Conto rápido: Úrsula (Policial) Seguir história

wilherdeoliveira Wilher O.

Uma jovem estudante de Letras, alegre e cheia de vida, não poderia passar uma bela tarde como aquela, sem um passeio pelo parque que adorava tanto frequentar. Mas Úrsula esconde um segredo que decidiu não contar a ninguém, exceto a uma pessoa, que ela também mantém em segredo.


Conto Todo o público.

#paixão #parque #amizade #aula #lágrimas #noite #universidade #olhos #Úrsula #verso #amor
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Capítulo Único

Clara é a sombra de quem retorna ao caos, pois em nuvens de outras terras há sempre a poeira de quem já vem ao longe. Era o verso favorito de Úrsula, desde quando ela, em constante euforia, começou a transitar pelos corredores largos do campus universitário. Sempre atrasada para as aulas de semântica, que apesar de ser a sua matéria favorita do curso de letras, esquecia-se com frequência do horário de início, sentada nos arejados bancos de madeira, onde ouvia as doces melodias de suas canções favoritas. Lá, também gostava de rabiscar as últimas folhas de seu caderno, usando as três canetas coloridas que carregava consigo nos bolsos do macacão, este que vestia quase que diariamente. Até mesmo naquele malfadado dia, que preferiu apagar da memória, onde perdera quase tudo.

Seus olhos azuis, fechados e apertados, mostravam perfeita harmonia junto aos lábios colados que sorriam. Não se preocupava em disfarçar a ansiedade, ao aguardar aquela sensação gostosa do espirro, que sempre vinha quando colocava o rosto ao sol por muito tempo. Escondeu os cabelos ― lisos, e pretos como a noite ― atrás das orelhas, parecendo desejar que a pele branca de seu rosto fosse melhor tocada pelos raios ultravioleta. O dia está tão agradável, pensou. O ar era fresco e seco, perfeito para as caminhadas no parque arborizado, perto de sua casa. Depois da aula, uma jovem de dezenove anos poderia perfeitamente encontrar ânimo, além de várias desculpas, para ignorar o almoço e comer apenas uma maça verde, embrulhada em guardanapos, que carregava em sua mochila.

Perder aquele dia fantástico sem ir ao parque, seria um completo absurdo.

Estava caminhando por mais de uma hora. Ainda bem disposta, não via o tempo passar. Sentou-se em um banco, em uma parte mais sossegada do extenso lugar. Não era a primeira vez que parava ali. Pôs-se então a olhar para os lados, parecia que buscava alguém ou algo. Em um gesto de surpresa, emitiu um breve som:

― Ouh! Aí está você ― disse sorrindo.

Um gato preto e peludo saiu detrás de um arbusto, próximo ao banco.

― Você já almoçou, Senhor Plum? ― falou enquanto suas mãos procuravam algo dentro de sua mochila.

Úrsula abriu um saquinho, contendo um punhado de ração para gatos, e espalhou no chão, próximo aos seus pés. Então, apoiou as mãos nos joelhos rosados, e observou, sorrindo, o felino aproximar-se miando. Enquanto o animal cheirava a ração, ela o acariciava com uma das mãos.

Subitamente, o animal emitiu um grunhido curto, e correu de volta ao arbusto de onde havia saído. Úrsula assustada, deu um passo para trás, exclamando logo em seguida:

― Senhor Plum! O que foi? Volta aqui!

O gato sumiu nos arbustos, e Úrsula o seguiu logo atrás, mas então, se deu conta de que não poderia alcançar o bichano.

― Poxa, Senhor Plum... você nem chegou a comer... ― disse, resmungando em voz baixa, enquanto se virava para retornar ao banco onde estava sua mochila.

A jovem deu um pulo, ao levar um enorme susto desta vez, avistando a figura de um homem, parado, bem à sua frente, vestindo uma antiga máscara de bate-bolas. Úrsula instintivamente começou a tremer, ao perceber a enorme faca de cozinha nas mãos do sujeito. Ela sabia, pois já estivera ali algumas vezes, que aquele era um local de pouca movimentação, portanto, provavelmente ninguém ouviria qualquer pedido de ajuda.

Ao mesmo tempo em que uma lágrima escorria até o canto esquerdo de seus lábios, a jovem, com a voz embargada e trêmula, perguntou:

― O que... você quer?

O homem, que vestia uma camisa social rosa, sapatos pretos e uma calça jeans, apontou a lâmina para o chão, falando com a voz distorcida:

― Tira a roupa e deita!

A jovem, aparentemente abalada, tremia os lábios freneticamente. Ela não relutou e obedeceu; talvez, por se tratar de um homem visivelmente mais velho, tenha se sentido intimidada, inapta a tentar qualquer tipo de fuga ou resistência. Ele então, abriu o cinto, deixando cair a parte inferior de suas vestes, e deitou-se sobre Úrsula, soltando simultaneamente a faca, ao lado de ambos, no chão.

Úrsula agora não chorava mais. Os olhos distantes contemplavam, através das várias frestas dispostas entre as folhas das árvores, o céu azul claro. A jovem parecia distraída, tentando, de alguma forma, fazer com que o tempo passasse mais depressa.

Repentinamente o homem parou. Olhou fixamente em direção ao seu delicado rosto e perguntou, em um tom diligente:

― Está tudo bem? ― Estou fazendo certo?

Úrsula olhou para o lado e deu de ombros, com um semblante de desprezo. Reclamando em seguida:

― Você deveria ter me chamado de vadia, quando me mandou deitar...

― Desculpe... disse o homem, tirando a máscara, ainda em cima do corpo da jovem. ― É que nunca havia feito algo tão louco assim, ainda mais se tratando de uma aluna minha.

Úrsula, em silêncio, arqueando uma de suas sobrancelhas, olhava fixamente para seu professor de literatura. O homem continuou:

― Sabe, minha esposa é meio careta... ― então foi bruscamente interrompido.

― Não quero saber da sua vida conjugal. Só termina logo isso, antes que eu levante e vá embora.

O homem, com os olhos fechados, põe-se novamente a se movimentar de forma ordenada em cima da jovem. Úrsula, ainda imóvel, permaneceu fitando-o sem piscar; mas agora, ela ostentava um semblante diferente. Seus lábios deixavam escapar um pequeno sorriso de satisfação, enquanto suas delicadas e pequenas mãos dedilhavam suavemente a terra no chão, em busca do cabo da faca trazida pelo docente.

Um rápido e certeiro golpe no pescoço. Parecia ter sido ensaiado um milhão de vezes. A destreza da jovem era impressionante. Sem tempo de assimilar o que estava acontecendo, o homem recebeu mais dois golpes certeiros ― um deles o atravessou uma das mãos, que havia sido levada instintivamente até o pescoço, em uma tentativa inútil de parar o sangue que jorrava aos litros.

Úrsula agora estava de pé, nua, observando, com a faca ainda em punho, os últimos espasmos de seu professor.

Palmas interromperam o mórbido momento. Saindo das sombras, uma silhueta esguia, segurando uma pá e um macacão jeans.

― Bravo! disse a jovem loira, que usava óculos e aparentava a mesma idade de Úrsula.

― Me ajuda a limpar esse sangue todo no meu peito. ― Úrsula resmungou, ainda assistindo fascinada o homem agonizar.

― Não quer assistir mais um pouco? Agora é a melhor parte...

― Não! Quero ir pra casa. Hoje começa uma nova temporada de “Babados”.

― Nossa! A gente não passa mais quase nenhum tempo juntas. Sinto sua falta... ― A jovem alisou o rosto de Úrsula e a beijou nos lábios, perdurando o momento por alguns segundos, os quais, Úrsula, impacientemente, interrompeu.

― Você ainda me ama, né gata? ― perguntou a jovem, com um semblante de insegurança.

― Claro que sim, Clara ― disse, antes de uma breve pausa. ― Só quero enterrar logo ele... Estou com fome, não almocei ainda. ― Úrsula não parecia muito confortável com o questionamento.

As meninas cavaram em um revezamento constante, para, em seguida, arrastarem o corpo, agora imóvel, até a cova.

― Não esquece a máscara.

― Eu sei, eu sei...

― Nossa! Esses três já estão fedendo muito. Ao esticar um pouco o pescoço, Úrsula revê, estirados dentro da cova, os corpos, parcialmente cobertos por terra, das três outras vítimas daquele mês. Três professores desaparecidos, um a cada semana.

― Vamos, força! Segura na perna!

Alguns minutos depois, após terminarem o sepultamento, Úrsula limpou o sangue com o macacão que trouxera no corpo, e em seguida, vestiu o que sua namorada havia trazido nas mãos.

― Vai lembrar de queimar?

― Claro! E você não esquece de enterrar a pá!

― Ok, pode deixar. Err... Suh!? ― perguntou Clara, hesitante.

― Oi?

― Te amo... Queria voltar a passar mais tempo com você...

Úrsula desviou os olhos para baixo e perguntou:

― Amanhã é o show das Divinas, vamos?

― C...claro! Compro os ingressos hoje, assim que chegar em casa.

― Então tá. Até amanhã...

Úrsula caminhou até o banco, onde estava sua mochila, e viu o corpo do Senhor Plum caído, ao lado da ração que havia deixado.

― Aí está você, seu danadinho. Poxa, que pena. Se tivesse almoçado naquela hora, teria um lugar mais quente para passar esta noite; junto a mais quatro machos iguais a você ― A jovem soltou uma gargalhada em seguida.

Úrsula retomou a caminhada no parque, mas desta vez apressada, rumo à sua casa. Não podia perder o retorno de sua série favorita. Estava feliz. Havia passado bons momentos, naquela tarde tão agradável.



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13 de Novembro de 2019 às 18:44 0 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Wilher O. Amante de café, calistenia, sobrevivencialismo, quadrinhos, livros e cinema.

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