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dissecando Edison Oliveira

O medo está por toda a parte. Os perigos, diversos. Quando seu corpo é constituído apenas por barbantes, sua vida está sempre por um fio.


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POR UM FIO




Eu me chamo Cauã Baptista, vivo sozinho em uma boa casa no subúrbio e até onde me lembro tenho vinte e dois anos de idade. Parei de contar desde que minha mãe Denise faleceu. Ela travou uma batalha desonesta contra um tumor, e ele obviamente venceu depois de deixá-la com apenas trinta e dois quilos e uma aparência desumana.

Mas não posso falar muito sobre aparência. Pela ciência, eu nem deveria existir, e só consegui chegar até aqui porque minha mãe sempre se importou comigo. Fora ela quem nunca parou de costurar. Eu sofro de uma síndrome rara ( acho que existe uma menina na Holanda que também nascera desta forma em 2003 ) uma espécie de doença que não é bem uma doença, mas uma constituição física que nem você nem ninguém será capaz de compreender. Acho que nem mesmo minha mãe foi capaz, mas ela fez o que pôde para me manter saudável e longe dos perigos lá de fora. Eu sou feito de barbantes. Meu corpo possui pouco mais de um metro de altura, algo que minha mãe preferiu manter por todos estes anos na expectativa de não precisar gastar muito mais linha do que o necessário. Eu devo pesar pouco mais de um quilo, escuto como qualquer outra pessoa, caminho por onde me dá vontade e até que enxergo bem — embora tenha a leve sensação de que se usasse óculos seria muito melhor. E tem mais uma coisa que precisa saber sobre mim. Eu não sou capaz de falar. Há uma caneta Bic enfiada em minha mão neste momento ( eu não possuo dedos, apenas uma concha que simula esta parte do meu corpo ) e estou escrevendo isso como uma espécie de despedida.

Sim. Acho que é isso que é.



Como já mencionei, quem sempre cuidara de mim foi a minha mãe. Na escola, eu sofria muito preconceito, recebia olhares confusos e maldosos por toda parte que andava e... Pensando bem, nada muito diferente dos dias de hoje. Só que na época da escola, eu não sabia lidar com o meu problema. E as outras crianças muito menos. O resultado disto era voltar para casa quase sempre com uma ponta de barbante puxada para fora. Certa vez, um menino chamado Thiago Neves foi capaz de puxar com a pontinha dos dedos um pedaço da linha que formava o meu pescoço. Eu até que escutei as outras crianças sorrindo de modo abafado, com as mãos cobrindo suas bocas e sendo remedadas pelos professores. Só que aquilo era perfeitamente natural durante as aulas, de modo que não dei muita importância. Apenas na hora de levantar para ir embora é que reparei na pilha de barbantes acumulada próxima ao meu calcanhar.

Quando cheguei em casa, minha mãe logo percebeu. Deixou de preparar o almoço para poder me consertar. Pegou a fita métrica, a tesoura e o rolo de barbantes. Só depois que ela terminou, é que vi a cor que havia utilizado como remendo.

— Desculpe querido. Mas só havia a cor rosa. Hoje à tarde vou comprar mais da branca, não se preocupe. — Disse ela, afagando minha cabeça logo depois.

No dia seguinte, nem preciso contar o tipo de piada que tive que escutar. Foram dias difíceis aqueles do primário, e os do ensino médio um tanto piores. Eu conheci muita gente bacana ( existiram pessoas que não se importaram com a minha aparência, admito isso com muito orgulho ) e até cheguei a nutrir um sentimento especial por Lana Farah, uma menina linda que tinha os olhos mais encantadores que já vi na vida. Obviamente ela não tinha a mesma opinião sobre mim, até porque meus olhos eram ( e ainda são ) dois botões que pertenciam a um sobretudo usado por minha mãe. Mas ela era gente boa, então guardo um carinho especial por ela até hoje, mesmo sabendo que eu me lembre dela como uma princesa saída de um conto de fadas da Disney, enquanto ela provavelmente diga aos filhos que estudou com uma colcha de retalhos que era seu colega de classe.

Na minha vida adulta, pouca coisa mudou. Ainda olham desconfiados para mim, e alguns viram o rosto imediatamente quando eu aponto meus botões escuros para eles. E também existe Félix Rocha. Meu vizinho de frente.




Tudo que precisa saber sobre Félix, é que ele não gosta de mim. Ou melhor, não me suporta. No fundo, acho que ele me detesta a ponto de querer me destruir, de me pegar por uma de minhas linhas e puxar até o último fio.

Vejo isso em seus olhos sempre que nossos olhares se cruzam quando abrimos nossas janelas ou quando ele passeia com seu Pitbull em frente à minha calçada. Ele traz aquela fera até ali de propósito. O cão costuma cagar bem diante de meu portão. Caso eu pise naquilo, terei de desfazer o meu pé e costurar outro no lugar. Sei que isso não seria possível ( minha mãe era que tinha a habilidade certa para me manter )e então procuro evitar qualquer tipo de confronto.

Dia desses, percebi uma outra coisa. Que os olhos de Félix possuem muito mais do que fúria. Ele se esquiva quando percebe que também estou olhando para ele, igualzinho qualquer pessoa que, ou tem nojo ou receio, ou simplesmente medo. Apostaria meu último fio na segunda hipótese.



Semana passada, pretendia sair até a praça para uma de minhas caminhadas. Preciso fazer ao menos uma por semana, caso contrário os barbantes de meus calcanhares correm o risco de se enrijecerem demais, dificultando por muito um simples passo que queira dar. Quando saí no sol lá fora, de imediato notei que o meu portão estava coberto por galhos entrelaçados por espinhos. Eles cobriam toda a sua extremidade, o transformando em um túnel pontiagudo que cortariam e incomodariam um ser humano, e certamente me deixaria preso ali para todo sempre. Ou, em caso de querer bancar o idiota, sairia aos trancos e barrancos deixando metade de minhas linhas estendidas para trás, como um rastro do que um dia fora Cauã Baptista. Preferi não arriscar.

Aquilo fora obra do Félix, por mais que eu não tenha provas concretas para me certificar. Creio que só o ódio ( medo ) dele por mim já basta. Dei meia volta e retornei para o interior de minha casa.



Três dias atrás nos encontramos no supermercado. Eu estava na fila diante dele, e Félix segurava sua cesta de compras e me encarava de cima para baixo, uma superioridade que ia além de nossas alturas. Ele já havia me cutucado na cabeça não uma, mas três vezes, e eu simplesmente não pude fazer nada. A atendente do caixa percebeu o que estava acontecendo, mas não tomou providência alguma a não ser a velha tática de fingir que não está vendo. Um instante depois, senti uma fisgada na parte lateral de meu pé direito. Disfarcei e dei uma olhadinha para baixo e apenas concluí o que já estava suspeitando. O pé de Félix ( que estava calçando um coturno de cano alto ) pisou descaradamente sobre um pequeno barbante que estava escapando pelo canto de meu pé. Se está se perguntando o que acho que deva estar, a resposta é sim. Doeu pra cacete. Mas o pior foi caminhar por alguns metros esticando a linha, que se desprendia de mim como fita isolante se desprendendo do embrulho de presentes. Félix ergueu o pé tempo depois. Mas eu já havia perdido boa parte de meu tornozelo.



Ontem me sentei em minha cadeira favorita que costuma ficar na varanda. Ela é de balanço, e meu pouco peso não é nem capaz de movê-la, mas gosto de pensar que estou me balançando. Para minha alegria, havia um vento fraco que soprava e ele fez essa função por mim. Quando me dei por satisfeito, levantei e comecei a andar com a intenção de ir até o meu quarto. Quando estava na sala de estar, percebi que uma felpa da cadeira de balanço havia se prendido em um de meus barbantes. Fiquei honestamente confuso no momento, e se fosse algo que pudesse fazer, gargalharia até rolar no chão. O que mais se pode fazer quando se descobre que metade de seu traseiro ficou preso na cadeira?



Noite passada até que não foi ruim. Os lugares onde não possuo mais barbantes doem, sinto como se o vento entrasse por ali e se alojasse. Só que o ar é quente e ferroa. Não consegui dormi tão bem como de costume, mas me sinto agradecido mesmo assim. Foi tão reconfortante ouvir o vento lá fora, chacoalhando os galhos das árvores. Foi uma sinfonia triste, mas creio que sempre foi assim. Ou então eu que entendi errado durante todo esse tempo. Fato é que foi escutando o vento e algumas eventuais buzinas, que decidi que era hora de parar.



Se não fosse por Denise Baptista, eu não teria chegado até onde cheguei. Minha mãe me manteve a salvo do mundo, remendando minha estrada onde quer que eu fosse. Com o tempo ( e sozinho nesta casa ) eu não tive muita escolha. Fiz o possível para me manter ativo, mas não creio ter sido o suficiente. Sem uma parte do pé, não consigo andar direito. Sem um lado do traseiro, mal posso me sentar e quando me deito não fico esticado, meu corpo fica pendente. Eu sempre soube que em algum dia todos os barbantes do mundo se acabariam, e eu não teria escolha. Bem, os barbantes não acabaram de fato, e honestamente acho que isso nunca irá acontecer. Ainda assim, eu não me vejo com escolhas. O olhar maldoso de Félix parece aumentar cada vez mais, e o medo que ele sente certamente forma uma mistura perigosa, uma coisa que quando estourar não vai ser nada bonito de se estar por perto. E além do mais, existem outros Félixs neste mundo. Pessoas que adorariam me desfiar lentamente, enquanto riem e gritam inúmeras ofensas antes de irem para suas casas e agradecerem a Deus por seus filhos serem de carne e osso.

Não vou ser hipócrita agora e dizer que minha vida foi boa. Não agora. Não no fim. Diria que ela foi satisfatória. Que cobriu alguns buracos negros de minha humanidade peculiar.

Amarrei um pedaço de linha da minha panturrilha na pilastra de minha varanda. Assim que terminar este texto, vou me levantar da cadeira de balanço ( a safada que me deu uma mordida no bumbum ) e ir até o meu portão. O corredor de espinhos já secou e foi soprado pelo vento, de modo que poderei passar sem mais problemas. Vou sair andando sem destino algum, olhando uma última vez para os lugares que sempre me olharam com temor, partindo para onde tiver de partir, pois sinceramente não creio num céu de barbantes. Irei andar até meu corpo se desfazer por completo e for apenas uma longa tira sem serventia alguma.

Ah, sabe o que comprei no supermercado aquele dia em que Félix Rocha pisou no meu pé?

Este papel e esta caneta.



7 de Setembro de 2019 às 01:14 1 Denunciar Insira 4
Fim

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