Rosas Vermelhas Seguir história

mari-tagarro Sandy Lane

Em uma noite, Felipe se recorda daquilo que se esforça para não lembrar: sua primeira esposa, Eveline, uma mulher calada e perdida dentro de seu mundo particular, uma mulher que foi capaz de marcar sua vida, mesmo que o próprio Felipe não reconheça.


Conto Todo o público.

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Capítulo Único

Felipe tirou as abotoaduras e as colocou em cima do criado mudo. A luz da lua cheia, tão viva, iluminava o quarto através da janela enquanto ele desabotoava os botões da camisa branca que chegava a ofuscar os olhos, do jeito que ele gostava. A camisa tinha que estar extremamente limpa, sem defeitos, senão ele sequer a vestia.

Camélia, a lavadeira, sabia lavar roupas como ninguém.

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Apreciando aquele luar tão bonito, Felipe se lembrou – mesmo sem querer – de Eveline, a primeira e única esposa. Além de ter sido obrigado a desposá-la, a criatura não se dava ao trabalho de fritar sequer um ovo, quanto mais lavar suas camisas, o que ele achava completamente absurdo em uma mulher. As mulheres deveriam saber servir seus maridos e agradá-los, era isso que seu pai havia lhe ensinado desde garoto. A mãe de Felipe era um exemplo de esposa: suave, recatada, falava apenas o necessário, cuidava da casa e dos filhos, comandava os empregados para que tudo saísse à gosto de seu marido e o mais importante, sabia o seu lugar no casamento, ela nunca,nunca, jamais, contrariava o seu marido. Assim deveriam ser ensinadas todas as mulheres do século XVIII.

Eveline sempre fora calada, quieta demais, jamais o olhava nos olhos, quando falava – o que era raro – tinha a voz sumida como se tivesse medo de falar.

Acreditava que após o casamento, Eveline fosse melhorar.

Um casamento forçado pelos pais de ambos, a família dela tinha muitas posses, mas era sem tradição, o dinheiro havia sido acumulado graças ao gado e fazendas.

A família dele era tradicional, descendente de nobres europeus (a mãe dele adorava citar os nomes e sobrenomes da realeza), mas quase à beira da bancarrota, o pai dele confessou com pesar, o filho único devia se sacrificar era uma causa nobre, pelas jóias, pelo caviar, pelos casacos de pele, pela família!

Qual nada! Eveline mal falava com ele, ficava trancada no quarto ou na biblioteca, fizera questão de morar em um quarto separado, contratara mais empregados, parecia não se importar com as saídas do marido e com as chegadas dele cada vez mais tardias.

Na lua-de-mel fora como um bicho entregue ao abate. Fria também, estática, parecia morta. Na terceira noite, Felipe desistiu. Não queria um corpo morto, queria uma mulher, quente, disposta e ofegante.

Se Eveline ficou aliviada ou ofendida, não dissera, eles nunca conversavam quando se reuniam à mesa de cerejeira para a hora do almoço ou jantar, eram sempre calados, mudos, estranhos e indiferentes.

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Só uma vez a vira chorar. Fora quase um acidente, ela estava no jardim cuidando das rosas, tinha especial carinho pelas vermelhas, a casa vivia cheia de vasos, era a única atividade a qual Eveline realmente se dedicava.

Felipe estava voltando do escritório, passou pelo belo jardim, viu-a agachada, beijando sofregamente a rosa despetalada e chorando. Ficara impressionado, era a primeira vez que a via beijar assim, era um desespero, uma ânsia, uma força luxuriosa e angustiante.

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Algumas vezes os dois ficavam na sala, ele sentado na poltrona de pernas cruzadas, jornal aberto nas mãos e um copo de vinho do porto, seu predileto, em uma mesinha ao seu lado. Ela, na extremidade do sofá, sempre distante do marido, fazia questão da total separação de corpos. Eveline, o corpo reto, as pernas juntas, o livro nas mãos brancas quase pálidas (já que raramente saía de casa), o ar concentrado, os olhos esverdeados e apagados mergulhados no mundo de letras e palavras. Ás vezes seus lábios finos expressavam certo sorriso prazeroso, sonhador e que em poucos segundos era reprimido.

Felipe se arriscara a perguntar se ela gostaria de uma taça de vinho. Ela olhara-o espantada, um relance, baixara os olhos, parecia que nem iria responder... Mas respondera, acanhada, dissera que ''sim, muito obrigada''. Felipe sorrira simpático e ela pegara a taça com todo cuidado para não encostar os dedos nos dele.

''Seria nojo?'', ele se perguntara um tanto irritado e ofendido, ele quem deveria ter aversão à esposa, uma mulher magra, sem carnes, pálida, o ar melancólico e triste, no entanto, ainda se dera ao trabalho de tentar falar com ela, sinceramente, considerava um afronte de Eveline, ele era um tolo mesmo.

Felipe muitas vezes tivera vontade de sair, de ir embora, desistir de tudo, de sumir, mas não podia desonrar a família, causar um escândalo, fazer a mãe sofrer, o pai ser afastado do seu carteado e ficar sem o dinheiro do gado. Sim, o sacrifício era de Felipe, ele quem estava fadado a conviver com Eveline para o resto dos seus dias para que sua família não amargasse a dor e a humilhação da completa pobreza.

Ela bebera o vinho calmamente, saboreando-o. Em dado momento sorrira, um sorriso secreto, daqueles sorrisos que só pertencem à pessoa que sorriu, à sua mente, à sua lembrança, à sua memória, então sorvera o último gole, encostara a cabeça no encosto do sofá e fechara os olhos, mergulhada em um mundo que só ela conhecia.

Felipe, atiçado pela curiosidade, perguntara o porquê do choro e dos beijos na rosa vermelha no jardim. Sempre de olhos fechados, um ar relaxado, Eveline lhe contara sobre o primo Fernando, tão belo quanto perigoso...

Foram criados juntos, o menino órfão e a menina solitária, companheiros, amigos e amantes. O primeiro beijo acontecera no jardim das roseiras premiadas da mãe, as mãos cálidas, doces, inquietas, o corpo em chamas, certa culpa, mas ele afirmara que não era errado, eram primos e não irmãos. Com quinze anos ele embarcara para a Europa estudar, seria advogado para realizar o sonho do tio. À Eveline, Fernando dera uma última rosa vermelha naquela noite – todo o dia lhe dava uma – declarara várias e várias vezes que a amava como só um louco era capaz, ela recebeu-o, foi sua por inteiro.

Uma única noite.

Pela manhã Fernando fora embora, nunca mais retornara, morto dois anos depois em um acidente de carro. Mentira da família, Fernando levara um tiro certeiro de um marido traído. Assim foi ceifada a vida do advogado que nunca existiu e o farrista mais conhecido de Lisboa num só golpe.

Eve chorara muito, chorava até hoje, as rosas vermelhas, o amor perdido.

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Felipe sentara ao seu lado no sofá, movido por um impulso que ele nem ao menos sabia dar razões do por quê, mas pedira que ela não abrisse os olhos e pensasse em Fernando. Tocara, beijara, as mãos nervosas e inquietas nos seios pequenos, no seu ponto mais sensível e úmido, ao longo daquele corpo não tão descarnado como ele imaginara, enquanto ouvia sua respiração ofegante e luxuriosa. Fizera com que a Eveline sentasse em seu colo, os olhos ainda fechados, a tomara, a possuíra, pela primeira vez aquela mulher parecia ter sangue nas veias.

Toda a vez que ia à sua alcova ela fechava os olhos, lembrava de Fernando, dizia o nome dele em um sussurro, mas Felipe não se importava, sua curiosidade, sua necessidade estava sendo saciada, embora uma parte da sua consciência, lá no fundo, indicava que aquilo não parecia certo. Não seria melhor ter consumado aquele casamento sem uma terceira pessoa – já morta – no meio? Mas Felipe ignorara todos os sinais.

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Eveline, para a surpresa de todos, engravidara, as famílias tanto dele, quanto dela acreditavam que a moça fosse seca por dentro, mas o terreno não era árido, e sim fértil.

Todos torciam por um menino, o primogênito, aquele que carregaria os nomes das famílias, a tradição e a fortuna.

Felipe voltou a se encontrar com outras mulheres, desinteressara-se pela esposa melancólica e grávida, aquilo não era assunto para ele, até porque Eveline parecia cada vez mais envolvida pelo seu mundo particular, o filho era só seu, a melhor parte dela.

Nasceu-lhe um menino, lindo, gordo e sadio. Avós felizes e a família de Felipe o felicitando, finalmente havia uma garantia concreta de que o dinheiro de Eveline permaneceria com eles.

Felipe às vezes olhava o menino, que se parecia com ele, mas porque não lhe inspirava amor? Talvez porque o menino se chamava Fernando, a homenagem feita por Eveline que emocionara os avôs maternos. Fernando estava vivo novamente, dentro de sua casa, de sua vida e de seu casamento.

Eveline se dedicara dia e noite àquela criança, mãe exemplar, diziam todos, prestimosa e dedicada. Eveline tinha um ar de alegria constante para os outros, mas para Felipe era um ar obsessivo, escravo e doentio. Não queria participar daquilo. Ela o assustava.

Em uma noite, Felipe fora ver o menino, sempre ia olhá-lo, admirava a sua inocência, a calma, a tranqüilidade e a paz de espírito que só os bebês têm.

Eveline estava sentada na cadeira de balanço, o bebê no colo, banhados pela luz fraca do abajur, o braçinho sem vida estendido. Os olhos de Felipe se arregalaram, a garganta ficara seca, ele tocara no ombro de Eveline, que o olhara sem expressão.

''O que você fez?'', ele perguntara e ela ali calada, quieta, com um olhar inexpressivo.

Felipe tivera vontade de bater nela, mas pra quê? No fundo sentira certo alívio, a presença viva de Fernando sumia outra vez. Havia culpa por ter esse tipo de sentimento, mas era o que batia em seu peito, era o que sempre vinha na sua mente. Consolava-se dizendo para si mesmo que o menino agora estava livre daquele mundo, feliz e inocente na Eternidade.

O menino fora enterrado com muitas lágrimas e lamentos, ''Teriam outros filhos, eram jovens'', diziam ao casal as pessoas absolutamente muito mais chocadas e chorosas do que os próprios pais. ''Que tragédia'', sacudiam as cabeças, ''Que tragédia...''

Eveline não derramara uma só lágrima, apenas deixara uma rosa vermelha no túmulo, a mais bela e mais bem cultivada de todas.

Felipe não dormira naquela noite, o médico diagnosticara que o bebê morrera dormindo e o consolara dizendo que era normal, isso acontecia com bebês.

Como ela o matara sem deixar marcas?

Não seria muito difícil, bebês eram seres muito frágeis, fáceis de morrer. Queria inquiri-la, gritar com ela, sacudi-la, mas também tinha vontade de abraçá-la e possuí-la com selvageria. E foi o que fez quando voltara à sua alcova naquela mesma noite e Eveline não o chamara de Fernando.

Em nenhuma das noites.

Eveline engravidara novamente e a única exigência de Felipe fora que a criança não se chamasse Fernando. Eveline lançara-lhe um olhar magoado, mas não dissera uma única palavra e ele, erroneamente, vira nessa atitude o sinal da boa esposa que obedece ao marido sem contestar suas decisões.

Nove meses depois, Felipe encontrara Eveline enforcada no quarto, o corpinho do bebê no chão e uma poça de sangue. Era uma menina.

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Felipe entrou na banheira de água quente e gostosa, sentindo seu corpo relaxar, pensando em sua noiva, a sua futura segunda esposa, jovem, bela e normal, graças a Deus.

A casa onde vivera com Eveline tinha sido vendida, era maldita diziam.

Renata, a noiva, afirmara resolutamente que não poderia morar em uma casa de tantas mortes, de terra ressecada e um ar fúnebre após os falecimentos de Eveline e seus filhos.

Iria ser um bom casamento, pensou Felipe, aquela mocinha de dezessete anos tinha o fogo da paixão nos olhos e uma família rica para bancar todas as suas necessidades.

E o principal, o mais importante, não havia nenhuma predileção por rosas vermelhas e nenhum primo chamado Fernando.

FIM

17 de Agosto de 2019 às 01:44 0 Denunciar Insira 0
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Sandy Lane Leitora por amor e escritora nas horas vagas.

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