Vermillion Seguir história

psiu_psycho Billy Who

Através do espelho, por onde ela espreita das sombras, posso ver a cela onde a coloquei, como uma rainha torturada sentada em seu trono de espinhos. Há muitas semelhanças entre nós dois, ao ponto de me perder em quem de nós é real.


Conto Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

#day2 #Monochrome-Sons-Inc #Inktober2019 #songfic #oneshot #original #Slipknot
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Retalho número 1.

N/A: Seguindo a proposta de uma amiga de criar algumas shots com os temas do Inktober, que é um desafio para desenhistas, mas desenho realmente não é a minha vocação, então achei interessante essa brincadeira e cá está a shot. Ela é baseada em uma canção do Slipknot, cuja letra acho extremamente bonita, apesar dos pesares. O tema de hoje é irracional.

É isto.


Retalho número 1.


Ela parece vestida em todos os cantos,

De fatalidades passadas.

Tão frágil e tão perigosa.

Ela sempre esteve comigo, meio sádica, meio louca.

Acreditávamos que pudéssemos manter a linha divisória de uma sanidade transparente com um rastro de pólvora, onde nenhum de nós pudesse cruzar.

Seu sorriso rasgado como uma ferida aberta virado em minha direção me fazia sonhar com objetos cortantes, corredores de espinho e quando eu acordava, sentia sangrar.

Dominando e sendo dominado, carcaças de desolação ressurgem quando o sistema está fraco.

Minha amada sempre pode romper nosso trato e cruzar as fronteiras pré-estabelecidas para me atormentar.

Jogando sua dor em mim, como se pudesse me esmagar junto dela, ela criava um circo de cenas grotescas, fazia parecer com uma exposição de minhas fraquezas e justo eu que não ligava para nada ou ninguém, me via enfraquecido.

Quantas noites eu rolei em cacos de vidro, cacos de sua sordidez partida que penetravam em minha pele como ciscos, correndo pela corrente sanguínea e se alojando em meu coração já muito desgastado.

Magoar-me fazia parte do desejo dela já que era a única quem podia fazê-lo, um trabalho exclusivo, havia nascido para tal como se fosse seu compromisso sagrado.

Indulgente e volátil, mantinha meus braços abertos para recebê-la, mesmo que em seu abraço houvesse sempre uma faca apontando diretamente para o meu peito, onde a lâmina se alojava ali com facilidade, criando uma rachadura duradoura, uma das tantas que me fazia sentir desprezo dia após dia por tudo aparentemente que não fosse sobre ela.

Ela é tudo e mais um pouco.

A hipnótica solene.

Minha dália coberta de possessão,

Ela é meu lar.

Eu fico nervoso, perco a razão,

Quando eu a vejo, é pior.

Mas a tensão é gigantesca.

É agora ou nunca.

Ela está vindo pra casa, para sempre.

Trancamo-nos, sacrifiquei-a da visão externa do mundo e nos isolamos sozinhos, pois o sol não deveria vê-la mais, ninguém deveria vê-la mais.

Posicionei-me de joelhos e implorei à rainha das cicatrizes que me torturasse apenas em dias que me sentia forte, que se abstivesse, mas ela não faria uma coisa dessas. Sempre ignorou minhas suplicas, pois o controle estava dia a dia mais forte para seu bel prazer.

Entre os vermes, entre detritos de minha própria vontade de sufocar nossa relação atroz, eu cedi quando a prendi à mim com uma corrente inquebrável, mas admito que havia uma tênue perspectiva inversa quando os dois lados da servidão se percebem, pois não havia mais distinção quem era refém e quem era carcereiro.

Ela me fazia tão infeliz, a única com garras de metal que apertava meu coração e o fazia sangrar.

Sempre comigo, ela assumia o controle da situação, me fazendo sentir anônimo, sem nome e sem lar, este era o veneno que pinga da pontava de sua língua morna.

É difícil dizer o que chamou a minha atenção.

Fixado e louco.

Atração afídea.

Crave meu nome em meu rosto,

Para reconhecer.

Isso é um culto de feromônios,

Para aterrorizar.

Um canto de sereia demoníaco soava como canção de dormir todas as noites e eu acabava cedendo. Rangendo os dentes com sons agoniantes, arranhando meu interior até que as unhas se partam, sentia-a controlar cada pequeno gesto meu, para deleite de sua risada nefária.

Ela se debatia na jaula que criei, mesmo assim, parecia livre enquanto no mundo exterior, o preso era eu, não havia o que fazer.

A encarava com meus olhos artificiais, tentando compreender como pudemos acabar daquela forma, ela estava ferida e sangrava, para minha surpresa, eu também estava. Cicatrizes gêmeas, enquanto eu ria de terror.

Éramos reflexos.

Sim!

Eu sou um escravo e

Sou um mestre

Sem restrições

E colecionadores não checados

Eu existo pela minha necessidade

De me autocorrigir.

Privando-a de ar, eu podia controlar a mim mesmo, podia vestir uma carapuça humana, andar livremente, mas em frente ao espelho onde seu rosto aparece em frente ao meu, eu tocava sua fria superfície e a colocava para dormir.

Ela é algo em mim,

Que eu desprezo.

Ela é algo em mim, que desacredito, que odeio, mesmo assim, nos apaixonamos como uma doença e a carne.

Se ao menos fosse palpável, eu poderia matá-la.

Mas ela não é real, eu não posso fazê-la real.

3 de Outubro de 2019 às 05:29 8 Denunciar Insira 5
Fim

Conheça o autor

Billy Who Escritora de originais independentes pelo Clube dos autores, editora BolsiLivros e antologia Carcoma, dividindo o teclado com um alterego viciado em escrever. Leitora e usuária de stand. Escrever é humano, editar é divino, eu sou um troll.

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tiago líreas tiago líreas
Acho inaceitável como inúmeras fanfics de Naruto com Sasuke tenham muito mais reconhecimento que poemas extensos em prosa como os seus textos. É o primeiro que leio da sua autoria, e tenho de admitir que vou ter de reimaginar um bocado a minha escrita. É exatamente essa intensidade e impacto nas palavras que eu quero alcançar e você acerta em cheio nas descrições. É um daqueles de dar pelo menos uma meia dúzia de caras de "Noossa" enquanto leio antes de chegar ao fim, pelo quão "insanamente" belas e talentosas são as frases. Você possivelmente é a minha autora favorita agora. Continua. (btw, também sou fã dos Slipknot, mas nunca gostei muito da Vermillion, nem tinha prestado atenção à letra. eu vou mais à procura das 'pesadonas' tipo Left Behind, Solway Firth ou Eyeless.)

  • Billy Who Billy Who
    Cara, acho bastante triste na maioria das vezes também. Ontem eu estava lendo uma de um menino aqui, compartilhei com minha amiga e fiquei "olha isso aaaaa" e vejo muito mais do mesmo. Mas é a vida. Nem posso dizer o quão imensamente feliz me deixou o seu comentário, pois acordo todo dia e penso "não está intenso o bastante" hahaha. Muito obrigado, de verdade. Sobre Slip, pra ser franca eu sou mais das pesadas também. Tenho uma relação muito forte com Iowa - que escrevi outro conto chamado Virgínia, baseado nesse som e do que me vem à mente - entretanto Vermillion eu acho bem single à primeira vista, mas a letra dela é muito boa. Muito obrigado mais uma vez e STAY (SIC) :p :) 2 weeks ago
Jp Santsil Jp Santsil
Que forte, gostei muito.

Morghanah . Morghanah .
Caramba, que foda isso que tu fez. Me vieram tantas coisas na mente enquanto lia e conhecia esse rosto no espelho, essa persona a olhar para nós e a vi sorrir em minha direção. Um sorriso grotesco coberto de dentes afiados, viciosos, venenosos e cortantes, assim como ela é. Vi sua sinuosidade doentia a jogar suas correntes e enlaçar quem quer que seja, e como ela é forte. Uma raposa astuta e bela que sabe o que faz, como seduzir e nos reduzir a escravos. A nada. Mas como o narrador mesmo disse após um tempo ou em dados momentos os papeis se investem e somos nós as feras soltas enquanto a persona através do espelho presa ali, nos observa. E isso me fez pensar numa coisa interessante e meio louca; se ela pudesse falar de nós ou por nós, o que diria? Ok, more, viajei aqui nesse comentário, porque, porra, ta tensa essa vida de ler suas shots e com essa música que casa perfeitamente com seu estilo, ficou simplesmente demais. Adorei. Ta linda ( ˘ ³˘)♥
3 de Outubro de 2019 às 01:19

  • Billy Who Billy Who
    Pensa num pavor de pegar uma letra dos Deuses e escrever algo baseado nisso, a insegurança bate hard e eu travo hahahahah Sabe quando é tanta vontade de fazer algo, mas meio que tu trava e no fim não acaba dando 100% de ti, então, eu até gostei em partes dela, a ideia era essa mesma que tá ai, mas eu sinto que não dei tudo de mim, mesmo assim foi divertido. A história de Vermillion é um pouco engraçada, porque ela vem de um album chamado "versos subliminares" e esse album é um realmente mediano, não é dos melhores, embora ali tenha as muitas letras realmente boas que a primeira vista vc ve um bando de mascarados falando besteira pra adolescentes, mas quando se olha mais a fundo, não é bem isso não e Vermillion a primeira vez que a ouvi, eu gamei na intensidade dela, mas a medida que ia ouvindo, via a veracidade nessa bagaça e o final, quando ele diz "ela é algo em mim que eu desprezo, ela não é real, eu não consigo fazê-la real" foi um soco no meu estômago pq eu vi que aquilo era arte. Arte onde vc surpreende o ouvinte com um final com um plot twist e pensei, um dia quero ser igual esse cara quando crescer hahahah Apesar de bem popularzona, ela é uma das musicas mais importantes pra mim, dá pra ver ela da forma que quiser e sim, essa persona no espelho que espreita pode ser qualquer coisa, desde um vicio até aquela partezinha insuportavel que sabota oq se faz, ela pode ser uma ideia ou uma pessoa. Varia de como se interpreta e isso acho genial. Minha interpretação foi esta e suas considerações só aumentam minhas maluquices de pensar a respeito; e se fosse possivel, o que aconteceria? Obrigado pelo teu comentário, more! 3 de Outubro de 2019 às 01:34
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