em seu apartamento.

— Escuta, sua ruiva maluca. Você se fodeu por conta própria, legal, mas eu não tô afim-

— Não, escute você. A sociedade pode estar em perigo, agora mesmo. Eu estava perfeitamente bem até esse carinha aparecer no meu escritório. Se ele tem os poderes que eu imagino que tenha, pode conduzir qualquer um ao que quiser.

Kim, que atravessa um bairro multicultural – e movimentadíssimo, ainda mais se tratando de uma parte do centro de Pangea, megalópole na qual se situa as raízes administrativas da Ordem – para no meio da multidão, de testa franzida, repentinamente compreensiva à ex-colega.

— Ou você enlouqueceu de vez.

— Como VOCÊ mesma perguntou, por que EU faria o que fiz? Será que realmente tenho motivos pra me atirar de uma janela, assim?

É a mesma ênfase que Kim usou antes.

— Melhor discutirmos isso pessoalmente. — Replica Kim, enfim desligando.





16 de Novembro de 2019 às 01:28 0 Denunciar Insira 1
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