SOUVENIR Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Quando ela faz aniversário, os únicos que lhe dão presentes são os mortos...


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SOUVENIR






Larissa Floyd sorriu quando seu pai tropeçou no degrau da varanda e disse que a culpa era dela.

— Seus olhos lindos me distraíram, — ele disse, colocando a mão sobre o coração e ficando de joelhos na altura da filha.

Larissa jogou a cabeça para trás numa gargalhada, a cadeira de rodas até se moveu.

— Não foi minha culpa, — retrucou ela, ainda com as bochechas ruborizadas. — Você que não olha por onde anda.

— Foram seus olhos, é sério. Me hipnotizaram, eu acho. Já viu como eles são belos?

— Se parecem com os seus, — disse a menina, recebendo um abraço forte e um beijinho na ponta do nariz.

Léo ficou abraçado na filha por mais alguns segundos, sentindo o cheirinho agradável do shampoo de amêndoas e o calor de seu corpo frágil. Adorava momentos como aquele, principalmente quando chegava a véspera de sua morte. Era como uma despedida, mas de alguma forma não era bem isso, apenas um sentimento estranho que ele e a esposa jamais conseguiriam entender.

— Onde está a sua mãe, mocinha?

— Fazendo o jantar, — falou Larissa, movendo a cadeira com a ajuda das mãos magrinhas. — Hoje vai ter queijo com batatas.

Léo passou a língua pelos lábios e fechou os olhos. Depois se ergueu e perguntou se a filha iria entrar junto com ele.

— Vamos! — ela disse, e Léo abriu a porta para que a filha pudesse passar. Ela não gostava que os outros à empurrassem, sentia-se chateada e costumava passar horas cabisbaixa em seu quarto quando isso acontecia.

Eles se dirigiram até a cozinha, com Larissa na frente empurrando a cadeira numa agilidade que fez com que Léo ficasse até mesmo surpreso. Ela já estava sentada naquela coisa há quase oito meses, um efeito colateral de sua última viagem que deixou os seus pais não preocupados, mas temerosos.

Encontraram Leila diante do fogão, mexendo com uma colher de pau em uma panela borbulhante.

— Advinha quem chegou? — gritou Larissa, estacionando sua cadeira ao lado da perna esquerda da mãe.

— Pelo cheiro é um homem muito bonito, —falou Leila, alisando o queixo. — Só não conte nada para o seu pai quando ele chegar.

Larissa gargalhou e puxou a camiseta da mãe.

— Olhe para trás.

— Mas por quê? Quem é que eu vou encontrar?

— Olhe mãe!

Leila se virou e fingiu estar surpresa, piscando para Léo logo na sequência.

— Oh, querido, eu sabia que era você, — falou e abriu os braços para abraçá-lo.

Todos deram risada, e depois jantaram queijo com batatas ao molho madeira. Eles sentaram diante da televisão meia hora depois para assistir a estreia de Frozen, com Larissa cantarolando boa parte das músicas principais do filme. Enquanto ela fazia isso, Léo permanecia abraçado na esposa no sofá ao lado, ambos olhando com felicidade para a filha. Achavam que felicidade talvez não fosse a palavra certa, pois tudo na véspera da morte dela ganhava tons sinistros, cores acinzentadas e góticas como nos filmes do Tim Burton. Era uma tristeza esquisita que se apossava do peito, uma dor que vinha e logo passava, uma chuva de verão que assim que terminava fazia surgir um arco-íris no céu.

Os três terminaram de assistir a Frozen e assim como em todas as vésperas, foram juntos até o seu quarto. A garota foi colocada na cama pelo pai ( da última vez fora pela mãe, um revezamento que era seguido regularmente ) enquanto Leila aguardava do outro lado para cobri-la. Já estava segurando o lençol com a estampa da cinderela, dobrado na altura do peito.

— Nos vemos depois de amanhã, — disse Léo, beijando a testa da filha e sentindo os lábios gelarem.

— Está bem, — falou a menina, com um ar de tristeza. Essa seria sua oitava morte, mas ela ainda não parecia entender.

Leila estendeu o lençol e a cobriu até o pescoço, se abaixando e lhe beijando carinhosamente a ponta do nariz. Também sentiu como se beijasse uma pedrinha de gelo.

— Durma bem, querida. Lembre-se que logo poderá acordar e ver o papai e a mamãe outra vez, está bem?

A menina disse que estava bem apenas com um movimento tímido com a cabeça.

Se passaram dezoito minutos, e Léo permaneceu abraçado com a esposa durante todo o tempo até que a filha finalmente adormeceu. Não era uma visão agradável, mas o casal já estava habituado ao vê-la daquela maneira uma vez ao ano, pálida e sem fazer o lençol se mover com o movimento do peito. Era quase como prepará-la para um velório anual, e o aspecto mórbido que seu corpo assumia em seu aniversário deixava isso ainda mais evidente.

Leila puxou o marido pela mão e ele lhe retribuiu com um beijo na testa.

— Vai ficar tudo bem, — ele disse.

— Sei que vai. Mas nunca vou me acostumar com algo assim, Léo.

— Eu também não, —e os dois deixaram o quarto para trás, sozinho, um cômodo que ano após ano servia como uma tumba para a própria filha.




Estava caminhando.

Ali, Larissa era capaz de andar. A sensação era maravilhosa, os nervos trabalhando de forma correta e as solas dos pés sentindo o piso gelado. Sempre era assim no mundo dos sonhos, embora Larissa estivesse começando a desconfiar de que aquilo que lhe acontecia não era bem um sonho, mas sim alguma coisa semelhante, algo que lhe transportava para um outro lugar onde suas pernas voltavam a funcionar como antes.

Sentiu uma vontade absurda de correr, e correu. As tranças loiras esvoaçando, o vestido azul-marinho remexendo na altura das canelas e a brisa sempre constante lhe acariciando o rosto. Adoraria que seus pais pudessem estar ali, correndo junto com ela, provavelmente com Léo lhe erguendo nas alturas e a rodopiando pelo ar.

Sua mãe sorriria como de costume, e os três deitariam no gramado espumoso que sempre surgia em algum momento do sonho. É um gramado infinito, que se estende até as nuvens e faz a visão embaçar. Só que os olhos de Larissa já se habituaram, e ela não sente mais tonturas quando olha para ele.

Ela correu por mais alguns metros até encontrar um sujeito alto e magro, vestido de preto e com um furo próximo ao olho direito. Larissa não fazia ideia do que era aquele furo, mas não gostava de olhar para ele. Aquilo, era um balaço disparado por um calibre 38 cinco anos atrás em uma briga de bar.

O sujeito olhou para ela despreocupado, assim como alguém que já esperava por aquela visita.

— Ah, você chegou — falou ele. Em seguida, retirou uma pequena caixa do bolso interno de seu paletó e a estendeu para Larissa. — Pega. É pelo seu aniversário.

Larissa pegou, mas não abriu para ver o que tinha dentro. Dá última vez, uma senhora com o pescoço quebrado lhe deu algo semelhante com um anel enferrujado dentro.

— Obrigada, — ela disse.

— Não precisa agradecer. Todo ano enviam você pra cá para que possamos lhe dar presentes. Já deveria estar acostumada.

— Meus pais sempre me disseram que devemos agradecer quando alguém nos dá alguma coisa.

O sujeito pareceu tossir, mas na verdade estava sorrindo. Enfiou o indicador no buraco da bala e um líquido escuro escorreu ali de dentro. Larissa fez uma careta.

— Seus pais estão certos, — ele falou. — É que faz tanto tempo que não agradeço ninguém que até já esqueci como é a sensação. Pode fazer isso por mim?

— O quê?

— Agradeça aos seus pais quando... bem, quando estiver com eles.

Larissa explicou para o homem que quando ela acorda, não é capaz de se lembrar dos sonhos que teve. Ela apenas abre os olhos, e quando afasta o lençol sua cama está repleta de quinquilharias, coisas que provavelmente ela ganha das pessoas deste mundo e leva consigo.

O sujeito pareceu pensar a respeito, depois olhou para ela e disse :

— Nossa, isso é uma merda!

— Não deveria falar palavrão, moço.

— E você não deveria ser capaz de estar aqui... mas olhe só como são as coisas.

Larissa não conseguiu entender muito bem, mexeu na caixinha em suas mãos e quando ergueu os olhos o sujeito já havia sumido.

Costumava ser assim. Não deu importância para o fato e seguiu pela estrada acinzentada, às vezes fria, às vezes quente.

Andou por cerca de trezentos metros, saltitando como uma bailarina num balé estranho que nem ao menos deveria ser capaz de existir, sentindo a mesma brisa constante e o cheiro de coisa alguma. Achava que seria impossível não poder existir um lugar ou alguém que não cheirasse a absolutamente nada, e até pensava exatamente nisso quando se deparou com uma garotinha vestida com um uniforme escolar. Larissa usava algo parecido quando ia a escola, cinco vezes por semana na van adaptada para cadeirantes.

A menina estava de costas, remexendo nas mãos. Larissa chegou mais perto para dizer olá. Ao escutar a sua voz, a menina se virou e revelou tumores cancerígenos que ocupavam todo o espaço onde deveria ficar a sua boca. Larissa não sentiu medo, mas um calafrio pareceu agarrar o seu tornozelo.

— Eu me chamo Larissa, — se apresentou, só então percebendo que a garotinha seria incapaz de falar alguma coisa.

Ela então lhe estendeu uma das mãos, entregando uma boneca nua que à Larissa lembrava uma Barbie.

— Obrigada, — agradeceu, pegando a boneca e começando a caminhar mais uma vez.

Gostava de sentir as pernas se movimentando, de como a estrada de piso parecia nunca terminar e como as horas ali não avançavam de forma imparável e rápida. O tempo era realmente diferente naquele ambiente, fosse ele onde fosse.

Esperava encontrar mais algumas pessoas pelo caminho ( todas com aparência semelhante à menininha ou ao homem com furo na cara ) e então disparou como se estivesse atrasada para o jantar com a sua mãe gritando por seu nome.

Fez tudo isso com um sorriso no rosto, pois ali, naquele pedaço de universo, Larissa Floyd estava tão morta quanto os outros.




Ela acordou no dia seguinte a seu aniversário, sentindo o corpo dolorido apenas da cintura para cima. Tinha esperanças de um dia acordar de seus sonhos profundos e perceber que suas pernas estavam se mexendo.

Abriu os olhos devagar, bocejou e chamou pelos pais. Quem apareceu foi a sua mãe, poucos segundos depois. Leila entrou correndo pelo quarto, sentou-se ao lado da filha e à abraçou. Era reconfortante senti-la quente mais uma vez. E com sua cor habitual, cheia de vida e com cheiro doce.

— É tão bom... — disse Leila, ainda abraçada na menina. — Adoro ter você aqui, querida.

— O que tem para o café?

Leila sorriu, e quase que uma lágrima teimosa lhe escorreu pela bochecha.

— Tudo que você adora.

— Obaa!!!

— Venha, vamos preparar o seu café.

Leila afastou o lençol da cinderela e um arrepio lhe subiu pelas costas. Havia uma quantidade de presentes muito maior desta vez. Caixinhas pequenas, caixas maiores, todas com aparência horrível e parecendo estar cobertas de fungo. Até uma Barbie sem roupas estava enfiada ali no meio, com as pernas para cima.

Nada que Leila já não tenha visto em anos anteriores, mas suspeitava que jamais seria capaz de não se arrepiar toda vez que se deparasse com coisas como aquelas. Ela sabia de onde tudo aquilo vinha, e também quem os dava para a sua filha. Não sentir qualquer tipo de medo era algo fora de cogitação.

Ergueu a filha nos braços e a colocou sentada sobre a cadeira de rodas. A menina se espreguiçou mais uma vez, olhando sem surpresa alguma para as coisas que estavam sobre a sua cama.

— Tem bastante dessa vez, — ela disse.

— É. Parece que a viagem foi longa este ano.

— O papai está no trabalho?

— Sim, querida. Se quiser, posso ligar para ele e avisar que a garotinha dele acordou.

Larissa sorriu, começando a empurrar a cadeira na direção do corredor.

— É uma boa ideia, — disse, já se afastando e deixando a mãe para trás.

Leila avisou que já iria telefonar, e ficou no quarto para limpar a cama da garota. Enquanto retirava aqueles objetos da cama da filha, Leila sentia o estômago encolher. Era como se estivesse limpando a cena de um crime, ou tocando em coisas imaginárias deixadas ali por um ilusionista.

Ela enfiava tudo que podia nos sacos de lixo, tentando não dar muita atenção para os barulhos reais que eles produziam quando tocavam uns nos outros dentro do saco. Em determinado momento, quis abrir uma pequena caixinha de cor creme que havia ficado entre as últimas coisas. Pegou ela na mão, girou ela diante dos olhos e não conseguiu esconder a fisionomia de espanto. Após alguns segundos, a abriu com a ponta do dedão. Soltou um gritinho quando viu uma bala de revólver ali dentro, e fechou a caixa com um tapa.




Os três enfrentaram as mesmas situações, encararam os mesmos medos por mais dois anos até que em uma tarde fria de agosto Léo Floyd descobriu que estava com câncer. O doutor Peixoto fizera e refizera os exames, chamou Léo em sua clínica por mais de uma vez e o acalmou sempre que ele começava a chorar. Era um tumor no esôfago, tudo indicava que era isso, mas num exame mais apurado se descobriu um segundo caroço na altura dos pulmões.

Léo teve de voltar para casa não querendo voltar, sentindo como se estivesse indo contar para a esposa que ela já poderia ir se despedindo, que aproveitasse a vida o melhor que pudesse e que se possível se casasse uma outra vez.

Eles conversaram quase a noite inteira, com Leila deitada em seu peito e Léo com os olhos avermelhados de tanto chorar. Optaram por não dizer nada para Larissa, não por enquanto, não até a sua fisionomia começar a mudar e eles não terem uma outra opção.

Leila segurou até onde pôde, estava com uma pergunta engasgada, uma espinha de peixe atravessada na garganta. Então ergueu o rosto e olhou para o marido.

— Eles lhe deram alguma estimativa?

— Meses, — disse Léo, fazendo carinho na nuca da esposa. — Mas a verdade é que não dá pra saber. Eu vou fazer todo o tratamento, assim como eles me pediram. Mas não é possível saber se irá funcionar.

— Vai funcionar.

Os dois se beijaram, e uma lágrima escorreu pelo rosto de Léo enquanto os trovões anunciavam que iria chover exageradamente naquela madrugada de agosto.




Não funcionou.

Léo Floyd faleceu cerca de quatro meses depois, deitado em uma cama desconfortável do hospital público memorial. Ele já estava pesando vinte e cinco quilos a menos, e Leila ia visitá-lo praticamente todos os dias acompanhada por Larissa. A menina já tinha uma certa percepção do que estava acontecendo, sabia que as coisas não iam bem e que logo iriam piorar.

Ela segurava a mão esquelética do pai durante as visitas, sempre acariciando os seus dedos levemente e tentando transmitir alguma energia positiva. Nem um dos três costumava chorar naqueles momentos. Eles apenas conversavam, tentando imaginar ou criar os cenários futuros para os próximos meses.

Então algumas semanas depois Léo Floyd foi sepultado, em uma cerimônia simples, discreta como ele em um cemitério próximo ao interior do estado.

Lá também não houveram lágrimas, e Leila passou a dormir sozinha após dezoito anos de um bom casamento. Ela e Larissa seguiram como imaginaram que iriam seguir, sempre com lembranças agradáveis da época em que a sua família era composta por três membros.

Em certa manhã do mês de novembro, Leila estava acabando de estender algumas roupas no varal. Larissa permanecia na varanda, olhando para algum lugar no horizonte enquanto embalava sua cadeira devagar.

Após estender uma última peça de roupa, Leila caminhou na direção da filha e lhe acariciou o ombro. A menina pareceu acordar de algum transe, e olhou para mãe.

— Está tudo bem, querida?

— Está, — falou a menina. E ela não estava mentindo. Sabia que muito em breve poderia reencontrar o pai.

Seu aniversário seria dali dois meses.


13 de Novembro de 2019 às 08:42 1 Denunciar Insira 3
Fim

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Kaline Bogard Kaline Bogard
Olá! Essa a segunda história sua que tenho a honra de ler. Seu talento com a escrita se reforça a cada texto. Devo parabeniza-lo pelo excelente uso do Portugues, sua história é coesa e consistente, o que torna a leitura um verdadeiro prazer. Também somos encantados pelo modo como desenvolve a personalidade dos personagens, em poucas palavras sentimos como se já os conhecesse de muito tempo! Agora o cenário: um clima de libertação, com algo de terror. Ela é livre nos sonhos, embora agraciada com companhias assustadoras! E... o melhor ainda: essa construção de que talvez não seja um simples sonho, mas algo a mais já que ela traz consigo os presentes. A morte do pai é tocante, ele luta a boa luta, mas perde. Saber que ela tem esse "poder" se se reencontrar com ele é uma faca de dois gumes: um alivio e uma dor. Nada melhor do que ter a pessoa ao nosso lado, nesse mundo, viva e bem. Mas... fazer o que? Parabens pelo texto!
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