Ozoret - o preço da magia Seguir história

jace_beleren Lucas Vitoriano

Natalia era uma garota normal, uma adulta de vinte e dois anos tentando se sustentar em seu emprego como enfermeira. Tudo mudo em sua vida quando, ao retornar para casa em uma noite escura, depara-se com uma criatura estranha e totalmente assustadora.


Horror Literatura monstro Para maiores de 18 apenas.

#lgbt #terror #suspense
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Capítulo 1

As vezes eu me pergunto o que tinha na cabeça quando decidi me tornar enfermeira. Bem, o pior é que eu sei o que era. Eu queria ajudar as pessoas, ser útil, fazer a diferença. Infelizmente, as coisas saíram um pouquinho diferentes do plano original.

Trabalho em um grande hospital aqui da cidade, o Hospital Santa Ingrid, mas o salário que eles me pagam não é nada grande sem falar que meus chefes, de santos, não tem nem o S. Além de tudo, eles colocam uma dificuldade enorme para pagar minhas horas extras (que não são poucas).

De qualquer forma, passei um dia inteiro de trabalho cansativo no hospital. Meu turno terminou e eu fui ao banheiro me trocar. Retirei o uniforme verde claro de enfermeira e vesti-me com roupas mais casuais. Sapatos pretos, saia preta, uma blusinha branca e, para me proteger do frio, um largo sobretudo cinza.

Fui até o espelho do apertado banheiro dos funcionários. O que vi foi o rosto cansado de uma ruiva de vinte e dois anos. Meus olhos castanhos piscaram duas vezes e eu tentei sorrir, mas ficou só na tentativa mesmo. Meus cabelos são longos, mas nem tanto, chegando apenas a tocar os ombros. As vezes eu penso em deixa-los crescer mais, pois sempre gostei de cabelo grande, mas o trabalho que daria para cuidar deles sempre me faz desistir da ideia.

Sai do banheiro a passos apressados, quase esbarrando em alguns pacientes e funcionários do hospital. Eu preciso pegar o ônibus das onze da noite, caso contrário, o próximo só passa amanhã de manhã, o que significaria que eu teria que voltar a pé até em casa.

- Srt. Shelle, por que a pressa?

Controlei-me para não ignorar aquela voz. Parei de andar, já ouvindo os passos do doutor Ricardo ecoando no límpido chão do hospital. Ele sempre me chama por Shelle, meu nome do meio, como se fizesse isso para mostrar uma formalidade entre nós dois. Infelizmente, sempre tenta se aproximar de mim de formas nada informais. O maldito não perde uma oportunidade de dar em cima de mim. Eu podia apostar o dinheiro da minha passagem de ónibus que ele logo daria mais uma de suas investidas.

- Algum problema doutor Ricardo? – dessa vez consegui sorrir. Um sorriso forçado, mas mesmo assim um sorriso.

O doutor Ricardo Guimaraes é um babaca assediador. Toda enfermeira que passou pelo hospital teve que aturar as cantadas dele. O pior é que o maldito grudou em mim. Esse é o problema de ser muito bonita, e ruiva, os caras adoram ruivas.

- Já está indo? – ele sorriu mostrando dentes brancos perfeitos – podemos ir juntos. Eu estou indo agora também. O que acha de uma carona?

Para você tentar me dar uns amassos no banco do carro? Nem morta. Ricardo é até bonito para um cara de quarenta anos, bem conservado, magro, físico atraente. Por dentro, porém, ele não é nada bonito. O cara é casado, mas não tem um pingo de decência para trair sua esposa com qualquer rabo de saia que atravesse seu caminho.

- Obrigada, mas eu prefiro ir sozinha – estava cada vez mais difícil manter aquele sorriso no rosto. Eu só queria que ele me deixasse em paz.

- Tem certeza? – ele avançou dois passos, reduzindo assim a distância entre nossos corpos – a noite está fria, e é bem perigoso uma mulher tão bonita andar sozinha a essa hora.

Eu tenho certeza que senti o olhar dele se dirigir aos meus seios quando ele me chamou de bonita. O maldito nem para tentar disfarçar isso.

- Vou ficar bem, obrigada.

Não deixei que ele continuasse com seu charme de quinta. Girei meu corpo e sai dali a passos apressados. Graças aos deuses ele não insistiu e deixou-me partir. Sai do hospital e fui recebida por uma lufada de ar frio. Ricardo tinha razão, a noite estava mesmo fria, mas eu preferia a frieza dela do que o calor do corpo dele.

Fechei ainda mais o sobretudo, cobrindo meu corpo o máximo que podia. As ruas estavam desertas, a maioria das lojas estavam fechadas e, tirando uma pessoa ou outra, ninguém caminhava por ali. Admito que fiquei com medo, sempre ficava quando precisava percorrer os cinco quarteirões até o ponto de ônibus.

Meus passos eram apressados, eu comecei a olhar da esquerda para a direita, rezando para que ninguém me abordasse. Os índices de assaltos só cresciam aqui na cidade. Só essa semana, atendi duas pessoas que haviam se ferido em assaltos. Uma delas recebera uma facada nas costelas e outra um tiro na perna. O mais assustador é que elas nem haviam reagido.

Segui angustiada, dobrando a direita quando passei por uma farmácia (ela já estava fechando). Eu ainda precisava atravessar dois quarteirões até chegar na maldita parada. Ouvi alguém assobiar a minha esquerda, mas ignorei, sempre ignorava. Meus passos se tornaram ainda mais apressados e assustados. Comecei a sentir um pavor dentro de mim, eu não sabia explicar o porquê.

A escuridão ao redor parecia se tornar mais viva, como se estivesse se expandindo lentamente. Haviam postes iluminando a rua, mas a luz deles parecia cada vez mais fraca, como se estivesse sendo sugadospela escuridão que avançava.

Rezei baixo. Eu não sou do tipo religiosa nem coisa parecida. É como dizem, as pessoas só lembram de Deus quando estão em uma situação ruim. Sim, me chamem de hipócrita se quiserem, eu não terei como me defender.

Foi ai que ouvi um barulho e simplesmente congelei. Ouvir não era a palavra certa para descrever, eu havia “sentido” aquele barulho. Era um som sussurrante, frio e afiado. Meu corpo todo tremeu, como se estivesse absorvendo toda a ameaça ao que parecia ser um rugido vindo de outro mundo.

Olhei ao redor, não havia ninguém na rua, nem o tal cara que assobiou para mim. Minha única companhia era um cachorro vira-lata que estava a mijar embaixo de um poste, não era lá uma companhia muito reconfortante. Eu sentia que algo estava errado, a escuridão avançava mais e mais. Não parecia apenas ausência de luz, era mais como... uma neblina, uma densa cortina de fumaça.

Não sei o que houve comigo, eu simplesmente travei. Já vi muita coisa pesada trabalhando como enfermeira: pessoas em estado vegetativo, ferimentos expostos, vítimas de incêndios ou acidentes com os corpos deformados. Tudo isso me abalou, e ainda me abala quando torno a ver. Mas nada me fazia sentir o medo que eu sentia naquele momento.

Meus instintos gritavam para eu correr, mas meu corpo não me obedecia, estava imóvel. O pior é que eu não via nada que justificasse meu pavor, mas cada célula do meu corpo sentia que algo muito perigoso estava para acontecer.

Foi então que eu vi, de início pensei que era apenas minha imaginação pregando uma peça em mim, fazendo-me ver formas na escuridão que se adensava ao meu redor. A escuridão, porém, foi se tornando mais nítida, adquirindo uma forma física. Um ser saiu de dentro dela, era como se ele fosse feito de escuridão. Era uma criatura estranha, não natural. O corpo era alongado e magro, os braços compridos, com dedos longos e afiados que lembravam galhos de uma medonha arvore seca. A cabeça lembrava a de um servo, com chifres retorcidos em espiral e os olhos... eram pontos luminosos, de um amarelo esbranquiçado. Pareciam dois pequenos sois.

Eu gritei, ou acho que gritei, minhas pernas tremiam. Que merda era aquela?! Eu estava ficando louca, estava surtando, essa era a única explicação. Mas a criatura, seja lá o que aquilo fosse, avançou dois passos em minha direção, como se para provar que era bem real. Ouvi um som sendo emitido de sua boca, aquele sussurro que parecia rasgar meu corpo por dentro com centenas de adagas. Minha boca tremia, senti um gosto amargo nela e percebi que uma lagrima havia escorrido até meus lábios. A criatura avançava lentamente, como aqueles monstros em filmes de terror sempre ó fazem.

Foi então que meu corpo despertou para o perigo. Eu não pensei, apenas corri. Corri com todas as minhas forças, gritando e chorando desesperadamente. Não sabia nem ao certo para onde estava correndo, tudo que queria era me afastar daquela coisa.

Eu não olhei para trás, não tinha coragem de fazer isso e fitar aquele monstro novamente. Apenas corri, corri tanto que me perdi. Dobrei esquinas, passei por uma escola, obviamente fechada àquela hora. Acabei tropeçando em algo e caindo de cara no chão.

Tudo ficou escuro. Acho que apaguei por alguns instantes. Aos poucos, recobrei os sentidos. Senti um líquido viscoso escorrendo de minha testa. Coloquei minha mão ali, sentindo o sangue entre meus dedos. Minha respiração havia reduzido um pouco, mas meu coração ainda disparava em meu peito.

Olhei para trás e foi ai que me vi totalmente imersa em desespero. A criatura estava bem atrás de mim, seu corpo alongado me fitando do alto. Ela devia ter mais de dois metros e fitava-me de uma forma estranha. Senti-me dominada por um medo tão enorme que envolveu-me, rendendo-me por completo. Era como se aquele ser estivesse me prendendo em algum encanto macabro, subjugando-me apenas com sua presença.

Eu não queria, mas me sentia impelida a fitar aquele ser. Era difícil olhar para ele. Fazer isso, era como tentar conter uma nuvem de fumaça com as mãos. Ele parecia feito de escuridão, uma forma semissólida, como se lutasse para permanecer tangível. Aquela criatura atiçava meus maiores pesadelos, era como se fosse a junção de todos eles ao mesmo tempo, tentando reunir-se de uma forma caótica e razoavelmente compreensível para minha mente assimilar.

Novamente senti o sussurro, agora mais forte e alto. Por algum motivo me lembrei das sereias da mitologia grega, aquelas criaturas belas que encantavam os marinheiros com suas lindas vozes, atraindo-os para uma morte cruel. O sussurro daquele ser era como um canto de sereia, distorcido e maligno.

Aquele ser inclinou seu corpo em minha direção, seus olhos me fitavam. Parecia que aqueles dois sois estavam a brilhar mais intensamente, atraindo-me como um sol de verdade atrai a tudo ao seu redor.

Meu medo continuava, mas eu sentia algo estranho. Era como se eu estivesse a perder um pouco de mim mesma e, quando mais sentia isso, mais sentia que aquela criatura era,,, familiar. Não sei como explicar, mas era como se eu e ele fossemos um só. Fita-lo me fez sentir-me a beira de um profundo abismo, fitando a escuridão aos meus pés.

E ele era a escuridão infinita do abismo. Ele me encarava e me chamava, convidando-me a pular, a aceitar me unir a ele naquela vastidão escura. Minhas forças abandonavam-me, eu sentia-me sonolenta, cansada. Meu corpo estava mais pesado. Acho que me deitei na calçada, rendendo-me aquele ser. Eu devia ter enlouquecido mesmo. Ou isso, ou estava a presenciar algo totalmente novo e bizarro. Que diferença isso fazia? Estava cansada, se aquela criatura me prometia um fim, eu estava fraca demais para dizer não.

Fechei meus olhos, aceitando o que viria a seguir. Céu ou inferno, o que importava? Talvez eu simplesmente deixasse de existir e isso não seria de fato ruim. Ainda podia ouvir aquele sussurro baixo ressoando em todo meu corpo.

Eu estava pronta para o fim, mas algo aconteceu.

Não sei o que houve, meus olhos ainda estavam fechados, mas senti que o efeito que aquela criatura causava em mim cessara repentinamente. Mesmo assim, as marcas ainda permaneciam, eu estava fraca e cansada, muito cansada.

Com muita dificuldade, abri meus olhos. O que vi foi ainda mais fantástico. A criatura parecia estar sofrendo, recuando a passos trôpegos. Não sei se eu estava entendo direito, mas acho que o braço direito dela havia sido cortado e havia uma fenda em seu dorso, um vácuo naquele corpo de escuridão.

Então eu vi o outro. Um homem, talvez da minha idade. Era difícil definir, eu estava cansada demais, minha cabeça estava zonza. Ele estava a segurar uma espada?! Isso era esquisito, embora em nada se comparado a existência da criatura. Se eu estivesse em um estado menos lastimável, talvez tivesse me permitido questionar aquela situação.

Esse cara tinha cabelos castanhos e segurava a arma com as duas mãos, em uma postura que transparecia confiança e poder. Senti um toque em meu ombro e uma voz distante ressoou em meus ouvidos. Com um esforço que pareceu imenso, virei minha cabeça para o lado.

Meus delírios deviam estar piorando. O que era isso agora? Um anjo? Uma garota de longos cabelos brancos, com uma mecha de seus cabelos pálidos como a lua a cobrir seu olho direito. Seu único olho visível era de uma coloração azul clara. Ela me disse algo, ou pelo menos acho que disse. Sua boca se moveu, mas não consegui discernir se ela falava.

Respondi que estava bem, ou ao menos acho que fiz isso. Estava tão cansada. Fechei meus olhos, ficar acordada era difícil demais. A escuridão voltou a envolver-me.

Eu simplesmente apaguei.

15 de Novembro de 2019 às 17:22 0 Denunciar Insira 0
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