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V
Vitória Brans


Jade e Nilo são compatíveis. E muito mais. Destinados a ficar juntos pelo bem da reprodução natural, os dois híbridos se veem atraídos e repelidos da mesma forma um pelo outro. Nilo sabe demais e Jade controla demais. Nilo a quer demais e Jade o deseja demais. Não existe meio termo e este 8 ou 80 promete abalar vidas.


Romance Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#romance #hibridos #compativeis
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Jade habita no controle.



bateu suavemente na porta e Jade inspirou profundamente o cheiro dela. Tinha aprendido a controlar sua dominância e já se sentia uma expert no assunto, mas estar na presença da Beta era sempre uma luta contra seu autocontrole.

A híbrida panda atravessou a sala, segurando documentos que precisavam ser assinados a mão e Jade fechou a cara, sabendo do que se tratava.

Nari sorriu docemente, alheia aos sentimentos sombrios de Jade, colocando os papéis com cuidado na mesa. — Hora de trabalhar, loirinha.

Era uma piada, é claro, mas o cérebro de Jade ainda estava se acostumando ao senso de humor.

Estou fazendo isso! — retrucou, ofendida, se arrependendo quando dor afetou sua coluna cervical empurrando seu corpo para frente. Os remédios... lembre-se dos remédios. Respirou fundo expulsando o mantra para longe da sua mente, sentindo vontade de caçar.

Nari se sentou no sofá roxo ao seu lado, esperando Jade se recuperar da crise. Tinha se acostumado com a visão da amiga se retorcendo por mais que Jade nunca lhe contasse o motivo.

Ela suspeitava ter a ver com a condição rara de Alpha. Se híbridos são um mito para os humanos, os Alphas são o mito dos híbridos.

Um ser único capaz de controlar toda a raça híbrida e de quebra a humana, podia não somente assustar como soar uma ditadura para as famílias que levaram anos para viverem tranquilamente com suas diferenças.

Não quero um Alpha, Nari disse para o pai, depois que ele contou a história para ela em seu quinto aniversário. Sou livre.

Nari só não percebeu que ela, como toda a Cobra, estavam tão absortos em seus medos e preconceitos que poderiam afetar a vida do Alpha, seja ele quem fosse. Só o fato de presumirem ser um homem já era indício de que havia algo errado em suas cabeças-ocas não tão diferentes das dos humanos. Aliás, eles ainda tinham 50% de humanidade. Só o Alpha... só ele será 10% humano. Mais animal do que homem.

Jade riu voltando a espiar Nari que tinha a careta de pizza no rosto. Os olhos franzidos e o lábio superior pressionando o inferior. Nari ficava muito muito engraçada se invocava a careta de pizza e Jade não conseguia se controlar em meio aos risos.

Nari odiava pizza. O que era inusitado já que as duas moravam em Milão, sendo Jade uma italiana de berço. Nari era originalmente coreana e cresceu com comida caseira preparada pela mãe e pelas babás. Em contrapartida, o avô de Jade cozinhava para ela, fazendo pratos de todo o mundo, diversificando o paladar antes que os remédios deixassem um gosto azedo marcante.

Nari gostava do confortável, do controle. As amigas não poderiam ser mais diferentes e lidar com diferenças é bom, seu avô dizia, se você sabe perder.

A Alpha entendeu que o único motivo para Nari estar na Itália e não voltar para casa, era ela. A ligação de Alpha & Beta que as duas compartilhavam.

— O que foi? — Jade perguntou, investigando os pensamentos e o cheiro de flores da amiga. Nari levantou muros em sua cabeça.

Nari nunca levantava barreiras contra ela. Nunca. E Jade se sentiu curiosa a respeito, em duvida se deveria se sentir ameaçada ou não.

— Nari? — tornou a chamar finalmente atraindo os olhos amendoados para ela.

Aigoo! Não é nada, Unnie! — deu de ombros, insistindo em esconder seus pensamentos quando Jade perscrutou outra vez. Nari se irritou, a cor dos olhos mudando para um âmbar perigoso. — Me dê um pouco de privacidade. — pediu, num tom que não era bem um pedido. Parecia uma ordem e o lado híbrido de Jade odiou.

— O que está acontecendo? Cercare il pelo nell'uovo! (Procura pelo no ovo!/ Procura problema!)

Jade crispou os lábios quando Nari balançou a cabeça, retrucando impaciente:

— Não estou vendo ovo nenhum. — cruzou os braços, falando pausadamente como sabia que irritaria Jade.

É porquê você está pisando nele!! — retrucou, desistindo do que quer que fosse aquilo que elas estavam fazendo. Nari era louca por controle. Louca. Jade simplesmente não podia com ela quando Nari se sentia ameaçada, de alguma forma.

Ela é uma Sang, ela é minha Beta, ela é uma Sang...

Repetiu o mantra silenciosamente, dando um showzinho de inspiração e expiração para Nari, que insistiu que ela fosse as aulas de Yoga num estúdio pequeno e privativo em Milão. Jade foi, pela amiga. Por que ela cedia pela amiga. Por quê ela não conseguia parar de se sentir culpada pela decisão terrível que impôs sobre Nari de ficar ali, com ela, na Itália. De não voltar para casa, para sua cultura, para seus pais. Zeus estava passando uma temporada na Coreia e onde Zeus estivesse, Jade não estaria. Simples assim. Não era por causa de Nari, não... ela tinha feito o mesmo com a mãe dela. Jade virou as costas para Niara quando Niara começou a proteger as costas de Zeus. E tudo mais. Eles nem eram compatíveis, eram só aliados na criação assustadora que Jade teve e que na cabeça deles a faria mais forte porém mais debilitada para que não se sobrepusesse em Zeus. Ok, cresça, mas nem tanto.

Toxico, porém nem tanto.

Jade bufou, inclinando a cadeira de couro e dando impulso para o giro perfeito. O teto começou a rodar acima de sua cabeça e ela fechou os olhos; aproveitando a sensação de liberdade naquele escritório fechado e sendo alvo de todo o seu descontentamento. A híbrida tinha se tornado uma workaholic depois da morte do avô, cuidando de tudo para que sua mãe não se preocupasse em visitá-la por falta de dinheiro O Cecilia ia ser um pontapé nos negócios da família. Essere alla frutta! cheguei até onde podia, não aguento mais...

Nestes momentos, ela se sentia usada. Para valer. O irmão e a mãe estavam vivendo bem, seguindo seus próprios caminhos mesmo que ela os desaprovasse. Mas Jade... pobre Jade. Estava forcada a morrer ali, incapaz de sair da Itália, incapaz de quebrar as regras. Até seu avô só permitiria que ela saísse em um ano sabático dos negócios da família quando se casasse com seu compatível. Ele deixou claro no testamento. Ela sabia – tinha certeza – que se a cláusula não fosse tão categórica de com quem ela deveria se casar, teria dado sua mão ao seu ex-namorado, Matteo, mesmo que o odiasse, mesmo que quisesse distância dele. Tê-lo se dopando voluntariamente perto dela era mil vezes melhor do que viver numa prisão. Tudo era melhor do que viver sozinha. Tarpare le ali! (Cortar suas asas)

Exceto Nari, Jade não tinha ninguém. E a situação poderia ficar muito pior se Jade não percebesse logo que depender tanto de alguém não era diferente de estar preso, com barras emocionais incapazes de serem partidas por força bruta. O coração não é tão fácil de ser convencido.

Foi a vez de Nari tirá-la do mundo da lua, segurando seu ombro e estagnando a cadeira de couro no lugar. Nari tinha olhos intimidadores e a expressão desafiadora em seu rosto assustaria qualquer um. Jade arqueou a sobrancelha sentindo a hierarquia mudar... a Beta se comportando como sua Alpha era curioso de assistir.

Ela moveu os lábios, primeiro apontando para Jade, depois para elas e por fim para a porta, enquanto ditava tranquilamente: Você assinará esses documentos e depois nós duas vamos jantar e dar o fora daqui.

Jade sorriu, aprovando o plano.

— E se eu não quiser? — desafiou com um tom que delatava a brincadeira. Nari esticou os lábios ferozmente, replicando como uma vilã de contos de fada:

— Então eu vou ter que mandar aquela solicitação de amizade para o seu irmão mais velho, sem querer, pelo seu perfil. — Jade piscou os olhos, chocada com a ameaça e com a sensualidade que Nari exalava naquele momento. A Beta ficava muito muito digna de atenção quando honrava a personalidade Sang da sua família, agindo como se fosse o dono do mundo e que permitia claramente que eles coexistissem com ela.

A Alpha riu, girando a cadeira para uma posição mais confortável, abrindo o primeiro documento. Nari se afastou completamente da híbrida e orgulhosa por se mostrar tão cuidadosa para sua Alpha. Era sinal de que como Beta iria defendê-la. Mesmo sendo Jade, em parte, o principal motivo de ela estar longe de casa. Entretanto nunca contaria. Era um segredo que ela devia ao pai e a Zeus, e Nari precisava proteger Jade das garras cruéis do líder. A híbrida já tinha sofrido muito com a aproximação dele.

Nari olhou para o escritório e sorriu com o que viu: bolinhas de papel espalhadas pelo chão, as sacolas com comida que ela havia deixado ali para que as duas jantassem, almofadas do divã caídas pelo piso e as janelas fechadas impedindo dos raios lunares circularem por ali. Poderia parecer loucura, mas todo o stress do seu dia facilmente se libertária se ela colocasse tudo em ordem, estando no controle outra vez. Amava o controle. Respirava o controle. Espiou Jade de esguelha e percebeu, contrariamente, que jamais possuiria totalmente o controle por causa dela. Sentimentos tão conflituosos em seu peito: admiraçãoxrepulsa, amizadexmedo. Nari só queria um tempo de tudo aquilo. Cresceu num lar onde o Alpha era o assunto principal, até que estava tão exausta que implorou um tempo na Europa. Estava pronta para fugir de casa, era a verdade. Tinha feito uma estratégia digna de agente da Hades e quando finalmente distraiu os seguranças, o vento trouxe o cheiro da sua Alpha. Ela poderia ter ignorado, ela poderia ter fugido... mas não conseguiu. Por quê Jade Saintté estava dividindo sua comida com um desconhecido ao seu lado, um provável morador de rua pelo estado dele. Nari sentiu admiração, respeito e profundo medo por ela. Estava ligada. E era questão de tempo até que Jade a visse e ligasse os pontos. Se não a matasse por ser uma Beta, a mataria por ser uma Sang. Sua família era completamente leal a Zeus apesar de estarem curiosos sobre o verdadeiro líder da raça, o sucessor do híbrido panda. Todos sabiam que a popularidade dele tinha caído e muito, e a única coisa que o mantinha no trono era a gratidão por tê-los libertado do galpão onde estavam presos com os cientistas que os transformaram em híbridos. Um incêndio. Desde então, todos os híbridos eram livres e Zeus os escondia como um pai, debaixo de suas asas de demônio.

Ele era como a Rainha de Copas, de Alice no País das Maravilhas. Queria tudo vermelho, de preferência cheirando ao sangue de seus inimigos. E os inimigos de Zeus eram os inimigos de todo o povo híbrido: os membros antihibridos da Deahabi. A mesma organização que criou os híbridos começaria a procurá-los para matá-los. Agentes humanos que fariam de tudo para erradicar a existência do Experimento de uma vez por todas. A organização foi criada e centenas de agentes enviados pelo mundo, matando e matando e matando... e matando. Sem tortura, sem prisão, só morte. E Zeus revidou. Junto com Hades, um híbrido temido por suas práticas ilegais, fundou a Hades, a organização de defesa aos híbridos. Machos e fêmeas treinados diariamente para defender todos os híbridos do mundo contra a Deahabi e qualquer ameaça a existência deles.

Samir Saintté, o irmão mais velho de Jade, era um agente da Hades. Foi por causa da organização que ele a abandonou e por isso sua Alpha nunca nunca falava disso e Nari descobriu sozinha, ao encontrar um porta retrato com uma foto de Jade e um menininho que a beijava na bochecha, sua mão em volta de sua cintura. Eles pareciam tão íntimos que só poderiam ser família ou compatíveis. Como sabia que Jade não tinha encontrado seu compatível, só restava a primeira opção. E precisou subornar muitos contatos de seu pai para descobrir o nome. Jade descobriu logo depois que ela estava investigando Samir e foi a primeira vez que sua Alpha usou a voz de comando.

Deixe Samir em paz. Não quero que ele descubra que pessoas próximas a mim estão procurando por ele. Ele está morto para mim e eu estou morta para ele. É este o significado de família no meu mundo.

E Nari não pode desobedecer, por mais curiosa estivesse. Jade ainda era a sua Alpha e poderia muito bem rejeitá-la. E a rejeição é como o parto: doi muito e precisa de muito tempo para se recuperar. Ainda sim, sequelas acompanham você para sempre.

Se o que estivesse gerando dentro de si é desconfiança, Jade a mataria.

Estava quase terminando de limpar quando ouviu um rosnado e uma Jade descontrolada tomou toda a sua visão. Jade se debatia na cadeira de couro, os braços e as pernas se movimentando como numa convulsão. Nari tinha visto vídeos de pessoas convulsionando na internet e simplesmente não aguentou terminar. Ali, a sua frente, ela não conseguia desviar os olhos. A caixa torácica de Jade subia e descia violentamente com o corpo dela tremendo e incapaz de parar. Nari forçou suas pernas a voltar para o lado da Alpha, sentindo a dominância exalando inconscientemente. Mais uma onda e ela desmaia. Abriu a boca e fechou, varias vezes, percebendo que precisava dizer alguma coisa. Precisava falar alguma coisa. Por isso, chamou o nome da amiga repetidas vezes enquanto foi se aproximando e parando seus ombros. Jade estava de olhos fechados e babava muito.

— Jade? — tentou mais uma vez, se assustando e sentindo o cérebro trabalhar mais racionalmente. — Jade, o que foi?! — gritou, sentindo a pele tremer em suas mãos.

Jade não respondeu e não parecia ouvi-la. Nari olhou para o telefone na sua mesa. Estava prestes a desbloqueia-ló quando a amiga desmaiou, parecendo finalmente estabilizar. Nari ainda estava assustada e sentiu o coração acelerar debaixo da camiseta preta. Respirou fundo varias vezes e se sentiu tonta, escorregando no chão do lado da cadeira onde a amiga desmaiou. Discou os números de Matteo, um enfermeiro híbrido e ex-namorado da Alpha que tinha a total lealdade de Jade. Nari nunca soube por que terminaram, só sabia que Matteo era um dos híbridos mais atraentes que já tinha conhecido e era um exilado. Ponto. Sua atração acabava nessa palavra e na ligação que ele tinha com a amiga.

Discou, e as mãos suadas deixaram o celular cair no chão, com Nari murmurando nervosa:

— Merda — ouviu um som no telefone e enxugou as mãos na calça, antes de pega-lo: — Matteo, a Jade teve outra crise.

Ai meu Deus! — a voz anteriormente baixa se elevou em picos, e Nari sentiu seu nervosismo de longe. — Onde vocês estão?

— No escritório. Ela desmaiou. — ela lembrou de alerta-lo, sentindo um bolo na garganta e uma vontade incontrolável de chorar quando olhou para a amiga.

Eu tô indo. — Matteo disse e ela ouviu o som de chaves. Provavelmente as do carro. — Calma, Bella, pode chorar enquanto eu estou no telefone. — Matteo disse como se soubesse exatamente o que ela precisava.

E Nari chorou a noite toda.



24 de Agosto de 2019 às 18:12 0 Denunciar Insira 0
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