S05#14 - ANGST Seguir história

lara-one Lara One

Mulder e Scully são vigiados 24 horas por dia, no FBI, no apartamento de Mulder, no carro... Não há lugar seguro. O Sindicato quer saber do paradeiro da criança e da lealdade de Mulder para com eles. Mas por quê? O que esses homens temem? Há outro inimigo que não o alienígena? Nossos agentes sabem mais verdades devido a paranormalidade ativada em Mulder. E estão dispostos a jogar alto, com as mesmas cartas. Mulder não é mais um tolo. Scully não questiona, apenas faz. As coisas se complicam dentro do FBI. Afinal, qual jogo está se armando sobre a cabeça de Mulder e Scully? Até que ponto eles jogariam? Apostas iniciadas. O jogo apenas começou. Agora vocês vão começar a ver como funciona o esquema do consórcio. E como Mulder, serão espertos e prudentes para fazer parte dele. Em causa própria. Não é essa a regra? Pois que seja. Não confiem em ninguém. Apenas em ‘Deus’.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 18 apenas.

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S05#14 - ANGST


INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

[Fade out]

[Som: Filter – Consider This]

Laboratório Farmacêutico Dutsch

Unidade de Processamento da Carolina do Norte - 11:46 P.M.

As cápsulas coloridas de medicamento que caem da máquina em quantidades enormes, rolando pela esteira. Barulho de máquinas.

Corta para a esteira com vidros de xaropes que passam rapidamente, para que a máquina os encha.

Corta para o homem de terno e gravata que fala com Krycek. Eles discutem alguma coisa, ao lado das máquinas. Ao fundo dois guardas armados de metralhadoras rondam o local.

Câmera de aproximação até o extenso duto de ventilação suspenso no teto baixo.


Corta para Mulder arrastando-se dentro do duto. Empurra uma mochila sem fazer barulho. Observa pela grade da saída de ar o movimento dos guardas. Continua se arrastando. O suor lhe escorre do rosto. Está tenso e nervoso.

Mulder passa por outra grade de ventilação. Espia. Nenhum movimento. Mulder puxa do bolso das calças um canivete, acionando a chave de fenda. Retira com cuidado a grade, sem fazer ruído.


Krycek continua discutindo com o homem. O homem sinaliza para os dois guardas e eles saem empurrando Krycek, sob os protestos do mesmo.


Mulder passa pela abertura, pulando para dentro do amplo complexo.

Há três tanques de mais ou menos uns 10 metros de altura por uns 10 de largura, com o logotipo dos laboratórios.

Mulder estende os braços pra cima e retira a mochila do duto de ventilação. Abraça-a contra o corpo e caminha se esquivando pelas máquinas.

Mulder esconde-se atrás de um dos tanques. Observa-o. Há válvulas de congelamento. Mulder coloca a palma da mão contra o tanque. Abre a mochila cuidadosamente e retira a pequena bomba digital, anexando-a no tanque. Espia novamente. Digita algum código na bomba.

Mulder corre até o outro tanque e coloca mais uma bomba, repetindo o processo em todos os tanques.

[Som de clique de gatilho]

Mulder para. Fecha os olhos.

[Som de disparo]

Mulder treme. Então percebe o corpo do homem que falava com Krycek caído ao chão, ao lado dele, com a cabeça estourada. Mulder olha pra trás. Krycek lhe sorri. Mulder olha pra ele incrédulo. Então Krycek aponta a arma pra cima. Mulder arregala os olhos. Krycek atira.

Outro corpo despenca de uma base suspensa de metal, caindo por sobre a esteira de comprimidos.

Alguns guardas aproximam-se atirando com armas automáticas.

Mulder e Krycek saem correndo nervosos, entrando por uma porta dupla. Correm apressados pelo extenso corredor. Os guardas continuam atirando. Mulder saca a arma e revida, jogando-se atrás de um bebedor, como proteção.

MULDER: - (GRITA/ DESESPERADO) Vai!!! Eu te dou cobertura!

Krycek tenta abrir uma das portas, mas todas estão fechadas. Os tiros passam zoando por eles e a tensão aumenta.

Mulder levanta-se rapidamente e segue de costas, atirando contra os guardas, tentando se esquivar das balas. Krycek chuta uma porta e os dois entram, fechando-a.

As balas começam a arrebentar a fechadura pelo lado de fora. Krycek tenta abrir a única janela, mas está travada. Pega uma cadeira e atira contra a janela. O vidro se estraçalha. Krycek pula a janela. Mulder pula atrás dele.

Corte.


Mulder e Krycek caem em cima da lona de um caminhão. Descem rapidamente, correndo pelo pátio. Passam pela portaria, onde há um guarda morto, atirado no chão.

Mais guardas surgem atrás deles, desta vez com metralhadoras. Os dois correm desesperados, sentindo as balas passarem bem perto.

Corta para o prédio que explode, atingindo os guardas e arremessando os corpos ao ar.

Corta pra Mulder e Krycek que entram na limusine que parte rapidamente. Os dois esbaforidos.

O Canceroso acende um cigarro. Olha pra eles. Krycek e Mulder se entreolham. O suor escorre pela testa deles. Mulder olha para o Canceroso.

MULDER: - Serviço feito. Não sobrou nada e nem ninguém para contar a história.

VINHETA DE ABERTURA: TRUST NO ONE



BLOCO 1:

FBI – Gabinete do diretor-assistente – 5:47 P.M.

Kersh anda de um lado para outro. Carter encostado contra a parede. Skinner sentado, lendo alguns papéis. Scully mantém-se quieta, olhando para o nada.

KERSH: - Saldo: 40 mortos e um prejuízo de mais de 2 milhões de dólares. Como explicar isso a uma transnacional dentro de nosso país, que confia em nossa força econômica e democrática?

Mulder sentado na cadeira. Olhar fixo e fulminante para Kersh, que anda pela sala. Mulder o acompanha com os olhos, como uma raposa que estuda aonde vai sangrar a caça.

KERSH: - Segundo a perícia técnica, três bombas foram usadas. Bombas digitais, de tecnologia do exército americano. O que me faz perguntar como terroristas poderiam ter acesso a armas do governo. Mas nenhuma evidência foi encontrada no local e nenhuma testemunha saiu viva. Quem fez isto era profissional.

Carter olha pra Mulder. Mulder continua sério, olhando Kersh. Kersh olha para Skinner.

KERSH: - Skinner?

Skinner tira os olhos do papel e olha pra ele.

SKINNER: - Não foi trabalho de terroristas.

Mulder olha pra Skinner e disfarça.

SKINNER: - Essa desculpa de terroristas já está velha. Por que terroristas iriam explodir um laboratório farmacêutico? Com que intenção? O que fabricavam lá?

CARTER: - O que todo laboratório farmacêutico fabrica, Walter: Remédios.

KERSH: - Mais especificamente remédios para pessoas que sofrem de problemas respiratórios.

Mulder vira o rosto para o lado segurando o riso. Kersh olha para Mulder friamente. Skinner em sua ingenuidade, não percebe a tensão estabelecida. Scully observa Kersh com ódio.

SKINNER: - Posso colocar Mulder e Scully no caso.

KERSH: - Não. Já coloquei agentes nisso. Não é um Arquivo X.

SKINNER: - Mas Mulder tem experiência com coisas do tipo...

Kersh olha pra Mulder.

KERSH: - (CÍNICO) Experiência demais, não agente Mulder?

MULDER: - (CÍNICO) É. Acho que meu currículo vale muito por aqui.

KERSH: - (CÍNICO) Cuidado Mulder. Não sabe qual será a próxima carta que puxará do baralho.

MULDER: - (CÍNICO) Talvez você puxe um três, enquanto eu levo a dama de copas.

KERSH: - (AMEAÇADOR) Conheço histórias onde a raposa esperta morre pelas próprias mãos. Ou perde algo ou alguém de quem gosta muito. Talvez a dama de copas.

MULDER: - (AMEAÇADOR) Conheço histórias onde alguém aparece morto de repente em seu gabinete no FBI... Sabe? Uma bala bem posta na cabeça, durante o expediente de trabalho, onde ninguém da segurança viu nenhum suspeito entrar no prédio.

Skinner olha para os dois, sem entender nada. Scully continua olhando para Kersh com raiva. Carter abre a porta e sai, coçando a cabeça.

KERSH: - Outra questão. Vocês esqueceram de que são agentes do FBI, então eu terei de relembrar certas regras de conduta.

Mulder cruza as pernas. Apoia o cotovelo no braço da cadeira, apoiando a cabeça na mão. Olha pra Kersh com deboche e um olhar autoritário.

KERSH: - Não recebo exames de vocês há meses. Portanto, devem ir ao departamento médico.

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu tenho câncer. Mas se quiser que eu passe por mais exames, quem sabe um milagre aconteça e esse tumor desapareça num ‘plim’?

KERSH: - Agentes em situações como a sua devem fazer exames periódicos com a psicóloga. Não sabemos até que ponto isto não afeta sua sanidade mental, que já não é a ideal para um agente do FBI.

Mulder abre a boca. Scully o cutuca discretamente. Ele se cala.

KERSH: - E você, agente Scully... Já ouviu falar em dieta?

Scully lança um olhar de incredulidade em direção a Kersh. Segura-se nos braços da cadeira. Fisionomia de raiva e humilhação.

KERSH: - Sabem que precisam ter preparo físico. E vocês não andam em condições físicas para continuarem em operações de campo. Quando olho pra vocês tenho a sensação de estar vendo Stanley e Hardy na minha frente.

Skinner fica boquiaberto, encarando Kersh.

KERSH: - Agente Scully, você está gorda. Desleixada é a palavra certa pra você. Precisa fazer exercícios ou não vai conseguir correr atrás de suspeitos.

Scully solta um ‘oh’ ficando de boca aberta. Mulder a cutuca discretamente.

KERSH: - Portanto, vá correr, fazer ginástica e feche sua boca. Mantenha-se longe da geladeira, se quer seu emprego. Ou vai arranjar logo um cargo num departamento burocrático.

Scully esfrega os lábios, contendo-se de ódio, direcionando o olhar pra outro lado. O rosto começa a corar de raiva.

KERSH: - Espero não ter que repetir nada do que disse aqui. Qualquer agente novato sabe melhor do que vocês veteranos. E outra coisa: Quero vocês na festa de confraternização do FBI. Não encarem como um convite, é uma convocação. Misturem-se. Não são melhores do que os outros.

Kersh sai batendo a porta. Scully vira-se pra Mulder, indignada.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Ele me chamou de gorda?

Mulder olha pra ela de cima a baixo.

MULDER: - (DEBOCHADO) Hum... Acho que você tá é ‘fofinha’...

SKINNER: - Um conselho do tio: Melhor não arranjarem encrencas. Agora virou diretor-delegado.

MULDER: - (PÂNICO)

SKINNER: - (DEBOCHADO) Nomeado pelo amigo dele, Carter, vulgo ‘Madame Min’, que não tem mais o que fazer e começa a mover os pinos do jogo, tentando se safar e cada vez fica mais enrolado numa trama complicada que ele mesmo criou... (SORRI DEBOCHADO) O Batman da Conspiração...

SCULLY: - Morcego, senhor...

SKINNER: - (PREOCUPADO) Impressionante como a convivência com a imbecilidade dele está me afetando...

MULDER: - Quer dizer que nos convoca até aqui, na sua frente, pra me chamar de doente e louco e dizer que Scully está gorda?

SKINNER: - Estava vendo a hora em que ia olhar pra mim e dizer: ‘e você, Walter, está muito careca. Compre uma peruca’.

Mulder sorri. Olha incrédulo pra Skinner.

MULDER: - O que esse cara tem? Começo a achar que aquele mito de que quem não faz sexo sobe pro cérebro e fica louco!

Skinner começa a rir. Scully continua séria, em transe.

SKINNER: - O que aconteceu, agente Scully?

Scully olha pra Skinner.

SCULLY: - (EM TRANSE) Ele me chamou de gorda...

MULDER: - E daí? Algum problema em ter quilinhos a mais??? Já disse, Scully, coisinhas fofas são melhores de se apertar... Imagina, eu esquelético como estou... Se você fosse magra, os vizinhos nunca mais iriam dormir.

Scully olha pra ele.

SCULLY: - Por quê?

MULDER: - Por causa do barulho de ossos se batendo a noite toda.

Skinner solta uma gargalhada. Scully levanta-se.

SCULLY: - (SÉRIA) Podem rir. Eu não achei graça. Ele me chamou de gorda.

Scully sai porta à fora, chateada. Skinner olha pra Mulder.

SKINNER: - Mulder... Realmente ela está... ‘Fofinha’. Se não tivesse todo esse problema, eu diria até que ela está grávida.

Mulder olha pra Skinner.

MULDER: - Skinner, eu posso ser estranho. Mas ainda não virei o ‘espírito santo’. E nem faço milagres. Sou estéril. E ela também.

SKINNER: - ... Desculpe Mulder... Não devia ter falado nisso.

MULDER: - Sei que ela está se entupindo de doces e guloseimas escondido. Já a flagrei diversas vezes. Ela não quer demonstrar que se preocupa com meu estado. Agora resolveu descontar na comida. Sugeri que ela fosse ficar com a mãe dela, mas parece que Meg foi viajar num cruzeiro.

SKINNER: - Mulder... Eu sei que você está doido para pegar esse caso dos Laboratórios Dutsh. Eu e você sabemos que tem dedo daquele fumante nisso. E sabemos que por isso mesmo, Kersh não quer você nas investigações para proteger aqueles homens.

MULDER: - (CÍNICO) Claro Skinner. Tudo que se refere a expor aquela gente é afastado de mim e da Scully... Agora não seria diferente... Mas não se preocupe com isso. Eu vou descobrir a verdade. Vou pegar quem explodiu aquela droga.

SKINNER: - Mulder, vá com calma. Estão caçando você aqui dentro. E não conseguem nada contra você. Não duvide que não vão apelar pra métodos baixos.

MULDER: - Skinner, preocupe-se com você e fique fora disso. Já me ajuda muito que você fique fora.

SKINNER: - Mulder... Você está bem?

Mulder suspira. Olha pra Skinner.

MULDER: - ... Bem demais pra quem tem apenas cinco meses de vida.

Mulder levanta-se. Sai da sala.


Corta para o corredor.

Scully anda de um lado para outro, braços cruzados, nervosa. Mulder passa por ela e a puxa pelo braço. Os dois caminham até o elevador, aos cochichos.

SCULLY: - Mulder, estou com medo. Kersh ameaçou você. E me ameaçou. Você viu, ele fez isso declaradamente ali.

MULDER: - Ele não vai conseguir provas que incriminem a mim ou ao Sindicato, Scully. Não se preocupe. Eu só sinto pesar pelo Skinner, que está no meio do tiroteio e eu não posso avisá-lo.

SCULLY: - Vocês deveriam ter explodido é a sala do Kersh. Ontem ligaram na mesma hora do ‘incidente’ para falar com você. Eu disse que estava dormindo. Da minha parte, sabe que confirmarei que você estava comigo. Dane-se se estarei admitindo nosso envolvimento emocional.

MULDER: - Scully... Chegou a hora. Não dá mais, entende? Tudo está caindo na nossa cabeça. A pedra despencou ladeira abaixo e salve-se quem puder.

Mulder aperta o botão do elevador. Scully olha pra ele, nervosa. Mulder sorri. Os dois entram no elevador. Mulder aperta o botão. Scully numa fisionomia tensa. Mulder leva sua mão de encontro à mão dela e a segura com força. Scully olha pra ele e lhe sorri. Mulder olha pra ela. Move os lábios dizendo ‘eu te amo’.


Apartamento de Mulder – 7:14 P.M.

A pequena mão despeja comida para o peixe. Scully vira-se e atira o pote de ração que passa raspando da cabeça de Mulder.

SCULLY: - (GRITA) Droga Mulder!

MULDER: - ...

SCULLY: - (GRITA) Eu estou cansada! Cansada! A minha vida tem sido um inferno, sabia? Não, você não sabe, você nunca presta a atenção em mim!

MULDER: - ...

SCULLY: - Você decide tudo sozinho, sempre. E eu fico feito uma cachorrinha atrás de você! Eu cansei!

MULDER: - Sc...

SCULLY: - (GRITA) Me escuta! Cala a sua boca e me escuta! Eu perdi um filho e segurei a barra toda sozinha, porque você caiu! Você me pede pra confiar em você e no entanto, trabalha pros mesmos homens que tomaram o nosso filho! Você está morrendo de um tumor cerebral e finge que tudo está bem! Mulder, olhe pra você!!! É um homem obcecado numa vingança! Até quando vou ficar escondendo das pessoas que você está fazendo quimioterapia? Ahn? Acha que por que seus cabelos cresceram não vão cair novamente? Mulder, olhar pra você me dói! Você está cheio de olheiras! As pessoas me perguntam o que você tem, todo mundo por aqui já percebeu que está pálido e magro! Não adianta mais ficar usando minhas maquiagens e roupas folgadas!

Mulder abaixa a cabeça.

SCULLY: - A doença te consome, eu não tenho as respostas, você não quer aceitar ajuda de ninguém e prefere morrer, seu egoísta! Mulder, você nunca se importou comigo! As suas atitudes estão me empurrando pra um poço fundo do qual eu nunca mais terei saída! Sim, estou fora do meu peso. O que me resta se não comer? Você não me manda ficar quieta e seguir você? (ÓDIO) Pois calo minha boca com comida!

MULDER: - ...

SCULLY: - Fui ao psicólogo. Quer saber o resultado? Quer? Ele diz que eu me tornei uma compulsiva por comida porque assim eu vejo em mim a barriga que eu nunca terei, que foi tirada de mim! Uma forma inconsciente de pensar que esteja grávida!

Mulder senta-se no sofá, de frente pro aquário. Põe as mãos no rosto.

SCULLY: - Pelo menos eu passo meu tempo consumindo calorias! E a única caloria que eu queria é a luz da sua vida, mas você não a quer deixar brilhar!

MULDER: - ...

SCULLY: - (DESESPERADA) Mulder, você está morrendo e eu não posso fazer nada! Eu não consigo mais ficar quieta e ver você definhando aos poucos! Como pode Mulder? Como você pode ser tão egoísta a ponto de querer morrer como um mártir e me deixar sozinha?

Mulder levanta-se. Olha pra ela.

MULDER: - (GRITA) Você sabia quem eu era quando me conheceu! Sabia que eu morreria pela verdade! Portanto, Scully, empanturre-se com o que quiser, porque eu não estou nem aí pra isso! Porque a única coisa que eu tenho mesmo, de verdade, é o meu câncer! E se eu quero morrer, eu tenho direito de morrer. Não percebe que está controlando a minha vida? Eu não tenho mais escolhas? Acha que porque amo você tenho que passar o resto da minha vida remoendo coisas das quais me arrependo de ter feito? Não, Scully. Sinto muito. Estou cansado. Eu não quero mais viver.

SCULLY: - Quem está cansada sou eu, Mulder! Você ficou obcecado em encontrar nosso filho e parece que estabeleceu uma troca: ou ele ou você.

MULDER: - Está me acusando? É isso?

SCULLY: - Estou!

MULDER: - Ora, Scully! Você ama mais o seu filho do que a mim! Se tiver ele em seus braços, você nem vai se lembrar de quem era Mulder! O que estou fazendo é por você!

SCULLY: - Eu não quero ter meu filho de volta e perder você!

MULDER: - Pois eu vou me esfolar, mas não dou meu último suspiro sem antes entregar essa criança nos seus braços. E a única chance que tenho de encontrá-la é trabalhando pra esses caras!

SCULLY: - Acha que tem muito tempo pra isso? Acha?

MULDER: - Cinco meses de vida é um bom tempo.

Scully põe as mãos nos lábios.

SCULLY: - Mulder... não...

MULDER: - Eu fui ao médico novamente... O tumor aumentou. Portanto, pare de brigar comigo. Cada minuto pra mim é precioso... E eu não quero desperdiçar meu tempo brigando com você.

Scully abraça-se nele. Os dois ficam abraçados, cabisbaixos.

Corta para o aquário. O peixinho nada tranquilamente de um lado para o outro, enquanto a pequena nave espacial flutua, revelando a lente de uma câmera.

Mulder observa o aquário, com o rosto entre os cabelos de Scully.


10:23 P.M.

Scully deitada na cama. Mulder sai do banheiro, com a mão na barriga. Scully olha pra ele com piedade.

SCULLY: - Desculpa. Não devia te forçar a comer pizza. Tá melhorzinho?

MULDER: - Estou verde. Acho que vou vomitar de novo.

SCULLY: - ...

MULDER: - (DEBOCHADO) Scully, acho que estou grávido.

Scully tem um acesso de riso.

MULDER: - (DEBOCHADO) Nada para no meu estômago nesses últimos meses... Ai...

SCULLY: - (DEBOCHADA) Viu? Eu disse pra não se basear em tabelinha. Sua menstruação veio normal esse mês? Quem fez isso com você, Mulder? Quem foi o desgraçado que te engravidou e não assumiu?

MULDER: - Ha-ha-ha. Como você é engraçadinha... Ai, eu tô sofrendo!

SCULLY: - Quer outro antiácido?

MULDER: - Não.

Mulder deita-se ao lado dela e se encolhe. Scully o abraça por trás.

SCULLY: - Dorme vai... Você precisa dormir bastante.

MULDER: - Cuida de mim hoje?

SCULLY: - Cuido.

Mulder fecha os olhos. Scully aconchega-se contra as costas dele, afagando-lhe os cabelos.

Corte.


Marita vira-se com a cadeira, de costas para o monitor de TV. Olha para Krycek.

MARITA: - Quimioterapia deixa a pessoa com o estômago revoltado... Sabe que química demais no corpo afeta o organismo.

KRYCEK: - Então ele está pior do que aparenta. Mas por que esse desgraçado não aceita ajuda?

MARITA: - Porque ele não sabe o preço. Talvez o preço seja encontrar o filho e ter que entregá-lo. Sabe que ele prefere morrer a fazer isso... (SUSPIRA) O preço... Ninguém sabe o preço de nada. Assim como você. Por que não pulamos fora disso? Porque ambos sabemos que vão nos encontrar e será pior. Alex, não há lugar para onde fugir. Sabe que é só uma questão de tempo e eles nos encontram.

KRYCEK: - Espero que em cinco meses consigamos encontrar essa criança. Se a tivermos, Mulder pode morrer, é indispensável.

MARITA: - E até quando vão esperar?

KRYCEK: - Até que ele dê entrada no hospital morrendo. Se até lá não tivermos essa criança, vamos implantar um chip nele à força. Por bem ou por mal.

Marita olha pra Mulder e Scully pelo monitor. Scully afaga os cabelos de Mulder, derrubando lágrimas.

MARITA: - Às vezes isso me dá nojo. Olha pra ela! Ela só quer ter uma vida, um marido, um filho! E não tem direito nem ao básico de um ser humano.

KRYCEK: - Pense assim: antes ela do que você.

MARITA: - Não sei. Pelo menos ela tem alguma coisa. Eu não tenho nada, não é mesmo? Pois invejo essa mulher!

Marita levanta-se e sai da sala, batendo a porta. Krycek olha para o monitor.

KRYCEK: - (SUSPIRA) O que será que ela quis dizer com isso?


Arquivos X – 9:31 A.M.

[Som: Filter – Consider This]

Silêncio angustiante. Mulder procura alguma coisa em uma pasta. Sentado em sua cadeira, ele retira folhas, lê, coloca de volta, puxa outras.

Corta para Scully. Ela o observa, enquanto se empanturra com bombons.

Mulder está distraído, não olha pra ela.

O telefone toca. Nenhum deles atende. Ela porque o observa, triste. Ele porque está atolado no trabalho. Sem desgrudar os olhos do que faz, ele fala com ela.

MULDER: - Atende pra mim?

Scully estende o braço até a mesa e atende ao telefone. Mulder continua prestando atenção no que faz, em silêncio.

SCULLY: - Agente Scully... Sim, senhor... Estou indo.

Scully desliga. Mulder fala com ela sem tirar os olhos dos papéis.

MULDER: - O que Skinner queria?

SCULLY: - Era Kersh. Me pediu pra ir até sua sala.

Scully espera uma resposta dele. Mulder continua lendo os papéis. Scully sai, feito um cachorrinho que quer atenção mas percebe que não terá. Fecha a porta atrás de si, olhando pra ele com carência.

Mulder continua olhando os papéis. Pega o telefone e disca.

MULDER: - ... Achei... Foi um caso em 1984, em Kansas... Foram... Olha, por base eu tenho aqui 300 pessoas... Sim... Está arquivado nos Arquivos-X...

Mulder muda a fisionomia para preocupação.

MULDER: - Não está me pedindo isso... Não, eu não acredito que você está me pedindo isso!

Mulder fecha os olhos.

MULDER: - Eu não vou participar disso! Eu já disse que minha participação se limita apenas a servir de cobaia pra quando precisarem e expor os alienígenas. E ferrar com Strughold! Eu não vou participar de encobrimento e supostas abduções de pessoas... Como assim ‘não tenho escolha’? Escute meu conselho, seu fumante desgraçado: melhor nem me contar nada do que planejam. Porque eu vou usar isto contra vocês. Ainda somos inimigos. E não me ameace. Se me sentir ameaçado, eu vou reagir. E não ouse ameaçar Scully. Se alguma coisa acontecer a ela, eu juro que vou matar vocês todos, um por um, pouco importa a minha descendência. E sabe que não estou brincando.

Mulder desliga. Liga outro número.

MULDER: - Sou eu. Planejam abduzir algumas pessoas para testarem a vacina, no mesmo local que ocorreu a operação de 1984, no Kansas... Não, eles não têm a vacina. Pra mim estão criando alguma coisa baseada nas minhas células, como os aliens fizeram e isso é apenas uma desculpa... Não, estou de olho neles... Acha que está lidando com um imbecil, Alex Krycek? ... Não, eu não quero saber. Se estamos juntos, estamos juntos. Não questione meus métodos que não questionarei os seus!

Mulder desliga. Liga outro número.

MULDER: - Senhor Phillips, por favor... Fox Mulder... Bom, ele me ligou ontem, pedindo que entrasse em contato... É sobre um funeral que encomendei... Sim, eu prefiro a coisa do crematório... Não, minha mulher sente-se melhor assim, eu só quero realizar um desejo dela... Sim... Tudo bem, eu aguardo a ligação. Não, ele tem o número do meu celular.

Mulder desliga. Olha para o celular sobre a mesa. Pega-o. Começa a brincar com as teclas. Coloca o celular sobre a mesa novamente. Levanta-se. Veste o paletó.

Corte.


Mulder sai da sala, levando consigo um bloco de papel e uma caneta. Fecha a porta. Pega um segundo celular, que estava dentro do paletó. Aperta uma tecla.

MULDER: - ... Bom dia. Estou procurando a senhora Taylor... Meu nome é Saul Watkins, mas ela não me conhece. Minha esposa esteve aí em sua loja, interessada em um quarto para bebê... Aguardo...

Mulder apoia o celular entre o ombro e a orelha. Coloca o bloco contra a parede e rabisca no papel, passando o tempo.

MULDER: - .... Bom dia, senhora Taylor. Sou o marido da senhora Watkins. (SORRI) Sim, eu gostei muito das fotos. Estou ligando para informá-la que nós concordamos. Pode separar esse modelo pra nós? ... Sim, ela ficou muito feliz, falou nisso a semana toda e eu não quero desapontá-la... Sim, com certeza o ‘júnior’ vai gostar... (MULDER OLHA PRO RELÓGIO EM SEU PULSO) Bem... Certo, eu tenho tempo agora... Não, prefiro fazer o pagamento em dinheiro vivo... Combinado então... Endereço da entrega? Bom, senhora Taylor, eu mesmo me encarregarei disso. Obrigado pela atenção.

Mulder desliga.

Close no papel rabiscado onde está escrito: ‘vitória!!!!’.

Mulder guarda o celular e sai pela porta dos fundos, levando o bloco consigo, num sorriso.


BLOCO 2:

Arquivos –X – 11:31 A.M.

Scully entra na sala. Fecha a porta. Encosta-se na porta, colocando as mãos no rosto. Chora convulsivamente a ponto de soluçar. As feições suaves dela se transformam em marcas de mágoa e humilhação. O desespero e o cansaço são visíveis. O azul dos olhos reflete tristeza.

Ela caminha até sua cadeira. Senta-se. Inclina-se com os braços por cima da mesa, abaixando a cabeça sobre eles. Ela quer chorar alto, gritar de raiva, mas cala seu choro, o engolindo.

Mulder entra na sala, com a felicidade estampada no rosto. Segura nas mãos um pacote de presente, achatado e quadrado.

Scully está com os braços cruzados sobre a mesa, cabisbaixa, e não o percebe entrar. Mulder sorri.

MULDER: - Dormindo em serviço, agente Scully?

Scully ergue o rosto, virando-se com a cadeira rapidamente para trás e enxugando as lágrimas.

SCULLY: - (SORRI/ DISFARÇANDO) É, estou com sono.

Mulder fica sério. A fisionomia de felicidade se transforma em desconfiança. Ele larga o pacote sobre sua mesa. Aproxima-se de Scully e a segura pelos ombros, virando a cadeira. A pega no flagra.

MULDER: - (TRISTE) Estava chorando.

SCULLY: - Não, foi um cisco que caiu no meu olho e...

MULDER: - (ÓDIO) Scully, o que fizeram pra você?

SCULLY: - (SORRI) Nada, Mulder...

MULDER: - Scully... Fizeram alguma coisa contra você? Magoaram você? Alguém gritou com você? Quem fez isso?

SCULLY: - Você já tem problemas demais, não foi nada de importante...

MULDER: - Scully...

Scully franze o cenho, levanta e se abraça nele chorando convulsivamente. Mulder a abraça, afagando seus cabelos, com ternura.

MULDER: - (PREOCUPADO) O que aconteceu? Ahn? Me conta?

SCULLY: - (CHORANDO)

MULDER: - (TERNURA) Conta pra mim. O que aconteceu? Quem é que te fez chorar?

Corte.


[Som: Oasis - Wonderwall]

A porta do elevador abre-se. De dentro dele sai Mulder, com os punhos cerrados, a cara de poucos amigos. Scully atrás dele, correndo, tentando segurá-lo. Os agentes no corredor observam.

SCULLY: - (CHORANDO) Mulder, não...

Mulder não responde. Os olhos verdes escurecidos de raiva.

SCULLY: - (SUPLICA) Mulder, por favor... Não faz isso...

Mulder não escuta. Surdo e cego de ódio, entra na sala da diretoria. A secretária levanta-se.

SECRETÁRIA: - Pois não?

Mulder passa por ela. Ela se põe na frente dele.

SECRETÁRIA: - Estão na sala de reuniões. Não pode entrar lá...

Mulder empurra a mulher.


Sala de Reuniões – 11:49 A.M.

Carter olha para os diretores assistentes ali. Todos sentados à mesa.

KERSH: - Em síntese, acho que a operação referente à prisão dos membros da quadrilha atuante, foi satisfatória... Quanto ao caso dos Laboratórios Dutsch, coloquei agentes de diversas seções, incluindo da divisão de crimes violentos. No prazo máximo de uma semana já teremos alguma prova incriminatória e os responsáveis serão presos.

CARTER: - E você, Skinner? Alguma novidade do ‘outro mundo’?

Os diretores todos riem. Skinner olha pra ele.

SKINNER: - Tenho meus relatórios aqui...

A porta abre-se num supetão. Todos olham assustados. Mulder entra, caminhando em direção a eles, parece com o diabo no corpo, de tanta fúria. Punhos cerrados.

CARTER: - Agente Mulder, isso não são modos de entrar na sala da direção. Estamos em reunião. Se tiver algo a reportar, espere lá fora.

Mulder agarra Kersh pelo pescoço o fazendo levantar-se da cadeira. O empurra contra a parede. Todos se levantam da mesa.

CARTER: - Agente Mulder!

Skinner olha pra porta e vê Scully no corredor, chorando. Levanta-se. Vai até Mulder.

SKINNER: - Mulder seja o que for...

Mulder olha com ódio nos olhos de Kersh.

MULDER: - (ÓDIO) Sai daqui, Skinner. É entre eu e esse sujeito.

CARTER: - Agente Mulder!

MULDER: - Você deve desculpas a uma pessoa. E eu só vou soltar você quando for até lá fora pedir desculpas.

CARTER: - Está sendo insubordinado!

MULDER: - (GRITA COM FÚRIA) Me demitam!!!!!!!!!!

Mulder aperta o pescoço de Kersh que já está sem ar. McKenna pega o telefone.

MCKENNA: - Mandem o pessoal da segurança até a sala de reuniões. Rápido!

MULDER: - (RAIVA) Você é uma praga, Kersh... Uma maldita praga! Eu juro que você vai me pagar caro, muito caro...

SKINNER: - (NERVOSO) Mulder, por favor.

Skinner tenta afastar Mulder, mas Mulder empurra Skinner. Kersh se afasta. Mulder caminha atrás de Kersh, cerrando os punhos, o caçando por cada canto da sala, com o olhar dirigido apenas à sua presa. Skinner se coloca na frente de Mulder. A tensão está estabelecida.

SKINNER: - (GRITA) Mulder, para!!!!

MULDER: - (GRITA COM ÓDIO/ APONTANDO PRA KERSH) Esse imbecil deve desculpas a Scully!

KERSH: - Ela pediu pra ouvir isso!

Mulder avança nele. Skinner se mete na frente segurando Mulder.

SKINNER: - (NERVOSO/ GRITA) Mulder! Volte pra sua sala! Falaremos disso depois...

MULDER: - Eu vou arrebentar a sua cara, Kersh...

Kersh avança em Mulder. Skinner tenta apartar, mas acaba tomando um soco e voando por cima da mesa. Mulder e Kersh se atracam a porradas e pontapés. Carter fica catatônico. Scully entra na sala, aos prantos e gritos.

SCULLY: - (GRITA AOS PRANTOS) Mulder, não!

Mulder está surdo de ódio. Kersh acerta um soco nos lábios de Mulder, os cortando. Mulder parte em cima dele, acertando sua cara, fazendo os óculos dele voarem pela sala. Kersh mete um soco no estômago de Mulder. Mulder recua. Skinner se põe na frente de Kersh. Mas Kersh o empurra, atacando Mulder de novo. Mulder acerta vários golpes no estômago de Kersh, deixando ele ir ao chão. Scully põe as mãos no rosto, desesperada, chorando. McKenna socorre Kersh, que ainda quer se levantar e pegar Mulder. Mulder limpa o sangue da boca e o chama com as mãos.

MULDER: - (GRITA/ ÓDIO) Vem! Vem que isso é entre eu e você! Vou te ensinar a não ofender uma mulher!

KERSH: - (GRITA/ PROVOCANDO) Ela ouviu o que tinha de ouvir!

MULDER: - (GRITA) E você vai apanhar o que tem que apanhar!

Mulder pula em cima de Kersh. Os dois saem aos socos pela sala, derrubando os troféus de Carter, quebrando os móveis, destruindo tudo. Carter corre, se escondendo atrás da bandeira do FBI, espiando a briga e roendo as unhas. Skinner e McKenna tentam separá-los, mas não conseguem. Mulder toma um soco no olho e mete outro em Kersh, lhe arrebentando o lábio. O sangue deles começa a correr. Agentes entram na sala. Separam os dois.

KERSH: - (GRITA) Tirem o agente Mulder daqui e o coloquem em vigilância. Retirem sua arma e distintivo até ele se acalmar.

Eles saem arrastando Mulder, que ainda olha com gana pra Kersh. Carter sai de trás da bandeira, assustado.

KERSH: - (COM ÓDIO/ PROVOCANDO) Eu vou te ferrar, Mulder!

MULDER: - (GRITA) Seu filho de uma vaca! Eu vou fazer você engolir o que disse pra ela!

KERSH: - (GRITA) Você está quebrando protocolos!

MULDER: - (GRITA) Protocolos? Eu vou enfiar o protocolo todo no seu rabo, seu merda!

SKINNER: - (GRITA) Agente Mulder!

MULDER: - (GRITA) Se querem abrir investigação sobre isso, comecem pelas coisas nada profissionais que esse imbecil disse à agente Scully!

Todos olham pra Kersh. Kersh pega seus óculos e calmamente fala.

KERSH: - Eu não disse nada além da verdade. Que ela é a prostituta oficial do FBI.

Mulder tenta se desvencilhar dos agentes.

MULDER: - Eu vou te matar... (TENTA SE SOLTAR, TOMADO DE RAIVA)

SKINNER: - Mulder, pelo amor de Deus!

KERSH: - (PROVOCANDO) Deveria ficar fora disso, o assunto é entre eu e a agente Scully. E ela quebrou regras ao contar a um colega assuntos confidenciais.

MULDER: - (GRITA) Vou quebrar essa sua cara cínica!

KERSH: - Tirem o agente Mulder daqui! Ele é louco. O internem.

Mulder está tão fulo da vida, que a artéria saltita em seu pescoço. Segura-se na porta, evitando que os agentes consigam tirá-lo da sala.

MULDER: - (GRITA) Vem aqui e me encara, seu safado. Diz na minha cara o que você disse pra ela.

Skinner e McKenna olham pra Kersh, incrédulos.

MULDER: - (GRITA) Não tem coragem, não é? Você só tem coragem de falar isso pra uma mulher, seu merda! Vem falar isso na minha frente, vem! Ou não é homem pra isso?

Kersh avança em Mulder. Os dois a socos. Carter põe as mãos na cabeça, nervoso. Os agentes apartam os dois de novo. Um quer avançar no outro.

MULDER: - (GRITA) Fala! Fala na minha frente! Você deve desculpas a ela pelas coisas infames que disse! Você a magoou!

KERSH: - Eu sou um diretor-assistente, não devo desculpas pra uma agentezinha vagabunda.

Mulder se solta, tomado de ódio. Começa a esmurrar Kersh. Eles os separam. Kersh continua provocando.

MULDER: - (GRITA) Vagabunda é a sua mãe, seu merda! Vou fazer você engolir cada palavra que disse a ela.

CARTER: - (GRITA) Agente Mulder! Comporte-se ou será suspenso do FBI pra sempre.

MULDER: - (GRITA) Me suspendam! Eu tenho porte de arma igual e vou te pegar, filho da mãe. Eu sei onde você mora.

KERSH: - (RINDO) Tudo isso por causa de umas palavras verdadeiras pra essa agentezinha? Está nervoso por que eu disse verdades e sua coleguinha não gostou?

MULDER: - (GRITA) Você a ofendeu!

KERSH: - E daí? Quem se importa com isso?

MULDER: - (GRITA) Eu me importo. Você não foi profissional!

KERSH: - E você o está sendo agora? Agredindo o diretor-delegado? Pois vai pagar caro a sua ousadia, agente Mulder.

MULDER: - (GRITA) E você vai pedir desculpas à ela.

KERSH: - Não vou pedir desculpas pra essa cachorra.

MULDER: - (GRITA) Ninguém chama a minha mulher de cachorra na minha frente!

Todos olham pra Scully. Skinner fecha os olhos. Mulder cai em si.

KERSH: - (VITORIOSO) Sua mulher??? Sabe que o que acabou de admitir aqui, na frente de diretores e agentes?

MULDER: - (GRITA/ ÓDIO) É, a minha mulher sim! E danem-se vocês todos! E principalmente você, Kersh. Eu juro que vai engolir cada palavra do que disse pra ela! Eu juro!

Skinner respira fundo, fechando os olhos. As pernas tremem. Senta-se. Mulder tentar se desvencilhar, mas é arrastado pra fora da sala. Todos olham pra Scully. Ela sai da sala, chorando, desatinada. Passa por agentes no corredor que estão observando a bagunça. O burburinho e as fofocas começam. Ela entra no elevador, com as mãos no rosto, chorando.


12:34 P.M.

Mulder, sentado numa cadeira, na cozinha. Treme, os nervos abalados. Chuck lhe entrega um copo com água.

CHUCK: - Bebe, Mulder... Precisa se acalmar.

MULDER: - ... Chuck, me deixa sozinho, tá legal?

CHUCK: - Só quero dizer que gostei da sua coragem. E acho que o Bureau todo estava concentrado na sua mão. Porque Kersh é um filho da mãe mesmo. Você fez o que todos queriam ter feito aqui dentro.

MULDER: - ... (TREMENDO)

CHUCK: - Se precisar de testemunhas de que ele começou a briga, tem mais de 20 agentes dispostos a defender ‘o estranho’. Eu teria feito o mesmo se ofendessem minha namorada.

MULDER: - Eu ferrei com tudo... (DESESPERADO) Eu entreguei o jogo! Entreguei meu relacionamento com Scully. Assinei a quebra de protocolo na frente da própria diretoria!

Chuck sai. Mulder apoia-se na mesa, ainda tremendo de ódio. Não consegue chorar, de tanta raiva acumulada no corpo.

Corta para o maço de Morley jogado à frente dele sobre a mesa.

CANCEROSO: - Eu disse que precisaria disso.

Mulder continua tremendo. O Canceroso sopra a fumaça. Olha pra ele.

CANCEROSO: - Você me decepciona.

MULDER: - (SE CONTÉM)

CANCEROSO: - Criou um atrito a níveis que talvez eu não consiga encobrir.

Mulder olha pra ele.

MULDER: - Se chamassem sua mulher de cadela vadia que dorme com todos do Bureau, você ficaria quieto?

CANCEROSO: - Ficaria.

MULDER: - ... (SORRI DESANIMADO) Que bom que somos diferentes.

CANCEROSO: - Se alguém chamasse minha mulher de cadela vadia eu simplesmente não diria nada. Esperaria ele sair e daí eu falaria. Bem longe do meu trabalho. Falaria do meu jeito, de modo que se ela é cadela, eu o tornaria um punhado de ossos enterrados numa cova clandestina.

Mulder apoia os cotovelos na mesa. Coloca as mãos na cabeça, angustiado.

MULDER: - ... Enfiei os pés pelas mãos. Era isso o que ele queria. Entreguei minha cabeça. Como não percebi? Meu Deus, ele sabia que pra me atingir poderia usar a Scully!

CANCEROSO: - Um homem cego de amor é um homem cego de ódio. Algumas vezes precisamos engolir e calar. O troco vem depois. Você tem tempo para esfriar a cabeça e planejar algo a altura.

MULDER: - Queria ter a sua cabeça fria, eu faria menos besteiras.

CANCEROSO: - Não sei a quem puxou, você é muito esquentado. Precisa esfriar o sangue.

MULDER: - Me ferrei. Agora me ferrei! Você vai perder seu contato aqui. Estou fora do FBI... E com certeza do seu grupo!

CANCEROSO: - Mulder, tenho um maluco de dupla personalidade guiando o FBI, graças ao russo. Até perdoei Alex Krycek por ter matado Krauft. Com Krauft aqui teria sido pior. Carter é manipulável. Todo homem tem um preço. E eu sei quanto Carter custa e seu histórico de preferências sexuais.

MULDER: - E Kersh? O que vai fazer com Kersh?

CANCEROSO: - Nada. Kersh é problema seu. Você tem contas pessoais a acertar com ele. Eu quero a cabeça de Strughold. Acho que até me animaria a comer os miolos dele num banquete regado a vinho tinto. Se me livrar de Kersh ou Carter, Strughold arranjará outro aqui dentro. Não pode pensar assim. Precisa extirpar o mal pela raiz. Ou ele brotará de novo.

MULDER: - ...

CANCEROSO: - Ofereci algo há tempos e você recusou. Estou oferecendo novamente, Mulder. Espero que agora tenha visto com seus próprios olhos o porquê devo proteger meu time.

MULDER: - ...

CANCEROSO: - Somos humanos, não somos? Amamos, nos importamos, queremos ter nossa família segura.

MULDER: - Não...

CANCEROSO: - Mulder, pense. Está na hora de tirar Scully daqui. Eu não posso mais protegê-la. Nem você pode. Não percebe? Eles vão usá-la contra você.

MULDER: - É a vida dela isto. Ela tem uma carreira.

CANCEROSO: - Como a ‘vadia do bureau’?

MULDER: - ...

CANCEROSO: - Mulder, tire sua mulher daqui. Ela terá tudo o que precisa. Casa, carro, segurança, identidade nova. Bem longe dos olhos. É um bairro nobre, segurança armada. Ela terá amigas e terá Samantha por perto. Terá liberdade, porém vigiada. Não que eu não confie em você. Eu não confio em Strughold.

MULDER: - Eu preciso falar com ela...

CANCEROSO: - Sabe que Scully não vai ir contra você. Ela é uma mulher comum, o melhor tipo de mulher. O sonho dela está a um passo de se realizar, é só você me dizer sim. Ela poderá clinicar se quiser. Montar um consultório. Por que não um hospital? Atender apenas as famílias dos nossos.

MULDER: - Eu não confio em você.

CANCEROSO: - Mulder, precisa confiar em alguém. Ou ficará louco.

MULDER: - Estou louco.

CANCEROSO: - Aceite aquele chip. Pegue sua cura.

MULDER: - Não!

CANCEROSO: - Então pelo menos dê um futuro digno para ela... Eu gosto da agente Scully. Ela poderia trabalhar conosco. Afinal ela é uma profissional altamente capaz de exercer suas funções.

MULDER: - ...

CANCEROSO: - Ou vai morrer e deixa-la à sorte? Acha que ela vai conseguir progredir aqui?

MULDER: - ...

CANCEROSO: - Mulder, estou falando de problemas comuns aos mortais: dinheiro, sobrevivência.

Mulder levanta-se.

MULDER: - Preciso pensar. Me deixe pensar de cabeça fria. Vou pegar Scully e vamos sair fora daqui, pra conversar.

CANCEROSO: - Ótimo. É um bom começo.

Mulder pega o cigarro. Acende um. Nervoso. O Canceroso olha pra ele.

MULDER: - Estou desabando... (DERRUBA LÁGRIMAS) ... Eu... Eu não sei mais quem eu sou. Estou fazendo coisas que vão contra minha natureza, coisas que não reconheço em mim.

CANCEROSO: - Quando eu tinha sua idade, já tinha muito poder nas mãos. E me perguntava todos os dias da minha vida: o que adianta isto se este não sou eu?

Mulder olha pra ele.

CANCEROSO: - Quer desistir, Mulder, desista. Eu protegerei você. Saia daqui, terá tudo o que precisa. Nunca mais precisará trabalhar ou correr perigo. Terá tudo o que quiser. Afinal, não tenho muitos descendentes para deixar o que adquiri.

MULDER: - Eu não posso fazer isso.

CANCEROSO: - Orgulho?

MULDER: - Não. Eu gosto de fazer o que faço. Eu gosto de lutar contra isso e contra você.

CANCEROSO: - (SORRI) Você é o único inimigo que tenho à altura.

MULDER: - Recíproca verdadeira. Por isso te respeito.

Mulder olha pra ele. O Canceroso levanta-se.

CANCEROSO: - Pense. Espero a resposta. Sei que não vai desistir. Você é obcecado como eu sou.

MULDER: - ...

CANCEROSO: - Mentiras vêm à tona, Mulder. Você deveria saber disso melhor do que eu. Use sua diplomacia. Não adianta mais negar seu envolvimento com Scully aqui dentro. Acho que deveria ir a uma certa festa. Lave a honra da sua mulher. À altura do que ela significa pra você. Admita pra você mesmo que é um homem. Mas da maneira correta. Surpreenda o seu inimigo.

O Canceroso sai. Mulder abaixa a cabeça, soprando a fumaça.


Arquivos X – 1:06 P.M.

Mulder entra. Scully, olhos inchados de chorar, guarda seus objetos pessoais numa caixa. Mulder olha pra ela ternamente.

MULDER: - Não faz isso.

SCULLY: - Como vou encarar essa gente depois disso? Como? As pessoas aqui dentro passam por mim e ficam falando aos cochichos sobre nós dois! Acha que Carter vai nos deixar aqui? Eu não saio daqui! Eu não aceito transferência! Meu lugar é nesse porão com você! Independente se somos ou não apaixonados, nós temos um trabalho juntos, nós funcionamos juntos! Mulder, eu sem você ou você sem mim, acabam os Arquivos-X. Isso é nosso... É uma década inteira de vida aqui dentro.

Scully começa a chorar de novo. Mulder a abraça. Scully abraça-se nele.

MULDER: - (COCHICHA) Chega, Scully. Não vou mais esperar. Você está sofrendo demais, e isso só me deixa mais triste.

Mulder toma o rosto dela nas mãos e olha em seus olhos.

MULDER: - Há vida dentro de você. Você não precisa passar por isto.

Scully sorri entre lágrimas. Mulder beija-lhe a testa. Scully se abraça nele, feito um bichinho carente. Mulder a mantém entre os braços, apoiando o queixo na cabeça dela. A embala.

O telefone toca. Mulder a solta. Beija-lhe a testa. Atende ao telefone.

MULDER: - Mulder... (OLHA PRA ELA) Sim, senhor... Já estou subindo.

Mulder desliga. Passa as mãos no rosto. Coloca as mãos na cintura, mordendo os lábios numa fisionomia de preocupação.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Nada.

SCULLY: - Mulder...

Mulder olha pra ela.

MULDER: - Querem que eu assine... Minha demissão.

Scully fecha os olhos. Derruba lágrimas.

SCULLY: - Estraguei tudo... Eu estraguei o seu trabalho, a sua vida...

Mulder olha pra ela.

MULDER: - Minha vida é você.

SCULLY: - Não...

Scully sai correndo da sala, segurando as lágrimas. Mulder pega seu paletó e sai atrás dela.


Gabinete do diretor-assistente – 1:19 P.M.

Skinner olha fixamente para Mulder sentado à sua frente. Mulder olha pro nada. O silêncio é grande. Mulder desvia o olhar pra cima da mesa. Olha fixamente para seu distintivo e sua arma. Skinner olha pra ele.

SKINNER: - Isso foi estupidez.

MULDER: - ... Eu sei.

SKINNER: - Foi uma cilada. Como não percebeu?

MULDER: - Porque cheguei a um ponto de que ver uma lágrima da Scully me soa como desaforo pessoal e afeta diretamente meu senso de compostura. Tantos anos aqui e sempre a maldita humilhação e quando querem se vingar de mim, é nela que o fazem. Covardes!

SKINNER: - Eles não conseguiram por meios diplomáticos. Estavam lhe dando os piores casos pra ver se vocês desistiam do Bureau. Como vocês não fizeram, apelaram pra atitudes baixas e medíocres. Qualquer meio, contanto que atingissem você, Mulder. Isso não foi atitude de um diretor-delegado do FBI! Isso foi vulgar, baixo e nem mesmo a minha vizinha fofoqueira faria isso com alguém do prédio!

MULDER: - (PÕE AS MÃOS NO ROSTO) ...

SKINNER: - Você percebeu? Toda a diretoria já sabia do caso de vocês, mas eles fizeram questão de criar burburinho e chamar agentes pra retirar você de lá. Querem espalhar isso por todo o FBI, como um bando de velhas fofoqueiras. Querem que você saia e que Scully se sinta mal aqui dentro até pedir demissão.

MULDER: - ... O que mais vão fazer pra atingir eu e Scully?

SKINNER: - Há um novo vice-diretor, Mulder. Vai tomar posse na próxima semana. Ainda não divulgaram o nome do sujeito, estão mantendo a sete chaves. A lista de inimigos anti Mulder e Scully aumenta a cada dia aqui dentro... Como ela está?

MULDER: - Em cacos.

SKINNER: - ... E você?

Mulder olha pra Skinner.

MULDER: - Sem meus pés. Não esperava por isso.

SKINNER: - Mulder sei que o Bureau é tudo pra você e...

MULDER: - (SORRI) Engana-se Skinner. Há muito tempo isso aqui deixou de ser a minha prioridade.

SKINNER: - ???

MULDER: - Gosto do que faço, mas pra mim agora é apenas um emprego. Uma maneira de sobreviver e pagar minhas contas. A minha busca, a minha paixão e curiosidade pelo paranormal, pode continuar lá fora sob um distintivo de policial ou detetive particular. As mentiras serão sempre as mesmas. Tanto faz eu ser um federal, um detetive ralado ou um simples cidadão.

SKINNER: - ... Mulder, não está apenas se resignando?

MULDER: - Skinner não é a primeira vez que me passam uma rasteira. Com o tempo você cria calos e passa a ver as coisas sob outro ponto de vista.

SKINNER: - Mulder, se eu pudesse...

MULDER: - Eu sei, Skinner. Mas não adianta criar tumulto por minha causa. Mantenha-se firme nessa cadeira, porque infelizmente, homens como você não chegam até o topo. Não costumam vender sua alma.

SKINNER: - ...

MULDER: - Fique aí. Vão aparecer outros Mulders e Scullys que precisarão que você esteja sentado nessa cadeira.

Mulder levanta-se. Estende a mão pra Skinner.

MULDER: - Você continua sendo bem vindo na minha casa. E nas sextas-feiras de boliche.

Skinner levanta-se. Os dois trocam um aperto de mão. Mulder o puxa e o abraça forte.

MULDER: - Cuide-se Girafão. E sem despedidas chorosas. Não vou te dar um beijo.

Os dois se afastam. Skinner sorri. Mulder dá uma última olhada na sala. Sorri pra Skinner. Caminha até a porta.

SKINNER: - Mulder...

Mulder vira-se para Skinner.

SKINNER: - Sabe que estou aqui. Se precisar de ajuda, conte comigo. Tenho uns amigos na polícia. Adorariam trabalhar com você. E tenho alguns amigos advogados na CIA E. Kelley... Você podia pedir auxílio por lá, Kelley me parece mais complacente e aceita envolvimentos amorosos sem preconceito. Psicólogos serão bem vindos por lá, há muito trabalho a ser feito.

Mulder sorri. Abre a porta e sai. Skinner olha para o papel sobre a mesa.

Close no papel. É uma rescisão, com a assinatura de Mulder.

Skinner coloca as mãos a cintura, indignado e aborrecido.


BLOCO 3:

Arquivos X – 2:11 P.M.

Mulder entra na sala, cabisbaixo.

DIANA FOWLEY: - Soube o que aconteceu. Aliás, todo o Bureau sabe que você e Scully dormem juntos.

Mulder ergue a cabeça. Suspira incrédulo.

MULDER: - (INDIGNADO) Pronto! Encerro o meu dia com um Arquivo X: a Bruxa de Blair aqui, ao vivo na minha sala!

Diana olha pra ele, enquanto segura um bombom dos de Scully nas mãos. Mulder passa por ela e vai até a mesa.

MULDER: - Puxa, estão com pressa mesmo, nem esperaram que eu tirasse minhas coisas da sala e já mandaram a funcionária nova.

DIANA FOWLEY: - Fox, não fui designada para os Arquivos X. Estou aqui por você.

MULDER: - (DEBOCHADO) Obrigado, é bom saber que se tem amigos ursos numa hora dessas.

Diana recosta-se na mesa de Scully e observa o bombom nas mãos.

DIANA FOWLEY: - Não vim aqui para rir de você. Vim estender meu apoio.

MULDER: - E o que pode fazer por mim? Vai matar o Carter e o Kersh?

DIANA FOWLEY: - Você não pode ser demitido diante da sua situação.

MULDER: - Que situação?

DIANA FOWLEY: - Você está doente. Eles não podem fazer isso. Pode recorrer na justiça e...

MULDER: - Justiça... (RI) Ainda acredita em justiça depois de tudo?

Diana bate o bombom na mão, brincando com ele, cabisbaixa. Olha pra Mulder. Ele começa a colocar seus pertences numa caixa.

DIANA FOWLEY: - Fox... Scully está doente.

MULDER: - ...

DIANA FOWLEY: - Pensa que não percebi? Você está tentando ocultar isso de todos. Não é nada com o seu filho. Você sabe que a essas alturas ele deve estar morto. Mas mente tentando consolá-la. Até quando vai conseguir esconder isso dela?

Diana ergue a cabeça e olha pra ele. Mulder finge não escutá-la. Diana aproxima-se e segura a mão dele, o impedindo de continuar o que faz. Mulder retira a mão e coloca as mãos no rosto, se atirando na cadeira.

DIANA FOWLEY: - Quer falar sobre isso?

MULDER: - Não.

DIANA FOWLEY: - Todos comentam aqui dentro. Ela engordou, está se destruindo, ninguém mais a reconhece.

MULDER: - Deixe a Scully... Você não sabe do que ela está passando por minha culpa. Deixa-a sofrer. Ela tem esse direito.

DIANA FOWLEY: - ... Acha certo que ela se acabe por você?

MULDER: - ... (FURIOSO) Scully é problema meu e não seu!

Diana coloca o bombom sobre a mesa de Mulder. Caminha pela sala.

DIANA FOWLEY: - É lógico que você acha justo. Você sempre sonhou com alguém que vivesse por você. Que se matasse por você.

Mulder respira fundo. Vira o rosto, contrariado.

DIANA FOWLEY: - Egoísta. Fox você é o maior egoísta que eu já conheci.

Mulder olha pra ela.

MULDER: - (REVOLTADO) Quem você pensa que é pra vir até aqui me chamar de egoísta depois de tudo o que você aprontou? Hein?

DIANA FOWLEY: - Alguém que se importa com você.

MULDER: - Ah! (RI) Se importa... (DEBOCHADO) Coitadinha! Como ela se importa comigo! Estou comovido, até vou chorar...

DIANA FOWLEY: - Me importo sim, Fox! Você a está perdendo e não percebe?

MULDER: - E desde quando você se preocupa com a Scully?

DIANA FOWLEY: - Me preocupo é com você! Sabe que ela está escorrendo por suas mãos e que se ela se for, você acaba na sarjeta. Mas você é estúpido e cego! Não percebe que ela está cansando? Todo mundo cansa um dia Fox. Não há mulher que consiga aguentar um homem como você que coloca seus interesses acima dos dela! Ultimamente não a vejo levar um relatório lá em cima!

MULDER: - ...

DIANA FOWLEY: - Você a está manipulando! Ela não tem mais direito de resposta, está se anulando como profissional, vivendo por você!

Mulder levanta-se. Passa por ela cabisbaixo e abre a porta.

MULDER: - Se terminou o que tinha de dizer, pode sair agora.

DIANA FOWLEY: - Vai se lembrar do que eu disse. Você fez o mesmo comigo. Só que Scully não será burra como eu fui.

MULDER: - (RAIVA) Acho que Kersh cometeu um erro: chamou uma dama de vadia enquanto a verdadeira vadia está aqui tentando se fazer de minha amiga. Sai daqui Diana Fowley! Vá pro inferno que é seu lugar! Xô!

DIANA FOWLEY: - Sempre grosso e estúpido. Você não muda mesmo, Fox Mulder. Quero ver o dia em que ela descobrir sua verdadeira face!

Diana sai, emburrada. Mulder fecha a porta numa batida. Chuta a lixeira com raiva. Senta-se. Apoia os cotovelos na mesa, passando as mãos pelo rosto. Respira fundo. Olha pro bombom sobre a mesa. Atira o bombom na parede com fúria. Levanta-se. Pega a pasta que Scully esqueceu e sai da sala batendo a porta.


Apartamento de Mulder – 3:12 P.M.

[Som: Simple Red – For Your Babies]

Mulder entra. Escuta a canção. Coloca a pasta de Scully no sofá. Vai até o quarto.

Scully está deitada, chorando. Mulder olha pra ela com ternura. Senta-se na cama, ao lado dela. Scully olha pra ele o questionando com os olhos.

SCULLY: - Assinou?

Mulder pisca o olho pra ela. Move os lábios simulando a palavra ‘câmeras’. Scully ergue as sobrancelhas.

MULDER: - Assinei. Você foi transferida para o escritório em Boston. E eu estou fora. Nos separaram Scully.

SCULLY (OFF): - Mulder, você pode ler minha mente agora?

MULDER: - Sim, Scully... Nos separaram.

SCULLY (OFF): - Mulder, estou com medo!

MULDER: - O Canceroso nos ofereceu ajuda novamente. Ele disse que é hora de você ter uma casa, Scully. Ficar longe disso. Me entende?

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - A situação veio a nos favorecer. Aceite Scully. Aceite a casa. Aceite isso agora, não espere.

SCULLY: - ... ???

MULDER: - Aceita? A casa, Scully! Já é hora! Tem que ser agora.

SCULLY (OFF): - Mulder...

MULDER: - Tá certo, Scully. Eu sei que quer pensar no assunto. Vamos aproveitar a confusão e tirar uns dois dias pra nós. Só nós dois sozinhos. Eu e você. Nada que uns dias românticos não resolvam. Regra: não vamos falar nada de FBI, conspirações e o raio! Pouco me importo com qualquer coisa. Quero só ficar com você e dizer bobagens.

Scully sorri, meio confusa, mas confirma com a cabeça. Mulder levanta-se. Abre o guarda roupa. Procura alguma coisa. Scully o observa. Mulder retira um smoking.

MULDER: - Mudando de assunto... Está vendo isso?

SCULLY: - ... Não está pensando em ir à festa do FBI, depois de tudo isso.

MULDER: - Estou.

SCULLY: - Mulder, nunca fomos a nenhuma dessas festas, por que iríamos para ver Kersh e aquele bando de gente mesquinha? Para ver as pessoas olharem para nós dois e começarem a rir?

MULDER: - Por que as pessoas ririam de nós dois, Scully? E quem liga pro Kersh? (SUSPIRA) Aquele homem me disse uma coisa hoje. E acho que mesmo não intencionando o bem, ele me deu um bom conselho de pai: a diplomacia.

SCULLY: - ...

MULDER: - Então, Scully? Vamos executar nossas ordens até o fim? Hum? Afinal foi Kersh quem nos intimou a ir à festa. Vamos mostrar que somos superiores, que temos educação. Vamos cumprir nossas ordens como os agentes que sempre fomos. Nós nunca desmerecemos nosso trabalho, nem o FBI. Nós sempre respeitamos o bureau e acreditamos nele. Não são algumas pessoas que farão com que percamos a esperança de justiça. Já ouvimos tantas coisas, tanta humilhação... Mas eu acredito na agente Scully. Como ela acredita no agente Mulder. Eu a respeito. Ela me respeita. Somos profissionais. Sabemos que somos bons no que fizemos. Nós não precisamos mentir e ofender os outros para nos manter numa posição. Nós nos mantemos pela nossa capacidade.

SCULLY: - Mulder... Você me surpreende. Eu sempre sou lógica e educada por aqui e no entanto vem você com tanta maturidade que chega a me deixar sem palavras.

Mulder coloca o smoking sobre a cama. Senta-se. Segura as mãos dela.

MULDER: - Fecha os olhos.

SCULLY: - Pra quê?

MULDER: - Fecha.

Scully fecha os olhos. Mulder olha pra ela, afagando as mãos dela entre as suas.

MULDER: - Veja a recém-formada Dana Scully saindo da universidade, começando uma carreira. Uma jovem brilhante, cheia de entusiasmo, que encara o mundo. (MUDA O TOM DE VOZ) ‘Venha, mundo... Você é a doença, eu sou a cura.’

SCULLY: - (OLHOS FECHADOS/ SORRI) ...

MULDER: - Nossa amiga Dana passa num teste com mais de 40 mil candidatos! Yhaaaaa! Sim, muita gente do país inteiro disputa uma vaga no FBI, é uma chance de ter um emprego, uma carreira e uma vida segura. Mas a Dana consegue. Afinal, ela é inteligente o suficiente para merecer isto. Mas ainda não acabou. Ela não está totalmente dentro... Veja a Dana Scully carregando uma enorme mochila entrando em Quântico... Olhos apavorados... Ela constata que 80% do grupo é de homens que a encaram furiosos, por ela estar disputando uma vaga com eles... Morrendo de medo de perderem a chance pra uma mulher... Ainda por cima tem uma colega de quarto que come salgadinhos de pimenta e pendura as calcinhas no aquecedor. E escuta Barry White a noite toda.

SCULLY: - (OLHOS FECHADOS/ SORRI) ...

MULDER: - Livros... Muitos livros... Teatrinhos de interrogatório, o agente supervisor analisa você dos pés à cabeça e não poupa palavras rudes para xingar quando você comete um erro. Você tem vontade de chorar e voltar pra casa... Mas não pode. Você é forte. Tem que ser durona. Sabe que eles fazem isso para testar você... E as imposições de voz? Você fica gritando: ‘Parado FBI, mãos na cabeça’... Parece ridículo fazer isso na frente de um espelho... Exercícios de algemar um colega. Pra te sacanearem, deixam você com o cara mais alto e forte do grupo... Sendo que na primeira vez, você tem que algemar ele. O cara fica te olhando de cima e rindo: ‘Ei, é essa coisinha aqui que vai me render?’

SCULLY: - (OLHOS FECHADOS/ RINDO)

MULDER: - E as provas??? Meu Deus! Nota nove já dá pânico de uma possível reprovação! Você tem que ser a melhor dos melhores! Legislações que você nem imagina existir. Você odeia Direito mais do que odiaria os filmes de Ed Wood. Noites e mais noites sem dormir, decorando leis. Decorando códigos de conduta, normas do bureau, procedimentos, constituição federal... Pulando sacos de areia, se pendurando em cordas por prédios altos, correndo, nadando, abdominais... Resistência física e psicológica... Sua mãozinha treme a cada disparo da arma... Mas você enfim aprende a acertar o alvo... É fácil quando você imagina que o bonequinho pintado lá no fundo é o seu instrutor físico: ‘Mexa-se Scully! Isso não é uma colônia de férias, mova esse traseiro! Você nunca vai chegar lá, você é burra e mole demais pra ser agente federal’.

SCULLY: - (OLHOS FECHADOS/ SORRI)

MULDER: - Testes psicotécnicos... Avaliação psicológica... Eles querem inteligência. Mas querem resistência física também. A cada prova, você vê seus colegas em Quântico sendo eliminados, você fica cada dia mais nervosa... Sempre tem um colega e um agente instrutor dizendo: ‘Desista, Scully! Você nunca será uma agente federal! Você é mulher! Você é mole! Vá cozinhar e lavar as cuecas do seu marido’! Mas você chega ao dia da formatura, erguendo seu diploma, seu distintivo. Você conseguiu... Agora abra os olhos.

Scully abre os olhos.

MULDER: - Agora me diz: depois de tudo isso, vai entregar o jogo por causa de um imbecil que te chama de vadia?

Scully respira fundo. Olha pra Mulder.

SCULLY: - Vou fazer meu cabelo. Vadia é a mãe dele!

Scully levanta-se, decidida. Vai pra sala rebolando os quadris, de queixo erguido. Mulder abaixa a cabeça num sorriso.


7:57 P.M.

Scully entra no apartamento, toda arrumada, carregando um vestido. Mulder está sentado no braço do sofá. Scully larga o vestido sobre o sofá.

SCULLY: - Comprei um pretinho básico. (RINDO) Pelo menos esse disfarça as gorduras localizadas...

MULDER: - Que tal sentar aqui na minha perna?

Scully sorri. Senta-se na perna dele. Mulder pega uma caixinha de debaixo da almofada. Scully olha pra caixinha.

SCULLY: - (CURIOSA) O que é isso?

MULDER: - Desculpe, mas revirando o guarda roupa atrás de uma gravata borboleta é que encontrei algo que já havia me esquecido. Foi da minha mãe. Realmente é a única coisa que tenho dela como lembrança e eu guardei isso com carinho. Quero dar a você.

Scully abre a caixinha, curiosa, sorrindo. Mulder sorri.

SCULLY: - Oh, Deus! Uma gargantilha? Mulder, isso... Isso são diamantes! É-é...

MULDER: - Vai ficar lindo com o seu pretinho básico.

SCULLY: - (EMOCIONADA) Oh, Mulder...

Scully o abraça. Mulder sorri. Scully entrega a gargantilha pra ele. Mulder retira a correntinha dela. Coloca a gargantilha em seu pescoço. Ela observa a gargantilha, passando a mão sobre as pedras, admirando, num sorriso de felicidade.

SCULLY: - Mulder, é... É lindo! Eu nunca imaginei ter algo assim...

MULDER: - Pois use. Agora virou joia de família. Sua herança pra Scullyzinha.

SCULLY: - Você não desistiu da Scullyzinha?

MULDER: - Nem vou desistir. Eu sou teimoso.

Mulder levanta-se. Scully aproxima-se dele.

MULDER: - Eu te amo, Scully. E não quero te ver chorar. Você não vai sair de lá como uma vadia. Você vai sair de lá como a minha esposa. Eu serei homem pra admitir você na frente de todos.

Mulder fecha os olhos e aproxima os lábios dos dela. Eles trocam um beijo apaixonado. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Eu vou na frente. Se o clima estiver pesado demais, eu ligo pra você não ir.


Centro de Convenções do Hotel Plaza – 8:59 P.M.

[Som:Simple Minds – Don’t You Forget About Me]

Salão cheio. Todos em trajes de gala. Mulder entra. Está vestido num smoking impecável. Ajeita o casaco. Ostenta na mão a aliança que se destaca diante do preto do smoking. Entra sério.

Corta para Kersh que conversa com Carter, McKenna e alguns homens. Ao ver Mulder, fica incrédulo.

KERSH: - O que ele está fazendo aqui?

Eles olham. Mulder aproxima-se deles, sorrindo.

MULDER: - Senhores, boa noite.

KERSH: - (CATATÔNICO)

MULDER: - (SORRI) Bonita festa. Gente interessante por aqui.

KERSH: - O que faz aqui, Mulder? Você não é mais agente do FBI.

MULDER: - (RINDO) Não? Puxa, então se esqueceram de me avisar sobre isto.

Carter começa a rir achando a piada engraçada. Kersh o fulmina com os olhos. Carter pigarreia e se recompõe. Mas sorri de novo. O garçom passa entre eles com as bebidas. Mulder recusa. Kersh olha pra Carter, o censurando. Carter para de sorrir, disfarçando. Mulder olha para Carter, num sorriso de piedade.

MULDER: - Diretor, está impecavelmente vestido. Como sempre.

CARTER: - (APONTA PRA MULDER) Ele é divertido. Gosto dele.

KERSH: - Não pode gostar dele.

CARTER: - Tá bom. Então não gosto.

Mulder abre o paletó e retira um maço de cigarros. Acende um, debochadamente. Kersh o observa. Mulder aproxima-se de Kersh e cochicha.

MULDER: - Quero falar com você.

KERSH: - Não temos nada pra falar.

MULDER: - Acho que temos, ou quer que eu fale em alto e bom som?

Kersh afasta-se com Mulder.

KERSH: - Não vai me intimidar sendo uma cópia de seu pai.

MULDER: - Não sou uma cópia dele. Sou apenas seu sucessor. E nem eu e nem ele estamos gostando da forma como me trata.

Mulder sopra a fumaça na cara de Kersh. O olha com deboche e autoridade.

MULDER: - Se for inteligente, vai vir pro meu lado. Se não for, não posso ajudar você.

KERSH: - O que quer?

MULDER: - Permanecer no FBI. No meu porão, quietinho.

KERSH: - Não há acordo sobre isso. Não sou eu quem decide.

MULDER: - Sua resposta foi errada, mas vou lhe dar o prêmio de consolação. Acaba de ganhar uma passagem para o outro mundo.

KERSH: - (DEBOCHADO) Vai me matar?

MULDER: - (SÉRIO/ AMEAÇADOR) Eu poderia seguir você depois da festa e... Mas hoje não.

Kersh percebe que Mulder está falando sério.

MULDER: - (FRIO) Mantenha seus olhos abertos, Kersh. Durante o dia e durante a noite. E mantenha sua mulher e filhos dentro de casa, embora dentro de casa também não seja seguro... Que problemão, não Kersh? É, é triste, eu sei. Infelizmente a vida é assim. Você sempre tem alguém de quem gosta, com quem se preocupa... Entendo você. Imagine perder um filho? Uma esposa querida? Um netinho indefeso? Imagine ver um ente querido retalhado numa mesa cirúrgica... (SORRI) Principalmente quando você é apenas um humano sem utilidade genética... Não pense que estou brincando. Sei todos os seus movimentos e você não é tão importante nesse jogo.

KERSH: - ... (MEDO)

MULDER: - Não se preocupe. Pode dormir tranquilo. Aquela história de aparecer boiando num rio com a boca cheia de formigas é lenda. (SORRI/ DEBOCHADO) Não há formigas nessa história. (PISCA O OLHO) Elas não gostam de água.

Mulder ajeita a aba do casaco do smoking de Kersh. Dá um tapinha no braço dele.

MULDER: - (SORRI CÍNICO) Cuide-se amigo. Zele pela sua saúde. No meu conceito ela não vai bem. Ah! E eu sei que fui demitido do Bureau. Não estou aqui como funcionário. Apenas como marido de uma agente federal.

Mulder dá as costas, sorrindo. Kersh o acompanha com os olhos arregalados.


9:16 P.M.

Donald Mallet, de smoking branco, está sentado numa cadeira, bebendo um uísque. Sobre a perna um relatório. Mulder aproxima-se.

MULDER: - Fazendo os deveres de casa? Ou está decorando uma partitura pra tocar jazz? Já disse pra desistir de tocar sax, aquilo é apenas um símbolo fálico. Admita.

DONALD: - (RINDO) Mulder!

Eles se cumprimentam.

DONALD: - Você, o Estranho, numa festa?

MULDER: - É, os tempos mudam.

Mulder sorri. Donald levanta-se. Uma mulher loira aproxima-se. Beija Donald no rosto. Donald abaixa a cabeça sorrindo, constrangido. Ela coloca o braço no braço dele.

DONALD: - Mulder... Esta é Louis, ela é policial... Louis este é Mulder.

MULDER: - Muito prazer agen... Mulder. (SORRI/ TRISTE) Desculpe, vai ser difícil perder o ‘agente’.

DONALD: - Mulder, eu fiquei sabendo... Estou chocado com isso. Quer me contar o que aconteceu?

MULDER: - A história é longa, Don...

DONALD: - Estamos numa festa. Não tenho pressa de ir embora sem esvaziar umas 3 garrafas. Preciso de um parceiro pra fazer isso.

Mulder engata o braço na loira e os três saem andando pelo salão enquanto conversam.


BLOCO 4:

9:46 P.M.

Chuck e Skinner conversam. Mulder aproxima-se deles, com um copo na mão. Os dois olham pra ele, impressionados.

SKINNER: - (SORRI) Mulder?

MULDER: - Puxa vida, vejo que realmente ninguém está acostumado a ver o Estranho numa festa do Bureau. Já é o sexto hoje que me faz esse comentário... Mas tudo bem, passei umas horas retirando as traças do smoking... Cada traça enorme que dava um Arquivo X.

SKINNER: - (RINDO) Fez bem em ter vindo... E a Scully?

MULDER: - Ah, ela chegará logo. Mulheres demoram muito pra se arrumar. E eu não queria perder o melhor uísque. Já me avisaram por antecedência que eles servem o melhor primeiro. Mas negarei tudo. Não citarei minhas fontes.

Chuck ri.

MULDER: - Obrigado pela ajuda de hoje, Chuck. Peço desculpas se eu fui grosseiro. Estava fora do ar.

CHUCK: - Mulder, amigos são pra isso. Só não entendo porque escondeu isso de mim durante todo esse tempo.

MULDER: - Como se adiantasse. Ouvi boatos que você tem fetiche de encostar a orelha na porta do porão.

Eles riem.

CHUCK: - Sabe quando eu desconfiei? Quando vocês começaram a ficar mais tempos trancados lá embaixo. Sabe que geralmente sou eu quem desce pra pegar aqueles arquivos mortos... Escutava altas risadinhas...

Mulder abaixa a cabeça rindo.

MULDER: - Não ligue Skinner. Mais algumas doses de uísque e o Chuck revela que compra calcinhas usadas de mulheres pela internet.

Skinner começa a rir.

CHUCK: - Então a história da criança... Era seu filho mesmo.

MULDER: - Era Chuck.

CHUCK: - Skinner, você sabia disso! Nunca me contou nada.

SKINNER: - Sou bom em segredos.

CHUCK: - Pelo menos me convidem pro casamento... Mulder, confesso que você é um cara sortudo. Ela é uma ótima pessoa... Mas quando isso começou?

MULDER: - Chuck deixa de ser curioso. Um dia eu te convido pro grupo do boliche na sexta e conto nos mínimos detalhes.

CHUCK: - Sério?

MULDER: - Bem, eu conto. Mas deixa a coisa dos mínimos detalhes pra lá.

Eles riem. Chuck acompanha uma mulata com os olhos.

CHUCK: - Me dão licença, mas achei algo mais interessante do que vocês dois.

Chuck afasta-se. Skinner sorri.

SKINNER: - Já notou como o Chuck tem uma certa semelhança com o Frohike?

MULDER: - Já. Bem como notei que você tem uma certa semelhança com o Thundercat cinza... Impressionante!

SKINNER: - ????

MULDER: - Não me culpe. Foi a agente Radaelli quem disse... Skinner, acabei de ameaçar Kersh.

SKINNER: - O quê?

MULDER: - Ah, deixa pra lá. Basta você saber que convenci... Acho que ele foi trocar as calças no banheiro...

Skinner aproxima-se de Mulder.

SKINNER: - (PREOCUPADO) Mulder... Você fumou?

MULDER: - (DEBOCHADO) Fumei mas não aquilo que você pensa. Aquilo eu não fumo desde a faculdade...

SKINNER: - Mulder, desde quando você fuma?

MULDER: - Ora, achei que quem tá morrendo de câncer mesmo não tem nada a perder.

SKINNER: - Eu quero ajudar vocês dois de alguma maneira. Mulder eu não quero ficar sem vocês lá dentro. Eu... Eu me apeguei aos dois, entende? Vocês são como filhos...

MULDER: - (SORRI) Girafão, o mundo dá muitas voltas. Algo me diz que estarei derrubando sementes de girassol pelo seu escritório mais cedo do que pensa.

SKINNER: - Mulder, o quê...

MULDER: - Deixa pra lá, não é hora. Percebe como Kersh olha pra mim? Parece que quer me esganar. Em compensação fui barrado por três agentes lá na frente que eu nem conhecia. Vieram me perguntar porque eu não bati mais nele.

SKINNER: - Mulder, estava conversando com McKenna sobre vocês. Há muitas maneiras de ficarem no FBI. Só não podem ficar no mesmo departamento. Que tal você pedir para voltar a seção de Crimes Violentos e deixar Scully em Quântico? Ou pedir para ficar nos Arquivos X? Afinal o problema agora não é mais os Arquivos X. É você dentro do FBI. Ou pensa que não percebi isso?

MULDER: - Skinner, eu e ela trabalhamos juntos. Sei que estou pedindo demais, e sei das regras. Mas agora não me preocupo com o amanhã. Eu tenho mais coisas pra me preocupar do que o meu futuro no FBI que já se foi.

SKINNER: - Carter não entregou a demissão oficialmente.

MULDER: - O quê?

SKINNER: - Ele me pediu sigilo, Mulder. Carter gosta de você. Ou alguém que gosta de você está puxando Carter pro nosso lado. Ou ainda: talvez ele esteja seguindo um jogo e esperando o momento certo. O que acho estranho é que já o flagrei diversas vezes conversando com Diana Fowley pelos cantos, fora da presença de Kersh. Tudo bem, ele é um galinha. Mas não sei se é o caso.

MULDER: - O que Diana Fowley faz de volta ao bureau?

SKINNER: - Pergunte ao Mr. Morley, deve ser coisa dele.

Corta para a porta. Scully entra num longo vestido preto. Uma echarpe caída pelos braços. Procura Mulder com os olhos. As pessoas olham pra ela.

Skinner faz uma fisionomia de impressionado, com a boca aberta. Mulder segura no ombro de Skinner num sorriso, olhando pra Scully.

SKINNER: - Mulder, realmente acho que vale uma demissão.

MULDER: - (SORRINDO) Girafão, minha companhia pro baile chegou. Solte-se por aí e arranje uma.


Scully caminha até o bar e senta-se. Séria, tentando ignorar os olhares. Mulder aproxima-se dela. Ela o acompanha com os olhos. Ele chega num sorriso safado. Ela vira o rosto pro outro lado, segurando o riso. Mulder senta-se. Aproxima os lábios da orelha dela.

MULDER: - Posso te pagar uma bebida?

SCULLY: - A bebida é de graça.

MULDER: - Nunca vi você por aqui antes... Vem sempre aqui?

SCULLY: - Desista, estou esperando alguém.

MULDER: - Deve ser um sujeito sortudo. O que ele tem que eu não tenho?

SCULLY: - Dinheiro e poder.

MULDER: - Não blasfeme, isso é feio...

SCULLY: - (SORRI) ... Você é feio.

MULDER: - Tudo bem, eu sou feio. Mas sou bom de cama.

SCULLY: - (RINDO) Quem disse isso?

MULDER: - Minha esposa nunca diz, mas ela grita feito uma louca a noite toda dizendo: Ohn, Mulder, assim, assim, como você faz gostoso!!!

SCULLY: - (RINDO) Estão olhando pra nós, Mulder... Disfarce.

Mulder envolve o braço nela, a virando pra si. Scully sorri. Ele a beija na testa com respeito. Scully observa as pessoas olhando.

SCULLY: - (RINDO) Para, Mulder!

MULDER: - Qual é o problema, é só um beijinho de amigo... Como sou cínico! Mas todo mundo já sabe mesmo e sabe a versão errada da coisa, Scully. Vamos mostrar a verdadeira. E além disso, você é agente do FBI. Eu não sou mais.

SCULLY: - As pessoas estão me encarando...

MULDER: - Ótimo. Ninguém aqui tem nada a negar mesmo.

Scully recosta a cabeça nele, o abraçando. Suspira.

MULDER: - Scully, Don está nos chamando.

SCULLY: - Ele está aí?

MULDER: - Sim, ele quer falar comigo.

Mulder levanta-se. Estende a mão pra ela. Scully segura na mão dele sorrindo. Eles passam por entre as pessoas de mãos dadas. As pessoas vão aplaudindo os dois conforme eles passam, aos sorrisos, num gesto de apoio. Scully abaixa a cabeça, com o rosto corado.

MULDER: - Impressionante o povo. Eles adoram quando alguém quebra as regras... É como incitá-los a fazer isso. Se não podem, pelo menos admiram quem faz.

SCULLY: - Acho que o mundo quer ver amor, Mulder. Estão cansados de desgraça.

Os dois aproximam-se de Donald, que agora está com uma morena ao lado dele.

DONALD: - Karen, este é o Mulder, aquele amigo que te falei. Mulder, esta é Karen, ela é agente da divisão de entorpecentes.

Eles se cumprimentam. Mulder aproxima-se do ouvido de Donald.

MULDER: - (COCHICHA) Você entrou com uma loira, ficou com uma morena... Se pretender sair com uma ruiva, vamos conversar lá fora bem de pertinho.

Donald começa a rir. Scully e Karen olham pra eles sem entender nada. Mulder olha pra Scully.

MULDER: - Bem, eu vou apresentar oficialmente agora, com muito orgulho...

Mulder envolve o braço em Scully. Ela sorri. Mulder olha pra ela enquanto fala.

MULDER: - Esta é Dana Scully, minha esposa, o meu lado humano, a quem sou eternamente agradecido pelos momentos bons da minha vida. (BEIJA-A NA TESTA) Retificando. Pela minha vida.

Scully fica ruborizada. Karen sorri.

KAREN: - Donald fala muito sobre vocês. Principalmente você, agente Mulder.

MULDER: - Não vá atrás desse sujeito. Ele é obcecado por mim, me tornou um mito em sua cabeça. De conviver com psicopatas, ele se transformou num. Agora não larga do meu pé.

Eles riem.

SCULLY: - Você debocha, Mulder. Mas sabe que isso é assunto sério. Ainda me sinto horrorizada com aquele caso do delegado Stephanenko.

DONALD: - E até agora nenhuma pista... Deve estar parado, aguardando a hora de começar a matar novamente.

MULDER: - Existem pessoas que basta você ser um mito pra elas, basta ser simpático a primeira vez e já acham que são íntimas, que você deve obrigações como ligar todos os dias e contar sobre o que comeu no almoço. E ai de você se não falar com elas por uns dias. Entram em surto psicótico, achando que foram ofendidas.

Eles riem.

KAREN: - Esse é o pior tipo de doença... É socialmente transmissível e o infectado não se manca.

DONALD: - (RINDO)

SCULLY: - Me lembrei da historinha da raposa e do leão.

MULDER: - Conte porque essa eu desconheço.

SCULLY: - Uma raposa muito jovem, que nunca tinha visto um leão, estava andando pela floresta e deu de cara com um deles. Ela não precisou olhar muito para sair correndo desesperada na direção do primeiro esconderijo que encontrou. Quando viu o leão pela segunda vez, a raposa ficou atrás de uma árvore a fim de poder olhar para ele antes de fugir. Mas na terceira vez a raposa foi direto até o leão e começou a dar tapinhas nas costas dele, dizendo: - Oi, gatão! Tudo bem aí? ... Moral da história: Da familiaridade nasce o abuso.

Mulder olha pra ela impressionado.

MULDER: - (DEBOCHADO) Uh! Essa foi forte! Impressionante como ela sempre arranja algum conto relacionado com raposas. Acho que é tara. Ela é psicótica.

Eles riem. Scully abaixa a cabeça rindo.


11:13 P.M.

[Som: George Michael – Careless Whispers]

Mulder e Scully conversam enquanto dançam.

MULDER: - (DEBOCHADO) Estou gostando de exibir minha ruiva por aí. Afinal, nunca tive uma namorada tão bonita.

Mulder a abraça. Eles começam a dançar colados.

SCULLY: - Mulder, sabe que isto que fizemos aqui hoje será algo que não poderemos voltar atrás. Todos do FBI estão nos vendo juntos e não estamos discutindo nenhum caso. Se resolverem retificar o erro que fizeram com você... Um de nós está fora dos Arquivos X pra sempre.

Mulder pega as mãos dela e as beija com paixão. Olha em seus olhos.

MULDER: - Eu amo você. Deixa o mundo saber disso. Não quero mais ter que viver escondido. Quero exibir você do meu lado, não como a minha parceira. Mas como a mulher que eu amo. Prioridades mudam, Scully. Você agora é o meu Arquivo-X.

SCULLY: - Mulder... Você me deu um presente valioso hoje. E não foi essa joia em meu pescoço. Foi admitir publicamente que eu sou sua mulher. Que eu não sou uma qualquer, uma aventura. Que temos algo mais forte. Ninguém mais vai desconfiar e fazer fofoquinhas maldosas. E eu não preciso mais ocultar meus sentimentos. Eu me sinto livre.

MULDER: - (ANGUSTIADO) Meu coração diz: fica aqui dançando pra sempre comigo... Mas minha razão diz vai embora. E estou angustiado com essa noite...

Mulder envolve as mãos no pescoço dela. Scully fecha os olhos. Mulder a beija na testa. Desce o nariz pelo rosto dela, aspirando seu cheiro. Aproxima seus lábios dos dela. Scully envolve a mão no rosto dele. Eles trocam um beijo apaixonado. Mulder murmura, colado aos lábios de Scully.

MULDER: - Eu amo você, Scully... Terei essa noite como lembrança...

Corta para Kersh conversando com Skinner. Chuck ao lado deles está boquiaberto. Kersh ao ver a cena toma um impulso.

KERSH: - O que eles pensam que estão fazendo? Atiçando os demais a se rebelarem?

Skinner o segura pelo braço.

SKINNER: - Cumprindo ordens. Eles vieram à festa, conforme você mandou. E estão se divertindo. Se reparar bem na aliança na mão do Mulder, acho que quem ficou com cara de mentiroso nesse salão foi você. Porque ela é uma dama.

Chuck fica boquiaberto, num ar de deboche. Kersh se desvencilha de Skinner. Mulder aprofunda o beijo com desejo devorando o lábio inferior de Scully. Skinner sorri. Chuck admira.

Corta para Carter e Diana. Os dois com uma fisionomia indignada.

Kersh continua impressionado com a ousadia dos agentes. Mulder e Scully continuam dançando. Mulder inclina-se pra frente, inclinando Scully para trás. Mulder a beija no rosto.


11:43 P.M.

Carter sobe ao palco. Assume o microfone. A música para.

CARTER: - Eu... Eu gostaria de dar boa noite a todos os agentes aqui presentes... O FBI tem a honra de ter seus colaboradores todos aqui reunidos, mostrando a união dos agentes federais, como sempre defendeu nosso ilustre fundador J. Edgar Hoover.

Corta para Skinner, Mulder e Scully.

SKINNER: - Começou o discurso.

MULDER: - É, ele tem lábia. Mas nunca cumpre o que promete. Não votaria nele... O que ele achou do relatório da semana passada? Do Homem Macaco?

SKINNER: - Ele ficou impressionado. Principalmente com a parte que falava da relação do mito dos discos voadores com os indianos, pela presença de Buda. Saiu contando pra todo mundo que a teoria era dele, não sua. Ainda bem.

SCULLY: - (INCRÉDULA) O que Buda tem a ver com discos voadores, Mulder?

MULDER: - Eu coloquei no relatório que Buda está sentado sobre as pernas porque é assim que você viaja numa navezinha daquelas e a presença de incenso significa a fumaça que sai dos motores das naves. Realmente é uma conspiração ‘indígena’, Scully.

SCULLY: - Ui! Meu Deus, Mulder! Como alguém pode acreditar numa tolice dessas?

MULDER: - Não sei, mas ele acreditou.

Scully segura o riso.

CARTER: - Bem... Eu quero pedir a vocês que aplaudam os nossos diretores assistentes.

Os aplausos começam. Skinner abaixa a cabeça.

SKINNER: - Começou a vaselina...

MULDER: - Cuidado, Skinner. Carter e parafina... Ops, vaselina, só pode significar uma coisa. Sai da frente que ele está de mau humor.

Scully segura o riso. Skinner acena a cabeça negativamente.

CARTER: - E peço aplausos especiais ao diretor-delegado Kersh. Ele está de aniversário hoje.

Os aplausos são poucos. Skinner, Mulder e Scully trocam olhares.

SKINNER: - Eu não sabia disso.

MULDER: - Nem eu. Mas já dei meu presente pra ele...

Carter passa o microfone para Chuck. Chuck pigarreia.

CHUCK: - Boa noite colegas! Não, eu não vou contar piadas dessa vez. Não precisam sair correndo do salão.

Todos riem. Chuck afrouxa a gravata com o dedo. Caminha pelo palco.

CHUCK: - Sei que sempre sou o animador das festas do Bureau... Mas hoje... Hoje eu vou contar uma história de amor. Não uma história de amor comum... Mas uma história escrita com desafios, com barreiras e acima de tudo, com muito respeito. Ele, o Estranho. Pra quem não conhece, é aquele cara lá do canto!

Todos olham pra Mulder. Ele disfarça procurando ‘o estranho’ também. Scully ri.

CHUCK: - É, podem olhar. É a primeira vez que ele aparece em público... Por favor, 10 dólares na saída pela exibição inédita...

Todos riem.

CHUCK: - A maior parte de vocês o conhecem como o Estranho Mulder, que habita o porão do FBI... Algumas lendas diziam que ele era um monstro mantido em cativeiro e por isso as garotas nunca desciam as escadas. Isso sempre foi contado em Quântico para os novatos. Claro que nenhum deles foi aceito na irmandade, porque o teste incluía descer ao porão... Eles não tinham treinamento pra isso. Alguns pensavam que lá embaixo funcionava uma seita oculta, praticante de magia negra... Outros diziam que era onde o fantasma de Edgar Hoover se escondia para varar pelos corredores do bureau à noite... Caçando agentes novos.

Todos riem. Mulder fica boquiaberto. Scully abaixa a cabeça incrédula.

CHUCK: - Ela, a agente Dana Scully. Vocês a conhecem por seus trabalhos científicos e seus pedidos constantes pelo telefone: ’onde estão as análises que pedi?’’preciso do exame de DNA da vítima.’ ‘Como assim ainda não aprontaram isto?’’ Eu quero agora que me enviem os dados do suspeito’...

Todos riem. Scully balança a cabeça sorrindo.

CHUCK: - Notem: Estou omitindo a questão das pernas bem delineadas dela que circulam pelos corredores, não quero criar atritos...

Os homens aplaudem. Scully fica corada. Mulder olha pra ela e ri.

CHUCK: - Bem, acho que de tanto conviverem com coisas estranhas, eles nem estão intimidados com as minhas palavras... Ei, não Mulder! Eu não sou um gnomo! Sou baixinho e feio mesmo! Não atire!

Todos riem. Mulder sorri pra Chuck.

CHUCK: - Felizmente, a cética e o crédulo se apaixonaram, formando uma só pessoa. Unindo o que nós não conseguimos unir dentro de nós mesmos: Um lado que crê e outro que não crê. O triste desta história é que esta é a última noite em que teremos suas companhias. Eles estão fora do FBI, mas nunca estarão fora da lembrança de seus colegas e da memória dessa instituição. Sempre deixarão em nós a marca do trabalho competente que faziam. Dos casos que não pudemos resolver e nem dar uma resposta digna à sociedade. Casos que deixamos irem para o arquivo morto no porão, arquivados na letra X onde sobrava espaço. Casos que eles resolveram ou pelo menos colocaram seus esforços, tempo e noites de sono para dar uma resposta aos envolvidos. E muitas vezes arriscaram suas vidas. Perderam pedaços de si mesmos no meio do caminho. Mas as respostas nem sempre são as que esperamos ouvir. Contudo, uma resposta é melhor que nenhuma. Afinal de contas, ninguém é dono da verdade. Existem coisas inexplicáveis e ciências que as tentam compreender.

Todos emudecem, olhando pra Mulder e Scully com cumplicidade.

CHUCK: - Hoje, finalmente, nós sabemos o que são os Arquivos X. Acabamos de desvendar um caso. Sabemos agora que não era um monstro que habitava nosso porão. Era uma pessoa. Uma pessoa com sentimentos como qualquer uma de nós. Duas pessoas habitavam ali, dois colegas, empenhados em seu trabalho como nós também nos empenhamos todos os dias. Cada um dentro da sua competência e talento.

Mulder e Scully olham pra Chuck, emocionados, calados e sérios. Scully envolve seu braço no de Mulder, apoiando sua cabeça, admirando Chuck.

CHUCK: - A Bela que conquistou a Fera, retirando os grilhões que o aprisionavam na masmorra do porão, nunca deixou de ser uma amiga a quem se pudesse confiar um segredo. Nem tão pouco ele. Que muitas vezes foi alvo das nossas piadas, algumas boas, outras maldosas. Agora não teremos mais piadas. Nem como assustar os novatos. Nem como passar trote na hora do almoço ligando para o porão e perguntando pelo Alf, o ETeimoso, só pra descontrair do pavor e cansaço entre uma investigação e outra. Irritar o Mulder, isso era engraçado quando ele achava graça também e soltava uma daquelas ironias debochadas dele pelo telefone fazendo a gente rir alto e esquecer os problemas do trabalho.

Os agentes riem, comentam entre si.

CHUCK: - Somos policiais, trabalhamos pela lei, pela segurança, pela liberdade do nosso povo. Por seu direito de ir e vir. Somos uma instituição que trabalha para o bem da sociedade, e encaramos todos os dias coisas que nos fazem questionar o que há com as pessoas lá fora, pra onde foi a humanidade delas, espantados com tantos casos escabrosos e hediondos em nossas mesas. Coisas que nos dão vontade de vomitar. Que não podemos nem comentar com as nossas famílias pra que elas ainda tenham esperança de que um dia as coisas mudem, mas a gente sabe por constatação diária que só fica pior. Precisamos fugir de vez em quando da realidade. O porão nos dava isso. Mas agora, o telefone estará mudo pra sempre. O Estranho foi embora. E leva consigo a alegria que nos dava sem saber.

O silêncio é geral. Muitos agentes sentem-se tristes.

CHUCK: - Segunda-feira, quando voltarmos as nossas rotinas, algo estará diferente no FBI. Sim. O FBI nunca mais será o mesmo aqui em Washington. Não poderemos mais especular, na hora do cafezinho, o quê, afinal de contas, são os Arquivos X. Não haverá mais nada no porão, a não ser papéis. E o enorme vazio da perda de dois colegas que nunca, mas nunca mesmo, falaram mal de nós. Nós sim, falávamos mal deles. Ríamos de seu trabalho. Nunca entendemos. Mas alguns de nós aqui acreditam em fadas, bruxas e duendes. Outros acreditam apenas na ciência, mas ficam intrigados porque tantas pessoas narram fatos estranhos... Outros ainda questionam as atitudes de nosso governo, afinal este é um país democrático... Mas cada vez que olharem para os céus e verem as estrelas, e pensarem em suas vidas, lembrem-se de Mulder e Scully. Eles não brilham mais entre nós. Mas deixam aqui a luz de sua passagem.

Todos aplaudem emocionados. Os aplausos tomam conta do salão e o barulho é intenso. Scully segura as lágrimas, sorrindo, abraçada em Mulder, que está emocionado também.


12:47 A.M.

Na calçada, Chuck, Donald e Karen conversam com Mulder e Scully.

MULDER: - Estamos comovidos pelo que disse, Chuck.

CHUCK: - Foram poucas palavras à vista do quanto eu admiro vocês dois. Isso é sincero. A saudade já está batendo. Me liguem se precisar de alguma coisa aqui dentro.

DONALD: - Melhor saírem por uns tempos.

CHUCK: - Quem sabe os caras mudam de ideia. Talvez não sejam tão loucos quanto aparentam ser.

Carter, McKenna, Skinner e Kersh saem do hotel. Mulder e os outros observam. McKenna aperta um spray de perfume pra ambientes ao redor do corpo, enquanto caminha.

McKENNA: - Maldita poluição! Basta sair na rua e você sente cheiro de fumaça. Isso empesta a roupa. Coisa nojenta...

CARTER: - (EMPOLGADO) Deixa eu contar pra você da minha teoria sobre os elefantes cor-de-rosa. Isso não é verdade, Walter?

SKINNER: - (SACO CHEIO) Sim. Pela décima segunda vez, isso é verdade.

KERSH: - Endireite sua gravata, Skinner. Nem parece um agente do FBI.

Mulder olha debochado pra Chuck.

MULDER: - É Chuck. Eles não são loucos. Nós é que bebemos pouco. São apenas uns tipinhos esquisitos.

Eles riem.

CHUCK: - O que vocês vão fazer agora? Se precisarem, tenho uns amigos na polícia...

MULDER: - Ainda é cedo pra pensar. Primeiro queremos colocar umas coisas em ordem. Vamos viajar.

Donald sorri. Mulder vira-se pra trás. Vê Kersh e McKenna entrarem num táxi. Skinner toma outro. Carter fica parado na calçada. Mulder observa intrigado. Os outros conversam, mas Mulder está alheio observando Carter. Scully percebe e vira-se também.

Corta pra Diana Fowley, com um casaco de peles, que sai do hotel. Passa por eles e olha pra Mulder, mas segue adiante. Mulder olha pra ela. Diana para ao lado de Carter. Carter abre a porta do táxi, abraçando-a pela cintura. Diana faz um carinho na cabeça dele. Olha pra Mulder. Entra no táxi. Carter entra depois dela. Mulder olha pra Scully. Scully olha pra ele.

DONALD: - E foi isso. Mas sempre é assim. Você deve entender, Chuck, que testes de balísticas são fundamentais. Se não fosse por isso...

Donald se cala. Percebe que Mulder e Scully observam o táxi que parte. O táxi passa por eles. Donald sorri.

DONALD: - Não! Eu não vi aquilo.

MULDER: - (DEBOCHADO) Você viu sim.

CHUCK: - O quê que eu não vi?

MULDER: - (DEBOCHADO) Nada demais, Chuck. Apenas a Madame Min e a Maga Patalójika saindo juntas de uma festa. Que dupla!

SCULLY: - Que medo, isso sim!

DONALD: - Agora entendi como ela voltou para o FBI. O pior de tudo, Mulder, é que será minha colega.

Mulder olha assustado pra Donald.

MULDER: - Não acredito!

DONALD: - Sério. A designaram pra seção de crimes violentos. Mas ela vai comer fogo na minha mão. Aposte nisso.

MULDER: - Quem designou?

DONALD: - Não sei. Veio de cima. Mas acho que tem ‘bruxaria’ nesse caso.

MULDER: - Nem quero saber. Vamos Scully. Vamos tomar a estrada. As bruxas estão à solta hoje.

Eles se despedem. Mulder abre a porta do motorista pra Scully.

MULDER: - Você dirige. Eu já bebi demais. Estou vendo até bruxas...

Scully entra. Mulder fecha a porta, olhando pra Donald e Chuck.

MULDER: - Nos vemos por aí.

DONALD: - Mulder... Eu saí com a morena.

Karen olha pra Donald sem entender nada. Mulder e Donald riem. Mulder entra no carro. Ele e Scully acenam pros outros. Scully dá a partida e toma a estrada.

SCULLY: - O que Donald quis dizer com ‘ela vai comer fogo na minha mão’?

MULDER: - Donald não gosta de Diana.

SCULLY: - Por quê?

MULDER: - ... Uma hora eu te conto. Agora vamos pro Maine.

Mulder respira fundo. Scully morde os lábios, nervosa.

MULDER: -(TENSO) Vamos pro Maine, fazer sexo selvagem porque eu preciso desligar um pouco. O dia hoje foi demais pra nós dois.

SCULLY: -(TENSA) Você só pensa em sexo, Mulder!

5:24 A.M.

O Canceroso anda de um lado pra outro. Olha pra Krycek.

KRYCEK: - Se Fowley nos trair novamente...

CANCEROSO: - Ela não trairá. Está com medo.

KRYCEK: - Mulder ouviu seu conselho e foi previdente. É bom que ele esteja enfrentando Kersh. Mulder precisa ser mais convincente. Precisa parar de ser um garoto medroso.

CANCEROSO: - Tenho medo de Mulder. Ele mete os pés pelas mãos. É um irresponsável. Não mede as consequências de seus atos. Isso nos coloca em risco.

O Canceroso acende um cigarro. Para ao lado de Marita. Ela sentada, escuta a conversa de Mulder e Scully dentro do carro.

[Som: Oasis – Wonderwall]

SCULLY (OFF): - Hum... Sabe que ficar sozinha com você me faz ficar mais animada?

MULDER (OFF): - Olha que posso acreditar e me empolgar com isso. Então, o que teremos pro jantar amanhã? Será que eu tenho direito a um mousse de maracujá?

SCULLY (OFF): - Está pedindo demais, sabia?

MULDER (OFF): - (RINDO) Puxa vida, só um miserável de um mousse...

Krycek sorri.

KRYCEK: - ... Que obsessão por mousse de maracujá!

O rádio começa a falhar. O Canceroso olha intrigado para Marita.

CANCEROSO: - O que está havendo com o microfone?

MARITA: - Não sei.

Ela ajusta os controles.

SCULLY (OFF): - Mulder, o que está acontecendo?

MULDER (OFF): - Talvez estejamos passando por um campo elétrico... Scully, o carro morreu.

SCULLY (OFF): - O quê?

MULDER (OFF): - ...

SCULLY (OFF): - (ASSUSTADA) Mulder!

MULDER (OFF): - O que foi?

SCULLY (OFF): - (PÂNICO) Mulder o que é aquilo?

Marita olha para o Canceroso. Krycek lança um olhar de medo pra eles.

MULDER (OFF): - Ah meu Deus!!!!!

SCULLY (OFF): - (GRITA) Mulder!!!!!!!!

MULDER (OFF): - (GRITA) Não!!!!!!!!!! Scully!!!!!!!!!!!!!

[Som de interferência]

O Canceroso olha pra Marita. Olha pra Krycek.

CANCEROSO: - Que diabos está acontecendo?

Marita pega o fone e segura contra a orelha.

MARITA: - Perdemos o contato!

KRYCEK: - Aconteceu alguma coisa.

CANCEROSO: - Veja a localização deles.

MARITA: - Estão na intermunicipal, não há evidências de nenhum óvni próximo...

CANCEROSO: - Eu não quero saber de evidências! Alguma coisa aconteceu com Mulder!

KRYCEK: - Vou verificar.

Krycek sai. O Canceroso acende outro cigarro, nervoso. Marita continua mexendo nos botões, mas desiste.

MARITA: - Perdemos o contato totalmente.

CANCEROSO: - Rebobine a fita. Quero ouvir novamente.

O Canceroso leva o cigarro à boca, nervosamente. Eles se entreolham assustados. Marita leva as mãos ao rosto.

MARITA: - (ASSUSTADA) ... Alguém ou alguma coisa... Pegou eles...

O Canceroso fecha os olhos.


TO BE CONTINUED...


18/06/2001

18 de Agosto de 2019 às 21:45 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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