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Capítulo Único - Angel

Uma refrescante brisa desalinhou seus cabelos loiros fazendo as madeixas voarem de acordo com o vento. O jovem rapaz vestia uma túnica branca, pés descalços, mergulhados na vasta grama, seus olhos tão belos como as mais raras esmeraldas fitava a mão direita um pouco perplexo enquanto a esquerda trilhava o tapete natural. Sabia já não estar mais entre os vivos. E a prova disso era tanta que asas brancas adornavam suas costas.

Anjo.

Mas como? Ele era tão sujo, tirou tantas vidas. Era um assassino deveria estar condenado entre outras coisas que fizera.

O céu era límpido e o Sol não tão forte, na verdade nem sabia ao certo onde o astro se encontrava. Voltou sua atenção para cima tentando se localizar. Mas era só ele e o extenso gramado.

Abraçou as pernas sentia em seu peito a paz e felicidade de sentir-se amado. De ser importante para alguém. Tudo o que tinha sentindo antes de falecer. Dor? Certo que foi apunhalado, mas de alguma forma o turbilhão de sentimentos no qual enfrentava ocultou essa dor. E descansou em paz.

É, talvez essa seja uma boa forma de descrever o lugar. Paz e tranquilidade. Mesmo não aceitando bem isso.

Suas asas se abriram.

— Não deveria sentir-se assim — uma voz familiar cruzou o ambiente fazendo o loiro arregalar as esmeraldas — Não teve culpa de seus pecados — virou seu rosto e viu o chinês com iguais vestes, a crina roxa bipolar: uma parte penteada e outra desalinhada, nas costas asas brancas e contidas — Uma alma sofrida, usada, abandonada e humilhada. O oposto da maioria dos criminosos, arrependido sentindo o peso de seus atos em seu corpo — sentou-se ao lado do amigo — Por isso está aqui Ash. Porque merece essa paz — gesticulou.

Shorter — sussurrou o rapaz emocionado não se contendo e abraçando o moreno de mechas roxas — Perdão! Perdão! — grunhiu sofrido toda a dor de tê-lo matado corroendo seu corpo.

O chinês suspirou, passando a mão nas costas do outro. Acompanhou tudo depois que se foi, se orgulhou do amigo e se culpou por vê-lo o sentir-se mal. Quando Ash entenderia que tinha o salvado?

— Pelo que? — perguntou retoricamente — Me lembro bem que me salvou — segurou o rosto de Ash para olha-lo nos olhos — Me salvou daquela droga e de todo seu terror, me salvou de não ter matado Eiji — secou as lágrimas com os dedos — Não vejo motivo de pedir perdão.

— Eu tirei sua vida...

— Para me salvar! — desfez o abraço — É estranho de se escutar, mas é a verdade — mirou o céu — Não te culpo Ash, jamais fiz isso, é um amigo forte e verdadeiro. Obrigado.

Ash sentiu mais lágrimas escorrer pelo seu rosto. Seu melhor amigo, ali e afirmando tudo. Era inimaginável. Toda a energia sincera era passada para ele, tirando novamente seu peso.

Escutou uma risada contida.

— Skip vai surtar quando te ver.

Piscou. Seu garoto também estava ali? Claro, era um bom menino que teve sua vida roubada de forma trágica.

Suas intensas íris vasculharam o lugar procurando o pequeno afrodescendente.

— Ah, ele não está aqui no momento — contou ao ver sua procura — Está como anjo da guarda de uma guria.

— Anjo da guarda? — torceu seu rosto perplexo. Ele estava brincando?

— Não ficamos aqui sem fazer nada — bateu nas costas do loiro — Bom, tem uns que não dão para esse trabalho e realmente ficam procrastinando — entregou um papel — Aqui, esse é seu jovenzinho.

Ash pegou o papel ainda sem muito acreditar em seu amigo, mas via sua seriedade. Não estava de brincadeira.

— Bom — o chinês bateu nas pernas levantando-se — Tenho que ir, antes que meu irmão faça outra besteira — riu — Até mais meu amigo! — se foi acenando.

O loiro encarou o papel como um ser de outro mundo. Era um menino japonês, com seis anos. Não entendia bulhufas daquilo. Mas como não tinha nada a fazer foi ver o moleque. Seguiu à risca as instruções e logo estava em um quarto pequeno e escuro, bagunçado com um beliche.

Só tinha um montinho de lençol uma pequena cabeleira negra podia se ver. Se agachou. Não entendia bem como ele poderia fazer tal coisa. Poderia ter sido muita coisa em vida, mas cuidar de alguém nunca. Bom, não daquela forma.

— Você deve ser o Aslam, não? — uma jovem mulher morena apareceu do seu lado fazendo-o pular de susto. De onde ela tinha saído? Confirmou com a cabeça — Ah, que bom, Takashi é um menino de sorte ser protegido por uma pessoa que teve seu anjo como pessoa querida.

“Anjo como pessoa querida”, “sorte"? — riu — Isso é tudo que não tive...

Viu a moça fazer um bico indignada.

— Sei que sua vida não foi uma das melhores Aslam — apertou a mão contendo sua chateação — Nem sempre conseguirmos anjos para todos, a maioria não tem interesse – sustentou o olhar — “Não conseguimos salvar todos", já ouviu essa frase, creio.

— Sim — concordou — Compreendo o que diz, mas o que não entendi é esse anjo...

— Existem anjos em vida, na Terra — explicou — São pessoas que salvam outras delas mesmas que mudam suas vidas para melhor — sorriu, Ash ainda não entendia nada — Vai compreender logo — ficou séria — Mas, vai cuidar desse menino?

O loiro a fitou, passando do menino encolhido para ela, suspirou, se seu amigo acreditou nele para isso então pelo menos tentaria.

— Sim!

— Que bom! — pulou contente, de suas mãos luzes saíram fazendo uma linha, do rapaz ao menino — Prontinho! — deu um rápido abraço — Tenho que ir, você está em boas mãos! Tchau!

— Espere! Quem é você? — e a moça sumiu tão rápido como apareceu. Tentava assimilar tudo o que se passou. E o que ela queria dizer com “anjo em vida”.

O jovem menininho chamado Takashi se virou na cama retirando então parte do lençol que cobria seu rosto. Seus olhinhos fechados levemente puxados, nariz pequeno, bochechas bem coradas e lábios bem desenhados.

Quase surtou de tanta fofura, e compreendeu o que a moça disse sobre seu anjo. Deixou lágrimas escaparem. Não de tristeza, mas de alegria, saudades.



“Fique bem, Eiji.”

18 de Agosto de 2019 às 21:42 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Sophia Grayson Só uma garota que gosta de escrever.

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