A NUVEM Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Quando ela surge no horizonte, as pessoas se agitam. Correm para suas casas e esperam a chuva cessar. Aqui, você não pode estar na rua quando a nuvem cresce ameaçadora no céu.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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A nuvem





Margot esfregou as mãos nos joelhos e se levantou, olhando na direção do horizonte.

Ali de sua varanda dava para ver que havia uma nuvem colossal se aproximando, e ela vinha devagar. Não era tão escura, tinha um tom acinzentado e ameaçador, um borrão que ofuscava o azul do céu. O sol brilhava forte na tarde mais quente da semana até então, e Margot suspeitava que nenhum um outro dia faria tanto calor quanto o daquela quinta-feira. A nuvem ainda estava longe, se deslocando com certa lerdeza, acompanhando o vento fraco e sufocante que soprava. Não era muito comum chover em Horizontes, e sempre que isso acontecia, as pessoas procuravam se manter dentro de suas casas.

Margot deu uma nova analisada no céu e coçou o pescoço. O pouco que sua cabeça virou para o lado foi o suficiente para que ela visse a dona Gertrudes, sua vizinha que tinha tanta idade quanto intolerância. Ela estava recolhendo os lençóis do varal, resmungando alguma coisa para ela mesma. No minuto seguinte, Margot ouviu os passos de Daniela se aproximando e tornou a encarar o horizonte.

— Nossa, vem chuva aí — ela disse, abraçando Margot por trás e apoiando o queixo em seu ombro.

— Vem. Acho melhor irmos buscar a Dora na escolinha.

— Verdade. Vou pegar o carro. — Daniela lhe beijou carinhosamente o pescoço, depois lhe deu um tapinha na bunda. Se afastou alguns passos e quando estava com metade do corpo para o lado de dentro da casa, se deteve. Virou-se para Margot e a chamou.

— Fala.

— Podíamos aproveitar para passar no mercado também. O que você acha?

— Pode ser, — falou Margot, sem olhar para a namorada e ainda com os olhos apontados para a nuvem.

Agora ela parecia mais próxima, mais volumosa, lembrando bastante uma montanha feita por algodão doce tostado. Não dava para ouvir trovoada alguma, e aquilo era algo que Margot costumava sentir falta. Há quase dez anos, sempre que chove não troveja. Ela sentiu o vento aumentar um pouco e mudar de direção. Quase dava para sentir o ar ficar mais úmido, mas o vapor que subia do chão era muito mais quente e perceptível. Margot o achava quase palpável.

Escutou a dona Gertrudes resmungar alguma coisa e olhou para ela. A idosa estava segurando alguns lençóis enrolados, apertados contra o peito magro. Não foi surpresa alguma ver que ela estava lhe encarando de volta.

— Boa tarde, dona Gertrudes — disse Margot, erguendo uma das mãos.

— Só se for pra você. Ou por acaso não está vendo que vai chover?

— É, estou sim. Mas nem por isso não deixo de manter a educação.

Dona Gertrudes tornou a resmungar alguma coisa qualquer, depois subiu os degraus da varanda com passos pesados e emburrados.

Margot deixou um sorriso escapar, então percebeu que o Audi já estava se aproximando de ré. Ela desceu da varanda e deu uma piscadinha para Daniela no momento em que contornou pela frente do veículo. Abriu a porta e se jogou lá para dentro, puxando o cinto de segurança.

— O que a bruaca queria?

— Nada, — disse Margot. — Só estava sendo ela mesma.

— Mercado antes ou depois de buscar a Dora?

Margot disse que era melhor buscar a filha adotiva primeiro, e Daniela concordou. Elas normalmente concordavam com tudo uma com a outra, menos quando o assunto era filmes de terror. Margot preferia os clássicos, e costumava dizer que os filmes atuais estavam sendo consumidos e estragados pelos efeitos especiais. Já Daniela adorava assistir a tudo que envolvia o 3D, principalmente quando o sangue jorrava na tela do cinema.

Elas esperaram o portão eletrônico se abrir por completo, então Daniela pisou fundo no acelerador e o Audi seguiu rumo a escolinha. Ainda era possível enxergar a nuvem quando se olhava pelo retrovisor, e era exatamente para isso que Margot estava olhando.




Dora não parava de dizer que a aula havia sido muito divertida, e praticamente não conseguia se manter imóvel no banco traseiro.

Enquanto ela dizia que sua coleguinha Selma estava de aniversário e que a turma inteira havia cantado parabéns, seus dedinhos não paravam de enrolar as suas tranças. Margot fora a responsável por fazer o seu penteado na tarde de hoje, assim como fora ela a fazer isto na tarde de ontem. Daniela não levava muito jeito com penteados, e prova disto era que seu cabelo sempre era mantido curtinho. Elas já haviam passado pelo mercado e feito as compras da semana, e agora já estavam a poucas quadras de chegarem em casa. Enquanto Margot papeava com a filha, seus olhos procuravam pela nuvem vez que outra. Era possível perceber que não iria demorar muito para que começasse a chover, e as vezes ela até comentava isto com a namorada afim de que ela aumentasse a velocidade do Audi.

— Vai dar tempo, relaxa — disse Daniela, erguendo os olhos para espreitar a nuvem. Ela agora estava muito mais próxima, mas o sol insistia em permanecer brilhando.

— Sei que vai, amor. Só não quero estar aqui fora quando acontecer. Vê? A maioria das pessoas já sumiu das ruas.

Apenas um ou outro carro trafegava por ali, assim como algumas pessoas a pé, nitidamente apertando o passo enquanto caminhavam pelas calçadas.

O borrão cinza que antes era a nuvem agora já estava mais preto. Ainda não era uma cor de tempestade, mas em Horizontes nada disso importava. Dá última vez que choveu ( cerca de dois meses atrás ) a nuvem que veio era branca, e ela era muito menor do que a que se aproximava pelo horizonte do céu.

O Audi chegou diante da casa do casal Mascarenhas e de sua filha, e assim que o portão terminou de se abrir, o veículo entrou e estacionou dentro da garagem.

Dora se soltou da cadeirinha e correu para dentro de casa, gritando qualquer coisa que apenas ela poderia entender. Margot caminhou para buscar as compras, e perguntou se Daniela poderia ajudá-la.

— Claro, — disse ela, sorrindo e lhe mandando um beijinho pelo ar. — Só não abuse da hospitalidade, madame.

— Não banque a difícil.

Daniela fez uma careta para a namorada e pegou algumas sacolas com legumes com uma das mãos, quando olhou para a rua.

— Nossa, bem a tempo — falou, e Margot se virou para olhar.

Estava começando a chover, mas não fazia barulho no telhado. Em Horizontes, a chuva era sugada para cima.




Dez minutos mais tarde, ainda chovia. Estava um pouco mais forte agora, e Margot permanecia sentada na varanda. Daniela estava em seu colo, e as duas olhavam a chuva subir na direção da nuvem. Elas deixaram Dora assistindo os desenhos na sala, e vez que outra conseguiam escutá-la dar risada.

Alguns pingos de chuva pareciam não querer subir, chegavam até certa altura e por alguns instantes dava para se jurar que eles voltariam e se esparramariam no chão como qualquer chuva normal. Então isso não acontecia, e logo a força da nuvem fazia diferença e sugava tudo que não estava preso ao chão.

Margot fez um carinho no antebraço de Daniela, e essa lhe retribuiu da mesma forma.

— É lindo, não é? — falou Margot. Ela estava olhando para o céu acinzentado, tentando imaginar como aquilo era possível. Já havia presenciado inúmeras chuvas como aquela desde a sua infância, mas nunca fora capaz de entendê-las.

— É, sim. Mas é perigosa também.

— Igual a você, — disse Margot, e as duas sorriram. Ela até pensou em dar um beijo em Daniela, mas logo reparou que a dona Gertrudes estava observando as duas por detrás das cortinas da janela. — Não olhe agora, mas temos uma telespectadora à nossa direita.

Daniela espichou os olhos e foi capaz de ver o corpo magro de sua vizinha espreitando atrás das cortinas. Sentiu vontade de gritar para ela, de perguntar o que ela pensava que estava fazendo, mas daí pensou em Dora e desistiu. Já tinha sido uma batalha cansativa conseguir adotar a menina, além de ter de aturar a postura da própria família. Jogar tudo isso pelo ralo por conta de uma discussão com alguém preconceituoso seria estupidez. Ao invés disso, Daniela apenas ergueu a mão e abanou para dona Gertrudes.

As cortinas se remexeram e o corpo dela desapareceu logo na sequência. Margot sorriu e lhe deu um beliscão na coxa.

— Você não presta, — disse.

— E você não resiste a isso.

As duas deram um selinho e continuaram sentadas, assistindo a chuva subir sem parar.




Já era noite quando os últimos pingos subiram e Margot viu que algo estava caindo do céu. Parecia ser uma pessoa. Provavelmente alguém que fora pego de surpresa pela chuva, ou até mesmo um turista desavisado. A figura estava de certo ponto longe, caindo com o corpo desengonçado e dando piruetas pelo ar. Não dava para saber se era um homem ou uma mulher. Mas logo isso seria revelado, pois sempre que algo assim ocorria, as autoridades tratavam de buscar os restos do coitado com a ambulância. Dá última vez fora uma mulher ; ela não conhecia a região e não se importou quando a nuvem surgiu no horizonte. Algumas pessoas até tentaram lhe prevenir, mas ela sorriu e seguiu caminhando sem pressa pela cidade. Então depois que a chuva parou de subir, o corpo dela despencou do céu. Margot se lembra de passar próximo do local e ver os paramédicos recolhendo o que restou do corpo da mulher com uma pá.

Agora ela estava vendo a cena toda da janela de sua casa, e antes mesmo que pudesse chamar a Dani para lhe contar, o corpo já havia sumido de seu campo de visão. Ela fez uma oração em silêncio e continuou preparando o jantar.




Só na manhã seguinte que as notícias chegaram, e Margot estava à mesa do café com a filha e a namorada quando o locutor da rádio local anunciou que o corpo encontrado ao norte de Horizontes pertencia a um homem chamado Marcos Andrade.

Margot terminou de beber o café com leite de sua xícara e disse :

— Este não é aquele vendedor de carros da revendedora?

Daniela deu de ombros e continuou mastigando a sua fatia de pão. Ela não gostava muito de falar sobre as pessoas que caíam do céu ; na sua adolescência, uma de suas primas distante havia vindo visitá-la nas férias escolares e tinha se deparado com a chuva. Ela foi pega pouco antes de conseguir entrar em casa. O cachorro de Dani na época, Rufus, havia ficado preso na cerca de arame farpado e sua prima voltou correndo para resgatá-lo. O cãozinho foi rápido o suficiente para chegar até a casa, mas Júlia foi sugada a poucos passos da porta. Dani não pôde fazer nada, apenas ficou parada na janela com o rosto espantado e choroso enquanto a prima começava a levitar.

Ela estava mastigando outra fatia de pão quando a filha falou :

— Um colega meu da escola disse que as pessoas caem do céu porque Deus não as quer lá em cima.

Dani e Margot olharam uma para a outra, mas foi Margot quem precisou dizer alguma coisa. Dani apenas se levantou e se retirou da cozinha.

— Não é assim, querida. Deus não faz essas coisas.

— Então por que as pessoas caem do céu?

— Porque não tem possibilidade delas permanecerem lá em cima.

— Por que?

— Dora, querida, termine seu café, está bem? — Margot já estava de pé, começando a limpar a mesa.

Ela e Daniela eram mães de primeira viagem, estavam pegando o ritmo da música e ainda tropeçavam em alguns passos mais difíceis. Ambas sempre se ajudavam em certas questões ( principalmente quando o assunto envolvia o homossexualismo e como a filha deveria agir a respeito ) mas quando o que vinha a tona era a morte, tudo ficava por conta de Margot.

Daniela evitava entrar nesse tipo de conversa, de modo que sempre que o papo vinha a tona ela se levantava e dava as costas. Ela não ficava irritada, apenas não conseguia lidar com aquilo. Levantava e saía de perto, como se o assunto fosse ficar por ali, longe dela e nunca mais fosse voltar. Geralmente ela ficava sozinha e em silêncio por um tempo, até que Margot chegava e lhe abraçava, dizendo que estava tudo bem. De certa forma as coisas até que ficavam bem, mas Dani sabia que mais cedo ou mais tarde iria chover outra vez e então algum infeliz seria sugado e depois cuspido pela nuvem. Elas já pensaram inúmeras vezes em mudar de cidade, procurar novos ares, se alojar em algum lugar onde a chuva caia do céu e não suba até ele, mas a justiça só permitiu que Dora fosse adotada caso elas permanecessem em Horizontes. Foi uma cláusula muito específica na audiência que tiveram em agosto passado.

Quando Margot terminou de organizar a cozinha, encontrou Dani sentada no quarto das duas. Ela estava terminando de abotoar a flanela e sorriu quando a viu.

— Como foi o papo com a curiosa? — perguntou, ficando de pé.

Margot cruzou os braços e parou diante da namorada.

— Difícil. Não sei como explicar algo assim para uma criança. Acho que nem para um adulto eu saberia. Eu mesma não sei o que é tudo isso.

— O que eu sei, é que enquanto vivermos aqui, temos de nos manter seguras. Não dá para dar mole, sabe?

— Algumas pessoas já disseram que coisas mais pesadas também podem ser sugadas. Por isso pedi pra sairmos logo da rua com o carro.

— Acho que é conversa fiada, — disse Dani, parando diante do espelho para passar gel no cabelo. — Se fosse verdade, veríamos os carros serem erguidos.

— Acontece que ninguém deixa os carros nas ruas quando o tempo está prestes a mudar. Já reparou?

Dani havia reparado, mas permaneceu em silêncio. Estava quase pronta para ir trabalhar e não queria mais falar no assunto. Terminou de se pentear e pediu que Margot lhe acompanhasse até o carro, lhe pegando pela mão.

Gostava de andar assim com ela, e sentia falta de fazer aquilo em lugares públicos. Boa parte das pessoas de Horizontes sabiam do relacionamento das duas, mas ainda assim parecia de certa forma errado ou desrespeitoso agir como um casal diante dos outros. Elas foram criadas de modo tradicional pelos seus pais, e aquilo havia penetrado em suas vidas como um câncer, uma espécie de praga que não dava para se livrar tão fácil.

Assim que Dani entrou no Audi e começou a dar ré, Margot a esperou próxima ao portão para se despedir. Ela baixou o vidro da janela logo que cruzou a entrada da casa, e logo depois deu um rápido beijinho em Margot.

O Audi então partiu na outra direção, e quando Margot estava se encaminhando até a varanda, conseguiu ver a dona Gertrudes quase debruçada sobre a cerca e com um sorrisinho cínico no rosto.

— Bom dia, dona — cumprimentou Margot, desviando o olhar imediatamente para a varanda.

— Essa desgraça toda é culpa de gente como vocês!

Margot se deteve. Olhou confusa para a idosa debruçada na cerca, como se não houvesse escutado direito.

— Como é?

— Deus está uma fera com esse tipo de comportamento impróprio. Homem trepando com homem, mulher chupando boceta por aí... isso só podia dar merda. Fim do mundo, se preferir.

Margot se aproximou rapidamente da idosa, com fúria nos olhos.

— Eu tenho uma criança dentro de casa! Cuide o que está falando. Minha filha não precisa ouvir suas besteiras.

— O que vai falar pra ela quando os amiguinhos da escola lhe perguntarem quem é a mãe e quem é o pai na relação de vocês?

— Ainda não sei, — disse Margot, tranquilamente. — Mas se perguntarem quem é a bruxa velha, eu já sei direitinho o que dizer.

Deu as costas devagar, quis ver o rosto de espanto da dona Gertrudes e conseguiu ver. Queria ter falado muito mais também, mas não era boa em discussões. Dani era quem fazia isso muito bem. E fazia sem parecer uma ogra, com uma classe invejável. Enquanto caminhava de volta para casa, esperava escutar mais uma dúzia de ofensas da boca de Gertrudes mas isso não aconteceu. Achava que a velha ainda deveria estar boquiaberta do outro lado da cerca, mas não se virou para se certificar disto.

Apenas entrou em casa e fechou a porta sem bater.




Algumas semanas se passaram até a nuvem surgir ao longe, como um enorme boneco de neve. Ela estava com uma tonalidade mais escura, e por alguma razão parecia muito maior. O vento ainda soprava quente, e o sol predominava forte como se antecedesse a tempestade.

No fim do dia, não houve tempestade alguma, apenas a chuva que subiu até o céu numa proporção muito maior. E ela durou muito mais tempo também. Os últimos pingos subiram dois dias depois da chuva começar.




Quando a chuva finalmente cessou, não foi possível ver se alguma pessoa fora jogada de volta. Mas Margot Mascarenhas estava varrendo o piso da varanda quando o primeiro carro despencou do céu.



O estrondo foi assustador, quase apocalíptico. A princípio não foi possível identificar a marca do veículo, que simplesmente se espatifou no meio da rua com as rodas viradas para cima. O alarme disparou, e alguns moradores saíram de suas casas para ver o que estava acontecendo.

O primeiro a chegar diante do automóvel foi Thiago Saul, vizinho de frente de Margot e Dani. Ele se aproximou devagar, olhando para o carro e depois para o céu. Não demorou muito para que outros moradores se juntassem a ele, todos visivelmente tensos, agitados, circulando o carro como em uma dança de um ritual pagão.

Dani apareceu um instante depois, abrindo a porta e segurando Dora no colo.

— Mas que barulho foi esse? — perguntou, olhando para o automóvel que estava com as quatro rodas girando devagar no ar.

Margot ainda segurava a vassoura, e seus olhos procuravam qualquer outra coisa que pudesse estar vindo do céu.

— Foi o carro, — falou. — Ele caiu da nuvem.

— Não pode ser...

— Foi o barulho mais assustador que já escutei.

— Já imaginou.... — foi dizendo Dani, revezando o olhar entre o céu e o carro espatifado. Algumas pessoas tentavam descobrir se havia alguém no interior do veículo. — Já imaginou se caísse sobre a casa de alguém?

De repente o alarme do carro parou, e o murmurinho das pessoas pôde ser ouvido com mais clareza. Não dava para saber ao certo, mas Margot achava ter escutado que não havia ninguém a bordo do veículo.

Praticamente sem perceber, ela acabou olhando para o lado e dando de cara com a dona Gertrudes observando a tudo de uma de suas janelas. A idosa não parecia assustada, mas havia algo nela que não demonstrava serenidade. Margot não tinha interesse algum em saber o que ela deveria estar pensando ( muito provavelmente sobre aquilo tudo ser culpa dela e de sua namorada ) e então desviou o olhar outra vez para a rua.

Agora os moradores estavam tentando desvirar o automóvel. Eram no mínimo cinco pessoas fazendo força, todas com movimentos similares e gritando palavras de incentivo.

Cerca de três minutos depois, o carro foi erguido e finalmente desvirado, mas seguia impossível saber de que marca ele era, apenas que se tratava de um veículo da cor cinza. Também eliminaram a dúvida se havia alguém entre as ferragens ou não. A lataria estava completamente destruída, com os assentos dos bancos rasgados e emaranhados entre as ferragens.

O sol começava a brilhar outra vez, e a nuvem já havia partido. Margot apoiou a vassoura na parede e pensou em descer até a rua, mas assim que um de seus pés tocou o degrau da escada, ela sentiu a mão de Dani se fechar em seu braço.

— Nem pense nisso, — falou Dani.

— Mas a nuvem já foi. Não há mais perigo.

— Não importa, — e os olhos de Dani então apontaram para o céu. — Talvez caia mais alguma coisa.



Mas nada caiu. Pelo menos até a noite seguinte, quando a chuva subiu com intensidade por apenas doze minutos. E assim que ela parou, foi como se o céu desabasse sobre a terra.




Aqueles estrondos duraram algum tempo. Dani e Margot permaneceram escondidas debaixo da mesa, com Dora enfiada entre o corpo das duas. A menininha se mantinha em posição fetal, com as mãos tapando os ouvidos. Margot estava surpresa por ela não ter chorado. Dani tentou espiar para o lado de fora de casa, mas estava escuro lá fora. Tudo que foi possível enxergar foram os focos de luz que vinham dos postes da rua. Não era possível saber ao certo o que estava provocando aqueles estrondos, mas dava para se ter uma ideia. Muito provavelmente a nuvem surgiu no meio da noite e pegou alguns motoristas desprevenidos na estrada. E então a chuva cessou e começaram as quedas.

Dani não foi capaz de ver um veículo sequer despencando das alturas, mas tinha quase certeza de que aquela confusão toda estava sendo provocada por automóveis. Ela envolveu o corpo de Margot e o apertou o máximo que conseguiu. Manteve os olhos fechados, pensando que a qualquer momento um Ford Ka ou até mesmo um caminhão Scania despencaria sobre as suas cabeças, esmagando as três debaixo daquela mesa em uma morte estúpida. Estes pensamentos duraram aproximadamente quatro minutos, e então o barulho desapareceu. O silêncio tomou conta de tudo, engoliu a todos como um buraco negro. Era estranho, mas a quietude parecia mais assustadora do que o transtorno. Margot abriu os olhos e ergueu o corpinho da filha, que a olhava de um modo perdido, quase entorpecido.

— Passou, querida. Está bem?

A menina preferiu apenas fazer que sim com a cabeça. Dani beijou a testa da companheira e depois a da filha, e então as três começaram a sair de seu esconderijo dentro da cozinha.

Aos poucos foi possível escutar algumas vozes vindas da rua, sussurros ainda baixos e nervosos. Dani fez sinal para que Margot levasse a filha para o quarto e a tentasse fazer dormir. A companheira concordou, e as duas saíram devagar até o quarto.

Algumas pessoas começaram a gritar do lado de fora, todas perguntando se estava todo mundo bem. A princípio, não houve danos irreversíveis e o número de mortes talvez fosse muito baixo. Se é que haviam mortos. Dani abriu a porta principal da casa e a primeira coisa que viu foi a rua quase deserta, apenas com algumas pessoas vagando desorientadas. Uma segunda olhada mais aprofundada revelou que em alguns pontos era possível ver automóveis destruídos e com as rodas para cima.

Dani decidiu que queria ver aquilo mais de perto, mas antes de colocar o corpo para fora da varanda ela deu uma rápida conferida no céu. Nada. Apenas estrelas.

Quando saiu até a rua, viu que haviam dois vizinhos seus ( Robert e Walter, se ela não estava enganada ) tentando desvirar um automóvel que parecia ser uma saveiro. Eles forçavam o máximo que podiam, mas o veículo ia apenas até certo ponto e depois tombava outra vez. Na terceira ou quarta tentativa, o carro se ergueu e antes que tornasse a cair arremessou o que havia sobrado de seu motorista no asfalto. Walter e Robert pularam para trás, enquanto Dani soltou um gritinho e tentou virar o rosto mas já era tarde demais. Ela achava que aquela poça de carne caberia em um balde. Deu meia volta e retornou até o interior de sua casa, onde acabou encontrando Margot sentada na sala de estar, com o corpo curvado e as mãos segurando a cabeça.

Assim que a viu, endireitou o corpo rapidamente.

— Como está lá fora?

— Uma merda. A Dora conseguiu dormir?

— Sim. Acho que amanhã vou ter uma conversa com ela. Sabe, tentar deixar ela mais calma.

— É uma boa ideia. — Dani sentou-se ao lado da companheira e a abraçou. Sentiu o corpo dela pesado, tenso, carregado. — E você, como está?

— Não sei. Antes era apenas a chuva, o pessoal sabia se prevenir. Mas se os carros estão sendo puxados, logo serão as casas e talvez até o solo. Já viu a loucura que é isso, querida?

— É, está piorando. Na verdade até demorou pra chegar nesse ponto.

— O que vamos fazer?

— Por ora, descansar, — falou Dani, aninhando o corpo no sofá e puxando Margot para junto de si. — Depois decidimos o que fazer.

As duas deitaram e o sono só veio meia hora depois, então elas dormiram com o som dos estrondos ainda ecoando em suas cabeças.



Elas acordaram por volta das oito horas e o sol brilhava forte, entrando pela janela e refletindo na mesinha de centro da sala de estar. Lá fora, o barulho das sirenes ecoava e o som dos restos dos automóveis sendo recolhidos era incômodo. As duas saíram até a varanda e puderam observar um caminhão contêiner cruzar pela frente de sua casa com os restos das ferragens de alguns veículos.

Inevitavelmente olharam para o céu e viram apenas um azul infinito. Era uma manhã bonita e quente, mas em nada podia se dizer que era agradável. O vapor que subia do chão era sufocante, e Dani não conseguia se esquecer do amontoado de carne que saltara de dentro daquela saveiro.

Ela ainda estava pensando nisso quando ouviu uma voz distante surgir de dentro de sua casa, e então se deu conta que se tratava do rádio que Margot acabara de ligar. Na estação local as notícias não poderiam ser outras, mas até que elas não chegavam a níveis desesperadores. Boa parte dos carros sugados pela nuvem estavam vazios, de modo que os danos foram em sua maioria materiais. Havia uma informação sobre um automóvel ter caído sobre a creche municipal da cidade e causado uma grande explosão, mas aquilo ainda não estava confirmado pelas autoridades. Margot levou uma das mãos ao peito e fez um gesto negativo com a cabeça, e Dani tratou logo de acalmá-la.

— Foi na madrugada. Não havia ninguém por lá, caso isso seja verdade.

— É a creche da Dora, amor. Se isso acontecesse no meio da tarde ela e outras crianças poderiam ter...

— Mas não aconteceu, — interrompeu Dani, abraçando a namorada. Ainda era possível sentir a tensão da noite passada em seus ombros. — Vou ligar para lá e ver se está tudo bem. E procure não falar sobre isso na frente dela, está bem?

— Certo. — Disse Margot, e quando Dani se afastou para buscar o celular ela lhe chamou com um psiu. Esperou que ela olhasse de volta e falou. — Obrigada. Você me dá forças, sempre deu.

Dani lhe mandou um beijinho e lhe piscou o olho.




— Ninguém atende na creche, — disse Dani, guardando o celular no bolso. Já era a quarta vez que tentava ligar para lá e não obtinha resposta. Tinha em mente que as linhas telefônicas deveriam estar desligadas por tempo indeterminado, muito provavelmente por terem sido atingidas por alguma coisa na queda de automóveis da madrugada anterior.

Mas não dava para ter certeza quanto a isso, de modo que Margot já começava a criar mil e uma teorias em sua cabeça. Dora ainda permanecia dormindo, e Dani não queria que ela escutasse nada que envolvesse a sua escola e explosões, ou coisas do tipo. Tentou acalmar a companheira mais uma vez, lhe preparou um chá de hortelã e disse que daria um pulinho na creche para ver como as coisas estavam.

— Prefiro ir eu mesma, — disse Margot. Ela gostava de tratar de coisas como refeições e educação, enquanto Dani focava mais em organização e controle de conteúdo. — Sabe que todos me conhecem por lá, sabe que as reuniões são tarefas minhas. Deixe que eu vá, sim?

Dani refletiu enquanto olhava para ela. Adorava aqueles olhos castanhos, o poder que eles tinham de fazer qualquer pessoa se encantar. Lembrava de ter olhado para eles oito anos atrás e se apaixonar, de sentir que não poderia ficar mais um único dia de sua vida sem que dormisse sem que aqueles olhos a encarassem.

Lhe pegou a mão direita e beijou com carinho.

— Está bem, — disse, sentindo uma estranha dor na altura do peito. — Me ligue assim que obter notícias.

— Prometo. E você vá dar uma olhada na Dora.

Dani ergueu a mão esquerda espalmada.

— Prometo, — falou, e em seguida as duas se beijaram sendo tocadas pelos raios fortes de sol.




Quinze minutos após Margot ter saído com o Audi, Dani levou a filha até a varanda para que pudessem brincar. Elas se divertiam com pouca coisa, e naquele instante a brincadeira era de adivinhação. Dani já havia errado propositalmente as duas primeiras, e na terceira já estava quase utilizando de sua última pista.

— Você é muito boa nisso, — falou. — Se eu errar esta, terei que pagar uma prenda, certo?

— Aham.

— Poxa, acho que vou levar a pior — disse, olhando para a hora na tela de seu celular.

Em um dia normal, estaria no trabalho polindo carros e ouvindo seu colega Matheus falar asneiras. Mas os serviços costumavam ser suspensos sempre um dia depois da chuva, caso houvesse algum problema para ser resolvido ou até mesmo para que a cidade retomasse a sua rotina natural.

Dora lhe falou a última pista de sua charada, e enquanto Dani se lamentava por ela ser muito difícil, olhou casualmente para o céu. A nuvem estava tão próxima que ela quase não acreditou.




Não havia nada de errado com a creche e também não havia ninguém por lá oito minutos atrás.

Margot estava agora a poucas quadras de sua casa, parada no acostamento e tentando telefonar para Dani. O Audi começou a mostrar que estava com algum problema assim que ela deixou a creche para trás, mas Margot não fazia ideia do que poderia ser. Era Dani quem entendia de mecânica.

Ela conseguiu levar o automóvel até onde ele resistiu, depois o Audi começou a engasgar e sacolejar até que finalmente parou. Não haviam muitos carros passando por ela no momento, e Margot logo percebeu o porque. A nuvem imensa que se agigantava ao leste tinha um tamanho descomunal. Ela era em boa parte branca, mas em algumas partes se deixava acinzentar e até quase escurecer. Margot sentia arrepios só de olhar para ela.

O celular estava completamente sem sinal, e ligar para Dani já era uma missão praticamente perdida. Olhou mais uma vez para a nuvem e calculou que ela tinha menos de quinze minutos até a chuva começar a subir. E mais ou menos o mesmo tempo até chegar em sua casa se saísse correndo naquele exato momento.

Mordeu os lábios e antes de abrir a porta viu um veículo vermelho cruzar a toda na direção oposta, fazendo o Audi sacudir.

Deu uma última revistada no interior do carro para ver se nada importante iria ficar para trás, e quando se certificou que estava tudo certo abriu a porta e saiu.

Um ar quente atingiu o seu rosto, e ela sentiu o cheiro de água, de terra e de medo. Tentando não pensar no que seu corpo estava sentindo, Margot Mascarenhas começou a correr.




Dora estava fazendo rabiscos toscos em folhas de papel, enquanto Dani aguardava Margot ao lado do portão. Já havia tentado ligar para ela uma dúzia de vezes, mas só dava caixa postal. A nuvem já estava praticamente sobre a cidade, e logo iria começar a chover.

Dava para sentir a umidade no ar, e aquilo nunca provocou tantos arrepios em Dani como agora. Esticou o pescoço para a rua e não enxergou uma alma viva sequer, então o aperto em seu peito aconteceu outra vez.

Pensou em voltar para a varanda, viu Dora rabiscando no papel e assobiou para ela. A menina ergueu a cabeça e olhou em sua direção, então Dani lhe abanou e fez um biquinho. Dora retribuiu, baixou a cabeça e voltou a sua atenção para o que estava desenhando. Dani achava que ela estava linda naquele momento, uma paz que só a inocência de uma criança seria capaz de produzir. Desejou que Margot estivesse ali com ela para ver aquela cena, para que pudessem curtir a filha juntas e sentir a mesma emoção juntas, mas ela não estava. O peito ardeu pela terceira vez naquela manhã, e Dani procurou pela companheira na rua mais uma vez, e desta vez ela achou.

Margot vinha correndo o mais rápido que podia, quase aos tropeços, mas ela não estava só. A chuva subia logo atrás dela, devagar, apenas uma garoa, uma pancada de verão que vinha mansa mas objetiva.

Dani quis correr na direção dela, pegá-la e trazê-la em segurança, depois percebeu que era uma péssima ideia. As duas provavelmente seriam sugadas pela nuvem antes mesmo de caírem no chão. Gritou para ela correr o mais depressa possível, que ela estava conseguindo, que a chuva estava apenas começando e que ela ainda tinha tempo. Gritou tudo aquilo o mais alto que conseguiu, e ainda assim desconfiava que Margot não tinha sido capaz de escutá-la.

Uma aflição tomou conta de seu corpo, quis mais uma vez correr para os braços de seu amor e o que a fez desistir foi olhar para Dora de pé na varanda. Correu na direção da filha, pegou ela no colo e a apertou forte contra o peito.

— Cadê a mamãe? — Quis saber a menina, chupando o dedão.

— Ela está bem, não se preocupe — e uma lágrima escorreu pela sua bochecha.

De repente, Dani escutou um grito. Olhou na direção dele e viu Margot correndo o mais rápido que seu corpo pequeno podia. Ela ainda tinha uma chance. Uma pontada de esperança brilhou nos olhos de Dani, e ela gritou a plenos pulmões :

— CORRE, MARGOT!! CORRE, PELO AMOR DE DEUS!!!!

Margot percebeu que chegar até a sua casa seria impossível, então entrou aos trancos pelo pátio da dona Gertrudes, deixando um de seus tênis para trás. O All Star voou para longe e Dani conseguiu enxergar ele flutuando e depois sendo sugado para o céu.

Margot corria sem olhar para nada, o rosto totalmente virado na direção de Dani e da filha. Por sorte ela não caiu, apenas tropeçou, levou as mãos para frente por puro instinto. Foi quando a dona Gertrudes abriu a porta de sua casa, viu que se tratava de sua vizinha e com um único baque tornou a fechar a porta.

Dani teve tempo de gritar para que ela a ajudasse, para que pelo amor de Deus ela abrisse aquela maldita porta, mas de nada adiantou. A porta não foi aberta, e Margot subiu para o céu lentamente, chorando e olhando para o rosto coberto de pavor e choque da namorada. Antes de chegar a certa altura, conseguiu enxergar a filha estendendo os braços para ela.




Choveu até o início da noite. Dora dormiu após o seu corpo não resistir ao cansaço, com Dani ao seu lado durante todo o tempo.

Assim que a chuva parou, Dani se preparou para escutar os estrondos de possíveis automóveis que foram sugados. Eles não aconteceram, mas bem ao longe foi possível ouvir que alguma coisa pesada havia se espatifado do céu.

Estava com o corpo destruído, abalado, com a cabeça girando sem parar. Dani não conseguia esquecer do rosto de Margot olhando para ela, pedindo ajuda sem de fato pedir, se despedindo sem de fato se despedir. Foi assim com a sua prima naquele inverno de 92.

E assim como naquele inverno, tudo que lhe restava fazer era esperar que um corpo caísse do céu.



15 de Outubro de 2019 às 15:33 1 Denunciar Insira 3
Fim

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Olá, eu sou a MiRz do Sistema de Verificação do Inkspired. O Sistema de Verificação atua para ajudar os leitores a encontrar boas histórias no quesito de gramática e ortografia; verificar sua história significa colocá-la entre as melhores nesse aspecto. A verificação não é obrigatória para sua história continuar sendo exibida no site, portanto se não se interessar em obtê-la, basta ignorar essa mensagem e não alterar o seu texto. Caso queria que outras histórias suas sejam verificadas, é só contratar o serviço através do “Serviços de Autopublicação”. Sua história está com um errinho muito pequeno na palavra “por que?”. Quando se tratar de uma interrogativa, imediatamente seguida pela pontuação, o correto é utilizar o acento circunflexo no “e”, ou seja, “por quê?”. Por ser um erro minúsculo e que não compromete o entendimento do texto, a história foi verificada, mas fica aqui o aviso! ;) No mais, você escreve muito bem. História incrível mesmo, parabéns!
15 de Outubro de 2019 às 13:22
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