Benevolentes#02 (Série: Quando as Luzes se Apagam) Seguir história

lebloncarter Leblon Carter

Se adaptando cada vez mais a vida do cinema e de ser um membro do clube dos jovens escritores, Simas precisa lidar com a colisão desses dois mundos e focar em suas metas e planos. Principalmente quando seu relacionamento com Cedric avança de uma forma que ambos nunca imaginariam. Enquanto trabalha com Neon na finalização de seu livro para concorrer ao concurso de pequenos escritores de Nova Iorque, Simas procura formas de reverter a forma como a literatura brasileira é vista. Entretanto, ao conhecer Miranda, fundadora da nova editora de romances eróticos de São Paulo "Pecado", ele percebe que nem todos pretendem colaborar com seus objetivos. E, para fraturar ainda mais suas expectativas, a equipe de Simas enfrenta a intervenção inesperada dos Primes: funcionários da alta elite do Cinema, após a nota efetuada pela vigilância sanitária sair abaixo da média. Ao lado de Joice, Leticia, Karina, Gabriela, Kaique e Rafaga, os funcionários padrões precisarão encontrar uma forma de impedir que Thomas, líder dos Primes, envie um relatório negativo para a supervisora da regional. Caso falhem, o cinema será fechado para sempre.


LGBT+ Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#adult #young #juvenil #lgbtq #romance #fanfic #gay
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Resiliência

Resiliência é, basicamente, a capacidade do ser humano de se adaptar as mudanças. Algo que nunca tive. Sempre resisti as mudanças que a vida me trouxe. Mesmo que as vezes fossem boas. O ser humano é por natureza medroso. Temos medo de tudo. De morrer, de mudar, de ser trocado, de amar, de ser odiado. Nosso cérebro é programado para se acomodar a vida. Depois de fazer as mesmas coisas, sentir as mesmas emoções, passar pelos mesmos desafios, nos acostumamos. Quando novos desafios surgem, é difícil até que seu corpo e sua mente entendam que é preciso evoluir para poder se atravessar o próximo obstáculo. Por isso mudanças sempre são difíceis de serem aceitas. O fato de que as coisas estão mudando e que você não vai ter controle sobre isso durante um tempo te assusta.

Domingo de manhã sempre me deixa pensativo. Principalmente quando é minha folga. Um domingo por mês, para ser mais exato. Lembra quando falei sobre o dia morto? Pois bem. Ele era feito exatamente para isso. Ficar deitado na cama o dia inteiro assistindo Netflix, comendo besteira, jogando videogame e tentando refletir sobre a vida igual a um filosofo do século vinte. Nem meu celular costumo olhar muito. Ninguém me mandava mensagens e nenhuma notificação do facebook me chamou a atenção.

Geralmente de tarde eu assistia ao programa da Eliana. Adorava aquele quadro em que as pessoas dançavam. Até tentei copiar certos passos em casa, mas ficava parecendo uma gazela tendo ataque epilético. Além da preguiça me consumir por completo, nunca fui muito do tipo que possui habilidades físicas. Esportes se tornaram o meu maior inimigo na infância. Eu até gostava, mas na infância acabei sendo diagnosticado com anemia, o que me deixava sem forças para fazer absolutamente nada. Graças a isso, fui receitado por uma médica a tomar um remédio que abrisse o apetite. Porém, depois que ele foi aberto, nunca mais fechou. O grande causador das minhas gordurinhas localizadas. Sei que foi para o meu bem na época, mas ninguém pensou no futuro.

Na geladeira restavam frutas frescas compradas pela minha irmã. Ela estava em uma sessão de fotos na paulista com a Bia–Dória, a fabulosa primeira–dama de São Paulo. Se existia uma família mais fútil do que aquela que governava a minha cidade, ainda não conheci. Juliana até me disse que teria uma novidade para contar quando chegasse em casa. Frase curta o suficiente para me deixar com uma ansiedade esquisita. Mesmo que não significasse nada, precisava ouvir logo aquelas palavras saindo de sua boca antes que todos os meus nervos começassem a se contorcer por inteiro.

Durante a minha trajetória da cozinha até a cama novamente, recebi uma mensagem da Aline. Pensei em ignorar por não sentir animo o suficiente para participar do blog ou das conversas com o clube em um domingo. Infelizmente, ou felizmente, uma faísca de bom humor me fez pegar aquele celular. Na tela, a seguinte mensagem:

– Oi, Carter! Está em casa?

Os membros do clube se chamavam pelo pseudônimo agora. Demorou um pouco para cair no gosto dos outros três, mas Neon possuía aquele raro dom da influência.

– Claro, A.L. Xavier. Por que?

– O pessoal está querendo sair um pouco para se descontrair. Você quer ir com a gente? O blog anda deixando todos estressados. Seria bom tomar um ar fresco.

– Hm...não sei – refleti. – Ficar de boa em casa me parece mais tentador. Onde pretendem ir?

– O Marloon e a B.E.A querem um lugar aberto. Depois de algumas discussões, escolhemos o parque do Ibirapuera. Está afim de ir?

– O que vocês três querem fazer em um parque? – retruquei, digitando rapidamente. – Tem sol, água, ar fresco e tudo que pessoas trancadas dentro de casa igual nós odeia. Por que não escolhem a pão de mel ou outro lugar fechado?

– Nós sempre vamos para a pão de mel. Quisemos inovar. E, de qualquer maneira, o Neon disse que precisa tomar um pouco de sol para apagar manchas do rosto. Não entendi muito bem a mensagem que ele enviou.

– Espera! – exclamei. – O Neon vai? E escolheu um parque? O que aconteceu?

– Também não tenho ideia. Faz tempo desde que nos reunimos todos em um mesmo lugar. Talvez porque da última vez acabamos discutindo sobre como o blog deveria transmitir suas mensagens através dos meios de comunicação. Enfim, ele também quer sair um pouco de casa. E você?

– Ah! Tudo bem – concordei. – Não tenho nada melhor para fazer mesmo. A não ser decorar coreografias que sei que meu corpo não vai conseguir reproduzir.

Com um emoji de olhos revirados, A.L Xavier finalizou a conversa. Olhei para o lado de fora pelo vidro transparente da janela e vi um sol de rachar o chão. Minha pele possuía uma enorme sensibilidade ao sol, por isso era um pouco queimada. Sempre evitei ao máximo sair de casa em situações assim. O protetor solar mais alto possível nunca foi o suficiente para me proteger totalmente. Um dos grandes motivos de odiar praias. Fora o fato de que você acaba com areia em lugares que nem mesmo sabia que existiam.

Por estar com um ar de frescor, coloquei uma bermuda até a altura do joelho, uma regata preta e um tênis com brechas para meus queridos pés poderem respirar. Eu transpirava bastante, por isso preferia camisetas sem mangas. O problema é que nunca fui muito fã dos meus braços. E quando digo isso, estou basicamente insinuando que preferia arranca–los do que me olhar no espelho por mais de cinco segundos fixos. E o motivo pode soar fútil para outras pessoas. E de fato é, mas não para mim.

Nasci com uma doença crônica chamada queratose pilar. Isso queria dizer que a pele do meu braço possuía diversas pequenas bolinhas vermelhas similares as espinhas, mas sem aquela parte branca que muitas pessoas estouravam. Isso se dava ao fato de a pele ser extremamente seca, mesmo que fosse usado muito creme hidratante. Ela cobria do cotovelo até a altura do ombro e não era nada muito bonito de ser visto. Pelo menos, não por mim. Não saia sangue, nem pus e nem coçava. Só não achava bonito ou atraente. Minha irmã cansou de me falar que aquilo não tinha nada demais, porém nunca dei muita atenção. Levou longos anos até que eu conseguisse sair com uma camiseta assim para ir à padaria comprar pão. Ir em um lugar longe de casa e com conhecidos foi uma das grandes vitorias que tive sobre mim mesmo em anos.

Não levei muita coisa. Apenas meu celular, a chave de casa, o bilhete único do ônibus e cinco reais em caso de emergência. Todas as minhas economias no momento. Esperei no ponto cerca de vinte e cinco minutos e embarquei no ônibus. O parque do Ibirapuera tinha muitos admiradores. Se tornou o nosso central park brasileiro. Claro, sem todo o glamour que Nova Iorque proporcionava. Todas as famílias classe média iam para lá no domingo. Também havia skatistas praticando novos movimentos na área de esportes. Confesso que muitos deixaram meu coração um pouquinho acelerado.

Do ponto de ônibus foi possível ver os três perto do portão de entrada do parque. A.L. Xavier, Marloon e B.E.A olhavam para os lados procurando por algo ou alguém. Felizmente, não fui o último a chegar daquela vez. Esperei o semáforo fechar e atravessei a rua. Me sentia esquisito quando corria, mas não conseguia evitar fazer isso sempre que atravessava uma rua ou avenida. Um dos meus grandes medos sempre foi o de ser atropelado. Não me pergunte o porquê. Nunca tive um trauma referente a isso proveniente da minha infância. Pelo o contrário, nas ruas em que brincava o movimento de transportes era quase nulo. Acenei com a mão para ver se alguém me notava em meio aquelas pessoas descontraídas.

– Finalmente, Carter! Tínhamos esquecido do quanto você consegue ser atrasado em ocasiões assim – brincou B.E.A, soltando um leve riso ao me ver se aproximar.

– O que? Pensei estar no tempo certo. Não falta o Neon chegar? – retruquei.

– Não. O relógio humano já está aqui. Foi o primeiro a chegar, para falar a verdade – murmurou A.L. Xavier.

– Onde ele está?

– Ali – apontou Marloon para uma árvore próxima que fazia sombra.

– Onde? Não consigo encontra–lo – indaguei, olhando em direção a árvore. Ninguém por perto se assemelhava ao Neon. Só consegui enxergar crianças brincando de bola e um avô tentando ensinar seu neto a andar de bicicleta.

– É aquele de óculos escuros com uma bermuda jeans e um boné cobrindo todo o cabelo – acrescentou Marloon.

– Espera – murmurei. – Aquele é o Neon? Parece alguém que está fugindo da polícia.

Nós quatro fomos de encontro a ele. Um breve aperto de mãos demonstrou sua timidez graças ao lugar. Depois, seguimos para uma área mais verde do parque. A.L. Xavier trouxe em sua bolsa um grande lençol para que pudéssemos nos sentar no chão sem que picadas de insetos nos incomodassem.

Várias árvores cobriam o lugar onde estávamos, não deixando muita brecha para que a luz do sol nos alcançasse. O lago azulado em frente contava com patos e tartarugas. Como o Brasil é um país aglomerado de pessoas idiotas, sempre havia um imbecil que tentava provocar os pobres animais com sons ou jogavam pedaços de comida na água. Não consegui segurar a risada quando dois guardas civis começaram a correr atrás dos adolescentes por todo o parque. Os cassetetes em suas mãos estavam preparados para causar hematomas.

– É tão bom poder tomar um ar fresco de vez em quando. Não aguentava mais ficar em casa só escrevendo. Sempre fico com dor de cabeça por passar horas olhando para a tela do computador – reclamou B.E.A.

– Confesso que precisava alongar as pernas. Ficar sentada o dia inteiro é péssimo. Principalmente em casa e na faculdade. Sou sedentária, mas não posso abusar. Mover os ossos de vez em quando ajuda – acrescentou A.L. Xavier.

– Odeio sol. E nunca fui muito fã da natureza, apesar de saber que é necessária para a nossa sobrevivência. Se eu pudesse, escolheria viver no país mais gelado do mundo. Frio é muito mais a minha cara – exclamei. – E você, Neon?

– Queria apenas sair um pouco de casa e acreditar que existe um mundo melhor aqui fora. De resto, dispenso – murmurou, direto e reto.

– Credo...que mórbido – sussurrou Marloon. – Eu vim porque queria reunir todos vocês aqui para contar uma novidade. Tenho uma ideia para uma nova reportagem no blog.

– Qual ideia? – perguntei.

– Por que mesmo você escolheu “Marloon” como seu pseudônimo? Sempre quando ouço isso, lembro do seu cachorro que morreu atropelado. Não é legal as lembranças daquele acidente – retrucou B.E.A.

– Foi uma forma que encontrei de mante–lo guardado no meu coração. E “B.E.A” não é muito criativo. Principalmente quando seu nome é Beatriz. Você apenas usou as três primeiras letras e acrescentou pontos. Quem diabos faz isso?

– Marloon...poderia prosseguir com a sua ideia? Creio que todos estejam atentos para ouvir – exclamou A.L. Xavier.

– Continuando...existe uma nova editora surgindo na cidade de São Paulo. Eles atendem pelo nome de Pecado e publicam livros eróticos. Consegui a chance de fazer uma entrevista com a fundadora amanhã e preciso que alguém vá comigo. Os números das vendas dos livros são promissores e estão se destacando no mercado. Publicar a primeira matéria oficial sobre essa nova leva de livros eróticos pode aumentar o nosso público. Creio que não teremos outra chance igual a essa.

– B.E.A e eu temos um evento literário amanhã na universidade de São Paulo. Não vamos conseguir ir a tempo. E você, Neon? – murmurou A.L. Xavier.

– Não, obrigado. Livros eróticos são apenas vídeos pornôs descritos em palavras bonitas. Tentam vender o sexo como algo necessário, sendo que é apenas o prazer da carne que estimula a libertinagem e promiscuidade.

– Hm...tudo bem – assentiu. – Carter? Pelo o que me lembre, você está de folga amanhã.

– Sim, mas...

– POR FAVOR!!! Não quero ir sozinho. Eles fotografam as capas dos livros e produzem os book–trailers lá. Todo mundo deve andar seminu. Seria horrível passar por essa experiência aterrorizante sozinho – implorou, quase chorando.

– Ah...que seja – concordei. – Não tenho nada mais interessante para fazer. E entrar em uma editora de livros eróticos parece divertido.

– Perfeito. Vamos nos encontrar amanhã de tarde.

– Ei – sibilou B.E.A, finalizando o assunto. – Alguém está afim de dar uma volta de bicicleta? Pelo o que me lembro, são cinco reais uma hora. Podemos nos descontrair um pouco.

– Que ótima ideia. Vamos pedalar, pessoal – exclamou A.L Xavier, animando a todos.

Os três se levantaram, e eu estava prestes a fazer o mesmo. Porém, Neon continuou sentado no chão olhando o lago com cara de paisagem. Coloquei a mão no bolso e senti a nota de cinco reais me chamando, mas resolvi ficar ali. Abandona–lo não parecia uma boa ideia.

– Você não vem, Neon? – perguntou Marloon.

– Dispenso! – respondeu, com desdém.

– Novidade – sussurrou. – E você, Carter?

– Melhor não. Obrigado. Minhas pernas estão um pouco doloridas pelo trabalho no cinema. Não é fácil ficar o dia inteiro em pé. Talvez uma outra hora – respondi, voltando a posição de antes.

– Tudo bem. Vamos, Jovens Escritores.

Os três partiram em direção ao bicicletário. Neon continuou com a mesma cara os próximos dez segundos que se estenderam sem que trocássemos nenhuma palavra.

– Como vai o livro para o concurso? – cortou o silêncio, para a minha surpresa.

– Bem – respondi. – Melhor agora com a sua ajuda. Estou retocando algumas coisas e concluindo os capítulos finais. No geral, falta pouco para inscreve–lo no concurso.

– Espero que consiga vencer. Precisamos de um nome brasileiro para nos representar. É difícil viver no país em que o resto do mundo acredita que seja feito apenas de peito e bunda. Palavras tem tanto poder. Só é necessário saber usa–las da forma correta.

– Você está tão estranho hoje. O que aconteceu? Ficou bravo com algo?

– Problemas em casa. Nada com que você precise se preocupar – respondeu, cabisbaixo.

– Geralmente não escuto você falando sobre a vida pessoal. Talvez agora seja uma boa hora para isso.

– Não preciso de conselhos sobre como fingir que a felicidade faz parte de mim. Melancolia sempre foi mais o meu forte, Simas.

– Não íamos usar apenas pseudônimos? – retruquei, confuso. – Mudou de ideia?

– Prefiro pensar que estou conversando com o garoto que limpa vômito das salas de um cinema e gasta o tempo jogando league of legends no tempo livre, não com o escritor.

– Isso não é justo – rosnei, bravo. – Não sei o seu nome verdadeiro. Nunca vou ter uma conversa normal com aquele que é mais do que apenas o líder do clube.

– Weringthonn. Esse é o meu nome – respondeu, sem rodeios. Seu olhar perdido me deixava cada vez mais eufórico. – Não é grande coisa, mas foi o máximo que meus pais conseguiram pensar para mim. Wellington é uma pronúncia muito difícil para quem não possui boa dicção.

– Esperava algo mais...sei lá. TCHAN! – falei, fazendo uma explosão com as mãos.

– Sou uma pessoa tão normal quanto você. Neon é um personagem. Weringthonn é quem sou. Existe diferença entre atuar e se estar na vida real.

– E o que está deixando o senhor Weringthonn tão aflito?

– Nada que você possa ajudar.

– Posso não conseguir resolver o seu problema, mas palavras de conforto sempre ajudam. Principalmente ditas da maneira certa. E, acredite, sei usar as palavras da melhor maneira possível.

– Tudo bem, Simas. Se você insiste, eu te digo. É o meu pai – desabafou, com peso nas palavras. – Moro com ele e minha mãe. Ambos precisamos cuidar dele. É difícil estar presente cem por cento do tempo. Ele sofreu um acidente há alguns anos e agora está preso a uma cama. Não consegue falar, respirar, comer, tomar banho ou qualquer outra coisa sozinho. Nós revezamos para ver quem vai ficar com ele de noite e de dia. Nem sempre ser o Neon basta. Às vezes nem mesmo o maior dicionário do mundo possui a palavra certa para momentos assim. Meus tios chegaram de viagem hoje e vão passar três dias lá em casa. Por isso eu vim. Precisava de tempo para relaxar. Talvez o único que tive há semanas.

– Desculpe. Eu não sabia. Você só tem sido amargo o dia inteiro. É preciso ser muito forte para conseguir controlar as emoções quando todos os seus nervos querem explodir.

– Todos sempre acham que só porque você impõe respeito ou autoridade, é alguém durão e não se machuca nunca. Mas, todos os seres humanos possuem um botão no subconsciente que, quando é acionado, desperta os maiores medos, dores e aflições. Alguns só apertam mais vezes do que outros.

– Já que seus tios estão lá, e você não precisa se preocupar em cuidar do seu pai durante esses dias, por que não dorme lá em casa? Posso te apresentar minha irmã. Ela é uma peça rara. E podemos ficar assistindo aqueles filmes cults que você tanto fala.

– Você está precisando de ajuda com o livro? – disse.

– Não. Só quero que você se distraia um pouco. Sabe...fugir da realidade. Mergulhar no mar de besteiras e entretenimento nada educativo que as empresas tentam nos forçar a aderir nos dias de hoje.

– Parece legal. Vou ligar para a minha mãe e perguntar se está tudo bem ficar fora de casa por hoje.

Depois de darmos voltas no parque, tentar escalar duas arvores e cair, ser acertado por uma bola na cabeça graças ao time de futebol masculino e ser picado por uma abelha, terminamos ali nosso passeio. Me despedi dos três e fui para casa com Neon. Até consegui arrancar leves risos dele durante o trajeto do ônibus. A história sobre como o meu primeiro dente de leite caiu sempre rendia gargalhadas das pessoas. Isso aconteceu durante uma brincadeira de escorregar na antiga laje da minha casa que estava molhada com água e sabão. Em uma dessas, cai batendo a boca no chão. Doeu bastante, mas logo passou.

Quando chegamos em casa, fui logo preparando algo para comer. O velho macarrão com queijo requentado de micro-ondas arrancava suspiros de qualquer um. Coloquei o filme mais clássico possível na Netflix e ficamos no sofá assistindo. Começou a esfriar perto do horário da noite, então peguei uma coberta no meu quarto e nos enrolamos nela. O som da porta se abrindo chamou nossa atenção. Principalmente quando ela veio acompanhada da luz acesa.

– SIMAAAAAAAAS! Tenho uma novidade – berrou minha irmã, antes mesmo de poder me ver.

– Ai! Por que você está gritando? Pensei que fosse um ladrão – retruquei, dando um pulo com sua voz de gralha ecoando pela sala.

– Que tipo de ladrão te chamaria pelo nome quando entra na sua casa? – murmurou Neon.

– Hm! Quem é você – indagou Juliana, lançando um olhar suspeito.

– Neon. Prazer! – exclamou, acenando com a mão fora da coberta.

– Neon igual as luzes?

– Tão brilhante quanto elas.

– Ele é só um amigo do clube de escritores que mencionei outro dia – acrescentei, já imaginando as besteiras que ela pensava naquele momento.

– Claro. Todos sempre são – brincou.

– Todos? – murmurou Weringthonn, me encarando assustado.

– Fala logo qual a novidade. Filmes cults sempre tem mais de duas horas. Nos resta mais trinta minutos de sofrimento – desabafei.

– Tudo bem. Primeiro: vocês estão vestidos? – perguntou, largando a bolsa em cima da mesa e se aproximando cautelosamente de nós.

– O que? Que tipo de pergunta é essa? – rosnei. – É claro que sim.

– Ufa. Menos mal. Até porque eu durmo nesse sofá as vezes.

– Descomplica logo, garota.

– Certo. A Bia–Dória precisa de uma música para cantar no aniversário do marido. Ela quer gravar um videoclipe ao vivo e tudo mais. Hoje foi o ensaio fotográfico.

– E daí?

– Você ainda não entendeu? – suspirou, dessa vez de frente a mim. – Eu disse que você escreveria a música. Ofereci seu trabalho e ela aceitou.

– Como é? Meu trabalho? Escrever uma música? Você ficou louca?

– Qual o problema? Você não escreve?

– Livros, resenhas, análises, reportagens. Nunca escrevi músicas. É uma formação totalmente diferente da qual eu tenho. Isso é para compositores.

– Músicas são apenas letras cantadas em uma melodia com uma batida instrumental de fundo. Não é muito difícil.

– Viu. Seu amigo Neon concorda.

Neon me olhou cinicamente e revirei os olhos.

– Não vou escrever uma música. Principalmente para a primeira–dama. Nem tenho nada em mente.

– Ela disse que vai pagar mil e quinhentos reais.

– Bom...podemos conversar sobre isso – assenti, pensativo. – Mas não prometo nada. Nem uma estrofe sequer.

– Tudo bem. Apenas dê o seu melhor. Até porque o meu nome também está em jogo e não posso me dar ao luxo de perder esse emprego – completou, partindo em direção ao seu quarto.

– Você vai mesmo escrever uma música? – sussurrou Neon, ainda coberto ao meu lado.

– Vou tentar. Não deve ser tão difícil quanto parece. Pelo menos, não tenho nada a perder com isso.

– Só a sua reputação e dignidade.

– Duas coisas que já não possuo.

16 de Outubro de 2019 às 04:42 0 Denunciar Insira 0
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