Inverno - A última Peeira Seguir história

kralexander KR Alexander

Lendas, mitos, histórias fantásticas, criaturas que antes habitavam apenas em nossa imaginação, sonhos e pesadelos. Os séculos passam e em meio a criaturas selvagens e sanguinárias existe uma que traz uma luz cálida a essas vidas repletas de escuridão, dor e medo, que é capaz de levá-los por um outro caminho e guiá-los em seus momentos mais difíceis. Mas só tem um problema... Ela é a última. E ser a última traz desafios, desconfiança e a inveja de muitos, assim como também traz o amor, a lealdade e a esperança de outros. Guiar, proteger, amar e acima de tudo continuar sendo uma mulher em um mundo dominado por homens é difícil, uma batalha constante para se provar como digna, para se provar como a última Peeira.


Paranormal Lobisomens Para maiores de 18 apenas.

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Capítulo 1

Que adolescente não sonha em passar as férias de inverno com seus amigos, curtindo a praia da Califórnia, sem responsabilidades e melhor ainda, sem os pais lhe dizendo o que fazer? Não eu. Na verdade eu preferiria estar com eles nessa época, mas não posso. Perdi meus pais quando tinha entre dez, passei por lares temporários e aos dezoito fui morar com minha prima que decidiu sair de casa e ser independente.

Eliza e eu, na verdade eu tive alguns problemas na primeira cidade onde moramos, então decidimos mudar para uma cidadezinha chamada Bragg Creek na província de Alberta, Canadá. O terreno é enorme e atrás da casa tem um bosque que dá para as montanhas e parques de proteção. Têm outras duas casas bem em frente a nossa, uma caindo aos pedaços e a outra vazia a anos. Alguns podem achar assustador, eu chamo de paraíso.

Acabei sendo educada em casa na maior parte da minha vida. Não que eu fosse antissocial ou qualquer coisa do tipo, eu só não me dava muito bem com as outras crianças e a escola de maneira geral. Hoje, com vinte e um anos, vejo todo o trabalho que dei para Eliza desde que vim morar com ela. Minha prima é uma guerreira por ter me assumido em um momento em que deveria estar curtindo a vida, saindo com os amigos a noite, namorando, estudando e tudo o mais.

Com relação a relações amorosas firmes, Eliza nunca pareceu se interessar, o que não significa que não tenham dezenas de caras correndo atrás dela. Não é por ser minha prima, mas a Eliza é muito linda, com cabelos longos, lisos de um loiro platinado que brilhava toda vez que ela se movia, olhos tão azuis que chegava a doer se ficasse olhando para eles por muito tempo. Ela não é muito alta, nos seus um metro e sessenta e cinco de altura, ela bate no meu ombro. Seu corpo era simplesmente perfeito, não faltava e nem sobrava em lugar nenhum de sua silhueta em forma de ampulheta. A descrição de mulher fisicamente perfeita de qualquer homem. Linda, delicada, fofa e gostosa.

Mas quem disse que minha prima é apenas um rostinho bonito? Eliza trabalha para se sustentar desde que terminou o colégio e continuou durante a faculdade, quando passou a viver sozinha. Ela sempre foi muito independente e essa é uma das características que eu mais gosto nela e que me inspira a ser muito mais.

Por mais que sejamos primas de primeiro grau, somos tão diferentes que nem parecemos parentes. Meus cabelos são castanhos repletos de grandes cachos, meus olhos são de um tom muito claro de mel, Eliza diz que parecem com ouro líquido de tão brilhantes e nisso eu concordo. Tenho pernas cumpridas, são o que eu mais gosto no meu corpo, e minha pele é bem branquinha. Acho que se deitar no meio da neve nua eu desapareço.

Por ainda não ter encontrado um trabalho por várias razões, dentre elas a total oposição da Liz, fico dentro de casa quando minha prima vai trabalhar, lendo meus livros favoritos e tomando litros de chocolate quente. Eliza trabalha em um escritório em Edmonton como executiva Jr. Algumas vezes ela tem de ficar depois do horário e acaba dormindo em um hotel por lá, ou por causa de alguma nevasca que bloqueia o caminho para a nossa linda casa de madeira. Eu brinco falando que provavelmente a Branca de neve e os anões moraram ali, era uma construção rústica de madeira, pedras que se destacava lindamente contra o branco do gelo. Não temos muito luxo, mas conseguimos manter algum conforto como internet, TV a cabo e telefone.

Romeu é interrompido em sua despedida de Julieta quando o telefone na cozinha toca. Levanto já imaginando o que pode ser. Passava das dez da noite e Eliza ainda não tinha chegado do trabalho, provavelmente ficaria por lá naquela noite e estava ligando para avisar. Coloquei o marcador na página e fui atender.

− Residência das lindas e encantadoras meninas Rice?

− Amber, sou eu. Esta desabando o mundo aqui, pelo visto terei de dormir em um hotel hoje. A casa é sua hoje. Nada de festas! Sabe como os vizinhos são chatos. – Ri alto. Eu comentei que Eliza tem um senso de humor incrível?

− Tudo bem Liz, já está tarde para chamar o pessoal e os motoqueiros tatuados estão fora da cidade de qualquer jeito. – Ambas rimos.

− Ok. Amanhã estarei em casa sem falta depois do trabalho, nem que tenha de cavar todo o caminho. Beijos.

− Beijos. Bom descanso.

É muito divertido morar com a Liz, ela não é muito mais velha do que eu, uma diferença de oito anos. Nós somos mais como colegas de quarto do que qualquer outra coisa. Eu a amo muito, não apenas por sermos parentes, nada disso, mas também por confiarmos uma na outra, por ela acreditar em mim e me apoiar quando mais ninguém o fez.

Fiquei tão focada no livro que quando finalmente olhei para o relógio na estante da sala, já era mais de meia noite. Romeu sempre me prende com suas palavras doces e promessas ao luar. Fecho o livro e me espreguiço. Meu estomago ronca alto, claro já que não comi nada. Vou procurar algo para comer na cozinha, minha barriga roncando feito louca. Não havia muita variedade então tive de me virar com duas fatias de pão e outras coisas que encontrei na geladeira. Peguei meu sanduiche, uma xícara de chá e voltei para a sala. Liguei a televisão e fiquei assistindo programas aleatórios enquanto degustava meu maravilhoso jantar improvisado. Não foi meu maior feito na cozinha, mas quebrou um puta galho. Satisfeita da comida e da televisão, subi para o meu quarto, por hoje já tinha dado. Peguei minha bolsa de higiene, toalha e pijamas, levei tudo para o banheiro e comecei meu ritual pré hora de dormir.

Fiquei rolando na cama pelo que pareceram horas, o vento não parava de bater na minha janela com força, até cheguei a pensar que ela iria arrebentar. Os lobos também pareciam agitados com a tempestade, dava para ouvir os uivos deles através do vento. Ok. Desisto de tentar dormir, já são três da manhã e não tem como relaxar com um clima desses. Desço as escadas e vou direto para a cozinha.

Apesar do frio lá fora, eu não usava nada além de uma camiseta e shorts dentro de casa. A Liz diz que tenho lava no lugar do sangue, por isso não sinto frio. Realmente sou muito calorenta, não gosto de usar várias camadas de roupa, primeiro que me faz parecer enorme e segundo que não preciso. Uma das vantagens de ter lava no lugar do sangue. Depois de uma busca frustrada pelas prateleiras da geladeira, encontro uma última fatia de bolo de chocolate que Eliza comprou no meu aniversário a três dias. Pego aquele pedacinho de felicidade e me apoio na bancada da cozinha para comer.

Estou prestes a começar minha boquinha quando um barulho na porta dos fundos me fez dar um pulo. É comum os lobos rondarem a casa, mas esse barulho não era de um lobo, o que me deixa em alerta máximo. Largo o garfo e pego uma faca no aparador, vou devagar até a porta dos fundos e encosto o ouvido na madeira, tentando ouvir se o que estava lá fora era um animal ou não. Depois de alguns segundos de um silêncio assustador uma voz rouca se sobressai ao vento.

− Me ajude, por favor.

Meu sangue gela e eu travo na hora. O que eu devo fazer? Estou sozinha em casa, mas tem alguém pedindo socorro na minha porta. Foda-se. Sem pensar em mais nada largo a faca na mesinha perto da porta e a abro de uma vez. Um monte de tecido cai para dentro de casa completamente coberto por neve. O puxo mais para dentro, para poder fechar a porta e sacudo a neve que está sobre ele o melhor que dá.

− Você está bem? Ei? Não dorme! – O sacudo tentando obter alguma reação, mas ele não responde. Mas que merda. Só falta ele morrer dentro da minha casa. Como eu explico isso para a Eliza?

Arrasto o corpo pesado até a sala, o que não é nada fácil, ele é enorme. Cobro sua cabeça com a colcha do sofá e corro para a lareira, atiçando o fogo. Enfim o homem começa a gemer e tremer. Respiro aliviada e vou para a cozinha preparar alguma coisa quente para ele. Quando volto o cara já está sentado sem o pesado casaco e com a colcha no colo, ajoelho ao seu lado e coloco a xícara na mesinha a sua frente.

− Beba, vai se sentir muito melhor. – Ele vira para mim sério e pisca uma vez. Ai meu Deus!

Quando olho seu rosto fico paralisada, ele é simplesmente perfeito, o cara mais lindo que eu já vi na minha vida. Beleza que não vi muitos caras na minha vida, mas ele está no nível dos galãs de cinema e dos meus sonhos mais loucos. Não aparenta ter mais de vinte e poucos anos, tem os cabelos negros espetados caindo no rosto, olhos de uma cor cinza estranha e muito profundo, o rosto anguloso e firme e a pele tem um leve tom dourado, como se ele pegasse muito sol. Seus olhos vagam pelo meu rosto, estudando cada centímetro, como eu estava fazendo com ele, foi quando nossos olhares se cruzaram e sinto um arrepio subir pela minha espinha. Meu rosto começa a esquentar e desvio o olhar para a lareira. Minha a respiração fica irregular de repende e sinto meu coração pulando dentro do peito.

− Obrigado. Eu teria morrido lá fora se você não me ajudasse. – Sua voz grave me faz voltar a olhar para ele. Ele coloca a caneca próxima ao nariz e respira fundo, dá um gole e devolve para a mesinha.

− Não foi nada. Eu não poderia te deixar lá para morrer nessa nevasca. – Minha cabeça gira, meu corpo treme e meu coração está saltando no meu peito. Eu me sinto estranhamente exposta sob seu olhar e, ao mesmo tempo, não sinto nenhum medo de estar sozinha em casa com um completo estranho que acabei de resgatar na minha porta dos fundos.

O rapaz pega a caneca e bebe um pouco mais, suas bochechas coram um pouco com o calor da bebida, o que o deixa ainda mais lindo e muito fofo. Não sei por que, mas penso em um filhote o vendo nesse momento. Ele volta sua atenção de novo para mim.

− Você não é muito jovem para morar sozinha em um lugar como esse? Quantos anos você tem, quinze? – Ele me encara com calma, seus olhos firmes nos meus. Eu queria estar me sentindo tão calma assim. Espera, ele disse que tenho quinze anos?

− Não moro sozinha e não sou tão jovem, mas agradeço pelo elogio. Acabei de fazer vinte e um e minha prima mora comigo, mas por causa da nevasca ela ficou presa na cidade. – Mordo meu lábio e travo com minha sinceridade recém-descoberta. O que eu estava fazendo? Contando para um completo estranho que estou sozinha e desprotegida em uma casa no meio do nada. Boa Amber.

− Não se preocupe, não vou fazer nada com você se é o que está pensando. – Um meio sorriso aparece em seu lindo rosto. Agora sim meu coração parou. − Meu nome é Cloud. Eu me perdi na nevasca quando estava voltando do bosque e não achei o caminho de casa.

− Você mora por aqui? – Ele está ainda mais interessante.

− Acabamos de nos mudar, meus irmãos e eu.

− Só vive com seus irmãos? E os seus pais não se importam?

− Eles faleceram, há muitos anos. – Seu olhar se torna vago e ele para de falar. Eu sei o que deve estar se passando pela sua cabeça nesse momento.

− Sinto muito.

− E os seus pais, não se importam de estar no meio do nada com sua prima? Duas garotas vivendo em um lugar tão isolado é um pouco preocupante. − Uma onda de dor toma conta de mim, eu não lembro muito bem do acidente, mas tudo o que veio depois está marcado a ferro em mim.

− Meus pais morreram quando eu era mais nova.

− Sinto muito. Parece que temos mais coisas em comum além de morar no fim do mundo. – Rimos, mas é aquele riso sem graça, meio constrangedor. Bem o assunto não é exatamente leve.

Ficamos sentados no silêncio constrangedor por alguns minutos, até que finalmente tomo coragem para vê-lo pelo canto do olho. Seu olhar está fixo nas chamas que refletem magicamente em seus olhos. Devo ter ficado encarando por muito tempo, pois ele finalmente me olha, mas dessa vez foi ele quem desviou o olhar com um leve sorriso no rosto. Fico um pouco confusa. O que é tão engraçado? Ele fecha os olhos e tosse, disfarçando muito mal o riso. Olho para o meu corpo, em busca do que poderia ser tão engraçado e desejo que um buraco se abra para eu me jogar dentro. Estou vestindo minha típica roupa de dormir, camiseta e shorts. Meu rosto pega fogo, envolvo o busto com os braços, encolho as pernas e viro o rosto. Que beleza, acabei de salvar o cara e ele já me viu seminua. Sinto um peso sobre meus ombros e olho para cima. Cloud está de joelhos colocando a colcha sobre meus ombros e fechando sob meu pescoço.

− Você deve estar com mais frio do que eu. Já estou bem melhor. – Um leve sorriso ameaça surgir na lateral de sua boca, o que me fez suspirar um pouco alto demais. Tanto de alivio pela gentileza quando pela beleza dele vista de outro ângulo.

− Obrigada.

− Eu que tenho de agradeço. Aliás, ainda nem sei o seu nome.

− É Amber.

− Amber. O nome de uma gema de cor tão quente em um lugar que só tem frio e neve.

− Essa sou eu. Um peixinho fora d’água no mundo.

Dessa vez o sorriso foi aberto e deslumbrante. É possível existir alguém tão lindo? Se não, esse era o melhor sonho da minha vida e eu não estava nem um pouco a fim de acordar.

A tempestade diminui para uma brisa suave de flocos fofos de neve, Cloud se levanta e, minha nossa como ele é alto, deve ter por volta de um metro e noventa de altura e seu corpo era esguio, com músculos definidos que saltavam através do tecido fino da camisa branca que usava.

− Melhor ir para casa, antes que meus irmãos fiquem loucos achando que morri soterrado. – Ele veste o casaco, me levanto ainda me cobrindo com a colcha e o acompanho até a porta dos fundos. Ficamos parados olhando para a porta, como se ela fosse um portal para outra dimensão ou coisa assim.

− Se por acaso se perder em outra nevasca, é só bater. Tenho chocolate quente. – Cloud sorri em resposta, seus olhos brilhantes me fazem esquecer que acabamos de nos conhecer. Nem sei se o que ele disse é verdade e já o estou convidando para voltar.

− Não será preciso uma nevasca para que eu volte a te ver. Não se importa que eu venha, não é?

− Não. Quero dizer, é bom ter com quem conversar, além da Liz. Mas é diferente por que você não é a Liz. Eu estou falando coisas estranhas, desculpa. – Mordo meu lábio inferior para ficar quieta. Sempre que fico nervosa ou ansiosa falo mais do que o necessário, mas isso não pareceu incomodar o Cloud, na verdade ele parece ter gostado, já que está sorrindo.

− Então, até logo Amber. – Ele se aproxima, como se fosse me cumprimentar de alguma maneira, tipo com um abraço ou um beijo, mas desiste e se afasta.

− Até.

O belo estranho arruma seu casaco e se vira. Fica parado por alguns segundos diante da porta, mas volta, se curva e beija o meu rosto. Um arrepio, seguido de uma onda de calor e eletricidade percorre todo o meu corpo enquanto o vejo se afastar na neve. Ele parece flutuar sobre a neve fofa enquanto anda, como um fantasma. Fecho a porta e escorrego de costas nela. Que loucura foi essa? Um cara lindo aparecendo na minha porta em perigo e eu o salvo. Por mais que eu ache esse acontecimento incrível e maravilhoso, também é muito louco e assustador. Finalmente sinto uma onda de medo percorrer meu corpo, mas que não dura nem um minuto. Por que eu teria medo de alguém gentil e lindo como Cloud? Ele não fez nada, poderia ter feito, mas não fez. Não tenho motivos para pensar nele como alguém ameaçador ou coisa do tipo.

Levanto e tranco a porta, pego a faca esquecida e a devolvo ao seu lugar na cozinha. Essa noite para mim já deu, minha mente está exausta e assim que bato na cama eu apago, ainda agarrada a colcha do sofá que Cloud me cobriu.

Meu dia foi normal, nada de estranho aconteceu e fiquei feliz com isso. Eliza chega no horário normal falante e animada como sempre, mas prefiro não conto sobre o Cloud. Não é que eu não confie na Liz, mas ela já é superprotetora o suficiente sem ter que se preocupar com caras pedindo ajuda na nossa porta enquanto ela não está em casa. E também, eu não acredito que o Cloud vá aparecer tão cedo.

Os dias passam e tudo está normal, sem nenhuma visita noturna. Admito, fiquei um pouco decepcionada por ele não ter aparecido como tinha prometido. Não me julgue, ele é lindo e qualquer mulher com o mínimo de hormônio no corpo ia querer vê-lo de novo. É uma manhã de sábado perfeita, estou lendo encostada na janela da sala, Eliza estava assistindo seu programa favorito sobre investigação criminal na sala, quando ouvimos batidas na porta da frente. Eliza pula o sofá e quando chego a porta já a está abrindo. Não recebíamos muitas visitas, então fiquei curiosa para saber quem poderia ser, especialmente em um sábado de manhã. Para a minha imensa e grata surpresa era Cloud, seguido por dois homens tão grandes, fortes e lindos quanto ele. Meu sangue esquentou e meu coração começa a dar pulos quando ele vira seu olhar na minha direção. Seu sorriso se alarga ainda mais e meu coração respondeu a altura. Sinto meu rosto ficar quente, talvez eu estivesse ficando vermelha como um tomate, talvez a casa tenha ficado muito mais quente de repente, não sei.

− Oi. – Sua voz tinha um leve tom de diversão. Grave e melodiosa como eu lembrava.

− Oi.

− Somos seus vizinhos, nos mudamos para a casa do outro lado da rua. Meu nome é Cloud, esses são meus irmãos Pedro e Jael.

Isso sim é uma família com bons genes. Os irmãos do Cloud eram obviamente mais velhos, deviam estar lá nos seus trinta e poucos anos, mas eram tão lindos que a idade é o de menos. Eliza está encantada com eles tanto quanto eu tinha ficado com o Cloud na primeira vez que o vi, e agora também. Pedro e Jael têm os mesmos olhos de cor cinza penetrantes, o que me faz sentir um calor estranho no estomago. Pedro parece ser mais maduro o que me faz acreditar que ele seja o irmão mais velho dos três. Tem o cabelo loiro dourado em um corte estilo militar, é o mais forte, fisicamente falando, dos irmãos. Jael tem o cabelo avermelhado mais cumprido e todo espetado, o mesmo porte físico de Cloud e um sorriso de tirar o fôlego que faz Eliza suspirar assim que vê.

Com Eliza paralisada admirando Pedro e Jael, resolvo tomar as rédeas da situação.

− Por que não entram um pouco? Estávamos preparando chocolate quente, seria ótimo se nos fizessem companhia. Assim nos conhecemos melhor. Não é Liz? – Cutuco Eliza de leve com o cotovelo. Ela dá um pulinho de surpresa e recobra a sanidade.

− Sim! Entrem rapazes.

− Chocolate quente é perfeito, especialmente no frio que tem feito esses dias. – Cloud dá dois passos na minha direção com seu sorriso encantador de menino inocente. Ele estende a mão e o imito. Assim que nossos dedos se tocam sinto o mesmo de quando ele se beijou no rosto na noite em que nos conhecemos. Cloud me puxa, apoiando nossas mãos em seu peito. - Cloud Castel. É um prazer conhecê-la. – Havia ênfase na palavra “prazer” que não tinha como deixar passar.

− Amber Rice. O prazer é meu. – Não me fiz de inocente e ele parece um pouco chocado com a minha atitude. Cloud sorri e as covinhas mais encantadora e sexy que já vi na vida apareceram em seu rosto.

Eliza, Pedro e Jael já estão na sala se acomodando no nosso sofá de três lugares. Os rapazes sentam cada um em uma ponta, deixando o lugar no meio bem a vista. Sério? Eles acabaram de chegar e já estão dando em cima da minha prima? Cloud fica de pé perto de mim atrás deles sorrindo. Deve ter pensado a mesma coisa que eu. Eliza fica tão vermelha que simplesmente saiu correndo para a cozinha sem falar nada e volta com as xícaras, as dispondo na mesinha de centro. Quando ia se sentar os rapazes rapidamente levantaram. Jael fez um gesto delicado e pegou na mão de Eliza, como um cavalheiro a moda antiga.

− Sente-se aqui, assim podemos conversar melhor. – Os olhos de Eliza brilharam como diamantes ao som da voz do Jael. Pensei até que ela iria desmaiar de tanta emoção. E iria mesmo, se não voltasse a respirar logo.

− O, obrigada.

− Então senhorita. Ou deveria chama-la de senhora? – Pedro tem um sorriso discreto nos lábios enquanto fala e Eliza tinha os olhos perdidos de uma adolescente quando vê seu ator favorito ao vivo. Ela está obviamente encantada com esses homens e quem sou eu para julgar.

− Senhorita. Não sou casada, tampouco tenho namorado. – Minha doce e inocente prima faz questão de deixar bem claro que está completamente livre e desimpedida. Ela não perde tempo mesmo e quem pode culpa-la? Os irmãos Castel são lindos e só Deus sabe por quanto tempo vão ficar disponíveis nessa cidade minúscula onde qualquer novidade é atração turística.

− Como isso pode ser possível? Você é tão linda e simpática. Que tipo de homem não morreria para tê-la ao seu lado? – Uau. Agora sim, Jael acertou na mosca. Eliza suspira tão alto que chego a sentir o vento. Minha prima é uma romântica incurável, já a peguei várias vezes assistindo novelas e lendo romances clássicos escondida de mim. Como se eu ligasse. Ela é mulher e não precisa ser forte o tempo todo, tem direito a sonhar e ter seus momentos.

Sinto Cloud esbarrar de leve com o seu braço no meu. Ele é bem alto e meu rosto muito mal chegava ao seu ombro, olho para cima e encontro seus lindos olhos brilhantes. Imediatamente algo dentro de mim implora para que fiquemos sozinhos, nem que fossem míseros segundos. Viro na intenção de dizer a Eliza que precisava pegar alguma coisa na cozinha, qualquer coisa, e levaria Cloud comigo para que eles pudessem conversar mais sossegados, mas estou muito atrasada em meus planos.

− Tem algum problema Amber e eu irmos até a cozinha por um momento Eliza? Assim vocês podem conversar mais a vontade. – Cloud se adianta, apoiando os braços no encosto do sofá em uma postura muito relaxada.

− Nem um pouco, fique a vontade querido. – Eliza sorriu e então pisca para mim, como se ninguém fosse notar. Cloud me puxa e em segundos já estamos na cozinha.

Sentir os dedos do Cloud tocando a pele nua do meu antibraço fez todo o meu corpo se arrepiar de uma maneira muito estranha. Meu coração está batendo tão forte que fico com medo que ele o possa sentir, ou até mesmo ouvir. Nunca me senti assim antes, com nada e nem com ninguém. Já tive minhas paqueras e meus namoradinhos de adolescente, mas era coisa de criança. Tudo muito inocente, muito simples, só segurar na mão e dar uns beijos, nada com essa magnitude, essa intensidade toda. Não têm nada de inocente com relação ao Cloud, pelo contrário, todos os tipos de pensamentos passam pela minha cabeça e nenhum deles sobre princesas e cavalos brancos com o que adolescentes sonham.

Quando me solta meu braço fica frio, é estranho. Cloud vai até a geladeira, fica ali um tempo procurando por alguma coisa, as costas largas arqueadas e os braços estendidos. Coitado, homens não devem estar acostumados a uma casa onde só vivem mulheres. Minha prima acredita em uma alimentação saudável e regrada, o que obviamente exclui tudo que é gostoso da lista de compras.

Depois de uma varredura sem sucesso, Cloud se vira e fica me encarando encostado na geladeira. Sua expressão é séria, seus olhos me estudam da cabeça aos pés. Me sinto estranha e muito exposta, como na noite que o ajudei. Desvio o olhar assim que meu rosto começa a esquentar.

− Está sem graça? Suas bochechas estão bem vermelhas. – Sinto meu rosto ficar ainda mais quente. Fecho meus olhos tentando me acalmar um pouco. − Isso ou você está com calor, o que acho bem improvável. Na verdade acho que estou causando essa reação em você, e gosto muito disso na verdade.

Eu realmente estou com calor, mas quero acreditar que não seja por causa da maneira como o Cloud me olha ou das fantasias que estou tendo com ele dentro da minha cabeça, mas sim por conta do clima dentro de casa. Eliza detesta sentir frio, então o termostato trabalha no máximo, além da lareira trabalhando praticamente vinte e quatro horas por dia. Dentro de casa está sempre quente, até de mais para o meu gosto. O frio não me incomoda tanto quanto incomoda a Liz, mas nesse momento específico, em que eu só estou usando uma camisa simples de mangas três quartos, jeans e meias, eu estaria mais fresca em um biquine.

− O termostato deve estar no máximo de novo. Eliza detesta sentir frio, então... – Enquanto eu tento me concentrar, ouso os passos do Cloud vindo em minha direção. – Então... − Ergo meus olhos, mas evito seu rosto de propósito. Ao invés disso resolvo encarar seu peito para não ficar ainda mais vermelha, mas é claro que não ajudou em nada.

Com uma camisa preta que marca perfeitamente os músculos é impossível acalmar meu corpo. Ele chega mais perto, quando tento me afastar o balcão me prende. Ouso a risada da Eliza na sala, mas parece pertencer a outro mundo. Cloud chega ainda mais perto e me prendeu colocando suas mãos no balcão, uma de cada lado do meu corpo, ele se abaixa e seu rosto fica a poucos centímetros do meu. Sua respiração, seu cheiro, o calor do corpo dele, tudo está me deixando superconsciente do meu próprio corpo.

− Engraçado, você não teve medo de mim naquela noite e ainda parece não ter. Mas é obvio que eu causo algum tipo de reação em você, Amber. – Olho para cima. Grande erro. Nossos narizes estavam quase se tocando de tão perto que o rosto dele está do meu.

− E por que eu teria medo de você? – Minha voz sai mais tranquila do que eu esperava e do que eu me sinto. Se eu tivesse um pouquinho mais de coragem, só um pouquinho, o estaria beijando agora mesmo.

− Garotas não costumam salvar estranhos de nevascas, muito menos quando estão sozinhas em casa, especialmente usando quase nenhuma roupa. – A lembrança me fez ferver de vergonha. Cloud me viu praticamente nua e eu nem o conhecia, na verdade ainda não conheço. Foi burrice? Sim e muito perigoso. Se fosse qualquer outro homem teria tirado vantagem da situação, mas ele foi gentil e até me cobriu com a manta do sofá.

− Você estava pedindo ajuda, não parei pra pensar nas consequências naquele momento. Não tinha como ignorar uma pessoa que poderia morrer congelada, além do mais, eu sei me defender.

− Não estou dizendo que achei ruim, só descuidado. – Seu sorriso de satisfação é aberto e franco. Meu coração para por aqueles segundos em que ele sorri para mim, minha pele se arrepia e meus olhos não conseguem desviar dos olhos prateados que me encaram com tanta intensidade.

Desvio o olhar para poder raciocinar e conseguir formular pelo menos uma frase coerente. Cruzo os braços sobre o peito para tentar fazer meu corpo parar de tremer e entregar meu nervosismo.

− Obrigada por se preocupar. Fiquei feliz em ver que está bem, que não se resfriou nem nada do tipo. Ah, e obrigada por não dar a entender que já nos conhecíamos. Eliza faria perguntas, ficaria chato ter que responder e explicar, sem contar as horas de lição de moral que eu teria de ouvir. – O escuto rir, mas me esforço para manter o olhar baixo. Esse homem está mexendo seriamente com meu autocontrole.

− Imagina, além do mais, se eu contasse não poderia mais vir te visitar em uma nevasca no meio da madrugada e ver você com aquela roupa.

Eu me odeio por ficar tão sem graça na frente dele. Não queria ser vista como uma garotinha envergonhada. Cloud é muito gostoso e não tem como ele não saber disso, agir assim só vai massagear seu ego de macho ainda mais.

Sinto os dedos do Cloud no meu queixo, levantando meu rosto e me aproximando mais, consigo sentir seu hálito quente no meu lábio, seus olhos brilhando e me prendendo em um lugar estranho e frio, mas ao mesmo tempo me sinto quente. Tão rápido quanto ele se aproximou se afastou, indo para o outro lado da cozinha e ficando de costas para mim. Quando ia perguntar o que aconteceu ouso passos se aproximando, me viro e vejo Jael vindo em nossa direção. Cloud contém o riso, mas seus ombros tremem o denunciando. O safado está se divertindo. Volto a minha posição defensiva encostada na bancada. Ele sabia que mexe comigo, cachorro.

− Cloud, estamos indo. – Jael vem até mim e segura minha mão. É estranho, pois eu sinto algo muito estranho com o toque dele. − Até mais Amber, foi um enorme prazer conhecer você e a sua encantadora prima. A gente se vê. – Assim que Jael termina de se despedir de mim olha para o irmão e sai. Eu o acompanho com os olhos até ele desaparecer na sala de novo, viro e Cloud já está de volta na posição onde tinha sido interrompido. Por centímetros minha boca não toca a dele. Nossos olhos se prendem como se fossem imãs, ele está sério, a testa levemente franzida como se estivesse pensando nos prós e contras do estava para acontecer.

− Não vou mentir, tem alguma coisa em você que me chama. Eu adoraria esticar a mão e pegar, mas não vou fazer isso. Ainda não. Mas pode apostar que você vai ser minha logo, logo Amber. Não vai demorar, só espere como uma boa menina. – Ele se afasta e vai para a porta da frente.

Fico ali, parada na cozinha ouvindo as despedidas e pensando no que ele disse como uma estátua de granito. Algo em mim o atrai. Ok. Mas o que é esse “algo”? São meus olhos, meu corpo, minha personalidade? Não sei se fico com medo, excitada ou indignada. Posso não saber o que o Cloud sente por mim, o que em mim o atrai tanto, mas eu sei exatamente o que me atrai nele e teria lindos sonhos essa noite.

Assim que ouso a porta fechar, saio da cozinha. Volto para a sala e me jogo na poltrona, de volta para o meu romance autodestrutivo favorito. Eliza está nas nuvens enquanto eu me sinto afundar num abismo de dúvidas, o pior é que eu não tenho motivos para me sentir assim. Cloud é um gato e disse que está a fim de mim, mas eu nem conheço o cara, pelo amor de Deus. E se ele for um psicopata fugitivo que está sendo acobertado pelos irmãos? E se for um lunático esquizofrênico? Beleza, eu preciso me acalmar e respirar por um segundo. É fato que coisas assim não acontecem, só em livros de romance com mafiosos e essas coisas. O que eu preciso agora é pensar muito bem antes de me envolver com um cara que eu não sei nada.

− Você está me ouvindo Amber? – Eliza está apoiada atrás do sofá me observando. Olho para ela com minha melhor cara de paisagem.

− Desculpa, o que você disse Liz?

− Eu perguntei o que você e o Cloud ficaram conversando na cozinha. Ele é um tremendo gato e parece gostar muito de você. – Eliza tem um sorriso cúmplice nos lábios. Não consigo evitar rir. Fecho o livro e dou toda atenção a ela.

− Sobre comida congelada e os malefícios de não termos batata frita. Nada de interessante. Já você e os irmãos dele conversaram bastante. – Eliza abre um sorriso que não cabe no rosto. É golpe baixo usar os irmãos do Cloud, mas eu odeio muito ser o foco De uma conversa. Eliza pula para o sofá e abraça os joelhos. Ela parece tão mais nova quando fica desse jeito, é muito fofa.

− Eles são tão lindos e educados. Também trabalham desde novos nos negócios da família.

− Que tal escolher um e investir nele? Jael parece muito interessado em você, mais do que o Pedro. – Eliza joga uma almofada em mim e rimos juntas.

− Ele pegou meu número, disse que me mandaria uma mensagem mais tarde. Pedro é noivo ou algo assim. Eu vi um anel e parecia de compromisso, totalmente fora do mercado.

− Para ser sincera ele passa mesmo esse ar de cara para casar. Menino sério sabe? Daqueles que você quer apresentar para os pais, mas o Jael tem um ar mais romance a moda antiga, que vai te sequestrar para uma aventura romântica.

− Você reparou muito neles, para quem ficou na cozinha com o irmão caçula super gato. – Jogo a almofada de volta nela e passamos o resto da noite fofocando sobre os lindos irmãos Castel até que não aguentamos mais. Fomos para a cama só quando o sol começou a nascer.

Nossa vida volta à rotina de sempre no dia seguinte, tirando o sorriso bobo de menina apaixonada que a Eliza exibe cada segundo do dia. Jael enviou uma mensagem enquanto tomávamos café, fazendo Eliza dar um grito que me fez cuspis meu chocolate. Tive vontade de matar minha prima por me assustar, mas não posso ficar brava com ela. Finalmente ela encontrou um cara, um que vale a pena e talvez meu mau humor não seja pelo desperdício da minha bebida quente favorita, mas sim por causa de certo cachorro que anda rondando minha casa.

Enquanto a folheio o jornal, vejo alguns anúncios de empregos bem interessantes. Já tem algum tempo que venho tentando convencer Eliza a me deixar trabalhar. Detesto ficar em casa sem fazer nada além dos serviços domésticos e lendo os mesmos livros milhares de vezes. Quem sabe a visita e seu novo flerte tenha amansado seu coração e ela esteja mais aberta a novidades? Não custa tentar.

− Liz, eu estou pensando em começar a trabalhar. – Ela me olha com uma sobrancelha erguida, mas não responde de cara, mas está me dando atenção e pensando a respeito. Muito bom. Ela larga o celular e se apoia na bancada a minha frente.

− Se for perto de casa eu até deixo, caso contrário nem pensar. Já basta eu ter que passar mais de uma hora na estrada com neve, não iria ter sossego se você também passar por isso. – Dei a volta na bancada e abracei Eliza com força.

− Obrigada, obrigada! Eu prometo que vai ser aqui na cidade e que vou fazer tudo direitinho.

Trabalho é um assunto muito delicado aqui em casa e foi o motivo da única briga que tive com Eliza desde que começamos a viver juntas. Acabou se tornando um “assunto proibido”.

Na segunda feira, assim que Eliza sai para trabalhar com o carro, vou correndo para o meu notebook e pesquiso sobre vagas na região. Eu não posso perder essa chance, não sei quanto tempo essa nuvem mágica de felicidade da Liz vai durar e se vai voltar como um meteoro para a Terra, destruindo tudo em seu caminho. Encontro algumas vagas no centro, ligo e consigo marcar entrevistas em alguns deles para a manhã seguinte. Sigo com minha rotina, agora muito mais animada só em pensar nessa nova janela que se abre.

Ganho uma carona da Eliza até o centro na manhã seguinte. Está estampado na cara dela o quanto aquela situação a incomoda, mas mantém a palavra e me deseja boa sorte quando chegamos ao primeiro endereço. Eu entendo o lado da Liz, mas eu quero ter a minha independência, ter meu dinheiro e poder ajuda-la em casa com pelo menos o básico.

Duas entrevistas depois, uma em uma lanchonete com um gerente gordo e suado que tentava passar a mão em mim a cada cinco minutos e outra no cinema com um pré-adolescente com um sério caso de acne, fui para a minha terceira entrevista um tanto descrente. O último lugar é uma cafeteria muito elegante bem no centro da cidade. Dentro é escuro, quente e absurdamente chique. Com tecidos de cor grená contrastando com branco e dourado de uma forma que dava super certo. Um rapaz lindo vestindo um terno de corte perfeito se aproxima e fica me encarando por um tempo. Ele tem olhos verdes e cabelos lisos cor de chocolate, esguio e elegante com traços finos e delicados. Ele me lembra um ator de cinema antigo.

− Aposto que veio pela vaga de garçonete. – Ele sorriu torto para mim com lindos e perfeitos dentes brancos.

− Sim. Eu trouxe meu currículo. – Comecei a vasculhar minha bolsa, mas o rapaz me impede, faz sinal para que o seguisse e fomos para os fundos do café.

Passamos pela cozinha e subimos uma escada que dava direto em uma porta. O rapaz bate uma vez e abre a porta, me dando passagem para entrar na frente. O escritório é enorme, uma música suave toca em caixas de som provavelmente embutidas, combinando com o ambiente neutro de tons claros de bege e madeira escura. Atrás de uma grande mesa de mogno um homem muito, mais muito lindo tirou seus lindos olhos cor de avelã da tela do computador e me analisou dos pés a cabeça.

− É um lindo gesto, mas acho que não posso ficar com ela. Sabe que tenho muito trabalho acumulado, mas agradeço o lindo gesto Jorge. – O rapaz, Jorge, bufa de forma teatral e então estende a mão, apontando para mim.

− Ela veio para a vaga de garçonete Nathan, não para seu entretenimento sujo.

− Da no mesmo para mim. – Oi? Desculpa, mas acho que entendi tudo errado. Nathan pisca para mim e sorri. − Muito bem. Leve ela lá pra baixo Jorge, lhe dê um uniforme e comece o treinamento imediatamente. Estamos com pouco pessoal e logo vai começar a alta temporada. No final do expediente você vem aqui para acertarmos a documentação gatinha. – Jorge coloca a mão na base das minhas costas, me guiando para fora da sala enquanto Nathan volta sua atenção ao computador mais uma vez.

− Espera, não quer nem saber o meu nome? Você se quer me entrevistou e vai me contratar no ato? – Ele volta a me olhar, o sorriso ainda maior.

− Como é o seu nome gatinha?

− É Amber, Amber Rice. − O sorriso de Nathan fica ainda maior.

− Rice. Você é parente da Eliza? – Ele conhece a Liz.

− Ela é minha prima.

− Entendi. Isso para mim já basta. Podem ir agora e cuide muito bem dela Jorge. – Volto a ser guiada por Jorge, mas dessa vez me deixo levar. Descemos as escadas e entramos em uma sala cheia de armários.

− Você deve vestir 42, a blusa pode ser M. Recebemos executivos aqui e eles curtem ver as garotas. Fica a dica, se quiser ganhar gorjetas generosas deixa um botão aberto. Sabe... Sexy sem ser vulgar. Mas também recebemos muitos casais, com uma blusa não tão justa não afronta as ciumentas. Tenho de admitir, você é bem quente, vai fazer sucesso aqui. Pode se trocar e me encontra na entrada da cozinha.

Coloco o uniforme, uma saia lápis preta justa que vai até o joelho e uma camisa social também preta, fiquei com minha meia calça preta e calcei os sapatos que Jorge deixou separados para mim. Quando o encontrei perto da cozinha fui recebida com um sorriso e assovio.

− Minha nossa, você está mesmo muito gostosa com essa roupa. Agora vamos treinar você boneca.

Passo o dia seguindo Jorge pelo café, observando cada movimento dele com muito cuidado. Reparei que ele flerta com as jovens e as senhoras que vêm sozinhas, mas também que não é exatamente delas que ele gosta. Jorge é obviamente gay. Sempre que ele responde a um flerte mais atirado me dá um sorriso e pisca antes de gentilmente declinar as ofertas. Ele é um desses caras sensuais por natureza, não precisa fazer nenhum esforço, apenas estar ali de pé. Mulher nenhuma saia sem deixar uma gorjeta absurda junto com o numero do telefone. Coitadas, mas não posso culpá-las, eu mesma teria arrastado um trem pelo Jorge se não tivesse alguém em mente.

Ao fim do dia volto para o escritório de Nathan, como ele havia instruído mais cedo, para preencher a papelada e acabei saindo bem mais tarde do que imaginei. Verifico meu celular e têm umas dez chamadas da Eliza. Ela vai pirar, primeiro pela hora que estou retornando suas ligações e segundo por eu ter arrumado um emprego. Aperto o botão de ligar e rezo para que o dia dela tenha sido incrível.

− Você está maluca garota?! Sabe que horas são?! Onde você está?! Eu vou matar você Amber!

− Oi Liz. Tudo bem? Eu estou ótima, na verdade mais do que ótima. Acabei de sair do trabalho. – A linha fica muda por alguns segundos. Afasto o aparelho e verifico se a ligação não caiu.

− Trabalho?

− É Liz. Arrumei um emprego no café aqui na cidade. É bem legal e é perto de casa, o que preenche todos os requisitos exigidos previamente.

− No café? Que café? – Fiquei um pouco preocupada de falar, já que Nathan parece conhecer minha prima, ela com certeza sabe de que café eu estou falando. É o único na cidade inteira.

− No Lup.

− Café Lup? Você conheceu o Nathan então. – Não era uma pergunta, isso é obvio.

− Sim...

− Ok. Não demore a voltar, parece que vai nevar. Amo você. – Eliza desliga na minha cara. Seu tom de voz antes ameaçador fica estranho e apressado, o que me deixou curiosa.

Bom, já que tudo está resolvido eu deixo para lá, guardo o celular na bolsa e me troco para ir embora. O centro não é tão longe de casa e tem bastante gente na rua, então decido ir caminhando. No meio do caminho a neve que Eliza tinha falado começa a cair. Eu adoro. Sempre gostei do frio e da neve, era uma sensação incrível a neve se derretendo na minha pele. Paro no meio do caminho e fico curtindo o momento.

− Vai ficar resfriada se ficar olhando para cima desse jeito. Sem contar que as pessoas estão achando que você é maluca. – A voz ao meu ouvido não me assusta, mas me surpreende ao ponto de me virar rápido. E lá está ele, lindo em seu casaco militar pesado e cachecol verde escuro. Sinto meu rosto ficando esquentando, então todas as ideias malucas e teorias bizarras voltam a minha mente. Dou meia volta e continuo minha caminhada para casa, tentando ignorar o homem lindo que vem logo atrás de mim. − Amber, espera. – Por que ele continuava a me chamar? É difícil se fazer de forte assim, principalmente com essa voz de cachorro abandonado.

− O que você quer Cloud?

− Acho que você está irritada. Dia ruim? Ou é por que eu não te mandei uma mensagem como o Jael fez para sua prima? – Ouvir o riso por detrás das suas palavras fez meu sangue ferver de raiva. Ele esta me zoando, achando que eu estou com ciúmes da minha prima.

Viro para responder e ele está a centímetros do meu corpo. Ele é alto, mas eu também era e de botas chego ao seu queixo, é só esticar meu pescoço que o olharia direto nos olhos. Cloud me segura pelo pulso e praticamente me arrasta para o bosque que ladeia as ruas da cidade.

− Você é maluco? Me larga! − Debati meus braços e pernas tentando soltar sua mão, xingo e grito, mas não peço por socorro nenhuma vez. − Qual o seu problema? Me larga!

Entramos no bosque e sou jogada contra uma arvore, Cloud me prende ali com os braços, se abaixa e encosta o rosto no meu pescoço. Fico paralisada e surpresa. Sua respiração forte contra minha pele faz os pelinhos da minha nuca se arrepiarem, seu hálito é quente e meu coração acelerar como um maldito carro de corrida.

− Você tem um cheiro muito bom. – Sinto sua língua passar na base da minha orelha. Aperto meus olhos fechados, tentando entender o que infernos está acontecendo aqui. – E é doce. Minha língua quer provar mais.

Empurro Cloud com toda a minha força, mas ele mal se mexe. Tento mais uma vez e ele segura meus pulsos com uma das mãos, os prendendo acima da minha cabeça. Eu sei que a situação é perigosa, eu só o vi duas vezes e em ambas ele foi muito gentil. Pensei nessa possibilidade várias vezes, mesmo assim não consigo sentir medo dele. Por algum motivo bizarro, eu não consigo sentir medo do Cloud, apenas raiva por ele estar agindo feito um imbecil. Ele afasta o rosto e me encara com aqueles olhos profundos. Ele quer que eu sinta medo dele, ele está esperando pelo momento em que vou chorar ou implorar. Algo que uma pessoa normal e apavorada faria, mas eu apenas sustento seu olhar. Ele fica irritado e arranca meu cachecol lançando−o no chão aos nossos pés.

− Por que não está gritando por socorro e lutando contra mim? Você apenas continua me encarando desse jeito. Não senso de autopreservação?

− Por que eu deveria ter medo de você? Eu deveria estar apavorada, é verdade, mas não estou. E é melhor você parar com essa palhaçada e me soltar de uma vez. – Agora sim, ele ficou puto. A raiva ferve em seus olhos, mas continuo calma. Ele sorri, um sorriso lindo e sinistro que fez meu coração pular, mas dessa vez não é de uma forma boa.

− Qualquer garota normal sentiria medo de um estranho a seguindo, levando para um bosque isolado e que estivesse arrancando sua roupa. – Cloud desce sua mão do meu pescoço até minha blusa e desabotoa os três primeiros botões do meu casaco. Seus dedos roçaram minha pele exposta do pescoço me fazendo puxar uma respiração. Ele lambe os lábios e nesse momento eu senti um frio na espinha. O que ele está fazendo? Uma tristeza enche meu peito e tenho vontade de chorar.

Ouso uivos não muito longe de onde estamos. Cloud parece não gostar, já eu amo os lobos. Sinto como se estivessem me avisando que estavam por perto, cuidando de mim. Cloud baixa meus braços, com um puxão e uma volta completa arranca meu casaco e o lança no chão a uma distância razoável. Estou com duas blusas finas, uma branca por debaixo de outra preta, mas não sinto frio. Mais uma vês ele me prende contra a árvore, pressionando seu corpo contra as minhas costas e meu peito contra a árvore. Começo a respirar rápido, não por medo, mas por causa da proximidade. Então sou puxada e prendeu em seus braços. Por algum motivo fecho meus olhos e me permito sentir calor e seu cheiro. As lembranças da floresta de pinheiros e verão da minha juventude vêm à mente. Toco seus braços com as pontas dos dedos e então o seguro com minhas mãos, tentando retribuir da melhor maneira que aquela posição me permitia fazer. Cloud baixa as mãos pelo meu corpo, suas mãos erguem minhas blusas e roçam a pele da minha barriga. Não sei se foi o vento frio ou o calor dos dedos de Cloud que me fez suspirar e é nesse momento que algo muda. Cloud dá um salto para trás me segurando longe pelos ombros, ainda de costas para ele. Olhei por cima do ombro, seu rosto confuso e olhos muito abertos.

− Por que você faz isso comigo? Por que não grita e pede ajuda? Por que é tão linda? Por que tem que ser você? – Ele me vira de vagar e acaricia meu rosto com as mãos, dá dois passos para trás, se vira e vai embora. Recolho meu casaco, mas não encontro o cachecol em parte alguma.

Os lobos uivam assim que chego em casa e me sento bem vinda. Acabo tomando um caminho mais longo para me acalmar e processar o que tinha acontecido naquele bosque. Eu não sei o que pensar ou sentir sobre o que aconteceu. Respiro fundo e entro em casa, sendo recebida por uma Eliza muito agitada.

− Foi assim que te eduquei? – Fico contra a porta olhando para minha prima.

− Tecnicamente você não me educou Liz.

− Que seja. Por que não me ligou? Eu estava morrendo de preocupação. E como assim você foi contratada? Achei que só ia fazer a entrevista.

− Eu também. – Tiro meu casaco e botas e os deixo na entrada para secarem. – Mas parece que estão com pouco pessoal e a alta temporada está chegando, então o Nathan me contratou na hora. – A reação de Nathan quando disse ser prima da Liz me veio a mente. – A propósito. De onde você conhece o Nathan? Assim que me apresentei ele perguntou se éramos parentes. – Eliza fica pálida e com olhos esbugalhados, então o choque foi substituído por algo parecido com raiva. Será que ele é um ex da Liz que eu não estava sabendo?

− Eu o conheci quando vim procurar uma casa para a gente morar. Ele me ajudou, mas se mostrou um cachorro sem um pingo de vergonha na cara.

−Saquei... – Vamos para a sala, onde minha prima me puxa para o sofá e exige saber como foi meu primeiro dia de trabalho.

Depois de contar para a Eliza tudo e mais um pouco subo para tomar meu banho e ir para cama. Nathan decidiu que eu pegaria o turno da tarde, quando dava mais movimento o que me dá algumas horas a mais para dormir e me acostumar a nova rotina.

É dia de folga da Liz e ela está animada por causa de certo encontro com certo Castel de cabelo avermelhado hoje.

− Você ainda não me contou aonde vão. – Eu a estava apoiada no sofá vendo Eliza correr de um lado para o outro, subindo e descendo as escadas como um foguete.

− Vamos até a cidade, ao cinema e depois comer alguma coisa, talvez a gente passe no café. Que tal?

− Acho ótimo. Eu gosto do Jael e desse sorriso idiota no seu rosto quando pensa nele. – Eliza joga a blusa que está segurando em mim e jogo de volta para ela. Me estico e vejo a hora no relógio sobre a lareira.

− Bem, é minha hora. Alguém tem que trabalhar nessa casa. – Dou um beijo na bochecha da Eliza e saio para a neve.

Chego super animada no trabalho, disposição a mil. Esse, com certeza, vai ser ótimo dia e nada que tenha acontecido vai estragar isso. Jorge me instrui no que fazer e me deixa por conta própria, mas percebo que está me vigiando de certa distância. Ele me ajuda quando vê que estou confusa com o cardápio ou numeração das mesas, mas foram poucas as vezes em que ele precisou realmente intervir. Alguns homens muito bem vestidos chegam para o happy hour, dando em cima de mim descaradamente, mas sem passar dos limites. Apenas flertes “inocentes”. Jorge me pega na entrada da cozinha quando vou entregar um pedido e da um tapinha na minha bunda.

− Que sucesso boneca. Se continuar assim vai viver só de gorjetas. – Abro um grande sorriso para ele, mas quando vou falar uma garota de cabelos muito vermelhos entra correndo na cozinha, tropeçando e quase caindo de cara no chão.

− Me desculpa Jorge. Amanhã eu prometo que vou compensar, por favor, não conta pro Nathan ou ele vai me matar ou pior, me demitir. – Ela para de falar quando olha para mim. − Quem é a boneca? Achava que você não curtia isso Jorge. – Ela da uma risadinha e o cutuca com o cotovelo. Já vi que são muito íntimos e grandes amigos.

− Muito engraçado. Miranda essa é Amber, nossa nova garçonete. A Miranda estava de folga ontem, por isso você não a conheceu.

− Você é linda! – Miranda me dá um abraço muito apertado e muito inesperado. Eu não estou acostumada com isso, mas achei legal a atitude espontânea dela.

O cabelo vermelho intenso de Miranda se destaca e de certa forma até combina com o ambiente do café. Ela tem grandes olhos caramelo e pele ligeiramente bronzeada. Algo estranho e raro para uma garota nessa época do ano em Alberta.

− Obrigada. Adorei seu cabelo.

− E eu amei os seus olhos. Eles são dourados, que lindo! – Jorge puxa Miranda pela gola da camisa e a afasta de mim.

− Já chega. Você já está atrasada, vai se trocar antes que o Nathan te veja.

O dia passa voando e acabou que a Eliza e Jael não apareceram no café. Volto para casa feliz por conseguir fazer todo o caminho sem nenhuma surpresa, tirando uma sensação estranha que veio pouco depois que deixei o café, como se alguém estivesse me vigiando ou algo assim. Deve ter sido minha imaginação, já que o Cloud me seguiu e encurralou na noite passada, meu cérebro deve ter se preparando para uma nova investida dele. Bom, amanhã é outro dia e preciso estar cem por cento focada e descansada.

23 de Agosto de 2019 às 23:09 0 Denunciar Insira 0
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