Blue Monday Seguir história

rosenrot huru

Segunda-feira é uma maldição vinda do Diabo mais cruel e lançada à criatura mais infeliz do mundo. E isso não foi diferente com Kim Seokwoo. As segundas, na sua vidinha mequetrefe, significavam que ele precisava ser uma pessoa pacífica. Só que ele não sabia como fazer isso acontecer.


Fanfiction Bandas/Cantores Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#drama #angst #rotina #monotonia #sátira #sf9 #sensational-feeling-9 #rowoon #new-order #segunda-feira
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Tell me: how do I feel? Tell me now: how should I feel?

É uma segunda-feira.


Uma segunda-feira triste.


E segunda-feira, para o ilustríssimo Kim Seokwoo, significa que ele precisa ser uma pessoa pacífica.


Só que ele não sabe como fazer isso.


Porque, veja só, há uma linha tênue finíssima entre ser pacífico e chamar o próprio chefe, Kim Youngkyun, que é muito mais novo, de drogado.


Ele não pode, repito, n-ã-o p-o-d-e, de jeito nenhum, chamar o chefe de drogado. As contas, amontoadas em pilhas e mais pilhas sobre a mesinha, vieram tão salgadas que ele quase ficou hipertenso. Atrasou um monte e neste mês teria que sobreviver à base de ódio, sorrisos amarelos, puxa-saquismo e biscoito de maisena.


“Aquele varapau dos infernos...”, ao menos nenhum gato pingado conseguia ler o turbilhão de ofensas sórdidas, em coreano materno e inglês desajustado, que esvoaçava o cérebro do rapaz.


Ok. Certo, é uma segunda-feira. Triste.


São cinco da matina, orquestrado pelo canto sôfrego do galo da casa à frente. A cara de Seokwoo parece amassada feito rolo compressor, mas ele está quentinho e macio como um bebê dorminhoco, gigante e emburrado.


O cabelo dele está ensebado, mais sujo que pau de galinheiro. Estirado sobre o sofá minúsculo em comparação ao seu corpo, assistia ao Corujão na tevê LG, de tubo, a imagem extremamente saturada com uma fresta magenta cortando a metade da tela. Passava pela enésima vez naquele mês algum filme de ação sobre um homem buscando vingança após a máfia tê-lo sequestrado a única filha. A novidade: não é estrelado pelo Nicolas Cage.


— Droga... — e massageia as têmporas com os dedos; olhos apertados e marejados de tédio, boca entreaberta soltando um suspiro que ele desejou ser a própria alma.


Ele abre uma pálpebra, olha o relógio na parede, cinco e um, pragueja de novo, levanta-se e então espreme o corpo esguio entre os móveis entocados todos juntos no buraco minúsculo que é seu apartamento; vai à cozinha. O chá é de casca de maracujá, cravo e erva-doce — a irmã, após inúmeras fofocas de família e reclamações, dissera que é bom para insônia, e seus olhos pintalgados de olheiras escuras denunciam a escassez de sono. A receita original da bebida inclui mel, mas as coisas estão duras demais. Seokwoo até estranhou ter maracujá na fruteira.


Resolve ir ao quarto, durante isso bate o mindinho do pé na quina da mesa, pragueja mais uma vez:“varapau dos infernos!, drogado!, emprego de merda!”. Todo o pé é uma explosão carmesim e arroxeada borbulhando sobre a pele fria por causa dos calos causados pelo costume de usar sapatos sociais. Tampará todos com esparadrapo e meias furadas. Machucados tão magoados quanto o seu estado de espírito. São pés esforçados de bailarino.


O vento uiva como um anjo, faz as persianas farfalharem, e sobe um arrepio dos calcanhares carcomidos aos pelos da nuca. Sentou-se na cama. O vapor da xícara aquece as mãos; Seokwoo está meio morto, meio entorpecido: como se nas veias corresse um tipo de analgésico superpotente. Deve ser chá. Ou soju.


— Alexa, me diga: como me sinto agora? — questiona o rapaz, em vão, ao robô pousado em cima da cômoda. Ele olha com desgosto para os sapatos sociais de sola gasta. Os calos latejam somente com o pensamento. — Me diz agora: como eu me sinto?


Cansado. Desequilibrado. Com vontade de se jogar daquela janela aberta ali, que trazia os frescores da chuva cobrindoa cidade pacata com uma penumbra melancólica.


E o aparelho, ao detectar o próprio nome, pisca os “olhos” numa luz LED vermelha, que reflete no vidro turvo da janela e banha o rosto naturalmente fleumático de Seokwoo. Este espera. Se alguém o visse naquele estado deplorável, de certo pensaria que ele é uma espécie de lunático à la Charles Manson prestes a cometer um crime de ódio.


O cara abdicou de muitos luxos para o seu próprio bel prazer — como uma televisão 4K ou um celular super-ultra-moderno-e-extremamente-caro-e-igualmente-desnecessário — a fim de obter aquele robô. Julgou que seria o fim dos seus problemas solitários, das suas dúvidas em relação ao péssimo humor; da sua “dissociação”. Alexa é inteligente:uma companhia menos trabalhosa que um gato, uma terapeuta menos melancólica que um peixe. Obediente, não pensava e tampouco se opunha; é humana.


São cinco da manhã de uma segunda-feira. Triste. Restavam três horas. Ele precisa, urgentemente, da receita de como ser “pacífico”. As receitas de “como esculhambar o seu chefe mais novo do que você” surgiam a cada segundo passado.


— Não entendi a pergunta, senhor Kim — responde Alexa, com seu tom de voz monótono, robótico e... afinal, o que espera de uma máquina? — Pode refazê-la Ele suspira. “Claro que não pode, robô imbecil”, e beberica um gole do chá. Tem gosto de esgoto, fala sério, por isso o mel é necessário. “Você não é uma telepata. Burra. Idiota”.


— Poderia me dizer como — Seokwoo vai dizendo, entre gaguejos e gemidos; as ondas de dor aguda que lhe assomam os tecidos são violentas. A vida, na verdade, é tão violenta quanto. — Poderia me dizer como que é a sensação quando o coração é... frio...? De... sabe...? De... não ter... um coração...? — e o rapaz se sente estúpido ao perguntar uma coisa dessas a uma máquina. — Olhe, esqueça, deixe para lá.


Antes de dá-la chance de respostas, ele complementa:


— Diga-me agora, então: como devo me sentir?


Meio segundo. Meio gole no chá.


— Não entendi a pergunta, senhor Kim. Pode refazê-la?


“Argh”, ele range os dentes. “Onde fui amarrar meu burro?”.


— Ai, cala essa sua boca — martela o chão à escrivaninha, batendo o punho no aparelho —, sua salva-vidas de aquário!


— Não entendi, senhor Kim — agora a voz do robô está meio morta, defeituosa. — Pode dizer novamente?


— Vai se foder!


Outra bifa. Saltou vários pregos e fios, não obstante, como quis que Alexa fosse o imbecil-idiota-tosco-drogado-nojento-filho-da-puta-kyun.


Estava entregue a deus-dará.

16 de Agosto de 2019 às 01:22 3 Denunciar Insira 2
Fim

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Amanda Karynne Amanda Karynne
Nossa. Eu escolhi sua história, por amar a música do New Order - e por perceber que "Blue Monday" foi mesmo uma inspiração, ao ver as tags. Nunca tinha reparado como "Blue Monday" é sombria. A vida desse cara é tão miserável (o protagonista) que já não estou tão incomodada com a minha. Eu tenho uma série de histórias - mas ainda não decidi a primeira a ser publicada aqui... o seu enredo me fez lembrar de uma história minha, que é tão bonita quanto triste. Acho que vai ser essa.

  • huru huru
    MIL PERDÕES POR RESPONDER TÃO TARDIAMENTE O SEU COMENTÁRIO, mas divido contigo a mesma paixão por New Order, que precisei expressá-la de alguma forma. Blue Monday, ao menos na minha concepção, é bastante sombria e cheia de significados; é algo demais para o meu cérebro, algo maravilhoso, único. Quanto ao meu protagonista, creio que a angústia dele serviu de algo, afinal de contas. E eu agradeço muito pelos elogios e pelo tempinho que tirou para mimar uma escritora! Irei te stalkear qualquer hora para dar uma olhada na sua futura história. Mais uma vez, agradecida! <3 1 week ago
huru huru
Totalmente inspirado na masterpiece do New Order. https://www.youtube.com/watch?v=FYH8DsU2WCk <3
15 de Agosto de 2019 às 20:33
~