Residencial Buritis: Sonhos Verminosos Seguir história

papironauta Rodrigo Borges

Após ter sua casa invadida por um homem com aspecto violento, Caio passa a sonhar os melhores sonhos; porém, não sabe que esses sonhos só são fachada para deixá-lo dormir o máximo de tempo possível. História de horror fragmentada. Residencial Buritis.


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Sonhos Verminosos



Existia algo naquele riacho, algo bonito feito o brilhar de pedras preciosas e que pontuava uma presença duvidosa. Caio não sabia o que era, mas almejava saber. Seus olhos percorriam ansiosos pelo cenário arvoresco, cobiçando encontrar a fonte de tanta atração, porém, não parecia ser algo fixo, porque, quando sentia - sabe-se lá como - que estava quase encontrando, esse algo escorregava dos dedos de seus sentidos para se esconder noutro lugar.


Fazia quase dois dias que sua casa tinha sido invadida por um homem. Caio estava sozinho e tinha se deparado com o estranho na cozinha, no decorrer de uma das várias viagens que fazia entre quarto e aquele cômodo, à procura de outro copo de refrigerante ou qualquer outra porcaria para incrementar sua jogatina.


O homem procurava por facas na gaveta em pressa silenciosa. Suas roupas estavam pinceladas de vermelho, e foi nesse momento que Caio, já congelado por ver um completo estranho ali dentro sem nenhuma permissão, ficou mais desesperado; será que o sangue é dele? não estou vendo machucados. Então o estranho enfim catou uma faca, se virou e viu Caio parado. Com o cessar dos talheres sendo embaralhados, os únicos barulhos eram os corações frenéticos de ambos. Mas logo o invasor voltou à ativa, como se tivessem apertado botão stop e play muito rápido, bagunçando o foco do silêncio faroeste. Ele primeiro balançou o corpo num tremelique involuntário, coçou com força o pescoço coberto por barba, depois começou a se mutilar com a faca de serra de cabo vermelho - um mix entre a faca cortando pão para o café da manhã e depois cortando carne humana passou pela cabeça do garoto.


O que sucedeu a estes atos foram ondas de dor FM entremeadas em mandíbula cerrada e saliva cuspida; o homem se cortava e coisas sem sentido saíam da sua boca de dentes amarelos que nem cerveja - Caio tinha percebido agora que a pele do estranho estava pálida, e que seu corpo tinha aspecto suctório, ressaltando as veias do pescoço, da testa e de outras partes descobertas pelas roupas sujas.


- Estão dentro de mim mas são tão lindas tão lindas me fazem sonhar sonhos tão lindos aaarrgh estão dentro de mim!


Caio apenas correu para o quarto dos pais, trancou a porta e, sem descanso, correu para o banheiro, se trancando mais uma vez. Quando teve um momento para pensar, uma coragem infértil lhe dizia para ir se esconder em seu quarto, porque seu celular estava lá; mas afastou a ideia em pensar que, se o homem fosse para cima dele no momento que abrisse a porta, a corrida que travariam seria um jogo de apenas uma vida, uma única chance de ir sem ser pego pelo vilão com uma faca de serra.


Apesar de o homem gritar gritos de dor e loucura lancinantes atrás das duas portas, fazendo o som vir abafado, Caio ainda tapou os ouvidos enquanto lágrimas escorregavam na careta vermelha que era seu rosto. E lá dentro ficou até a tarde virar noite, a esperar seus pais chegarem no momento que tinham para chegar, já que não tinha como ligar para eles.


Mesmo quando os adultos chegaram, demorou um tempo para que Caio se entregasse totalmente a ideia da presença deles. O estranho tinha esgoelado tantas coisas, coisas horríveis e que possuíam uma metade indiscernível e outra inimaginável. Não… Caio as imaginou sim, ele imaginou a estrutura horrenda que aquelas palavras caóticas e abafadas por paredes construíam, imaginou tanto que desconfiou, no começo, da voz do seu próprio pai, que saiu gritando por seu nome em preocupação quando vira a bagunça que virou a sua cozinha, batendo na porta e pedindo em tom crescente ao mando para que a abrisse.


Por que eles têm que gritar tanto, os adultos?

No primeiro dia depois do incidente, policiais vieram à casa, exploraram o local e sua bagunça e fizeram algumas perguntas pro garoto, que respondeu em um trauma simples e calmo tudo o que tinha presenciado. O agente se ajoelhava quando lhe direcionava as perguntas, os joelhos estalavam com o movimento, e após as respostas ambos seguiam seu rumo: o policial para outras tarefas investigativas e Caio voltava a atenção ao videogame.


Por trás do som da TV, ouviu o policial conversar com seus pais, perguntando se era saudável deixar o menino jogar depois do que tinha acontecido; o pai e mãe fingiram concordar com o policial num ar de culpa - eles realmente achavam que era melhor o filho se distrair um pouco dentro de seus jogos -, e prometeram que iriam ficar de olho no filho para, quem sabe, precisasse de um psicólogo. O policial tirou do bolso um cartãozinho de uma clínica do departamento que realizava esse trabalho e o entregou.


Caio não quis conversar sobre a invasão com seus pais, já havia revivido as imagens dos acontecimentos tempo demais para os policiais. Pai e mãe compreenderam, mas pediram, ao menos, que Caio conversasse com eles quando fosse tempo, e que também se deixasse passar tempo demais confinado no quarto. Caio aceitou sem pestanejar, apesar de sentir que não abriria tão cedo a boca uma segunda vez sobre tudo que tinha acontecido.


Não tardou muito para se sentir cansado a ponto de não aguentar mais jogar. O sono o capturou de forma inesperada, o levando para cama antes que pudesse lembrar de escovar os dentes ou os pais perceberem; e, durante o curto trecho entre o desejo de permanecer acordado - uma tentativa desgarrada de parar o tempo - e o de dormir, Caio escutou um som perto da cama, como se um inseto grande estivesse em algum canto dali. Era um som esporádico e debochado, que se destacava no silêncio obscuro do horário de dormir, fazendo-se surtir apenas quando os ouvidos de Caio lhe diziam que não era nada. Caio pensou muito sobre se levantar e averiguar se não tinha alguma barata ou besouro na mesa da cabeceira ou de baixo da cama; até poderia aproveitar e escovar os dentes - tinha lembrado -, mas logo percebeu que pensar estava requerendo muita energia, que era o que ele não tinha naquele momento.


O sonho que substituiu seus olhos por projetores foi divertido. Ele estava no riacho atrás da casa, um pouco mais para o fundo da mata. Havia uma voz que parecia vir de todas as direções, era suave e o chamava por vários cantos para que entrasse no riacho, fraquejando-o e fazendo-o ceder sem pesar a racionalidade da decisão. Então ele entrava nu na água fria e corrente e brincava como nunca com o dono daquela voz, que era tangível, mas não totalmente visível. Ele ficava atrás de Caio, e o garoto só conseguia captar parte da sua imagem no canto do olho, uma parte insuficiente para formar julgamento. No sonho, Caio se divertia com aquele fato, tentava se virar de uma vez para pegar o seu amigo de surpresa, para então vê-lo totalmente, mas nunca conseguia. A cada giro, aquilo movia-se mais rápido do que a curiosidade, como se fosse a própria sombra do garoto.


Ao acordar - resistia contra a vontade de voltar a fechar os olhos - sentiu algo se recolher dentro de si, escutou com intimidade um som verminoso, um rastejo, como se um corpo morto e gosmento estivesse escorrendo para dentro de uma gruta, para longe do sol, da luz; assim como a língua, úmida e repleta de saliva, fazia com a boca: se esgueirava entre mandíbula e maxilar, entre dentes e gengivas, para se alocar sob a proteção destes, perto o suficiente da garganta, um covil fértil para escuridão.


Mas a sensação passou num piscar de olhos, e logo Caio estava desperto. Acordou, comeu e bebeu o café da manhã preparado pelos pais - os dois estavam sentados à mesa conversando assunto que Caio não prestara atenção - e correu para o quintal, onde o riacho de seu sonho ficava.


Então lá estava Caio, encarando o riacho com o mesmo charme do sonho. Apesar de sentir que lindas coisas estavam em algum canto em que seus sentidos não pudessem captar, sabia da ausência de seu amigo, aquela criatura não-vista. Às vezes virava de repente, pensando que dessa vez o pegaria de surpresa e então finalmente veria sua forma, mas nada, nem uma lasquinha de sua imagem pelo canto do olho. Ele não estava lá.Pensou em entrar no riacho, mas a água era escura, um verde lodo tomava a superfície, e não cristalina como no sonho. Além do mais, aquela manhã emitia um frio que insinuava que em breve água cairia do céu.


O cair de mais uma noite alimentou uma ânsia nunca antes existente de fechar os olhos, porque, de alguma forma, Caio sabia que teria mais sonhos bons como o do riacho; e sua intuição provou-se verdadeira instantes após se entregar ao sono.


Ele sonhou descer toda a ladeira do condomínio de bicicleta; via que seus amigos não conseguiam acompanhá-lo, eles freavam e então enfeitavam o clima com gritos de encorajamento, incrédulos e perguntando entre si se Caio ao menos conseguia ouvi-los.


Ele pareceu um caça!

O pedalar de Caio era incessante, tudo para pegar mais velocidade naquela ladeira infinita. Seus amigos ficaram para trás, mas ele não se sentia sozinho, seu amigo não-visto estava na garupa com ele, uma imagem grande, sentia. Caio tentou uma vez se virar para ver, mas o trajeto da bicicleta ondulou, ameaçando derrubar ambos; então apenas focou no caminho à frente, que passava tão rápido quanto paisagens nas viagens de carro. Caio não se frustrou por não ter sanado a curiosidade, apenas aproveitou a companhia, a sensação de ter um vento na cara e a da velocidade afogando seu corpo em uma sinestesia de mundos.


Quando voltou aos seus amigos, foi recebido com a mesma gritaria empolgada de quando os havia deixado para trás. O assunto durou o dia inteiro, até quando pediram pizza para comemorar as pernas de ferro ou o coração imbatível de Caio.


Vimos quando você quase desequilibrou, mas logo manteve o controle!

Dessa vez, foi mais difícil acordar. Sua mãe sacudia seu corpo após acender a luz do quarto, levantar as persianas e chamar pelo nome do filho várias vezes não ser o suficiente.


- Caio, acorda. Vamos, ei, acorda!


Seus olhos abriram e viram a mãe arrumada para o trabalho, a luz que invadia seu quarto pela janela com persianas levantadas e os efeitos matinais que ela fazia nos móveis do cômodo; mas apenas percebeu esses detalhes depois de escutar aquele mesmo som sorrateiro dentro da sua cabeça, o rastejo de um corpo radial e anelado se recolher para algum lugar onde havia sombra o suficiente. Caio sacudiu a cabeça, pensando estar zonzo, e acreditando ter sido o ato de balançá-la que parou com a sensação esquisita. A mãe deu-lhe um beijo na bochecha e pediu para que levantasse, o café da manhã (suco de laranja e bolinhos de baunilha) estava sendo preparado pelo seu pai, que ficaria com ele durante o dia todo; logo depois partiu, deixando um rastro de perfume pelo quarto e casa.


Caio lutou para não ficar na cama quando a mãe partiu, e saber que seu pai estava fazendo bolinhos de baunilha foi um reforço bem quisto para a situação. Mesmo assim, teve que lutar, a preguiça parecia ser tanta que transformava em insuficiente as oito horas de sono, senão mais, que tivera. Mas, no final, o seu estômago ganhou, reclamando pela fome mais que seus olhos com pálpebras peso pesado reclamavam pelo sono.


Enquanto na cozinha e já servido, o pai disse que poderia faltar a semana, dar um tempo nas responsabilidades escolares, se assim Caio desejasse; claro que desejava. Falou também sobre o psicólogo, que se não estivesse sentindo-se bem, ele e a mãe estavam presentes para dar apoio; Caio dispensou o assunto olhando nos olhos do pai e dizendo que não precisava, que estava bem. O pai acreditou, porque de certa forma era verdade.


O assunto entre os dois vinha em ondas esporádicas, mas não por haver um elefante na sala; os bolinhos entravam nas bocas com facilidade e sumiam pelas gargantas igualmente. O café da manhã tinha sido feito com apreço.


- Então, sobre suas faltas - o pai quebrou o silêncio - eu e sua mãe falamos com a Sarah aqui do lado, e ela concordou em cuidar de você na parte da manhã, esse é o único jeito que vemos para amanhã, já que você não quer ficar com sua vó enquanto trabalhamos.


Sarah? Caio pensou em rir, mas segurou a ânsia enfiando mais bolinhos na boca. Por mais que tivesse sentido um medo descomunal quando o estranho homem invadiu sua casa, coisas boas estavam acontecendo. Jogava videogame boa parte do dia, faltaria uma semana de aula, e os sonhos… pode ser coincidência, eles vieram na hora certa (parte dizia que aquele seu amigo não-visto era real e ele que ajudava nos sonhos, mas acalentou a ideia em seu subconsciente). Agora Sarah, a vizinha que deixava Caio e seus amigos de boca aberta. Ela era uns 9 anos mais velha que eles, mas todos estavam com ânimos à flor da pele, e havia dias que tudo em que conversavam na rua era sobre as garotas bonitas do condomínio. Sarah ocupava o primeira lugar da lista.


Sarah era uma garota bonita, tinha longas pernas que cabiam bem na calça jeans clara que frequentemente usava. Os pés pequenos encaixavam de forma tentadora no tênis Vans, a camisa regata deixava à mostra os seus braços esbeltos, e a aparência meio descabelada estilo geek junto com o tenro casaco de lã verde apenas agraciava sua aparência. A verdade era que não importava a roupa que estivesse usando, fosse um short curto ou um vestido florido, aquela garota mexia com o coração de muitos cabocos do condomínio, e ela seria a babá de Caio. Ele não dava a mínima para o termo “babá” e pelo que seus amigos pensariam dele, a sua babá era Sarah, e todos desejariam ter uma babá assim.


- Seria melhor - disse Caio, lutando para a ansiedade não ser vomitada em suas palavras - eu quero ficar em casa, pai.


Quando os bolinhos foram todos comidos, e o pai se recolheu para o escritório, Caio foi direto para o riacho em um instinto, um hábito já impregnado. As águas agora não ocupavam por inteiro seus pensamentos, nem o seu amigo não-visto; a expectativa de receber Sarah abarrotava seu coração, e podia até sentir o sangue se acumulando em seu pênis, que aos poucos ia ficando duro só de pensar na imagem de Sarah. Não demorou muito para ele dar as costas para as águas, agora plenas, do riacho e ir direto ao banheiro, trancar a porta, fingir estar fazendo algum dos números, enquanto, na verdade se masturbava com as imagens que sucediam em sua imaginação.


Então mais uma noite e foi nesta em específico que teve seu primeiro sonho erótico. Sarah estava nele; detinha um jeito afável e íntimo, como se se conhecessem há décadas - quando na verdade nunca haviam trocado uma palavra sequer -, um teor feminino que era novidade. Ela ia de árvore em árvore para se esconder, chamando Caio e dando risadinhas, como uma ninfa em sua floresta. A água do riacho sempre presente carregava a doçura de seus sons guturais, e a intuição de Caio dizia que a pele dos vultos da garota não trajava roupa alguma. Então ele a procurava, mas sempre a via se esgueirar para longe de sua visão - o seu pênis poderia explodir a qualquer momento -, até que finalmente Sarah parou de brincar e ele a encontrou, junto com seu suposto corpo nu, apoiada em um dos troncos da mata que resguardava o riacho.


Já era de manhã, e a mãe sacudiu Caio várias vezes até acordá-lo, como na última vez. Quando o garoto abriu os olhos - mais uma vez algo se recolheu dentro dele, como uma lambida em seu cérebro - viu pai e mãe com expressões preocupadas e encarando-o. Seu pai estava na arcada da porta aberta, e sua mãe sentada na cama ao seu lado, próximo ao quadril de virilhas que sustentavam a ereção. As mãos de Caio seguravam firme o cobertor, torcendo para nenhum deles puxarem sua proteção à vergonha.


Mesmo com os olhos abertos, os pais ainda permaneciam preocupados por algum motivo.


- Você está bem, filho? - perguntou a mãe.

- E-estou, ué - respondeu Caio, ainda um pouco sonolento. Sentia-se indisposto, mas relevou isso, talvez fosse só a preguiça matinal.

- Ele está um pouco pálido, não está?! - a pergunta foi uma meia afirmação para o pai, que concordou. - E há esse suor.


A mãe puxou um pouco a coberta do pescoço de Caio para mostrar para ninguém em especial o suor que cobria a pele do filho. Caio foi esperto e manteve a calma, mas não por cálculo e sim por choque, com medo de um movimento brusco levantar mais perguntas, até descobrirem seu crime: estar excitado pelo sonho que teve.


- Eu estou bem - disse Caio - é que eu tive um pesadelo.

- Vou falar com a Sarah para ficar atenta nisso - alertou o pai, confortando a imaginação inquieta da mãe.


Sarah? Era hoje, sim! hoje que Sarah viria. A lembrança bateu tão de frente que faltou coragem em Caio para encarar aquele fato; por um momento o fazendo desejar ir à escola para fugir da posição que deveria tomar para impressionar?! Sarah.


- Tudo bem - a mãe aprovou - vamos, levanta e vai tomar um banho logo. Você não vai querer receber Sarah com esse fedor.


As mãos do garoto cravejaram mais ainda no cobertor. Seus olhos andaram entre os da mãe e do pai, esperando, torcendo, para que eles saíssem do quarto. O pai se mexeu, mas para pegar a toalha atrás da porta, jogando-a em cima do filho.


- Vamos rapaz - disse - você escutou sua mãe.


Caio a havia escutado muito bem, mas ainda estava paralisado e suado permaneceu debaixo da coberta.


- Já tô indo - disse Caio - o que?! vocês vão ficar aí me olhando?

- E qual o problema? - perguntou a mãe. - Você fez xixi na cama?

- Não! Meu Deus, não. E-eu só qu-quero privacidade!


A mãe olhou para o pai e eles trocaram um sorriso confidencial, nível de piada interna. A mãe, por fim, deu um tapinha na canela coberta de Caio e a esfregou abaixo do joelho do garoto - o gesto estremeceu o corpo inteiro de Caio -, levantando em seguida e saindo do quarto com o pai ao encalço. A piada não tinha acabado ainda, apenas progredido a um nível que ignorava totalmente a presença do filho na casa, rindo, gargalhando, quarto afora. Mas Caio não queria entender o motivo das risadas, faltava pouco para ele se safar; esperou um tempo escutando os risos amorosos dos dois, a fim de saber em qual cômodo estavam, e, quando o acesso ao banheiro pareceu estar longe dos olhares, ele pegou a toalha e disparou para o chuveiro com seu pênis empalando o tecido fino do pijama.


Pouco tempo depois sob o chuveiro, ele escutou seus pais saudando alguém na entrada da casa. Depois, o pai veio junto à porta do banheiro e disse que Sarah havia chegado, e que ele e sua mãe iriam pro trabalho. A voz veio abafada e foi custoso discernir com a água caindo sobre seu crânio, mas, mesmo entendendo só algumas palavras, era óbvio que, ao sair, ele iria se deparar com Sarah - a garota com quem sonhara e prestara vergonhosas homenagens - sozinha em sua casa.


Aquele banho foi o mais demorado da sua vida; lutava em criar coragem para encarar uma menina tão bonita, e também sentia uma pontada de culpa por ter se masturbado à sua imagem. Os dedos enrugados da sua mão, por conta da água quente, gritavam para ele sair de lá, mas apenas quando Sarah o chamou, perguntando se estava tudo bem por detrás da porta, foi que seu corpo entendeu o comando, numa tentativa de disfarçar a timidez que sentia.


- Opa - disse - estou bem sim, já vou sair.

Opa? Sério? Isso é o mais próximo do normal que você consegue chegar?


Quando o chuveiro foi desligado, o coração de Caio palpitou mais forte, e uma tontura o abateu, junto com o preâmbulo de uma dor de cabeça. Caio saiu do box nu e se apoiou na pedra do balcão da pia e lá ficou por um tempo, esperando sua visão voltar aos eixos, seus batimentos cardíacos voltarem ao normal e ter a certeza de que não escorregaria num banheiro fechado, dando o primeiro e grande trabalho para uma babá linda e desconhecida.


Caio ergueu a cabeça e viu um fantasma disforme na superfície embaçada do espelho. Ele passou a mão no espelho como palhetas em parabrisas, e viu uma versão irreconhecida de si mesmo. Seu rosto estava pálido, não em nível alarmante, mas o suficiente para se notar diferença em uma ou duas olhadelas. O seu corpo acompanhava a palidez, mas tinha um aspecto murcho agora, sem volume, mais magro do que o normal. Essa magreza, por sua vez, parecia não ter ligação com gordura ou falta de comida, era uma magreza estranha... uma magreza seca.


A tontura tinha passado - a indisposição ainda estava presente. Caio passou a toalha pela cintura e andou devagar, receoso em levar uma queda no chão molhado, até a porta. Foi quando encostou a mão na maçaneta que percebeu que não poderia sair assim pela casa, molhado e de toalha na cintura - além do mais, seu corpo estava bem esquisito daquele jeito.


Primeiro pestanejou por não ter trazido roupas novas para o banheiro, depois aceitou o fato com um suspiro solitário naquele cômodo com vapores ainda aos ares, como em uma sauna, e pôs a contragosto a cueca melada com aquela gosma seca e transparente que toda hora saía com suas masturbações e seu short e camisa suadas. Passou muito desodorante e meditou por algum tempo antes de abrir aquela porta.


Quando enfim criou coragem para sair, Caio se deparou com seus pais.


- Ué, vocês esqueceram algo? - perguntou, depois de um tempo tentando digerir a situação.

- Como assim? - perguntou o pai.

- Como assim? Você disse que a Sarah tinha chegado - informou Caio, observando os olhares inconclusivos dos pais - sim, sim, eu ouvi a voz da Sarah, de vocês a recebendo e depois você dizendo que iriam para o trabalho.

- Não… não disse nada disso…


Caio pensou bem naquilo, mas não conseguia entender direito; olhava da mãe para o pai - mais para a mãe, buscando um consolo materno -, esperando que explicassem ou que dissessem logo que foi tudo uma brincadeira, talvez parte daqueles risos histéricos dos dois.


- Ela chegou?

- Tudo bem… você está um pouco ansioso - disse a mãe, e quando Caio não alterou o olhar firme de incompreensão, ela respondeu: não, ela não chegou.


O quê? eu escutei ela sendo recebida e depois meus pais abrindo o portão para irem embora então eu fiquei aqui no banho num silêncio total e-e-e ela a Sarah me chamou perguntou se estava tudo bem e eu disse o maldito opa opa como podia ser possível ela não ter chegado??

Caio respirou fundo


Era a voz de Sarah, não era?

Mas como ele sabia que era a voz dela, sendo que nunca a escutou, a não ser nos sonhos, uma construção irreal da sua mente? Simples, porque a única pessoa que ele estava esperando era Sarah, então, por ser uma voz feminina diferente da sua mãe, seria normal achar que realmente era Sarah! Não… não. A voz era exatamente igual em seus sonhos; coincidência ou seu subconsciente tinha acertado na mosca a voz de uma garota a qual nunca escutara falar na vida. Espera, tinha um jeito melhor para confirmar aquilo.


- Vocês ao menos receberam alguém lá na frente?

- Recebemos alguém? - perguntou o pai - do que você está falando, garoto?

- Alguém, alguém… arrgh - a confusão apertou mais e seu corpo se sentiu nauseado. A fraqueza o atingiu em cheio, fazendo ele se apoiar na credenza próxima. Os pais foram de encontro em um reflexo rápido, ajudando Caio a se equilibrar. - Vocês… conversaram… com algum… (as palavras vinham em uma falta de ar constante) vizinho ho-hoje cedo?

- Caio, não conversamos com ninguém hoje cedo - disse a mãe - você está me assustando. Amor, vamos colocá-lo na cama.


Caio não resistiu; aquela resposta foi a mais abatedora que já teve em sua vida. Deixou ser carregado até a cama, onde foi posto com cuidado, recebendo o cobertor sobre o corpo e com olhos ainda vidrados por tudo que tinha acontecido, encarando apenas o teto branco. As ações dos pais foram apenas sentidas no nível mais ínfimo possível; percebeu que a luz do quarto tinha diminuído com o cair das persianas, algum dos pais arrumando os travesseiros, sons resmungados pela preocupação constante deles. Mediram sua temperatura com a mão sobre seu pescoço suado e constataram uma febre. A dor de cabeça estava ficando mais forte agora.


Falaram algo sobre cancelar com Sarah, e que a mãe faltaria o trabalho para ficar com ele hoje, depois mais nada, porque dormiu.


Alguns sonhos se formaram, sonhos falsamente bons. Neles, Caio era forçado a sorrir em situações que talvez seriam divertidas, era um clima que fazia a espontaneidade se submeter à obrigação.


Teve um momento que ele foi acordado pela mãe - esse momento não seria lembrado; ela deu um copo para ele beber um líquido com gosto de remédio, mas logo voltou a fechar os olhos. Sonhou mais uma vez com a Sarah, mas os sonhos vinham como déjà vus, vindo em repetições escandalosas, como se fossem peças de teatros ruins, mas vorazes em receber público, tentando ao máximo prender Caio naquela teia.


Quando Caio ficou lúcido, livre daquela cadeia de sonhos intermináveis - aquele som de rastejo novamente -, o quarto estava sortido de penumbra, mas as pupilas dilatadas de Caio ainda absorviam muita luz, fazendo com que seus olhos se cerrassem para enxergar o arredor. Ondas de calor percorriam o corpo suado dos pés à cabeça. O estômago e bexiga doendo o fazia se esforçar para manter os excrementos dentro de si. A boca seca e o cansaço extremo impedia sua voz de sair alta e grave para clamar à mãe, emanando mais um som rouco de quem perdeu a voz recentemente. Ele tateou o cobertor em busca de algo - sua mente estava bagunçada de muitos jeitos - e então viu um copo d’água e mais alguns bolinhos numa bandeja em cima da cadeira ao lado da cama.


Na hora que esticou um dos braços até o copo, Caio viu as ondulações dinâmicas sob a pele, como se ondas do mar estivesse sendo refletidas no membro; mas não demorou muito para assimilar a realidade daquilo - dessa vez a bosta e o mijo saíram sem resistência -, fazendo Caio lutar para ficar sentado na cama e abanar o braço com o outro numa tentativa de expulsar aqueles seres. Porém, o gesto adiantou apenas para ele perceber que a mesma coisa acontecia em seu outro braço, percepção essa que o encaminhou a uma consciência desgraçada de que aquilo que se mexia em seus braços se mexia também em todo o seu corpo. Era como ter a sensação de formigas de cozinha andando pelo corpo, só que sob à pele.


Caio tentou gritar, mas a voz que saía era um sussurro mórbido; a sensação em sua garganta era como o período inicial de uma gripe forte, arranhava a cada gole de ar e ardia a cada inspiração na noite fresca. A limitação da sua voz, a fraqueza de seu corpo o pressionando contra o colchão macio, a impossibilidade de ser ajudado quando havia essa hipótese, tudo isso o jogava dentro de uma piscina de histeria completa, fazendo-o se debater, arranhar os braços, o pescoço, o couro cabeludo, todas as partes do corpo que pareciam sucumbir perante aqueles vermes.


O primeiro arranhão foi nos braços, depois sentiu o pescoço arder; a ponta de uma unha mal roída do dedo indicador bateu em cheio no branco do olho, ocasionando uma dor que seria lancinante se Caio não tivesse coisas piores para se preocupar. Os cabelos sendo puxados do couro cabeludo saíram em mechas, então as mãos perigosas partiram para a parte da virilha. Os dedos foram melecados com o odor de mijo cor amarelo, um pouco das fezes moles que saíram sem seu consentimento, e machucaram suas bolas e a parte interna de suas coxas como um protesto contra o mal cheiro.


Aquelas coisas não saíam. Caio sentia elas rastejando em seu corpo, dentro de seu corpo, e a ideia de estar se auto mutilando com as unhas ser algo inútil o arremessou para longe das possibilidades de nível máximo de frustração. Então ele lembrou da faca.


Seu corpo caiu na cama, não suportando ficar sentado - seu corpo inteiro formigando. A respiração era uma bomba de ar dentro de seu peito, fazendo-o avançar e recuar em ritmos frenéticos. Ele jurou sentir eles dentro do seu pulmão agora. Sua mão caiu em direção ao copo, derrubando-o (por um momento Caio pensou que o copo fosse fazer barulho o suficiente para alertar a mãe) que caiu no tapete de pelos do quarto, produzindo quase som algum. Então a mão desviou alguns centímetros para baixo, para a divisória entre colchão e a base da cama. Não houve esforço para os dedos encontrarem a textura áspera do cabo vermelho da faca de serra, mas houve para retirá-la lá de baixo.


Quando a faca saiu reluzindo o brilho da noite em sua lâmina - Caio a olhou como um remédio que tudo curava - uma figura feminina, mais uma sombra, entrou pela porta do quarto. Caio disse o nome da mãe, mas nenhuma voz saiu; tendo que esperar a figura se revelar de uma vez por todas. A figura avançou com cautela, mas não uma cautela de receio, uma de formalidade um tanto debochada e infantil. Era Sarah, ou algo que representava sua imagem.


As roupas eram tentadoras, mas Caio não percebeu aquilo. Não era sua mãe ou seu pai, era uma Sarah que duvidava ser real, e sua imagem ali só deixou as coisas mais desesperadoras ainda. Tentou mais uma vez chamar a mãe, depois o pai; nenhuma voz saiu, o silêncio da noite era abatedor, a priori quieto e inocente, mas se parasse para escutar bem, notaria que alguém estava se debatendo, assim como guardas sendo surpreendidos com mata-leões, sacudindo as fardas em luta pela vida.


Sarah sentou ao seu lado. Pareceu tão real; ele sentiu a pressão do peso do seu corpo sobre o colchão, sentiu o calor úmido da sua mão quando esta tocou sua barriga. Por um momento, Caio amoleceu e tudo que conseguia pensar era na vergonha de ver uma garota perfeita quando ele tinha cagado e mijado na cama. Mas Sarah não parecia se importar, ela usou uma mão para imobilizar docilmente a faca de Caio, e a outra enfiou em sua cueca - o odor de mijo subiu pelas narinas do garoto em um bafo quente.


Caio não estava em momento algum para se excitar, mas aquele sorriso, aquele cabelo caindo à frente dos ombros, a luz branca iluminando os fios solitários afora do volume capilar, o toque dela… ah, o toque fazia ele se esquecer de sentir os vermes dentro de si. Caio deixou sua cabeça cair no travesseiro, focando na massagem que recebia, os olhos nunca sendo desviados da figura daquela mulher.


Seu pau já estava duro, e suas pálpebras iam pesando cada vez mais, insistindo para seus olhos irem dormir de novo. E Caio lutou apenas para sentir aquela excitação por mais tempo - sua cabeça delirante pensou na hipótese de algo mais acontecer do que uma simples masturbação. Mas então ele viu.


Finalmente viu.


A criatura não-vista estava num dos cantos vulneráveis à visão preguiçosa de Caio; ela imitava os mesmos movimentos que Sarah fazia: uma mão neutralizava a faca, e a outra, em formato de tubo, se mexia no vazio. Os vermes voltaram a se fazer sentir, e o braço de Caio com a faca dispôs de uma pequena força, mas insuficiente para se desvencilhar do braço de Sarah/criatura. Então tudo que Caio fez foi ceder, desviar o olhar para o teto e observar as cortinas se abaixarem num sono pesado, tão pesado que talvez (sentia) não seria capaz de se levantar uma outra vez.

25 de Outubro de 2019 às 19:09 5 Denunciar Insira 5
Fim

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Olá, eu sou a MiRz do Sistema de Verificação do Inkspired. O Sistema de Verificação atua para ver se as histórias estão dentro das normas do site e ajudar os leitores a encontrar boas histórias no quesito de gramática e ortografia; verificar sua história significa colocá-la entre as melhores nesse aspecto. A verificação não é obrigatória para sua história continuar sendo exibida no site, portanto se não se interessar em obtê-la, basta ignorar essa mensagem e não alterar o seu texto. Caso queria que outras histórias suas sejam verificadas, é só contratar o serviço através do “Serviços de Autopublicação”. Sua história está marcada como “em revisão” pelos seguintes apontamentos retirados do seu texto: 1) Letra minúscula após pontuação. Na frase “[...] será que o sangue é dele? não estou vendo machucados. [...]”, a palavra “não” deve vir em letras maiúsculas por estar vindo depois do ponto de interrogação. 2) Vírgulas. Estão faltando algumas vírgulas antes da conjunção adversativa “mas”, além de frases que são independentes entre si, por exemplo, “[...] Estão dentro de mim mas são tão lindas tão lindas me fazem sonhar sonhos tão ligados arrgh estão dentro de mim! [...]” no lugar de “[...] Estão dentro de mim, mas são tão lindas, tão lindas. Me fazem sonhar sonhos tão ligados, arrgh! Estão dentro de mim! [...]”. Também a problemas desse tipo em “[...] O que? eu escutei ela sendo recebida e depois meus pais abrindo o portão para irem embora então eu fiquei aqui no banho [...]” 3) Acentuação em “o que?”. O “que” da expressão segue a mesma regra do “por quê?”. Quando vier na interrogativa e seguida do acento de interrogação, ele deve vir acentuado. 4) Classificação indicativa. Eu recomendo a mudança da classificação indicativa para “Não recomendável para menores de 18 anos” por conta da última cena, que ficou bem explícita a situação do personagem. Eu citei apenas alguns exemplos presentes no texto, pode ter alguns outros que não foram abordados, por isso recomendo uma revisão mais minuciosa da história caso decida optar por revê-la. Você pode contratar os serviços de um Beta Reader em Serviços de Autopublicação aqui do Inkspired para analisar os erros mais profundos ou se quiser, pode conferir algumas dicas no livro “Esquadrão da Revisão”. Caso você estiver interessado em uma nova verificação, após corrigir os erros, basta comentar aqui, que eu farei uma nova releitura. Não há necessidade de pagar por uma nova prioridade. No mais, a história está muito boa, cheia de mistério e terror, parabéns! Tenha uma boa semana. :)
27 de Outubro de 2019 às 21:53

  • Rodrigo Borges Rodrigo Borges
    Alterei a classificação indicativa, bem como o erro de acentuação em "o que". Muito obrigado por este ultimo apontamento, não tinha conhecimento sobre. Quanto aos demais erros, eu sei que não estão em norma padrão do português, porém, eu prefiro deixar esses pontos intactos, por ser uma expressão de pensamento rápido do personagem, tanto nas vírgulas, quanto na falta de letra maiúscula na iniciação de frase logo após as pontuação ? ! e . . Explicando o porquê de deixar certos aspectos do texto inalterados, mesmo não sendo a regra, ainda posso ter a verificação da história? 27 de Outubro de 2019 às 22:02
  • MiRz Rz MiRz Rz
    Olá Rodrigo! A história foi verificada, vez que os erros apontados estão propositalmente errados. Só uma observação para conhecimento porque não está alterando o sentido da frase, mas alguns lugares estão com problemas de concordância e acentuação, como em "foi ondas" no lugar de "foram ondas"; "coisas sem sentido saiam" em vez de "coisas sem sentido saíam"; "e prometeram que iria ficar de olho" ao invés "e prometeram que iriam ficar de olho". É só uma dica mesmo porque coisas assim às vezes passa na revisão. Novamente, parabéns pela história! Tenha uma boa semana. 28 de Outubro de 2019 às 15:29
  • Rodrigo Borges Rodrigo Borges
    Eitah, muito obrigado mesmo por esses apontamentos, e também pela leitura! 29 de Outubro de 2019 às 05:30
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