Assim morreu meu pai; / Meu neto goleiro Seguir história

fernando-camargo1554138998 Fernando Camargo

Quando o caixão baixou à sepultura deu para ouvir o soluço contido e o choro rasgado e sofrido de mamãe. Eu não lembro se chorei, devo ter chorado. Com a idade que estou eu me recordo do meu pai todos os dias, nos meus pensamentos, nas minhas orações, ou quando estou reunido com os meus filhos, todos já crescidos e bem criados.


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Assim morreu meu pai. / Meu neto goleiro

Vi meu pai morrer quando eu tinha apenas sete anos de idade e ele pouco mais de quarenta. Estava na rua de casa, brincando com outras crianças, algumas da minha idade, tantas mais velhas e mais novas. Jogávamos futebol. Nossa bola era feita de meia, costurada por uma das vizinhas. Eu era o goleiro. Ficava posicionado em frente ao gol feito de pedras de paralelepípedo, esperando os chutes que viriam em minha direção.

Vi meu pai chegar a casa. Era a hora da pausa para o almoço. Ele vestia terno cinza claro, chapéu da mesma cor e também usava gravata. Mamãe o aguardava em frente ao portão, de avental amarrado na cintura, manchado de molho de tomate. Um beijo no rosto e meu pai entrou. Sentou-se na ponta da mesa. Mamãe o serviu. Em seu prato havia arroz, feijão e carne ensopada; dava para ver as batatas cozidas e o chuchu nadando naquele molho suculento.

Após a refeição papai foi até o quarto e lá se deitou. Todos os dias antes de retornar ao trabalho ele tirava uma soneca. Quando acordava lavava o rosto, vestia o paletó e voltava para o serviço. Papai era mestre de obras. Construtor de casas. Ele era o responsável por todas as obras ocorridas dentro da usina onde morávamos.

Foi precisamente doze passos, a mão no coração, o rosto assustado, as pernas falseando, a perda do equilíbrio e papai indo ao chão. No silêncio da minha cabeça ouvi pessoas correndo em direção a ele, vi três homens carregando-o nos braços e levando-o para uma casa vizinha. Não deu, papai estava morto.

Lembro-me do desespero de mamãe, das pessoas em volta do meu pai, deitado no chão de cimento queimado e com aquela gente em volta dele. No dia seguinte todos os moradores da usina, desde o mais humilde ao mais rico acompanhavam em procissão o cortejo que levaria o caixão com corpo de papai para o cemitério. Minha mãe, e meus irmãos mais velhos iam à frente, ela vestida de preto, de véu cobrindo o rosto e de olhar distante e perdido no chão.

Com sete anos de idade, eu acompanhava tudo a distância, meio sem entender muita coisa, porém tendo a triste noção de que nunca mais veria meu pai novamente, nunca mais o veria sentado na frente da nossa casa, sentado e com o bandolim apoiado em sua perna esquerda. Adeus o som lamuriante do chorinho tocado por ele, adeus vida de fartura, bem-vinda vida de sofrimento.

Quando o caixão baixou à sepultura deu para ouvir o soluço contido e o choro rasgado e sofrido de mamãe. Eu não lembro se chorei, devo ter chorado. Com a idade que estou eu me recordo do meu pai todos os dias, nos meus pensamentos, nas minhas orações, ou quando estou reunido com os meus filhos, todos já crescidos e bem criados. Perder o pai como eu perdi, da maneira como foi, com a idade que eu tinha, foi sim um doloroso golpe, mas serviu como aprendizado. Cresci e amadureci rapidamente. Tornei-me homem antes do tempo, pulei etapas e virei chefe de família. Ajudava minha mãe no sustento de casa; engraxei sapato, vendi jornal e revista, catei papelão e até comida do chão eu peguei; não me envergonho disso, tenho orgulho em dizer o que fiz na minha vida.

Agora estou aqui. Sentado na arquibancada assistindo ao meu neto jogar bola, ele é goleiro igual o avô foi um dia, igual o pai dele também foi, e agora é vez dele. O novo goleiro da família faz uma defesa decisiva, todos levantam e vibram; gritos de felicidade. Daí eu olho para o céu e recordo do dia em que eu ainda menino me posicionava debaixo das traves de paralelepípedo e olho para o meu neto, grandão, cheio de talento; e eu de sorriso na cara e lágrimas nos olhos finalmente choro, talvez de saudade do meu pai ou quem sabe de orgulho daquele alemãozinho de doze anos, de luvas nas mãos debaixo das traves.

13 de Novembro de 2019 às 23:52 0 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

Fernando Camargo Escrevo desde os oito anos de idade, culpa da professora de português. De tanto gostar de fazer isso (escrever), resolvi estudar jornalismo. Formado, atualmente eu passo meus dias a criar personagens e novas histórias.

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