Dualidade Seguir história

malephar Lua Lodi

Demorei doze anos para aceitar minha enfermidade e aprender a conviver com ela. No entanto, não foi uma caminhada solitária: tive o apoio de meus pais e a proteção de meu professor. Descobri através do tratamento e da terapia, o dom da música e da escrita. Usei essas aptidões para ajudar não só a mim mesmo, mas outros adolescentes e me tornei professor de música. Ampará-los alivia, mas não preenche o misterioso vazio que há em meu coração. Bipolaridade não tem cura, mas ela não vai me vencer mais.


Drama Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#música #amizade #shounen-ai
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Preto

Durante o colegial, tive um professor de Química que todos os alunos pareciam temer e com razão: maldosos olhos castanhos, cabelos grisalhos e bagunçados e semblante fechado. O nome dele era Taylor e já tinha trabalhado na NASA e outras instituições poderosas, mas preferiu terminar a carreira lecionando jovens na expectativa de achar novos gênios. Ele era exigente com nossas tarefas e provas, não conversava conosco sem ser assunto da matéria, e muitas vezes, parecia que estava falando grego pelo uso de palavras difíceis e científicas. Eu nunca fui aluno de Exatas, e sempre gostei mais das minhas aulas de francês ou inglês, mas tentava ao máximo me esforçar nas aulas dele. Apesar de estranha, gostava da presença de Taylor e sua maneira nada didática de ensinar, com piadinhas lançadas no meio de uma explicação, ou a gargalhada quando se lembrava de algo que só fazia sentido em seu próprio mundinho. A gente carregava sempre um dicionário, na esperança de traduzir os pensamentos daquele homem esquisito e fora da caixinha.

Nada conseguia escapar Taylor e, mesmo retraído, era comum nos sentirmos despidos perante seus olhos. Nem mesmo doenças eram capazes de fugir da análise dele, e não foi diferente com minha bipolaridade.

Eu não sabia que era bipolar e meus pais achavam que vivia apenas uma fase de mudança hormonal, afinal de contas tinha dezesseis anos e era um típico pirralho americano com sonhos de ser popular no colégio. Enquanto na minha cabeça, as alterações de humores me levavam do Céu ao Inferno em minutos e todos os dias, como se fosse um pesadelo do qual não conseguia acordar. Não sei por quanto tempo fiquei assim, até começar a idealizar o suicídio e cortar minhas coxas ou pulsos. Minha autoestima já era nula há meses e eu me odiava profundamente, sentindo nojo de apenas me olhar no espelho. Ninguém acreditou nas crises de choro ou fúria, ou tampouco suspeitou quando deixei de comer e esconder meu corpo com pesados moletons.

Era um dia típico de inverno, mas estava tão exaurido pela falta de sono que não consegui prestar atenção na aula. Taylor falava sobre inércia e parecia incomodado com alguma coisa, pedindo para que eu ficasse na sala depois da aula, porque queria conversar. Lembro dos olhares assustados dos meus colegas e sussurros sobre o quão ferrado eu estava em Química, todavia não me importei muito pois ficaria no quentinho da sala enquanto eles iam congelar na Educação Física. De alguma forma, algo dentro de mim ainda tentava achar algo positivo na vida miserável que a bipolaridade me proporcionava.

Ao ficarmos sozinhos, o professor puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado. Jogou os pés em cima da mesa e os cruzou, relaxando o corpo e tirando uma caixinha de tic-tac do bolso.

— Suas notas caíram, Brian.

— Eu não consigo prestar atenção. — murmurei envergonhado — Desculpa sr. Taylor.

Ele começou a rir e ofereceu uma bala pra mim.

— Leonard, esse é o meu nome. Deixemos a formalidade de lado, sim?

Assenti e mordi os lábios pra tentar segurar as lágrimas. Eu sabia que aquilo não era uma bronca, isso Taylor deixava bem claro tanto na expressão corporal e na fala, mas me senti um lixo por não entender o que ele dizia durante as aulas.

— Está com problemas em casa?

A pergunta repentina vinda de um homem indiferente tomou-me de surpresa, e eu neguei. Meus pais são boas pessoas e se esforçam para me dar tudo do bom e melhor, então não tinha motivo para serem culpados por meus problemas. Expliquei sobre a vida que levava e ele me ouviu com atenção, melhorando um pouquinho meu humor.

— Você está diferente.”, ele continuou, “Distante e abatido... Não gosto de te ver assim.

— Acontece, professor.

— Já procurou o conselheiro da escola? Talvez ele seja capaz de te ajudar mais do que eu, um químico.

— Não quero falar com ninguém.

Taylor mordeu a bala e o barulho me assustou, fazendo com que pulasse da cadeira e olhasse pra ele com lágrimas nos olhos.

— Quer chorar? — perguntou ao mastigar o doce — ’Tá tudo bem chorar, mesmo sendo homem até eu choro algumas vezes.

— Estou bem. — prometi com a voz embargada — É só uma fase ruim.

— Brian, eu posso ser esquisito mas não sou burro: está claro como o dia pra mim que não está nada bem.

Funguei sem entender por que lacrimejava, e disparei a soluçar alto. Odiava ser analisado, odiava ter minhas fraquezas expostas daquela forma, e não queria mostrar a Leonard Taylor aquela parte feia de mim. Enxuguei meu rosto com as mangas da blusa e o apoiei entre os braços, mexendo as pernas freneticamente para acalmar a angústia que me engolia.

Os sintomas da ansiedade variam de pessoa pra pessoa, e para mim parece uma dor no coração que sobe pelo peito e garganta, anuvia minha mente e me deixa irracional. Sem saber do que fugir e nem entender aquele medo, só desejava correr para o meu quarto e ficar lá, chorando ao som de Within Temptation e Three Days Grace. Quando ela fica forte, sinto vontade de arrancar a pele dos meus braços com as unhas, gritar até as cordas vocais se romperem, ou pular do primeiro prédio que estiver. Às vezes, os três e isso com certeza seria uma cena cômica e trágica. Todavia, meus pais não entenderiam minha morte e se culpariam o resto da vida pelo fracasso, por algo que não tinham culpa.

— Melhor?

Senti batidinhas nas minhas costas e ergui o rosto para olhá-lo, tentando analisar o que se passava naquela face inexpressiva. Abri a boca pra engolir o ar e engasguei, tossindo violentamente a ponto de ficar vermelho, e nesse momento Taylor saiu de sua compostura séria para me puxar e me abraçar. O calor de seu corpo e o ritmo do coração aumentaram a minha crise e eu recomecei a chorar, mas agora amparado por meu professor.

Taylor tinha cheiro de cigarro e produtos químicos, mãos calejadas e queimadas por substâncias, mas seu toque era gentil e receptivo. Murmurei inúmeros pedidos de desculpas por manchar o sobretudo negro com lágrimas e ranho, porém só ouvi risadas em resposta e conforme ele ia gargalhando, fui relaxando e acompanhando devagar, com risinhos tímidos e soluços. Quando voltei a encará-lo, topei com uma expressão paternal.

Encontrei olhos de quem me entendia.

— Você é um bom garoto, Brian. — ele sussurrou enquanto limpava minha testa suada — É esforçado e gentil, mas acho que não irá acreditar em mim por enquanto.

— Perdão, sr. Taylor. — escondi o rosto no peito dele — Me desculpa dar trabalho.

— Sou educador e é minha obrigação cuidar de vocês. Fico muito preocupado com o bem-estar de todos meus alunos e não seria diferente contigo. Suas vidinhas me interessam, Brian.

Quando eu falei com Leonard, estava no ápice da depressão e não passava um dia sem desejar morrer. Suas palavras carinhosas não perfuraram a barreira criada por mim mesmo, porém martelaram na minha mente por dias. Momentaneamente, consegui estudar Química com a mesma devoção de antes até ser engolido e faltar a escola por quase uma semana.

Minha “vidinha” realmente interessa Taylor, que apareceu em casa durante o final de semana e foi recepcionado por minha aflita mãe. Ouvi suas vozes enquanto subiam as escadas e corri para trancar a porta e aumentar o som do notebook, abafando qualquer barulho exterior. Estava ausente do mundo e queria continuar assim.

No chão do quarto, marcas de sangue seco mancham o assoalho. Receber meu professor implicava ter que esconder as lâminas e vestir roupas, então preferi ignorar as batidas na porta e deitei em posição fetal na cama.

— Brian? — ele me chamou — Você perdeu a prova.

Sem respostas, pois minha voz não ia sair de qualquer forma e mal dava pra ouvi-lo.

— Conheço essa música: Never Too Late do Three Days Grace, né? Tem uma letra bastante significativa e gosto da melodia, o que acha de cantarmos juntos?

Abracei o travesseiro e comecei a rezar para que ele fosse embora e eu pudesse me retirar à insignificância.

— Hoje não está muito comunicativo, percebo. Bom, meu gato já comeu e está com minha irmã, então posso ficar aqui a tarde inteira.

A contragosto e vencido, comecei a esconder as coisas e limpei o sangue. Depois de abrir a porta, me cobri até o queixo e pedi que somente ele entrasse, ignorando os protestos preocupados da minha mama Leonard abaixou o som e sentou na cama, encarando-me nos olhos e fumando um cigarro. Começou a rir, abriu as persianas e a janela, resmungando e repetindo as reclamações de mamãe sobre ele fumar no meu quarto.

— Bom dia, solzinho.

— Me dá um tempo. — roguei exasperado.

— Ninguém tinha coragem de vir falar contigo e só atazanam tua família. Fiquei preocupado com seu sumiço e decidi averiguar.

— Só é uma fase ruim.

— Todas minhas ex falaram a mesma coisa antes de terminar o relacionamento. — ele caçoou — Pode falar comigo, Brian, vou te ajudar no que puder.

— O que você ganha com isso? Só sabe me perseguir, encher a porra do meu saco com suas ladainhas! Eu não aguento mais, Leonard. Eu não te suporto! — explodi — Tampouco sou a merda de um rato de laboratório pra ficar sendo observado e analisado por você! Vai transar, trabalhar, qualquer caralho e esquece que eu existo! Inferno!

— Minha nossa, 'cê tá parecendo um Pinscher: 50% ódio e 50% tremor.

— Vai se foder.

— Oh, palavrões na boca de um garoto de dezesseis anos. Novidade. — Taylor assoprou a fumaça na minha cara e sorriu — Continua, eu gosto que me xinguem.

Urrei. Ele parecia sentir prazer em me ver tão miserável e agoniado, e eu tolo dava o show que Leonard queria assistir. Engoli em seco e semicerrei os punhos, soluçando e encarando a coberta do Ben 10. Juro por Deus que quase o esganei, mas me contive porque não queria minhas cicatrizes à mostra e ter mais dor de cabeça.

Nós dois ficamos em silêncio até ele levantar-se para apagar o cigarro no banheiro, estava tão distraído no meu ódio que sequer pensei nas consequências de o ter invadindo o espaço. Eventualmente, meu professor achou as lâminas ensanguentadas e lançou um olhar pra mim e pra elas, primeiro confuso e depois entendendo o motivo de estar coberto.

Tão bravo quanto eu estava, ele bateu a porta e caminhou até mim, arrancando a coberta com força. Não estava preparado e senti o rosto queimar de vergonha ao ficar apenas de cueca na frente dele..

— Desde quando? — perguntou — Desde quando, Brian?

— Não interessa. — mordi os lábios tentando parar de tremer.

— Garoto, eu acho muito bom você não ficar me testando. Vou repetir a pergunta: desde quando? É isso que fica fazendo trancado?

Entrei em pânico e sai do meu quarto correndo, indo até o armário de remédios no banheiro de meus pais e tomando todas os comprimidos que encontrei. Tranquei a porta chorando e empurrei a banheira de porcelana a fim de impedir a entrada dele.

— O que tem de perigoso nesse banheiro? — Leonard perguntou a mamãe.

— O que ‘tá acontecendo? Por que o Brian ‘tá chorando? Você falou alguma coisa ruim pra ele?

— Chama a ambulância e os bombeiros. Brian vai tentar se matar. Eu vou arrombar aquela porta nem que seja chutando. Pirralho, se você 'tá me ouvindo saiba que não vou te abandonar. Sei o que está sentindo, entendo teu medo e tua confusão. Então, por favor, não desista! Brian, eu vou te ajudar, prometo.

— Eu não quero viver! — gritei — Me deixa morrer, me deixa quieto!

— ’Cê tá enganado e não consegue enxergar por estar sofrendo. Me perdoa por ter ficado bravo, sei que errei, mas por favor… — a voz dele tremeu — Por favor, Brian, eu não quero perder outro aluno… Eu não quero te perder.

Tirei força de onde não tinha, movido pelo instinto de sobrevivência e medo da morte, para empurrar a banheira e destrancar a porta. Estava sonolento e com a visão embaçada, mas consegui deixar Leonard entrar e fui amparado por seus braços. Enquanto ele gritava à minha mãe para pegar meus documentos e cancelar a ambulância, percebi que Taylor chorava. Toquei em seu rosto e murmurei um pedido de desculpas, tornando a delirar sobre suicídio e fracasso, mas ele não soltou e não ouviu. Simplesmente me agarrou e me levou até o hospital, dirigindo como um louco.

Se não fosse por Taylor, eu estaria morto e essa história acabaria aqui mesmo.

Das poucas coisas que me recordo durante o tempo internado, tenho a vaga memória sobre brigar com todos e vomitar quando as enfermeiras tentavam enfiar a sonda no meu nariz. Eu estava em surto e, por causa disso, a força aumentou e consegui levantar até mesmo meu professor. Muitos médicos jogavam na cara o quão ingrato sou, desvalorizando a vida quando inúmeros pacientes terminais lutavam. Fizeram questão de me deixar na UTI ao lado desses enfermos, mas mal sabiam que as lembranças desse evento iam ser apenas borrões.

Ao voltar a mim, estava amarrado na cama com meu padrinho ao lado. A visão turva só não era pior que a tontura, mas fiquei aliviado de ter alguém comigo. Ele se levantou de supetão e acariciou meus cabelos, murmurando o quão feliz estava por eu ter acordado. Sentia dor em todo o corpo, especialmente na testa e no nariz, onde tinha um galo e um corte respectivamente. Quis sentar, mas o mundo parecia estar ondulando e o padrinho me ajudou depois de desfazer os nós.

— Baita susto, hein.

— Tio Marcus… Onde eu 'tô?

— No hospital psiquiátrico. Tu dormiu por quatro dias, Brian.

— A mãe e o pai…?

— Eles ficaram com você esse tempo todo, mas pedi que descansassem. Podia ter me ligado, sabia?— havia culpa na expressão dele — Droga, se eu tivesse percebido os sinais…

— Desculpa. — murmurei — Só dou trabalho, né?

Antes que pudesse responder, Leonard bateu na porta do quarto e entrou. Ele trazia roupas e produtos de higiene. Durante o tempo em que dormi, Taylor envelheceu trinta anos e estava exausto de toda a situação. Tocou no ombro de meu padrinho e o mandou comer, sorrindo fracamente e me ajeitando na cama.

Eu dormi por mais algumas horas, sentado mesmo, e quando despertei ele ainda estava lá. A Sra. Constance, professora de francês, apareceu com um buquê de flores nas mãos e nós conversamos um pouco, até o enfermeiro pedir às visitas que se retirassem. Leo, apelido mental que eu dei pra ele, mostrou a procuração de meus pais e decidiu passar aquela noite comigo. Sem palavras e só suspiros, suas mãos procuravam as minhas e afagavam os dedos com cuidado e carinho.

— Fome? — ele perguntou quando começaram a entregar o jantar.

— Muita.

Eu comi as duas marmitas oferecidas pelo hospital e depois fiquei preocupado, porque Taylor não comeu. Entretanto, ele me acalmou e disse que mais tarde ia à cantina comprar algo. Em seguida, desejei tomar banho e pedi que fosse sozinho. Só me fizeram prometer que ia chamar alguém caso passasse mal ou caísse no banheiro, mas eu sabia que ele estaria na porta vigiando. O mundo parecia feito de gelatina e eu, confesso, me diverti um pouquinho ao andar feito astronauta no espaço. Tomei um banho merecido e vesti a roupa que a mãe mandou, voltando pra cama e sentando de novo.

Os enfermeiros do hospital psiquiátrico eram afáveis e bem humorados. Contaram histórias sobre eu ter urinado em Leo, berrado pra meio mundo ouvir o quão fracassado sou, e ter feito uma residente chorar e ficar traumatizada. Estava com as bochechas queimando de vergonha e sequer era capaz de erguer os olhos, sofrendo quietinho a dor das trocas de ataduras sobre minhas cicatrizes. Ainda assim, elogiaram minha força e disseram que talvez eu tivesse algum problema de estômago por conta dos comprimidos.

Em algum momento da noite, os pacientes foram liberados pra fumar e, apesar de não o fazer, acompanhei Leonard até o lugar. Ele me segurava com força e andava no meu ritmo, prestando atenção em qualquer reclamação. Mas eu estava contente por sair um pouco do quarto e sentei no banco de cimento, observando-o tragar o cigarro.

— A psiquiatra suspeita que talvez você seja bipolar. — ele soltou a fumaça devagar. — Não se tem muito dado concreto sobre essa doença ainda, mas parece que é hereditária e os medicamentos de seu pai são para tratar isso.

— Professor…

— Vai ficar tudo bem, Brian. Vou ter alguns pesadelos e ataques de ansiedade, mas as coisas se encaixarão devagar e você sairá dessa.

— Leo! — falei com um pouco mais de firmeza, atraindo sua atenção. — Obrigado por me salvar.

— Obrigado por confiar em mim.

Quando nossos olhos se encontraram, ele sorriu.

27 de Agosto de 2019 às 02:42 0 Denunciar Insira 2
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