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amanda-jandrey8085 Amanda Jandrey

Sempre houve uma romantização do fim do mundo. Os filmes, os livros, os quadrinhos... era mais fácil imaginar um fim do mundo com um grupo de salvadores ou um The Walking Dead com um pouco mais de emoção. Independente do que um dos livros da Bíblia dizia sobre o mal na Terra, há um certo consenso sobre o que é, de fato, o fim do mundo. Os destroços são apenas destroços, mesmo para uma sociedade que tenta se reerguer. Das cinzas, nem sempre ressurge uma fênix. As cinzas das chamas do Inferno guardam outras coisas inomináveis, às quais nenhum Winchester tem certeza se pode lidar.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 18 apenas.

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Capítulo 1


I'm a product of my anger - Seether

O mundo acabou. Seres humanos em todas as partes do mundo asseguraram-se disso com ganância e obsessão. Hoje, o que nos restou foi um céu laranja, estremecido nas pontas como se fosse pequenos focos de fumaça, onde o sol nasce ligeiramente bêbado e põe-se totalmente dopado. Na varanda, eu podia ver como era estranho estar numa comunidade que não se sentia uma comunidade. Muros tinham sido erguidos como proteção enquanto homens e mulheres caminhavam de um lado para outro como se tivessem coisas importantes a fazer. Ninguém podia fazer nada a não ser esperar e morrer. Sob minha cabeça, o céu ainda estava escuro em um dos cantos, como costumava ficar enquanto eu esperava o Bobby voltar. Ele, e os outros, iam para o lado de fora, para além dos limites dos muros, buscar por alguma coisa que pudesse estar lá, que nos esperasse.

Eu nunca ia, por nenhuma razão em particular, como se eu só não fosse boa o bastante para fazer aquilo. Na última ida, Sam tinha me trago um livro. “As últimas Horas”, uma fantasia que eu não tinha começado a ler porque eu não conseguiria lidar com mais um mundo despedaçado. Ergui-me, descendo os degraus e enrolando-me no casaco, vendo duas garotas seguirem com os baldes na direção do poço. Elas nem me olharam, mas eu fingi que isso não me incomodava.

Todos eles tinham medo de mim.

Dois homens rolaram pelo gramado da casa 22, brigando por causa de um jogo de pôquer. Apertei os lábios e virei para encarar o asfalto em pedaços que levava, ao longe, ao portão. Eles tinham medo de mim e estava tudo bem, de alguma forma eu aprendi a ignorar a sensação de solidão, tornei-a uma parte da minha personalidade porque tinha sido só o que me restara.

— Você levantou cedo — disse Bobby, parando ao meu lado. —, como sempre.

Dei de ombros.

— Não consegui dormir muito bem.

— Algum novo pesadelo sobre o qual queira conversar?

Como eu poderia lhe dizer que na noite passada sonhei que arrancava-lhe as tripas fora e me tornava um dos Outros?

— Nada demais. A mesma coisa de sempre, escuridão, morte, o usual. —Suspirei. — Coisas que eu não consigo explicar e que ficam na minha cabeça.

Ele ergueu a mão, apertando meu ombro.

—Pode conversar comigo sobre qualquer coisa, sabe disso, não sabe?

— Eu sei. —Sorri, mas parece uma mentira. — Por que está de pé tão cedo?

— As fossas — Ergueu um balde, ajeitando o boné. — Castiel e eu precisamos dar um jeito nelas. Estão entupindo e o deságue não comporta mais.

Apertei os lábios, lembrando dos montes de livros que John trazia para eu ler.

—Podemos usar como composto para alimentar os animais. É muito arriscado colocar nas hortas por causa das doenças, mas se decomposto, pode servir para o trigo e o milho.

Ele sorriu.

—Sugira isso ao John de modo que não pareça loucura e talvez, em um, dois ou sete anos, possamos fazer isso.

—Isso é desperdício. O mundo não está mais a nossa disposição, caso não tenham percebido.

— Se você continuar com seu afinco em fazer os outros entenderem seu ponto, talvez consigamos algo.

Revirei os olhos, olhando as luzes acenderem na cozinha. Ellen devia estar de pé e isso indicava um bom café da manhã e Joanna Beth, irritadíssima pela demora do namorado. John Winchester tem dois filhos. Sam, o cara legal e amigável, e Dean, o bonito e arrogante. Sam é tão bonito quanto ele,só que com mais qualidades. Dean é o cara do trabalho sujo, que normalmente transforma a sua vida em um inferno até que você faça o que tem de fazer. Ele e Sam mantiveram-me sob sua proteção desde que John me achou, o que não foi ruim. O mundo acabou e a civilidade se foi com ele. Ou mulheres são fortes, ou são estupradas. John procura impor todo o respeito possível com relação à isso, mas a escuridão da noite abriga muito mais que os Outros. Os monstros vivem aqui dentro também.

É o que mais me deixa puta.

Subi os degraus, pegando o livro e empurrando a porta, vendo Ellen andando pela cozinha em um roupão colorido enquanto fazia café. Sentei à bancada, soltando um resmungo de bom dia enquanto ela se virava. Ela tinha olhos bondosos, era amarga por causa da vida, mas nunca me tratara mal, ou com medo. Nem nojo. Exigia respeito em troca de respeito.

— Você ainda deveria estar dormindo — resmungou.

Franzi os lábios.

— Não tive uma boa noite. — Engoli a saliva presa na garganta e puxei os guardanapos de pano. — Você… precisa que eu busque algo?, que faça algo?

Ela sorriu.

— Não agora, mas quero que vá com Ruby ao Jardim de Cima e me traga algumas flores. Essa casa precisa de alguma felicidade. Já basta o mau humor de Joanna Beth.

— Eles voltam hoje. Vai passar.

Ela arqueou a sobrancelha e se inclinou pela bancada enquanto a chaleira chiava.

— Eu sei que isso soa trair meu próprio sangue, mas eu tenho duas filhas agora e eu preciso dar suporte a ambas. — Ela esperou que eu a encarasse. — E apesar de parecer intromissão…

— Pare com isso. Não vai levar a lugar nenhum.

— Nenhuma vez? Nenhuma pista?

Sorri.

— Não. Eu não faço o tipo.

Ela riu, como se soubesse um segredo só dela.



O sol estava se pondo quando eles chegaram. Dean saltou do ônibus primeiro, abraçando Jô no caminho. Então Sam desceu, ajeitando a mochila no ombros e sorrindo para mim. Pouco depois, Ruby desceu os degraus da varanda e caminhou na direção dele. Ela estava grávida, o que era insano por Ruby sem quem tinha sido na outra vida. John foi o último, depois de mais alguns caras. Ficou parado perto da porta, verificando uma lista. Ele ergueu o rosto, olhou em volta com uma ponta de preocupação e deixou o olhar recair sobre mim. Então sorriu, com alívio, e caminhou até mim. Passou a mão sobre meu cabelo e sentou-se, deixando a mala entre as pernas.

— Você sempre parece a mesma, preocupada e ranzinza.

Revirei os olhos.

— Eu sou bastante otimista. E muito bem humorada.

— Como foi sua semana?

— Um pouco longa. Mas o Bobby… facilitou as coisas.

Ele sorriu, apertando meu ombro.

— Vamos assar algo hoje. Pra comemorar e — Fez uma pausa. — contar as coisas. Algumas decisões.

— Tá… eu…? Eu ajudo a Ellen com tudo.

Ele assentiu, mantendo o olhar solene no meu, como se esperasse por algo, uma prova.

— Como foi aqui, sem nós?

Apertei os lábios, sorrindo amargamente.

— Normal.



Quando me sentei à mesa de jantar com eles, me senti como Jack, em Um Estranho no Ninho. Havia carne e legumes, algumas batatas e um molho que Ellen fazia com água e tomates. O cheiro era maravilhoso e o barulho deles, reconfortante. Dean estava à bancada com Jô, Sam e Ruby bloqueavam o corredor. Bobby parecia perdido em alguma coisa lá fora, mas John não. Ele estava focado, concentrado em observar-me. Remexi no prato, mas sem vontade de comer. Eu pegara no sono mais cedo, exposta a pesadelos que pareciam reais demais.

— Pode comer — disse John, inclinando-se pela mesa e servindo-me sidra. —, trouxemos o suficiente da Segunda Vila.

— Tudo bem.

Um sorriso agradável brotou de seus lábios, pegando o próprio copo.

— Dormiu bem?

Não, pensei em responder, eu não tenho dormido bem há meses.

— Sim.

— Sam deixou os livros que trouxemos para você em seu quarto, você os achou?

— Sim, obrigada por eles. — Engoli. — Ainda não os tinha lido.

Ele sorriu, mais magro e mais submerso em seus pensamentos. Bebeu da sidra, conversando com Ellen ou Bobby às vezes. Deixei grande parte da comida no prato, algo nada incomum, mas também incorreto. Remexi as batatas, mas pareceu que aquilo não ia descer. Ergui os olhos para o corredor, a tempo de ver a sombra passar e desaparecer. Pisquei, tentei rever, mas nada aconteceu. Eu estava enlouquecendo. Alguns dos livros sobre o sono alertavam sobre os problemas psicológicos que noites mal dormidas causavam.

— Eu quero que você vá à biblioteca amanhã, bem cedo. Preciso falar com você.

Parei de comer. Ergui o rosto para encará-lo enquanto eu sentia Ellen ficar tensa.

— Eu vou?

— Vamos discutir isso.

Suguei o ar com força e enfiei outra garfada na boca.

— Tudo bem. — respondi. Apertei os lábios e empurrei o prato, deixando-o na pia enquanto subia as escadas de volta ao quarto.

Fiquei deitada na cama, encarando o teto no escuro, com medo de dormir e ter novos pesadelos.


...


Ainda estava escuro. Enquanto caminhava para a biblioteca, o sol nascia devagarinho, sorrateiramente entre as nuvens pesadas de chuva. Parei no meio da rua, vendo dois homens armados andando na minha direção. Eu sabia que devia ter pedido para alguém me levar, mas eu queria um momento sozinha, longe daquele quarto, ou da casa. Apressei o passo, cortando caminho pelo pátio de duas casas. Parei na entrada da biblioteca, olhando as portas de vidro fechadas. Virei, vendo a rua deserta e úmida, sentando-me nos degraus. Bati os joelhos um no outro, sentindo um ligeiro frio na barriga.

Os dois homens viraram pouco antes do sinal que pisca, rindo alto. Apertei os lábios e baixei o rosto, puxando o capuz sobre a cabeça. Se eu tivesse sorte o bastante, eles iam passar por mim e achar que eu era um cara. Bati os joelhos uma ou duas vezes, nervosa, sentindo a ansiedade de estar em risco. Ergui o rosto quando o primeiro deles apontou na minha direção. Então Dean sentou-se ao meu lado, com os lábios franzidos.

— Eu lembro, especificamente, do pai dizendo que isso deveria ser o que você não faria.

Mordi o lábio, dando e ombros.

— Eu… queria andar.

— Peça a alguém para andar com você —Ele sorriu. — Sam e eu voltamos. Não nos importaríamos.

Enfiei as mãos nos bolsos e baixei o capuz, assentindo.

— Eu sinto muito.

— Você tem sorte de eu ser o seu anjo da guarda.

Revirei os olhos, batendo os joelhos.

— Você e Jô provavelmente estavam transando em algum beco por ai.

— Sorte sua, não é mesmo? — Ele acenou aos dois homens quando passaram e bateu o ombro no meu. — Você me ignorou desde que cheguei. O que houve enquanto eu estive fora? Seu amor por mim acabou?

Era uma pergunta bastante capciosa, com uma resposta ainda mais perturbadora. Se eu não fosse cuidadosa o suficiente, eu teria problemas com Jô.

— Você tem outras coisas a fazer. Não somos mais crianças.

— Alguma vez já fomos, Tonks?

Sorri, indicando a rua vazia.

— Como foi? Ficar longe daqui?

— Nada reconfortante, mas avançamos um pouco. Ainda precisamos limpar melhor o perímetro se quisermos expandir o muro, mas a cidade parece um lugar menos assustador.

Então por que eu ainda tenho medo?

— O que você tem? — perguntou ele outra vez.

— Tive… alguns pesadelos… — Baixei o rosto e apertei as mãos uma na outra. O anel no indicador parecia quase arrancar minha pele, destacando-se das juntas brancas. — Alguns nada bons.

— Você quer falar sobre isso?

— Não. — Os olhos dele ainda eram solenes, como no passado. — Não sei o quanto isso vai ajudar.

Ele sorriu.

— Você pode tentar. Sou eu, o Dean. Sam e eu estamos aqui sempre que você precisar.

— Não, não estão. — Apertei os lábios e abracei-me. — Você e Sam tem vidas. Não somos mais adolescentes, não temos mais as noites como tínhamos ou a certeza de que vamos salvar o mundo. Cada um de nós fez escolhas diferentes.

Ele abriu a boca para retrucar, mas deteve-se. Ele não podia negar isso, sabia que era verdade. Uns poucos raios de sol encontraram o asfalto úmido, levantando uma breve fumaça branca.

— Já é dia. Você devia ir pra casa.

— Vou esperar o pai com você — disse. — Não é bom você ficar sozinha.

Eu o encarei.

— Eu estou sempre sozinha, Dean.

Ele não respondeu.



Henrickssen Mason é uma pessoa misteriosa, um homem cujo semblante eu não consigo ler. Ele me apavora, como se ele soubesse quem eu sou, ou o que eu sou. Um segredinho sórdido por debaixo do terno que ele usa. Estava sentado diante de mim, balançando a perna cruzada enquanto eu continuava com as mãos nos bolsos, encarando as botas.

— John deve estar chegando.

— Sim, deve sim — Eu não queria conversar com ele, mesmo se fosse político.

O relógio de corda tiquetaqueava o tempo todo, como um presságio. Ele trocou a perna, cruzando-a sobre a outra e bateu de leve com os dedos sobre o braço da poltrona.

— Eu soube que você foi escolhida para seguir com a caravana até o outro lado da muralha. — Ele me observou. — Deve ser amedrontador.

Baixei os olhos para as pontas das botas.

— Talvez um pouco.

— Você se considera preparada para… digamos, matar alguém lá? Ser você ou eles?

Umedeci os lábios, sustentando o olhar gelado dele.

— Aqui dentro é praticamente um eu ou eles. Não é tão fácil ser mulher aqui, especificamente.

— Justo. Os homens acham eu voltamos a um tempo em que mulheres são novamente uma propriedade. Tentamos controlá-los, mas não é tão fácil, sabe…

— Se as punições fossem mesmo eficazes, seria. — Arrependi-me de começar. John já tinha me dito sobre minhas opiniões controversas. — Talvez, é claro.

— Qual sua opinião sobre as punições, Tonks? Eu adoraria ouvir.

Não, ele adoraria. Ele quer algo sobre o que debater no Conselho. Ele vai levar isso à cabo, indicando que John criou uma delinquente e eu, sendo a aberração, serei morta em praça pública por incitação ao ódio e violência.

— Apenas… ser mais incisivo. Enfatizar que não somos uma coisa a ser usada, só isso.

— Entendo sua frustração, mas nós realmente tentamos recriar um pouco da civilização de antes.

Assenti.

— Eu sei. — Olhei outra vez o relógio, sentindo meu peito apertar com a demora. — Eu não devia fazer esse tipo de comentário, eu sinto muito.

A porta irrompeu nesse instante e John passou por ela com a cara emburrada. Olhou para Mason com um aceno e deu um sorrisinho.

— Esses caras não sabem construir a porra de um armazém sozinhos.

— Não foram instruídos para isso. —Mason reclinou-se na poltrona e gesticulou na minha direção. — Sua menina e eu estávamos lhe esperando.

— Sim. Tonks — Ele beijou o topo de minha cabeça e sentou-se perto de Mason. — Eu tenho eu te dizer que o armazém vai levar pelo menos um mês, se eu não estiver aqui para coordenar.

Mason apertou os lábios.

— Me deixe a par de tudo que eu ficarei por lá. Preciso de você buscando providências. Não posso confiar mandar garotos sem sua supervisão.

— Claro. Antes de sair explico tudo a você.

— Ótimo. Deixarei vocês conversarem — Ergueu-se, jogando o terno para trás. — Preciso visitar a Segunda Vila. Algumas reclamações de barulho e algumas outras coisas a serem resolvidas. Mas devo voltar hoje ainda, não vá antes de falar comigo.

— Com certeza — John virou-se para mim e escorou os cotovelos nas pernas. — Dean disse que você andou sozinha por ai.

— Foi um erro. — Apertei as mãos. — Eu achei que a ronda deles já tinha acabado, não me dei conta da hora.

— Precisa tomar cuidado com isso. Aqui já não é agradável e lá é pior ainda. Se você vai junto, apesar dos protestos esbravecidos de Ellen, eu preciso saber que posso confiar que você vai seguir as regras.

Assenti, encarando seus olhos solenemente.

— Vou sim. Não precisa se preocupar com isso.

— Certo. Tem algumas regras, vamos explicar pra você durante o caminho. O mais importante é que você fique sempre conosco. Eu, Dean, Sam… — Fez uma pausa. — Bobby e Cass também querem ir.

Revirei os olhos, recostando-me na cadeira.

— Vão levar a comitiva de proteção toda. — Franzi os lábios. — Como se eu fosse incapaz de lidar com isso.

— Queremos protegê-la.

— Do quê? O que tem lá fora me esperando que todo mundo fica tão amedrontado em me manter sob vigilância constante? Eu sou só mais uma pessoa que sobreviveu a isso. Não tem nada de especial em mim não.

John se ergueu para acocorar-se diante de mim. Ele tinha envelhecido, mas ainda era bonito. Podia ser um pouco amedrontador quando bebia, mas estava sóbrio. E era uma das pessoas nas quais eu podia confiar.

— Não queremos que você sofra com aquilo. Dean me falou dos pesadelos. Quero que saiba que quando se sentir pronta e segura, venha conversar comigo. Eu não adotei você porque precisava, eu me importo com você.

— Eu sei. — sibilei.

— Então arrume suas coisas. Vamos partir esta madrugada.



Ruby e Ellen choraram. Jô não desceu, mas eu entendi que ela não gostava de mim o suficiente. Recebi um sermão sobre voltar viva e Ruby me entregou uma blusa de lã dela como um amuleto de volta. Abracei-a com força, pensando na familiaridade que ela trazia.

— Você tem o dever de voltar.

— Tem um monte de gente que se voluntariou só pra eu voltar viva. — ri. — Não tem chances de eu morrer.

Ela apertou os lábios em apreensão e então me abraçou com força outra vez.

— Te vejo em alguns dias.

Eu esperava que sim, mas as coisas são bastante incertas aqui. Sentei sozinha no fundo do ônibus. John dirigiu. Sam e Dean estavam demarcando a rota e Bobby tinha dormido. Eu não devia ir ao escuro, eu não devia andar sozinha, eu não devia dar atenção aos sons. Sempre seguir a rota era a escolha ideal para voltar vivo ao fim do dia. Olhando de fora, como uma pessoa que não consegue se mixar às demais, eu não entendia por que eles se preocupavam tanto. Bobby tinha medo que eu fosse e Cass se voluntariou porque achava que precisava me proteger. Do quê, especificamente, eu deveria ter medo?

O ônibus deu um solavanco e Dean ergueu o rosto, olhando para frente. Enfiei os fones do Ipod no ouvido e olhei pela janela, vendo a grande muralha. A Muralha da China, diziam, era quase como aquela. Mas enquanto ela separara vivos, esta separava-nos dos mortos. Até onde eu sei, eles não estão exatamente mortos. Eles são outra coisa, mais obscura do que a humanidade. Estão travestidos de humanos, mas por dentro são monstros, advindos das profundezas do Inferno, junto com seu Rei.

O Rei deles era Crowley, um homem atarracado e vaidoso, cuja única função no mundo era continuar perseguindo os vivos.

A mudança brusca de cenário fez meu coração dar um salto. A mulher na frente, Jennifer, soltou um assovio e vi Cass e Sam pegarem as armas. Franzi o cenho, puxando a mochila mais para perto e vendo o ônibus reduzir consideravelmente sua velocidade. Dean ergueu o rosto e procurou por algo até pousar os olhos em mim. Piscou, sorrindo gentilmente. Ruborizei instantaneamente e baixei os olhos para as botas. Apertei os lábios e avistei, pelo vidro sujo da janela, alguém correndo.

— Abatam-no! — disse John, mantendo o ônibus no asfalto esburacado.

Dean enfiou o revólver no cós do jeans e caminhou devagar até o fundo do ônibus. Sentou-se no banco ao lado e virou-se para mim.

— Trouxe algo pra ti. — Olhei-o, engolindo em seco enquanto ele desenrolava uma Colt antiga, com o tambor enferrujado. — Ela é um pouco velha, mas funciona muito bem.

— John sugeriu que eu não usasse armas.

Ele franziu os lábios, encarando a arma.

— Cá entre nós, talvez precisemos de você. — Ergueu os olhos. — Bobby disse que você é boa. E rápida, mais rápida que eu. Eu duvido um pouco disso, mas vamos precisar ver quem vai continuar mandando por aqui.

Ri baixinho.

— Com todo mundo que veio só pra que eu não morresse, duvido que eu possa, de fato, mandar em algo.

— Queremos você viva.

— Por quê?

Ele não disse nada, apenas riu.

19 de Outubro de 2019 às 03:22 0 Denunciar Insira 0
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