Cata-vento Seguir história

anjosetsuna Anjo Setsuna

"[...] você realmente devia estar assustada aquele dia, porque eu vi naquele momento que as pessoas não viravam plaquinhas, mas sim cata-ventos."


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Cata-vento

Hoje está um dia tão quente, que arrependimento de sair de casa sem pelo menos um boné, mas ah, aquela zanga inconsciente de minha mãe, que sempre reclamava quando saía com algum deles, dizendo que isso é coisa de frentista. Haha aquela mulher...

Esse cemitério é tão diferente do que temos no distrito, quando me disse que as pessoas viravam plaquinhas aquele dia no MSN eu imaginei algo seco e vazio, como era no distrito com suas estátuas de pedra, mas num grau bem pior, já que nesse você disse que pelas regras internas não podia ser feito nenhum tipo de construção de alvenaria sobre os túmulos, apenas jardinagem.

Tudo bem que me disse que só mudava as flores, mas esqueceu de dizer que era praticamente um jardim delas! E nossa quanta grama, mesmo o mapa do cemitério é em formato de flor, que coisa peculiar.

Agora me arrependo de ter dito a você que preferiria ser enterrada lá no distrito, afinal eu não queria ser apenas mais uma plaquinha no chão cheia de terra, queria uma estatuazinha de anjinho fazendo companhia pelo menos, porque certamente eu não iria receber visitas da minha família. Não depois daquilo tudo...

Eu sei que não me apoiariam em nada quando me assumi, que seria expulsa de casa, mas não imaginei que realmente fariam isso de forma tão brusca, com direito a fechaduras trocadas e só meus documentos pessoais como posse.

Acho que se não fosse você amiga, e ela, se não fossem vocês duas...

As picadas dos mosquitos irritantes me tiram daquela fossa quase auto induzida, você não reclamou dos insetos aquele dia, não me admira, a tal garota gritando no velório deve ter sido um choque para você, que parece um potinho de felicidade ambulante. Talvez se tivesse vindo num dia vazio como hoje teria visto o lado positivo de tudo, como sempre fazia com qualquer coisa nessa vida.

Não pensei que meu trabalho me faria vir aqui, mas eu sempre digo, essa cidade é maluca, muito maluca, colocar o maldito IML dentro do cemitério, bem dentro, ter que atravessar esse chão todo nesse calor de novembro. Ainda me pergunto como você consegue andar sempre de blusa de frio nesse clima.

Avistei finalmente o prédio do IML, mas acabei dando um gritinho de pavor, fazendo alguns jardineiros por ali me encararem risonhos. Uma seriema passou bem perto de mim, o que um pássaro daquele tamanho fazia por ali? Se fosse um urubu ou coisa parecida eu entenderia. Lá no distrito no máximo tínhamos gatinhos que viviam entre os túmulos...

Foi aqui que eu parei para observar ao meu redor, e entender suas plaquinhas.

Ao longe as placas pretas se destacavam entre o mar verde de grama, mas amiga, você realmente devia estar assustada aquele dia, porque eu vi naquele momento que as pessoas não viravam plaquinhas, mas sim cata-ventos.

O vento os girava enlouquecidamente, alguns quebrados balançavam, tentando resistir ao fluxo que passava.

Quantas formas, de flores, de joaninhas, até um com pintas de bola de futebol. Girava e girava, rumo a um gol infinito.

O sol batendo em alguns com cores de girassol se destacavam mais.

Um bando de passarinhos tão pretinhos fazia festa em cima de um dos túmulos, era de um preto tão intenso aquelas criaturinhas, alguns com reflexos de azul escuro sobre as pequenas asas. Isso acabem com esses mosquitinhos irritantes!

Finalmente o barulho de toda aquela vida chegava aos meus ouvidos, o cantar dos pássaros, o vento girando os cata-ventos multiformes, a grama sussurrando os segredos de quem dormia por ali, o choro tímido de um visitante em um dos túmulos.

Fiquei parada de olhos fechados, apreciando o frescor da ventania, precisava te contar da minha mudança de ideia.

— Moça, tá tudo bem? – a voz masculina parecia preocupada.

— Ah, sim senhor. Só uma paradinha para descansar.

— Precisa de ajuda com algum número? Os túmulos dessa quadra são os D.

— Ah não, não, eu vou no IML mesmo.

— Xiii moça não te avisaram que por dentro do cemitério não entra? A entrada é pela portaria de fora, lá na outra avenida.

— O quê! Ah droga, eu não...

Minha frustração de caminhar aquilo tudo atoa bateu com força, finalmente percebendo que o IML não era tão dentro do cemitério como pensei, talvez até eu tenha ficado com certo medo...

— Quer carona até a portaria moça? Eu 'tô indo para lá.

— Ah, obrigada!

Dei uma última olhada nos cata-ventos que ainda giravam, imaginando que um dia, bem distante eu torcia, queria que o meu fosse como aquele de girassol.

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Esse conto tem um conto "irmãozinho" caso se interesse confira "Plaquinhas"

2 de Novembro de 2019 às 03:11 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Anjo Setsuna A mesma Anjo Setsuna de sempre, dando uma espiada aqui no Inkspired. Também podem achar meus escritos no Fanfiction Net, Fiction Pres, AO3 e Wattpad. Caso vejam minhas obras em outros sites além desses denuncie por favor. Novata nessa plataforma, sempre aberta a novas amizades :D Amo drabbles de 100 palavras e fanfics.

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