Ventos do Oeste Seguir história

rafaelamaral Rafael Amaral

Amy, uma policial obceca pelo caso do ladrão de jóias tenta sua última emboscada para pega-lo e, com isso, limpar seu nome de toda a vergonha que ele próprio a fez passar, porém uma reviravolta inesperada acontece e ela se vê no maior dilema da sua vida.


Conto Todo o público.

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Sacrifício

...A perseguição estava chegando ao fim e eu mal pude acreditar que após dez anos de investigações e perseguições atrás de um fantasma, resultaria na sua captura.

Ninguém nunca o viu, muito menos testemunhou com riqueza de detalhes um roubo seu. Todos que diziam tê-lo visto, o caracterizavam como uma sombra ou vulto de um homem atlético perto de um metro e noventa. Mas sua maré de sorte uma hora mudaria.

Graças a uma testemunha conseguimos em tantos anos uma informação privilegiada que nos poria muito perto do maior ladrão de Nova York. A emboscada estava feita, mas é claro, nada sairia exatamente conforme o planejado.

A maior loja de joias da cidade era seu alvo naquela noite e estávamos todos preparados para captura-lo naquela noite. Coincidentemente era a mesma loja que meu noivo Bruce tinha comprado meu anel de noivado, e cada minuto que se passava eu lembrava desse fato enquanto mexia em meu anel com os dedos.

Apesar de toda a força-tarefa da polícia estar perfeitamente posicionada no entorno da loja e totalmente atenta, tudo aconteceu rápido demais e sem darmos conta o "vulto" estava fugindo pelos fundos da loja, um lugar escuro, úmido e cheio de lixo e eu que estava atrás de um carro empreendi a perseguição.

- Amy, o que está fazendo?! - Gritou Evan, o chefe da força-tarefa, correndo atrás de mim, mas desistindo logo em seguida.

- Dessa vez não vou deixar escapar, ele é meu! - Respondi com toda ênfase em meus pulmões.

Eu nunca fui atlética, muito menos uma super corredora, mas a adrenalina nas veias fazem milagres com um bom par de pernas, era incrível como eu me sentia em plena saúde.

Os becos e as ruas escuras eram suas rotas de fuga preferidas e depois de tanto tempo, era óbvio que eu saberia sobre isso, porém ele sempre estava dois passos a frente da polícia... eu disse da polícia, não de mim. Ele não sabia, mas a cidade toda era sua armadilha.

O "pulador" como era chamado nas entrelinhas da investigação, sempre pulava muros e telhados como artimanha para fugir, mas dessa vez espalhei óleo em poças nos arredores da loja. Aonde fosse que ele tentasse fugir, com certeza não seria pulando.

O silêncio dos becos era seguidamente quebrado com passos de dois corredores ávidos, como se suas vidas dependessem disso e dependiam mesmo. Cada poça pisada encrustava mais ainda o óleo em seus sapatos. E então o que eu previa aconteceu. O ladrão correu para uma rua sem saída tal qual usaria o muro para fugir, porém o contrário aconteceu.

Quando alcancei a esquina da rua ainda ofegante, pude vê-lo tentando subir na parede de concreto, calmamente andei em direção a ele sacando minha arma e apontando em seguida.

- Parado, você está preso! - Gritei - Um sorriso iminente se formou em meu rosto.

- Fique de costas com as mãos na cabeça! - Ordenei enquanto mantinha uma distância segura. Ele todo mascarado de roupas pretas e ele obedeceu.

Avisei todos no rádio onde estávamos, eu queria que todos vissem o meu sucesso.

Era o fim? Não, definitivamente não para mim.

Me lembro como se fosse ontem. Em meu primeiro dia, fui encarregada de investigar o caso do ladrão de joias de Nova York. Os prejuízos para as grandes empresas eram enormes, o prefeito culpava e cobrava a polícia cada vez mais e a situação estava se tornando insustentável, mas o que faríamos se era impossível prender um fantasma? Provavelmente não muito.

Fui humilhada em rede nacional quando o deixei escapar no meu primeiro dia e então comecei a sofrer com comentários machistas no meu trabalho.

"Provavelmente não consegue nem aguentar o coice da arma", "E se o ladrão for um homem, uma mulher terá força suficiente pra algema-lo?", "Não sei não, homens policiais metem mais medo que uma mulher". Esses eram apenas alguns comentários que eu ouvia, mas os piores eram de cunho sexual.

Com muito custo consegui crescer na profissão, porém as humilhações continuaram, então esse caso era especial para mim, eu limparia minha alma quando o capturasse e poderia calar a boca de todos que me humilharam por eu simplesmente ser mulher.

Todos os meus dez anos na polícia passaram na frente dos meus olhos naquele instante, eu estava a poucos passos da solução de tudo.

- Consegue ouvir as sirenes, seu desgraçado?! Toda a polícia da cidade está vindo aqui te pegar, seus sapatos estão cheios de óleo e eu vou meter um tiro bem no meio da sua cara se tentar qualquer coisa. Acabou!

Mas como sempre, como o MALDITO SEMPRE, nada acontece da forma que deveria acontecer. Ele se jogou em um canto escuro do beco e o perdi de visão. Tomada por um tremor incontrolável na mão eu travei e com um movimento muito rápido ele tomou minha arma, colocou-a na minha cabeça e me rendeu pelas costas.

Ele estava em minhas costas com a arma na minha cabeça e uma das mãos na minha boca, e quando vi eu não pude acreditar, ele tinha a mesma tatuagem que meu noivo tem na mão esquerda. Será que...?

- Lá está ele! Não atirem, ele está fazendo a Amy refém! - Gritou Evan.

Ouvindo os gritos, ele largou a arma no chão e saiu correndo, porém eu ainda continuava paralisada, não pude pegar a arma e atirar. Enquanto eu levantava meus olhos para vê-lo fugindo, pude notar que os sapatos cheios de óleo estavam jogados perto do muro e que ele tinha conseguido subir o muro e escapar porque estava descalço.

Evan recebeu em seu rádio uma mensagem do piloto do helicóptero que o avisava que estava com o ladrão na mira da sua luz e, pouco a pouco passava as coordenadas. Nesse momento levei um chacoalhão de Evan.

- Amy, ele ainda não fugiu, vamos! - Disse enquanto me puxava pelo braço até o seu carro.

Andamos alguns quarteirões de carro e a cada esquina que passávamos podíamos ver o vulto correndo entre as casas e prédios. Não muito longe dali, propositalmente o ladrão começou a correr entre os carros para causar congestionamento e impedir que chegássemos até ele com o carro, mas antes mesmo d'ele perceber eu desci do carro e corri novamente atrás dele.

Sem muitas opções para fugir, o ladrão correu para dentro de uma pequena floresta que aquela imensa cidade de pedra orgulhosamente tratava como algo exótico. Sem medo entrei atrás, porém o barulho de folhas pisadas era inconfundível. Liguei minha lanterna e quase que instantaneamente vi um rastro de sangue no chão entre as folhas e galhos, não tive outra escolha senão a seguir.

A trilha me levou do outro lado da floresta e, bem lá na ponta onde estava o penhasco pude ver o ladrão com os pés ensanguentados e sua máscara e roupas rasgadas. O sol ao fundo começava a nascer e sua silhueta se tornava cada vez mais familiar.

- Bruce? - Indaguei com o coração saindo pela boca.

O silêncio tomou conta do lugar.

Ele estava em posição de pulo, mas aquele penhasco era tão alto que até mesmo ele sabia que não sobreviveria.

- Bruce, porque? - Meus olhos começaram a lacrimejar. Ele se virou para mim enquanto tirava a máscara, olhando bem no fundo dos meus olhos.

Era mesmo o Bruce, meu noivo, que estava todos esses anos ao meu lado.

- Amy, acho que esse é o nosso adeus. - Disse ele.

- Porque? Porque você fez tudo isso, e porque é um adeus?

- Eu sempre fiz isso e me aproveitei da sua profissão como policial para sempre estar um passo a frente da polícia. Eu coloquei você na polícia e eu quis ser pego hoje. É um adeus porque somos antagônicos.

-Mas Bruce, e a nossa história juntos? Foi tudo mentira? - Perguntei temendo a resposta.

- Não, foi tudo verdade e eu a amo com todas as minhas forças, mas não posso esquecer do porque que estou aqui. - Disse Bruce - Se vai fazer alguma coisa, faça agora ou me deixe ir - Continuou.

Todas as leis sobre ética, moral e etc existentes na filosofia se emaranharam numa enorme bola de pensamentos bem lá no fundo da minha cabeça e a indecisão era a única coisa que eu sentia naquela hora. Passaram-se alguns segundos e ele disse:

- Achei que não faria nada mesmo, você ainda me ama, então te contarei um uma coisa. No próximo outono quando os ventos do oeste soprarem novamente me espere em baixo da maior árvore da cidade que virei te buscar. Até lá renuncie seu cargo da polícia para não levantar suspeitas, saberei se me aceitou como sou quando eu for te buscar. Até mais!

Sem pestanejar ele saltou, saltou sem medo e sumiu. No outro dia só se falava disso na televisão, nos jornais, nas revistas e em qualquer lugar que houvessem pessoas.

Uma semana depois fui a público renunciar meu cargo e a investigação sobre o caso. Tudo isso foi encarado como covardia pela impressa, mas eu não poderia continuar no caso. Eu nunca disse nada a ninguém sobre o que aconteceu naquele penhasco, porém foi a decisão certa a se tomar.

Lá estava eu em baixo da maior árvore da cidade com meu casaco de pele artificial que comprei em um brechó, esperando por ele enquanto os ventos sopravam em meus cabelos.

Ao longe um carro preto com vidros pretos me observava e eu sabia que estava me esperando. Caminhei, caminhei para onde os ventos do oeste sopravam e me senti feliz novamente. Sacrifiquei tudo que acreditava para ter tudo que eu sentia.

As folhas velhas caiam enquanto os ventos as afastavam e as novas nasciam.

Desapareci, desapareci sem dar notícias, mas ninguém sentiu minha falta porque aquela não era minha vida de verdade. Não totalmente.































































13 de Novembro de 2019 às 03:16 4 Denunciar Insira 5
Fim

Conheça o autor

Rafael Amaral Uma minúscula consciência em meio a aproximadamente 3 bilhões de galáxias.

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Billy Who Billy Who
Olá! Tudo bem? Que bom que conseguiu a tempo postar a sua história. Esperamos que tenha se divertido escrevendo para o concurso. Que história interessante essa sua, um tema muito atraente e com tantas reviravoltas. Amy, sem dúvida representa uma classe de mulheres em posição de destaque em um trabalho que leva a fama de ser exclusivamente masculino, o que embasa sua obsessão para provar que todas as críticas sejam colocadas de lado, uma vez que há uma grande desmoralização de sua competência, apenas pelo fato de ser mulher. É um ponto importante focar nessa lógica que você nos fez vislumbrar; um trabalho que quase exige esforços masculinos sendo desempenhados por uma mulher, sobretudo, na liderança. Essa questão pode muito bem ser encarada como uma ameaça aos colegas que, às vezes, se sentem ameaçados com uma mulher forte os comandando, pois esse preconceito impregnado na sociedade ainda faz com que tenham tal comportamento machista. Você se saiu muito bem explorando essa questão. Além disso, a ação foi descrita de forma muito empolgante para o leitor, uma cena de perseguição bastante empolgante, onde vemos que Amy está, de fato, disposta a mostrar serviço e cumprir sua missão, infelizmente o baque sofrido não permitiu. Entre o amor e o trabalho, a heroína abre mão da segunda opção, o que mostra que apesar de tudo, há uma personalidade forte que a faz escolher sem hesitar e seguir aquilo que lhe convém ser melhor. Esse final foi bonito, deixa até mesmo um gostinho de quero mais, como toda boa história permite ao leitor sentir; seria muito interessante saber o que a Amy está fazendo agora ao lado de Bruce. Será que eles estão juntos nos roubos de joias? Teorias, teorias! Muito obrigado por sua história, ela é realmente significativa e empolgante, ficamos felizes que tenha escrito para o desafio, sua participação foi muito preciosa – como as joias do Bruce XD Abraço da equipe!
Vanessa Vanessa
Venho agradecer por ter participado do desafio "Lute como uma garota". Achei sua história maravilhosa. O que me chamou a atenção, a principio, foi a sua narrativa, fluída e limpa. Caramba, senti como se estivesse lendo um dos meus livros colecionados na estante haha Escrita ótima, querido. Aliás, o tema me chamou muito a atenção, pois eu passei uns anos estudando para as forças armadas, e sei como é esse tipo de preconceito em relação as mulheres ocuparem cargos desse tipo. Adorei o modo como a personagem contornou o pesar de 10 anos de carreira, sempre em busca de uma solução para provar a todos o quanto ela é capaz. E eu suspeitei do noivo dela no momento em que ela alisou o próprio anel. Nossa, eu mesma não sei o que faria no lugar da mulher. Senti as emoções do enredo e adorei a forma como você deu o ênfase final nos "ventos do oeste". Parabéns!

  • Rafael Amaral Rafael Amaral
    Valeu Vanessa, escrevi porque o desafio estava nos últimos dias, então escrevi super rápido e nem revisei o texto, que bom que escrevi bem. 1 week ago
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