O MELHOR HOMEM DO MUNDO Seguir história

dissecando Edison Oliveira

O outro ponto de vista de um velório


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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O MELHOR HOMEM DO MUNDO





Acabei sentando na primeira fileira.

Não haviam muitos lugares disponíveis. Isso não significa que o local estava cheio, como era de se esperar. Bem, ao menos era isso que eu esperava. Nunca fui um sujeito que colecionava amizades, que vivia cercado por dúzias de pessoas ou que levava os colegas de trabalho para uma rodada de chope em algum pub após o expediente. Eu sempre fui um cara de poucos amigos, do tipo que se dedicava principalmente a família. E eram essas poucas pessoas que vieram até ali naquela tarde chuvosa de julho, todas vestindo preto e mantendo um semblante distante, pensativo. Eu também estava vestindo preto; um terno, na verdade. Eu mesmo o havia comprado cerca de cinco meses atrás, em uma viagem de negócios que havia feito até o litoral.

Não era o meu favorito, mas pelo jeito era o de Pâmela. Até que a escolha não foi das piores, de acordo com as circunstâncias. Acho que qualquer defunto fica bem de preto. Para ser bem honesto com você, ele ficou melhor em mim naquele caixão do que quando eu estava vivo.




Aonde eu estava sentado, não havia ninguém. Nem mesmo minha esposa e minha filha quiseram ficar próximo à mim. As duas estavam duas fileiras atrás, juntas com minha irmã Martha e meu único tio ainda vivo, Mauro.

Pâmela usava um vestido que ia até pouco abaixo dos joelhos, segurava um buquê de rosas brancas e permanecia em silêncio. Uma cadeira vazia depois, estava minha filha, Jéssica. Ela também vestia preto, mas não era um vestido. Era um conjunto tipo terninho, algo que sinceramente não me recordo de tê-la visto usar em ocasião alguma. Ela estava linda, olhando para o chão enquanto era acariciada delicadamente pelo noivo, um sujeito boa pinta que tinha um cavanhaque e um piercing no nariz. O nome dele era Vinícius, não tinha emprego fixo e era cinco anos mais velho do que Jéssica. Dá pra imaginar o quanto peguei no pé dela em outras ocasiões. Acho que ele a faz feliz, embora ainda hoje, depois de ser declarado morto às cinco e quarenta da manhã num quarto de hospital, após ficar internado por mais de um mês graças a um câncer no esôfago, ainda sou capaz de ter as minhas dúvidas. Ou talvez isso seja apenas meu instinto paterno falando mais alto do outro lado da vida. Acho que isso não acaba só porque não estou mais vivo. Provavelmente pode até aumentar. Estava olhando para a minha garotinha quando percebi a aproximação de alguém.

Me endireitei na cadeira e vi que se tratava de Emerson Pavanelli, meu colega empreendedor de imóveis da Arantes & ltda. Ele havia acabado de chegar, e estava diante de meu caixão. Não dizia uma palavra sequer, nada que se despedisse de fato. Apenas mantinha uma postura firme, as mãos unidas diante da cintura. Nem parecia o mesmo Emerson, o sujeito brincalhão que adorava falar pelos cotovelos e me dar tapinhas nas costas quando nosso chefe anunciava que eu havia batido a meta do mês. Ali, parado e me encarando pela última vez, talvez orasse em silêncio. Embora até onde eu saiba, Emerson nunca foi um sujeito religioso. Acho até que ele nem acredita em Deus.

Ele me encarou por mais dois ou três minutos, depois pareceu respirar fundo e se afastou, indo se sentar ao lado de Pâmela. No caminho, cumprimentou minha filha e lhe desejou os pêsames. Nem sequer olhou para o noivo dela, que tampouco fez questão de revidar.

Depois, fez o mesmo com minha irmã e meu tio. Passou por eles e fez um gesto com a cabeça, um cumprimento seco, frio. Já ao lado de Pâmela, sentou-se e meticulosamente lhe deu um beliscão na coxa direita.

Ela deu um pulinho ( mais uma estremecida, na verdade ) e afastou a mão dele com um tapinha, o tipo de movimento que serve mais como um incentivo para que continue do que algo feito para interromper. Ninguém ao redor percebeu. Apenas os dois, e esta pobre alma da fileira da frente.




O velório seguiu.

Meu corpo estava bem conservado, com os braços cruzados sobre o peito e o que me restou de cabelo até que bem penteado. Não posso dizer que estava bonito ( o câncer me roubou no mínimo uns vinte quilos ) mas para um cadáver até que caía bem. Algumas pessoas começaram a conversar ali perto, boa parte delas apenas colegas de trabalho, seres que nem sequer me lembrava do nome, exceto por Antônio Carlos, um de meus vizinhos de mesa na sala onde trabalhávamos.

Um deles até estava sorrindo, mas não fui capaz de escutar sobre o que conversavam. Minha atenção estava voltada para a minha esquerda; para Emerson e minha espo... não sei ao certo como chamá-la, honestamente.

Enfim, eu olhava diretamente para os dois. Até então, ele já havia beliscado a coxa de Pâmela mais duas vezes, e em todas elas recebeu um sorrisinho malicioso como resposta. Minha vontade era de levantar e ir até os dois, soprar no ouvido deles qualquer coisa sinistra, algo que revelasse que eu estava observando tudo.

Mas não daria certo. Quer saber de uma coisa chata? Estar morto não é como nos filmes. Você não consegue derrubar os objetos, atravessar as paredes ou ditar uma carta para algum médium psicografá-la. Estar morto é estar morto e pronto. A sensação é semelhante a estar vegetando.

Eu sei que estou ali, mas não posso ser útil para nada. Então se eu fosse até aqueles dois e berrasse como um lunático bem diante de seus narizes, nada aconteceria. Nem sequer sentiriam uma espécie de vento fantasmagórico, daqueles que a pessoa se arrepia e olha em volta. Me levantei e cheguei mais perto. Passei por Jéssica no caminho, e escutei o noivo dela lhe perguntar até que horas iria o velório.

— Acho que até umas três, — ela disse. — Mas se quiser ir, eu vou entender.

— Não, tudo bem. O ensaio da banda começa a partir das cinco.

Ah, é verdade. Havia esquecido de mencionar que o noivo de minha filha tinha uma banda chamada MORIBUNDOS, e que ele tocava baixo. Na época nunca entendi o porquê daquele nome, mas não é que agora tudo fazia sentido?

Me aproximei de Pâmela e de Emerson. Os dois estavam mais juntinhos, e as vezes suas mãos se tocavam.

Me sentei na cadeira que estava vaga. Com um certo esforço, consegui sentir o perfume de Pâmela. Era adocicado, um Chanel comprado por mim em nosso aniversário de oito anos de casamento. Digo com certo esforço porque sentir o aroma das coisas é praticamente impossível quando se está morto. A única coisa que você é capaz de sentir, é frio. É como estar sempre nu, e aos poucos estou me adaptando com o fato.

Olhei bem para o rosto de Emerson. Ele não era um sujeito feio, tinha um porte físico atlético e um brinquinho que imitava um diamante na orelha. Senti vontade de arrancar aquilo com um único puxão. Até fiz o movimento, mas minha mão de fantasma travou antes mesmo de tocá-lo. Ainda não sei bem o que é, mas existe uma espécie de escudo que divide este mundo do mundo de vocês. Não dá para vê-lo também, mas é possível senti-lo. É como raspar o corpo em uma cortina fina mas resistente.

Desci os olhos para baixo e procurei pelas mãos dos dois se entrelaçando, mas isso não estava acontecendo. Achei bonitinho por parte dos dois me respeitar ao menos por um minuto. Nisso Pâmela cruzou as pernas, e Emerson inevitavelmente lhe roçou o indicador pela parte de trás do joelho.

— Quer parar? — sussurrou ela, quando na verdade queria gritar para que ele continuasse.

— Sabe que não consigo evitar. Estou a ponto de abaixar a sua calcinha e lhe comer em cima daquele caixão.

— Isso é uma proposta?

— Ouça, — disse Emerson, olhando em volta para se certificar de que não havia ninguém de olho nos dois. — Foi de câncer mesmo que o pateta morreu?

— Foi. E dei graças a Deus. Poupou o nosso serviço. Aquele matador de aluguel iria nos cobrar uma fortuna.

— Isso é. Às três horas vão jogar ele na cova?

Pâmela fez que sim com a cabeça, e Emerson olhou para cima e suspirou de alívio.

Naquele instante, senti inveja do meu corpo no caixão. Ao menos ele não era capaz de escutar coisa alguma.




Nunca passou pela minha cabeça em vida ( tampouco na morte ) que Pâmela estava tendo um caso. Nós éramos casados há quase nove anos, mas tínhamos um relacionamento há quase vinte.

Ela sempre dizia que me amava quando eu dava um beijo nela e me despedia para ir trabalhar. Ela fazia o mesmo quando íamos dormir. E quase sempre quando acordávamos. Ela não era uma mulher melosa, acho que a palavra certa seria romântica, e eu sempre fiz o tipo tímido, daqueles que sentem vergonha de dizer o que seu coração está sentindo mas que compensam com atitudes ao invés de palavras.

Durante o período em que estive doente, ela sempre esteve ao meu lado. Acompanhou cada passo que eu dei, cada sessão de quimioterapia e cada esforço em vão na direção de uma cura inexistente. E ela sempre segurou minha mão e olhou nos meus olhos ao dizer que eu iria sair daquela.

Quanto ao Emerson, a surpresa até que não foi tão grande. Meu pai sempre dizia que quando alguém lhe dá tapinha nas costas, na verdade queria estar empunhando uma faca. Mas ainda assim, fiquei assustado de saber das coisas daquela maneira. Sim, fantasmas também se assustam. Talvez até mais do que os vivos. Principalmente quando se sabe que você já deveria ter morrido muito antes à mando da própria esposa.

Mais uma vez quis acabar com os dois. Pensava em, assim que o enterro acabasse, segui-los até onde fossem e assombrá-los com sussurros e arranhões nas paredes. Daí me recordei que já estava tudo acabado, que nada mais poderia ser feito pois o meu mundo agora era outro e conviver com as próprias descobertas era algo natural para todo o sempre.

Com isso em mente, levantei e fui até o caixão. Olhei para meu corpo bem vestido, de cima à baixo. Meus sapatos estavam engraxados, coisa que há meses não costumava fazer. Alguém havia colocado uma pétala de rosa sobre minha testa, me curvei para soprá-la e ela nem se moveu. O escudo defendia qualquer tipo de ação vinda deste mundo.

Voltei para minha posição normal e olhei fixo para meu rosto; encovado, os lábios rachados e os fios de cabelos finos.

— Você escapou de uma, — falei para mim mesmo. — Aquela vagabunda iria dar um jeito de acabar com você. Até onde sei, alguém iria lhe encher de balas. Todas no peito e algumas na cabeça. Provavelmente não veria da onde estavam vindo os tiros. Não teria tempo nem de descer do carro. E sabe o que é pior? A primeira coisa que tentaria fazer, seria telefonar para aquela piranha e dizer que a amava. Mas pode deixar. Se um dia topar com o todo poderoso por essas bandas, vou agradecer o câncer que ele lhe deu.

Fechei os olhos, e por um instante pensei que iria chorar. Senti vontade, mas lágrimas não existem do lado de cá. E se eu ainda possuísse um coração, ele estaria quebrado.




Assim que o caixão desceu até o fundo da cova, algumas pessoas começaram a jogar rosas sobre a tampa dele.

Todos usavam guarda-chuva, e a água escorria e se acumulava na grama bem aparada do cemitério Mão de Deus. Um trovão retumbou ao longe, e minha filha Jéssica procurou o raio olhando na direção do céu. Seu noivo a mantinha sobre seus braços, e desejei que ele a protegesse, que cuidasse dela melhor do que eu fui capaz de cuidar.

Pâmela estava o tempo todo ao lado de Emerson. Eles só não estavam abraçados porque seria algo desastroso, chocante, vergonhoso para ambos. Mas aposto que assim que saíram dali, entraram no primeiro motel que surgiu no caminho e fizeram sexo como dois degenerados, com seus corpos roçando e com suas línguas bifurcadas como deve ser o acasalamento dos demônios.

Minha irmã Martha se aproximou da cova e atirou uma rosa. Ela atingiu a tampa do caixão e escorregou para a escuridão. Em seguida fez o sinal da cruz e se afastou. Meu tio Mauro veio na sequência, mas não jogou rosa alguma. Disse apenas algumas palavras, muitas delas baixa o suficiente para que nem mesmo a minha alma viesse a escutar.

Agradeci mesmo assim. Acompanhei ele se afastar, e logo depois vi que foi a vez de Jéssica se aproximar e se abaixar diante da cova. Seu noivo permaneceu a seu lado, com uma mão segurando o guarda-chuva e a outra repousada em seu ombro.

— Te amo, pai — ela disse. Não parecia estar chorando, mas sua voz estava embargada. — Fique em paz. Vou ser sempre a sua garotinha.

E isso foi tudo. Sinal da cruz, buquê de rosas e passos para trás. Outra vez, teria chorado se pudesse.

Fiquei ali, escorado na própria lápide, querendo sentir a chuva mas ela não era capaz de me tocar, pois assim como deste lado, nada que venha daí pode ultrapassar o escudo.

Então Pâmela se aproximou. Emerson ficou onde estava, com os braços cruzados e se protegendo da chuva ao lado de minha irmã.

Pâmela parou junto à cova, uma única rosa segurada pela mão. Me veio à mente que um vento sobrenatural poderia soprar e derrubá-la para junto de mim, fazendo com que todos gritassem e ela mais ainda, se debatendo com as pernas e agitando os braços enquanto meu corpo sorriria de dentro do caixão. Mas obviamente não houve vento algum, e Pâmela apenas resmungou que iria sentir muito a minha falta e contorceu o rosto numa expressão ridícula de um choro sem lágrimas.

Após o teatro, esticou o braço e jogou a rosa. Esta rodou no ar, quase três voltas completas, e não conseguiu ultrapassar para dentro da cova. Foi como se batesse em uma parede. Ela ainda tentou uma segunda vez, se abaixou, pegou a rosa e tornou a jogar. A mesma coisa aconteceu. Sem jeito ( até parecendo assustada ) Pâmela recuou e buscou proteção com o seu amante.

Pela primeira vez naquela tarde, senti vontade de sorrir. E sorri. Apenas para mim, debruçado na lápide enquanto a chuva caía e os trovões retumbavam pelo céu. Fiquei assim até que todos fossem embora, sumindo aos poucos no horizonte enquanto os coveiros terminavam de me cobrir.

Minutos depois, fiquei de frente para minha lápide, abaixado e com um dos joelhos tocando o chão. Em voz alta, li meu próprio epitáfio:

— O melhor homem do mundo.

Achando aquilo uma besteira, me ergui e comecei a andar.


2 de Novembro de 2019 às 00:35 0 Denunciar Insira 5
Fim

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