Insetos e a morte Seguir história

jace_beleren Lucas Vitoriano

Enquanto está em mais um dia comum, Shino começa a pensar na vida e na morte.


Fanfiction Anime/Mangá Todo o público.

#naruto #shino
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Capítulo único

Mais um dia, mais uma missão cumprida com sucesso. Shino Aburame caminhava solitário por uma floresta. Poderia andar com seus companheiros, mas Shino era uma pessoa solitária, mais do que isso anti-social. O contato com outras pessoas lhe era... não ruim... mas um tanto desconfortável. Em especial se esse contato se prolongasse demais.

Por isso o ninja pegara uma rota diferente para retornar a Konoha. Dissera aos companheiros que era para confundir possíveis perseguidores, o que não deixava de ser verdade, mas o verdadeiro motivo era que ele queria apenas um tempinho a sós consigo mesmo.

Sim, Shino não se dava muito bem com as pessoas e, talvez, as pessoas não se dessem muito bem com ele. Não ao menos em um contato inicial. Ele não os culpava, isso era culpa do próprio Shino. Não só a sua personalidade, mas também suas vestimentas, indicavam o quanto o ninja era fechado para o mundo. Quem o visse, pouco perceberia de sua aparência real. Seus cabelos pretos curtos estavam ocultos pelo moletom com capuz de cor verde escura que usava. Sua testa era protegida pelo protetor da vila da folha e seus olhos estavam atrás de óculos escuros (aos quais ele achava bem estilosos, embora nunca falasse disso em voz alta). Usava calças longas e blusas de mangas cumpridas, ambas na cor preta, sua cor favorita. A gola da blusa era alta, estendendo-se como um capuz que ocultava sua boca. Enfim, pouco de seu corpo era visível, apenas as mãos e uma pequena parcela do rosto.

Para a maioria das pessoas ele era uma pessoa um tanto sombria, até mesmo macabra. Shino convivera com olhares temerosos de seus colegas de Konoha por muito tempo. Mas, novamente, ele não os culpava. Shino era estranho mesmo. Seu pai dizia que todos do clã Aburame o eram em certa medida. E a verdade é que Shino gostava de ser temido. Não por se achar superior ou algo do tipo, mas simplesmente porque as pessoas não se aproximavam dele. Isso era bom. Ele gostava do silêncio e não suportava pessoas que tagarelavam demais. Era irritante (e nesse grupo estavam inclusos Kiba e Naruto). Shino achava que Naruto era mais barulhento que Kiba, mas Kiba era pior, porque o contato com ele era constante.

Na opinião do ninja Hinata era a melhor companhia, a garota falava pouco e isso era uma qualidade que ele adorava. Shikamaru também. Quem lhe dera poder trocar Kiba por Shikamaru em seu time. Assim, suas missões seriam muito mais prazerosas.

E lá estava ele. Andando solitário pela floresta, pensando em nada em particular. Foi então que ele viu, bem em baixo de uma arvore, logo ao lado de um arbusto de folhas secas. Era um cervo, ou melhor fora um cervo. O animal já estava morto. Seu cadáver em decomposição era de uma beleza mórbida, do tipo que pessoas estranhas como Shino apreciavam.

O corpo do animal estava estirado no chão. Uma perna estava quebrada e havia um grande buraco em sua barriga, manchado com sangue já seco. Era uma visão normal para um ninja. Shino já havia visto inúmeras pessoas mortas, companheiros de combate inclusive. Tais visões não o chocavam mais. Mas o cervo... mexeu com ele por uma peculiaridade.

Não era o cervo em si que chamou a atenção do ninja, mas sim o enxame de insetos a se aglomerar no corpo do animal. Eram dezenas e dezenas deles, provavelmente centenas. As moscas pousavam em seu corpo destroçado, parecendo assim, formar um imenso véu negro de luto. Outras, pois eram muitas, voavam ao redor, irritadas por não poderem pousar naquela atraente carne morta, alimentar-se daquele corpo em decomposição.

Para Shino aquilo o assustou, o que era algo raro, pois poucas coisas conseguiam assustá-lo. Não seria ele um cadáver como aquele cervo? Não abrigava ele, em seu próprio corpo, uma comunidade gigantesca de insetos? Alimentando-os com seu chakra constantemente? Talvez ele fosse mesmo um cadáver, talvez, quando finalmente perecesse em combate, os insetos que residiam dentro de si o devorariam, sem qualquer respeito ao humano que os abrigara durante tantos anos.

Shino ficou ali parado, a alguns metros do cervo. Esses pensamentos o incomodavam. Desde pequeno seu pai dizia que a relação com os insetos que viviam em seus corpos era de mutualismo, mas Shino sabia que nenhuma relação era perfeitamente equilibrada. Sempre havia um lado mais forte e um mais fraco. Até aquele momento Shino achava que era o lado mais forte. Afinal, ele era um excelente ninja mesmo sem usar a ajuda dos insetos. Mas e se fosse o contrário? Talvez não estivesse tão por cima assim. Ele não passava de um lar para aquelas criaturas. Elas poderiam encontrar outro hospedeiro certo? Ou então simplesmente vagar pelo mundo alimentando-se de cervos mortos por ai.

Uma questão a se pensar. Uma questão muito interessante a se pensar. Ele se perguntou se os insetos em seu corpo gostavam de sua moradia. Talvez seu corpo não fosse um hotel cinco estrelas. Talvez muitos dos insetos reclamassem de suas instalações. Ele não era nenhum Chouji, não. Chouji seria como uma mansão com seu corpo grande e sua barriga protuberante. Shino estava mais para aquela casa com aluguel barato, cheia de infiltrações e problemas na rede elétrica, mas, apesar de tudo isso, uma residência disponível.

- Ei Shino! O que está olhando com essa cara inexpressiva?

Era Kiba. Shino sentiu um tapinha em seu ombro e virou-se na direção do amigo. Lá estava o bom e velho Kiba, esbanjando animação. Akamaru, seu fiel cachorro, o acompanhava. A tímida Hinata estava escondida atrás dele, seus olhos fitando assustados o corpo do cervo. Ela tremia, parecia mesmo apavorada.

- Como sabe que minha cara é inexpressiva se a maior parte de meu rosto está oculta... Kiba? – perguntou Shino com uma voz pausada e serena – afinal, por que estão aqui?

- A Hinata estava preocupada com você sozinho... eu disse que era bobagem, mas ela encheu o saco então viemos te ver... – disse Kiba. Akamaru, seu corpulento cachorro branco, latiu algo em concordância.

E falando em Akamaru, o cachorro correu até o cadáver do cervo, latindo alto e espantado todas as moscas, acabando assim com a magia daquela cena que tanto prendera a atenção de Shino.

“que animal insensível a poesia presente na contemplação da morte” pensou, mas preferiu não verbalizar seus pensamentos. Seus companheiros o achariam mais estranho do que ele já era. E ele já era considerado muito estranho.

Sem dizer nada Shino continuou a seguir em frente. Kiba deu de ombros e o seguiu, Hinata e Akamaru indo logo atrás. O ninja do clã Aburame acabou esquecendo-se totalmente de sua reflexão, perdendo esse complexo pensamento no abismo de suas memórias.

Talvez fosse melhor assim, não era muito bom começar a desconfiar de seres que viviam em seu próprio corpo. Isso, com certeza, deixaria qualquer pessoa bastante preocupada. Talvez, certas reflexões, fossem melhor nunca serem feitas.

26 de Agosto de 2019 às 01:54 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lucas Vitoriano Ola, me chamo Lucas, adoro escrever, ver animes, jogar Magic the gathering, ler entre outras coisas mais rs. Sou particulamente fissurado em mitologia grega, meus autores favoritos são Neil Gaiman e Kazuo Ishiguro e, meu livro favorito, é As brumas de Avalon.

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