We're Dual - Volume 2 Seguir história

notaqueenakhaleesi Writer Lay

Takashi está mais do que pronto para partir em direção a Los Angeles e conquistar seu espaço nas trilhas sonoras de Hollywood. Seu plano é deixar New York City e viver seu sonho. Chegar na Califórnia, no entanto, significa também encarar pontos cruciais em sua vida. Arisu, sua irmã mais nova, em poucos meses se tornará uma teen mom. Seu pai projeta suas próprias expectativas de tal forma que Takashi se sente guiado por pressão e predestinação. Além disso, uma sucessão de traumas sobre perda e abandono rondam os pensamentos que o prendem a Manhattan. Apesar de Los Angeles ser tudo que deseja, ainda é tudo que está mais distante de si.


Drama Para maiores de 18 apenas.

#luto #bissexualidade #adolescência
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Parte 1

WELCOME TO NEW YORK


A cidade que nunca dorme. Distante, insensível, agitada, inquieta. Onde só os fortes sobrevivem. A grande selva de pedra, e todos os apelidos que New York City já recebeu na vida, listados e comprovados por mim, nascido e criado entre os prédios antigos que remontam a explosão do capitalismo.

Foi nessa cidade inquieta em que houve a troca que meu pai deve considerar a mais injusta de todas: em 28 de setembro de 2000, eu nasci e minha mãe faleceu no parto.

Um ponto que não foi de minha responsabilidade, mas passou a ser conforme eu crescia e era direcionado para ocupar aquele lugar. “Você tem o sorriso de sua mãe”. “Você tem o mesma caligrafia de sua mãe”. “Você tem a mesma habilidade para exatas de sua mãe”. “Você vai seguir o mesmo caminho que a sua mãe”.

Ninguém nunca me perguntou se eu gostaria de seguir o mesmo futuro interrompido de Hinata. Ah, não. Apenas apontaram para mim os passos que deveria seguir. O de filho prodígio, o da criança que nunca dá trabalho, a de adolescente responsável e agora o de jovem adulto de sucesso. Empurrado por comentários espaçados sobre como eu me encaixava perfeitamente na moldura do que esperavam de uma cria da mulher fascinante que eu nunca pude conhecer.

Aparentemente, a única que não me via assim era a minha madrasta. E era profundamente grato a Mie por me incentivar buscar meus próprios gostos e caminhos. Ela não ficou nem um pouco chocada quando me juntei a equipe de jornalismo do colégio, além de ter sido quem me presenteou com um violão quando eu era ainda um toco de gente. Como a mãe que eu não pude ter tido, ela me conhecia de fato. Nem mesmo Arisu compreendia meus pensamentos como Mie, o que me fazia pensar que estavam todos errados e que na verdade eu me parecia mais com a mulher que entrou em minha vida aos meus três anos do que com a que me deu a vida, literalmente.

Mas eram pensamentos que eu escolhi não ter mais depois que ela partiu daquela casa sem se despedir de ninguém.

— Takashi, alguma notícia da Columbia? — Otousama me perguntou, da cabeceira da mesa de jantar, seus olhos fixos em mim por cima dos óculos de aros redondos.

Levantei a vista do meu prato e sorri de forma amarela, sentindo o olhar desconfiado de Arisu ao meu lado. A barriga de gestante era visível sob seu moletom e ainda me causava dores de cabeça pensar que ela iria ter que lidar com aquela mudança brusca em sua vida sem meu apoio por perto. Tentei focar na resposta padrão que tinha ensaiado e vivia por repetir sempre que esse assunto vinha à tona.

— Nada ainda, mas tenho a certeza de que a carta irá chegar em breve. Tem até o fim do outro mês para chegar, na verdade. — Afirmei, me remexendo um tanto desconfortável na cadeira.

Nem ao menos tinha me inscrito para a Columbia, na realidade. As minhas duas submissões foram para a NYU e para a UCLA. A primeira já tinha me mandado a carta de rejeição, e a segunda aguardava a minha resposta após ter me admitido. Tinha que pensar em qual seria a minha estratégia já que Seiichi Yagami era esperto o suficiente para desconfiar de um pedido para que assinasse um cheque de uma quantia alta com o espaço de beneficiário em branco. Ou eu mesmo pegaria o dinheiro que a família de Hinata tinha reservado para mim em seu nome por todos aqueles anos. Era sempre uma possibilidade.

— Otousama, o senhor está mais ansioso que o Takashi. E talvez devesse pensar na possibilidade dele não entrar na Columbia… — Arisu comentou, tentando me ajudar possivelmente naquela situação espinhosa.

— É óbvio que Takashi vai ser aceito na Columbia! Ele é um legado! Olhe só para ele! — Nosso pai respondeu quase que ofendido, apontando para mim com a mão direita. — Excelentes notas, nenhuma reclamação na diretoria, cartas de recomendação. A Columbia vai implorar para tê-lo entre os seus estudantes de Engenharia, no semestre que vem.

— E se me colocarem na segunda opção de curso? É possível… — Arrisquei, testando o caminho para o dia que contaria que não tinha nenhuma pretensão de fazer o mesmo curso que Hinata, na mesma faculdade que a mesma frequentou.

— Não existe segunda opção, Takashi Ryo. — Otousama foi inflexível, fazendo tanto a mim quanto a Arisu nos encolhermos em nossas cadeiras. — Você vai para a Columbia, nasceu para aquele lugar. Tenho a certeza de que ao menos você não irá me dar um desgosto na vida.

Um silêncio recaiu sobre a mesa de imediato. Mesmo com a mesa de distância, podia sentir cada membro de Arisu tensionado.

Minha irmã tinha apenas 16 anos e esperava o primeiro filho. Nada perto do que o nosso pai esperava dela. Nada perto do futuro brilhante e tradicional que ele contava que nós dois tivéssemos. E mesmo que eu tivesse quebrado essa tradição quando namorei com Caroline Fairbanks, anos atrás, e não com uma garota proveniente de nossa comunidade japonesa, nada disso se comparava com a adolescente que não era um pequeno prodígio e sim parte da estatística de jovens mães da América.

E era bem clara a reação de otousama sobre esse assunto.

— Eu… Vou para o meu quarto. Se me dão licença. — Arisu se levantou, o som de sua cadeira arrastando alto demais para aquele silêncio incômodo.


[...]


— Arisu? Sou eu, Takashi. — Informei em voz baixa, contra sua porta. Otousama havia saído e apenas nós dois restávamos naquele apartamento em pleno sábado. Em outros tempos, Arisu estaria se arrumando para sair com suas amigas do cheerleading e eu estaria esperando ela sair para chamar o garoto que estava “conhecendo melhor”, um relacionamento que não tinha futuro agora que sabia que iria para o outro lado do país, de alguma forma. — Sei que está acordada, estou vendo a luz vindo por debaixo da porta.

A única coisa que recebi foi o silêncio. Se eu tinha problemas para externar o que pensava e sentia, Arisu conseguia ser infinitamente pior. Por exemplo, até aquele momento, eu não tinha conseguido falar com ela desde o dia que reagi de maneira errada quanto a notícia de sua gravidez. Ao invés de ser o bom irmão mais velho, entrei na espiral de julgamento que me foi ensinado. Não fui um irmão, fui um Yagami. E me detestava por esse comportamento, de verdade, e mais ainda por não conseguir me desculpar apropriadamente por esse dia.

— Sei também que pode me ouvir, porque não tem nenhum ruído de música vindo daí. — Acrescentei, apoiando minha mão no material de madeira de sua porta, soltando o ar preso em meus pulmões em seguida. — Eu só queria… Só queria dizer que não é um desgosto. Não para mim. Nunca será. Eu sei que tem sido difícil… Eu sei que otousama continua sendo um retrógrado que não consegue compreender que a vida não é algo modelado perfeitamente e que nós seguimos os nossos próprios destinos. Mas queria… Queria que soubesse que eu não compartilho dos pensamentos dele. Que eu sou… Eu sou seu irmão e vou te apoiar. Porque… Porque temos um ao outro. E eu vou precisar de você… Muito… No futuro, e talvez esse futuro não esteja assim tão distante. E não existe mais ninguém para quem eu possa contar isso. E possivelmente não exista com quem eu possa contar que não você. Eu vou ser o desgosto da família, Arisu. Eu sei disso. Eu serei renegado, com todas as letras. E isso porque… Porque ele não vai saber nunca nem da metade das coisas que eu… É complicado. E eu preciso ter a certeza de que a minha irmãzinha vai poder pelo menos me ouvir. E que vai estar confortável em me contar o que estiver passando também. Porque vai saber que não está só. Não… Por favor, não se isole, está bem?

Encostei minha testa na porta, respirando fundo. Não havia nenhum som proveniente do quarto da garota. Talvez ela estivesse de fones ou simplesmente me ignorando, perdida na dor de ser rejeitada até mesmo pelo pai. E eu sentia muito por não conseguir exterminar aquelas incertezas de dentro dela, e a cada dia parecia que ficávamos ainda mais longe um do outro. E um pânico se avolumava dentro de mim, enquanto me questionava sobre os níveis que aquela reclusão da mais jovem poderia crescer enquanto estava longe. Enquanto não pudesse estar ao seu lado tentando lembrá-la que não estava sozinha.

A porta se abriu de supetão, me fazendo desequilibrar e dar alguns passos para dentro do quarto. Quando ergui o olhar em direção a garota, ela tinha o nariz e os olhos avermelhados.

— Como você se tornaria o desgosto da família se você é tudo que otousama sonhou? — Ela me questionou, a mão na cintura e sua postura de durona tentando sobressair a de quem estava profundamente chateada.

— Garanto a você que ele nunca sonhou com um filho que seja rejeitado nas faculdades e que mantém encontros com um dos alunos da Calhoun School… — Falei em voz baixa, meneando a cabeça.

— Você é gay! — Ela exclamou, em um susto que me fez arquear a sobrancelha em sua direção. — Não que isso seja algum problema ou falha, é só que… Me pegou de surpresa.

— Primeiramente, relaxa. E segundo, eu sou bi. Não que tivesse algum problema em ser gay, mas na verdade eu me atraio por ambos os sexos, então… — Dei de ombros em seguida, como se não fosse nada demais. Como na verdade era.

— Otousama vai infartar se souber disso. — Arisu comentou, me observando atenta e com uma expressão empática.

— Eu sei. Sempre soube. — Falei a ela, com uma conformação sentida em minha voz.

— Sinto muito. E sinto muito também por ter sido rejeitado nas faculdades… Incluindo a Columbia? — Ela me questionou, enquanto sentava na beira da cama. Meu silêncio a fez entender que a universidade da Ivy League não estava mais dentre as quais poderia contar. — Sabia que tinha algo errado com toda essa fuga do assunto.

— No final das contas, nenhum de nós seguirá os desígnios de ser um Yagami. — Afirmei a ela, sentando a seu lado na cama. E então me voltei para seu rosto, encarando Arisu com seriedade e firmeza. — E não há nada de errado com isso, está bem? Nós não somos pré-moldados. Não devemos seguir algo pré-estabelecido porque sim.

— Eu só… Queria que alguém me apoiasse. Que ela estivesse aqui para me apoiar. — E por ela, sabia que minha irmã se referia a Mie.

Engoli em seco, reprimindo aqueles sentimentos de abandono que sempre me atacavam quando o assunto Mie vinha à toa, balançando em seguida a cabeça em sinal positivo.

— Entendo que a queria por perto e queria poder… Fazer algo nesse sentido. — Então coloquei minha mão sobre a sua, em um gesto de juramento. — Mas o que eu posso fazer, e que irei, é nunca te deixar na mão. Nunca vou deixar de te apoiar, Arisu. Não importa o que me aconteça no futuro.

— Acredito em você. — A mais nova me respondeu, em tom de voz baixo.

— Bem, é só o que eu preciso que faça. — Lhe disse, dando um beijo no topo de sua cabeça, a convidando para um abraço logo em seguida.

E assim ficamos por um tempo. Comigo pensando em todas as formas de proteger e manter a sanidade de Arisu no meio do furacão que se tornaria a minha vida e em como as coisas seriam mais fáceis de Mie nunca tivesse nos dado as costas. Mas a vida de um Yagami nunca seria realmente fácil…

13 de Setembro de 2019 às 22:41 0 Denunciar Insira 3
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