QUANDO AS TREVAS SE VÃO Seguir história

dissecando Edison Oliveira

O enredo gira em torno de um estranho fenômeno que irá cair sobre a terra após um eclipse solar. Leia e descubra que fenômeno é este.


Horror Literatura monstro Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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QUANDO AS TREVAS SE VÃO






1

DOZE MINUTOS NA ESCURIDÃO



O celular estava tocando e Alex quase perdeu a chamada. Foi por muito pouco. Ele havia saído até a rua para descartar o lixo semanal e já estava com um dos pés no degrau da varanda quando escutou welcome to The jungle berrando do lado de dentro. Imediatamente soube quem deveria ser. Soltou o saco de lixo e este se espatifou no chão, fazendo um estardalhaço.

Por sorte, ele não se rasgou. Alex retornou para dentro de sua casa a passos largos, quase correndo, e por um instante assustador sua mente não conseguiu se lembrar aonde havia deixado o telefone. Ele ficou estático no corredor, olhando em volta e tentando descobrir de qual direção vinha o barulho. Por fim, sua cabeça pegou no tranco e ele se virou rapidamente na direção de seu quarto. Correu até lá quase que em desespero, a flanela xadrez esvoaçando para trás. Assim que cruzou o batente da porta, enxergou o Samsung sobre as cobertas de sua cama. Aquilo estava uma bagunça ; o lençol se enroscava em um dos cobertores como uma cobra tentando asfixiar a sua vítima.

Pegou rapidamente o celular e deu uma olhadinha rápida para a sua tela ( reconheceu o número, como estava supondo ) e o levou até a sua orelha.

— Poxa, finalmente — disse Sarah Nunes. A voz dela conseguia ser sútil mesmo quando parecia zangada. — Estava no banheiro?

— Não. É que hoje é dia da coleta do lixo e eu estava levando a sujeira embora. Mas então... Tudo bem com você?

— Tudo sim, — respondeu a sua ex-esposa. Era reconfortante escutar a voz dela sempre que possível. No caso de Alex, isso só acontecia na segunda quarta-feira de cada mês, mesmo que as vezes ele pensasse em fazer alguma ligação surpresa no meio do dia, algo que foi enfaticamente proibido pelo seu advogado.

Alex afastou uma das cobertas e se sentou na cama de molas. Elas rangeram num barulhinho incômodo.

— Está tudo certo para o fim de semana? — ele perguntou, imaginando que a resposta seria positiva, afinal era só por isso que Sarah ainda lhe telefonava. Eles não haviam se tornado inimigos no final das contas, ainda se davam bem ( na medida do possível ) e faziam questão de manter as coisas assim. Principalmente por causa do Bart.

Mas havia a possibilidade dela ter telefonado apenas para desmarcar a visita, por conta de algum imprevisto — coisa que já havia acontecido antes, três meses atrás por conta de um passeio da escola do filho.

Na época, Alex aceitou numa boa. Sentiria uma saudade absurda do garoto, da forma como ele o abraçava e o chamava de papai, correndo em sua direção com os braços abertos. Por outro lado, não estava querendo arrumar confusão. Não estava afim de acionar algum advogado por culpa das datas que coincidentemente caíram iguais. E também não queria ser o estraga prazeres do filho. O garoto tinha de se enturmar, curtir a infância com outras crianças.

— Tudo certo, sim — respondeu Sarah. Os olhos de Alex se fecharam de alívio. — Apenas uma coisinha, se não for um problema pra você.

Os olhos dele tornaram a se abrir. Não gostava quando alguém se referia a um favor com a palavra “ coisinha “ adicionada na frase. Aquilo soava com uma entonação ruim, uma espécie de informação que vinha escondida nas intenções de maneira subliminar.

— Pode falar.

— É que o Diogo está de aniversário neste fim de semana, — começou a falar Sarah, e Alex já conseguia imaginar aonde ela estava querendo chegar. — E faz tempo que o Bart não vê o tio... Então, se você não se importar, poderia vir vê-lo na sexta-feira ao invés do sábado?

Alex refletiu por quase dez segundos. Olhou para o teto, depois para o chão e então outra vez para o teto. A proposta não era de todo ruim ; teria de sair de casa um dia antes do combinado com o seu chefe ( achava que o senhor Wellington seria capaz de entender a situação sem mais problemas ) e depois tudo seria uma questão de se programar.

E ainda conseguiria ver o filho um dia antes do esperado. Alex pesou todas as informações na balança e concluiu que de fato a situação poderia ser muito pior. Sarah poderia adiar a sua visita ao invés de adiantá-la. Poderia fazer as malas do garoto e passar todo o final de semana na casa do irmão dela, um lugar escondido do mundo onde ainda existiam pessoas que não tinham sequer energia elétrica. Alex tinha uma vaga lembrança do tal Diogo, seu ex-cunhado ; era um homem de aspecto sério, com um dos braços cobertos por tatuagens. Eles nunca foram muito chegados, o que na percepção de Alex significava que eles não iam com a fuça um do outro.

Respirou fundo e disse :

— Sem problemas, Sarah. Eu só vou me reorganizar e me mando até aí.

— Oh, obrigada. — Alex conseguiu perceber uma espécie de alívio na voz da ex-esposa. — Pensei que não fosse aceitar.

— Relaxa. Não vai me atrapalhar em nada. Até gostei da ideia de ver o Bart mais cedo.

— Está certo. Muito obrigada mesmo. — Um silêncio tomou conta do quarto por um instante. Ambos pareciam estar pensando no que dizer, e Alex até foi capaz de escutar uma gritaria que vinha do lado de fora, da rua ainda pouco movimentada naquela hora da manhã. Espiou por cima do ombro e conseguiu ver pela janela que um sujeito vestido com um macacão laranja passava as pressas. Logo atrás dele surgiram outros dois vestidos iguais e na sequência um enorme caminhão Volvo roncou o motor.

Teve a certeza de que não haveria tempo para levar o lixo até a rua, lamentou isso mentalmente e por fim disse :

— Nos vemos na sexta, então.

— Combinado. Até lá.

— Até. — Sarah desligou primeiro. Era sempre ela quem desligava, talvez porque Alex gostava de manter a esperança pendurada por um fio. Quase conseguia ouvir a voz da ex-esposa lhe dizendo que sentia saudades, que talvez ainda houvesse uma mínima chance de fazer funcionar.

Ele sabia que isso era apenas um devaneio, mas pensar nele lhe trazia conforto. Jogou o celular sobre a cama e caminhou de volta até a varanda, onde o saco de lixo estava esparramado na metade dos degraus.




Na madrugada de quinta-feira, Alex se enfiou para dentro do Fiesta acompanhado por uma mochila que atirou no banco de trás.

Dentro dela havia apenas um casaco mais pesado ( a previsão do tempo indicou uma mudança brusca na temperatura ao longo das próximas horas ) e uma caixa de papelão com um boneco do Batman dentro. Bart adorava o Batman. Era um de seus heróis favoritos, e até já havia ganhado um uniforme completo dele no ano passado, em seu aniversário de seis anos. Quem lhe dera o presente fora o seu tio, Diogo, em uma rara ocasião onde Alex o viu abraçar o garoto.

Bart ficou tão contente, com os olhos brilhando e o sorriso ocupando metade de seu rosto, que Alex até relevou a vontade que estava sentindo de dar uma bronca no ex-cunhado. Ainda achava absurda a ideia de ver o filho indo visitar o tio, um homem bruto que não fazia muito o tipo que gostava de receber visitas em seu aniversário. Não esse tipo de visita. Alex achava que ele preferia estar cercado por dançarinas do ventre no sábado seguinte.

Em meio a solidão que engolia a rodovia, Alex sentiu uma necessidade incontrolável de ouvir alguma coisa. Qualquer coisa. O hábito que ele tinha de escutar rádio no carro havia ido embora junto com Sarah três anos atrás, mas agora, sozinho e apenas com as estrelas lhe observando do céu, sentia que precisava quebrar aquele silêncio.

A monotonia estava envolvendo o seu pescoço com dedos firmes. Espichou o braço e ligou o rádio, no mesmo instante em que seus olhos foram atingidos por um par de faróis que vinham do sentido contrário da rodovia.

Alex cerrou os olhos e sentiu o Fiesta sacudir assim que o outro automóvel cruzou por ele a toda. Estava prestes a procurar alguma estação que estivesse tocando alguma música relevante ( o velho e bom rock and roll, de preferência ) quando a voz grave do locutor começou a falar alguma coisa que a estática ajudou a picotar.

Alex ajustou a estação e prestou a atenção.


“ E falando em temperatura, ela vai cair alguns graus nas próximas horas. É verão, mas as coisas andam meio malucas ultimamente, não acham? De modo que se você está saindo para trabalhar, ou ainda está se preparando para sair, aconselho que leve um casaco na mochila ou na bolsa.”


— É isso aí, — falou Alex, espiando a sua mochila pelo retrovisor.


“ E ainda no assunto clima, ou tempo, se preferir, o que acham deste eclipse solar que irá rolar logo mais?”


— Eclipse? Dessa eu não sabia...


“ A previsão é que o dia vire noite na tarde de hoje. Por volta das quinze horas, um eclipse solar irá atingir o nosso belo planeta. Em nosso país, estima-se que o fenômeno dure cerca de doze minutos. Ou seja, ficaremos por doze minutos presos na escuridão meus caros ouvintes...”


Alex desligou o rádio com um toque do dedo. Não sentia mais a necessidade de ouvir alguma coisa, pois tudo que queria agora era escutar os próprios pensamentos. Achava que aquele momento poderia se tornar algo muito especial entre ele e o filho. Bart nunca presenciara um eclipse, e o próprio Alex nem ao menos se lembrava de quando ocorrera um fenômeno como aquele anteriormente.

Tinha certeza de que aquilo iria se tornar algo inesquecível, assim como se um arco íris surgisse no céu durante uma cerimônia de casamento.

Achou a comparação engraçada e satisfatória. Tamborilou os dedos no volante e seguiu sem ligar o rádio durante todo o resto do percurso.





O filho estava correndo em sua direção enquanto Sarah acompanhava tudo escorada no batente da porta.

Alex desceu do Fiesta e esperou o garoto com um dos joelhos encostado no chão. Bart corria feito um coelho. Era rápido, baixinho e conseguia evitar as pedras maiores que estavam no caminho. Assim que chegou diante do pai, o abraçou e teve o cabelo afagado por ele.

— Como está, garotão?

— Bem, — falou Bart, fechando os olhos toda vez que os raios de sol atingiam o seu rosto. — E o senhor?

— Melhor impossível. Ah, espere um pouco... — Alex se ergueu e abriu a porta do Fiesta. Espichou o corpo lá para dentro e saiu de volta com uma mochila nas mãos. Abriu o zíper e tocou na caixa com o Batman dentro.

— Tenho uma coisinha aqui pra você,— ele disse, sem retirar a caixa. — Advinha o que é.

O garoto olhava para ele com uma mistura de curiosidade e animação.

— Um brinquedo! — ele disse, esfregando as mãos.

— É um brinquedo, sim. Vamos ver se consegue descobrir um pouco mais.

Bart pareceu refletir. Então, em uma explosão, disse :

— O BATMAN!!!

Alex soltou uma gargalhada e em seguida puxou a caixa com o homem-morcego de dentro da mochila. Entregou ela para o filho, e antes mesmo que pudesse perceber, sentiu a caixa sendo retirada de suas mãos.

— Como é que se diz? — era a voz de Sarah, se aproximando devagar. Ela estava linda. Embora Alex nunca pensara o contrário. Sarah era ruiva, tinha a pele branca como leite e seus lábios estavam delicadamente com uma camada de batom vermelho.

Alex viu aquela coisinha maravilhosa de vestido lilás chegando cada vez mais perto, pensou em dizer que ela estava linda, talvez até mais, que estava perfeita, mas só o que conseguiu dizer foi :

— Como está, Sarah?

— Estou bem. Levou muito tempo na estrada?

— Umas horinhas.

— Filho, agradeça ao seu pai — ela pediu, enquanto Bart já se desfazia da caixa e retirava o Batman lá de dentro.

— Oh, não precisa, — interrompeu Alex, afagando a cabeça do filho mais uma vez.

— Ah, você ficou sabendo do eclipse? — perguntou Sarah.

— É, eu ouvi alguma coisa no rádio.

Os três começaram a andar na direção da casa, Bart um pouco mais a frente, remexendo no boneco como se ele voasse e Alex ladeado com Sarah. Naquele momento, Alex sentiu como se fossem casados outra vez. A sensação veio como um gosto que fica na boca após beber um vinho.

A vontade de pegar na mão dela cresceu rapidamente em seu peito, mas logo afastou a possibilidade quando usou a mesma mão que seria usada para o ato para simplesmente jogar os cabelos para trás.

— Estou preparando as coisas para o almoço, — ela disse. — Acho que um franguinho cai bem, não é?

— Se cai.

— Papai, disseram na TV que o dia vai virar noite! — falou Bart, parado diante dos dois com o Batman sendo segurado por uma das pernas.

— Isso mesmo, filho. Se chama eclipse. Disseram que irá durar doze minutinhos.

— Doze minutos de escuridão, — falou Bart, num tom quase apocalíptico.

Por alguma razão, Alex não gostou de ouvir aquela frase duas vezes no mesmo dia.





Eram três e oito da tarde quando o céu começou a adquirir um tom alaranjado, com veias roxas percorrendo caminhos sinuosos por entre as nuvens.

Pouco tempo depois, o sol era apenas um círculo escuro no céu, com um aro reluzente em torno de si. Visto da terra, ele parecia uma tampa enorme cobrindo um poço.

Alex assistia a tudo ao lado do filho. Os dois estavam na janela da sala de estar, sentados no sofá e bebendo refrigerante. Bart já até havia se esquecido da Coca. Seus olhos pareciam hipnotizados, acompanhando com certa perplexidade o que estava acontecendo. A escuridão do dia estava sendo algo novo na vida do garoto, e Alex começava a ter certeza de que aquilo seria algo muito especial daqui pra frente. Já estava até agradecido pelo aniversário do Diogo ser no sábado. Aquela casualidade havia lhe trazido a oportunidade única de acompanhar uma coisa totalmente adversa na vida do filho. E ele estava presente durante o acontecimento. Sua felicidade era tanta que se o ex-cunhado surgisse agora em sua frente, Alex talvez até apertasse a sua mão.

— Olha pai!! — Bart apontava para o sol, uma bola escurecida naquele momento.

— É bonito, não é?

Alex desviou o seu olhar para o chão. Na rua estava completamente escuro, de modo que ele mal podia enxergar o Fiesta estacionado em frente à casa de Sarah. Pensou por um instante se as luzes dos postes nas ruas não deveriam ter sido acesas, chegou até a espichar o pescoço para olhar mais adiante ( tudo igualmente escuro ) e já iria registrar o fato mentalmente quando a voz de Sarah surgiu em algum lugar do corredor.

— A energia foi cortada, — ela disse. Alex olhou na direção da voz e encontrou Sarah segurando uma vela acesa nas mãos. O rosto dela era apenas um círculo laranja.

— Vai ver o governo está aproveitando a oportunidade para poupar um pouco.

— Não é de se duvidar.

O círculo amarelado da luz da vela foi se aproximando, conforme Sarah caminhava na direção dos dois.

Ao longe, quando se prestava a atenção, dava para escutar gritos histéricos e gargalhadas. Sarah desconfiava que aquilo vinha dos vizinhos da região, enquanto para Alex era como ouvir um bando de bruxas voando pelo ar em vassouras.

— Ao menos tem gente se divertindo, — disse ele. — Sente aqui conosco, Sarah. Nós não mordemos.

— Para o bem de vocês, espero mesmo que não.

Ela sorriu e sentou-se no meio dos dois, ajeitando a vela na mesinha que estava diante do sofá. Mesmo com pouca luz, Alex ainda conseguia admirar o sorriso no rosto dela. Sarah tinha praticamente uma luz própria, de modo que aquela vela nem faria diferença se estivesse apagada.

Agora que os três estavam juntos um ao lado do outro, Alex começava a cogitar uma nova possibilidade e ela era ainda melhor do que a anterior. A de que o eclipse não havia se tornado especial apenas para ele e o filho ; mas também para Sarah e ele.

Ela se lembraria daquela ocasião daqui um ano ou dois, talvez ainda solteira. Talvez ela até começasse a cogitar algum telefonema, não apenas aquele das segundas quartas-feiras de cada mês.

Outra vez um impulso surgiu do centro de seu peito e desta vez ele quase tocou na mão de Sarah. Chegou a fazer o movimento, mas Bart deu um salto do sofá e ficou de pé diante dos dois.

— O Batman! — disse ele.

— O que tem o seu boneco, filho? — Sarah acariciava o ombro do menino.

— Esqueci dele no quintal. Estava brincando com ele antes do almoço e acabei deixando ele lá.

— Depois você pega. Fique aqui comigo e com seu pai.

O garoto girou o corpo rapidamente e saiu em disparada pelo corredor escuro, berrando que iria buscar o boneco. A voz dele estava vindo de algum lugar no meio do breu.

— Devagar para não cair!

— Acho que ele gostou mesmo daquele boneco, — falou Alex, aproveitando para arrastar o traseiro um pouco mais para perto de Sarah.

— Ele adorou. Sabe que ele curte o Batman.

— E você, Sarah? Como estão indo as coisas?

— Bem, — respondeu ela, sabendo exatamente o que o ex-marido estava querendo perguntar.

Ele costumava fazer o mesmo tipo de pergunta quando tinha que ligar para ele uma vez por mês. Só que nem sempre elas eram iguais, mas tinham o mesmo sentido. “ Como estão as coisas, Sarah? “ era uma variação de “ como vai indo a vida? “ e “ o que você tem feito?”

Todas elas significavam apenas “ você ainda está solteira?”

Ela até que ainda estava solteira ( o rolo que teve no mês passado com um colega de trabalho não era exatamente um compromisso ) e pretendia continuar assim por um bom tempo. Sarah sabia que Alex ainda nutria uma espécie de esperança, percebia isto no jeito dele olhar e também pelas perguntas clássicas, — e também pelas frustradas tentativas de pegar em sua mão desde que chegou hoje pela manhã.

Ela não pretendia lhe dar uma nova oportunidade. Seria a segunda. Da primeira vez eles eram bem mais jovens e Sarah ainda estava grávida de Bart. Ela não sabia ao certo, mas Alex parecia estar arrastando as asinhas para uma loira em seu trabalho. Ele negou, e as coisas seguiram até que calmas até o dia em que ele próprio decidiu dar no pé. Simplesmente disse que não aguentava mais. Ele deu toda a assistência para Sarah durante e após a gravidez, até que quando Bart completou um ano Alex fez uma proposta para voltar. Sarah aceitou e a coisa toda durou mais oito meses. Naquela ocasião, fora Sarah quem decidiu por dar o caso por encerrado, após argumentar que havia um desgaste demasiado grande para um espaço tão pequeno de tempo.

Eles se despediram com um aperto de mãos ( Alex até que tentou um beijinho de despedida, mas Sarah recuou o rosto ) e então eles tiveram de partir para os telefonemas mensais. Só o fato de pensar em tê-lo mais uma vez ao seu lado, já fazia com que um certo desânimo caísse sobre os seus ombros. Alex não era um sujeito detestável ( e também tem sido um ótimo pai ) mas Sarah achava que assim estava bom, e que arriscar uma outra vez poderia ser um passo grande demais no escuro. Preferia perder o marido do que arriscar a amizade que haviam construído.

Ouviram os passos de Bart ecoando no escuro e aguardaram que ele invadisse a sala de estar aos gritos e com o Batman nas mãos. Um instante depois foi exatamente o que aconteceu.

— Peguei ele! — gritou Bart, agitando o boneco diante dos pais. — Peguei o Batman!

— Que ótimo, filho. Agora sente aqui ao lado do seu pai. Ele veio aqui para te ver.

— Vem cá, garotão, — os braços de Alex estavam esticados e Bart saltou em seu colo, agitando-se e fazendo caretas.

Os três permaneceram ali por mais alguns minutos, até que o sol finalmente recomeçou a clarear.




O brilho do sol foi surgindo aos poucos, forçando e se expelindo em raios brilhantes e amarelados.

Agora era como ver a tampa do poço sendo aberta devagar. Sarah abriu a porta assim que o sol já se projetava como um todo, engolindo boa parte do seu quintal e fazendo os passarinhos cantarem. Logo depois fora Bart quem surgiu, correndo em disparada na direção do jardim, com o Batman nas mãos, agitando a capa com as baforadas do vento. Alex veio logo atrás, mas se deteve ao lado de Sarah que observava o filho escorada no pilar da varanda.

— Ele adora quando você vem aqui, — ela disse.

— E eu adoro quando venho. — O rosto de Alex exibia um sorriso amoroso enquanto olhava para o filho. Ele enxergou Bart correr em ziguezague pela grama rasteira, segurando firme no Batman e fazendo um estardalhaço com os braços agitados. Havia alguma coisa que não parecia estar certa naquela imagem, mas Alex ainda não identificara o que era.

— Você não teve problemas para trocar o dia de folga com o seu chefe?

— Não... — os olhos de Alex ainda permaneciam fixos no filho que corria pelo jardim. Alguma coisa não estava correta, mas ainda não parecia clara. — O senhor Wellington é um sujeito gente boa. E além do mais ele estava me devendo uns favores.

— Bem, que ótimo então. Me sentiria péssima se atrapalhasse você.

Bart corria de um lado para o outro, agitado, exibindo o seu boneco novo para quem quisesse ver, mas ciente de que naquele momento apenas os seus pais o viam. Correu rapidamente para a esquerda ( fez um barulho de derrapagem com a boca ) depois correu na direção oposta e pareceu perder o fôlego. Diminuiu seu ritmo, buscou pelo ar e pôs a língua para fora. Estava parado, olhando para o Batman em suas mãos como se o analisasse pela décima vez naquele dia.

E foi quando estava naquela posição que finalmente Alex conseguiu notar. Olhou diretamente para aquela imagem, analisou de ponta a ponta e então chamou por Sarah sem tirar os olhos do garoto.

— Que é?

— Olhe, — Alex apontava na direção de Bart. Sarah acompanhou o seu dedo. — Diga que eu estou vendo direito, Sarah.

Sarah olhava e também não era capaz de entender. Estava admirada por não ter notado aquilo antes, apenas agora que seu ex-marido estava lhe mostrando.

— Mas como é...

— Onde foi parar a sombra dele, Sarah? — perguntou Alex, ainda apontando com o dedo e sem conseguir tirar os olhos de cima do filho.




21 de Agosto de 2019 às 22:14 8 Denunciar Insira 3
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Katia Cunha Katia Cunha
Adorei, gostaria de ver a continuação.
Tiago Líreas Tiago Líreas
Pensei que ia ser algo parecido com "The Sun Is Gone" quando vi o título e a capa

Tiago Líreas Tiago Líreas
Tenho razões pra acreditar que isso tudo foi uma preparação (porque não houve terror algum e isso não pode faltar nos teus textos).
~

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