Conto rápido: Enquanto ele dormia (Reflexão) Seguir história

wilherdeoliveira Wilher O.

Enquanto ele dormia, o mundo não parava. A cidade se remexia. Sua esposa o encarava, inquieta, pensativa.


Conto Todo o público.

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Enquanto ele dormia

O mundo não parava. A cidade se remexia. Transbordava em sons ininterruptos de pensamentos, dos corpos que, em constante agonia, corriam atrás de formas genuínas de sobreviver; de viver, de tudo que poderia ser a respeito de suas vidas.

Enquanto ele dormia, sua esposa o encarava, inquieta, pensativa. Os curiosos residentes do entorno especulavam se seria por quase todas as horas de um único dia, mas o que não imaginavam era que, na maioria das vezes, nenhuma destas vinte e quatro ele podia. Perguntavam por onde andava, o que fazia, pois já há tempos não o viam; não por algum enfermo, desastre ou melancolia. Não gostava das palavras em vão, não sabia o que dizer em seguida; era perda de tempo, algo mais que um bom dia.

Enquanto ele dormia, seus cães caçavam ameaças que não existiam. Diversos caminhantes falavam, de frente à sua janela, em seus objetos solitários que, também usavam para registrar momentos fúteis que jamais voltariam. Achava curioso, provavelmente nunca mais buscariam ver aquelas fotografias, mas ainda assim, constantemente acontecia.

E também sonhava.

Enquanto ele dormia, o tempo passava como um relâmpago, claro, voraz e veloz, porém silencioso. Os desatentos e jovens não percebiam, muito ocupados sorrindo e brindando à vida; tantas expectativas, sonhos e projeções. Era cruel a forma como havia descoberto, após seus trinta anos e nada do que se vangloriar. As dores nas costas ajudavam a lembrar do fato a todo momento. Uma corrida tardia contra o tempo, noite e dia, e isto lhe tirava o sono. Pensava no que havia deixado de fazer, o que devia, e tão cansado de rever e cobrar, às vezes adormecia.

Sim, sonhava. Mas quase nunca era algo bom. Naquela tarde, em especial, entre trocas infinitas de lados, entre dores e tosses, teve um sonho de cão. Movia as pernas, suava, acelerada a respiração. Acordou no susto, desejando o café. Lembrava da raiva, mas não poderia ser por muito tempo, havia muito a se pensar sobre o relógio, que continuava a estalar.

Voltou a sua cadeira, não sem antes espreguiçar. Mais uma maratona começaria. Uma nova corrida sem apostas, mas que, se caso houvessem, seriam quase todas em favor do antigo relógio da sala. Apenas uma favorável a ele, a dela, aquela que, ainda pensativa, novamente assistia.



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11 de Novembro de 2019 às 00:05 0 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

Wilher O. Amante de café, calistenia, sobrevivencialismo, quadrinhos, livros e cinema.

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