Série A Grande Revelação - Uma Surpresa do Coração Seguir história

twinflamespa Amanda Luna

São Paulo e Nova Iorque, 2020 Há mais de vinte anos, Peter Cooper perdeu sua esposa Anytha Amanda Tavares de Carvalho Cooper e nunca recuperou-se completamente. Anytha Amanda veio a ser sequestrada e morreu num desastre de avião no México, com apenas dezessete anos, deixando Peter e um filho sozinhos. Peter, triste com o que aconteceu, resolveu formar uma banda com amigos e tornou-se num grande astro da música, mas estava em carreira solo atualmente. Anos depois, a jornalista Amanda Amethista Rosenberger Tavares de Carvalho, que mora em São Paulo, vive uma vida atormentada, sofrendo de depressão e dupla personalidade, depois de um acidente de carro. Quando recebe a missão de entrevistar Peter, começa a pesquisar sua vida e sua mente torna-se um pandemônio de tormento, tendo certeza que conhece-o de algum lugar, depois que vê a foto de sua falecida esposa Anytha Amanda. Agora, Amanda Amethista deve ir entrevistar Peter Cooper em Nova Iorque, sem saber que entraria num turbilhão alucinante, que mudaria tudo aquilo que acreditava ser verdade e transformaria sua vida totalmente...


Drama Todo o público.

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Capítulo 01 — Resquícios do Passado


São Paulo, 2020


Amanda Amethista Rosenberger Tavares de Carvalho, estava dormindo quando o despertador sinalizou cinco e meia da matina. Gostava do barulho terrível de um relógio antigo, herança de seus falecidos pais, porque o barulho do celular era baixo demais para seu sono pesado. Demorou um minuto para que o ruído incomodasse seus ouvidos e levantasse os braços para acender a lâmpada do abajur e desligar aquele tremelique chato. Ficou com o braço direito estendido no chão, gemendo como se estivesse sentindo dor, mas seria apenas preguiça de levantar. A madrugada estava gelada e pelo visto, a temperatura não aumentaria no decorrer do dia.

Depois de uns cinco minutos naquela posição, tomou coragem e saiu da cama devagar, indo em direção do botão que ligava a lâmpada do quarto. Quando tudo clareou, seus olhos ainda permaneceram incomodados pela luz do ambiente. Olhou ao redor para acostumar-se sem o escuro e botando as mãos na boca para tampar um bocejo, espreguiçou-se com vontade, ansiando pelas aulas de ioga daquela noite. Pensou naquele monte de coisas que deveria fazer durante seu período no Jornal Folha de São Paulo, que tinha uma revista de variedades também. Sua especialidade era desenvolver matérias relacionadas às artes em geral, tinha colunas no jornal e na revista, sendo considerada tão competente, que recebeu diversos prêmios por isso.

Depois de considerar a canseira que teria no trabalho, sabia que teria que encarar Hugo Fernandes, que mesmo sendo gentil e prestativo, preocupando-se com sua pessoa, nunca conseguiu tocar seu coração gelado, apesar de ser errado envolver-se com seu chefe de redação. Mas Hugo era alguém bom e só queria seu bem, o problema seria que Amanda Amethista não queria carinho de homem algum depois do acidente de carro que sofreu e que tornou sua vida inteira num pesadelo sem final. Amanda Amethista ajoelhou-se, juntou as mãos diante do peito e fechou os olhos, começando a orar para Deus dar-lhe muita sabedoria de manter-se distante de problemas. Desde que colocou Jesus em sua vida, as batalhas tinham aumentado, mas sabia que teria vitória sempre. Terminou suas preces, agradecendo por tudo e levantando-se do chão, estava pronta para iniciar suas tarefas diárias.

Como morava sozinha, desde que seus pais tinham morrido, fazia uns dois anos, sua vida era muito monótona. Não tinha amigos, apenas Maira Sousa, que conheceu na infância, estudando na USP, no curso de jornalismo. As duas trabalhavam no mesmo lugar, mas Amanda Amethista quase não saia com Maira para lugar algum. Era um espírito estranho, quase não gostava de companhia e divertimentos mundanos eram considerados frívolos. Não sabia por quê, mas desde que sofreu seu acidente de carro, que deixou-a desmemoriada, não conseguia ter motivos para achar qualquer coisa divertida de fato. Nem mesmo Maira pôde animá-la para que mudasse de pensamento, parece que depois que suas poucas memórias voltaram, tudo tinha tornado-se num grande teatro, onde era a estrela principal. Como se sua vida fosse uma verdadeira farsa, mesmo sem entender nada.

Deu um suspiro profundo e resolveu arrumar as coisas para ir trabalhar. Ficar remoendo nada ou lembranças vazias, deixava-a mais frustrada. Aquele sentimento de fracasso tinha deixado-a desenvolver depressão profunda, ao ponto de tentar suicídio aos vinte e um anos. Seus pais padeceram horrores com aquilo, queria saber quem seria realmente, mas somente conseguiu cair num poço sem fundo. Seus pais viviam falando de Jesus, mas o caos do coração de Amanda Amethista era maior. Foi quando Maira voltou a falar-lhe de Jesus e viu que precisava de sustentação. Maira tinha tornado-se na sua melhor amiga e suas palavras fizeram-na perceber que precisava de auxílio, não apenas dos médicos, mas um conserto espiritual. Jesus deu-lhe tudo e percebeu que se nada recordava-se de seu passado, era devido Jesus saber que isso poderia prejudicar-lhe de algum modo. Se algum dia tivesse que descobrir o que passou-se antes do acidente, Jesus mostraria-lhe tudo, agora, compreendeu que aquela bruma tinha que ser assim, aceitando seu destino.

Abriu o guarda-roupa e escolheu uma roupa quente, sabendo que teria um dia friorento. Pegou um conjunto preto, de malha e lã, além de uma echarpe verde, para colocar em volta do pescoço, além da lingerie. Foi no banheiro lavar seu rosto e escovar seus dentes, para começar a ter produção. Era Sexta-Feira e no final do expediente, só queria voltar para casa e dormir até o dia amanhecer. Depois de fazer isso, tirou seu pijama de algodão e decidiu tomar um banho quente, para limpar-se devidamente. Entrou no box e ligou a ducha, deixando a água purificar seu corpo e seu espírito partido.

Quando terminou, pegou uma toalha e enxugou-se devidamente, enrolando os cabelos castanhos. Trocou-se e veio até o quarto, onde procurou pela escova, sem paciência para ligar o secador. Mesmo não querendo, depois de começar a pentear os cabelos, seu cérebro focou no passado e aquela sensação ruim voltou.

Mirou-se no espelho da cômoda e analisou seus traços bonitos. Quando teve seu acidente de carro, seu rosto ficou deformado, tendo várias lesões internas e externas. Ninguém sabe como conseguiu sobreviver, sendo apenas um milagre. Aguentou muitas cirurgias plásticas, umas pelas mãos de seus pais e outras por médicos renomados do Brasil. Ficou cega e seus cabelos foram atingidos por chamas, perdendo todo couro cabeludo. Por sorte, as queimaduras tocaram apenas sua cabeça, não espalhando por áreas maiores. Mas ainda assim, teve que suportar um sofrimento muito grande. Foi mais de um ano para restaurar seu rosto a algo parecido com sua aparência anterior, um transplante de córneas e um transplante cabelos. Agora, lembrando de seus retratos de anos atrás, via como tinha voltado a ter quase aquelas mesmas feições, apesar de sentir-se olhando para uma desconhecida. Era como se aquela adolescente dali, fosse alguém diferente, que nada tinha de familiar. Escovou os cabelos castanhos e compridos, vendo um par de olhos puxando para uma cor de avelã. Sempre que analisava seus traços, preferia ser loira e de olhos azuis, não sabendo o motivo daquilo, se sempre foi morena. Segurou o cabo da escova com força e fechou os olhos, pedindo para Deus afugentar aqueles pensamentos sem nexo. Fez outra prece por uns dois minutos e voltou a abrir os olhos. Precisava ser forte, mesmo sua vida sendo solitária, depois da morte de seus pais, numa tentativa de latrocínio.

Quando isso aconteceu, Amanda Amethista presenciou seu mundo ruir como castelo de areia. Não fosse todo apoio de Maira, não sabia como teria sobrevivido, mas sua Fé em Jesus era maior que tudo, dando-lhe suporte para passar por aquilo de cabeça erguida. Os ladrões foram presos, mas mesmo odiando-os mortalmente, terminou perdoando-os, no final das contas. Foi um momento difícil e uma decisão importante, para dar paz de espírito à si mesma. Os marginais estavam presos, mas depois de visitá-los e dar-lhes remissão, aquilo tocou seus corações e até mesmo os condenados vieram a arrepender-se de suas atitudes, procurando Jesus. Como evangélica, tinha cumprido sua missão, não que aquilo tornasse-a numa pessoa melhor, mas deu-lhe tranquilidade, apesar da falta que seus pais fariam sempre.

Ao acabar de escovar e secar seus cabelos, decidiu parar de pensar naquelas coisas. Mas todos os dias, assim que acordava, tudo voltava a martelar na sua mente, deixando-a confusa, mas acabando por abafar seus próprios gritos de socorro e por conter suas lágrimas de padecimento. Sua vida particular era mergulhada em dúvidas, mas aquela força de vontade, permitia que sorrisse para as pessoas, espalhando alegria por onde passasse. Essa era incumbência, ser exemplo de superação e mostrar que Jesus brilhava em seu rosto.

E assim, desceu as escadas, entrando na cozinha para preparar seu desjejum, mesmo que Dora, sua empregada, tivesse deixado outros alimentos prontos, porque não trabalhava nos finais de semana, imposição antiga de seus falecidos pais. O dia já tinha amanhecido totalmente e a casa estava bem clara pelos raios de sol, apesar do clima gelado. Preparou o café e o leite, como de costume, procurando pelos pãezinhos, esquentando no micro-ondas, enquanto pegava frutas e sucos também. Gostava de estar bem alimentada durante a manhã, já que seria a refeição mais importante. Comeu muito bem e colocando tudo na máquina de lavar pratos, arrumou tudo impecavelmente, não gostando de deixar nada bagunçado, porque detestava desorganização.

Assim que terminou seus afazeres na cozinha, veio até o escritório, precisando pegar alguns papéis, analisá-los e separar tudo em sua pasta usada no trabalho. Olhou tudo, fez algumas anotações e guardou certas coisas, quando ouviu o telefone tocando, tendo um susto. Depois de recompor-se, atendeu e ouviu uma voz rouca do outro lado da linha.

— Bom dia, gatona! Como está? — Maira cumprimentou e perguntou, bem animada. — Será que sobreviveremos a esse frio tenebroso?

— Oie! Bom dia, Maira! — respondeu Amanda Amethista, sorrindo pelo telefone. — Eu até consigo suportar esse frio, mas prefiro calor, rs.

— Pois é, mas estamos no inverno. — Maira comentou, como quem nada queria. — Logo deve esquentar, já que aqui, nunca temos estações definidas, como nos Estados Unidos.

"Estados Unidos... Por que esse país chama-se tanto a atenção, se nunca estive lá? Minha mãe era americana, eu sei conversar em inglês por causa disso... Aliás, quando voltei do coma, comunicava-me apenas nesse idioma, mas isso era devido à minha confusão mental, explicaram para mim, que seria algo normal de acontecer, só que acho tudo ainda muito nebuloso, é como se algo não encaixa-se nisso, não consigo explicar ou entender", pensou Amanda Amethista, mas decidiu encerrar o pensamento, já que poderia voltar a sentir mais desordem dentro de si mesma.

— Bom, é bem assim mesmo, moramos num país tropical, como comenta naquela música bastante conhecida... — Amanda Amethista obrigou-se a tentar desfocar do assunto, aquilo poderia deixá-la perturbada, mais perguntas sem respostas. — Mas por que está ligando essa hora?

— Queria perguntar se quer uma carona para nosso trabalho e se gostaria de comer alguma coisa depois do expediente, te levo para casa depois. — Maira tentava convidá-la para sair de seu mundinho cor-de-rosa. — Por favor, Amanda Amethista, já que gosta de ser chamada pelos dois nomes, estou insistindo, já que nunca sai para nada e desde que meu marido César morreu, ando sozinha e você quase não passeia comigo.

— Maira, eu até poderia dizer sim, porém, não preciso mentir para você. — Amanda Amethista respondeu, sabendo que Maira precisava de companhia também, desde que César morreu de um ataque cardíaco fulminante, deixando-a com dois filhos adolescentes, mas estava sem vontade mesmo. — Eu vou de carro para o trabalho e me perdoe mesmo, mas prefiro permanecer em casa essa noite, não estou com vontade para ir em lugar algum.

— Pois é, eu tentei, pelo menos... — Maira disse, com voz cansada, demonstrando insucesso, como sempre. — Eu só quero que deixe de ser reclusa, isso deixa seu espírito envolto em sombras... Mas tudo bem, a gente vê-se no trabalho, ok?

— Desculpe, Maira, mas no final de semana, quem sabe, podemos ir numa lanchonete? — Amanda Amethista tentou animá-la, sabendo que Maira era sozinha também. — Por favor, eu prometo...

— Tudo bem, só quero que mude, que saiba que ainda existe vida lá fora, ok? — Maira comentou. — Jesus está em sua vida, mas existem coisas dentro de você, que não deixa ir embora, como seu passado antes do acidente e a morte de seus pais... Isso já passou, tinha que acontecer, Amanda Amethista... Fique bem, conversamos no trabalho, até mais tarde.

Amanda Amethista escutou Maira desligar, sem nem ao menos querer resposta. Estava magoada, era concreto, mas aquele sentimento de solidão forçada era maior que tudo. Sabia que tinha que aceitar que nem tudo era como queria, mas ainda não tinha capacidade de mudar por completo, como se esperasse um milagre de algo, não sabia bem. Suspirou por alguns segundos, querendo chorar, mas segurou as lágrimas de novo. Se deixasse isso acontecer, nem trabalhar naquele dia, teria condições. Voltou a concentrar-se nos papéis e pegando aquilo que seria necessário, colocou na pasta e arrumou o resto das coisas, pegando seu celular e seu notebook, botando lá dentro também.

Saiu do escritório, pegando as chaves de casa e as chaves do carro, que estavam em cima de uma mesinha. Abriu a porta e sentiu uma lufada de vento gelado. Teve vontade de voltar correndo e esconder-se dentro dos cobertores, mas decidiu resistir, como sempre. Girou a chave na fechadura e digitou os códigos de segurança, apesar de morar num condomínio fechado. Seu carro estava estacionado em frente e dirigindo-se para lá, abriu a porta e entrou dentro, sentindo uma pequena quentura agradável, não sabia por quê.

Ligou o carro, vindo dirigindo até o portão de entrada e saída, fazendo sinal para o porteiro abrir. Depois de alguns segundos, a saída foi liberada e Amanda Amethista pegou a rua, indo em direção de Santa Cecilia, onde localiza-se o escritório da Folha de São Paulo. Morava na Aclimação, às vezes, demorava um pouco para chegar lá. Ligou o som do carro e depois de ouvir umas notícias, mudou de estação, enquanto dirigia e esperava chegar ao seu destino.

Escolheu ouvir música internacional na Antena Um, com alguns cantores tocando ótimas canções. Foi quando aquela voz macia, que tocava seu coração, veio como um raio. Era Peter Cooper, um famoso vocalista de baladas românticas. A música dissertava sobre o quanto uma certa mulher amava-o, que deixava-o cheio de paixão, ansiando por mais daquele sentimento. Amava ouvir Peter Cooper, chegou a comprar alguns CD'S e DVD'S, mas seus pais não viam com bons olhos aquele amor platônico. Não entendia muito bem, parecia que conhecia aquele homem de algum lugar, tendo sonhos estranhos, em que conheciam-se, mas nunca podiam tocar-se, como se existisse uma barreira invisível, que separava-os naquela existência. Seus pais relatavam isso ao psicólogo e psiquiatra que cuidavam-na desde depois do acidente fatídico, tentando convencê-la que viver em sonhos, poderia deixá-la ter delírios, já que tinha reclamações de suas lembranças anteriores serem distorcidas. A verdade, seria que tentavam convencê-la a deixar Peter Cooper de lado, porque aquilo estava sendo nocivo. Diziam tantas coisas horríveis, querendo impor-lhe medo e que desistisse de seu amor por Peter Cooper, que terminou deixando suas intenções de lado. A fixação permaneceu adormecida dentro de seu coração, mas aquele amor platônico nunca veio a ser esquecido por completo. Movida pelo medo que todos impuseram-lhe, quase nada sabia da vida de Peter Cooper, decidida que talvez fosse melhor assim, até porque era alguém muito restrito. Será que seria por isso, que nunca teve ninguém em sua vida? Como se estivesse guardando-se para aquele homem? Mas depois, considerava aquilo ser bobagem. Não estava mantendo-se incólume para ninguém, porque nem ao menos era mais virgem. E nem mesmo lembrava-se com quem perdeu sua virgindade, apesar de Maira dizer-lhe que poderia ter sido com seu ex-namorado Bruce, que morreu no acidente, mesmo com Amanda Amethista não contando-lhe nada disso antes de perder sua memória, porque sempre assegurou ser virgem. Só sabia que depois que passou pelo acidente de carro, evitava todos os homens, como se estivesse esperando apenas Peter Cooper, talvez...

A música acabou e voltou a suspirar. Quantos planos movimentou para conseguir encontrar seu grande amor? Eram castelos de areia, que foram destruídos pelo tempo, devido as pessoas dizerem que aquilo poderia aniquilá-la. Mas como isso poderia acontecer? Não sabia de nada, mas o medo que imputaram-lhe dentro de si mesma, tornou-se como um monstro cheio de tentáculos, que precisou ser exorcizado como um demônio devorador. Agora, só ouvia as músicas de Peter Cooper, quando passava por acaso, em algum local ou em algum momento. Passou a evitá-lo, como se fosse um inimigo invisível.

Aqueles pensamentos deixaram-lhe imersa pelo percurso todo, até chegar no prédio da Folha de São Paulo. Depois de entrar no estacionamento, colocou seu carro numa vaga e saindo, terminou por fechar tudo direitinho, ligando as travas internas. Andou um pouco, até alcançar o elevador e vendo que estava com apenas algumas pessoas, pediu para o ascensorista levá-la até o andar do escritório onde trabalhava. Sufocou pensar em Peter Cooper, concentrando-se que tinha trabalho para fazer naquele dia e que depois do expediente, tinha aula de ioga, que deixava-a mais relaxada e concentrada.

Assim que o elevador chegou no seu destino, saiu de lá e encaminhou-se até o escritório, cumprimentando alguns colegas da redação. Deu um sorriso para si mesma e prometeu que nada tiraria seu sossego daquele momento. Chegou na sua mesa e encontrou Maira diante de uma impressora. Assim que Maira virou-se, deu bom dia com contentamento e recebeu um sorriso de volta, percebendo que a mágoa tinha passado.

As duas conversaram um pouco, até voltarem para suas mesas e iniciarem seus trabalhos. Amanda Amethista colocou sua pasta diante de si mesma, além de guardar seu celular, retirando alguns papéis que precisaria usar e botando seu notebook lá também, além de possuir seu computador particular do lado.

Tudo estava correndo normalmente, mesmo com alguma pressa para fechamento de certas matérias. Na hora do almoço, Amanda Amethista e Maira saíram, indo comer alguma coisa numa lanchonete próxima. Amanda Amethista resolveu não comentar seus pensamentos escabrosos sobre as dúvidas de seu passado e sobre Peter Cooper. Seria apenas repetição de conversa antiga e Maira responderia que precisava esquecer aquilo, que Jesus precisava completar o resto da obra em sua vida. Amanda Amethista sabia de tudo aquilo e que Maira estava correta, de nada adiantando reclamar da mesma ladainha que persistia na sua mente, em todos os momentos. A conversa girou em torno de banalidades e insistência de Maira convidar-lhe para outros passeios, com Amanda Amethista respondendo que na outra semana, poderia estar disponível, cedendo à pressão.

Depois de comerem devidamente, voltaram para o escritório da redação e trabalharam mais algum tempo, até que quando deu quatro e meia, Guilherme Lemos, seu colega de trabalho, disse que Hugo precisava conversar algo urgente e queria vê-la imediatamente. Amanda Amethista franziu o cenho e mordeu os lábios, mostrando nervosismo. Era claro que nunca gostou de dialogar com Hugo, não porque fosse alguém desagradável, mas devido saber que gostava de sua pessoa com carinho. E tinha que possuir pulso firme para não terminar sendo despedida por mais faltas, quando tinha suas crises de existência.

Com isso, suspirou e pediu para Deus dar-lhe muita paciência. Levantou-se e veio até o escritório de Hugo, batendo na porta, dizendo seu nome. Após aguardar alguns segundos, Hugo respondeu que poderia entrar. Girou a maçaneta e entrou, já ansiando em sair correndo.

— Boa tarde, Amanda Ross. — cumprimentou Hugo, mencionando seu pseudônimo. — Sente-se, tenho algo para comentar de seu trabalho.

Amanda Amethista veio diante de uma cadeira e sentando-se de modo adequado, esperou que Hugo explicasse do que tratava-se.

— Bem, um de seus cargos é entrevistar celebridades, dizer assuntos relacionados à música, né? Bem, acho que conhece o cantor Peter Cooper, que pertenceu à banda Reflection, que tornou-se famosa no final da Década de Noventa. — Hugo explicou-lhe, para iniciar a conversa. — Pois bem, Peter Cooper pretende vir ao Brasil nesse ano e precisamos de alguém para entrevistá-lo nos Estados Unidos... Queremos que vá até Nova Iorque, na semana que vem, para conseguir essa matéria no jornal e na revista, já estando tudo agendado.

— Peter Cooper vem para cá? Quando? — Amanda Amethista sentiu o chão girar e segurou-se bem na cadeira, tentando não partir para uma crise de pânico. — Por que eu estou sendo escolhida para entrevistá-lo? Devo partir que dia?

— Sim, Peter Cooper chega aqui, no início de Setembro, fazendo uns dois espetáculos, em São Paulo e no Rio de Janeiro. — Hugo explicou-lhe, sem perceber o rosto quente e vermelho de Amanda Amethista. — Você é fluente em inglês, é nossa especialista em variedades... Quanto a partir, deve ser o mais rápido possível, porque pelo que estou sabendo, seu passaporte sempre está em dia e já esteve na Europa anteriormente, não existe ninguém mais capacitada que você e Maira, que deve ir com você, se quiser.

— Eu agradeço pela incumbência e partirei o mais rápido possível, assim que me agilizar. — Amanda Amethista respondeu-lhe anestesiada, ainda não caindo a ficha do que aquilo representava na sua vida. — E claro, Maira virá comigo, gostaria de sua companhia.

— Bom, bom, então, está tudo resolvido... — Hugo levantou-se e parou detrás da cadeira de Amanda Amethista, que estava nada à vontade. — Chame Maira, quero comentar sobre isso...

Amanda Amethista levantou-se devagar e pensou estar sendo dispensada, encaminhando-se para a porta, quando sentiu Hugo tocar-lhe o braço direito com cuidado.

— Hey, calma, tenho algo a mais para dizer... — Hugo mudou o tom de voz, deixando a fala macia. — Espere, tenho mais um assunto para contar e que não será agradável, infelizmente...

Amanda Amethista virou-se e encarou Hugo, que tocou em seu braço um pouco mais forte e deu um sorriso de canto de lábios, de modo gentil.

— Por favor, sente-se, Amanda Amethista, é preciso que ouça com atenção, ok? — Hugo encaminhou-se para sua mesa. — Espero que entenda toda situação.

— Hugo, o que houve? — Amanda Amethista não estava gostando daquilo. — O que está acontecendo?

— Amanda Amethista, olhe bem... — Hugo pareceu incomodado. — Você é uma ótima repórter e temos muita consideração por você, mas precisamos afastá-la do serviço, porque suas faltas andam demais ultimamente e sabe que acumulou algumas coisas nos últimos meses.

— Como? — Amanda Amethista segurou um engasgo terrível na garganta. — Estou sendo despedida, é isso?

— Sim, você está sobrecarregada e sei do quanto sua saúde anda fragilizada ultimamente. — Hugo pigarreou. — Seu último trabalho será entrevistar Peter Cooper.

— O que eu vou fazer agora? — Amanda Amethista engoliu o choro. — Será que não podem me dar uma chance de mostrar que estou disposta a melhorar ainda mais meu trabalho?

— O problema não é esse, Amanda Amethista, mas o fato de seus problemas de saúde influenciarem no trabalho constantemente. — Hugo apontou. — Você é uma excelente profissional, mas nos últimos meses, tem andado mais afastada que presente.

— Onde vou trabalhar? — Amanda Amethista sentiu-se perdida, porque trabalhar era tudo que segurava-lhe para não enlouquecer. — Eu sei que devia me comprometer mais, mas estou de mãos atadas!

— Amanda Amethista, me escute... — Hugo estendeu suas mãos e segurou seus dedos finos. — Você precisa de um tempo para cuidar de si mesma e só depois preocupar-se com trabalho, porque faz tempo que não anda bem emocionalmente...

Amanda Amethista teve que concordar com tudo aquilo, pois nos últimos meses, teve muitas recaídas de antigas crises e só passava as horas deitada na cama, sem querer comer ou tomar banho, só sendo obrigada a sair daquilo por causa da insistência de Maira.

— Tudo bem, eu entendo... — Amanda Amethista conformou-se. — Eu vou chamar Maira agora e preparar minhas coisas para meu último trabalho, de qualquer modo, muito obrigada por tudo, sei que segurou minhas pontas por aqui, mas precisamos de rentabilidade aqui...

— Eu sinto muito, de verdade. — Hugo suspirou com lentidão e sorriu. — Mas pegue esse tempo e se cuide, você precisa disso e sabe que terá um amigo em mim, caso precise.

— Por favor, não conte nada para Maira... — Amanda Amethista pediu. — Deixe que eu mesma conto, por favor...

Hugo assentiu com a cabeça e Amanda Amethista nem perdeu mais tempo, se levantou e caminhou até a porta, abrindo e fechando como uma autômata. Seu mundo desmoronou, a única coisa que se apegava para não afundar era seu emprego e nem isso tinha mais. Controlou suas lágrimas de frustração, orando para não entrar em crise de pânico, precisando ser forte. Sabia, que cedo ou tarde, aquilo aconteceria. Hugo auxiliou-a como pôde, mas estava ficando improdutiva, mesmo não querendo. Segurou nas paredes e orou rapidamente, terminando por beber água num bebedouro próximo para tranquilizar-se mais. Estava arruinada, sem emprego e sem esperança. A única coisa que tinha agora, era a oportunidade de conhecer seu grande amor platônico, Peter Cooper. Viveria apenas por isso, para poder tocar-lhe de algum modo. Decidiu não contar nada para Maira ainda, precisava raciocinar e preparar as coisas para a viagem. Quando chegou na redação, fazendo das tripas coração, disse que Hugo precisava conversar com sua pessoa, agradecendo a Deus por Maira não haver percebido nada.

Assim que deu o término do expediente, Amanda Amethista e Maira saíram do escritório da redação, indo em direção do estacionamento. Conversaram algumas amenidades durante o percurso e depois despediram-se, combinando de encontrar-se para um passeio no final de semana. Amanda Amethista conseguiu fingir que nada estava acontecendo, contando para Maira da novidade. Claro, que Maira ficou de olhos arregalados e garantiu que iria naquela viagem também. Sabia que Peter Cooper representou um sonho antigo na vida de Amanda Amethista, mas pensava que seria apenas a realização de conhecer seu ídolo pessoalmente. Para Amanda Amethista, era muito mais do que aquilo, tentaria agarrar a chance de tentar entender por quê aquele homem mexia tanto com seu coração e seu espírito, parecendo conhecê-lo de algum lugar que nunca soube e estava prestes a descobrir. Mas será que conseguiria?

Ao alcançarem o estacionamento, despediram-se e procuraram pelos seus carros. Quando entrou lá dentro e ligou para dar a partida, Amanda Amethista sorriu tanto durante o percurso até o espaço onde fazia ioga depois do trabalho, que lágrimas de alegria tomaram conta de seu rosto. Não estava chorando de raiva, estava chorando de felicidade. Sentia como se algo fosse mudar com aquilo, não sabia bem o que seria alterado em sua vida, mas as coisas nunca mais seriam as mesmas.

Estava tão estranho, que até as avenidas e as ruas fluíam bem, não tendo tanto engarrafamento naquela hora de pico. Assim que chegou no local, que ficava na Aclimação também, perto de sua casa, encostou seu carro no estacionamento particular do lugar, apertando o botão que fechava as travas e ligava o alarme, para caso de alguma eventualidade. Entrou no espaço, indo diretamente conversar com sua terapeuta e professora Cilá, uma pessoa muito simpática e boa. Contou sobre as novidades e Cilá ficou muito contente, porque sabia o quanto Peter Cooper representava ao coração e ao espírito de Amanda Amethista. Depois disso, quando começou a aula de ioga, colocou toda sua concentração na prática e na intenção, vibrando energia positiva, para toda sua vida. Relaxou o quanto pôde, deixando a paz imperar dentro de si mesma. No momento que terminou tudo, estava bem consigo mesma. Despediu-se de seus colegas e pegando seu carro, dirigiu até chegar em sua casa. Ao chegar na porta de entrada, deu sinal ao porteiro que queria entrar e depois de perceberem tudo estar bem, deixaram-na entrar. Estacionou em frente à sua casa, na garagem aberta, vindo para sua porta, ansiosa para entrar. Nem parecia que seu mundo havia ruído horas atrás, mas precisava seguir adiante. Estava contente, porque seu último trabalho, era a realização de um grande sonho.

Desligou os alarmes e colocou a chave na fechadura, adentrando o recinto. Colocou sua pasta em cima da mesa do escritório, tirando o notebook e decidida a levar para o quarto. Tinha coisas importantes para pesquisar na internet, depois de tantos anos. Subiu para seu quarto e deixou o notebook em cima da cama. Depois, desceu para comer alguma coisa e voltou para tomar um banho rápido, sentindo-se revigorada. Colocou seu pijama costumeiro, e agora, livre de toda aquela opressão no peito, sentou-se na cama e pegou seu notebook, esperando que ligasse. Demorou uns dois minutos para que a ação completasse-se, esperando poder procurar pelo que estava interessada.

Assim que tudo estabeleceu-se, a conexão Wi-Fi ativou-se e Amanda Amethista entrando no Google, digitou por Peter Cooper. Encontrou várias matérias e poucas entrevistas. Na verdade, Peter Cooper era avesso às muitas entrevistas, só concedendo quando tinha a ver com seus espetáculos ou vida artística, porque vida particular, recusava-se a comentar publicamente. Amanda Amethista leu sobre sua banda Reflection, sendo um dos fundadores, permanecendo por dez anos, para depois partir em carreira solo. Isso tinha dez anos também. Olhou alguns de seus retratos e notou aqueles olhos verdes e seus cabelos platinados pela idade. A sensação de conhecê-lo de algum lugar, tornava-se cada vez mais poderosa. Suspirou de tristeza, ansiando que não terminasse sendo apenas alucinação. Agora, estava olhando sobre sua vida particular e quase não encontrou muita coisa concreta. A maioria dos fatos mencionados, eram boatos sobre seus diversos casos com outras cantoras ou atrizes, com modelos ou esportistas. A lista era tamanha, que era fora da realidade, por completo. Até que percebeu sobre sua ex-esposa Anytha Amanda, teclando com ansiedade. Era curioso chamar-se Amanda também, seu segundo nome, mas o que mais chamou-lhe atenção, era o fato de terem o mesmo sobrenome também. Não tinha ideia, mas aquele nome chamava-lhe a atenção muito, como se tivesse ouvido de algum lugar, que estava escondido dentro de sua mente trancada. Sabia que Peter Cooper era viúvo de alguém chamada Anytha Amanda, mas como quase nenhuma informação era encontrada com mais fundamento sobre isso, Amanda Amethista quase nunca teve interesse em procurar, já que nem mesmo retratos eram divulgados, à pedido do cantor e de toda família da moça, que morreu com dezessete anos. Na época, Peter Cooper estava com trinta e sete anos, sendo anos mais velho que Anytha Amanda. Era estranha tanta diferença de idade. Por que casou-se com aquela adolescente? Deveria tê-la amado muito, já que nunca comentava daquilo. Amanda Amethista ponderou que Peter Cooper poderia ter sofrido horrores com a morte de Anytha Amanda, para deixá-lo tanto tempo calado sobre o assunto.

Passou mais algumas matérias sobre Peter Cooper e Anytha Amanda, quando notou um determinado retrato, que chamou-lhe atenção, alcançado seu foco. A qualidade não estava nítida, mas dava para notar Peter Cooper ao lado de uma mulher. Com isso, mexeu-se inquieta na cama e acomodou-se melhor, para avaliar aquilo. Entrou no site contendo o retrato e começou a ler com atenção. Descobriu que a mulher chamava-se Anytha Amanda Tavares de Carvalho Cooper. Sentiu um baque tomar conta de si mesma. "Tavares de Carvalho", seu mesmo sobrenome. A aflição tomou conta de seu peito oprimido, mesmo sem querer, sabia que choraria, mas não tinha ideia do motivo. A única informação contida ali, era que Anytha Amanda morreu com dezessete anos, depois de um acidente de avião, quando sequestradores estavam levando-a para o México. Todos morreram, inclusive Anytha Amanda. Parte do avião pegou fogo na fuselagem, ao ser abatido no momento que descobriram que os passageiros estavam usando nomes falsos e poderiam ser perigosos, mas o avião não explodiu. O que nunca poderiam saber, seria que Anytha Amanda estava dentro daquele avião, já que quando caiu próximo do aeroporto onde pararia, estava sem documento algum. No momento que Anytha Amanda veio a ser sequestrada, os elementos apenas ligaram avisando que queriam um alto valor no resgate, devido os Tavares de Carvalho serem milionários, dizendo que entrariam em contato depois.

Mas ninguém sabia os nomes e os sobrenomes dos sequestradores. Apenas descobriram onde Anytha Amanda estava, depois de uma minuciosa investigação de dois meses, levando ao seu paradeiro, com as gravações da caixa preta recuperadas auxiliando naquilo, onde Anytha Amanda chorava por Peter e seu filho Marcus. Assim, Anytha Amanda esteve internada em coma como indigente, depois do avião cair no México. Mas quando os policiais e Peter Cooper chegaram no local, tiveram a triste notícia, que havia dois dias, Anytha Amanda teve morte cerebral, com os médicos não desligando os aparelhos ainda, sem saber o que fazer com aquele corpo. Anytha Amanda voltou num caixão lacrado para os Estados Unidos, porque como um pedaço do avião pegou fogo, veio a ser atingida em algumas partes do corpo, tornando-se irreconhecível. Nem mesmo Peter Cooper quis vê-la naquelas condições, estando abalado terrivelmente. A história era aterradora e muito triste, deixando Amanda Amethista chorar de nervoso, quando decidiu dar zoom no retrato. Viu uma moça loira e de olhos azuis, puxando para um verde celeste. Era linda e muito nova para ter morrido daquele modo perverso.

"Por que, Deus? Olha, Anytha Amanda tinha uma vida inteira pela frente, Peter não merecia isso!", pensou, esmurrando o colchão.

Loira e de olhos azuis, como sempre imaginou que poderia ter nascido, fixando seus olhos em Anytha Amanda, quase tremendo com a sensação de ter visto aquele rosto antes. Não tinha como segurar-se, teve uma convulsão diante do choro, engasgou-se diversas vezes, gritando como uma histérica.

— Por que, Deus? Anytha Amanda não merecia morrer assim, Peter não deveria estar sofrendo por isso! — Amanda Amethista clamou, colocando as mãos sobre o peito amargurado, que batia tanto, que causava-lhe dor, dando falta de ar. — E por que estou sofrendo por isso? De onde conheço Peter? De onde conheço Anytha Amanda?

Mas não tinha resposta para aquilo, deixando-a fechar os olhos e querer bater a cabeça contra a parede, de tanta enxaqueca. Depois de ler aquilo, fechou o navegador Mozilla Firefox e desligou o notebook, evitando jogá-lo no chão. Colocou numa mesinha próxima e apagou as luzes, ficando no mais completo breu e silêncio. E chorou lágrimas amargas, chorou tanto e tanto, que terminou dormindo por exaustão e tendo pesadelos, onde via Anytha Amanda gritando pelo nome do marido Peter e do filho Marcus, onde tentava dar-lhe socorro, mas ninguém ouvia seus pedidos de clemência, com o avião caindo e só a morte imperando...

11 de Outubro de 2019 às 18:48 0 Denunciar Insira 0
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