Um Ocaso Intrigante Seguir história

L
Lucca Fróes


Em meio à sua angústia e melancolia, Roberto encontra um inusitado clímax através de uma origem inesperada.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#melancolia #romance #conto
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Um Ocaso Intrigante

Roberto mirou o pequeno livro de bolso que tinha aberto nas mãos, sem conseguir ler uma única palavra, e se sentiu angustiado.

Não era incomum que se sentisse angustiado. Acontecia mais amiúde naqueles últimos tempos, quando as incertezas e a ausência de mudanças o consumiam como o fogo a um pedaço de papel.

Jogou de lado o livro, que nem sabia mais sobre o que se tratava, e caminhou até a janela suja de poeira. Viu um céu nublado, com um sol laranja sumindo perigosamente atrás das elevações da serra que circundava a cidade.

A rua quase não tinha movimento. A cidade era sonolenta e desagradavelmente previsível, como sempre fora. Modorrenta e abafada de tarde, melancolicamente fria de noite.

Roberto viu alguém na distância da rua, passando apressadamente por entre as árvores de uma praça triste. De pronto, reconheceu Maria, com sua beleza rechonchuda e seu olhar atento. E sua irritante previsibilidade, igualzinha àquela cidade que já lhe começava a dar ânsias de não sabia o quê.

Roberto levou, para descer as escadas e ir até a porta, o mesmo tempo que Maria levou para chegar ao mesmo lugar, vindo pela calçada cinzenta. Abriu a porta, fazendo-a estacar a três metros de distância.

- Roberto - disse ela, com um sorriso doce. - Eu me perguntava se você estaria em casa.

- Como quase sempre a esta hora - respondeu ele, com um sorriso triste. - Quer algo para beber? Não me diga que tem horário.

E Maria, irritantemente previsível, aceitou o convite com uma animação juvenil. Roberto acenou com a cabeça para que ela entrasse. Suspirando, bateu a porta atrás de si, pensando no que exatamente o levava a convidá-la.

O que ele, um chato metido a acadêmico, enjoado bebedor de uísque, fazia convidando aquela jovem previsível e lampeira para tomar algo? Talvez fosse só uma droga que o ajudasse a suportar a angústia e a melancolia aterradoras.

Enquanto ela sentava na poltrona da sala, fitando avidamente seu anfitrião, Roberto se deteve, vendo pela janela as nuvens, que pareciam estar em movimento acelerado. Por um momento, Roberto sentiu o tempo passar rápido e o movimento do sol parecia claramente visível no meio do rajar de nuvens cinzentas.

- Sei o que está pensando - disse ela.

Roberto voltou-se para sua convidada com visível espanto. Nunca ela dissera algo assim; sempre, previsível que era, sempre perguntava no que ele estava pensando.

- O que estou pensando? - inquiriu ele, aproximando-se lentamente.

- Nós dois somos muito solitários - disse ela, com os olhos semicerrados e fixos no olhar dele. - Angustiados. Ansiosos. Melancólicos.

Roberto estava estupefato.

- Nunca vi você falar assim. E também não vejo você como uma pessoa assim. - sentou-se na poltrona em frente à dela, sem recostar.

Ela sorriu enigmaticamente, suspirando em seguida.

- Quero um chá - disse apenas, afastando uma franja de cabelo rebelde.

- Quero um uísque - ele respondeu, sem se mover.

Ela riu brevemente, mantendo o sorriso no rosto enquanto se levantava. Foi até ele, empurrou-o para trás na poltrona e montou nele rapidamente, sufocando seu anfitrião com um beijo lascivo que ele mal conseguiu compreender, mas retribuiu com sofreguidão.

- O que está acontecendo? - Roberto, arfando, não entendia.

- Você não consegue conceber que eu faça algo diferente de vez em quando? - perguntou ela, sorrindo e alisando o rosto dele. - Recomponha-se e aproveite. O que acha de mim hoje, tomando a iniciativa?

- Deliciosamente surpreendente - disse ele, beijando-a com volúpia novamente.

Beijaram-se por minutos, sem uísque, sem chá, pensando em como se gostavam secretamente, mas como também não deixavam de se sentir solitários, mesmo num momento de tanta intimidade.

No horizonte, o sol terminou seu caminho e a cidade encerrou mais um dia melancólico, desconhecendo a volúpia daqueles tão sombrios amantes.

22 de Agosto de 2019 às 01:49 0 Denunciar Insira 1
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