Natal na ponte Seguir história

loremkmorais Lorem K Morais

Eles sempre se encontravam na noite de natal. Aquela seria a última vez.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo Único

"Eu amei contra a razão, contra a promessa, contra a paz, contra a esperança, contra a felicidade, contra todo o desencorajamento que existe."

― Charles Dickens


Era noite de natal.

Lá de cima ele podia ver as luzes da cidade piscando nos prédios, a imensa roda gigante e a cidade que parecia bem acordada mesmo que fosse alta madrugada. Conseguia sentir o vento batendo em seu rosto, frio, penetrando nos poros enquanto suas pernas se balançavam no nada, em uma dança particular ao som das canções natalinas que verberavam noite adentro. As conhecia desde a infância, todas elas. Se fechasse os olhos, podia voltar no tempo ao som daquela melodia, que havia odiado por tanto tempo.

Tudo uma bobagem.

Abaixo de si, encantou-se por momentos pelas luzes refletidas nas águas do rio profundo, era como se lá embaixo, fosse lá em cima. Como se pular fosse o caminho mais rápido para alcançar o alto, a lua, as estrelas.

Voar.

"Fumaça de cigarro, cheiro de café, o frio da madrugada do lado de fora. O rosto dela tão sonhador.

– Se eu fosse um bicho, queria ser um vaga-lume.

– Eles vivem pouco demais, sua boba.

– É, mas eles brilham enquanto vivem! Eu quero brilhar, querido! Brilhar e voar!"

Ele não sabia qual era o distância exata, não precisava de tais cálculos. Apenas sabia que era o suficiente.

Tudo era o suficiente.

Menos a vida.

Ele queria viver. Sempre havia achado que não, mas agora via que mais que tudo, ele queria viver. De verdade. Não uma existência vazia, mas cheia.

Tinha ainda tantos sabores para experimentar, lugares para conhecer. Uma vida não bastava. Por que só pensava nisso agora?

Riu com o pensamento e suspirou olhando o céu, recebendo mais do vento. No teatro soava o coral, perto da ponte.

Sempre a mesma peça de natal.

É o mesmo teatro que sempre íamos.

A voz o fez olhar para o lado, um pouco atrás de si. Lá estava ela. Os cabelos vermelhos bagunçados embaixo do gorro, o casaco verde a protegendo do frio da madrugada. Sempre amara aquelas cores nela. Verde e vermelho. Sorriu mínimo e virou para frente voltando a olhar para o céu.

Sempre o quebra-nozes no natal. Sempre o mesmo.

Você sempre odiou.

Ela falou divertida, subindo por entre as grades e se sentando ao seu lado.

E depois um café da Starbucks, um passeio pelas ruas, uma passada nas boates para pesquisa antropológica.

O natal perfeito.

Ele falou melancólico. Os natais eram as datas piores para os dois, talvez por isso criassem essa rotina maluca. Ele odiava natais, havia perdido os pais no natal de seus dez anos. Dois anos depois havia encontrado ela. Se encontraram naquela mesma roda gigante que agora viam ao longe, do outro lado da ponte, quando ela fugiu de casa tentando encontrar a mãe que havia a abandonado na casa de um parente naquela mesma manhã.

E depois disso, os natais passaram a ser sua pior e melhor data.

Ela sempre chorava nos natais e ele sempre a abraçava por isso.

Ela sempre chorava, pelos dois, porque ele não se permitia. Então depois iam para o teatro zombar do espírito natalino e terminavam a noite em boates arranjando confusão, em um karaokê barato, ou em um motel beira de estrada.

Eram melhores amigos, que se viam apenas no natal, não importa em que parte do mundo estivessem, sempre se viam no natal. No natal eram amigos, amantes, desgraçados, malucos e o que pudessem. Eram terapeutas um do outro e eram tudo o que tinham. Uma magia que durava uma noite, até se despedirem no dia seguinte para suas vidas separadas. Esposas e maridos, filhos e trabalho.

Para suas vidas de completos estranhos.

Atrás dele podia ouvir a pequena comoção. O choro e lamentos.

– Pedem para não chorar, exigem que sejam fortes. Como se prender tudo dentro fosse alguma força.

Ela falou em sua voz alta, dando uma pequena risada no final, em suas mudanças de humor habituais que confundia tanta gente. Só ele sabia a verdade. Que ela se escondia por trás de uma capa de chumbo, do mesmo modo que ele se escondia na sua fiel pose de indiferença. Os dois estavam sempre se escondendo de tudo.

Exceto um do outro.

– Nosso corpo é uma represa e a dor é a água. Fomos construídos para suportar a pressão, mas apenas se a soltarmos aos poucos, de forma ocasional. Se não fizermos isso a dor se acumula, a pressão aumenta até o ponto em que as paredes não suportam mais e se rompem.

Ele sorriu, seguindo o movimento das mãos muito pálidas enquanto desenhava no ar sua explicação.

– Chorar, se permitir sentir, é um alívio da represa. Uma necessidade para que ela não rompa e leve tudo no caminho. Não concorda?

Se permitir.

Repetiu suavemente, segundo a mão fria na sua. Ela sempre havia sido seu alívio na sua represa.

Se olharam longamente. O rosto dela corado pelo frio, refletindo a luz da cidade e da lua, tornando-a irreal demais. Apertou a mão gelada e murmurou:

- Nosso último natal.

Ficaram assim, juntos, em algum ponto do tempo. Mais acima, ouvia-se o barulho da sirene da ambulância, contrastando com todo o som natalino. Era a última afronta dos dois ao natal e riram com isso, saltando para o vazio.

Não se ouviu som algum dos corpos.

Acima, na ponte, estava o carro virado onde os paramédicos removiam dois corpos entre os destroços do acidente. Um homem moreno de cabelos escuros, uma garota ruiva que era coberta pela lona. Algumas pessoas faziam o sinal da cruz, outras falavam sobre o acidente. Mas logo esqueceriam, era natal no fim das contas.

No teatro, ouviu-se as palmas para o espetáculo.

Como se fosse para eles.

O último espetáculo, o fechar das cortinas.

Ele perdeu seus pais no natal. Ela perdeu a mãe e a si mesma. Eles se encontravam todo ano na data que mais odiavam. Riam juntos, zombavam juntos e caiam juntos dos abismos em si mesmos, ora se erguendo, ora se afundando mais e mais. Juntos.

E agora iam juntos no natal. Deixando uma xícara de café frio na mesa e um livro que ela lia marcado na página 107 na cabeceira da cama. Gavetas para serem remexidas e memórias que não diziam nada de quem eram de verdade.

Afinal tudo o que eram de fato, seus anjos e demônios, se iam um com o outro.

9 de Novembro de 2019 às 17:15 0 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Lorem K Morais Cosmopolita, cafezeira e ranziza. Estou sempre de um lado para o outro, sem pouso certo. Uma hora aqui, outra acolá. Cirurgiã-Dentista e escritora por ocasião, porque preciso colocar em palavras tudo o que vi. Entre aqui e acolá. Em comum a vontade de fazer as pessoas sorrirem. Vocês podem me encontrar também no meu blog Anjo Sonhador [loremkrsna.blogspot.com]. Não se acanhe não, se achegue aqui. Deixe te contar uma história.

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