Maxwell morre de verdade Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Um olhar diferente ( eu diria ) sobre vida e morte. Sobre como alguém que sempre interpretou a morte, morre de verdade.


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Maxwell morre de verdade







A primeira vez que meu grande amigo faleceu foi em 1993, aos nove anos de idade. Nós estávamos no quintal da casa dele, apenas de calção e calçando chinelos velhos. Havia uma grande árvore plantada por lá naquela época, algo que eu não seria capaz de me lembrar do nome por ser um péssimo amante da natureza, mas sei que ela produzia uma sombra aconchegante e espaçosa.

Eu era o detetive Barry, um sujeito que vivia mal-humorado e que carregava uma pistola na parte das costas. Maxwell costumava ser o Barry no início, mas logo se cansou da ideia de ser o mocinho. Era muito mais divertido ser o vilão ; creio que a sensação de liberdade provocada pela adrenalina o viciou imediatamente. Nada de seguir as regras, agora você às fazia, às ditava. Então o detetive Barry passou a ser interpretado por mim, algo que me desagradou um pouco no início, mas que depois foi ficando mais natural, tanto que já nem discutíamos mais sobre quem faria o papel do detetive birrento.

Naquela ocasião, Maxwell parecia ter se cansado. As brincadeiras de polícia e ladrão já não lhe provocavam a mesma sensação, o mesmo efeito dos anos anteriores. Por vezes era eu quem tinha de sugerir a temática do dia, o nome do episódio da nossa própria série de TV. Nós costumávamos começar a brincar por volta das duas da tarde, sempre após as aulas e depois de Max terminar de arrumar o seu quarto, e eu o meu. Nós passávamos a tarde toda saindo e entrando da casa dele. Eram as pausas das gravações de nossos episódios. Nossa série se chamava CRIMINOSOS & MOCINHOS, um nome sugerido por Max e que não teve nenhuma objeção de minha parte. Hoje vejo que era um péssimo nome, mas naqueles dias soava tão bem e tinha uma magia tão agradável quanto aos títulos da Marvel. E também fora uma ideia de Max ; e eu não gostava de decepcioná-lo, não o meu melhor amigo.

Por isso optei por não questioná-lo quando ele decidiu que naquele verão seria o seu último como um ator de fundo de quintal. Max queria que seu personagem Leny Thompson morresse, após uma intensa troca de tiros com o detetive Barry. A princípio pensei que aquela ideia não era exatamente dele, pois Max era fascinado em NOVA YORK CONTRA O CRIME, e naquela semana uma cena muito semelhante a que ele sugeriu havia acontecido no seriado televisivo. Mas então passei a notar que aquilo não era apenas uma ideia sua, mas sim um desejo. Max não queria mais correr pelo quintal empunhando um revólver feito de madeira, gritando coisas como “ o crime é que manda “ e “ vá se ferrar porco “. Ele estava entediado, talvez até a mais tempo que eu de fato imagine.

Concordei com a ideia do episódio, e em outubro de 93 Maxwell Pereira foi fuzilado pelo detetive Barry debaixo daquela árvore enorme, após ser perseguido por várias quadras que foram representadas por quase dez voltas em torno de sua casa.

O mais interessante nisso tudo, é que Max quis gravar um episódio extra no dia seguinte. Ele queria que o velório e o enterro de Leny Thompson fosse mostrado, e eu disse que tudo bem, mesmo não fazendo a mínima ideia de como faríamos aquilo.

— É fácil, — disse Max, mastigando sua maçã após uma bela mordida. — É só fingir de morto e pronto.




Nós dois crescemos.

Mais ou menos doze anos se passaram até eu ouvir falar em Maxwell Pereira mais uma vez. Nós seguimos rumos diferentes, cidades diferentes, quase não nos falávamos mais. Vez que outra ele me ligava, e em ocasiões diferentes era eu quem telefonava para ele. O papo era rápido, quase como se dois estranhos quisessem apenas saber como um e outro estavam. Após as respostas, um longo silêncio predominava e um instante depois Max me desejava sorte e a ligação era encerrada.

Até onde eu sabia, ele estava morando de aluguel no centro. Estava em busca de seus sonhos, ou algo parecido com isso, afinal, não é sempre em busca de algo que estamos?

Ele dizia que tudo ia bem, que as coisas estavam se ajeitando e que logo eu teria notícias boas a seu respeito. Eu queria ter acreditado em tudo aquilo, mas era difícil apenas escutando a sua voz. Max e eu nunca tivemos uma sensibilidade auditiva invejável, de modo que toda a nossa amizade sempre se baseou no olhar. E apenas ouvi-lo não era suficiente para mim. Eu tinha de vê-lo, olhar para ele me dizendo aquilo. Eu estava estudando para as provas de inverno quando ele me ligou certa noite, eufórico e dizendo estar muito feliz.

— Mas o que está havendo, cara?

A voz do outro lado da linha veio com tudo, quase aos berros.

— Eu consegui! — ele disse. — Caralho, eu sabia que daria certo, César. Sabia que se mudar para cá era o melhor a ser feito. Aqui estão as oportunidades, saca?

— É, eu acho que sim. Mas o que foi que conseguiu, afinal?

— Sabe a série FORENSES?

Mordisquei a caneta por um instante. Eu já não era mais aquele menininho que sabia tudo de séries. Aquilo havia ficado para trás, talvez até mesmo enterrado com Leny Thompson naquele verão de 93. Minha vida girava em torno da faculdade, de livros tão volumosos que doíam as costas quando eram carregados da biblioteca até o meu quitinete. Eu estava focado em ser alguém importante, tão importante quanto o detetive Barry foi em seus anos áureos. Mas sim, com um certo esforço eu fui capaz de me lembrar qual era aquela série que Max estava se referindo.

— E o que tem ela?

— Fui chamado para o elenco, cara! — sua voz saiu gritada, frenética, tão alarmada que tenho certeza que seus olhos estavam saltados. — Isso não é do caralho?

Eu sorri. Por alguns segundos fiquei em silêncio, olhando para o livro aberto em minha frente. Eu não estava enxergando o livro, na verdade. O que via era o rosto de Max com nove anos de idade, fazendo inúmeras caretas de dor quando era atingido pelos tiros do detetive Barry.

Voltei a mim e tornei a sorrir. Estava coçando a nuca quando a voz de Max berrou do outro lado da linha.

— Ei, ainda está aí?

— É, eu estou sim, cara. É que precisei de um tempo para assimilar os fatos, sabe como é.

— Louco, não é? Aposto que lembrou da nossa infância.

— De cada careta de Leny Thompson.

Escutei Max sorrir, e de repente me dei conta de que não conversávamos daquela maneira há muito tempo. Me senti bem. Uma sensação agradável pareceu ter entrado em meu quitinete, assim como acontecia quando o cheiro da macarronada da vizinha de frente entrava pela minha janela e me fazia lembrar de minha avó. Quando me dei conta, já havia se passado quase uma hora e o livro em minha mesa já estava fechado. Ainda jogamos conversa fora por mais algum tempo antes de marcarmos um encontro, na semana seguinte. Eu já estaria livre das provas, e Max prestes a estrear nas telas.

Lhe desejei boa noite e disse que precisava dormir. Max me chamou de velho e depois gargalhou, dizendo que a noite estava apenas começando para ele. Disse ainda que havia uma dúzia de cerveja a sua espera na geladeira, e isto é tudo que sou capaz de lembrar. Depois disso minha mente apagou e eu dormi com o telefone ao lado do travesseiro.



Marcamos na lanchonete da dona Yolanda e Max já estava lá quando eu cheguei. Havia uma garrafa de cerveja aberta em sua mesa, com o copo quase vazio e um sanduíche sendo devorado por ele.

Assim que me viu, levantou e disse meu nome com a boca cheia. Estendeu a mão para mim e eu a apertei, sorrindo. Foi um aperto firme, digno de velhos amigos ou de homens brutos.

— Vamos, senta aí, cara — ele apontava para a cadeira, enquanto já se sentava mais uma vez. — Vai pagar a mesma coisa se ficar de pé.

— Poxa, que horas você chegou?

— Faz uma meia hora. Cerveja? — ele já estava com a garrafa inclinada sobre um copo vazio, mas eu fiz que não com a mão.

— Eu não bebo, — falei.

— Fala sério? Porra, você virou aqueles caras certinhos mesmo, hein?

— Longe disso. Eu só não bebo, só isso.

— Dá no mesmo. Ouça, como vai indo a faculdade?

— Um inferno, — respondi, quando uma jovem loira e baixinha se aproximou com um bloquinho de notas e uma caneta nas mãos.

— Vai querer alguma coisa? — ela perguntou, sorrindo.

Eu disse que poderia me trazer um sanduíche sem tomates, mas com muita maionese e mostarda. A jovem repetia o que eu acabava de dizer enquanto anotava em seu bloquinho. Max mastigava de boca aberta, olhando para o traseiro da moça sem constrangimento algum.

Ela terminou de anotar o meu último pedido ( uma coca de 500ml ) e se virou para Max.

— Quer mais alguma coisa?

— Quero, — falou Max, com o queixo salpicado de maionese. — Mas receio que não vou conseguir.

A jovem sorriu, e depois que Max piscou para ela a moça começou a se afastar na direção do balcão, sendo acompanhada pelos olhos atentos de Max.

— Você não perde tempo, — falei.

— Que gracinha ela. Deve sentar num pau que é uma beleza.

Soltei uma risada quase sem perceber. Ouvir coisas como aquela era algo raro nos meus dias de faculdade. Saída da boca de qualquer um, aquelas palavras soariam grosseiras. Mas ditas por Maxwell Pereira, elas pareciam tão inocentes como se ditas por uma criança que nem sabia o que elas significavam. Ser inocente e inconveniente na mesma frase era algo típico de Max, quase um lema, mas um lema natural, sem ser forçado ou estipulado. Ele bebeu mais um gole da cerveja, secou o copo e depois inclinou a garrafa sobre ele.

— Você está namorando, César?

— Oh, não. Não tenho tempo... quer dizer, a faculdade me ocupa com tudo.

— Mas você trepa de vez em quando, não é?

— Ah, isso sim — falei, ciente de que já não trepava há quase dois meses. E isso já não tinha nada a ver com as aulas. Eu simplesmente não levava jeito com as garotas, e elas por sua vez não levavam comigo. Então em comum acordo cada um preferia dormir sozinho — embora eu duvidasse que elas iam para cama sozinhas, isso era uma exclusividade minha no acordo.

Procurei a jovem garçonete e não a encontrei. Já estava começando a sentir fome, olhei para Max e disse :

— Mas e você, casou ou está namorando?

— Assim como você, não tenho tido muito tempo. E assim como você, também trepo de vez em quando.

— E a série, cara? Quando começa?

Os olhos de Max brilharam. Finalmente disse algo que ele estava esperando ouvir.

— Daqui duas semanas começo a gravar. Dá pra acreditar? FORENSES, cara! Eu vou gravar com os caras.

— Show. E vai interpretar quem por lá? Um detetive durão ou um criminoso ao estilo Leny Thompson?

Max sorriu, terminou de mastigar e então exibiu um sorriso ainda maior.

— Um cadáver, — ele disse. — Vou fazer um cara morto no início da nova temporada.




Nós assistimos a estreia da série juntos, em meu quitinete. Max estava esparramado no sofá, com uma latinha de refrigerante numa das mãos. Eu não tinha bebidas alcoólicas em meu quarto, e ele entendeu e respeitou aquilo. Embora tenha feito inúmeras piadas a respeito.

Eu estava na poltrona ao lado, com os olhos atentos na televisão e ouvindo cada explicação que Max era capaz de me dar. Quando um ator chamado Gláucio Barros surgiu na tela usando um terno azul e segurando uma garota que interpretava uma prostituta pelo antebraço, Max apontou para a tela imediatamente.

— Esse cara é um pé no saco, — falou. — As cenas são repetidas a exaustão por culpa dele.

— Ele faz um policial?

— É.

— Até o meu detetive Barry era melhor.

Max gargalhou e ergueu a latinha de refrigerante como se brindasse ao que eu havia acabado de dizer.

— Pode crer.

O seriado se arrastou por mais quarenta minutos ( com cenas que se mesclavam entre o empolgante e o tedioso ) e eu estava de pé vasculhando na geladeira quando escutei Max gritar e apontar. Imediatamente me virei na direção da TV.

— É agora! Eu vou aparecer assim que os policiais entrarem no quarto do hotel.

Fui até a poltrona e me sentei. Estava tão ansioso quanto Max, com as mãos esfregando uma na outra entre os joelhos. Eu já iria começar a dizer alguma coisa quando a porta daquele quarto finalmente se abriu.

Havia todo o clima de suspense, com a porta se abrindo devagar e rangendo, a mão do policial em close fechada sobre a maçaneta. Aos poucos a imagem foi ganhando forma, e o interior do quarto deixando de ser um segundo plano para o plano principal.

A cena seguiu assim por mais alguns segundos, até que o foco voltou para a dupla de policiais. Eles estavam ladeados, um deles cobrindo o nariz com um lenço.

— Deus, o que houve aqui? — um deles perguntou. Quem respondeu foi o ator pé no saco, que começou a andar na direção do que deveria ser um corpo.

— O que houve não sei, mas foi feio.

A câmera o acompanhou até ele se agachar diante de um homem de cuecas. Em seguida, o plano se abriu e o rosto de Max surgiu na tela. Em meu sofá, Max gritou, sorriu e apontou.

Na televisão, o corpo dele estava com um rombo no peito. Um dos olhos tinha uma cor roxa, bastante escura. Aquele sujeito havia levado uma surra, sido torturado antes de levar um balaço. Um lençol com manchas de sangue se enroscava em uma de suas pernas, e seringas estavam espalhadas pelo chão em volta do corpo.

— Cara, o que você aprontou? — perguntei.

— Se eu falar vou estragar o final. Então cala a boca e assiste.

— Nossa, a maquiagem está ótima.

— Quase seis horas sentado diante de um espelho só pra fazer o buraco do tiro. Tinha dois caras me maquiando ao mesmo tempo. Uma loucura.

— Ficou incrível.

O episódio durou mais uns quinze minutos, e no final o personagem de Max havia sido espancado e morto por um traficante rival, algo que já estava bem claro para mim mas que preferi não mencionar. Talvez para que Max não achasse que eu estivesse bancando o sabichão, querendo ofuscar o episódio que marcou a sua estreia na televisão. Duvido muito que ele pensaria algo assim, mas foi algo que passou pela minha cabeça naquela noite.

Nós continuamos conversando por mais algumas horas após o fim do seriado, entramos a madrugada colocando o papo em dia enquanto eu preparava alguma coisa para que pudéssemos comer. Max sorriu e se divertiu, contando por mais de uma vez como havia sido entediante ficar sentado enquanto era maquiado. Só que ele dizia aquilo tudo com um brilho especial nos olhos, algo que eu lembrava de ter visto apenas quando éramos crianças correndo com armas de madeira nas mãos.

Max estava em seu mundo, um lugar onde poderia morrer quantas vezes quisesse, de todas as formas possíveis. E era isso que ele queria para a sua vida. Queria brincar de morrer. Queria que as pessoas olhassem para ele na televisão e sentissem arrepios, que se preocupassem com seu real estado de saúde tamanha a perfeição de sua maquiagem. Achava que poderia viver bem com aquilo. Então se especializou ainda mais em teledramaturgia, estudou e frequentou cursos teatrais, gravou mais incontáveis participações em seriados e novelas onde sempre aparecia em tela como um cadáver.

Isso durou por mais alguns anos, com Max sempre contabilizando a sua própria morte nas redes sociais e se divertindo com o número que só aumentava. Ele também adquiriu fãs por suas mórbidas atuações, e sempre que entrava em algum papel que vivia por mais de um capítulo, as pessoas enchiam a sua caixa de e-mails com mensagens do tipo “ logo você vai morrer “ ou “ Maxwell Pereira vivo por mais um dia? Não posso crer “.

Max não se tornou um ator renomado, não quero que vejam o meu amigo dessa forma, ou que pensem que estou dando a ele muito mais do que ele foi. Suas atuações quase sempre não eram lembradas, e seu ponto forte era mesmo se fingir de morto. Ele sabia muito bem disso, e até gostava e fazia piada de si mesmo. Desde criança ele quis fazer isso. Desde quando sugeriu que Leny Thompson deveria ser morto e que teria de haver um capítulo extra apenas com o seu enterro.

— É só fingir de morto e pronto — ele me disse naquele verão. E ele fingiu e tudo deu certo.

Ao menos até a morte de número 124.




Maxwell Pereira morreu 124 vezes na televisão. Ao menos é o que diz o seu contador nas redes sociais. Há um número grande estampado lá, abaixo da frase VEZES QUE JÁ MORRI escrita em negrito.

A página ainda existe, embora Max não mais. No ano passado, nós pouco conversamos. Max andava ocupado com os seus projetos, e eu passando horas e mais horas enfiado em salas de aula não como aluno, mas como professor.

Dá última vez que falamos, sua voz não era mais a mesma. Eu estava ao telefone na minha sala de estar, enquanto Jane brincava com Késia no quintal. Jane é minha primeira e atual esposa, e pra quem pensar que demorei muito para apresentá-la aqui, saiba que já o fiz há um certo tempo. Quem você acha que era a garçonete naquela ocasião?

Enfim, a voz de Max me parecia distante, quase como se estivesse me telefonando do além. Eu perguntei se estava tudo bem, e ele me disse que não. Mentir não era o seu ponto forte, de modo que assumiu logo de cara que sua vida andava estranha.

— Em que sentido?

— Justamente em não ter sentido, — ele me disse. — Foi a mesma coisa naquele verão, cara.

— O de 93?

— Isso. Eu não matei Leny Thompson porque estava cansado de brincar. Matei porque queria brincar de morto. Queria ser o morto.

— E você é, não é? Quer dizer, você faz isso há anos, cara. Tem até uma contagem sua para os fãs na internet.

— Como em 93, estou querendo parar, — disse Max, parecendo não me escutar. — E não porque cansei de brincar. Mas porque quero ser o morto.

E isso foi a última coisa que meu amigo disse para mim.




No velório dele, não havia muita gente. Apenas umas vinte pessoas, pelo que pude perceber. A maioria ( ou todas elas ) eram de alguma equipe que Max havia trabalhado, ou de algum canal por onde tenha passado. Ninguém parecia de fato chorar, nem mesmo carregavam alguma expressão triste no rosto. Eles apenas passavam diante do caixão, olhavam para o corpo dele e simplesmente seguiam em frente. Era quase como participar de uma de suas cenas. Max talvez estivesse vivo, e aquilo na verdade seria uma grande atuação em massa. Só que até em suas cenas, havia comoção. Ali, as pessoas apenas olhavam para a morte real, sem emoção, como se Max fosse se levantar de um minuto para o outro após o diretor gritar CORTA!!

Mas elas sabiam que isso não aconteceria, estavam cientes que o homem diante delas não estava fingindo, que de fato a perícia o havia encontrado no banheiro com a cinta de suas calças enrolada no pescoço. Mesmo assim, ninguém parecia se importar. Não de verdade.

Jane estava ao meu lado, com Késia no colo. A mão dela não largava da minha, e o silêncio conseguia ser mais respeitoso do que qualquer pessoa que espiava para dentro daquele caixão. Eu não conseguia entender o que levava alguém a tirar a própria vida, e creio que ainda não entenda.

Nós brincávamos de coisas assim na infância, e até mesmo depois de adulto Max seguiu brincando. E ele parecia feliz, e eu ficava feliz por ele. Apesar de não concordar e não aceitar o que ele fez, sinto que talvez tenha sido a coisa certa para Max.

Queria apenas que ele desejasse brincar de estar vivo.


22 de Outubro de 2019 às 02:14 4 Denunciar Insira 6
Fim

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MiRz Rz MiRz Rz
Olá! Eu sou a MiRz. Estou passando para dar um recadinho de parabenização pela Verificação da sua história! Conforme eu ia lendo seu texto, mais eu ia me encantando por tudo que me era apresentado. A personalidade dos personagens, a ingenuidade da infância, a imaginação de uma criança, como eles amadureceram no decorrer da história. Uma parte que me chamou muito a atenção porque me identifiquei bastante foi quando o César, depois de adulto, deu risada do nome da série de TV que eles inventaram na infância, afinal, quem nunca relembrou de alguma coisa que achava incrível na infância e na idade adulta pensa consigo: “como eu achei que aquilo era uma coisa legal?”. A história foi muito bem escrita, com um drama retratado de uma maneira bem diferente, foi muito bem pensado mesmo, principalmente ao final. Eu apenas sugiro uma mudança na classificação indicativa do conto, para ser “não recomendável para menores de 13 anos” por conta do linguajar dos dois personagens e talvez uma tag para suicídio por conta do gatilho, mas fora isso a história está realmente ótima, parabéns!
Morghanah . Morghanah .
Wow, adorei tudo o que li e não esperava. Vim graças a uma indicação de uma amiga importante para mim e que tem um excelente senso crítico, e sim, ela estava certa. Valeu a pena ler cada uma de suas palavras, as devorar e trazer consigo junto ao peito, mas sabe o que é o mais engraçado nisso tudo? Me identificar com o Max e seu desejo de morrer. Acho que desde muito novo ele, lá em outubro de 93 aos 9 anos, ele desejava isso, sumir, desaparecer. Morrer, algo que buscou em cada um de seus papéis a medida que os interpretava até ter coragem de dar fim ao que parecia tanto almejava: ele próprio. Até porque não são todos que gostam de brincar de viver. Olha, meu parabéns por sua história, eu gostei dela demais, muito mesmo. Até mais ( ˘ ³˘)♥
Rodrigo Borges Rodrigo Borges
Meus parabéns. Fiquei interessado pela história sem mesmo ler a sinopse, levei adiante mesmo tendo que acordar cedo no dia seguinte. Bom trabalho!!
21 de Outubro de 2019 às 22:35
Billy Who Billy Who
Maravilhoso. O tipo de leitura que você começa a ler com interesse na sinopse e devora cada frase se sentindo empolgar. Os personagens são vivos, as cenas bem feitas com esse mesclar inocente do passado com o tragi-comico da atuação do Max como cadáver. Eu amei cada linha, é o tipo de leitura que arrebata, e a última frase é a cereja do bolo. Meus parabéns.
21 de Outubro de 2019 às 21:55
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