S05#25 - DIE AUSROTTUNG - PARTE I Seguir história

lara-one Lara One

Nada justifica as atitudes cruéis de um homem. Nem a falta de oportunidades em sua vida, nem a justificativa de que alguém tem de fazer o serviço sujo. O serviço sujo não é desculpa. Não precisa haver serviço sujo. Ele era um artista frustrado. Alguém que queria apenas destrinchar sua arte, mas a maldade chegou antes lhe oferecendo as oportunidades de ascensão. Você sentiu piedade dessa pessoa? Não, eu não estou falando do Fumacinha. Estou falando de Adolf Hitler. ADVERTÊNCIA: Não aconselho a leitura dessa fic dupla por pessoas muito sensíveis. Contém cenas de violência extrema. Agradeço ao excer Bruno Collier pela pesquisa histórica. In memoriam: Aos 6 milhões ‘oficiais’ e ao número nunca realmente ‘oficializado’ de judeus mortos na segunda guerra mundial.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 18 apenas.

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S05#25 - DIE AUSROTTUNG - PARTE I

"Não importa onde estamos lutando; não importa contra quem estamos lutando. Mataremos quem tivermos que matar no interesse de nosso país, e tirar a vida de um homem não significará mais que tirar a vida de um boi... Só com esta filosofia poderemos trilhar com confiança o caminho da vitória."

(Himmler, em uma palestra para a Divisão de Negócios Exteriores da SS)



📷



INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

[Fade in]

[Som: Beethoven – Moonlight Sonata]

KLAUS (OFF): - E enquanto ela esperava por ele, como todas as outras vezes em que seu coração se encontrava entristecido e preocupado, sentava-se ao piano e punha-se a tocar. Os frágeis dedos das pequenas mãos maltratadas de uma dona de casa, por alguns momentos revelavam a dor de sua alma na melodia triste de Beethoven, enquanto as lágrimas rolavam por sua face, transformando o que era ébano e marfim em um instrumento de desabafo... de uma dor que ela não podia mais suportar... Sempre, ao lado dela, sobre o piano, o seu rosário. As contas já gastas das tantas orações que ela fazia por mais de horas diante do altar da igreja, os joelhos já calejados, enquanto via soldados nazistas rindo e comemorando dentro da casa de Deus... E aquela mulher olhava para os céus e perguntava por que havia tanto ódio no coração das pessoas... Ela via as famílias que chegavam para rezar e lembrava-se de que não tinha mais a sua, pelo ódio e pela hipocrisia de uma guerra estúpida. As bombas dos Aliados podiam ser ouvidas ao longe e ela então pedia para que mais nenhum sangue inocente fosse derramado... E jurava com todo o seu coração que vocês voltariam um para o outro. Porque ela iria lhe encontrar... Como você a havia encontrado. Porque nada morre, o amor permanece... E é por amor que o universo move-se em vida. Pois o amor é mais forte do que a morte.

[Fade out]


Berlim – Alemanha - 1923

Close no passo firme do guarda, que usa botas até os joelhos. Foco aos poucos revelando o uniforme de guarda da prisão.

O guarda da prisão caminha a passos largos e fortes pelo extenso corredor de celas, enquanto segura uma prancheta nas mãos. Para em frente a uma cela, lendo a prancheta. Tira os olhos da prancheta e olha através das grades.

GUARDA DA PRISÃO: - ... Hei, doutor, acorde!

Nenhuma resposta.

GUARDA DA PRISÃO: - Yossef Mulder! Quer sair ou pretende ficar por mais alguns dias?

Mulder levanta-se. Usa um casaco de lã, calças largas e uma boina.

GUARDA DA PRISÃO: - Terminou seu inferno, doutor... Fique fora de encrencas.

O guarda abre a cela. Mulder sai, com as mãos nos bolsos e fica aguardando no corredor. O guarda dirige-se à cela ao lado. Sorri.

GUARDA DA PRISÃO: - Hoje é o dia da libertação de encrenqueiros políticos...

O guarda olha pra Mulder. Mulder dá um sorriso debochado. O guarda retribui o sorriso e olha pra cela em frente.

GUARDA DA PRISÃO: - Adolf Hitler. Vai sair por bom comportamento.

O guarda destranca a cela. O homem baixinho e sisudo sai. O guarda toma a dianteira e os dois o seguem. Mulder e Hitler lado a lado. Hitler com a cabeça erguida, sem olhar pra Mulder. Eles caminham até uma sala, onde outro guarda os espera, atrás de um balcão.

GUARDA DA PRISÃO: - Peguem suas coisas e não quero mais ver o rosto de vocês dois por aqui.

Mulder pega o pequeno embrulho sobre o balcão e o coloca no bolso do casaco. Coloca seu relógio no bolso do colete. Os documentos nos bolsos das calças. O anel de rubi e ouro no dedo. Pega sua maleta de médico e alguns panfletos contra a política do governo alemão. Dirige seu olhar para Hitler, que pega um casaco, seus documentos e algumas revistas anti-semitas. Mulder balança a cabeça negativamente. Aproxima-se do guarda.

MULDER: - Pelo menos pode me conseguir um cigarro como despedida? Ou vai aparecer no meu consultório?

GUARDA DA PRISÃO: - Doutor, não pretendo mais ver sua cara por aqui e muito menos no seu consultório.

Os dois riem. O guarda lhe entrega um cigarro. Oferece o isqueiro. Acende um também. Mulder gesticula um adeus, levando a mão à testa.

VINHETA DE ABERTURA: * DIE WAHRHEIT IST AUS DORT

(*A VERDADE ESTÁ LÁ FORA)



BLOCO 1:

Mulder sai da prisão e caminha até a calçada. Para. Respira fundo. Olha para o céu azul. Sorri. Olha para o lado. Hitler está parado, aguardando alguém.

MULDER: - Você não é do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães? Um dos responsáveis pelo Putsh Munich?

HITLER: - ...

MULDER: - Deve ter sido preso por aquilo... Eu vi você na inauguração da cervejaria estatal. Você estava com os golpistas. Estou tentando entender a filosofia do partido nazista. Suas idéias para os trabalhadores alemães e para tornar a Alemanha uma potência são muito interessantes. Sou médico do sindicato dos trabalhadores na indústria. Mas acabo sempre me metendo nessas confusões políticas...

HITLER: - ...

MULDER: - Só não gosto das suas pregações anti-semitas. Por que acha que a raça ariana é diferente de judeus, ciganos, negros...

Hitler vira o rosto, como quem evita contato.

MULDER: - Essas teorias da supremacia Ariana e do Espaço Vital, transmitem a ideia de que é um favor aos outros povos serem governados por Arianos, porque vocês são a raça superior. (SORRI) Para mim, senhor Hitler, isso soa como uma camuflagem para a verdadeira intenção que é expandir o território alemão. É essa a real intenção nazista?

Um carro preto para. Um oficial da SS sai. Abre a porta pra Hitler. Hitler olha pra Mulder.

HITLER: - Die ausrottung, juden.

(-A exterminação, judeu.)

Hitler entra. O carro parte. Outro carro para. O alemão de uniforme policial da SA olha pra Mulder. Fisionomia séria. Aparência de uns 18 anos.

KLAUS: - Sabe que vadiagem é crime, não sabe? Quer ir pra cadeia de novo?

Mulder olha pro policial. Abre um sorriso. O policial retribui o sorriso.

KLAUS: - Carona, Dr. Agitador?

Mulder entra no carro.

MULDER: - Acabo de falar com Hitler.

KLAUS: - Quem?

MULDER: - Aquele baixinho do partido Nazista, que estava no Putsh de Munich. Pegou 9 anos e saiu em 8 meses por bom comportamento! Ouvi o pessoal da prisão dizer que alguém de fora do país ajudou nisso... (OLHA PRA KLAUS DE CIMA A BAIXO) Mas espera aí, o que você está fazendo num uniforme da SA?

KLAUS: - (SORRI) Eu não disse que entraria pra polícia?

MULDER: - ... Você é teimoso. Numa época turbulenta como essa é melhor não se envolver com essas coisas. Você é garoto demais! Ouvi rumores que a Schtzstaffel vai criar encrenca contra vocês.

KLAUS: - A SS? Ora, se não é o agitador político, Dr. Mulder, quem está me dizendo essas coisas. Vai continuar a gritar manifestos a favor da saúde?

MULDER: - Não. Pra mim chega. Acaba sempre que alguns são presos e os outros fingem que nada tinham a ver. E quem termina na cadeia sempre? Quem? Eu... E eu não sou um Hitler pra conseguir favores.

Klaus sorri. Olha pra Mulder.

KLAUS: - Como foram os três meses de prisão?

MULDER: - Três meses de sardinhas enlatadas. Acho que nunca mais vou comer peixe na vida... Pode me deixar aqui.

Klaus estaciona o carro. Mulder desce. Klaus sorri.

KLAUS: - Seus pais estão aflitos. Vá pra casa.

MULDER: - Não. Tenho uma coisa importante pra fazer. Eu ia fazer isso naquela noite... Ainda vai ser meu padrinho?

KLAUS: - (SORRI) Não desiste não é?

MULDER: - Não, eu venho de uma família teimosa. Posso fazer isso hoje?

KLAUS: - Claro que sim. Boa sorte, Mulder. No jantar eu descubro se você conseguiu sair vitorioso dessa.

Klaus parte. Mulder caminha pela rua. Joga os panfletos numa lata de lixo e acena pra eles, numa despedida.

MULDER: - Tschüs tschüs!

(-Tchau, tchau.)


Mulder entra no jardim da pequena e humilde casa. Aproxima-se da porta.

[Som: Beethoven – Moonlight Sonata]

Mulder sorri ao ouvir a música. Bate à porta.

A música cessa rapidamente. Alguém lá dentro corre pelo barulho dos passos rápidos.

Mulder larga a maleta no chão e retira a caixinha do bolso. A porta abre-se.

Scully, em trajes de época: cabelos presos, vestido justo nos quadris e sapatos altos afivelados no calcanhar. Ao vê-lo manifesta a fisionomia de surpresa e de quem vai chorar de emoção, levando as mãos à boca. Mulder sorri. Abre a caixinha expondo o anel de noivado.

MULDER: - Desculpe, seu irmão não está presente neste momento, sei que a festa de noivado acabou por minha culpa e a de alguns policiais metidos que vieram me prender, mas houve um imprevisto naquela noite... Quer se casar comigo, professora de piano? Se é que em três meses você já não pousou seus olhos azuis em algum outro sortudo, afinal tanta beleza não pode ficar só...

Scully se abraça nele, chorando. Mulder abraça-a. Fecha os olhos.

SCULLY: - * Ich empfand Ihren Mangel... Ich liebe Sie, Yossef.

(*Senti sua falta... Eu amo você, Joseph.)

MULDER: - * Ich liebe Sie auch, Eva.

(* Eu amo você também, Eva)


Berlim - 1924

A sala decorada para um casamento, com tules e flores, principalmente girassóis. O altar (huppah), coberto com tule e amarrado com buquês de pequeninas flores, como uma tenda. Pessoas bem vestidas, sentadas nas cadeiras dispostas em filas. Os homens do lado esquerdo do altar, as mulheres do lado direito. O rabino entra, seguido pelas testemunhas e o cortejo nupcial, tomando seu lugar no altar improvisado.

Mulder para na porta, escoltado pelos pais. Por sobre o terno, um Kippot branco (espécie de jaleco de tecido fino, amarrado sobre a cintura). Na cabeça um chapéu judaico (kipah). O pai de Mulder mal humorado. A mãe de Mulder ajeita o filho. Finaliza puxando o nariz dele, numa brincadeira.

Os músicos cochicham entre si e começam a tocar sob a ordem de um deles.

[Som: Lecha Dodi]

O Rabino olha pra Mulder.

RABINO: - Barukh habah b’shem Adonai!

(-Bendito é aquele que vem em nome do Senhor!)

Mulder entra acompanhado dos pais. O pai de Mulder, um senhor judeu bem ortodoxo, sério, barba, óculos, suíças longas em trancinhas. A mãe de Mulder, uma senhora judia de finos traços. Eles param à frente do altar. O pai de Mulder o abraça, numa fisionomia pouco concordante. A mãe de Mulder lhe dá um beijo num sorriso de felicidade. Os dois afastam-se e Mulder fica olhando para a entrada.

Scully, num vestido de noiva, véu por sobre o rosto, para na entrada.

RABINO: - B’rukhah haba a b’shem Adonai!

(-Bendita é aquela que vem em nome do Senhor!)

Scully entra, levada por Klaus, até o altar. Mulder a admira com um sorriso. Klaus a beija nas mãos e se afasta. Scully circunda Mulder três vezes enquanto o rabino lê a Torah.

RABINO: - Israel, eu me casarei com você, e para sempre você será minha legítima esposa. Eu a tratarei com amor e carinho e serei um marido fiel.

Scully termina os círculos ao redor de Mulder e lhe dá o braço. Eles dão um passo à frente, ficando dentro do altar.

RABINO: - Mi adir al hakol. Mi baukh al hakol. Mi gadol al hakol. Hu y’vareykh er he’khatan vét há’kalah.

(- Ele que é supremamente poderoso, Ele que é supremamente louvado. Ele que é supremamente grande – que Ele possa abençoar este noivo e noiva.)

[Fusão]


Perto do altar, Klaus enche a primeira taça de vinho.

RABINO: - Barukh atah Adonai, eloheynu melék haólam, borey p’ri há’gafen. Amem.

(- Bendito és Tu, ó Senhor nosso Deus, Rei do universo que criou o fruto da vinha. Amém.)

Klaus entrega a primeira taça de vinho a Mulder, que toma um gole e entrega a taça com as duas mãos para Scully. O rabino sorri.

RABINO: - Yossef Mulder e Eva Hermann vão agora trocar os votos tradicionais do casamento. E por assim fazerem, eles irão abertamente comprometerem-se a si mesmos um ao outro. Compartilhando as mesmas alegrias, mesmas dores, e seja o que for que Deus traga às suas vidas juntos.

O rabino vira-se pra Mulder.

RABINO: - Yossef Mulder, você pela sua própria vontade e consentimento toma esta mulher, Eva Hermann, para ser sua legítima esposa deste dia em diante, para o melhor, para o pior, para a riqueza, para a pobreza, na doença e na saúde, para viverem juntos seguindo os mandamentos santos de Deus? Você a amará, a confortará, a honrará, a acalentará, a manterá, e abandonando todas as outras, unindo-se somente a ela, enquanto ambos viverem?

Mulder olha pra Scully num sorriso de felicidade.

MULDER: - Sim.

O rabino olha pra Scully.

RABINO: - Eva Hermann, você pela sua própria vontade e consentimento toma este homem, Yossef Mulder, para ser seu legítimo esposo deste dia em diante, para o melhor, para o pior, para a riqueza, para a pobreza, na doença e na saúde, para viverem juntos seguindo os mandamentos santos de Deus? Você o amará, o honrará, o inspirará, o acalentará, e o manterá, e abandonando todos os outros, unindo-se somente a ele, enquanto ambos viverem?

Scully olha pra Mulder, num sorriso apaixonado.

SCULLY: - Sim.

RABINO: - Que símbolos você tem para estes votos?

A pequena dama de honra se aproxima e mostra para o Rabino as alianças sobre a flor de girassol com um círculo central feito com pedaços de canela. O pai de Mulder põe a mão no rosto, incrédulo.

RABINO: - Desde os tempos mais remotos a aliança tem sido o símbolo de união do amor. É feita de ouro puro para simbolizar amor puro. Sendo um círculo inquebrável, ela simboliza um amor infindável. Tantas vezes quanto um de vocês virem estes círculos de ouro, que vocês possam ser lembrados deste momento importante e do amor infindável que vocês prometeram.

O Rabino olha pra Mulder. Mulder toma a aliança. Segura a mão de Scully.

RABINO: - Harey at m’kudeshet li b’taba ‘at zu k’dat Moshe v ‘Yisrayel.

MULDER: - Harey at m’kudeshet li b’taba ‘at zu k’dat Moshe v ‘Yisrayel.

(- Com esta aliança você está unida comigo em concordância com a Lei de Moisés e de Israel.)

Mulder coloca a aliança no dedo de Scully.

RABINO: - ...b’sehm Há ‘Av, Yeshua Há ‘Mashiakh, v’Ruakh Há ‘Kodesh.

MULDER: - ...b’sehm Há ‘Av, Yeshua Há ‘Mashiakh, v’Ruakh Há ‘Kodesh.

(- ... em nome do Pai, Yeshua o Messias, e do Espírito Santo.)

Scully toma a aliança e a coloca no dedo de Mulder. Sorri. Mulder toma a flor de girassol e entrega pra ela.

MULDER: - Me reconhecerás entre todas as almas por isto.

Scully sorri. Retira um pedaço de canela de cima da flor e toma a mão de Mulder. Coloca a canela na palma da mão dele, fechando-a.

SCULLY: - Me reconhecerás entre todas as almas por isto.

O pai de Mulder suspira incrédulo.

ABRAHAM MULDER: - Como ele ousa distorcer uma cerimônia à maneira dele? Yeshua como Messias? O Rabino aceitou isso?

SARAH MULDER: - Símbolos são símbolos, Abraham... Até Deus nos deu o arco-íris. Nosso filho é criativo... (OLHA ATRAVESSADO) Você nunca foi.

O velho olha pra ela, em pânico. Ela olha para o altar, séria.

RABINO: - Desde que vocês têm prometido o amor de vocês um pelo outro diante de Deus e destas testemunhas, e trocados estes símbolos de amor genuíno, eu anuncio, pela virtude da autoridade revestida a mim, que vocês agora são marido e mulher, para viverem juntos até que a morte os separe. O que Deus tem unido, nenhum homem separe.

Klaus enche a segunda taça de vinho. O Rabino canta em hebraico. Klaus entrega a taça de vinho para Mulder. Ele bebe outro gole e leva aos lábios de Scully, que bebe um gole. Mulder ergue a taça e a atira ao chão, quebrando-a.

MULDER: - (GRITA) Mazel Tov!

(- Boa sorte. Felicidades!)

Mulder puxa Scully, erguendo-lhe o véu e a beija apaixonado, devorando-lhe os lábios. O pai dele balança a cabeça negativamente. A mãe de Mulder sorri. O velho a cutuca. Ela fica séria.

RABINO: - (SORRI) É o meu privilégio apresentar a vocês o Sr. e a Sra. Mulder!!!

Corte.


[Som: Siman Tov - Mazel Tov - Haveinu Shalom Aleichem]

A festa na casa dos pais de Mulder. Todos dançam com a noiva, bebem vinho e comemoram animados. A mãe de Mulder passa por Scully e ajeita o véu dela. Scully vira-se pra ela. A mãe de Mulder a beija na testa. Scully sorri.

SARAH MULDER: - Você está linda!

SCULLY: - Obrigado por ter me ajudado a colocar o vestido, arrumado meu cabelo, e...

SARAH MULDER: - Você é minha filha agora. É meu dever de mãe zelar e cuidar de você. E que vestido lindo! Você sabe costurar muito bem... Eva, eu estou muito feliz por entregar meu filho amado em suas mãos. Eu não veria graça em nenhuma outra mulher para fazer isso. Tenho certeza de que cuidará do meu único filho. Com todo o amor que eu sei que você tem por ele dentro do seu coração.

SCULLY: - Eu... Senhora Mulder eu...

SARAH MULDER: - Algum problema, Eva?

SCULLY: - É que... (ANGUSTIADA) ... Preciso perguntar uma coisa pra senhora.

Scully aproxima-se de Sarah e cochicha algo no ouvido dela. A mãe de Mulder sorri.

SARAH MULDER: - Filha... Eu sei, já passei por isto também. Entendo seu nervosismo.

SCULLY: - E eu perdi minha mãe quando... estava começando a precisar desses conselhos.

SARAH MULDER: - Entendo... Mas nem minha mãe me deu conselhos sobre isso, aliás, eu sabia menos do que a geração de vocês sabe... venha, vamos até a cozinha. Vou falar algumas coisas pra você.

SCULLY: - (PÂNICO) Mas eu vou ter que ficar despida na frente dele?


Corta pra Mulder que toma uma taça de vinho, ao lado do pai.

MULDER: - Pai, eu fiz o que você queria, não fiz? Se tivesse feito o que eu queria, teria me casado na igreja dela. Por ela.

ABRAHAM MULDER: - Não fez não. Se tivesse feito o que eu queria, teria casado com alguém do seu povo, uma moça judia, não com uma católica alemã que acredita em Jesus!

MULDER: - Meu pai, que culpa eu tenho se foi ela quem roubou meu coração?

ABRAHAM MULDER: - Coração leviano esse seu. Quero ver se ela vai ir à sinagoga aos sábados. Se eu pegar você naquela igreja cristã... Vou fazer plantão aos domingos lá na frente!

MULDER: - Pai, ela vai comigo à sinagoga e eu vou com ela à sua igreja. (DEBOCHADO) Vamos ter dois dias santos e você não pode me acusar de não ser religioso.

ABRAHAM MULDER: - Sabia que a ideia da sua mãe seria uma dor de cabeça! Não deveria ter deixado você estudar a cabala... Está achando muitas justificativas pra tudo. Não abandone seu Deus, o Deus de seus pais, o Deus de Abraão.

MULDER: - Meu pai, não vamos discutir. É meu casamento. Eu amo meu Deus. E amo essa mulher. Ela é a mulher que eu escolhi. Quando eu a vi pela primeira vez, quando nos mudamos para essa casa ao lado da casa da família Hermann... Eu sabia que seria ela. Eu havia encontrado a minha alma.

ABRAHAM MULDER: - Vai manter sua mulher dentro de casa, está me ouvindo? Mulher tem que ficar em casa. Essas ideias suas e dessa juventude de que mulher deve trabalhar fora e estudar... Mas mesmo assim... Devia ter se casado com uma judia.

MULDER: - Pai, o que tem para reclamar? A pobrezinha decorou toda cerimônia para não errar nada. Ela tem preparado o Kasher para o Shabat, tem se esforçado em compreender nossas tradições... Dê uma chance a ela. É uma boa moça, pai.

ABRAHAM MULDER: - (RESMUNGANDO) Não sei... Criada assim sozinha... Solta feito ovelha sem rebanho...

MULDER: -Pai, cadê seu compromisso com Deus? Onde está sua promessa de amor? Você me acusa de colocar uma estrangeira em nosso meio, de não honrar as Leis de Moisés... Mas quem não está honrando as Leis é você. Eva não tem culpa se os pais morreram quando ela era adolescente... Ela criou o irmão, foi lecionar piano, fazer doces para manter o que lhe restou de família. Uma moça trabalhadora, honesta, bonita. Meu pai, abençoa o meu casamento, por favor. Eu não acharia mulher mais digna diante de Deus para ter meus filhos e abençoar minha descendência e o seu nome.

Abraham olha pra Mulder.

ABRAHAM MULDER: - (SE FAZENDO DE DIFÍCIL) ... Eu sabia que deveria ter tido mais filhos... Mas Deus não me abençoou com isto...

Sarah passa por Mulder. Puxa o nariz dele.

SARAH MULDER: - Seja bonzinho com ela, meu filho.

Mulder olha pra mãe sem entender nada. Olha para o pai, que ainda se faz de difícil.

MULDER: - Pai... (CONQUISTANDO-O) Eu sou sua única descendência, meus filhos carregarão o nome Mulder por todas as gerações. Quer que eles carreguem uma maldição sua?

ABRAHAM MULDER: - Está bem... (ENFEZADO) Tem minha benção, eu abençoo vocês dois e seus filhos e todas as gerações que vierem! Ninguém derruba os Mulder! Ninguém acaba com a minha família e meus descendentes!

Todos olham pra ele e erguem as taças. Sarah pisca o olho pra Scully.

SARAH MULDER: - Yossef sabe o ponto fraco do pai dele.

Scully sorri. Mulder pega o pai pelo braço e o faz subir numa cadeira. Aplaude.

MULDER: - Isso mesmo! Esse é o velho Mulder que eu conheço. Ninguém acaba com o sangue dos Mulder!

ABRAHAM MULDER: - Podem destruir tudo, mas sempre haverá um Mulder! Ali, de pé, lutando pela verdade em nome de Deus!

Todos aplaudem. Mulder beija a mão do pai num sorriso. Corre pra perto de Scully, a tirando das mãos de um dos convidados e dança com ela. As pessoas acompanham a música batendo palmas. O pai de Mulder ergue a taça e grita.

ABRAHAM MULDER: - Mazel Tov!!! Deus abençoe você, Eva, minha filha!

SARAH MULDER: - Abraham, desça já dessa cadeira! Você já bebeu demais!

ABRAHAM MULDER: - Mas eu nem comecei a beber ainda! Mulher, traga mais vinho! Meu filho casou-se hoje! Quero muita festa! Vinho pra todos!!!

Corta para a velhinha sentada na cadeira de balanço. Olha pra Abraham.

VOVÓ MULDER: - Quem se casou hoje? Por que não me convidaram para o casamento?

SARAH MULDER: - Mas mamãe, a senhora já está no casamento. É o casamento de Yossef, filho do seu filho!

VOVÓ MULDER: - Milho? Que milho?

SARAH MULDER: - Filho, vovó. O filho de seu filho. Yossef, seu neto, se casou hoje.

VOVÓ MULDER: - Yossef? Mas Yossef só tem cinco anos! Vão acordar o menino com essa barulheira toda!

Corte.


Scully sentada na cama, ainda de vestido de noiva. Mulder entra no quarto, usando uma cartola. Fecha a porta. Senta-se à frente da penteadeira. Apoia o cotovelo, o rosto na mão. Pensativo.

MULDER: - Desculpe pelo meu pai. Ele se empolga com essas coisas de descendência e começa a beber e discursar. Eu deveria ter adivinhado que ele ia cair da cadeira... Sorte que foi só um galo na cabeça... Ainda bem que você já conhece a minha família pra saber que são meio doidos... A vovó está ficando cada vez pior... Agora que ela entendeu que eu me casei e não tenho mais cinco anos...

Mulder sorri. Levanta-se. Olha pra Scully. Admira-a. Tira a cartola e joga pra cima.

MULDER: - (SORRI) Enfim sós?

SCULLY: - (OLHOS ARREGALADOS)

MULDER: - Foi um bonito casamento.

Mulder coloca a mão no bolso do terno. Retira um colar de pérolas. Senta-se ao lado dela.

MULDER: - Isso é pra você.

SCULLY: - (SORRI) Pra mim?

MULDER: - (SORRI) Sim... Era da minha avó, que deu para meu pai, que deu para minha mãe... E agora é seu. E um dia, será de nossa filha, quando ela se casar.

Mulder coloca o colar no pescoço dela. Scully olha para o colar, emocionada.

SCULLY: - Yossef, são pérolas. Legítimas! E-eu...

MULDER: - Sim. E agora são suas.

Scully sorri. Mulder aproxima os lábios dos dela. Beija-a, deitando-se sobre ela. Scully o empurra.

SCULLY: - E-eu... Eu... Eu vou dormir.

Ela se deita na cama. Mulder olha pra ela.

MULDER: - De vestido?

SCULLY: - É... E-eu durmo de vestido sempre.

MULDER: - De noiva? Todos os dias?

SCULLY: - ...

Mulder sorri. Levanta-se.

MULDER: - Vou deixar você se trocar.

Mulder sai. Ela respira fundo. Morde os lábios.

SCULLY: - Ai, meu Deus... O que eu vou fazer???

Corte.


Mulder bate na porta. Entra. Scully deitada na cama, nua, segurando o lençol até o pescoço. Mulder olha pra ela e segura o riso.

MULDER: - Eu... Posso tirar a minha roupa? Eu não costumo dormir de terno.

SCULLY: - Po-pode.

Mulder tira o casaco. Começa a se despir. Ela põe as mãos nos olhos. Mulder olha pra ela e sorri. Apaga a luz. Deita-se, cobrindo-se com o lençol. Scully se afasta discretamente.

MULDER: - Foi o dia mais feliz da minha vida.

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: - Nós seremos felizes. Eu tenho certeza disso.

SCULLY: - Eu acredito em você.

MULDER: - Vou ser o melhor marido que você poderia ter escolhido. Não vou magoar você nunca.

Mulder olha pra ela. Ela não olha pra ele. Mulder vira-se de lado, num sorriso. Ela nervosa. Mulder leva a mão e tenta erguer o lençol. Ela segura o lençol com força.

MULDER: - O que foi?

SCULLY: - Estou com medo.

MULDER: - (INCRÉDULO) De mim?

SCULLY: - (TENSA) E-eu... Eu nunca me deitei com um homem. Eu nem sei o que eu tenho que fazer!

MULDER: - E eu nunca desejei uma mulher como desejo você... Eva... Eu sempre respeitei você. Não vou desrespeitar menos por estarmos casados. Certo?

SCULLY: - Eu sei que pareço uma boba, mas eu nunca...

MULDER: - (SORRI) Eu sei. Uma dama sempre será uma dama. O que prova que a teoria do meu pai sobre ovelhas sem rebanho é inválida... (RI) Eu amo você, Eva. E amo essa inocência também.

Mulder aproxima-se dela. Scully arregala os olhos. Mulder a beija. Se aconchega contra ela. Faz carinhos nela. Os dois olham-se nos olhos. Mulder a beija. Ela retribui, relaxando. Ele desce os lábios beijando o pescoço dela, enquanto a acaricia com a mão.

Corte.


Sarah serve a mesa do café. A vovó está sentada à mesa. Mulder entra com Scully de mãos dadas. Puxa a cadeira pra ela. Scully senta-se.

MULDER: - Bom dia! Como está meu pai?

SARAH MULDER: - Está bem. Curando a ressaca.

Mulder senta-se. O velho Abraham entra na cozinha. Senta-se à mesa.

MULDER: - Melhorou pai?

ABRAHAM MULDER: - Melhorei. Não pode me culpar olhando pra mim desse jeito. O vinho era de boa qualidade. Não resisti... Ai, minha cabeça... Deus me perdoe, mas hoje não vamos orar... (ESFREGA A CABEÇA) Au!

A vovó olha pra Scully.

VOVÓ MULDER: - Quem é ela?

MULDER: - (SORRI) É a Eva, vovó. Lembra dela?

VOVÓ MULDER: - Ah! O que faz aqui Eva?

MULDER: - Ela se casou comigo vovó. Mas vamos nos mudar daqui.

VOVÓ MULDER: - Mazel Tov pra vocês!

Mulder olha pra Scully. Os dois sorriem. Algumas vezes tocam as mãos por baixo da mesa e se olham apaixonados. Mulder olha pra Sarah. Ela está distraída no fogão. Olha pra Abraham, que tenta ler o jornal virando-o de todos os lados.

ABRAHAM MULDER: - Não sei... Esse jornal está estranho...

MULDER: - Pai, está de cabeça pra baixo. Por que não pega seus óculos?

ABRAHAM MULDER: - Não sou míope! Acha que por ser médico sabe de tudo! Não há míopes na família Mulder! ... Me deixe ver como anda a economia... E termine essa lua de mel logo, porque temos negócios para administrar. Amor só enche barriga pra frente.

SARAH MULDER: - Abraham! Está à mesa, por favor se comporte! Não cabe a um rabino blasfemar à santa mesa!

ABRAHAM MULDER: - O que eu fiz? Não blasfemei! Eu disse que amor só enche a barriga pra frente. Estou errado?

SARAH MULDER: - Está sim. Porque nem isso você conseguiu fazer com exceção de uma única vez!

Mulder morde os lábios. Scully segura o riso.

ABRAHAM MULDER: - (PÂNICO) Está vendo, Yossef? Não dá para dar liberdade às mulheres. Veja se vai ser frouxo como eu fui!

A vovó atira um biscoito na cabeça de Abraham. Scully põe a mão na boca, contendo o riso.

VOVÓ MULDER: - Não fale mal das mulheres!

SARAH MULDER: - Mamãe, não desperdice os biscoitos...

ABRAHAM MULDER: - Ah, isso a senhora escutou não é? Já percebeu que a senhora só escuta o que não deve?

VOVÓ MULDER: - Sou sua mãe, estou velha, me respeite! Sim, os homens da família Mulder são todos uns frouxos! Meu marido era, meus filhos são e meus netos também! E meus bisnetos e tataranetos serão!

Scully ri.

VOVÓ MULDER: - Isso está no sangue. E vocês adoram mulheres mandonas e briguentas! Escutem bem, um dia o mundo será regido pelas mulheres. Só assim vai funcionar. E vocês vão tomar conta da casa. Cuidar dos filhos e costurar as ceroulas de vocês! (DEBOCHADA) Queria estar viva pra ver isso. Hahaha!

ABRAHAM MULDER: - A senhora é subversiva, mamãe!

Abraham desvira o jornal e tenta ler. Mulder olha pra Scully e a beija no rosto. Scully sorri. A vovó se faz de tonta, mas observa. Scully olha pra Sarah. Olha pra vovó que disfarça. Olha pra Abraham lendo o jornal. Então morde a orelha de Mulder sensualmente. Ele ri. Sarah aproxima-se da mesa. Os dois se comportam. Sarah serve o café para Scully.

SARAH MULDER: - (COCHICHA) Ele foi bonzinho com você?

SCULLY: - (SORRI) Sim senhora.

Sarah senta-se.

VOVÓ MULDER: - Do que estão falando?

SARAH MULDER: - Nada, mamãe. Coma seu mingau.

VOVÓ MULDER: - Estão falando de mim.

SARAH MULDER: - Não mamãe. Eu só queria saber se meu filho tinha tratado bem a esposa dele em sua noite de núpcias.

VOVÓ MULDER: - Claro que sim! Olha para os dois como riem à toa? Olha para o rosto dela que já diz tudo!

Scully fica ruborizada. Mulder segura o riso.

SARAH MULDER: - (CORADA) Mamãe!

VOVÓ MULDER: - Posso esquecer de muitas coisas na vida... Mas o melhor de tudo eu nunca esqueço... Ah, meus tempos! Ainda me lembro do falecido Mulder... Filha, acredite, não há coisa melhor na vida! Aproveite enquanto é jovem. Uma virtude dos homens da família Mulder é que são muito bons na...

ABRAHAM MULDER: - Mamãe! Coma o seu mingau!


BLOCO 2:

Residência dos Mulder - Berlim - 1929

Mulder sentado à mesa. Klaus na outra ponta, vestido num uniforme da SA. Mulder joga o guardanapo sobre a mesa, indignado.

MULDER: - Hidenberg... (DEBOCHADO) ... Grande presidente! Os Estados Unidos estão nos afundando em dívidas para a reconstrução da Alemanha. E o governo alemão está pouco se importando com a saúde dos cidadãos desse país. Prefere comprar armas. E nem nos reerguemos da grande guerra mundial! Estamos num país falido. Sabe o que tenho feito ultimamente?

KLAUS: - Não.

MULDER: - Tem gente que eu nem cobro a consulta. E estou fornecendo os remédios pra eles do meu próprio bolso! Se este maldito governo não tem ética, eu tenho a minha!

KLAUS: - Ora, você sabe que os americanos estão crescendo às custas da Europa falida pela guerra. O povo alemão está descontente com tudo e o governo não resolve nada. Não tem emprego, comida, saúde, moradia...

MULDER: - Outra guerra está chegando, Klaus. O desemprego cresce, a fome chega, a violência aumenta e o segregacionismo racial volta os olhos para os judeus, como se 5% da população que é judaica fosse culpada pela má administração de recursos na Alemanha.

KLAUS: - O que me preocupa é que Hitler está tendo apoio tanto da burguesia quanto das massas populares. Isso é preocupante. Ele está usando uma mídia massiva a favor dele, do discurso dele e a Alemanha parece estar ficando cega nessa história toda de patriotismo desenfreado. Vejo as pessoas completamente entusiasmadas pelo slogan de Hitler, pelas promessas dele de campanha.

MULDER: - ... Ele é um patriota obcecado, não podemos negar isso. Hitler é um louco. Daqui à pouco nomeia seu carro como Primeiro Ministro e põe fogo em Berlim.

KLAUS: - Ele prega o anti-semitismo. Imagine se os nazistas conseguem depor Hidenberg do governo? O que vai acontecer com os judeus desse país?

MULDER: - Hitler fala de uma solução imediata. Defende agora a criação de um lugar pros judeus em Madagascar... Como se fôssemos animais a serem expulsos à força. Primeiro os egípcios, agora os alemães! Não temos um país! Cadê Moisés dessa vez?

Scully entra na sala, grávida, num vestido, usando um avental, cabelos presos com grampos. Serve a sobremesa.

SCULLY: - Deixe Moisés e os profetas fora disso. Falando sobre política novamente?

Mulder sorri. Olha pra Klaus.

MULDER: - Estamos apenas comentando um assunto importante, afinal Klaus é um sujeito do governo.

KLAUS: - Falta muito ainda?

SCULLY: - Não. Só três meses. (SORRI) Isaac precisa de um irmão.

Mulder olha pra sobremesa.

MULDER: - Figos? Eva, você está servindo figos pra um homem do governo?

Klaus sorri. Scully coloca as mãos na cintura.

SCULLY: - O que você quer que eu sirva?

MULDER: - Alguma coisa melhor do que figos. Ora, não é todo o dia que meu cunhado senta-se nesta mesa e pode encher a casa de orgulho dizendo que é um homem importante.

SCULLY: - Vou trazer o café. Talvez esteja à altura de um homem importante.

KLAUS: - Eu quero dizer pra vocês que recebi um convite.

MULDER: - Convite?

KLAUS: - Fui convidado pra entrar na SS.

MULDER: - (PREOCUPADO)

KLAUS: - Sinceramente, acho que vou aceitar. Terei mais condições, um salário melhor... Queria saber o que você acha.

MULDER: - Não pergunte pra mim, eu sempre odiei a polícia. (SORRI) Eles sempre pegam os sujeitos errados. Se tem uma coisa que eu jamais seria na vida é policial.

KLAUS: - E você, irmã? O que acha do seu irmão caçula ser um oficial da SS?

SCULLY: - Como se a opinião de uma mulher tivesse algum valor na sociedade. Melhor eu fazer o café mesmo. Sei que a cozinha é o meu lugar...

Scully volta pra cozinha, numa fisionomia de preocupação. Mulder percebe. Olha pra Klaus.

MULDER: - Ela não gostou.

KLAUS: - E você?

MULDER: - Eu tenho medo da SS. Tenho medo quando a força policial começa a ganhar liberdade demais. Termina sempre em opressão. Gostaria de saber a real intenção disso tudo, Klaus. Porque a SS está recebendo tanta atenção dos nazistas.

KLAUS: - ...

MULDER: - Me preocupo com você. Quando meus pais se mudaram pra casa ao lado da sua, apesar de ser bem mais velho, eu adorava brincar com você. Sempre o considerei meu irmãozinho. Você sempre foi um garoto de garra, um garoto de luta. Quando seus pais morreram, mesmo menino, foi trabalhar pra conseguir ajudar sua irmã a manter a casa. Eu tenho orgulho de você, Klaus. Muito orgulho. E queria algo melhor pra você, mas isto é decisão sua, não minha. Sabe que poderia administrar meus negócios... Desde que meu pai faleceu, eu confesso que me sinto sozinho, tentando segurar tudo o que ele construiu...

KLAUS: - Mulder. Eu... Eu agradeço. Mas quero subir pelas minhas próprias pernas.

MULDER: - (SORRI) Tudo bem. Mas se precisar de uma escadinha, fale comigo.

Klaus sorri. Mulder levanta-se.

MULDER: - Vou ver o Isaac, já volto. Sabe como é. Criança a gente não pode desgrudar o olho, mesmo que esteja dormindo.

KLAUS: - Ele já está com 5 anos...

MULDER: - Quando for pai vai entender certas preocupações.

Klaus sorri. Mulder sobe as escadas.


Verão de 1934

Scully caminha pela calçada da ruazinha florida, carregando uma sacola de vime. Usa sapatos de salto altos, um vestido discreto e um penteado.

O segundo prédio à esquerda com a placa de bronze na entrada. Scully entra no prédio, caminha até uma das salas. Aproxima-se da mesa, onde uma senhora de óculos está sentada. Atrás dela um enorme vaso com um girassol. Pelas paredes, quadros com girassóis pintados.

SCULLY: - Olá, senhora Klafk.

IRMA: - Olá, senhora Mulder. Quer que o chame?

SCULLY: - Ele está com algum paciente?

IRMA: - Sim.

SCULLY: - (SORRI) Não, eu aguardo... (OLHA AO REDOR) Meu marido e sua obsessão por girassóis...

IRMA: - Sim, doutor Mulder os adora.

SCULLY: - (SORRI) Ele diz que girassóis são especiais porque seguem o sol. Eles procuram a luz da vida, como todas as pessoas deveriam procurar.

Scully senta-se, segurando a sacola sobre as pernas. A porta do consultório se abre. Mulder sai, acompanhando a paciente. Entrega um vidro de comprimidos pra ela.

MULDER: - Tome dois antes de dormir. Vai perceber melhoras, senhora Schumann.

SRA. SCHUMANN: - (SORRI) Obrigada, Dr. Mulder.

A mulher sai. Scully levanta-se. Mulder lhe dá um sorriso. Os dois trocam um beijo.

MULDER: - Entra.

Ela entra no consultório. Mulder fecha a porta. Retira o estetoscópio do pescoço. Olha pra ela. Pega sua mão e a instiga a dar um giro, enquanto olha pra seu corpo.

MULDER: - Meu Deus! Como você está bonita!

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: - Está perdida pelo centro da cidade?

SCULLY: - Estava em casa fazendo bolinhos com canela, quando de repente, me deu uma vontade de vir até aqui trazer bolinhos pro meu marido. Eu sei que ele adora bolinhos com canela.

Mulder sorri. Ela retira um embrulho de pano de prato da sacola. Abre-o, retirando um pacotinho. Coloca-o sobre a mesa.

SCULLY: - Acho que está com sorte. Ainda estão quentes.

MULDER: - Eu sabia que você estava vindo.

SCULLY: - Como sabia se eu disse que não viria hoje?

MULDER: - Quando sinto o cheiro de canela lá da esquina... Você cheira a canela, acho que até sua alma está impregnada com cheiro de canela...

SCULLY: - (SORRI) Yossef, seu bobo...

Mulder senta-se. Pega um dos bolinhos.

SCULLY: - Ia trazer café, mas chegaria frio.

MULDER: - Bolinhos está ótimo. E as crianças?

SCULLY: - Deixei Abraham com a senhora Heinz. Vou pegar Isaac e Sarah na escola. Tenho de falar com a professora.

MULDER: - (BOCA CHEIA) O que aconteceu?

SCULLY: - Isaac trouxe um bilhete pra casa. Parece que andou se metendo em brigas.

MULDER: - Não é da índole do garoto.

SCULLY: - Eu sei, por isto estou preocupada. A professora o suspendeu sem direito de defesa. Isaac disse que bateu no menino porque o menino o chamou de judeu narigudo e sujo, de sangue verde.

Mulder levanta-se.

MULDER: - (INCRÉDULO) Verde?

SCULLY: - Ele disse que as crianças alemãs da escola falam que judeus tem sangue verde. Cor de limo. Sujeira.

MULDER: - (SUSPIRA) Vou falar com ele.

SCULLY: - Ouviu o rádio?

MULDER: - Não.

SCULLY: - Hidenberg morreu. Hitler agora é o novo presidente da Alemanha. É o Führer.

MULDER: - ... Morreu? Ou foi morto?

SCULLY: - Dizem que morreu.

Mulder fecha os olhos. Scully aproxima-se dele e o abraça. Os dois se embalam.

MULDER: - Hum... Eu gosto tanto de ficar assim com você...

SCULLY: - (SORRI) Há tempos não ficamos assim.

MULDER: - Eu sei, estou sendo um péssimo marido.

SCULLY: - Não, você é o melhor marido de todos. Cumpre suas obrigações com sua família. Não deixa faltar nada em casa, veste seus filhos, mantém a mesa farta. O que mais poderia querer de um homem?

MULDER: - Um pouquinho mais de atenção?

SCULLY: - É, isto poderia ser muito interessante. Mas da última vez que você me deu muita atenção, Abraham nasceu.

MULDER: - (SORRI) Tudo bem. Então vou apenas dirigir minha atenção pra você quando sentarmos à noite pra ouvir rádio... Embora eu adoraria ter mais um filho... Você sabe o quanto gosto de crianças...

SCULLY: - ... Sei disso, Yossef... (DEBOCHADA) Eu fiquei grávida na minha noite de núpcias... Estranhei levar 4 anos até chegar o próximo! É, sua falecida avó, que Deus a tenha, tinha razão quanto aos Mulder... Só de olhar já é perigoso...

MULDER: - (SORRI) Você sabe que eu adoraria ter mais um filho. Sempre fui só, acho que fui o único judeu de família pequena... (TRISTE) Me lembro do velho rabino Abraham Mulder, pouco antes de morrer... Me chamou no quarto, tomou minha mão e me disse com aquela cara debochada dele: quero muitos descendentes, me abençoe com isto, meu filho... Para um judeu, nada mais sagrado do que sua descendência... Por isso gosto de famílias grandes. Casa cheia. Crianças gritando nos meus ouvidos.

SCULLY: - ... Eu gostava do seu pai, Yossef. Sempre sério, se fazia de difícil, mas tinha um senso de humor e um coração enorme... (SORRI) Ovelha sem rebanho... Que saudade dele!

MULDER: - Não sinta saudades dele. Eu já disse à você que a morte não é o fim. Temos outras vidas. Talvez ele esteja conosco, em um dos nossos filhos.

SCULLY: - Fale baixo! Não fique dizendo estas coisas dessa maneira, seu povo e o meu povo não concordam com isso...

MULDER: - E você?

SCULLY: - Ah, eu... Eu nem sei o que são essas coisas estranhas que você fala, que você lê e estuda... Me deixe fora disso.

MULDER: - Ah! Eu tenho uma notícia pra você.

SCULLY: - Hum... Que notícia?

MULDER: - Vamos jantar fora hoje. Vamos ter uma reunião para... (RECEOSO) ... para...

SCULLY: - (DESCONFIADA) Para...?

MULDER: - (PÂNICO) ... Discutir sobre a atual conjuntura da Alemanha para com os judeus alemães.

SCULLY: - (IRRITADA) Yossef Mulder! Você me prometeu ficar fora dessas questões desde que seu pai faleceu! Você prometeu a sua mãe antes dela morrer! Meu Deus, Yossef, está no sangue dos homens da família Mulder arranjarem encrenca? Bem que sua mãe me dizia que você era igual ao seu pai!

MULDER: - Mas vamos discutir também sobre a situação econômica... (SORRI) E você pode desfilar sua beleza enquanto a reunião acontece.

SCULLY: - Hum... Que beleza?

Ele a segura pela cintura.

MULDER: - Essa beleza ofuscante. Que me deixa cada dia mais apaixonado por você.

Ela solta-se dele. Pega a sacola.

SCULLY: - Espero você pronta. Vou arrumar seu terno.

MULDER: - E o meu beijo?

Ela sorri. Dá um beijo apaixonado nele. Caminha até a porta.

MULDER: - Diga pra Isaac que vamos conversar depois.

SCULLY: - Tá. Vou passar no cemitério e deixar flores para seus pais.

MULDER: - ... (SORRI)

Scully sai. Mulder sai atrás dela.

MULDER: - Quem é o próximo?

Um homem levanta-se. Tira o chapéu pra Scully.

SCHUWANTZ: - Boa tarde, senhora Mulder.

SCULLY: - Boa tarde, senhor Schuwantz.

O homem aproxima-se de Mulder, colocando o chapéu na cabeça.

SCHUWANTZ: - Boa tarde, Dr. Mulder.

MULDER: - Boa tarde, senhor Schuwantz. Como vai a úlcera?

SCHUWANTZ: - Está me deixando sem dormir, Doutor.

MULDER: - Tomou os remédios?

SCHUWANTZ: - Como o senhor mandou.

MULDER: - Hum... Vamos ver isso. Entre, por favor.

SCHUWANTZ: - Doutor, consegui mais umas mudas de girassóis para o jardim da sua casa. Quero dá-las e plantá-las como presente ao senhor por tudo que está fazendo por mim. Sabe que eu não tenho condições de comprar os remédios, é a maneira que eu tenho de agradecer pelos remédios que o senhor está pagando pra mim e... Por favor, aceite, vou me sentir mais feliz.

MULDER: - (SORRI) Tudo bem, Sr. Schuwantz. Eu aceito.

Os dois entram no consultório.


1938

Mulder abre a porta do consultório. Klaus entra apressadamente. Tira o quepe da S.S. Mulder ao vê-lo, abre um sorriso.

MULDER: - Meu irmão!

Os dois se abraçam.

MULDER: - Por onde andou nestes três últimos anos? Está com uma aparência cansada, assustada... E Eva está chateada porque você nem conhece o Simon.

KLAUS: - (SORRI) Mais um? Vocês dois não perdem tempo!

MULDER: - É a vida. E precisa ver, o danadinho é esperto!

Klaus dá um sorriso como se a notícia o confortasse de um peso que carrega dentro de si. Olha pra Mulder.

KLAUS: - Estive na Itália.

MULDER: - Itália? Não me diga que fugiu pra lá para comer macarrão.

Mulder percebe a suástica em um dos braços do uniforme dele. Olha-o com preocupação.

MULDER: - ... Que uniforme é esse?

KLAUS: - 16ª Divisão Panzergrenadier, Reichführer da S.S.

MULDER: - (INCRÉDULO) Você virou guarda pessoal do Führer?

KLAUS: - De Himmler, mais exatamente.

MULDER: - E não poderia ter escrito uma carta? Eva está preocupada com você, não há um dia em que não toque no seu nome...

KLAUS: - (NERVOSO) Eu estou preocupado.

MULDER: - Com o quê?

KLAUS: - Com você.

MULDER: - Comigo? Pensei que você tivesse vindo pra fazer uma consulta. Mas veio aqui pra que eu seja seu paciente?

KLAUS: - Mulder...

MULDER: - Eu estou bem. Pra quem vive num país em crise, quase miserável, até que estou conseguindo manter a minha família. Os negócios estão bem... Abri uma sociedade com um amigo numa indústria de pescados. (DEBOCHADO) Viu? Voltei pra sardinha novamente.

KLAUS: - Mulder... Falo sério. Há uma tensão nas camadas altas. Assisti a um discurso de Himmler na Escola de Política de Braunschweig. Ele disse que "Uma nação cujas famílias tem em média quatro filhos pode se dar ao luxo de ir à guerra de 20 em 20 anos. Mesmo que morram dois dos filhos, restarão os outros dois para perpetuar a raça."

MULDER: - Ele está envolvido com Adolf Hitler, não é? Você ficou sabendo do incêndio no parlamento, anos atrás?

KLAUS: - Sim, eu ouvi. Hitler ordenou o incêndio. Mulder, eu não posso ser visto com você. Negue nosso envolvimento. A polícia secreta anda vasculhando a vida de todos.

MULDER: - A Gestapo?

KLAUS: - Sim. E eu sou um homem que sabe demais. Eu faço parte da guarda pessoal do que eu chamo de primeiro homem do Führer! Eu até vejo Hitler quase toda a semana!

MULDER: - ... (TENSO)

KLAUS: - (NERVOSO) Mulder, me escuta. Presta atenção. Até 1929, a SA era a força dominante no Partido Nacional Socialista. Mas Hitler designou Heinrich Himmler para conduzir a SS a fim de criar um corpo de exército de elite de soldados armados dentro do partido. Mas a SS ainda era uma organização muito pequena e Hitler quis uma força efetiva. São mais de 52 mil homens! Embora a SS estivesse crescendo, a SA tinha refletido o crescimento do exército privado de Hitler, conduzida por um dos camaradas velhos de Hitler, Ernst Röhm.

MULDER: - ...

KLAUS: - O que ninguém fala oficialmente é que a SA representou uma ameaça às tentativas de Hitler para ganhar favor com o exército alemão. A SA ameaçou as relações de Hitler com os elementos conservadores do país! E ele precisa do apoio desses para solidificar a posição dele no governo alemão. Hitler decidiu agir contra a SA e a SS foi enviada para eliminar Röhm e vários outros oficiais de alta posição dentro da SA.

MULDER: - Está me dizendo que...

KLAUS: - A "Noite dos Punhais", Mulder.

Klaus senta-se, atordoado. Coloca as mãos no rosto, chorando.

KLAUS: - Eu estava lá! Eu fui designado para ajudar na execução de milhares de homens da SA! Eu matei meus próprios ex-colegas! Alguns... Alguns até eram meus amigos de infância!

Mulder recosta-se em sua mesa. Fecha os olhos. Klaus ergue a cabeça, olhos vermelhos, derrubando mais lágrimas.

KLAUS: - Acabou o poder da SA! A SS está no comando, e só se reporta a Hitler. Himmler e ele ficam conspirando... Eichmann... Há várias cabeças por trás de Hitler, Mulder! Eu... Eu não tenho mais estômago pra isso. Pensei em desistir, mas um colega fez isso e nunca mais tivemos notícias dele! Tudo o que posso fazer e ficar quieto, dizer Heil Hitler e andar com essa cruz gamada no meu braço! Hitler nos enganou, Mulder! Ele é muito mais perigoso e louco, e está com os italianos e os japoneses!

MULDER: - ...

KLAUS: - Não sabe as coisas que vi e ouvi na Itália! Eles estão formando um eixo com o objetivo de exterminar os judeus na Europa! Eles querem guerra! A mais sangrenta de todas! Querem ampliar o território alemão! Mulder, se Hitler mandou matar alemães, imagina o que faria com judeus? Ele se reporta ao seu povo como o lixo humano!

Mulder acende um cigarro. Senta-se, nervoso. Klaus levanta-se e espia pela janela, tenso. Acende um cigarro. Olha pra Mulder.

KLAUS: - Mulder, Hitler criou campos de concentração para o extermínio de inimigos políticos.

Mulder olha pra Klaus.

KLAUS: - (TENSO) Entendo por inimigos políticos qualquer um que atrapalhe a política nazista. Me entendeu?

MULDER: - Você não acha que a prosperidade judaica na Alemanha seja um incômodo político... Droga! Por que estou tentando mentir pra mim mesmo, eu sei que é!

KLAUS: - Mulder, pegue Eva e as crianças e dê o fora daqui. Antes que a coisa fique pior. Ele é louco. Completamente louco.

MULDER: - Mas sou casado com uma mulher alemã! Meus filhos nasceram aqui, eles têm descendência alemã!

KLAUS: - E também descendência judia. Eva não corre perigo, mas você e as crianças... Mulder, temos amigos na América. Vá pra lá. Peça asilo político! Jamais vão negar isso pra vocês!

MULDER: - Como vou sair daqui? Meu pai veio do Oriente com a roupa do corpo, lutou duro com a minha mãe pra conseguir deixar alguma coisa pra mim! Klaus, construí o futuro dos meus filhos, a casa dos sonhos da minha mulher, as minhas raízes... Isto tudo é o que estou batalhando pra deixar pros meus filhos não terem uma maldita vida miserável! ... Eu amo a Alemanha, eu lutaria por ela! Minha família está aqui. A Alemanha nos deu a chance de fixar raízes. Você, Eva e meus filhos são tudo o que me restaram de uma família. Algumas vezes me pego pensando se não sou mais alemão do que judeu!

KLAUS: - Mulder... Você é judeu. Você pode muito bem se enquadrar como ‘inimigo político’. A SS prendeu vários políticos alemães e os levou para esses campos. Também alguns seguidores de Karl Marx, Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht porque eram judeus! Não custaria nada Hitler mandar sua polícia prender judeus.

MULDER: - Klaus, fico feliz por se preocupar comigo. Você é um irmão pra mim, sabe disso. Mas não acho que Eva gostaria de sair da Alemanha com as crianças ainda pequenas, pra uma terra completamente desconhecida, um idioma que ela e as crianças não falam e sem saber o que nos aguarda por lá! Teremos de começar tudo de novo, do zero, com 4 filhos que ainda dependem de nós!

KLAUS: - Eva é sua mulher. O que você decidir ela tem de seguir, Mulder!

MULDER: - Além do mais, nós empresários judeus estamos esperando uma resposta pra ver se o Plano Schacht é ou não confiável, apesar da Inglaterra se negar a dar aprovação financeira. Os alemães querem que as riquezas dos judeus alemães sejam congeladas como garantia para um empréstimo internacional para financiar a emigração judaica à Palestina! Já me basta ouvir o dia todo que Hitler pretende extraditar o meu povo pra Madagascar, agora você vem me dizer que isto é fachada? Que Hitler vai matar milhões de judeus alemães? Ora, Klaus, não há como ele fazer isto! Somos judeus, mas somos nascidos aqui. Erguemos esse país. O amamos também!

KLAUS: - Os franceses estão planejando mandar 10 mil judeus pra Madagascar. Mulder, não tenho boas informações sobre essas extradições!

MULDER: - Estou cheio desses boatos políticos! Há anos a Europa está nos ameaçando. Meus filhos sofrem ameaças na escola. Eu já perdi pacientes alemães porque sou um judeu! E na verdade o segregacionismo ronda, ameaça, mas eles não podem fazer isto conosco. Somos seres humanos! Não há como exterminar um povo da face da Terra!

KLAUS: - Tentarei um visto de asilo político pra vocês. Tenho um amigo que pode fazer isto. Mas não posso me envolver, Mulder. Entregarei o endereço, você pega sua família e vai embora. Porque as coisas vão piorar. Acredite. Uma guerra está se armando. Hitler, Mussolini e os japoneses estão doidos. E os soviéticos não estão gostando que falem mal de Marx porque era judeu. A Inglaterra vai reagir...

MULDER: - ...

KLAUS: - Mulder... E se Himmler mandar a SS pegar os judeus?

MULDER: - ...

KLAUS: - Eles podem me matar, Mulder, mas eu nunca faria mal a minha própria família.

MULDER: - Klaus... Não pense nisto. Eu quero que cuide de você. Faça o que tiver de fazer para ficar vivo, irmãozinho.

KLAUS: - (DERRUBANDO LÁGRIMAS)

MULDER: - Pra mim você sempre continuará sendo o meu irmãozinho. Pouco me importa se você é um alemão, um oficial da SS, se você almoça com o Führer. Eu não ligo. Eu me casei com uma alemã. Eu tenho alemães na minha família. E todos nós sangramos vermelho. Judeus, alemães, negros, japoneses... sem distinção alguma.

Klaus olha pra seu braço. Observa a suástica desenhada no uniforme. Olha pra Mulder. Levanta-se da mesa e vai até ele. Mulder levanta-se. Os dois trocam um abraço forte. Klaus chora.

MULDER: - Vai, Klaus. Não fica bem um marmanjo num uniforme de oficial da SS chorar no ombro de um judeu.

Klaus sai chorando. Mulder perde o olhar no nada. Desvia sua atenção para seu consultório.

MULDER: - Não é justo. Eu construí isto. Meus filhos terão o que eu tive, estudarão numa universidade... Eu contribuí pra este país. Eu curei muitos alemães. Eles não fariam isto comigo. Eles não podem fazer isto comigo!


BLOCO 3:

1939

Mulder está sentado no sofá, ouvindo rádio. Toma café. Scully desce as escadas. Senta-se ao lado dele.

SCULLY: - Nossos quatro anjinhos rezaram e já estão dormindo. (SORRI) Tão bonitinhos...

MULDER: - Estava pensando que meu pai iria se orgulhar de mim... Consegui continuar a descendência dos Mulder.

SCULLY: - Ele teria orgulho sim, Yossef. Três meninos para continuarem os Mulder... Você percebeu que Sarah está ficando parecida com sua mãe?

MULDER: - (SORRI) E Abraham?

SCULLY: - A febre baixou.

MULDER: - Vou dizer que não o levarei ao parque no final de semana se ele continuar teimando em tomar chuva e andar de pés no chão.

SCULLY: - Tem um cigarro?

Mulder retira um maço de cigarros do bolso, oferecendo a ela. Scully pega um. Mulder acende o cigarro pra ela. Ela sopra a fumaça.

SCULLY: - Alguma notícia interessante?

MULDER: - Nada do que queremos saber. Não vai tocar uma musiquinha pra mim no piano hoje?

SCULLY: - Não... Hoje eu quero ficar do seu ladinho.

MULDER: - Recebi uma denúncia da parte de Isaac. Está insatisfeito comigo.

SCULLY: - Denúncia? Do quê?

MULDER: - Primeiramente ele me disse que não sabe se realmente gosta de ir a sinagoga. Eu disse que temos duas religiões aqui, e que nunca impus minha crença a nenhum deles. E você adoraria ter companhia pra ir à igreja. Segundo: disse que a mãe dele está tocando num piano cheio de cupins. Que eu sou um péssimo pai porque não dou um piano novo pra mãe dele.

SCULLY: - (SORRI) Não, eu já passei veneno e...

MULDER: - Vou comprar um piano novo pra você.

SCULLY: - (ABRE UM SORRISO) Jura???

MULDER: - Eu vou deixar você sem sua única diversão? Nunca! Presente meu e dos seus filhos. Quem sabe você admite seu dom musical e acaba se tornando uma grande compositora. Por que não abrir seu próprio conservatório musical?

SCULLY: - Não... Acho que se eu tivesse que administrar algum negócio... Eu abriria uma confeitaria.

MULDER: - Sério?

SCULLY: - Sim... Com cadeiras e mesinhas na rua, cercada de flores... Até escolhi um nome.

MULDER: - (CURIOSO) Que nome?

SCULLY: - Hum... Algo que tem a ver comigo e com você.

MULDER: - Não faço ideia...

SCULLY: - Sonnenblume und Zimt.

MULDER: - (RINDO) Girassol e canela???

SCULLY: - Ahn? Não é um bom nome? Não é a união de nós dois? Nosso casamento não deu certo?

MULDER: - É. Acho que o nome pode significar sucesso.

Os dois trocam um beijo.

MULDER: - Toca uma musiquinha pra mim?

SCULLY: - (SORRI) Se meu marido faz questão disso...

Ela levanta-se e senta-se ao piano. Mulder ajeita-se no sofá e a observa.

[Som: Bach - Sleepers Wake]

Mulder fecha os olhos, escutando a melodia. Scully continua tocando pra ele.

MULDER: - (SORRI) ... Ich liebe Sie, Eva.

(-Eu te amo, Eva.)

Corte.


Isaac, um garoto de uns 14 anos, abre a porta da casa. Mulder entra nervoso.

MULDER: - Onde está sua mãe, filho?

ISAAC: - Foi à igreja. Levou Simon com ela. Pai, está nervoso? O que está havendo?

MULDER: - (SORRI) Nada meu filho.

ISAAC: - Mamãe deixou seu jantar pronto. Estávamos esperando você.

MULDER: - Eu... Está bem, eu vou me lavar e vamos jantar. Podem sentar-se à mesa.

Isaac vai pra cozinha. Sarah e Abraham estão sentados.

SARAH: - Onde está o papai?

ISAAC: - Já vem.

Mulder entra na cozinha. Abraham e Sarah correm pra abraçá-lo.

ABRAHAM: - Olá papai!

MULDER: - Olá minha filha. Olá meu filho... Então, vamos jantar?

Eles sentam-se. Mulder dá a mão para Sarah e Isaac. Todos ficam de mãos dadas. Mulder abaixa a cabeça. Eles fazem o mesmo.

MULDER: - Senhor nosso Deus, Deus de Israel. Abençoe este alimento e que nunca falta nada à mesa de nossa família. Amém.

As crianças completam com um amém. Mulder começa a servi-las.

ABRAHAM: - Pai, por que o Isaac pode fazer coisas que eu não posso? Por que ele pode ser adulto e eu não posso?

MULDER: - Porque ele já fez o Bar-Mitzva. O que isto significa, Isaac? Explique para o seu irmão.

ISAAC: - Que eu estou sujeito ao mandamento, que devo participar e praticar todos os 613 mandamentos divinos, e que agora você meu pai, não responde mais por mim. Eu sou responsável por todos os meus atos diante de Deus.

MULDER: - Exatamente.

As crianças comem. Mulder as observa. Sarah olha pra ele. Puxa seu nariz. Mulder sorri.

MULDER: - Por que faz isso? Desde bebê você faz isso.

SARAH: - Eu gosto de puxar seu nariz.

MULDER: - Sua avó fazia isso comigo desde que eu era pequeno. Sabia disso?

SARAH: - Não... Pai, não está com fome?

MULDER: - ... Não, eu... Já comi alguns bolinhos antes...

SARAH: - Mas mamãe não levou bolinhos hoje.

MULDER: - É, mas eu levei... Coma Sarah.

Isaac o observa desconfiado.

ISAAC: - São os alemães. Você está preocupado com a guerra.

MULDER: - Isaac, não vamos falar sobre esse assunto. Por que você sempre arranja alguma discussão comigo, meu filho?

ISAAC: - Eu sou um homem e você é meu pai! E eu tenho o direito de ajudar meu pai!

MULDER: - Eu estou bem... Por favor, jantem. Precisam dormir cedo.

ISAAC: - Pra quê? Não podemos mais ir à escola mesmo.

MULDER: - Isaac...

ISAAC: - Pai eu não sou tonto.

MULDER: - Eu sei que não é tonto, meu filho. Mas podemos conversar sobre isto outra hora. Não agora, na presença de seus irmãos.

Corte.


Scully sentada no sofá. Borda a Estrela de Davi num paninho. Mulder desce as escadas.

MULDER: - Já estão dormindo... O que está fazendo?

SCULLY: - Bordando um aplique para o casaco do meu marido. Ele agora vai bonitinho para a Sinagoga.

MULDER: - (SORRI) ... Não vai tocar hoje?

SCULLY: - Não. E você? Não é dia de estudar a Cabala? Por que não se tranca no seu porão e fica lendo... como se fala mesmo?

MULDER: - (SORRI) Ciências ocultas.

SCULLY: - Isso!

Mulder retira o relógio do bolso.

MULDER: - Nossa, já são 11 da noite...

SCULLY: - O tempo passa depressa... Já preparei tudo para o Shabat de amanhã... Quer um café?

MULDER: - Aceito.

Scully levanta-se. Vai pra cozinha. Mulder liga o rádio. Senta-se no sofá. Põe as mãos no rosto. Scully entra na sala com uma bandeja. Coloca sobre a mesa de centro. Pega uma das xícaras e entrega pra Mulder. A outra, ela segura firme entre as mãos. Mulder disfarça.

SCULLY: - Trouxe bolinhos, porque eu recebi uma denúncia hoje de que você nem tocou no jantar.

MULDER: - (SORRI) Sinceramente, eu não conheço mãos mais hábeis pra fazer café e bolinhos. E olha que não estou falando daqueles pães, cucas, bolos... Acho que me casei com você pra ficar barrigudo.

SCULLY: - (SORRI) Viu? Vou ser uma empresária bem sucedida... (FRUSTRADA) Que ilusão a minha! Sou uma ignorante sem estudo, jamais daria certo. Fui criada pra limpar a casa, cuidar dos filhos e do marido.

MULDER: - Você não é uma ignorante, Eva. Você não tem que ficar fazendo o que não quer. Quantas vezes eu já disse pra você aproveitar seu talento musical? Por que não leciona piano novamente?

Scully larga a xícara. Pega o bordado.

SCULLY: - ... Meu pai nunca quis que eu estudasse... Ah, se eu tivesse a chance de nascer de novo, eu estudaria muito! Lutaria pra mostrar que as mulheres também são inteligentes. Eu seria um entrave no mundo machista. (SORRI) Sua avó me influenciou...

Mulder fica sério. Abaixa a cabeça.

MULDER: - Tenho algo pra falar, mas não sei como direi a você. Estou nervoso com isto.

Scully olha pra ele. Ele está sério. Inspira fundo. Olha pra ela.

MULDER: - ... Soldados da SS estiveram no meu consultório hoje à tarde.

Scully muda a fisionomia para preocupação. Solta o bordado sobre o colo. Olha nos olhos dele.

SCULLY: - O que eles queriam?

MULDER: - Me entregaram um papel. Preciso me apresentar no Escritório de Emigração Judaica para tratar da... extradição da nossa família. E isto não inclui você.

Scully fecha os olhos.

MULDER: - Me disseram que o Governo Alemão está se esforçando para assegurar a saída dos judeus do Reich. Pelo que sei, até agora, 400 mil judeus alemães, de uma população total de mais ou menos 600 mil, já foram extraditados. Assim está acontecendo na Áustria e na Tchecoslováquia.

SCULLY: - Yossef... Que escritório é este?

MULDER: - O Escritório de Investigação Judaica da Gestapo, chefiado por Adolf Eichmann.

SCULLY: - ... (TENSA)

Scully pega o bordado. Transpassa a agulha no pano, sobre a Estrela de Davi semipronta. Larga o bordado dentro de uma caixinha de madeira. Mulder levanta-se. Aumenta o volume do rádio.

LOCUTOR (OFF): - E hoje, Chaim Weizmann, o principal líder sionista, declarou guerra contra a Alemanha em nome dos judeus do mundo, afirmando que os judeus estão ao lado da Grã-Bretanha e irão lutar ao lado das democracias... A Agência Judaica está pronta para entrar em imediatas preparações para a utilização do potencial humano judaico, habilidade técnica e recursos. Isto só piora a situação para os judeus. Agora são declarados agentes desejando fazer a guerra contra o Reich alemão, e como consequência, Himmler e Heydrich estão prontos a começar a política de internamento.

Mulder fecha os olhos. Scully levanta-se e abraça-se nele.

LOCUTOR (OFF): - Os Estados Unidos e o Canadá já internaram todos os estrangeiros japoneses e cidadãos de ascendência japonesa antes que os alemães apliquem as mesmas medidas de segurança contra os judeus europeus. O Führer declarou que a Alemanha não se sujeitará a ordens americanas. Se preciso for a guerra estará declarada. No discurso de hoje à tarde, o Führer fez uma reafirmação da promessa de que os judeus não mais atrapalharão a economia alemã. Segundo dados do governo, o monopólio judaico está tirando emprego dos cidadãos alemães. O próprio Hitler disse ontem em seu discurso na Escola de Treinamento de Oficiais da SS: "Sou um defensor das formas mais severas de punição. É essencial que a disciplina seja mantida em todas as nossas escolas. Erros devem ser corrigidos, fraquezas eliminadas e sob o meu regime a juventude da Alemanha se levantará para conquistar o mundo..."

Scully agarra-se mais ao braço de Mulder.

LOCUTOR (OFF): - Himmler, chefe da SS, declarou ontem que ‘aquele que jura pela Suástica deve renunciar a qualquer outra lealdade.’ Parece que agora finalmente a Alemanha encontrou um líder decidido a nos tornar uma potência mundial novamente. O governo pede apoio aos cidadãos para juntos construirmos uma Alemanha digna e honrada.

Mulder desliga o rádio. Scully abaixa a cabeça, colocando as mãos no rosto. Mulder olha pra ela com pena. Ela ergue o rosto, revelando as lágrimas.

SCULLY: - ... Vamos dormir, Yossef...

Ela levanta-se, desatinada. Sobe as escadas.

Corte.


Mulder entra no quarto e senta-se na cama, nervoso. Scully vestindo uma camisola, sentada em frente à penteadeira. Leva as mãos aos cabelos e os solta. Mulder a admira, apaixonado, enquanto ela escova os cabelos. Scully levanta-se. Vai pra cama, sem questionar nada. Mulder olha pra ela. Pega sua mão.

MULDER: - Eva, eu quero que arrume as malas. Amanhã cedo comprarei as passagens. Vamos de barco pra América. Me espere pronta com as crianças. Assim que chegarmos, pedirei asilo político.

SCULLY: - E se não nos aceitarem? Pra onde vamos? Yossef, me preocupo com as crianças e...

MULDER: - Vão nos aceitar, Eva. Estamos fugindo de uma guerra, de uma perseguição política. Agora temos uma desculpa pra dar a eles. Era o que precisávamos. Quando essa confusão toda terminar, a gente volta. Tá bem?

Scully abraça-se em Mulder. Os dois trocam um beijo. Ele afaga os cabelos dela.

Corte.

Mulder está sentado na cama. Não consegue dormir. Scully, deitada, olhos abertos. Olha pra ele.

SCULLY: - Vejo a preocupação estampada no rosto bonito do meu marido.

Ele sorri. Olha pra ela.

MULDER: - Dorme. Precisa dormir, teremos um dia cheio.

SCULLY: - E você, não precisa?

MULDER: - Estou acostumado. Sou médico.

Ela aconchega-se nele, deitando a cabeça em seu peito, afagando-o com carinho.

SCULLY: - Precisa relaxar. Seu coração vai sair fora do peito.

MULDER: - Não tenho medo de morrer, Eva. E nem temo que façam algo contra você, pois você é alemã. Eu temo pelas crianças. Elas não podem se defender, são pequenas demais, tem uma vida inteira pela frente. Eu só não quero que toquem nos meus filhos. Sinceramente, se eles não existissem eu não teria motivos pra lutar.

SCULLY: - ... Yossef e se nos entregássemos para a extradição? Que diferença faz morar na América ou em Madagascar?

MULDER: - ... Eva, eu tenho medo. Não tenho boas informações sobre essa suposta extradição.

SCULLY: - E o que eles fariam com os judeus senão extradita-los?

MULDER: - ...

Scully olha pra ele assustada. Mulder afaga seus cabelos.

MULDER: - Durma. Não se preocupe. Deus está conosco.

Ela suspira, com medo.

MULDER: - Eva, eu amo você. Amo a minha família. E a segurança de vocês é a prioridade na minha vida. Se eu tiver de sair daqui e começar tudo de novo em outro lugar, eu começarei. Não deixarei que falte nada pra vocês. Nem que eu tenha que trabalhar feito um maluco, meu amor. Mas eu trabalharei feliz porque sei que é por vocês que estou fazendo isto.

Scully recosta a cabeça no ombro dele, chorando.

MULDER: - Não irei sem vocês, Eva. Não vou abandonar minha família. E também não vamos pra Madagascar. Meu Deus! Ser expurgado da minha própria casa?

SCULLY: - Yossef...

MULDER: - E eu não vou deixa-la aqui passando miséria. Estão confiscando os bens dos judeus. Em breve não teremos nada. Nada do que meu pai construiu pra deixar para suas gerações. Não quero vocês passando fome, já basta que as crianças não podem mais estudar.

Mulder segura as mãos dela. Ela sorri entre lágrimas, cabisbaixa. Mulder beija as mãos dela.

MULDER: - Vamos embora, Eva. Ambos sabemos que agora será mais difícil começar do zero, porque temos 4 bocas que dependem da gente. Mas Deus está do nosso lado, ele nunca falhou conosco. Sempre fomos abençoados por Ele. E se assim Ele deseja, assim será. Afinal, não é a primeira vez que os judeus são expurgados de algum lugar. Isto é nossa sina. Talvez a América seja pra nossa família, a Terra Prometida.

Scully perde o olhar num ponto de fuga. Mulder continua a fazer carinhos nela. A envolve nos braços. Olha pra ela apaixonado. Ela sorri. Eles trocam um beijo.

Corte.


Scully coloca o cesto de pães sobre a mesa. As quatro crianças, sentadas à mesa, fazem o maior estardalhaço. Mulder entra na cozinha, ajeitando o colete e a boina.

MULDER: - Hei! Parecem um bando de caturritas atacando uma amoreira! Isto é só um café da manhã! Quanta energia!

Mulder troca um beijo com Scully. Senta-se.

ISAAC: - Pai, nós vamos pra América?

MULDER: - Vamos. E não contem isto a ninguém. É nosso segredo...

ABRAHAM: - Mas eu não quero ir pra América!

O pequenino sai da cadeira e vai até Mulder. Mulder o coloca sentado em sua perna.

MULDER: - Abraham, nós precisamos ir. Não temos escolha.

SARAH: - Mas por quê?

MULDER: - Por causa da guerra, Sarah.

ABRAHAM: - Que guerra?

MULDER: - Vocês são pequenos demais pra entender. Mas tem gente que não gosta dos judeus. Por isso temos de ir embora.

Scully serve café pra Mulder.

ABRAHAM: - Por que essa gente não gosta dos judeus?

MULDER: - Não sei, meu filho.

SARAH: - É porque a gente tem sangue verde, seu bobo!

MULDER: - (INCRÉDULO) Nós não temos sangue verde, minha filha. Nosso sangue é tão vermelho quanto o deles. Quanto o dos russos, dos negros, dos japoneses.

ABRAHAM: - Mas os negros são pretos. Meu amigo disse que eles são diferentes... Que são pretos porque são sujos e não tomam banho.

ISAAC: - (ÓDIO) Malditos porcos alemães!

MULDER: - Isaac! Não fale desse jeito.

Mulder olha pra eles, preocupado.

MULDER: - Meus filhos, eu quero que prestem atenção nas minhas palavras.

Eles olham pra Mulder, enquanto se ajeitam na cadeira, curiosos. Até o pequenino olha pra ele.

MULDER: - Não importa a cor, a raça, a religião de cada povo. Todos nós somos iguais em espécie. Todos nós sofremos, rimos, choramos, sentimos dor. É como uma árvore de maçãs. Vocês conhecem uma macieira?

Os três pequenos afirmam com a cabeça. O pequenino olha pra Mulder, sorrindo.

SIMON: - ‘Cieira’.

Mulder sorri. Olha pros filhos.

MULDER: - Algumas maçãs são maiores, outras menores, umas mais vermelhas, outras mais claras, outras ainda ficam verdes. Algumas são bem redondas, outras mais tortas. Umas gordinhas, outras magrinhas. Mas todas são maçãs. São todas iguais. Todas filhas de uma árvore. Nós todos somos filhos de um Deus, um único Pai. E ele nos criou diferente para que o mundo fosse mais colorido, mais bonito, mais gracioso.

Mulder passa manteiga numa fatia de pão e entrega pro pequenino em seu colo. Olha pra Scully.

MULDER: - Preparou tudo?

SCULLY: - Sim, Yossef. Assim que as crianças tomarem café vou apronta-las.

SARAH: - Papai, a América é bonita?

MULDER: - Dizem que é muito bonita, Sarah.

ABRAHAM: - Tem parques por lá?

MULDER: - Sim, tem muitos parques pra vocês brincarem, correrem e se divertirem.

SARAH: - Que bom! Estou cansada de ter que ficar em casa trancada. Vamos poder voltar à escola?

MULDER: - Claro que vão.

ABRAHAM: - Eu não quero deixar meus amigos!

MULDER: - Você fará amigos novos, vai ter uma escola nova... Vai ver que será tão bom quanto é aqui.

ISAAC: - Os americanos odeiam os judeus? A gente vai ter que ficar preso em casa?

MULDER: - Não, Isaac. Eles gostam dos judeus. Vocês não vão mais ficar presos em casa.

ISAAC: - Então não vou precisar esconder mais o meu nariz.

Mulder sorri.

MULDER: - Não, meu filho.

O pequenino olha pra Mulder.

SIMON: - Mérica...

MULDER: - É, Simon. América.

Mulder o coloca no chão. Levanta-se. Scully olha pra ele.

SCULLY: - Não vai tomar seu café?

MULDER: - Não. Vou buscar nossas passagens. Mantenha as crianças dentro de casa, por medida de precaução. Se algum oficial da SS bater, esconda as crianças no porão.

SCULLY: - Tá.

Mulder sai rapidamente. Scully olha pros filhos.

SCULLY: - Ok, ok... Vamos parar com a bagunça! Eu quero que tomem esse café de uma vez porque temos de ficar prontos pra esperar o papai.

O pequenino deixa o pão cair no chão. Olha pra Scully, mostra as mãozinhas sujas de manteiga e começa a chorar.

SCULLY: - Ah, Simon...

Scully o coloca na cadeira.

SCULLY: - Mamãe faz outro, não precisa chorar... Tá bom? Ah, filhinho, não chora não... mamãe limpa isso, meu amor.

[Fade in]


[Fade out]

Scully empurra as crianças pela porta dos fundos.

SCULLY: - Isaac, quero que se esconda no jardim da senhora Heinz. Se vir o carro de papai chegando, faça sinal pra ele não entrar na rua, me entendeu?

ISAAC: - Sim, mãe.

SCULLY: - Abraham, cuide dos seus irmãos. Não saiam do porão até que eu diga pra saírem. Se eu não voltar, quero que fiquem por lá, me entenderam?

ABRAHAM: - Mas e o papai?

SCULLY: - Vão! Cuidem uns dos outros. Se anoitecer, quero que corram até a casa da senhora Heinz e fiquem com ela.

As crianças correm. Scully fecha a porta. As batidas aumentam. Scully caminha rapidamente até a porta da frente. Abre-a. Há quatro oficiais da SS parados. Scully olha pra suástica enorme pintada no carro deles, parado na frente da casa e os vizinhos alemães observando e comentando.

OFICIAL DA SS: - Senhora Mulder?

SCULLY: - Sim.

OFICIAL DA SS: - Seu marido se encontra?

SCULLY: - Não, ele deve estar no consultório.

OFICIAL DA SS: - Não está, já verificamos. Podemos olhar sua casa?

SCULLY: - O que querem na minha casa? Isto é uma casa de família! Somos pessoas honestas.

Três deles a empurram e entram. Se espalham e começam a procurar.

SCULLY: - Não podem fazer isto! Sou uma cidadã alemã!

OFICIAL DA SS: - Tem seus documentos?

Scully caminha até a bolsa e retira os documentos. O oficial os lê atentamente. Ergue a cabeça e olha pra ela curioso e debochado.

OFICIAL DA SS: - Seu sobrenome de solteira é Hermann?

SCULLY: - Sim, senhor. Sou alemã. Algum problema?

OFICIAL DA SS: - O problema é que está casada com um judeu, madame. E não gostamos de alemãs que dormem com judeus sujos e porcos. Isso é traição.

SCULLY: - Já ouviu falar em amor?

OFICIAL DA SS: - Já. Você é que não deve ter conhecido isso porque não trepa com alemães, mas com judeus!

SCULLY: - Isso é um insulto! Retire o que disse!

OFICIAL DA SS: - Não retirarei minhas palavras diante de uma mulher que serve como vadia pra judeus!

SCULLY: - Vai me prender por isto?

OFICIAL DA SS: - Onde estão seus filhos?

SCULLY: - Na escola.

Os outros oficiais se aproximam. Um deles faz sinal com a cabeça de que não encontraram ninguém. O oficial olha pra Scully.

OFICIAL DA SS: - Seu marido tem até às 4 horas de hoje pra apresentar-se ao escritório de deportação. Ou vamos busca-lo à força.

SCULLY: - Por que querem meu marido? O que ele fez de errado?

O oficial da SS vai saindo. Olha pra ela.

OFICIAL DA SS: - Ele nasceu. Isso foi o que ele fez de errado.

Eles saem. Scully fecha a porta. Põe a mão no peito, o coração pulsando, pernas tremendo.

Corte.


[Som: Beethoven – Moonlight Sonata]

Scully toca piano, nervosamente, enquanto derruba lágrimas. Escuta o barulho da porta. Levante-se rapidamente. Mulder entra.

SCULLY: - (NERVOSA) Estiveram aqui.

MULDER: - A SS?

SCULLY: - Sim. Tentei encontrar Klaus, mas está fora do país...

Mulder fecha os olhos. Ela se abraça nele fortemente.

SCULLY: - Yossef, lhe deram até às 4 da tarde pra se apresentar ou virão busca-lo à força.

MULDER: - ... (NERVOSO) Onde estão as crianças?

SCULLY: - Na casa da senhora Heinz. Yossef, eu estou com medo!

MULDER: - Eva, teremos de sair à noite, escondidos. Ninguém quer vender passagens pra judeus. Consegui um favor de um paciente que é pescador. Ele está indo pra Hamburgo, pelo Elba. De lá, tentaremos conseguir uma carona com algum navio de outro país. Comprarei nossos lugares. Esses caras fazem tudo por dinheiro.

Ela começa a chorar.

SCULLY: - Eu tenho medo! Eu tenho medo de perder você! Yossef, eu te amo!

MULDER: - Eva, não é hora pra entrar em desespero, está bem?

Ela continua chorando. Ele segura o rosto dela em suas mãos.

MULDER: - Olha pra mim. Preciso de você agora. Preciso da minha Eva do meu lado. Daquela mulher forte que eu tenho.

Ela segura as lágrimas.

MULDER: - Deixe as crianças com a senhora Heinz. Estarão seguras lá, eles são uma família alemã, a SS não vai incomodá-los. E você vá pra lá também. Eu ficarei escondido. Pego você e as crianças às 11 da noite.

SCULLY: - E se eles estiverem vigiando a casa?

MULDER: - Quero que saiam pelos fundos. Se até as 11:30 eu não aparecer, é sinal que estão vigiando a casa. Então pegue as crianças, saia pelos fundos e pegue o carro. Deixei estacionado na rua atrás do consultório. Me encontre no cais. Está bem?

Ela afirma com a cabeça. Mulder sai pela porta dos fundos. Ela abaixa a cabeça e começa a chorar.


BLOCO 4:

Residência dos Heinz - Noite

Scully, embala Simon no colo, enquanto ele dorme. Os outros 3 estão sentados no chão da sala, brincando. Scully escuta algo. Aproxima-se da porta da cozinha.

IDA: - Mas Frank...

FRANK: - Você está maluca em trazer essa gente pra cá!

IDA: - Eu não podia deixa-los na rua! É só até o final da noite...

FRANK: - Ida, você tem noção do risco que está trazendo pra nossa família? Pros nossos filhos? Você está dando proteção a um bando de judeus fedidos!

IDA: - Mas eles são nossos vizinhos! Sempre nos ajudaram!

Scully fecha os olhos. Respira fundo.

FRANK: - A SS está atrás deles! Se baterem na nossa porta seremos acusados de traição ao Führer! Tire essa gente daqui antes que traga a desgraça pra dentro da nossa casa.

IDA: - Ela é apenas uma mulher com quatro crianças! Não podemos deixa-los passar a noite na rua!

FRANK: - Dane-se ela e as crianças dela! Eu estou preocupado é conosco! Não com esses judeus safados e sovinas! Se estou desempregado há três anos é por culpa deles! Estão tomando a nossa economia, dando emprego pro povo deles e nos matando de fome! Você ouviu o que o Führer disse! A culpa da desgraça alemã são os malditos judeus! Eles faliram a Alemanha!

IDA: - Ou foi a Alemanha que faliu por causa de uma guerra estúpida? Ahn?

Scully afasta-se da porta. Ida sai da cozinha, em lágrimas. Scully olha pra ela.

SCULLY: - Não diz nada, Ida. Você é mulher, obedece a seu marido.

IDA: - ... (OLHA PRA ELA CHORANDO) Eva... Me perdoe...

Scully olha pra ela, como quem entende. Olha pras crianças.

SCULLY: - Kinder, mietfrist ist gehen!

(- Crianças, vamos embora.)

IDA: - Eu não quero fazer isto, eu...

SCULLY: - Ida, eu entendo. Não se preocupe com isto.

Scully caminha até a porta. Ida abre a porta. Scully sai com as crianças.

IDA: - Esperem!

As crianças olham pra ela. Ida vai pra dentro e volta com algumas balas, distribuindo pros três.

IDA: - E dividam com o maninho quando ele acordar.

Scully olha pra ela, derrubando lágrimas de medo. Ida também chora. Scully abaixa a cabeça e volta pra casa. Ida fecha a porta.

SARAH: - Mamãe, por que a gente não vai ficar lá como papai mandou?

SCULLY: - Por que os planos mudaram. Vamos ficar no porão. Mamãe vai ficar cuidando pra quando papai chegar.

OFICIAL DA SS: - Senhora Mulder?

Scully para. As pernas tremem. Ela mal consegue se virar para trás. O Oficial da SS com mais cinco homens olha pra ela.

OFICIAL DA SS: - Tem uma bonita família.

Scully ajeita o filho nos braços. Olha pros outros.

SCULLY: - Kinder, gehen sie zum haus.

(- Crianças, entrem em casa.)

As crianças correm, entrando pela porta dos fundos. Ela continua tentando segurar o filho que dorme em seus braços, mas seus braços insistem em tremer.

SCULLY: - O que querem?

OFICIAL DA SS: - Sabe o que queremos. Seu marido.

SCULLY: - Eu não sei onde ele está! Provavelmente está por aí de farra e bebedeira com alguma mulher.

Scully avança rapidamente pra dentro da casa, tentando fechar a porta com o pé, mas o oficial da SS empurra a porta e eles entram. Scully recua, segurando o filho.

SCULLY: - (DESESPERADA) Vão embora daqui, pelo amor de Deus! Yossef não está aqui! Sou uma cidadã alemã, eu tenho meus direitos! Meu irmão é da SS, ele é da guarda pessoal de Himmler! Eles vão saber disso!

As crianças ficam ao redor dela, segurando-se em seu vestido, olhando pros soldados com medo. Isaac os olha com ódio.

OFICIAL DA SS: - Tem café?

SCULLY: - ...

OFICIAL DA SS: - Podemos tomar um café, enquanto esperamos.

SCULLY: - Esperar o quê?

O oficial larga um sorriso deslavado de cinismo. Aproxima-se de Abraham e agacha-se.

OFICIAL DA SS: - Você é um garoto muito esperto, não é?

Scully, solta um dos braços do bebê e puxa Abraham contra ela.

SCULLY: - Deixem meus filhos em paz!

O oficial olha pra ela e sorri. Olha pra Abraham.

OFICIAL DA SS: - Quantos anos você tem?

Ele mostra um 10 com as mãozinhas.

OFICIAL DA SS: - Dez? Puxa, mas já é um mocinho.

Ele assustado acena com a cabeça.

OFICIAL DA SS: - De quem você gosta mais, da mamãe ou do papai?

ABRAHAM: - ... Dos dois.

OFICIAL DA SS: - E gosta dos maninhos?

Ele afirma com a cabeça. O oficial da SS levanta-se. Retira a pistola do coldre e mira na cabeça de Scully.

OFICIAL DA SS: - Então, você vai ser um bom garoto, vai lá pra varanda e vai ficar esperando quando papai chegar. Quando vir o papai, faça sinal de que tudo está bem. Entendeu?

SCULLY: - Abraham, não faça isso!

O menino divide o olhar entre Scully e o oficial. O oficial puxa Sarah e aponta a pistola pra cabeça dela.

OFICIAL DA SS: - Abraham, faça isto. Ou o titio vai começar machucando a maninha. A mamãe que escolhe, qual dos filhos ela gosta mais. E daí o titio vai poupar esse.

Abraham olha pra Scully. Scully derruba lágrimas. O oficial olha pra ele. Abraham sai correndo pra frente da casa. O oficial guarda a pistola.

OFICIAL DA SS: - Judeuzinho esperto.

Os outros riem.

OFICIAL DA SS: - E então, senhora Mulder, não vai nos fazer um café? Ou terei de pedir isto cordialmente como acabo de fazer com seu filho?

Isaac olha com ódio pros oficiais e puxa Sarah. Os dois sentam-se no canto da cozinha, no chão, contra um armário, abraçados. Scully entrega Simon pra Isaac. Simon se acorda.

OFICIAL DA SS: - Quatro judeuzinhos piolhentos...

SCULLY: - ...

Scully pega a chaleira e coloca no fogão. As crianças olham assustadas pro oficial.

OFICIAL DA SS: - Ficaremos por aqui até seu marido aparecer, senhora Mulder.

SCULLY: - ... Vai ficar aí a semana toda. Yossef já foi embora da Alemanha.

OFICIAL DA SS: - Ele não iria deixar a família.

Scully olha pra ele.

SCULLY: - Ele não é um judeu sujo? Acha que judeus sujos se importam com a família?

Ele sorri cinicamente.

SCULLY: - Sarah, coloque as xícaras na mesa.

A menina levanta-se. Abre o armário e começa a servir a mesa.

OFICIAL DA SS: - Hei, menina.

SARAH: - ...

OFICIAL DA SS: - Sabe qual é o seu destino? Ser uma vaca judia. Mas uma vaca judia muito bonita.

Scully puxa a filha pra trás de si. Olha com raiva para o oficial.

SCULLY: - Sarah, sente-se com seus irmãos.

OFICIAL DA SS: - Por que se casou com um judeu?

SCULLY: - ...

OFICIAL DA SS: - Não há alemães que sejam dignos de você?

Eles riem. Scully olha com ódio pra eles.

SCULLY: - Terror psicológico faz parte da inteligência nazista?

O oficial olha pros outros. Sorri.

OFICIAL DA SS: - Faça o café, fräulein. Apenas faça o café.

Scully vira-se para o fogão. As crianças não desgrudam os olhos dos intrusos. O oficial da SS cochicha algo com outro. Os dois olham pra Scully e riem. Scully treme a cada gesto, mal consegue preparar o café. Olha para os filhos. Olha para o bule. O oficial aproxima-se dela encostando-se em seu traseiro.

OFICIAL DA SS: - Fräulein, seu café é muito cheiroso.

Scully afasta-se dele.

SCULLY: - (NERVOSA) Olha, eu faço o que vocês quiserem, mas não na frente dos meus filhos. Deixem-os ir embora. As crianças não tem nada a ver com este assunto.

O oficial se aproxima dela.

OFICIAL DA SS: - Sabe de uma coisa, fräulein? Você já me encheu a paciência. Você mistura genes arianos sagrados com uma raça pestilenta e inferior. Ajuda aqueles porcos a se reproduzirem sobre a face da terra. Mas eu e os rapazes vamos ensinar pra você o que é um homem de verdade. Vai aprender a gostar de alemão, traidora.

Ele agarra Scully pelos braços, a empurrando por cima da mesa de bruços, erguendo o vestido dela. Os outros a seguram. Ela grita desesperada. Isaac levanta-se correndo e começa a bater no oficial.

ISAAC: - (GRITA) Larga a minha mãe!!!!!!!!!!! Não machuca a minha mãe!!!!!!!!


Corta para a frente da casa. Abraham chorando, sentado na escada.

[Som de dois tiros]

Abraham fecha os olhos, colocando as mãos nos ouvidos. O barulho de coisas se quebrando aumenta. Abraham tenta não ouvir os gritos desesperados da mãe e dos irmãos. O menino chora, olhando pra casa ao lado, onde o senhor Heinz espia pela janela. Ele olha para o garoto que chora. Mas fecha as cortinas, indiferente.

Mulder estaciona o carro na esquina. Pressente algo errado. Desce do carro. Acena pra Abraham. O menino o vê. Mulder sinaliza pra ele. Abraham levanta-se. Olha pra trás, não há ninguém na porta. Olha pra Mulder e acena negativamente. Mulder fecha os olhos. Olha pro filho. Olha pras luzes da casa acessas. Escuta os gritos desesperados de Scully. Então percebe o carro da SS estacionado na frente da casa dos Heinz. Ele não pensa duas vezes e corre até a casa. Olha pra Abraham.

MULDER: - Corre, filhinho, não pare! Se esconda naquele lugar em que papai leva vocês pra brincarem, tá bom?

O menino sai correndo. Mulder entra na casa, aflito, entrando de surpresa na cozinha. Os oficiais da SS estão parados. Mulder olha pra Isaac estendido no chão numa poça de sangue. Olha pra Scully, machucada, cabelos revirados, roupa rasgada, chorando em cima do filho adolescente que está morto. Mulder entra em desespero, tomado de ódio e agride um dos oficiais. Mas eles o seguram, espancando-o.

[Fade in]


[Fade out]

[Câmera subjetiva (simulando a visão do personagem)]

O balanço faz Mulder acordar, sentindo a palha contra seu corpo. Ele senta-se, tentando se localizar. Os outros olham pra ele.

MALKOVITZ: - Está acordando.

Mulder consegue visualizar melhor. Percebe estar num trem. Há vários judeus com ele. Um senhor aproxima-se.

MALKOVITZ: - Está bem, Doutor?

Mulder, meio tonto, não o distingue. A testa cortada, o sangue já coagulado.

MULDER: - Quem é você?

MALKOVITZ: - Sou eu, Malkovitz. Não se lembra?

Mulder olha pra ele.

MULDER: - Meus filhos!

MALKOVITZ: - Eles estão em outro trem, só para mulheres e crianças.

MULDER: - Onde estamos?

MALKOVITZ: - Estão nos levando para Auschwitz, na Polônia. De lá vamos pra Madagascar.

Um homem, Jacob, sentado ao fundo do vagão, olha pra eles. Ri alto. Está com marcas de espancamento, assim como Mulder.

JACOB: - Madagascar... (RI) Vocês acham que os alemães vão nos deportar pra Madagascar? Nós estamos indo pra morte!

Outro homem olha pra ele.

JUDA: - Cale essa boca, seu idiota! Os alemães nos disseram que seremos deportados.

Jacob olha pra ele.

JACOB: - E você acredita nisso? Acha que a Alemanha na miséria em que está vai gastar dinheiro pra nos mandar embora? (RI) Nós vamos morrer! Eles vão nos matar. Já ouviram falar nos campos de concentração? Acabaram de invadir a Polônia, e pegaram todos os judeus! A Inglaterra declarou guerra!

Judá olha pra ele, o censurando.

JACOB: - Há mais de quatro meses meu irmão foi ‘deportado’. Até agora não recebi notícias dele.

Mulder olha pro nada. O velho Malkovitz continua ao lado dele. Também olha para o nada.

MALKOVITZ: - ‘Eu sou o senhor, e vos tirarei de baixo das cargas dos egípcios, vos livrarei da sua servidão e vos resgatarei com braço estendido e com juízos grandes.’

JACOB: - (OLHANDO PRO NADA) A terra que emana leite e mel... (RI)

Mulder tenta se levantar. O velho o ajuda.

MALKOVITZ: - Por que bateram em você, Doutor? Não se entregou? Por que resistiu?

Jacob olha pra ele.

JACOB: - Pelo mesmo motivo que bateram em mim. Ele também sabe que somos bois indo pra um matadouro. Até os bois pressentem nos ossos quando vão morrer... É o fim. É o fim, velho. Os nazis ganharam. Vão beber nosso sangue em taças feitas com o nosso ouro. O Führer agora está sorrindo com aquele bigode ridículo, e eu estou aqui, rogando pra ele que sofra muita dor quando o pegarem. Eu só queria enfiar aquela suástica no rabo alemão dele.

Mulder aproxima-se dele e cai sentado. Jacob olha pra ele. Mulder olha pra Jacob. Percebe que o supercílio dele sangra.

MULDER: - Precisa estancar esse sangue.

JACOB: - Desista, Doutor. Não vai conseguir estancar todo o sangue judeu que está correndo. Não faz diferença. Se chegarmos vivos, será pior. Reze pra morrer no meio do caminho.

MULDER: - ... O que você fazia?

JACOB: - Eu trabalhava numa indústria de pescados. Eu carreguei muitas caixas pra servir a mesa desses porcos! (GRITA) Seus alemães fedorentos!!! Comedores de repolho!!!!! Olha, Doutor, eles não querem saber se você é rico ou pobre. Eles só querem que você não exista. E há um apoio internacional para isto.

MALKOVITZ: - Não ligue pra ele. Já estamos todos nervosos com a situação e esse miserável fica aí dizendo essas besteiras!

Jacob sorri. Mulder olha pra ele.

MULDER: - Sobre o que está falando?

JACOB: - Há uma conspiração toda! Hoje somos nós, amanhã os negros, depois os latinos. Então só restará a raça ariana nesse planeta. Bom proveito pra eles!

Mulder perde o olhar pro nada. Olha pra aliança no dedo. Segura as lágrimas e morde os lábios. Jacob percebe. Olha pra ele.

JACOB: - Casado?

MULDER: - Sim.

JACOB: - Ela está no outro vagão?

MULDER: - Com certeza não. Ela é alemã.

JACOB: - ... Filhos?

Mulder coloca as mãos no rosto, começa a chorar. Jacob olha pra ele.

JACOB: - (GRITA) Porcos nazistas safados! Eu quero que os soviéticos encham o traseiro de vocês de balas e bebam vodca naqueles quepes ridículos! Que os americanos comam as mulheres e as filhas de vocês!!!! Fodam-se, seus desgraçados! A América vai dominar o mundo! E eu vou rir de vocês!


Campo deAuschwitz-Birkenau– Final de tarde – 1939

Dois trens parados. Pessoas desembarcam deles. Alguns cansados, outros com esperança nos olhos. Mulder desce. Rapidamente tenta passar por entre as pessoas, com os olhos de quem procura alguma coisa no trem ao lado. Então ele vê Sarah, Abraham e Simon de mãos dadas. Mulder sorri. Corre entre a multidão para abraçar os filhos.

O soldado da SS o detém.

SOLDADO SS1: - Não pode ir pra aquele lado. Apenas mulheres e crianças.

MULDER: - São meus filhos!

SOLDADO SS1: - Volte pra fila.

MULDER: - Eu quero ficar com os meus filhos!

O soldado faz sinal pra outro. Dois soldados vem em direção à Mulder e o empurram pra fila. As crianças ao verem ele sorriem, acenam. Mulder tenta se desvencilhar.

MULDER: - (DESESPERADO) Eu quero os meus filhos!!!!!!

SOLDADO SS2: - Aguarde na fila. Estamos tomando os dados de todos e depois vamos juntar as famílias para a deportação.

Mulder vê as crianças sendo empurradas pra uma fila. Mulder se desvencilha dos soldados, mas eles o agridem. O empurram portão à dentro. Mulder olha através da cerca de arame farpado os filhos sendo levados pra dentro de uma espécie de galpão. Os soldados os empurram. Um homem judeu atrás de Mulder olha pra ele.

JUDEU 1: - Fique tranquilo. Elas estão bem. Eles só vão nos deportar.

Corte.


Mulder entra no escritório. O soldado alemão o revista. Mulder ergue as mãos. Um oficial da SS, sentado atrás da escrivaninha, o observa. O soldado empurra Mulder. Mulder aproxima-se da escrivaninha. O oficial olha pra ele.

OFICIAL DA SS 2: - Was ist Ihr name?

(- Qual o seu nome?)

MULDER: - Mein name “ist“ Mulder.

(- Meu nome é Mulder)

Um soldado nazista se aproxima. Pega a mão de Mulder e retira o anel dele com força. Puxa o relógio de seu colete. Abre a boca de Mulder. Mulder reage.

MULDER: - O que estão fazendo?

SOLDADO NAZISTA: - Tem dentes de ouro?

MULDER: - Não, não tenho.

O soldado nazista abre a boca de Mulder com força, verificando. Depois olha pra Mulder de cima a baixo procurando joias. Como não encontra, atira o anel e o relógio que pegou em uma caixa. Mulder olha pra caixa. Há pilhas de joias. O oficial da SS olha pra ele.

OFICIAL DA SS 2: - Ocuppacion?

(- Profissão?)

MULDER: - Ich bin Arzt.

(- Eu sou médico)

OFICIAL DA SS 2: - Einzel oder Geheiratet?

(- Solteiro ou casado?)

MULDER: - Geheiratet.

(- Casado.)

OFICIAL DA SS 2: - Jüdisch?

(- Judia?)

MULDER: - Nein, deutsch.

(- Não, alemã.)

OFICIAL DA SS 2: - Kinder?

(- Filhos?)

MULDER: - ... (ÓDIO) Vier.

(- Quatro)

OFICIAL DA SS 2: - Bitte, ziehen Sie seine Kleidung und persönliche Gegenstände um. Lassen Sie sie im Tisch.

(- Por favor, tire sua roupa e objetos pessoais. Os deixe na mesa.)

MULDER: - Warum? Was passiert hier?

(- Por quê? O que está acontecendo aqui?)

OFICIAL DA SS 2: - Sie werden eine Dusche nehmen, es wird saubere Kleidung setzen, und es wird für Madagaskar mit ihren Kindern deportiert werden.

(- Você tomará uma ducha, colocará roupas limpas e será deportado para Madagascar com seus filhos.)

Um homem de terno negro, cabelos escuros, com a suástica no braço aproxima-se. Cochicha algo com o oficial. Esse afirma com a cabeça. O homem olha pra Mulder e sorri. Mulder olha pra ele, desconfiado.

STRUGHOLD: - Dr. Yossef Mulder? Sou Engo Strughold, ‘relações públicas’ deste campo. Me acompanhe, Dr. Mulder.

MULDER: - Eu quero saber onde estão meus filhos!

STRUGHOLD: - Seus filhos estão bem. Vamos conversar.

MULDER: - Não tenho nada pra conversar com vocês!

STRUGHOLD: - Acho que tem sim. Pelo bem da sua família, não gostaria de ouvir o que eu tenho para falar?

Mulder olha para trás, lembrando-se dos filhos. Strughold sorri.

STRUGHOLD: - Me acompanhe, por favor.

MULDER: - Pra onde vão levar toda essa gente? Por que este tipo de procedimento?

STRUGHOLD: - Tenha calma, terei bastante tempo para lhe esclarecer o que está acontecendo por aqui.

Os dois caminham até uma sala. Strughold abre a porta, entra e fecha as cortinas da janela. Mulder entra receoso, espiando. Percebe uma mesa redonda, com dois homens engravatados e de chapéus, um oficial da Gestapo e outro num terno negro com a suástica no braço, óculos de aros pretos grossos, que sustenta um olhar curioso para Mulder. Ao fundo, uma enorme bandeira nazista ao lado do quadro de Adolf Hitler. Mulder percebe que há apenas uma cadeira vazia. Strughold senta-se nela.

STRUGHOLD: - Desculpe, mas não dividimos a mesa com judeus.

Mulder olha pra eles desconfiado.

STRUGHOLD: - Primeiramente queremos lhe dar as boas vindas ao campo de Auschwitz. Estamos deportando seus amigos para Madagascar...

MULDER: - (ÓDIO) Seus desgraçados, vocês estupraram minha mulher, mataram o meu filho...

STRUGHOLD: - Acalme seus ânimos, Dr. Mulder. Poderá ser poupado da extradição se ouvir o que temos pra lhe dizer.

MULDER: - ... (DESCONFIADO) Quem são vocês? O que querem?

O homem de terno negro e óculos de aros pretos grossos, manifesta-se.

EICHMANN: - Sou Karl Adolf Eichmann. Chefe da Seção de Assuntos Judeus no Departamento de Segurança. Oferecemos a garantia de que sua família permanecerá na Alemanha, com toda a proteção a que tiver direito. Eles terão tudo o que precisar.

MULDER: - Vocês confiscaram meus bens!

HOMEM DA SS: - Os devolveremos também. Sua família não passará fome.

MULDER: - E o que eu tenho que fazer pra isto acontecer?

Um dos homens engravatados levanta-se.

AMERICANO 1: - Does he speak my language?

(- Ele fala a minha língua?)

MULDER: - (IRRITADO) É claro que falo! Quem é você?

AMERICANO 1: - Não importa quem eu sou. Você terá privilégios se nos ajudar.

MULDER: - Ajudar no quê?

Ele pega um dossiê de cima da mesa. Folheia-o.

AMERICANO 1: - Estudou medicina em Hamburgo, cursou pós em Londres.

MULDER: - Sim.

AMERICANO 1: - Foi formado com mérito.

MULDER: - ... Sim.

AMERICANO 1: - Suas teses sobre reprodução humana fora do corpo nos surpreenderam.

MULDER: - São apenas teses. Eu sou apenas um clínico!

AMERICANO 1: - Genética. Você domina assuntos sobre genética. Numa época em que o assunto nem é muito comentado.

MULDER: - Onde querem chegar com isso? É uma ciência nova e...

STRUGHOLD: - Nos ajude com seus conhecimentos e pouparemos sua família.

MULDER: - E se eu não ajudar?

Eles se entreolham e riem.

[Som de tiros]

Mulder olha pra janela, que está fechada com a cortina.

MULDER: - (ASSUSTADO) O que foi isso?

HOMEM DA SS: - (DEBOCHADO) Não se assuste, Dr. Mulder. Cada vez que um trem parte carregando judeus, nossos soldados comemoram com uma salva de tiros.

STRUGHOLD: - Não tem escolha. Se não nos ajudar por bem, nos ajudará por mal. Não pense que o inferno terminou, ele apenas está começando. Não vamos mata-lo. Precisamos de você. Nem tente se matar, não terá chance pra isto.

MULDER: - Me matar? O que há de tão horrível aqui pra que eu pense em me matar?

Eles se entreolham rindo.

MULDER: - O que querem que eu faça exatamente?

STRUGHOLD: - Logo você verá.

MULDER: - E como vou saber que cuidarão da minha família? Eu quero vê-los!

STRUGHOLD: - Está pedindo demais, senhor Mulder. Ficará confinado devido ao alto grau de sigilo dessas experiências. Assim que terminá-las, voltará à sua família. Poderá escrever cartas e recebê-las. Nada mais do que isso.

MULDER: - Que tipo de experiências?

STRUGHOLD: - Saberá mais tarde. Agora vá para seus aposentos.

MULDER: - Quero ver meus filhos antes disso! Quero os meus filhos comigo!!!

HOMEM DA SS: - Não entendeu ainda, Dr. Mulder? Você não tem direitos aqui. Ou cumpre seu dever ou mataremos sua família.

MULDER: - ... Me dão garantias de que estão realmente deportando os judeus?

STRUGHOLD: - (IRÔNICO) Sim, senhor Mulder. Eles estão indo embora daqui, mais rápido do que pensa.

Todos os homens saem da sala. Apenas Mulder e Strughold ficam. Strughold acende um charuto.

STRUGHOLD: - Sou médico como você. Sou responsável por uma das pesquisas neste campo. E você vai me ajudar.

MULDER: - ...

STRUGHOLD: - Precisamos saber tudo sobre mutação genética provocada.

MULDER: - ???

STRUGHOLD: - A raça perfeita.

MULDER: - Eu não estou entendendo. Perfeita em relação a imunidade genética?

Strughold pega Mulder pela nuca e o conduz violentamente até a janela. Abre a cortina. Mulder olha pra fora enchendo os olhos de lágrimas.

Lá fora, judeus dispostos em fila na frente de uma vala e soldados alemães com as armas apontadas pra eles.

[Som de tiros]

Mulder cai no chão, com as mãos no rosto, em estado de nervos.

STRUGHOLD: - Sua família pode sair viva se você fizer isso.

MULDER: - (DESESPERADO) Não há como fazer! São apenas teorias! Teorias sobre hibridação de genes! Eu não sei!

STRUGHOLD: - Não acredito que não saiba como. Suas teorias ajudarão minhas teorias.

MULDER: - Meu Deus! Como podem fazer isso...

STRUGHOLD: - Poupe-me de seu choro. Sou um mero cumpridor de ordens superiores.

MULDER: - É isso que chamam de extradição???

STRUGHOLD: - Não. Isso é o que chamamos limpeza genética. Eles chegam, pelo ambiente lá fora são levados a crer que isto é apenas uma passagem... Mas este é o fim da linha.

MULDER: - (DESESPERADO) O que querem que eu faça? Eu preciso de um laboratório!!!

STRUGHOLD: - Trabalhará comigo e ajudará nas pesquisas do Dr. Josef Mengele.

MULDER: - (OLHA PRA STRUGHOLD) Se você é médico e cientista sabe que vai levar tempo! Precisamos de animais para os testes. Diga isso a ele!

STRUGHOLD: - Animais... (SORRI) Não se preocupe. Temos muitos animais disponíveis.

MULDER: - Vai levar tempo! Até que possamos tentar com seres humanos...

Strughold começa a rir. Mulder levanta-se, desatinado.

STRUGHOLD: - Acho que não fui claro, Dr. Judeu. Você não tem tempo. Mas temos animais. Mais de 600 lá fora. E todo o dia chegam mais.

Mulder olha pra ele incrédulo. Os olhos começam a encher de lágrimas.

STRUGHOLD: - Tem duas opções: fazer isso e salvar seus filhos ou não fazer e vê-los tomarem um tiro na beira daquela vala comum. Você escolhe.

MULDER: - ...

STRUGHOLD: - Sua mulher está sob nosso controle. Então, vai me dar uma resposta?

MULDER: - São seres humanos... Eu não posso fazer isso com seres humanos!!!

STRUGHOLD: - Não são seres humanos. São judeus.

MULDER: - São o meu povo! São seres humanos como vocês!!!!!!

Strughold acerta um tapa em Mulder. Mulder cai no chão.

STRUGHOLD: - Nunca mais compare a raça ariana com dejetos humanos!

Strughold abre a porta. Acena. Dois soldados da SS entram.

STRUGHOLD: - Levem esse judeu cretino para a execução. E matem os filhos dele também.

MULDER: - (AOS PRANTOS/ DESESPERADO) Nãooooo!!!!!!!! Pelo amor de Deus! Eu faço o que quiserem, mas deixem meus filhos!

Strughold olha pra ele.

STRUGHOLD: - Me implore pra não fazer isso.

Os soldados começam a rir. Mulder ajoelha-se no chão. Beija as botas de Strughold. Strughold o chuta.

STRUGHOLD: - Levem esse judeu pra cela dele. Mas antes... Deem o tratamento vip de Auschwitz.

MULDER: - E os meus filhos?

Corte.


Os soldados carregam Mulder pelos braços, por dentro do campo. Mulder vai observando as centenas de judeus em fila, lá fora, sendo levados para trás de uma das instalações. Mulder vai caminhando e derrubando lágrimas, olhando pra eles. Para as altas pilhas de sapatos e roupas. Para a escavadeira que não cessa de abrir valas. Os soldados caminham em direção a uma das instalações. Um dos soldados abre a porta. Mulder entra. Os soldados o agarram violentamente pelos braços.

MULDER: - O que estão fazendo?

Eles abrem a boca de Mulder, examinando seus dentes. Um deles atira um uniforme pra Mulder e botas sem cadarços. Começam a despi-lo à força. Outro se aproxima com um ferro em brasa.

[Fade in]

Mulder grita.

[Som: Beethoven – Moonlight Sonata]

KLAUS (OFF): - Eu estava na Polônia quando soube o que realmente estavam fazendo com os judeus. Quando um deles, num povoado, relutou em ser preso e eu recebi ordens de matá-lo. Eu não podia apertar o gatilho. Mas Himmler o fez sem dúvida alguma no rosto. Os poloneses o aplaudiram e começaram a chutar os judeus e espancá-los. Ninguém fez nada. Olhei para meus colegas que gritavam estimulando o povo. Olhei para Himmler. Para as pessoas que morriam ali. Me perguntei se eu realmente fazia parte da polícia, se o juramento que eu havia feito para proteger os cidadãos era verdadeiro... Então eu entendi onde estava. Com quem estava... Eu não fazia parte da força policial militar... Eu fazia parte de algo que não tinha nome... Liguei escondido para Berlim, o telefone não atendia. Fiquei noites sem dormir tentando saber o que estava acontecendo. Ninguém sabia, tudo estava confuso. Era muita maldade para ser assimilada... Ninguém podia acreditar que um regime fosse capaz de matar em massa... Até que um dia eu consegui que alguém me atendesse na casa de minha irmã. A voz de um homem me disse que não havia nenhum Mulder ali. Que a casa estava confiscada pelo governo alemão para a venda. Eu pensava onde estaria minha irmã, o que havia acontecido com Yossef e as crianças... Eu apenas podia ouvir imaginariamente os risos de alegria naquela casa em dias de festa. Ouvia minha irmã. A voz dela não saía de meus pensamentos... Bem como a canção de Beethoven... Pressentia algo ruim nos meus ossos. Pedi ao meu comandante que me deixasse voltar a Berlim. Um mês depois eu consegui pisar na Alemanha... Quando desembarquei eu não mais reconheci a minha cidade. Berlim estava em chamas. Prédios destruídos... Mas as pessoas ainda empunhavam com fúria a bandeira nazista gritando o nome de Hitler... Não encontrei ninguém que eu conhecesse. A velha casa dos pais de Yossef estava destruída, bem como a casa em que nasci. Corri alguns quarteirões em direção a casa de Yossef e Eva. Ainda estava ali. Mas os girassóis haviam morrido. Fiquei não sei por quanto tempo parado na calçada, olhando pra aqueles girassóis e aquele piano destruído no lado de fora da casa. Não havia mais girassóis, nem piano, nem cheiro de canela... Até que o vizinho, Frank veio até mim. Não me reconheceu. Ao ver meu uniforme da SS, me cumprimentou com o gesto e a saudação nazista a Hitler. Fiz algumas perguntas e ele me disse que havia entregado os Mulder para a Gestapo. Perguntei por ela. Não sabia. Ela havia saído na mesma noite, com uma caixinha de madeira debaixo do braço e apenas com a roupa do corpo, toda esfarrapada e suja... Gritando pela cidade o nome de seu marido...


TO BE CONTINUED...


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13/03/2001

24 de Agosto de 2019 às 07:42 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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