S05#28 - VICTORY - PARTE I Seguir história

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Krycek descobre que Mulder sabe do paradeiro de Scully e revela a Skinner, que se sente traído. As mentiras de Mulder são expostas na mesa do sindicato e a raiva é nítida. Mulder precisa fugir. Agora eles têm menos de 48 horas para salvar o filho. Será que desta vez a vitória será de Mulder e Scully?


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S05#28 - VICTORY - PARTE I

“Mas não havia ninguém, nem no céu, nem na terra, nem debaixo da terra que pudesse abrir o livro e olhar dentro dele. Eu chorava muito porque não havia ninguém que fosse digno de abrir o livro ou de olhar dentro dele. Então um dos líderes me disse: - Não chore. Olhe! O Leão da tribo de Judá, o descendente do rei Davi, conseguiu a vitória e pode quebrar os sete selos e abrir o livro”.

Apocalipse 5, 3-5


INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

[Som: Gabriel Yared – An Angel Falls]

[Fade out]

Visão aérea da montanha entre a cordilheira. A neblina vai sumindo aos poucos dando lugar à luz do sol. Primavera. Flores e grama verde.

Mulder sentado na grama. Scully sentada entre as pernas dele. Mulder com os braços envolvidos nela, o queixo apoiado em seu ombro. Os dois observam o vale.

Uma esfera de luz aproxima-se deles. Circula ao redor como se brincasse. Mulder sorri. Tenta pegar a esfera, mas não consegue. A esfera continua seu balé ao redor deles. Scully estende a mão. A esfera pousa na palma de sua mão e brilha.

MULDER (OFF): - Logo depois da minha abdução, eu senti algo dentro de mim. Algo que brotava mais forte do que eu. Nunca pensei que sentiria isto. Nunca pensei que eu tivesse um sentimento igual, ou talvez maior do que meu amor por Scully. Se antes eu me remoía de dor por saber que Scully queria o que não poderia ter, agora era eu quem o queria também. Eu tinha este direito. Por que todos o têm e nós não? O que mais doeu em mim durante aquelas experiências foi ter visto tirarem o meu filho de dentro de Scully e o levarem. Tirarem algo que ainda não estava pronto. Um bebê indefeso, que não poderia lutar contra aquilo. Roubaram algo que era só nosso. Da maneira mais covarde e estúpida.

Mulder derruba lágrimas. Olha pra esfera que brilha.

MULDER (OFF): - Scully suportou minha queda, permaneceu do meu lado enquanto eu sofria ataques, enquanto eu não dormia a noite. Ela me ergueu dos meus restos, quando eu achava que nada mais me ergueria na vida. Mas eu de fato nunca me recuperei daquilo, como sei que Scully também não. Nunca foi justo. Nunca houve justiça a nosso favor. Nunca abrimos uma champanhe na vida podendo dizer que o motivo era celebrar a nossa vitória. Eu e Scully sabíamos que a palavra vitória não significava exterminar o inimigo. Sempre soubemos que o inimigo continuaria existindo lá fora. Vitória não era uma vingança. Nenhum sentimento inferior, nenhuma obscuridade. Vitória era sentimento de amor e de luz. As coisas mais puras e positivas do universo. A justiça. A nossa felicidade. Vitória era ter nosso filho. Depois de tanto mal que fizeram a nossas vidas, nós dois que sempre lutamos pela verdade e pelo bem das pessoas, pagamos um preço alto. Com nossos corpos, nossas psiques e nossas almas. Vivíamos eu e ela dos restos de nós dois. Cada um colando o caquinho do outro e completando no outro o que lhe foi perdido ou tirado. Depois de deixarem Scully estéril, ter um filho seria a maior de todas as vitórias, tanto pra ela, quanto pra mim que estava em situação semelhante. Talvez, um milagre. Mas milagres não dependem apenas de Deus, mas de nossa força de vontade. E você, minha filha é um milagre. E como diria Maiakovski, ‘agora, diante dos olhos de todos, nós faremos, nós mesmos, os nossos milagres’.

A esfera é jogada pra longe das mãos de Scully, que fica triste. Mulder estende a mão e agarra a esfera, entregando pra ela.

Corte.


Mulder acorda-se assustado, sentando-se na cama.


VINHETA DE ABERTURA: THE TIME ENDED



BLOCO 1:

FBI – Gabinete do Diretor-Assistente – 8:19 P.M.

Skinner pega sua valise. Desliga as luzes e sai da sala. Caminha pelo corredor em direção ao elevador. O faxineiro faz a faxina de rotina.

DAVIS: - Até tarde, senhor Skinner?

SKINNER: - (SORRI) Muito trabalho, Davis... Boa noite.

DAVIS: - Boa noite, senhor.

Skinner aperta o botão do elevador. A porta abre-se, revelando Carter ao lado de Bill Scully que está vestido num uniforme.

SKINNER: - Boa noite, diretor.

Carter nem cumprimenta. Skinner olha pra Bill, numa fisionomia de quem o conhece de algum lugar, mas entra no elevador. Bill olha pra Skinner também o reconhecendo, mas Carter o leva pelo braço. Bill e Carter seguem pelo corredor. Os dois entram na sala de Kersh. Kersh, sentando na cadeira, lê uma revista. Solta a revista.

CARTER: - Kersh, este é o tenente Scully. De quem lhe falei.

KERSH: - Deve estar se perguntando por que o FBI chamaria um militar aqui dentro.

CARTER: - Sente-se, Scully. Quer um café?

BILL: - Não, senhor, obrigado.

CARTER: - ... O chamamos aqui porque queremos saber do paradeiro de sua irmã.

BILL: - Sinto senhor. Não sei onde minha irmã está. Isso abalou tanto nossa família que minha mãe afastou-se do país.

KERSH: - Sabe pra onde ela foi?

BILL: - Recebi um postal dela da Venezuela.

CARTER: - Quantos irmãos vocês são?

BILL: - Três, senhor. Uma irmã faleceu.

KERSH: - Sabemos disso, tenente. E sabemos quem fez isso. Mas não temos como pegá-lo. Encerra a jurisdição do FBI, se me compreende.

BILL: - O que querem exatamente de mim?

CARTER: - Você é militar, você tem acesso a informações que não temos. Não estou pedindo para trair sua pátria. Estou pedindo que entregue a cabeça do homem que matou sua irmã para que a justiça se faça.

KERSH: - Queremos sua ajuda. Seu comandante sabe de tudo e você está autorizado a fazer isso. Contamos com você pois conhecemos a boa reputação de sua irmã aqui dentro do Bureau. Scully era uma ótima agente. Não merece o que lhe aconteceu. E você como irmão dela, tem boa índole. Além de ter treinamento militar. Li sua ficha e sei que pode matar um homem apenas com um dedo.

BILL: - É só me dizer quem é o desgraçado que eu acabo com ele. Como acabo com quem causou a desgraça e o desaparecimento de Dana.

KERSH: - Seus problemas acabaram, Scully. Toda a desgraça que rondou sua família tem apenas um rosto.

Kersh pega uma foto de cima da mesa e entrega para Bill.

KERSH: - Este homem, chamado Spender, é um problema para a justiça. Ele lidera uma organização extra governamental que atua livre pelo país. É um terrorista. O mesmo que matou sua irmã, que deixou Dana estéril, que a levou e roubou seu sobrinho.

BILL: - (OLHA PRA FOTO COM ÓDIO)

KERSH: - Apenas queremos que o pegue. Para fazer justiça.

BILL: - E quem é esse Spender? Algum político?

KERSH: - Não. Ele é apenas o pai de Mulder.

Bill arregala os olhos olhando pra eles.

KERSH: - E Mulder, como bom filho, está por trás disso, trabalhando pra ele e ocultando informações. Eu e o diretor Carter desconfiamos de que Mulder está por trás do sequestro da agente Scully. Talvez, tenente... Sua irmã não esteja mais viva por ter confiado em Mulder.

Bill amassa a foto na mão com raiva. Carter e Kersh se entreolham.

CARTER: -Podemos contar com sua ajuda?

BILL: - Se isso tudo for verdade, eu entrego os dois pra vocês. Pai e filho. Os dois que trouxeram a desgraça pra minha família.

KERSH: - Sabia que poderia contar com você. Você é justo como nós e só quer a justiça. Mas peço sigilo absoluto dessa porta para fora. Esse Spender tem olhos por tudo. Não confie em ninguém. O mal está dentro da sua família. O que em certo ponto lhe facilita descobrir o paradeiro de Spender.

BILL: - Sim, senhor. Sou um militar, sei guardar segredos. As reuniões de família agora terão outro caráter.

Carter e Kersh sorriem. Kersh pega o telefone.

KERSH: - O tenente Scully está conosco, ele aceitou a missão...

Kersh entrega o telefone pra Carter.

KERSH: - ... Strughold quer falar com você, diretor.

Corte.


[Som: Filter – Hey man, nice shot]

No estacionamento coberto e escuro, Skinner tira as chaves do bolso se aproximando do carro.

KRYCEK: - Preciso falar com você.

Skinner vira-se. Krycek sai de trás de um pilar. Mãos no bolso da surrada jaqueta de couro. Aparência de quem levou uma surra: um corte no rosto, hematoma no olho. Skinner larga a valise sobre o carro.

SKINNER: - Não temos nada para conversar.

KRYCEK: - Temos, diretor-assistente. Muita coisa para conversar.

SKINNER: - Não estou interessado em negociar nada.

KRYCEK: - Não vim negociar nada. Vim lhe contar a verdade.

SKINNER: - Pois procurou a pessoa errada. Quem gosta de saber da verdade é Mulder.

KRYCEK: - A verdade é sobre ele.

Skinner olha para Krycek, numa fisionomia de quem está curioso e ao mesmo tempo com medo.

KRYCEK: - Mulder não é o Mulder.

SKINNER: - Como assim?

KRYCEK: - Não é o Mulder. Não o que você conhece.

SKINNER: - Está me dizendo que Mulder é um clone?

KRYCEK: - Estou lhe dizendo que Mulder é filho daquele velho bastardo. E como tal, está mentindo pra você.

SKINNER: - (INCRÉDULO) Mentindo?

KRYCEK: - ...

SKINNER: - Não, eu não acredito em você. Mulder jamais mentiria pra mim.

Skinner abre o carro. Coloca a valise no banco de trás. Krycek se aproxima.

KRYCEK: - Scully está nisso tanto quanto Mulder. Os dois estão juntos. Os dois mentem pra você. Ele sabe onde ela está. Mulder a afastou do FBI!

SKINNER: - (FORA DE SI) Ora seu... Mulder está morrendo, Scully sumiu e eu estou abalado com todos esses acontecimentos tentando entender qual será o fim que tramaram pra mim, como tramaram para os meus melhores agentes.

KRYCEK: - Você não acredita... Tudo bem. Custei a acreditar que Mulder fosse tão esperto... Você vai confirmar o que estou dizendo. E da pior maneira.

SKINNER: - Por que os dois mentiriam pra mim? Onde está Scully?

KRYCEK: - É isso o que quero saber. Estão mancomunados com aquele velho. Os dois!

SKINNER: - Eles nunca fariam isso. Não depois de todas as coisas pelas quais passaram.

KRYCEK: - Vá até a clínica Benson, em Fort Virgínia. Vai ver que estou certo.

Krycek dá as costas e sai. Skinner entra no carro. Fecha a porta. Olhar de quem está intrigado. Liga o carro.


8:32 A.M.

Skinner lê alguns relatórios. Mulder entra na sala.

MULDER: - Algum problema?

SKINNER: - Sente-se. Tenho um caso pra você.

Mulder senta-se.

SKINNER: - A senhora Kendall, de Chicago, diz que seu marido passou mal e vomitou uma estranha substância negra que saiu se ‘arrastando’ por baixo da porta do banheiro.

MULDER: - Como assim?

SKINNER: - Ela afirma que isso aconteceu depois dele ter tomado remédios pra dor de cabeça.

MULDER: - ...

SKINNER: - Em Miami, algumas crianças também vomitaram a substância negra, após ingerirem doces. O laboratório identificou uma toxina estranha no corante dos produtos. A mesma encontrada nos remédios do senhor Kendall. Isso é familiar?

MULDER: - ....

SKINNER: - Quero que investigue.

MULDER: - (DISFARÇA) Não há o que ser investigado.

SKINNER: - (INCRÉDULO) Como assim?

MULDER: - Sabemos o que é, Skinner. Alguma operação nova do sindicato. E sempre termina na palavra: inconclusivo.

Skinner olha pra ele.

SKINNER: - Há algo suspeito aqui, Mulder. O sindicato costuma espalhar o óleo negro e não eliminá-lo do organismo... Me diga que não está envolvido nisso.

MULDER: - ... Não estou envolvido nisso.

SKINNER: - (DESCONFIADO ATÉ OS OSSOS) É mais um servicinho sujo em troca de uma revelação? Isso é escavar apenas a ponta do iceberg de mentiras deles!!!

MULDER: - ... Olha aqui, Skinner, eu não sei do que está falando! Eu não vim até aqui para discutir isso. Eu vim até aqui para pedir meu afastamento temporário do FBI.

SKINNER: - Sei que está de férias vencidas. Mas preciso de você aqui. Pedido negado.

MULDER: - (INCRÉDULO) Não pode me negar isso! Eu não estou em condições para trabalhar. Estou doente! Preciso de uma semana de afastamento.

SKINNER: - (IRRITADO) Quero você lá agora, me entendeu? Isso não é um pedido. É uma ordem.

Mulder levanta-se.

MULDER: - Eu não vou.

SKINNER: - Agente Mulder, está sendo insubordinado! Eu dei uma ordem para você ir até Chicago!

MULDER: - Pois eu não vou.

Mulder sai, batendo a porta. Skinner respira fundo. Esmurra a mesa, indignado.

Corte.


[Som: Filter – Hey man, nice shot]

Mulder na frente do FBI. Ele olha pra todos os lados. Acena pra um táxi. Entra. Continua olhando pra todos os lados.

Corta para o táxi que sai atrás. Bill Scully observa o táxi à frente, intrigado.


Clínica Benson – Fort Virgínia – 4:12 P.M.

Skinner aproxima-se do balcão da recepção. Mostra a credencial. A recepcionista faz uma fisionomia de indiferença.

SKINNER: - Walter Skinner, FBI. Preciso falar com o responsável.

RECEPCIONISTA: - Tem hora marcada?

SKINNER: - Como assim, hora marcada?

RECEPCIONISTA: - O responsável é o Dr. Robert Benson e ele não está no momento.

SKINNER: - Sabe a que horas posso encontrá-lo?

A recepcionista pega uma agenda. Suspira. Verifica.

RECEPCIONISTA: - Ele tem um paciente às cinco. Se quiser esperar...

SKINNER: - Vou esperar.

Skinner senta-se numa poltrona. Pega uma revista.


Residência dos Mulder – Virgínia – 4:36 P.M.

Scully no quarto do bebê, dobra roupinhas. A barriga enorme. Mulder sentado na poltrona observa pela janela, enquanto morde o polegar, nervoso. Scully pega uma sacola e uma tesoura. Entrega pra Mulder.

MULDER: - O que é isso?

SCULLY: - Retire todas as etiquetas das roupinhas novas, bem rente ao tecido. Machucam o bebê. Eu preciso ainda lavar essas roupinhas.

Mulder pega a tesoura. Retira um macaquinho da sacola. Estica-o com as mãos.

SCULLY: - (SORRI) O que foi?

MULDER: - (SORRI) Tão pequenino assim?

SCULLY: - É um bebê, Mulder.

Mulder começa a cortar as etiquetas, entretido num sorriso.

MULDER: - Scully... Seu irmão Bill está em Washington. Me seguiu esta manhã. O despistei no aeroporto... Acho que ele está desconfiado de algo.

SCULLY: - Não podemos contar a Bill. Ele tem família, Mulder. Imagina se resolvem se vingar nele?

MULDER: - Eu sei, Scully. Por isso preferi deixar seus irmãos fora disso. Infelizmente, mas é pra saúde deles... Está na hora de eu morrer, Scully.

SCULLY: - Olha Mulder... Temos algo sério para conversar. Falta pouco para o nosso bebê nascer. Mudança de lua, parto na certa, diria dona Meg. E eu sinceramente olho pra essa casa, pra tudo pelo qual lutamos e me pergunto se é justo sair daqui, fugir do país e achar que eles nunca mais nos encontrarão. Eles vão nos encontrar mais cedo ou mais tarde.

MULDER: - Você gosta daqui não é?

SCULLY: - E você, não gosta?

MULDER: - Claro que gosto. É nossa casa. Tem energias boas aqui dentro. Eu até consigo dormir!

SCULLY: - Isso é tudo o que sonhei, Mulder. Nós dois lutamos por isso. É o nosso lar! Sabe que eles nos encontrarão mais cedo ou mais tarde, podemos fugir até pra lua que eles nos acharão! Aqui pelo menos temos amigos, nossa casa, minha mãe... Aqui nós temos gente do nosso lado. Nós temos uma vida, Mulder. Não podemos enterrá-la e fingir que nunca existiu!

MULDER: - (CORTANDO AS ETIQUETAS)

SCULLY: - Mas tudo bem, Mulder. Aproveite que estou grávida, sentimental e submissa... Eu disse que não me envolveria em suas decisões, você sabe o que está fazendo. Vou arrumar as malas, deixar tudo pronto pra irmos embora. Contanto que eu tenha meu filho e tenha você vivo do meu lado, nada mais me interessa.

Mulder termina sua tarefa. Larga a tesoura e as roupinhas sobre o trocador de fraldas.

SCULLY: - Ligue para os Pistoleiros. Façam como combinaram. Até descobrirem que você não está morto, ganhamos tempo.

MULDER: - A proteína da vacina sua e de Modesky está causando reação. Algumas pessoas estavam infectadas sem saber. O desgraçado do vírus mutou. Ele fica incubado no organismo esperando a hora de reagir. (SORRI) A vacina está funcionando. Como você disse, sem efeitos colaterais como os que eu tenho. Malditas dores de cabeça...

Scully olha pra ele num sorriso.

MULDER: - Já chegou aos ouvidos do FBI. Skinner quer que eu vá para Chicago investigar.

SCULLY: - Mulder, sabe que se alguma dessas pessoas imunizadas vier a morrer naturalmente, a autópsia vai revelar uma proteína sintética anexada na glândula pineal. É questão de tempo e vão descobrir. O que não podem descobrir é quem está por trás disso.

Mulder levanta-se. Aproxima-se dela. Olha para a camiseta pequenina nas mãos dela. Pega-a. Sorri.

MULDER: - É tudo tão pequenino assim?

SCULLY: - (SORRI) É.

MULDER: - ... Eu... Não quero assustar você, ok? Não interprete isso como um mau presságio. Mas... Tive um sonho esta noite... E como todos os sonhos que tenho dessa natureza me soam um recado... Alguma coisa dentro de mim me diz para mudar os planos.

SCULLY: - Como assim? Mulder, nós combinamos! O que está acontecendo?

MULDER: - Nada, Scully, fique calma. Eu só vou dar ouvidos a você. Nunca me arrependi de fazer isso.

SCULLY: - ???

MULDER: - Esquece as malas. Esquece tudo. Vou ficar no FBI pra não chamar a atenção. Mas virei pra cá todas as noites. Se sentir as contrações durante o dia, me chame. E depois que nosso bebê nascer, a minha mentira será revelada. Vamos perder nossa carreira e sofrer um processo nas costas. Mas dane-se! Tudo pelo nosso filho.

SCULLY: - (SORRI) O que está querendo me dizer, Mulder?

MULDER: - Que pode pegar aqueles chocolates e aquelas lembrancinhas que você guardou. Afinal é muito mal educado não dar nada para os amigos que virão até aqui conhecer o mais novo membro da família.

SCULLY: - (SORRI) Você está me dizendo que...

MULDER: - Que vou arcar com as consequências. Mas este é nosso lar, é nossa casa, somos felizes aqui e eu não vou abrir mão disso! Eu não vou fugir da guerra. Eu fico pra lutar. Não é justo! Mesmo que eu saia daqui, nunca mais dormirei à noite com medo. Pelo menos aqui eu sei o que tramam. Mantenha seus amigos por perto, mas seus inimigos mais perto ainda... Vou pra Chicago agora, Scully, pra não arranjar confusão. Mas volto amanhã cedo.

Mulder beija-a na testa. Entrega a roupinha do bebê. Sai do quarto. Scully sorri. Sai apressada do quarto, levando a roupinha com ela. Desce as escadas.

SCULLY: - (AOS GRITOS) Mãe!!!

Meg sai de trás do pinheiro de natal.

MARGARET: - Aqui! Estou terminando a decoração.

SCULLY: - Mãe... Nós não vamos embora. Mulder acha melhor ficarmos aqui!

Meg olha pra ela num sorriso.

MARGARET: - Me ajude com a árvore. Eu sei que adora fazer isso.

As duas enfeitam a árvore. Mulder desce as escadas. Beija Scully. Sai apressado.

MARGARET: - Aonde ele vai? Nem provou o bolo que eu fiz pra ele!

SCULLY: - Fingir que está trabalhando mãe.

MARGARET: - Pobre desse menino, está apático! Até quando vai ficar desse jeito?

SCULLY: - Logo vai acabar mãe. Logo tudo vai acabar...


Clínica Benson – Fort Virgínia – 4:57 P.M.

O médico entra. Um senhor já de idade. Skinner levanta-se, puxando a credencial.

SKINNER: - Skinner, FBI. Dr. Benson?

BENSON: - Sim. Posso ajudá-lo em algo, colega?

SKINNER: - Colega?

BENSON: - (SORRI) Já fui agente do FBI.

Skinner fica mais desconfiado.

SKINNER: - Preciso conversar com o senhor. Sobre Fox Mulder.

BENSON: - Tenho um paciente pra atender agora. Ele só quer uma receita. Se puder me aguardar.

SKINNER: - Sem problemas.

Benson aproxima-se da recepcionista.

BENSON: - Traga um café para o agente Skinner.


Residência dos Mulder – Virgínia – 5:07 P.M.

Meg e Scully sentadas à mesa da cozinha. Entre chá e bolo, as duas organizam lembrancinhas e bombons em cestas decoradas com laços cor de rosa.

MARGARET: - E se não for menina?

SCULLY: - Você disse que é. Que tal minha ideia? Ahn? Chocolates em forma de ursinhos???

MARGARET: - É bem educado e cortês... Gostou do carrinho?

SCULLY: - Mãe que coisa mais útil você me deu! Adorei pelo fato de que ele se desencaixa e vira berço. Nunca se sabe quando vai se precisar.

MARGARET: - ... Minha preferida!

Meg mostra uma pequena lembrancinha de gesso. Uma bebezinha de bumbum pra cima dormindo sobre um girassol.

SCULLY: - (SORRI) Minha preferida também... Não sabe quanto tempo demoraram pra fazer isso tudo. Acho que deram graças a Deus por se livrarem de mim, a cliente mais chata que já tiveram. Eu queria que tudo fosse relacionado a Mulder e eu. Afinal é nosso bebê. Nosso único filho, porque não temos mais outra chance. Por isso quero ter o direito de fazer tudo pra ele. Tudo que não pude fazer pelo...

Scully cerra o cenho. Meg percebe e desvia o assunto.

MARGARET: - Estou em dúvida. Essa aqui sentadinha lendo um livro é a sua cara. Até os óculos! Ai e essa outra aqui brincando de cientista... Eu quero uma de cada. Não tem negociação.

SCULLY: - Tá certo, mãe. Você tem todo o direito de babar na sua neta.

Scully beija Meg. Meg levanta-se.

MARGARET: - Vou colocar as roupinhas na secadora e depois passar. Quero tudo em ordem pra não haver correria. Vou arrumar o berço, colocar estas cestas perto da porta da sala... Acho que um urso na poltrona segurando as cestas ficaria bonito. Não! Uma ursa!

SCULLY: - Mas eu não tenho um urso grande e menos ainda uma ‘ursa’.

MARGARET: - Não seja por isso. Vou procurar uma ursa de pelúcia bem grandona. Com um laço rosa na cabeça pra mostrar que é menininha.

SCULLY: - (SORRI) Fricote é hereditário... Mulder tem razão.


Clínica Benson – Fort Virgínia – 5:14 P.M.

Skinner entra num escritório. Benson entra e fecha a porta.

BENSON: - Sente-se.

SKINNER: - Obrigado.

Skinner senta-se. Benson senta-se em sua cadeira. Cruza os braços sobre a mesa.

BENSON: - O que precisa, agente Skinner?

SKINNER: - (JOGANDO) O que pode me oferecer?

BENSON: - O que quiser. É amigo do Mulder?

SKINNER: - Trabalhamos juntos. O conhece há muito tempo?

BENSON: - Na verdade, eu o conheço desde que tentava segurar uma arma na mão e errava todos os tiros.

Skinner sorri.

BENSON: - Eu fui médico na academia. Todos os calouros passavam pelas minhas mãos. Mulder foi um daqueles alunos que você não esquece. Numa prova final de resistência física, ele se deu muito mal. Então o mandaram pra mim, para fazer uma avaliação médica. Não havia nada de errado com ele, apenas tensão. Você sabe o estresse que os novatos tem porque precisam ser o melhor entre os melhores. Foi onde descobri o problema de Mulder.

SKINNER: - Que problema?

BENSON: - O desaparecimento da irmã.

SKINNER: - Ah, sim. Eu sei.

BENSON: - Eram problemas totalmente psicológicos. Eu o coloquei contra a parede e ele me confessou que sua formação como psicólogo foi o que o fez passar no psicotécnico da academia. Sabia todas as artimanhas de um teste desse nível... Mas como eu tenho mania de ouvir todos os problemas dos meus pacientes antes de dar um diagnóstico, percebi que toda a frustração dele era por causa da irmã desaparecida.

Skinner fica em silêncio. Benson recosta-se na cadeira.

BENSON: - Ele chorou na minha frente. Disse que a vida dele dependia de entrar para o FBI. Se ele fosse uma pessoa que tivesse sérios impulsos malucos como atirar sem olhar pra quem, eu não teria assinado aquele papel. Mas eu via nele um coração muito puro. Um homem com sede da verdade. Se eram alienígenas ou não, pouco importava. Ele não era um maluco. Então eu assinei sua aptidão.

Skinner sorri.

BENSON: - E durante muito tempo fiquei pensando, onde estaria Mulder. Confesso que fiquei surpreso ao saber que ele era o melhor agente do FBI para traçar perfis psicológicos. Então sorri e disse pra mim mesmo: dê uma chance as pessoas. Não é um erro num teste que vai provar a aptidão delas.

SKINNER: - Então conhece Mulder a mais tempo do que eu... Por que saiu do FBI, Dr. Benson?

BENSON: - Por que o FBI precisava que eu saísse. Meu vasto conhecimento no campo da medicina e meus relacionamentos políticos já não eram mais úteis em Quântico.

SKINNER: - ...

BENSON: - Então eles me declaram um agente morto, entende?

SKINNER: - Entendo. E agora você ajuda o FBI sem ter ‘ligação’ alguma.

BENSON: - Exatamente.

SKINNER: - ...

BENSON: - Então, Walter? O que precisa? Está envolvido em algum caso complicado?

Skinner o observa.

SKINNER: - Preciso de testes de DNA falsos.

BENSON: - Está investigando a máfia?

SKINNER: - Sabe como são. Agora querem que prove seus genes italianos.

BENSON: - Sem problemas. Mas preciso da assinatura do seu diretor-assistente no pedido. Funciona assim.

SKINNER: - (FECHA OS OLHOS/ DESCONSOLADO)

BENSON: - Está bem, agente Skinner?

SKINNER: - Eu sou o diretor-assistente.

BENSON: - Mas por que não me disse logo? Claro, o Skinner!!! ... Li sua assinatura no pedido de Mulder... Mulder me falou muito bem de você. Conseguiram resolver o caso?

SKINNER: - Me perdoe, estou tão atarefado que nem lembro qual caso era e nem o que assinei.

BENSON: - Do falsificador.

SKINNER: - ... (JOGANDO) Qual deles?

BENSON: - Mulder e a parceira estavam atrás de uma rede de falsários de dinheiro. Você o autorizou a pedir um exame falso de saúde. O chefe da gangue só trabalhava com pessoas que estivessem morrendo. Método natural de limpeza de provas... Cara esperto. Atestei que Mulder estava morrendo de um tumor cerebral. (RI) Esse Mulder... Ele teve uma ideia bem criativa.

Skinner fecha os olhos.

SKINNER: - Scully esteve aqui?

BENSON: - Não lembro o nome dela. Sei que era uma ruivinha, baixinha. Muito bonita.

SKINNER: - ...

BENSON: - O pegaram?

Skinner sente-se traído.

SKINNER: - Sim... Eu os peguei.


Apartamento de Mulder – 10:24 P.M.

[Som: Filter – Hey man, nice shot]

Bill observa o apartamento, sentado dentro do carro.

Corta para o apartamento. A porta abre-se. Skinner entra na penumbra. Acende uma lanterna. Caminha pela sala. A luz se acende.

Krycek, escorado na porta da cozinha, olha pra Skinner.

KRYCEK: - Que coisa feia! Invadir o apartamento de um amigo quando ele está fora de casa.

SKINNER: - O que quer aqui?

KRYCEK: - O mesmo que você. Saber porquê Mulder está mentindo que vai morrer.

SKINNER: - Isso é problema meu e do FBI, não seu.

KRYCEK: - E acho que é problema de família também.

Krycek sinaliza pra Skinner. Vai até a janela. Skinner se aproxima.

KRYCEK: - Está vendo aquele carro? O irmão de Scully está há horas ali, vigiando feito cão perdigueiro.

SKINNER: - Droga! Eu sabia que o conhecia! Eu o vi no FBI!

KRYCEK: - (DESCONFIADO) No FBI?

SKINNER: - Sim, estava com Carter e Kersh.

KRYCEK: - (DESCONFIADO) Ok, Skinner... Temos um problema aqui pior do que eu pensava.

SKINNER: - Temos? Eu não tenho nada a ver com seus problemas! Ele deve estar esperando Mulder chegar.

KRYCEK: - Chegar? De onde? Se olhar na geladeira vai ver que o leite já se transformou em coalhada! Mulder não vem aqui há muito tempo.

SKINNER: - E pra onde ele iria?

KRYCEK: - É isso que eu quero descobrir. Você também e aquele sujeito lá fora idem.

SKINNER: - O que está acontecendo por aqui? O que você sabe que eu não sei?

KRYCEK: - Acredita em mim agora? Mulder está nos traindo. Aquele desgraçado estava o tempo todo conspirando com o velho!

SKINNER: - (CONFUSO) Acha que Mulder passaria pro lado dele?

KRYCEK: - Eu não confio no Mulder. Queremos a mesma coisa, mas não confio nele. E agora menos ainda! E não precisa vasculhar o apartamento, você não vai encontrar nada. (MALICIOSO) Exceto algumas coisas dela por aqui. Ou você também não foi informado disso?

SKINNER: - ...

KRYCEK: - Ela tem lingeries bem sexys. Acredite. Talvez o irmão esteja querendo apenas acertar contas pendentes de família...

SKINNER: - Quem sabe eu abro a janela e grito pra ele quem matou Melissa Scully?

Krycek olha pra Skinner com deboche. Sai do apartamento.

Skinner abaixa a cabeça. Senta-se no sofá. Confuso. Desatinado.

SKINNER: - Mulder... Como pode me trair? Mentir que estava doente? Mentir sobre Scully... Eu passei noites preocupado com vocês... Tentava descobrir uma maneira de salvá-lo... Que decepção! Isso foi a pior traição que alguém que se diz amigo pode fazer.


Parque de Trailers ‘The Home’ - Chicago - 11:24 P.M.

Mulder dentro do carro estacionado. O celular toca.

MULDER: - Mulder.

SKINNER (OFF): - Sou eu, Skinner.

MULDER: - Estou vigiando os Keller...

SKINNER (OFF): - É Kendall, Mulder, e eu não quero saber sobre o caso. Quero você aqui amanhã cedo.

MULDER: - Estou no meio de uma investigação.

SKINNER (OFF): - (FURIOSO) São ordens, agente Mulder! E quero que venha sozinho. Embora esteja doido pra dar uma bronca nos dois. Mas quero a Scully fora disso. O assunto é entre nós. E a amizade que eu pensei que tivéssemos.

[Som: Filter – Hey man, nice shot]

Mulder abaixa a cabeça. Sente o corpo amolecer. Os nervos começam a se agitar. Mulder desliga o celular. Aperta uma tecla.

MULDER: - ... (TENSO/ NERVOSO) Sou eu... Scully, fique em casa com Meg, tranque as portas, ligue os alarmes... Não, Scully, não há nada de errado. Eu só estou preocupado que você esqueça de fazer isso... Só por isso... Estou indo pra Washington. Não vou demorar.

Mulder liga o carro e sai às pressas tomando a rua, em estado de nervos.


BLOCO 2:

12:18 A.M.

Uma cabine telefônica numa rua escura. Krycek ao telefone. Olha pra todos os lados.

CANCEROSO (OFF): - Tem certeza disso?

KRYCEK: - Absoluta. Skinner os viu.

CANCEROSO (OFF): - Estão usando o retardado do irmão pra chegarem até mim... Maldito Carter, eu sabia que não podia confiar nele!

KRYCEK: - ... Ok, dei uma informação precisa, entreguei a cabeça de Carter, mas agora quero a verdade em troca.

CANCEROSO (OFF): - Que verdade?

KRYCEK: - A verdade sobre a vacina. Sobre o desaparecimento de Scully, sobre a morte de Mulder! Você me usou esse tempo todo novamente! Eu dei uma carta de crédito a você, confiei em você. Arrisquei meu pescoço, levei uma surra e fui torturado por Strughold... Mas agora eu descobri o que está fazendo! Eu sei da verdade! E você vai me pagar caro por isso. Aguarde o troco.

CANCEROSO (OFF): - Do que está falando?

KRYCEK: - Estou fazendo meu trabalho, me mandou ficar atento aos movimentos de Mulder. Mas eu fiquei atento demais, ok? Saquei a jogada de vocês dois. Chicago e Miami foram o começo.

CANCEROSO (OFF): - Que diabos está falando, Alex Krycek?

KRYCEK: - Você sabe do que estou falando. Você e Mulder estão nisso. Me enganaram o tempo todo. Mas eu não vou discutir por telefone.

CANCEROSO (OFF): - O que descobriu? Quer algo em troca pra me dizer?

KRYCEK: - Negócios são negócios. Eu quero a cabeça daquele alemão tanto quanto você. Sabe que pode contar comigo. Mas sabe que tem um inimigo em potencial quanto à maldita vacina! Eu quero a vacina!

CANCEROSO (OFF): - Eu não tenho a vacina.

KRYCEK: - Eu acho que tem. Porque o que está acontecendo com os corantes é ideia sua. Portanto, você tem a vacina.

CANCEROSO (OFF): - Eu não estou por trás disso! Pensei que você estivesse por trás! Não tente me enganar, Alex Krycek...

KRYCEK: - Eu??? (RI) Velho idiota, eu não caio mais nas suas jogadas cínicas! Você e Mulder estão por trás disso, Scully também! Vocês sabem onde está a criança, porque criaram a vacina! E estão distribuindo isso em corantes! Eu já vi você fazer isso! Você me paga, velho, meu governo vai saber disso... Me aguarde.

Krycek desliga indignado. Sai da cabine e entra no carro.


Apartamento de Skinner – 3:14 A.M.

Skinner abre a porta, vestido num robe. Sem óculos. Mulder entra às pressas.

MULDER: - ... É seguro?

SKINNER: - Não sei.

Mulder caminha até a sala. Liga o som bem alto.

[Som: Filter – Hey man, nice shot]

Skinner olha pra ele, sem entender nada. Mulder o chama com um sinal. Skinner aproxima-se. Os dois sentam-se, um ao lado do outro.

Mulder fala alguma coisa. Skinner olha pra ele com irritação. Mulder levanta-se, gesticulando muito. Percebe-se que está tenso. Skinner parece que grita com ele. Mulder grita com Skinner. Senta-se e chora. Skinner fecha os olhos. Senta-se ao lado dele e coloca o braço por sobre Mulder. Mulder põe as mãos no rosto. Fala alguma coisa. Skinner retira o braço de cima dele. Põe as mãos no rosto. Mulder olha pra ele, falando e derrubando lágrimas. Skinner retira as mãos do rosto, numa fisionomia de preocupação. Mulder continua falando. Skinner olha pra ele, tenso. Mulder continua. Skinner fala alguma coisa. Mulder olha pra ele, num sorriso cansado. Skinner sorri. Balança a cabeça negativamente. Fala alguma coisa. Mulder abaixa a cabeça. Skinner põe a mão em seu ombro. Fala algo numa fisionomia séria.


FBI – Gabinete do diretor-assistente – 7:49 A.M.

Skinner levanta-se. Olha pela janela. Sorri. Volta pra cadeira e senta-se. Pega o telefone. Disca um número.

SKINNER: - Mulder, sou eu. Krycek está desconfiado. Viu você sair do meu apartamento ontem.

MULDER (OFF): - O que ele queria?

SKINNER: - Saber o que conversamos.

MULDER (OFF): - ... Há escutas nesta linha?

SKINNER: - Não sei. Mulder, eu quero dizer que agora entendo porque forjou uma falsa doença. Quando quiser que confirme sua morte, eu a confirmarei.

MULDER (OFF): - Entendeu o plano?

SKINNER: - Entendi. Assim que pegar seu filho você sairá do país com Scully, forjando sua morte. Darei meu testemunho de que o corpo encontrado é o seu.

MULDER (OFF): - Skinner, você me impressiona, sabia?

SKINNER: - Sou seu amigo, Mulder. Faria qualquer coisa pra ajudá-los.

MULDER (OFF): - Me desculpe se precisei mentir pra você, mentir pro mundo, mentir até pra mãe dela! Não poderíamos arriscar, você entende? A família da Scully não sabe de nada, nem os Pistoleiros. Todos são inocentes na história. Scully está segura com o garoto no Novo México. Eu vou pra lá agora no voo das 9:30. Já perdi o das oito.

SKINNER: - Se precisar de ajuda, me chame. Faça o que tem que ser feito, Mulder.

Skinner desliga. Levanta-se da cadeira. Afasta a persiana com os dedos e observa o furgão do outro lado da rua.

SKINNER: -(SORRI) Belo tiro, Mulder... Belo tiro.


Aeroporto – 7:55 A.M.

[Som: Filter – Hey man, nice shot]

Mulder desliga o telefone. Olha para a passagem. Caminha até o portão de embarque. Entrega a passagem.

ATENDENTE: - New Mexico? Apresse-se ou vai perder o voo.

Mulder entra no portão seis. Observa o avião. Então sai pela porta que dá acesso à pista.


9:10 A.M.

Krycek observa os passageiros no embarque. Caminha até o balcão da companhia aérea.

KRYCEK: - Qual o horário do próximo voo para New Mexico?

ATENDENTE: - Nove e trinta.

KRYCEK: - Eu estou com um amigo, mas não o vi por aqui. Pode me confirmar se ele está nesse voo?

ATENDENTE: - Nome?

KRYCEK: - Fox Mulder.

ATENDENTE: - ... Não senhor... Mas temos um Fox Mulder que partiu no voo das oito.

KRYCEK: - Tem certeza?

ATENDENTE: - Sim senhor. Consta aqui o canhoto da passagem. Ele entrou no avião com toda a certeza.

Krycek suspira. Afasta-se.

KRYCEK: - Droga! Perdi o desgraçado! Perdi a chance de segui-lo e encontrar a criança!


Residência dos Mulder – Virgínia – 9:11 A.M.

Chuva forte.

Mulder entra no quarto. Tira o paletó. Scully está parada, olhando pela janela. Mulder está confuso. Caminha de um lado para o outro, nervoso. Scully olha pra ele, fechando o robe com as mãos.

SCULLY: - O que aconteceu?

MULDER: - Nada. Fui pra Chicago, dormi no carro, voltei hoje de manhã...

SCULLY: - (PRESSENTINDO) Mulder, não minta pra mim! Você está nervoso.

MULDER: - ... Skinner descobriu tudo.

SCULLY: - Como ele descobriu?

MULDER: - ... (TENSO) Por Krycek.

Scully fecha os olhos, derrubando lágrimas.

SCULLY: - Não...

Scully recua acenando negativamente a cabeça enquanto chora. Coloca as mãos sobre a barriga. Mulder, quase chorando, morde os lábios.

MULDER: - Scully, me escuta...

SCULLY: - (GRITA/ CHORANDO) De novo não!!!!!

Scully senta-se na cama colocando as mãos no rosto, chorando desesperada. Mulder senta-se ao lado dela.

MULDER: - Scully me escuta!

SCULLY: - Não! Você prometeu que ninguém tiraria meu filho de mim!

MULDER: - Scully, se acalme, ninguém vai tirar essa criança de você!

SCULLY: - (CHORANDO) Se Krycek sabe, eles devem estar sabendo! Oh meu Deus, não!

Mulder a abraça.

MULDER: - Scully, me escuta. Krycek veio até Skinner com a informação. Eu contei a verdade para Skinner. Ele entendeu a situação. Está do nosso lado, como sempre esteve. Corroborou nossa mentira hoje. Eles vão se focar no Novo México e no nosso filho que se foi... Nosso plano está dando certo, hum?

Scully continua chorando. Mulder tenta acalmá-la.

MULDER: - Skinner ficou feliz quando soube que terá um afilhado. Mas que vai puxar nossas orelhas...

Scully chora desconsolada. Mulder olha pra ela. Afaga seus cabelos.

MULDER: - Scully, temos ainda um trunfo e é só questão de tempo. Krycek não sabe da verdade. Ele só está intrigado com a mentira.

Scully continua chorando.

MULDER: - Scully, por favor. Falta pouco. Nós vamos conseguir.

SCULLY: - (CHORANDO) Vai acontecer tudo de novo... Vou perder esse também... Eu sabia. Eu sabia que isso era loucura! Eu só queria um filho, Mulder... Só queria ter um filho...

MULDER: - Scully, eu prometi a você, não prometi? Chegamos até aqui. Nós vamos vencer dessa vez.

Mulder segura as mãos dela entre as suas.

MULDER: - Quando aquele anjo disse que o filho que perdemos salvaria uma vida, eu não podia imaginar que seria essa. A do irmão dele.

Mulder afaga a barriga de Scully.

MULDER: - Scully, lembra-se de Watkins... O destino está escrito. Muitas coisas ruins acontecem para que as boas venham seguras... Eu segui o plano. Você está em New Mexico com o garoto. Scully, eles vão revirar aquela cidade atrás de nós. Até descobrirem a verdade, nosso bebê já terá nascido. E eles não vão poder tirá-lo de nós.

SCULLY: - (CHORANDO) ...

MULDER: - Teremos nosso filho, Scully. Não chegamos até aqui mentindo para protegê-lo. Nós o teremos e tudo vai voltar a ser como era antes.

SCULLY: - Eu tenho medo, Mulder.

Scully levanta-se.

SCULLY: - Eu estou com muito medo. Vão tirá-lo de nós novamente...

MULDER: - Scully, eu te amo. E eu sei que desta vez nós venceremos. Não seria justo passar por tudo isto sem chegarmos a vitória. Scully, tá na hora da gente ganhar uma!

[Som: Simple Red - For Your Babies]

Scully se aproxima da janela do quarto. Olha pra chuva. Derruba lágrimas, afagando a barriga com carinho. Mulder a abraça por trás. Recosta seu queixo no ombro dela. Ela fecha os olhos derrubando lágrimas.

MULDER: - Skinner e eu fizemos algo muito feio hoje. Algo que combinamos ontem. (SORRI) Demos alimento aos urubus, Scully. Nós vamos vencer. Eles estão perdidos, enrolados em mentiras. Temos tempo, até Krycek ir ao Novo México... Fique calma, está bem? Eu prometi pra você que você teria um filho. Confia em mim. Logo você vai completar a nossa palavra. Falta o A de vitória. Estamos perto. Acredita, Scully.

SCULLY: - Eu... Não acredito em muitas coisas. Mas em você eu acredito.

Close da janela. As gotas de chuva escorrem pelo vidro, que reflete a imagem dos dois. Mulder desliza suas mãos e afaga com carinho a barriga de Scully. Scully coloca suas mãos por sobre as dele pressionando-as contra a barriga.


Rua 46 Este – Nova Iorque – 11:01 P.M.

O Canceroso olha pela janela. Amassa o cigarro aceso na mão, tamanho o ódio que sente. Krycek olha pra ele. Começa a rir, incrédulo.

KRYCEK: - Não... Deixa ver se entendi... Vocês não sabiam disso? Não sabiam que Mulder forjou um falso tumor? Nem que ele era responsável pelo desaparecimento de Scully? Nem que ela está com a criança?

HOMEM DAS UNHAS BEM FEITAS: - Ele nos traiu. Já era de se esperar.

CANCEROSO: - (ÓDIO) Quero todo o contingente de homens atrás dele. Exército, CIA, FBI... Nem que tenha que fazer um acordo com Strughold! Mas Mulder não vai sair ileso! Cerquem New Mexico. Quero homens espalhados em cada canto daquele lugar, revirando até os bordéis! Se estiverem lá, quero que os encontrem em 48 horas!

GARGANTA PROFUNDA: - Está louco? Se falar sobre isso com Strughold, os alienígenas irão saber! Vão matar Mulder e pegar a criança antes de nós!

O Canceroso olha pra ele. Olhos faiscando ódio.

CANCEROSO: - Eu fui traído. E não admito traições. Quero saber onde está essa criança.

Garganta Profunda olha para o Canceroso em silêncio. O Homem das Unhas Bem Feitas está nervoso. Krycek os observa, debochado.

HOMEM DAS UNHAS BEM FEITAS: - Mulder vai ter que pagar pela traição. Ele nos colocou uns contra os outros, estávamos nos matando aqui enquanto ele era o responsável pelo sumiço da agente Scully. Quanta ousadia! Quem pensava que Mulder mentiria tanto?

GARGANTA PROFUNDA: - (DEBOCHADO) Mulder teve bons professores. Nós alimentamos o monstro.

CANCEROSO: - Quero o pescoço de Mulder numa bandeja. E algo me diz que eles estão por trás da vacina. Se Scully estava com a criança escondida todo esse tempo, tiveram a chance de criar a vacina.

Garganta Profunda olha pro Canceroso. Krycek continua os observando.

GARGANTA PROFUNDA: - Por que pensa isso?

CANCEROSO: - Porque ele a tirou do jogo. Isso me faz parecer que ela é uma peça importante... Tenho um palpite. Talvez não estejam em New Mexico. Mulder e Scully estão usando Skinner para nos afastar da verdade. Se ele foi esperto pra nos enganar uma vez, tinha tudo isso tramado na garganta!

O Canceroso esmurra a mesa com raiva.

CANCEROSO: - (ÓDIO) Agora é minha vez de jogar. Mulder pediu por isto. Vou colocar Carter no caso com uma arma na cabeça.

HOMEM DAS UNHAS BEM FEITAS: - O caos está instalado. Não demora muito e Strughold e os alienígenas tomarão essa criança antes de nós! Não pode colocar isso nas mãos de Carter! Ele é um doente mental, um agente duplo!

CANCEROSO: - Pouco me importa. Que Strughold saiba disso.

KRYCEK: - (ADORANDO A CONFUSÃO) Sem querer me meter aí no assunto... Mas se aquele nazista souber... Acredite, ele matará Mulder.

CANCEROSO: - Não me importo mais com Mulder. Ele traiu seu próprio pai. Quero que Carter coloque o FBI em peso atrás deles. Quero mídia massiva, quero a cara deles em todas as televisões, internacionalmente, como dois foragidos da lei. Vou caçar Mulder feito um animal. Protegi aquele bastardo a vida toda... Mas o que esperar de um maldito híbrido de laboratório? Quando pegá-lo...

GARGANTA PROFUNDA: - O que fará com ele? Vai castigá-lo? Você o ensinou! Ele só aprendeu isso com você. Não está orgulhoso do seu filho?

CANCEROSO: - Você não vê que não é o momento para ironias? Sabe o perigo que essa criança representa nas mãos de dois imbecis?

HOMEM DAS UNHAS BEM FEITAS: - Quais as garantias que temos de que não é um monstro?

GARGANTA PROFUNDA: - Vou colocar alguns homens de minha confiança nisso.

CANCEROSO: - (NERVOSO) Vigiem o apartamento de Mulder. Vigiem o FBI! Quero homens naquela maldita revista daqueles três malucos. Vigiem todos os amigos de Mulder e a família de Scully. Os mate se preciso for pra abrirem a boca! Melhor: peguem aqueles três malucos. Mate um deles. Os outros vão abrir a boca rapidinho.

GARGANTA PROFUNDA: - Acha que Mulder está mesmo com a vacina?

CANCEROSO: - É claro que ele está! E está usando nós mesmos para distribuí-la. (ÓDIO) Quero Mulder. Vivo ou morto. Agora isso é pessoal.

HOMEM DAS UNHAS BEM FEITAS: - Deus! Isso não está acontecendo... Percebem a gravidade? Ele está colocando a culpa em nós, semeando uma vacina que desconhecemos com os mesmos métodos que utilizamos!

O Canceroso esmurra a parede, traído. Krycek começa a rir. O Canceroso olha pra ele.

KRYCEK: - (RINDO) Precisam ver a cara de vocês... Parece que alguém apertou o alarme de incêndio... Não, eu tenho que bater palmas pro Mulder. (APLAUDE) ... Essa foi a maior puxada de tapete que eu já tinha visto. Digna de um mestre. Xeque mate. Acho melhor vocês se aposentarem e largarem isso aqui pro Mulder. Ele é mais cínico e esperto...

HOMEM DAS UNHAS BEM FEITAS: - Do que está achando graça, Alex Krycek? Não deveria estar de joelhos nos agradecendo por tê-lo salvo de Strughold antes que apanhasse mais ainda?

KRYCEK: - (RINDO) Mulder... Quem diria que Mulder passaria a perna em vocês, os ‘reis da conspiração’! (RINDO ALTO/ DEBOCHADO) O Mulder! É, aquele ‘agentezinho idiota e manipulável’... ‘Mulder nunca faria isso’... ‘Mulder é um imbecil’... ‘Mulder é um peão do jogo’... (RINDO) Lamento informar, mas agora é Mulder quem move as peças do jogo. Queria ter uma máquina fotográfica para registrar a cara de vocês nesse momento histórico...

CANCEROSO: - (IRRITADO) Está adorando isso não é mesmo?

KRYCEK: - Eu só quero essa vacina! Danem-se vocês e Mulder! Eu agora vou assistir como isso termina. Também quero encontrar Mulder. E quem pegá-lo primeiro, leva a criança como brinde... Lamento informar, mas agora estou do meu lado. Virem-se sozinhos.

Krycek sai da sala rindo alto. O Canceroso perde o olhar no nada, ainda incrédulo.

CANCEROSO: - ... Mulder... Sua ousadia vai sair cara. Acredite, se eu não o encontrar... Outros o encontrarão.


Residência dos Mulder – Virgínia – 2:21 A.M.

Mulder acordado, deitado na cama, com a calça do pijama. Scully dorme nos braços dele. O telefone toca. Mulder olha assustado para o telefone. Solta Scully. Scully acorda-se e olha pra ele assustada.

MULDER: - (NERVOSO) Quem tem nosso número?

SCULLY: - (PÂNICO) Ninguém. Só você e mamãe. E ela está dormindo no quarto dela.

O telefone continua tocando. Mulder leva o braço até o telefone e atende. Scully derruba lágrimas, afagando a barriga.

MULDER: - Quem fala?

Mulder fica estático. Scully olha pra ele. A pobre fica pálida de medo.

MULDER: - (FECHA OS OLHOS) Eu não sei como descobriu esse número e não tenho nada pra falar com você! ..... (ARREGALA OS OLHOS) Quer repetir onde você está?

SCULLY: - (TENSA) Mulder o que foi?

Mulder pula da cama com o telefone sem fio e corre até a janela. Abre a cortina e espia pra fora. Suspira tenso, encostando-se na janela.

MULDER: - (AO TELEFONE) Estou descendo.

Mulder desliga.

SCULLY: - Mulder, o que foi?

Mulder pega a arma. Coloca outro cartucho.

MULDER: - Fique aqui. Vou sair. Tranque a porta. Se algo acontecer comigo, pegue sua arma e saia pelos fundos com sua mãe.

Mulder sai do quarto levando a arma, de pés descalços e usando apenas a calça do pijama. Scully nervosa coloca um robe e vai atrás dele. Mulder desce as escadas e ela tenta alcançá-lo.

SCULLY: - Mulder, por favor! O que está acontecendo?

MULDER: - (GRITA) Fique fora disso! Isso é comigo.

SCULLY: - (GRITA) Eu não posso ficar fora disso! Eu estou nisso!

Meg desce as escadas num chambre. Olha para eles, nervosa.

MULDER: - (GRITA) Não começa! Isso é assunto meu! Eu tenho o dever de proteger minha família. Essa é a parte de um pai. A sua como mãe, é gerar o nosso filho. Eu disse que seria homem pra você. E eu vou ser!

SCULLY: - (GRITA) Olha aqui, Mulder...

MULDER: - (GRITA) Cala a sua boca e tranca a merda dessa porta quando eu sair! Meg, se alguma coisa acontecer comigo tire Scully daqui. Pega a arma que eu te dei e mate quem preciso for.

Mulder destranca a porta da sala e sai pra rua. Engatilha a arma. Scully vai até a porta. Percebe o carro negro do outro lado da rua. Fecha a porta, enquanto derruba lágrimas. Meg tranca a porta.

MARGARET: - Filha o que...

SCULLY: - Eles sabem de tudo, mãe!

Scully se abraça em Meg chorando. Meg afaga os cabelos dela.

MARGARET: - Não se preocupe, Dana... Fox está aqui e eu estou aqui. Também estou nisso, ninguém vai tocar no seu filho.

SCULLY: - Ele gritou comigo!

MARGARET: - Ele só está tentando ser pai e marido, Dana. Deixe-o. Deixe-o provar pra si mesmo que ele pode cuidar da família dele. Sabe que ele precisa disso. Ele era um menino quando levaram a irmã dele sem que pudesse fazer nada. Agora ele é um homem...

Corte.


[Som: Filter – Hey man, nice shot]

Mulder aproxima-se do carro. Garganta Profunda desce, olhando pra todos os lados. Mulder aponta a arma na cabeça dele.

MULDER: - (ÓDIO) Como sabe desse lugar?

GARGANTA PROFUNDA: - Não importa como eu sei. Eles ainda não sabem. Abaixe essa arma, agente Mulder.

MULDER: - (RAIVA) Eu não vou entregar minha mulher!

GARGANTA PROFUNDA: - Nem seu filho que está dentro dela.

MULDER: - ... (PÂNICO)

GARGANTA PROFUNDA: - Eu sei que a agente Scully está grávida, Mulder. Mas eles ainda não sabem. Estão seguindo sua mentira, via Alex Krycek que engoliu a história do Novo México. Meus parabéns. Acho que agora não tenho mais dúvidas, você é filho de Bill Mulder. Porque isso foi tacada digna de um Mulder, não de um Spender. Foi com categoria.

Mulder abaixa a arma, desatinado.

GARGANTA PROFUNDA: - Me escute com atenção. Estão observando seus amigos. Vão ameaçá-los. Talvez peguem eles como forma de fazer você se render. Avise-os que correm perigo.

Mulder põe as mãos no rosto, nervoso.

GARGANTA PROFUNDA: - Não tentem sair do país agora, eles estão atentos. Seus rostos vão estar em todos os noticiários. Tranque as portas. Não circule por aí. Fique com ela. Vou dar um jeito de afastar as atenções deles daqui. Colocarei alguns homens disfarçados até que eu consiga segurança o suficiente pra tirar vocês três do país. Aquele homem deu 48 horas pra encontrarem vocês. Temos 48 horas pra desaparecer.

Mulder olha pra ele.

MULDER: - Não acredito em suas boas intenções.

GARGANTA PROFUNDA: - Não peço que acredite em mim, Mulder. Não tem motivos pra isto.

MULDER: - Você é tão mentiroso quanto eles!

GARGANTA PROFUNDA: - ... Volto quando conseguir ajuda.

MULDER: - Por que está fazendo isso?

GARGANTA PROFUNDA: - Por Bill Mulder, que realmente nunca me traiu. Por você. O único que pode dizer basta a tudo isso. Chega de trevas, agente Mulder... Não precisamos mais de trevas. Precisamos de luz.

Garganta Profunda entra no carro.

MULDER: - Tenho a vacina.

GARGANTA PROFUNDA: - Eu sei.

MULDER: - Posso dar uma dose a você.

GARGANTA PROFUNDA: - Guarde minha dose para quem merece realmente viver.

MULDER: - Está arriscando sua pele.

GARGANTA PROFUNDA: - Não tenho nada a perder.

MULDER: - Vão matar você.

GARGANTA PROFUNDA: - Agente Mulder, olhe para um velho como eu sem nada na vida. Olhe para você, com a vida pela frente, uma família e uma criança que será a salvação de todos nós... Acha que pensaria duas vezes em que vida apostar? Não é altruísmo. Isso é apenas lógica.

MULDER: - ... Eu acho que fiz tudo errado... Se eu perder meu filho, nunca mais vou ter coragem de olhar pra Scully. Eu me mato.

GARGANTA PROFUNDA: - Para saber se a água de um balde está quente ou fria deve-se meter a mão no balde, agente Mulder. De nada servirá a discussão, por mais brilhante que possa ser.

Garganta Profunda entra no carro. Mulder fica parado no meio da rua, acompanhando o carro com os olhos.

Corte.


Scully abre a porta. Mulder entra nervoso, às pressas. Meg olha pra ele.

MARGARET: - Fox o que...

MULDER: - Meg, pegue suas coisas e vá pra San Diego. Agora.

MARGARET: - Mas Fox...

MULDER: - Agora, Meg! Quero que vá pra lá e chame Bill de volta. Ele está em Washington!

MARGARET: - Washington? Mas...

MULDER: - Fique lá com Bill e Charles, de olhos abertos! Proteja sua família, Meg. Estão de olho em todos.

MARGARET: - Mas e vocês....

MULDER: - Meg, eu protejo sua filha, eu prometi isso a você. Agora pega suas coisas e vá. Você é a única que sabe da verdade, fique com sua família, só você pode protegê-los porque sabe do perigo real! Scully me ajude a trancar todas as janelas e portas.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Vá Scully!

Scully sobe as escadas. Meg vai atrás dela. Mulder pega o telefone. Disca. Enquanto aguarda tranca a porta da frente.

MULDER: - Sou eu, Mulder... Skinner, saia de sua casa... Agora! Eles estão atrás de mim e vão pegar qualquer um que esteja do meu lado. Quero que vá até os Pistoleiros. Mande-os saírem de lá com Suzanne Modesky. Vão pra qualquer lugar, mas sumam da vista de todos!... Ela está bem, estou com ela. Diga ao Frohike para ligar pro celular 2 caso haja algum problema. Ele sabe o que é... (IRRITADO) Se quer fazer algo por mim, Skinner, tire seu traseiro da linha de tiro. Aí sim eu ficarei descansado.

Mulder desliga. Meg desce com a mala.

MARGARET: - Já chamei um táxi.

MULDER: - Precisa de dinheiro, Meg?

MARGARET: - Não, eu tenho. Fox... Cuida da minha filha.

MULDER: - (SORRI) Eu dou minha vida por ela, mãe. Sabe disso.

Meg abraça Mulder.

MARGARET: - Cuide-se você também... Estou preocupada.

MULDER: - Eu sei me virar, Meg.

MARGARET: - E o parto? Essa criança está prestes a nascer...

MULDER: - Meg, eu agradeço sua ajuda, mas ajudará mais se for cuidar dos seus filhos, netos e sua nora. Deixa que do meu filho eu cuidarei. Isso é entre eu, Scully e ele. É uma trindade, Meg... Assim será.

Meg sorri. O táxi buzina. Mulder abre a porta. Scully desce as escadas.

SCULLY: - Mãe...

As duas se abraçam. Scully chora.

SCULLY: - Mãe, obrigada por tudo, por estar aqui comigo, por cuidar de mim quando Mulder não estava...

MARGARET: - Ora Dana... Mãe é mãe. E você agora sabe disso. Sabe das loucuras que uma mãe faz pra salvar um filho.

SCULLY: - (SORRI/ DERRUBANDO LÁGRIMAS) Vai mãe... Toma cuidado. Eu nunca me perdoaria se algo acontecesse a você.

MARGARET: - Nada vai acontecer comigo. (PISCA O OLHO) Estou com meu facão.

Mulder olha pra ela assustado.

MARGARET: - Do aeroporto ligarei para seu irmão. Eu cuido dos Scullys. Cuide você dos Mulders, eles não sabem se virar sozinhos.

Mulder sorri. Meg olha pra ele.

MARGARET: - Já deixei o almoço pronto. E lave os pratos. Ela não pode fazer muito esforço.

MULDER: - (SORRI) Sim senhora.

Meg sai. Mulder fecha a porta. Scully observa Meg pela janela. Mulder liga os alarmes. Scully olha pra ele. Mulder puxa a arma e senta-se no sofá.

SCULLY: - Mulder... Quem era?

MULDER: - Garganta Profunda.

SCULLY: - O que ele queria?

MULDER: - Dizer que está do nosso lado. Ele sabia tudo, Scully. E ficou quieto!

SCULLY: - E por que ele fez isso?

MULDER: - Pelo amigo Bill Mulder. Disse que vai nos tirar daqui. Lamento, mas a essa altura, eu não confio em ninguém. Ele disse que estão nos procurando no Novo México e querem minha cabeça em 48 horas. Mas não temos 48 horas Scully. Eu sei que eles vão nos encontrar antes.

SCULLY: - (NERVOSA) ... Falta mais do que isso pro bebê nascer.

MULDER: - Eu sei... Eu bem queria que ela nascesse antes disso. Tudo ficaria mais fácil.

Scully senta-se ao lado dele. Afaga a barriga. Olha pra Mulder. Pega a mão dele e coloca sobre sua barriga.

SCULLY: - Fala com ela, Mulder. Ela sempre escuta você.

MULDER: - (SORRI) Vai dormir, vai. Eu vou ficar aqui atento.

SCULLY: - Eu fico com você. Grávidas não têm sono...

Scully deita-se com a cabeça no colo dele. Mulder faz carinhos nos cabelos dela. Cookie sobe no sofá, deitando-se ao lado de Scully. Scully o abraça.

MULDER: - Lá vem o ciumento... Ei, ‘cão de guarda’, eu sabia que devia ter comprado um fila.

SCULLY: - Não diga isso, Mulder. Não viu Cookie furioso ainda. Dia desses atacou o carteiro porque se aproximou de mim. Sabe que cães percebem as coisas. Ele só tá protegendo nosso bebê.

MULDER: - Grande natal que dei pra você esse ano... Num ano é casa mal assombrada, outro é Papai Noel sinistro...

SCULLY: - Mulder, não estou nem aí para o natal. Mamãe arrumou a árvore porque ficou insistindo. Sabe o que mais quero de presente, Mulder. Minha cabeça não está pra festas. Eu só quero meu bebê. Espero que Papai Noel Mulder me dê ele.

Mulder sorri. Afaga os cabelos dela.


BLOCO 3:

5:12 A.M.

Scully acorda-se. Senta-se no sofá. Vê Mulder sentado numa cadeira, olhando pela janela, segurando a arma. Come sementes de girassol. Os olhos dele atentos, nervosos. As mãos tremem. Ele parece que vai ter um colapso.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - (DISFARÇA) Oi! Que sono curto...

SCULLY: - Mulder... Vamos pro quarto.

MULDER: - Vá, eu vou daqui à pouco.

SCULLY: - Mulder... Eu entendo o que está fazendo, mas não vai resolver nada ficar acordado aí, esperando por eles. Precisa descansar, repor suas energias.

MULDER: - Eu estou bem.

SCULLY: - Mulder, por favor! Você me faz sentir culpada!

MULDER: - (ÓDIO) Eles não vão tirar nosso filho. Eu juro!

SCULLY: - (GRITA) Mulder!!!! Está me ouvindo??? Não pode ficar aí feito um paranoico! Mulder, pelo amor de Deus, eu estou nervosa!

MULDER: - (GRITA) E eu não estou? Acha que isso é divertimento? Acha que é bom se sentir como uma caça? Esperando os desgraçados entrarem aqui no meu ninho pra roubar nossa cria?

SCULLY: - (RESSENTIDA) Mulder... Eu... Eu não quis dizer isso. Eu quis dizer que preciso da sua atenção um pouquinho.

MULDER: - (INDIGNADO) Como tem coragem de ficar me enchendo com essas besteiras de mulher grávida quando os inimigos estão à espreita lá fora? O que é dessa vez? Creme ou lamaze? Sushi ou manga?

Scully enche os olhos de lágrimas. Abaixa a cabeça.

SCULLY: - Eu... Eu só queria sua atenção pra me acalmar. Eu vou ter um filho, estou prestes a parir e isso me dá medo. E ver você aí desse jeito, nesse nervosismo todo, aumenta a minha angústia.

Mulder olha ternamente pra ela. Levanta-se. Abraça-a.

MULDER: - Desculpe, Scully... Eu... Estou descontando em você a raiva que estou daquela gente.

SCULLY: - ... (DERRUBA LÁGRIMAS)

MULDER: - Vem, vamos deitar. Eu cuido de você. Quer ouvir piadinhas?

SCULLY: - Eu estou com medo, Mulder. Mais medo do parto do que desses homens.

MULDER: - Não tenha medo. Eu estou aqui com você. Eu vou me sair bem. Confia em mim... Ahn? Meu amor...

SCULLY: - (OLHA PRA ELE, SORRI) Meu amor?

Mulder sorri. Scully abraça-se nele, respirando fundo. Fecha os olhos.

SCULLY: - Não sabe o quanto você me faz sentir segura quando estou nos seus braços... O seu abraço, Mulder, me acalma... Eu confio em você. Você me prometeu esta criança e você está cumprindo.

MULDER: - Eu disse que lhe daria esse presente. E vou dar. Agora vem, vamos pra cama. Você parece que vai estourar...

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: - Tadinha da minha baixinha... Tá virada num botijão de gás... Quer colinho?

SCULLY: - (SORRI) Quero.

Mulder a toma nos braços. Sobe as escadas.

MULDER: - Duplamente pesada... O que tem aí dentro, Scully? Um chumbinho? Ou são dois?

SCULLY: - Se eu não tivesse certeza absoluta do processo, estaria até duvidando mesmo.


5:49 P.M.

Na cozinha, Mulder de terno e gravata olha pra Scully enquanto lhe entrega uma xícara.

MULDER: - Tranque a porta e fique com sua arma por perto. Eu não vou demorar. Mas preciso saber dos rapazes ou vou ter um colapso nervoso. Se descobrirem o laboratório, perderemos toda a vacina.

SCULLY: - Vai Mulder... Isso está me deixando nervosa também.

Mulder olha pra Cookie.

MULDER: - E você cuide da mamãe, enquanto estou fora. Em caso de emergência, morda a jugular do desgraçado. Me entendeu?

Cookie olha pra Mulder, abanando o rabo.

MULDER: - Vou considerar isso como um ‘sim’.

Mulder sai. Scully tranca a porta. Cookie senta no chão. Inclina a cabeça para o lado, olhando triste pra Scully, soltando um chorinho. Scully sorri.

SCULLY: - Até você sente a situação, não é? Vem, mamãe vai dar comida pra você.

Scully pega a tigela de Cookie. Abre o armário para pegar a ração. Então se apoia no balcão, colocando as mãos na barriga.

SCULLY: - Ai... Ai meu Deus...

Scully segura-se no balcão. Começa a respirar pela boca, tentando se acalmar. Cookie pula na cadeira e sobe no balcão. Começa a lamber o rosto de Scully. Ela sorri. Pega a ração.

SCULLY: - Tá filho, me acalmei. Vou dar sua comida e me deitar... Não estou bem.


7:46 P.M.

Mulder entra em casa pela porta dos fundos. Larga as chaves do carro sobre a mesa. Liga os alarmes. Caminha até a sala.

MULDER: - Scully???

Mulder sobe as escadas. Entra no quarto. Não vê Scully.

MULDER: -(MEDO) Scully????

Mulder sai do quarto. Vê a porta do quarto do bebê aberta. Música tocando baixinha. Mulder entra devagarzinho. Abre um sorriso.

[Som: Lenny Kravitz - Calling all Angels]

Scully dorme sentada na poltrona, abraçada na raposinha de pelúcia e com uma das mãos sobre a barriga. Cookie dorme aos pés dela.

Mulder se recosta na porta observando-a dormir. Sorri cansado, mas feliz. Observa o quarto arrumadinho. Ajoelha-se ao lado de Scully e a acorda com um beijo no rosto. Aproxima os lábios do ouvido dela.

MULDER: -(MURMURA) Chamando todos os anjos, Dana Scully desça das nuvens e apresente-se por favor... Um pobre mortal de joelhos aqui ousa suplicar pelo seu olhar.

Scully sorri, abrindo os olhos. Olha pra ele.

MULDER: - Oi... Dorminhoca. Por que não se deitou?

Scully desliga o som, se espreguiçando.

SCULLY: - Não consigo dormir deitada, tá ruim de encontrar posição... Mamãe ligou, diz que já está com Bill. Estão bem, mas tem um carro suspeito os observando. Ela não falou nada pra eles, mas está atenta. Como estão os rapazes?

MULDER: -A essa hora já estão escondidos com a Suzanne. Não quiseram revelar o local.

SCULLY: - E Skinner?

MULDER: - Skinner não quer se esconder. Quer dar a cara a bater. Vai ficar no FBI. Discutiu comigo e os rapazes, disse que de todos, era ele quem deveria ficar atento, porque se o pegassem, era o que menos faria falta. Não está envolvido com vacina, não entende nada de biologia, química ou invasão de computadores... (SORRI) Eu disse a ele que devia sumir, mas... Sabe como é o Girafão. Ficou empolgado com a afilhada e resolveu ficar na linha de tiro pra dar informações...

SCULLY: - (SORRI) Sabia que ele merecia ser o padrinho...

MULDER: - Vem pro quarto, vem? Vamos nos deitar.

SCULLY: - (SORRI) O que está me propondo, Mulder?

MULDER: - (SORRI) Mesmo que fosse o que você está pensando, seria completamente inviável essa negociação. Fica pra próxima, desejo é o que não falta.

Mulder a ajuda a se levantar. Os dois vão pro quarto. Mulder ajeita os travesseiros e a ajuda a sentar-se na cama.

SCULLY: - Ai minhas pernas...

MULDER: - Quer uma almofada?

SCULLY: - Quero... Ai que vontade de chorar de tanta dor... Já não sei de que jeito eu fico... Sentada dói também!

Mulder coloca uma almofada na cama. A ajuda a colocar as pernas sobre a almofada.

MULDER: - Melhorou?

SCULLY: - Bastante.

Mulder caminha até a janela e olha pra fora, nervoso.

SCULLY: - Mulder... O que está fazendo aí?

MULDER: - Só estou olhando pra rua, para ver o tempo...

SCULLY: - (SORRI) Você é um mentiroso, Fox Mulder!

MULDER: -(SORRI) Ah, mas eu sou uma gracinha. Confessa!

SCULLY: - (SORRI) Você é uma gracinha, eu confesso. Mas vamos parar por aí nesse assunto, antes que eu comece a analisar a gracinha que você é e fique me remoendo aqui.

Mulder vira-se pra ela e começa a rir. Tenta distraí-la.

MULDER: - Scully você não presta, sabia?

SCULLY: - Sabia. Você já me disse isso.

MULDER: - Eu te invejo.

SCULLY: - Me inveja? O que você inveja aqui? O barril enorme que eu virei???

MULDER: - É, eu invejo. Invejo você por ser mulher. Aviso: apenas no sentido de estar gerando um filho.

SCULLY: - (SORRI) Por que Mulder?

MULDER: - Não consigo imaginar o que é isso. A grandeza disso. O que você sente aí dentro... Como é...

SCULLY: - É, mas não imagina o lado ruim também.

MULDER: - Que lado ruim?

SCULLY: - As dores nas pernas, nas costas... A vontade de ir ao banheiro, de comer coisas estranhas. Eu agora sou uma mulher de ladinho.

MULDER: - (CURIOSO) Como assim de ladinho?

SCULLY: - Pra passar entre os móveis: de ladinho. Pra descer as escadas: de ladinho. Pra deitar: de ladinho. Pra fazer sexo: de ladinho.

MULDER: - (RINDO) Sabe que eu fico me encostando em você pra ver se sinto ela se mexendo em mim... Mas não é a mesma coisa. Natureza injusta. Tudo é injusto pro homem. Deus é mulher, tenho certeza disso. E nos odiava.

SCULLY: - Mentira! Vocês foram privilegiados! Fazem xixi em pé!

MULDER: - Acha isso privilégio? Isso é uma desgraça! É um apêndice balançando ao vento.

SCULLY: - (RINDO) ...

MULDER: - Quer coisa mais ridícula que um homem nu? Não é por machismo que os filmes eróticos salientam as formas femininas. É que são mais bonitas mesmo. Vocês são mais felizes.

SCULLY: - Por que mais felizes? Sangramos todo o mês!

MULDER: - Apenas um detalhezinho infeliz. De resto são privilegiadas sim. Não precisam se preocupar quando vestem calças, quando ficam excitadas e menos ainda na hora de transar. Vocês nunca podem falhar.

SCULLY: - Ai, fazia tempo que não conversávamos nossas loucuras... Tô adorando. Continua. Me distraia. Alivia a dor.

MULDER: - (RINDO) Mas é sério, Scully.

SCULLY: - (RINDO) Mulder... Vamos fazer uma suposição.

MULDER: - Diga.

Mulder senta-se na cama. Massageia as pernas dela.

SCULLY: - (CURIOSA) Assim... Sabe que a ciência faz pesquisas nesse campo. Temos alguns problemas ainda pela falta de um útero em vocês, mas... Se eu como cientista, pudesse descobrir uma fórmula para engravidar um homem, como naquele filme chamado Junior... Algo tipo o ‘engravidol’...

MULDER: - (RINDO) Schwarzenegger ficou uma gracinha grávido.

SCULLY: - (RINDO) Você se animaria a ser a cobaia? Tipo, me deixaria engravidar você?

MULDER: - (SORRI) Eu??? Grávido?

SCULLY: - Sim.

MULDER: - (EMPOLGADO) Com um barrigão enorme??? Tendo que suportar piadas do tipo: Ei Mulder, feche a boca, está virando o John Goodman.

SCULLY: - (RINDO) Sim. Grávido.

MULDER: - (EMPOLGADO) Eu toparia.

SCULLY: - (RINDO) Está debochando de mim, confessa.

MULDER: - Não. Eu toparia.

SCULLY: - E a cesariana?

MULDER: - E daí? Tenho tantas cicatrizes de coisas horrendas, qual o problema de uma cicatriz de algo bonito?

SCULLY: - Mulder, não fala sério.

MULDER: - Falo. Qual é o problema? Eu adoraria ficar grávido.

SCULLY: - (SURPRESA) Eu não acredito! (RINDO) Mulder, você não existe...

MULDER: - Saiba que em civilizações mais evoluídas do que a nossa, não há distinção de sexo. Por isso digo que somos completamente atrasados e nada evoluídos. Se fôssemos evoluídos, eu poderia estar aí reclamando de dor nas pernas e você aqui preocupada com os safados lá fora...

Scully sorri.

SCULLY: - Vem aqui, vem... Deita do meu lado.

MULDER: - Não tá com fome? Eu acho que vou fazer alguma coisa pra comer.

SCULLY: - Não... Faça algo pra você. Se quiser me trazer alguma coisa líquida eu aceito.

MULDER: - Uma vitamina? Que tal? Pinguinho tá com fome.

SCULLY: - Hum... Pode ser.

MULDER: - (SORRI) ... Grávido... Imagina eu grávido... O primeiro homem a ficar grávido... Que loucura! Demais! Um barrigão enorme... Uau!

Mulder se levanta. Sai do quarto. Scully sorri.

SCULLY: - Esse Mulder... (RI) Grávido... (PÂNICO) Acho que ele levou a sério...

10:11 P.M.

[Som: Simple Red – For Your Babies]

Close no copo vazio sobre o criado mudo. Scully dorme.

Uma caneca de café numa mesinha ao lado da poltrona. Mulder sentado vigia a rua pela janela, com a arma na mão. A chuva cai lá fora. O vento agita as árvores e o céu anuncia tempestade. Mulder observa o céu, angustiado.

MULDER (OFF): - Você me deu sua palavra, anjo. Espero que a cumpra... Por que será que me sinto como um cara há dois mil anos atrás, quando soube que teria de proteger o que seria o salvador? Estou na mesma maldita situação... Mas pelo menos o filho é meu e não estou num estábulo... Ironia... Estou ficando louco...

Mulder olha pra televisão ligada, sem volume. Na tela a foto dele e Scully como procurados. Ele olha pra Scully dormindo.

MULDER: - Durmam meninas... Papai tá aqui pra proteger as duas...

Mulder sorri. Larga a arma. Levanta-se. Se arrasta pela cama, erguendo a roupa de Scully, abraçando-se em sua barriga. Beija-a.

MULDER: - Pinguinho, sei que está acordada e me ouvindo... Menos de 24 horas... Me ajuda... Eu não sei o que vou fazer, estou com medo... (SEGURA AS LÁGRIMAS) Eu tenho um péssimo pressentimento dentro de mim... Tempestade não é algo bom a ser anunciado... Não quero assustar sua mãe, mas...

Mulder beija a barriga de Scully. Recosta o rosto contra a barriga dela. Fecha os olhos.


11:31 P.M.

Mulder dorme, ainda vestido. A boca aberta, cansado. Scully dorme encostada no ombro dele. Remexe-se na cama, dormindo. Ergue a blusa, passa a mão na barriga. Move a cabeça de um lado pra outro, numa fisionomia de dor.

Close na barriga de Scully. Duas pequenas mãos aparecem sob a pele, empurrando a barriga, como se quisessem sair.

Scully passa a mão na barriga e acorda-se assustada. Senta-se na cama. Respira nervosamente. Fecha os olhos. Olha pra barriga. Afaga-a. Respira com a boca, tentando acalmar-se.


12:14 A.M.

Mulder acorda-se. Vira-se na cama. Abre os olhos. Não vê Scully. Olha pra porta do banheiro. Escuta um choro baixinho. Mulder levanta-se e vai até o banheiro.

Scully nua na banheira. O rosto apoiado num travesseiro na borda da banheira.

MULDER: - (PREOCUPADO)Scully, o que está sentindo? Por que não me chamou?

SCULLY: - (SECANDO AS LÁGRIMAS) Não quis acordar você... É alarme falso, ainda faltam uns dois ou três dias...

Mulder ajoelha-se ao lado dela, preocupado.

MULDER: - Dói muito?

SCULLY: - Sim... A água alivia as contrações.

MULDER: - (SORRI) Como faz com a minha cabeça?

SCULLY: - (SORRI) É.

MULDER: - Bom... A água é um santo remédio.

SCULLY: - Me ajuda a sair, Mulder.

Mulder levanta-se. Pega a toalha e a ajuda a se levantar. Enrola a toalha nela.

MULDER: - Fica calma, tá legal? Tudo vai sair bem.

SCULLY: - Eu estou nervosa com o parto, nervosa com aqueles homens...

MULDER: - Precisa se acalmar. Preocupe-se com Pinguinho. O resto é comigo.

SCULLY: - Ai Mulder, eu estou nervosa...

MULDER: - Scully, relaxa. Nada vai acontecer. Tá bom?

Mulder a beija na testa. A ajuda a colocar a roupa.

SCULLY: - Frio...

MULDER: - É está frio... Não está nevando ainda, mas uma chuva de lascar... Até as árvores congelaram... O Cookie foi dormir ao lado da lareira, o espertinho.

Mulder a leva para o quarto. Senta-se na cama. Scully senta entre as pernas dele. Geme de dor. Mulder afaga sua barriga.

MULDER: - Respira fundo... Isso, faz beicinho de peixe. Agora é a hora de fazer... Imite a Molly 3.

SCULLY: - (SORRI) Au! Dói! Parece que está me rasgando por dentro...

MULDER: - Beicinho... Assim, eu faço com você. Vamos...

Os dois respiram pela boca. Mulder ajeita o cabelo dela.

MULDER: - Que cena patética...

SCULLY: - (RINDO) Ai, Mulder! Não me faz rir que dói mais!

Mulder abaixa a cabeça, nervoso. Com uma das mãos afaga a barriga de Scully, com a outra segura a mão dela. Scully continua respirando com a boca.

SCULLY: - Me ajuda a deitar, Mulder...

Mulder a ajuda a deitar-se. A cobre com o edredom. Scully fecha os olhos. Mulder passa a mão no rosto dela.

MULDER: - Aliviou?

SCULLY: - Eu estou com sono, mas não consigo dormir... Ai, começou de novo. Ai, Deus! É mais forte!

Scully afasta o edredom, erguendo a roupa. Começa a respirar pela boca. Mulder põe a mão na barriga de Scully. Ela fala algo que ele não escuta. Mulder inclina o rosto mais pra perto dos lábios dela.

MULDER: - Não entendi.

SCULLY: - ... Cuida de mim...

Mulder tira o paletó. Olha pra ela, preocupado, enquanto morde os lábios. Deita-se a seu lado, segurando sua mão. Afaga a mão dela.

MULDER: - Dorme. Estou aqui. Eu cuido de você.


1:21 A.M.

Mulder zanza pelo quarto. Olha pela janela. Olha pra Scully dormindo. Ela escorre suor pela testa. Mulder veste o paletó. Esfrega os braços com frio. Nervoso e tenso. Olha pra televisão. Olha pela janela, para o céu, angustiado. Olha pra Scully que continua suando. Mulder vai para o banheiro. Lava o rosto, olhando-se no espelho.

MULDER: - Precisa relaxar... Ou vai acabar tendo um enfarto... Maldita sensação estranha... Estou arrepiado!

Mulder lava as mãos, seca o rosto. Volta para o quarto. Deita-se na cama. Fecha os olhos. Scully o cutuca.

MULDER: - O que foi?

SCULLY: - ... (OFEGANTE)

Scully se revira na cama.

SCULLY: - Mulder... Me ajuda...

Mulder olha pra ela. Scully começa a gritar. Mulder se ajoelha na cama, assustado, olhos arregalados pra Scully. Scully murmura alguma coisa, entre os gemidos, virando a cabeça de um lado pra outro. Ergue o edredom. Mulder olha para o colchão molhado.

SCULLY: - (OFEGANTE) A bolsa... rompeu...

Mulder ergue Scully. Coloca os travesseiros atrás dela.

MULDER: - (NERVOSO) Fica assim, erguida, calma, muita calma... (TENTANDO RELAXAR) A bolsa rompeu... é... a bolsa rompeu... (TENSO) O que está acontecendo por aqui? Hum?

SCULLY: - (GRITA/ SEGURANDO A BARRIGA)

MULDER: - (NERVOSO) Ela tá nascendo, é isso né? (RI SOZINHO) Ela tá nascendo... (PÂNICO) Ai meu Deus, ela tá nascendo!

Scully fica em posição de parto, aos gritos de dor. Mulder fica catatônico.

SCULLY: - (GRITA) Ela tá vindo! (RI CHORANDO) Ela é obediente, ouviu o pai dela!

MULDER: - (CATATÔNICO)

SCULLY: - (GRITA) Mulder!!!!!!!

MULDER: - (CATATÔNICO/ PÂNICO)

SCULLY: - Mulder, pelo amor de Deus! Me ajuda!

Scully grita com dores.

MULDER: - ... (PÂNICO)

SCULLY: - (GRITA) Mulder!!!!!! Preciso de você!

MULDER: - (ASSUSTADO)E-eu... Eu não vou conseguir fazer isso...

SCULLY: - Mulder!!!!!! Você pode, você sabe! Eu ensinei você!

Scully tenta respirar com a boca. Mulder está em choque.

SCULLY: - (GRITA DE DOR) Fox Mulder!!!!!!!!!

Mulder cai em si. Ajoelha-se entre as pernas dela. Toma posição. Respira fundo.

MULDER: - Tá legal, eu posso. Isso é entre nós três... É a minha filha que vai nascer e eu vou ter a honra de ajudar ela vir ao mundo... (SORRI) A minha filha...

SCULLY: - (GRITA)

MULDER: - Vai Scully, você consegue. Eu sei que consegue... Força...

SCULLY: - (GRITA)

Mulder tira o terno apressadamente. Olha nervoso pra Scully. Segura uma das mãos dela.

MULDER: - Vai Scully. Vai, minha Scully... (SORRI) Você é forte... Força!

SCULLY: - (GRITA) Dói!!!!!!!!! Ela não sai!

MULDER: - (NERVOSO) Vai sair sim, ela é sua filha, teimosa como você... Pinguinho, não dificulta as coisas ou papai vai ficar bravo e colocar você no castigo... Já pra fora!

SCULLY: - (GRITA/ ESCORRENDO SUOR DO ROSTO)

MULDER: - (TENSO) Força Scully, você vai conseguir!... Vai... (SORRI) Scully... Força!

Scully grita, revirando-se na cama. Mulder larga a mão dela. Coloca suas mãos entre as pernas dela. Sorri.

MULDER: - (FORA DE SI, CHORA E RI) Scully... Ela tá nascendo... Meu Deus, ela tá nascendo! Deus, isso é lindo, ela tá nascendo! Força Scully!!! ... Mais um pouco... Vai, eu já toquei nela... Vai mãezinha!

SCULLY: - (SORRI AOS GRITOS)

MULDER: - (CHORANDO E RINDO DE EMOÇÃO) Ela não tem cabelo... Você me traiu, é filha do Skinner...

Scully relaxa e sorri. Toma fôlego. Contrai os músculos e força novamente. Fecha os olhos. Inclina a cabeça pra trás num grito de dor.

Um choro rápido ecoa pelo quarto. Scully olha pra Mulder que ri sozinho segurando nas mãos a bebê toda ensanguentada, que num repente abre os braços ficando completamente esticada, como quem saúda a vida. Scully começa a chorar de emoção. Mulder olha pro bebê em suas mãos e não sabe se ri ou chora. Coloca-a em seus braços, meio desajeitado.

MULDER: - (BOBO/ CHORANDO) Scully... Eu disse. Espero que tenha sapatinhos cor de rosa...

Scully ri e chora. Mulder deita a menina sobre Scully. Scully passa a mão na filha, chorando.

SCULLY: - Mulder, pega a tesoura esterilizada... Precisamos cortar o cordão.

Mulder pula da cama e corre pro banheiro. Volta com uma tesoura num envelope plástico.

MULDER: - (NERVOSO) Faz isso, eu não vou machucar minha filha.

SCULLY: - Não machuca Mulder...

MULDER: - (NERVOSO) Como sabe?

Scully corta o cordão.

SCULLY: - ... Bem vinda ao mundo, meu coraçãozinho.

Mulder sai correndo do quarto aos gritos de empolgação.

MULDER: - Yes!!! Nós temos uma filha... Meu Deus, nós temos uma filha!

Scully chorando, num sorriso, olha pra menina. Mulder entra às pressas no quarto, carregando fraldas de pano e perdendo a metade delas pelo caminho. Coloca sobre o bebê. Scully ajeita a fralda sobre a menina. Sorri.

MULDER: - (NERVOSO) Por que ela tá dessa cor? Não me parece bem...

SCULLY: - (SORRI) Porque nasceu agora, Mulder...

MULDER: - (NERVOSO) Tá frio aqui... Acho melhor pegar o cobertor dela...

SCULLY: - Mulder se acalme! Ela está bem...

Mulder veste o paletó. Sobe na cama, ficando ao lado dela.

MULDER: - (NERVOSO) Tem certeza? Eu tô com frio, ela deve estar...

SCULLY: - Tenho... Mulder, você é pai há menos de dois minutos e já está me deixando irritada!

Scully olha pra Mulder e franze o cenho pra chorar. Envolve a filha com os braços.

SCULLY: - Mulder... Eu sou mãe.

MULDER: - (COMEÇA A CHORAR) Eu sei... (SECA AS LÁGRIMAS) Você é a mãe mais linda do mundo... Você merece segurar o que segura hoje...

SCULLY: - (CHORANDO) Nós vencemos, Mulder... Nós temos uma filha...

MULDER: - (CHORANDO) Sim... Nós temos uma filha.

SCULLY: - (CHORANDO) Quer parar de chorar? Nós dois aqui chorando e ela que devia chorar não chora.

MULDER: - (CHORANDO) Ela sabe que tem pais bobos.

Os dois secam as lágrimas. Scully limpa a filha. Limpa o rosto dela, enquanto ela se espreguiça. Os dois sorriem.

SCULLY: - Deus, ela é perfeita... Ela é linda!

Mulder entrega outra fralda pra ela. Scully coloca sobre a menina. Mulder coloca sua mão sobre a filha. Os dois ficam olhando pro bebê.

SCULLY: - Mulder... Nunca vi uma criança nascer desse jeito.

MULDER: - Como assim?

SCULLY: - Mulder, bebês nascem encolhidos e ficam encolhidos. Ela nasceu e logo espichou os braços aos céus como se dissesse ‘finalmente eu cheguei’.

MULDER: - ... Eu disse que ela é especial, Scully. Finalmente ela chegou... Pra sempre.

Scully segura a mãozinha da filha.

SCULLY: - Sovina igual ao pai... Já ficou de mão fechada.

MULDER: - (SORRI) Pinguinho... Oi Pinguinho!

A bebê abre os olhos. Fita Mulder. Fita Scully. Simula um sorriso rápido com um canto da boca e fecha os olhos novamente.

MULDER: - (CURIOSO) Ela já devia fazer isso?

SCULLY: - É sua filha, Mulder. Já tá debochando da gente.

Scully olha pra Mulder. Chora.

SCULLY: - Eu amo você, Mulder.

Mulder aproxima os lábios dos dela. Sussurra contra o rosto de Scully.

MULDER: - Eu também amo você, Scully.

Os dois trocam um beijo. Mulder afasta os lábios dos de Scully. Ajoelha-se na cama. Olha pra ela, olha pra filha. Scully olha pra bobice dele. Mulder dá um sorriso de felicidade.

Mas o sorriso dele vai diminuindo e a fisionomia vai ficando séria. Mulder vira o rosto lentamente pra janela, como se pressentisse alguma coisa. O vento lá fora fica mais forte. Scully continua olhando pra Mulder e desfaz o sorriso. Mulder levanta-se da cama. Abre o criado mudo. Retira um tubo de ensaio com o óleo negro. Scully olha pra ele, nervosa, enquanto segura a filha contra si. Mulder coloca o tubo de ensaio no bolso do paletó.

MULDER: - (GRITA) Me dá ela. Me dá ela aqui!

SCULLY: - (INCRÉDULA) Mulder...

Mulder toma a menina nos braços. Segura-a contra si. Fica em pé, parado no quarto. Scully começa a derrubar lágrimas, acenando negativamente com a cabeça.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Não... Não... De novo não...

Os móveis começam a tremer. A luz invade o quarto. Mulder e a menina são cobertos pela luz. Scully derruba lágrimas, impotente. Mulder olha pra cima como quem sabe o que vai acontecer. Scully ergue-se na cama, incrédula. Acena negativamente a cabeça.

[Fade in]

SCULLY (OFF): - (GRITA) Mulder!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Corte.

[Som: Gabriel Yared – An Angel Falls]

Close no monitor cardíaco que oscila normalmente. A câmera acompanha o fio do soro até focar a pequena mão imóvel.

Scully na cama do hospital. Olhos parados, sem brilho.

Câmera subjetiva (simula o que Scully vê). Quatro vultos no quarto e a luz que não deixa distingui-los. Dois em pé ao lado dela. Outros dois à frente da cama, conversando.

MÉDICO (OFF): - Recebemos um chamado do vizinho. O senhor George disse que a mulher está viajando e ele resolveu passar a madrugada assistindo filmes. Disse que notou algo estranho, veio com uma história de que não acreditou no que viu.

SKINNER (OFF): - Como assim?

MÉDICO (OFF): - Segundo ele, estava acordado quando viu uma luz estranha na casa dos Mulder. Disse que ao olhar pela janela viu uma enorme nave espacial pairando sobre a casa, maior do que cinco estacionamentos juntos. E viu o marido dela sendo sugado por uma luz azul... Ele flutuava no ar.

SKINNER (OFF): - ...

MÉDICO (OFF): - Eu não sei o que aconteceu realmente, mas o homem está aqui no hospital, em estado de choque.

SKINNER (OFF): - Vou interrogá-lo... E ela, como está?

MÉDICO (OFF): - Estável. Teve um parto normal, sem problema algum. Nenhuma infecção. Foi um parto muito bem feito. Mas ela não reage a nada que damos.

Os dois vultos que conversavam se afastam. A luz fica mais forte. Scully vira o rosto para o lado e sorri ao ver seu pai e Melissa. Os dois sorriem pra ela. Willian Scully aproxima-se da filha e afaga-lhe os cabelos num sorriso.


BLOCO 4:

O ambiente claro da sala de espera. Sentados, Meg chora segurando um lenço e Bill está abraçado nela. Charles com os olhos vermelhos, anda de um lado pra outro, vestido numa túnica, orando com o japamala (terço budista) na mão. Skinner entra na sala.

MARGARET: - Ela acordou?

Skinner balança a cabeça negativamente. Charles segura o choro.

MARGARET: - Precisa encontrá-los, Senhor Skinner.

SKINNER: - Eu vou encontrá-los, senhora Scully. Dou-lhe minha palavra. Já coloquei agentes por aí. Eu... Eu não sei como, mas eu vou encontrá-los.

Os Pistoleiros e Suzanne entram assustados.

FROHIKE: - Onde está Scully?

SKINNER: - Ela... Não reage. Está em choque.

Frohike suspira nervoso. Byers põe as mãos nos lábios. Langly observa Charles, curioso.

LANGLY: - Gostei da roupa.

Bill olha pra eles.

BILL: - Saiam daqui. Isso é assunto de família.

FROHIKE: - (INDIGNADO) Mas nós somos a família do Mulder!

BILL: - Assunto da família Scully, porque aquele desgraçado não faz parte de nós!

Byers olha pra Bill. Aproxima-se.

BYERS: - Se acha que é o único aqui a sofrer pela Scully, está enganado. Ela é nossa amiga também, tá legal? Todos nós aqui estamos sofrendo!

FROHIKE: - Byers...

BYERS: - Me solta! Não acho justo você dizer essas coisas do Mulder. Você não sabe quem ele é! Eu tenho muito orgulho sim de dizer que sou amigo dele!

Suzanne segura Byers pelo braço.

SUZANNE: - John... Por favor... Acalme-se. Todos nós estamos tensos.

LANGLY: - Foi uma nave ou foram eles?

SKINNER: - Foi uma nave... Pelo relato do vizinho...

BILL: - (ÓDIO) Pelo amor de Deus! Agora vão acreditar nessa coisa de nave espacial? Não percebem que tudo foi combinado? Aquele desgraçado a dopou, roubou o filho dela, e foi embora!

Meg se revolta. Mete um tapa no rosto de Bill. Charles arregala os olhos. Bill olha incrédulo pra mãe.

MARGARET: - Não se meta nisso, é muito maior do que você pensa!

BILL: - Eu sei o quão grande é isso! Eu estou sabendo da verdade! Ele usou minha irmã, o pai dele é um cretino como ele!

SKINNER: - Senhor Scully... Não sei o que lhe contaram, mas... Podemos conversar lá fora?

MARGARET: - Não, senhor Skinner. O que o senhor sabe eu sei, e os amigos de Mulder também sabem. Pode falar aqui mesmo na frente dos meus filhos. Porque agora não há mais o que esconder.

CHARLES: - Mãe do que está falando?

MARGARET: - Eu estava com Dana durante todo esse tempo!

BILL: - Você estava na Venezuela! Eu recebi um cartão!

MARGARET: - Foi enviado por uma pessoa que Fox conhece que mora lá. Eu estava com eles.

BILL: - (PASMO) Você? Você nos escondeu durante todo esse tempo que Dana estava grávida? Nos fez de tolos, nos deixou noites sem dormir tentando encontrar Dana? Mãe, como você pôde?

MARGARET: - Pelo bem de vocês! Pra proteger vocês, Dana e o bebê!

BILL: - Bom, o que esperar de você, mãe? Ficou boba feito Dana, alucinada pelo bom menino... Minha irmã está lá dentro desistindo de viver por culpa daquele desgraçado do Mulder! Eu já devia ter me acostumado com isso.

MARGARET: - (COMEÇA A CHORAR) E só eu sei a angústia deles... A dor e o medo... Tudo o que passaram juntos pra terem esse filho... Deus, é tanto amor que um tem pelo outro, que nem eu compreendo...

Charles abraça Meg. Bill se cala. Skinner olha pra eles.

SKINNER: - Talvez não seja um bom momento pra falarmos disso.

MARGARET: - Não, senhor Skinner. Fale. Fale pro teimoso do meu filho quem é Fox Mulder. Fale pra ele as coisas que os dois passaram pra ter essa criança e toda a injustiça que estão sofrendo.

Charles larga Meg.

CHARLES: - Desculpem... Eu... Eu preciso de ar.

Charles sai cabisbaixo, chorando. Langly e Byers vão atrás dele. Skinner senta-se. Olha pra Bill.

SKINNER: - Não sei o que foi fazer no FBI, senhor Scully. Mas saiba que o querem como peça do jogo. Eu vou lhe contar o que está acontecendo durante tantos anos. E espero que tenha juízo para entender, porque sou eu, um diretor-assistente do FBI a lhe falar isso. E não um leigo qualquer.

[Fade in]


[Fade out]

Mulder deitado na mesa de metal com desenhos estranhos. Abre os olhos. Corpo imóvel. Olha com o canto dos olhos para o caçador de recompensas. Percebe mais outros iguais a ele. Eles saem da sala. Mulder olha pra cima. Fecha os olhos.

MULDER (OFF): - Parede de tijolos... Parede de tijolos... Parede de tijolos...

Mulder continua de olhos fechados.

MULDER (OFF): -Parede de tijolos, parede de tijolos...

Mulder tenta mover o corpo, mas não consegue. Consegue virar o rosto e olhar pra bebê que dorme tranquilamente sem roupa alguma em cima de outra mesa. Mulder fecha os olhos.

MULDER (OFF): -Calma, Mulder... Aquele anjo cretino disse que eles te pegam pela mente... Você está solto, não está preso aqui... Parede de tijolos, parede de tijolos...

Mulder continua de olhos fechados. Então consegue mover o corpo. Mas não consegue sair da mesa. Ergue a cabeça e olha para seus braços e pernas atados com duas peças de metal. Entra em pânico. Olha para a filha. Olha para as mãos. Fecha os olhos. Começa a forçar as mãos. Sente o metal rasgando-lhe a pele. Morde os lábios. Puxa as mãos com força. Contém o grito. As mãos estão livres. Mulder senta-se na mesa. Olha para os pulsos sujos de sangue. Inclina-se sobre as pernas, mas não consegue abrir as peças de metal.

MULDER (OFF): -Droga... Deus, me ajuda! Cadê você, Gabriel, seu alienígena infeliz?

Mulder perde os olhos nas peças de metal. Percebe um pequeno furo em cada uma delas. Tenta forçar os pés, mas não consegue. Puxa uma das pernas com as mãos, mas nada. Olha pra filha. Olha pra seus pés. Olha pra filha. Sorri. Coloca a mão por cima do colarinho da camisa e retira a corrente com o crucifixo. Coloca a ponta do crucifixo dentro do pequeno orifício da peça de metal. Empurra-o. A peça se abre.

MULDER: - "A fé vai te salvar", Mulder... Que filho da mãe... Como ele sabia?

Mulder solta as duas pernas. Ata a corrente ao pescoço novamente. Respira fundo. Desce da mesa. Aproxima-se da bebê. Ela dorme tranquila. Mulder a examina. Vira a cabeça dela olhando sua nuca. Sorri. Toma a filha e a coloca contra o peito. Puxa o terno a cobrindo.

MULDER: - Tá com frio, né Pinguinho... Frio e fome... Aguenta firme, papai vai tirar a gente dessa. Logo vamos estar em casa pra ceia de natal. Eles não querem a mim. Querem você. Eu vim de penetra. Alguém tinha que vir com você, ou a mamãe e o papai nunca mais a veriam.

Mulder olha para a sala. Olha para a porta.

MULDER: - Precisamos sair daqui.

Mulder caminha até a porta. Percebe o extenso e estreito corredor de metal.

MULDER: -(NERVOSO) Pinguinho, eu te dou um chocolate quando chegarmos em casa se você não chorar. Pelo amor de Deus, não chora.


7:36 A.M.

Meg sentada ao lado de Scully, segurando sua mão, derrubando lágrimas.

MARGARET: - Dana, minha filhinha... Reage... Nós vamos encontrar Mulder e o bebê... Acorda pra dizer pra essa velha aqui que é uma menina... Vamos Dana... Fala pra sua mãe que ela tem uma netinha...

Corta para a sala de espera. Byers sentado, cabisbaixo. Suzanne ao lado dele. Charles anda de um lado pra outro, rezando. Langly mira bolinhas de papel no cesto do lixo. Skinner observa as bolinhas de papel, num olhar perdido. Bill olha pela janela, nervoso. Frohike fala ao telefone.

FROHIKE: - Perfeito. Você tem o endereço. Você vai falar com Suzanne Modesky e ela entrega a mercadoria.

Frohike desliga.

SKINNER: - Com quem estava falando? Que mercadoria?

FROHIKE: - Estava falando com um sujeito chamado Garganta Profunda. Acho que foi ele quem desbancou Nixon...

Frohike olha pra eles.

FROHIKE: - Por favor, vamos fazer um bolinho aqui. Tenho algo pra falar.

Eles se agrupam.

FROHIKE: - O negócio é o seguinte. Somos um time. Começou com Mulder e Scully e agora já virou uma organização inteira. Temos gente suficiente pra tudo. Mulder me passou algumas informações vitais caso isso acontecesse.

SKINNER: - (INCRÉDULO) O quê?

FROHIKE: - Não interessa como, mas Mulder estava prevendo que algo podia dar errado. Me escutem com atenção. Estamos com Mulder e Scully, não estamos?

Eles afirmam com a cabeça.

FROHIKE: - Quantas vezes o Mulder e a Scully nos salvaram? Hein? Devemos retribuir pros nossos amigos. Eles precisam de nós agora. Estamos num jogo com dois centroavantes e o resto é defesa. Um centroavante foi sequestrado. O outro está na enfermaria. Sobrou a defesa e o goleiro. E temos que atacar assim mesmo. Fazer gol.

SKINNER: - Quem é o goleiro?

FROHIKE: - Você.

Skinner abre um sorriso. Bill olha com o rabo dos olhos pra eles.

FROHIKE: - Suzanne, quero que vá ao laboratório. Tem um sujeito lá chamado Garganta Profunda que está esperando uma amostra da vacina pra disseminar pelo esquema deles. Disparem a distribuição da vacina rapidamente, porque não sabemos se com Mulder e a criança no poder dos alienígenas, eles não vão nos invadir em breve.

Suzanne concorda.

FROHIKE: - E aqueles safados da conspiração já devem estar sabendo que os alienígenas levaram Mulder. Strughold sabe, por isso os alienígenas interferiram. E se Strughold sabe é porque o desgraçado fumacento abriu a boca. Quero Byers e Langly na sede. Tentem captar sinais pra localizar a nave.

Charles olha pra Frohike.

CHARLES: - Me deixem ajudar, o que eu posso fazer?

FROHIKE: - Olha aqui, ‘Buda’. Você pode fazer uma coisa muito importante. Eu conheço as figuras e preciso de alguém aqui comigo pra proteger Scully. Porque aquele idiota do seu irmão é um zero à esquerda. Você foi escolhido por unanimidade.

SKINNER: - Vou pro FBI, acompanhar as investigações. Se um daqueles safados entrar nesse hospital quero que me liguem. Tem o número do meu celular. Vou mandar mais agentes pra cá. Protejam Scully.

Eles se espalham saindo às pressas, deixando Frohike, Charles e Bill sozinhos.

FROHIKE: - Continue rezando, Buda. Oração nunca é demais.

CHARLES: - (SORRI)

FROHIKE: - Tem certeza de que você é irmão da adorável agente Scully? Que contraste!

Corte.


[Som: Filter – Hey man, nice shot]

Mulder caminha pelo corredor de metal. Olha pra baixo. O chão é feito de grades, onde ele pode olhar o andar de baixo. Mulder segue o corredor que dá em outro corredor.

MULDER: - Isso é um labirinto... Pinguinho, não chora...

Mulder percebe o Caçador de Recompensas aproximando-se. Ao lado dele outro igual. Atrás deles dois greys. Mulder arregala os olhos. Encosta-se contra a parede. Eles passam sem ver Mulder.

MULDER: - Merda! São duas raças diferentes!

Mulder volta pelo corredor. Percebe uma saída. Entra. Então se dá conta que está numa espécie de plataforma. Olha pra baixo. Arregala os olhos.

Close do enorme buraco central na nave, revelando diversos andares, com vários caçadores e acinzentados que circulam pelos corredores. É tão alto que chega a ser escuro no fundo.

MULDER: - (PÂNICO) Pinguinho... Não tenho uma boa notícia. Acho que estamos na nave mãe... E isso aqui tá muito movimentado pro meu gosto... Estão armando alguma.

Um som sinistro numa língua estranha ecoa pela nave.

MULDER: - Meu parco tradutor alienígena diz que isso se traduz por: as cobaias escaparam...

Mulder olha para o lado. Percebe uma espécie de parapeito. Agacha-se. Coloca a bebê no chão. Começa a desafivelar o cinto.

MULDER: - Seguinte Pinguinho... Não temos outra alternativa, precisamos chegar lá embaixo. Os corredores estão entupidos de bichos papões. E não temos uma estrada de tijolos amarelos...

Mulder coloca o cinto ao redor do peito, afivelando-o folgadamente. Pega a bebê, colocando-a contra si. Regula o cinto por baixo dos bracinhos dela, de forma a pressionar a menina contra ele. Levanta-se.

MULDER: - Sua mãe me mataria se visse isso. Pinguinho, não escorrega, por favor...

Mulder coloca uma das mãos na cabeça do bebê. Fecha os olhos. Respira fundo. Então toma coragem e sobe no parapeito, apoiando-se com uma das mãos.

MULDER: - Pinguinho, não quero quebrar seu pescoço, mas se eu não me segurar com as duas mãos a gente cai... Fica retinha, fica... Eu sei que pode, já fez isso.

Mulder solta lentamente a cabeça da menina. Ela não pende a cabeça pra trás. Mulder sorri. Segue o parapeito. Vai se apoiando na parede. Então percebe a falha no parapeito. Mede com os olhos.

MULDER: - Pinguinho, eu consigo levar minha perna e alcançar o outro lado. Mas pelo amor de Deus, não escorrega!

Mulder respira fundo, nervoso. Ergue a perna, alcançando o pé do outro lado. Toma um impulso. O corpo balança, mas ele se segura na parede. Respira aliviado.

MULDER: - Calma, filha... Já estamos chegando, tem outra plataforma mais adiante.

Mulder alcança a plataforma. Solta o ar que mantinha preso nos pulmões. Sorri. Senta-se. Desata o cinto. Coloca a menina sobre suas pernas.

MULDER: - Precisamos ficar com o nosso ‘bat-cinto de utilidades’...

Mulder afivela o cinto na cintura. Olha pra sua camisa toda molhada.

MULDER: - (SORRI) Coisa feia, Pinguinho. Entre você e sua mãe não sei qual é a minha parceira mais desaforada. A bolsa da Scully estourou em cima da minha cama e você ainda faz xixi no papai?

Mulder olha pra arquitetura da nave. Percebe que do outro lado, em sua reta, há uma descida íngreme, como se fosse uma espécie de escorregador de metal. Mulder larga a filha no chão. Fica de quatro e olha pra baixo. Senta-se. Pega a menina nos braços.

MULDER: -Jamais imaginei que estaria com você num parque de diversões no seu primeiro dia de vida...

Mulder respira tenso.

MULDER: - Eu devo ser o único cara que desce com a filha recém nascida num tobogã alienígena e escuro...

Mulder segura firme a bebê contra o peito. Toma ar.

MULDER: - Deus nos proteja!

Mulder toma impulso e desce escorregando. Mantém o corpo equilibrado, a menina contra a barriga, protegida entre seus braços. Observa os andares que vão se revelando no escuro e passando rapidamente.

Então Mulder olha pra baixo. Percebe o final e a imensa peça longa e pontiaguda de metal, como uma lança. Mulder diminui a velocidade com os pés, ergue rapidamente a bebê e o metal entra no abdômen dele. Mulder segura o grito. Coloca os pés contra a base do objeto e empurra o corpo pra cima. Sente a lança rasgando-lhe. Força os pés contra a base novamente e consegue tirar o objeto do corpo. Inclina-se para o lado, ofegante. Levanta-se abraçado a filha. Quase cai. Beija a cabeça dela, emocionado.

MULDER: - (FECHA OS OLHOS) Meu Deus, ia acertar você...

Mulder olha pra sua barriga. A camisa branca revela o sangue que se espalha rapidamente. Mulder sai mancando, segurando a dor.

MULDER: - ... Não se preocupe, Pinguinho. É preciso mais do que isso pra derrubar um Mulder...


9:14 A.M.

Meg sentada na sala de espera. Cabisbaixa. Então sente a mão que pousa sobre a sua. Ergue a cabeça.

CANCEROSO: - Olá senhora, Scully. Como está Dana?

Meg mete um tapa na cara do Canceroso.

MARGARET: - Saia daqui. Eu vou chamar a polícia!

CANCEROSO: - Não vim até aqui causar nenhuma dor. Só vim oferecer minha ajuda...

MARGARET: - Saia daqui, seu demônio!

CANCEROSO: - Não sou responsável por isto. Não foi eu quem levou Mulder e a criança. Acha que eu como pai, permitiria isso?

MARGARET: - Como você é cínico... Meu Deus! Eu sei que não foi você, mas você deu o alerta! Você só está preocupado porque tomaram suas cobaias antes de você! Sai daqui, senhor Spender... Eu tenho vontade de cuspir em sua cara!

CANCEROSO: - Senhora Scully...

Meg cospe na cara dele. O Canceroso retira um lenço do bolso e limpa o rosto. Dá as costas e sai. Meg senta-se no sofá e chora.

Corte.


Close das manchas de sangue pelo assoalho de metal da nave deixando um rastro. Mulder segue mancando e deixando sangue pelo caminho. Segura a bebê firme contra o peito. Entra numa enorme plataforma. Olha impressionado para as centenas de naves ali.

MULDER: - (OFEGANTE) Eu disse, Pinguinho... É a nave mãe... Não sei se isso é sorte ou é azar.

Mulder vira-se. Percebe o montante de alienígenas acinzentados baixinhos e altos que rapidamente os cercam. Mulder fecha os olhos.

MULDER: - Acho que é azar, Pinguinho... Estamos na toca do lobo. E tocaram o sino do almoço.

Um alien cinza e alto se aproxima. Mulder mantém a filha protegida contra seu peito. Recua. O alien transforma-se no Caçador de Recompensas.

CAÇADOR CHEFE: - Nos dê a menina. Não queremos você.

MULDER: - (RI) Acha mesmo que eu vou entregar minha filha?

Mulder olha para o lado. Percebe um buraco no chão. Aproxima-se disfarçadamente.

CAÇADOR CHEFE: - Não tem escolha. Se nos der a criança, soltamos você.

Mulder olha para o buraco. Percebe fogo lá embaixo. O Caçador olha pra ele.

CAÇADOR CHEFE: - É um dos reatores da nave. Não tem como fugir daqui.

O Caçador estende a mão. Uma janela abre-se, revelando o distante planeta Terra. Mulder arregala os olhos.

MULDER: - Tá legal, cara... Agora muda o canal que eu não gostei da programação...

CAÇADOR CHEFE: - A criança.

MULDER: - O que querem com ela?

CAÇADOR CHEFE: - Estudá-la.

Mulder começa a rir.

MULDER: - É? E acha que eu vou deixar? Olha, vamos entrar num acordo. Tem muito espaço pra vocês na Terra... Vocês ficam com as montanhas do Afeganistão. Tem uns caras legais lá, vão se afinar com a ideologia de vocês...

CAÇADOR CHEFE: - A criança.

MULDER: - Olha... Fiquem comigo. Eu sou uma cobaia perfeita! Eu sou engraçadinho... Minha mulher diz que eu sou o exemplar perfeito da espécie masculina humana... Então? Ahn?

CAÇADOR CHEFE: - Queremos a criança. Ela é fêmea, pode procriar uma nova espécie. Você não.

MULDER: - Ah tá bom... Vão fazer com a minha filha o que fizeram com minha mulher... Legal isso... Agora me deixem ir embora porque não gostei de vocês.

CAÇADOR CHEFE: - A criança.

MULDER: - Olha aqui, seu chato repetitivo. Me deixa voltar com minha filha pro bem de vocês!

Eles se entreolham sérios. Outros aliens cinzas altos se transformam em caçadores. Aproximam-se do líder. Mulder olha pra eles.

MULDER: - Legal, são todos gêmeos? Que pontaria tinha o pai de vocês...

CAÇADOR CHEFE: - A criança.

Eles aproximam-se de Mulder. Mulder segura a filha com um braço. Coloca a outra mão no bolso. Retira o tubo de ensaio contendo óleo negro. Aponta pra eles. Eles recuam assustados.

MULDER: - Tá legal, estou farto de vocês! Me deixem ir e vocês ficam vivos. Porque eu vou soltar isso e aí vocês logo terão um monte de lagartinhos por aqui saindo de suas entranhas. Mas eu e o bebê não. Nós somos imunes. Vocês escolhem.

Eles se entreolham. O líder olha pra Mulder.

CAÇADOR CHEFE: - Se soltar isso, morrem conosco. A nave está programada para seguir curso até nosso planeta. Vão matá-los quando chegar lá.

MULDER: - É? E que tal quando eles abrirem as portas da nave e um bando de lagartinhos devoradores de carne se espalhar pelo planeta de vocês? Ahn?

CAÇADOR CHEFE: - Não tem como voltar. Seu planeta não vai mais existir.

MULDER: - O quê?

CAÇADOR CHEFE: - Estamos nos preparando. Acionaremos os dispositivos e muitos ‘lagartinhos’ vão sair de dentro dos humanos, se espalhando pelo planeta inteiro.

MULDER: - Ah, vocês são espertos... Aprenderam ironia rapidinho... Você tá brincando comigo, não é? Olha, vamos fazer assim... Por que vocês não pegam aqueles ultra-raios cósmicos dos filmes de ficção científica e apontam pra Terra? Acho mais justo.

Eles se entreolham.

CAÇADOR CHEFE: - Não entendemos o que fala.

MULDER: - Ainda bem...

Mulder recua de costas até o reator. Estende a mão, ameaça deixar o tubo de ensaio cair no chão.

CAÇADOR CHEFE: - Não vai soltar isso. Vai morrer quando chegar ao nosso planeta.

MULDER: - Ótimo. Então vamos todos morrer. Mas não entrego minha filha.

Mulder olha para o reator.

MULDER: - Eu solto isso e me atiro com ela aqui dentro. Mas não a entrego.

[Som: Filter – Hey man, nice shot]

Eles se entreolham. O líder fala em uma língua estranha. Alguns deles correm. Mulder olha pro líder assustado. Os alienígenas avançam pra cima de Mulder. Mulder vira-se de costas, chorando, segurando a filha contra o peito.

Corta para a luz que se projeta sobre Mulder. Os alienígenas se afastam com medo. O corpo de Mulder flutua no ar, subindo até o teto. Mulder olha pra baixo, incrédulo, sem entender nada, mantendo a filha contra si. Os alienígenas lá embaixo correm de um lado para outro, assustados, soando uma espécie de alarme. Mulder olha pra cima. Vê pela janela panorâmica acima da nave, uma outra nave muito maior de forma triangular dourada e que emite a luz que sustenta Mulder. Ele fica suspenso no ar, como se o tempo parasse. Mulder fica olhando pra cima.

VOZ (OFF): -Faça.

Mulder abre a mão e deixa cair o tubo de ensaio.

1:14 A.M.

Meg observa Scully. Ela de olhos fechados, murmura alguma coisa. Meg aproxima seu rosto do de Scully. Scully move a cabeça de um lado pra outro.

SCULLY: - Eu sei pai... Eu sei Missy...

Meg arregala os olhos. Põe a mão nos lábios. Olha pra Scully. Scully vira o rosto pra Meg. Abre os olhos. Começa a chorar.

SCULLY: - Quero morrer mãe.

Meg olha pra ela, triste.

SCULLY: - Acabou mãe. Minha força, minha esperança e a minha vida. Eu não posso mais viver com essa dor.

Meg levanta-se. Empurra os cabelos de Scully para trás, num gesto de carinho.

MARGARET: - Filha...

SCULLY: - Acabou mãe... Eu... Eu não quero mais nada... Eu perdi tudo o que eu tinha. As duas únicas coisas importantes na minha vida... Que me faziam respirar... Sabe... E-eu... Eu entrego tudo. Mulder e eu perdemos... (CHORA) E eu ia chamá-la de Victoria... A nossa vitória...

Scully senta-se na cama, coloca as mãos no rosto chorando. Meg a abraça.

MARGARET: - Seus amigos, Dana... Todos estão atrás de Mulder. Feito formiguinhas, cada um ajudando no que sabe fazer... Reaja por eles. Vocês têm poucos amigos, mas todos são fiéis. Até Bill está empenhado nisso.

SCULLY: - Eu não posso... Mãe, precisava vê-la... Linda... Tinha pouco cabelo... Gordinha... Cheia de dobrinhas... A minha filhinha...

MARGARET: - (SORRI EM LÁGRIMAS) ...

SCULLY: - (SORRI EM LÁGRIMAS) Quando nasceu se esticou toda, me deixou impressionada... Mulder parecia um bobalhão... A gente não sabia se ria ou chorava... Acho que nós dois assustamos a criança... (CHORA) Ela nunca deveria ter saído de dentro da minha barriga mãe... Foi um sonho tão lindo... Por quê? Por que mãe? Por que eu não tenho esse direito? Eu sou uma pessoa má?

MARGARET: - Dana, você não é uma pessoa má.

SCULLY: - Então por que Deus me castiga? Por que permite essas coisas? Eles levaram meu marido e minha filha... Mãe, isso não é justo... Eu desisto. Estou cansada de sofrer... Cansada dessa vida...

MARGARET: - Filha... Eu sou mãe. Eu posso sentir a sua dor. Mas não me cause dor vendo minha única filha morrer definhando de tristeza... Eu tenho fé. Mulder vai voltar. Vai voltar com a filha de vocês. Ele prometeu, Dana. Acredite em Mulder. Ele vai voltar.


Estrada Secundária 115 – Virgínia – 1:17 A.M.

Chuva forte. Trovoadas. Percebem-se os raios no céu escuro, mostrando a força das tempestades. Nenhum movimento na estrada asfaltada.

Close da placa indicando a velocidade máxima. Balança pra trás e pra frente com o vento.

A escuridão é tamanha que não se pode avistar nada no horizonte. Alguns galhos de árvores arrastam-se com o vento, passando pela frente do foco, atravessando a estrada. A chuva castiga o asfalto.

Som de estampido.

Um clarão invade o céu. Trovoadas.

Um som mais estrondoso do que de um trovão. Uma luz rápida projeta-se sobre a estrada, deixando alguma coisa e desaparece tão rápido quanto se projetou.

Corta para a estrada. Ao longe, percebe-se alguém se aproximando, correndo de encontro à câmera. Segura algo contra o peito.

A chuva continua caindo. O vento aumenta de força.

Corta para Mulder correndo e mancando pela estrada, aproximando-se cada vez mais do foco. Mulder olha pro céu.

Um clarão no céu aumenta de tamanho, mostrando entre riscos e faíscas lilás, o formato de uma nave discoide enorme, girando ao redor de si mesma. As faíscas aumentam. Ela tenta pousar.

Mulder continua correndo e mancando debaixo da chuva, que castiga seu rosto. Olhos inchados, pálpebras roxas de frio. Um corte no rosto, sangrando muito, todo esfolado. Roupas surradas. Carrega contra o seu corpo, a filha enrolada em seu blazer. Mulder olha pra trás e continua fugindo.

A nave explode no ar, soltando pedaços por todo o lado.

Mulder atira-se de costas no chão. Vira-se rapidamente, com cuidado, protegendo a bebê com seu corpo.

Pedaços da nave caem por todo o lado e bolas de fogo. Estilhaços caem sobre Mulder. Mulder fecha os olhos. Respira ofegante. Contém um grito de dor. A chuva escorre por seu rosto.

Trovoadas ensurdecedoras. Vento que arrasta galhos por sobre Mulder e cacos da nave. Ele continua imóvel, protegendo o bebê, levando estilhaços pelas costas.

O vento diminui. Mulder ergue a cabeça. Olha pra trás. Não há mais nada. Mulder olha pra frente, pra estrada escura e vazia. Olha pra bebê, preocupado.

A pequena, com apenas alguns fiapinhos de cabelo claro, olha pra Mulder. Dá um sorriso com o canto da boca, bocejando, mexendo os bracinhos, como quem pouco sabe o que está acontecendo. Mulder sorri, derrubando lágrimas que não consegue conter. Senta no chão. Beija a filha na testa. Segura a bebê com um braço e com a outra mão, apoia a cabeça da menina. Aperta-a contra si, tomado de emoção e chora. Fica de joelhos no chão e olha pros céus como quem agradece a Deus.


4:21 A.M.

[Som: Simple Red – For Your Babies]

Skinner e os Pistoleiros na porta do quarto de Scully. Charles sentado ao lado de Bill. Suzanne os conforta. Repentinamente uma bagunça de enfermeiras e médicos, aos gritos. Todos olham para o corredor. Mulder surge entre as pessoas, deixando um rastro de sangue no caminho. Todo esfarrapado e sujo de sangue, molhado de chuva, cansado. Mal se sustenta em pé, mancando. Mantém a filha firme nos braços, aquecida contra seu corpo com seu terno.

ENFERMEIRA: - Segurem esse homem! Ele vai deixar a criança cair!

Skinner se aproxima de Mulder.

MULDER: - (OFEGANTE) Não... Eu preciso fazer isso... Eu tenho uma promessa a cumprir.

Meg olha ternamente pra Mulder, enchendo os olhos de lágrimas. Mulder entra no quarto. Todos ficam parados na porta, emocionados. Scully, sentada na cama, ao vê-lo, cerra as sobrancelhas, num gesto de quem vai chorar.

MULDER: - (CANSADO/ OFEGANTE) Trouxe... Um presente pra você... Scully... O que eu te prometi...

Mulder entrega a bebê nos braços de Scully. Meg retira seu xale, cobrindo a menina. Scully com dificuldades toma a filha nos braços. A menina abre os olhos olhando pra Scully, revelando os olhinhos verdes. Scully chora abraçada a bebê. Meg olha pra eles e chora junto.

MULDER: - (CANSADO/ OFEGANTE) Ela... Ela tá com frio... Com fome... e... É uma guerreira como a mãe dela.

SCULLY: - (CHORANDO) Eu não acredito em muitas coisas, mas em você eu acredito...

Mulder dá um sorriso cansado e cai no chão.


7:11 A.M.

O médico sai da sala de cirurgia. Skinner e Frohike se aproximam.

MÉDICO: - Ele teve uma perfuração no abdômen, está com cortes e escoriações. Está em início de anemia e estresse profundo. Está em estado regular, mas vai ficar bem. Vamos transferi-lo pra um quarto.

Skinner respira aliviado. Frohike sorri.

FROHIKE: - Vou contar pra Scully e mamãe Scully.

SKINNER: - Frohike... Quero que fique com elas. Ficarei de olho na menina no berçário. Chame Byers e Langly para ficarem com Mulder. Não podemos desgrudar os olhos. Os três ainda correm perigo.

Skinner se afasta. Frohike também.


7:19 A.M.

Mulder deitado na cama, desacordado. Oxigênio no nariz. O aparelho de batimentos cardíacos mostra sinal de normalidade.

Close da faísca do isqueiro. O Canceroso acende o cigarro, em pé, ao lado da cama.

CANCEROSO: - Você conseguiu a vitória que queria. Você me venceu. Você acabou com os alienígenas, com a invasão, conseguiu a vacina, sua filha e sua mulher. Espero que esteja feliz. Mas você me enganou. E eu não posso admitir isso.

O Canceroso aproxima-se do aparelho. Desliga o oxigênio.

CANCEROSO: - Tudo tem um preço na vida, Mulder. E esse é o que você vai pagar. Não preciso mais de você, nem dos seus genes. Você tem uma filha agora. Uma fêmea. E é ela que me interessa.

Mulder abre os olhos. Não consegue respirar. Olha incrédulo para o Canceroso que sai do quarto.

Mulder busca o ar com a boca, mas não consegue. Revira os olhos em desespero.

Close da mão que liga o aparelho de oxigênio. Mulder volta a respirar. Olha para o lado, incrédulo. Krycek olha pra ele.

KRYCEK: - Fica pela vez que você me salvou dos alienígenas.

MULDER: - ...

KRYCEK: - Depois, a gente conversa Mulder.

Mulder fecha os olhos, derrubando lágrimas.


TO BE CONTINUED...


03/11/2001

27 de Agosto de 2019 às 11:55 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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