CIDADE DE PASSAGEM Seguir história

ironi-jaeger1558039313 Ironi Jaeger

Algumas cidades são apenas cidades de passagem… João, cresceu em um orfanato sob a proteção do padre Tomas e por isso era chamado de (o menino do padre). Só depois de adulto ele descobriu o que essa expressão significava. Certo dia ouviu de seu protetor que deveria partir de Campo Santo e tentar a vida em outro lugar. Saiu da cidade assim como chegou, apenas com suas malas e sua solidão deixando para trás a linda menina que chorava embaixo da árvore. Com o passar dos anos ambos seguem seus caminhos, mas o destino conspira para o reencontro entre João e Arlene. Todas as quintas-feiras, Arlene lia as cartas que o jornal recebia e aquele envelope era diferente dos demais… Algumas cidades são apenas cidades de passagem? O destino desconhece esse fato?


Romance Suspense romântico Todo o público.

#orfanato #cidade-de-passagem #menina-que-chorava #balanço
0
564 VISUALIZAÇÕES
Em progresso - Novo capítulo Todas as Segundas-feiras
tempo de leitura
AA Compartilhar

A MENINA QUE CHORAVA EMBAIXO DA ÁRVORE

Oculta e silenciosa a cidade de Campo Santo, não é, na verdade, uma cidade, mal aparece no mapa.

Existe uma placa, é claro, mas esta está tão gasta pelo tempo que quase não é legível, seu esqueleto semioculto pela vegetação só é visto por que conhece sua localização e estes pouco se interessam por ela.

Há uma sede da prefeitura que funciona como estação de trem e banco.

O trem passa na estação todos os dias e parte, levando e deixando pessoas, e todas os utensílios, malas e fardos que os humanos, são capazes de carregar em sacos, malas, caixas e em seus corações.

Alguns levam apenas suas dores outros curvam-se perante suas culpas. O trem indiferente a tudo, os leva e traz apenas pelo preço da passagem.

É uma cidade pequena perdida no tempo. Para encontrar civilização de fato é preciso viajar cerca de 80 km até a cidade mais próxima.

Quase nada acontece em Campo Santo, a cidade é tão isolada que só seus moradores sabem onde fica. Uma pessoa de fora não vai até lá a não ser para deixar um órfão ou filho rejeitado no orfanato.

Se algum dia, por acaso pegar a estrada de cascalho e terra e por ali passar, saiba que todos que por ali passam ou são moradores ou sabem para onde estão indo, então não deve fazer perguntas, a não ser que estejas deixando um menino para o orfanato, neste caso deve falar o mínimo possível. Desconhecidos não são bem-vindos em Campo Santo.

Respirou fundo. A proximidade com o centro da cidade acelerou seu coração, se não fora o denso nevoeiro, com certeza, já avistava o casarão que funcionava tanto como internato quanto abrigo para crianças e que havia desaparecido na névoa, assim como boa parte da cidade.

Sentado em uma das cadeiras na estação de trem pediu um café para esquentar seu corpo, esperava encontrar no fundo daquela xícara a coragem que ele precisava. Seu café foi servido com uma pergunta:

– O senhor não é daqui da cidade? Está de passagem? Veio para o enterro?

João poderia explicar quem era e o motivo que o trouxera a cidade. Explicar que conhecia muito bem a cidade, que sabia para onde ir e que só estava sentado ali para criar coragem. Podia, mas se limitou a responder de maneira evasiva:

– Estou de passagem. Vim visitar uma pessoa na cidade e dependendo fico por alguns dias. Só por curiosidade quem foi que morreu?

A pessoa que o interpelara com a pergunta levantou a sobrancelha curiosa como fato do estranho não saber quem morreu.

Ele calmamente sorveu um gole de café, sentindo o líquido quente entrar em sua corrente sanguínea e aquecendo seu corpo.

– Diga-me quem morreu?

– Ah, então não veio por causa dele?

O homem estava com a língua coçando para falar e quando começou...

– O rapaz David, foi encontrado morto pela manhã, já gelado, corre a fofoca que foi assassinado. Ele é irmão da Arlene dona do jornal cuja sede fica atravessando a praça. Lá ó, naquela casa branca de janela azul.

Então o irmão de Arlene estava morto, e ele agora teria de viver com a culpa de não ter feito nada para proteger o irmão da sua amada.

Podia contar que foi este o motivo que foi chamado evitar que o rapaz fosse assassinado.

Mais uma vez podia dar explicação da sua vida, mas não o faria. Não para este estranho.

– O irmão de Arlene está morto? Não sabia.

– Com certeza o senhor não é dessa região, senão já o saberia.

Seu interlocutor permaneceu por perto com as orelhas em pé. Curioso para saber quem era aquele homem.

João levantou o braço para ver as horas em seu elegante relógio de pulso presente da sua namorada, justo neste momento o relógio da torre bateu 9 horas.

Se não fosse o denso nevoeiro já avistaria a velha casa que ficava na esquina oposta a praça, que ele sabia ainda estar com as mesmas cores, branca com suas janelas e portas azul.

Demorou mais do que o necessário para tomar o café, a coragem não estava no fundo da xícara, teria que procurar dentro dele.

Pareceu ouvir sons de passos. Passos de garotos tristes. Que envoltos em seus pesados casacos escuros chegavam arrastando suas malas, pareciam apenas vultos caminhando apressados para sair do nevoeiro.

Os meninos pareciam integrantes de um cortejo fúnebre, suas botas batiam nas pedras quadradas da rua e o barulho se assemelhava ao barulho de soldados marchando para uma guerra que não lhes pertencia.

Os mais novos choravam baixinho e eram ou consolados ou repreendido por quem os trazia. Os mais velhos já nem se importavam, caminhavam quase confiantes para seu destino.

Uma pesada nuvem de melancolia pousou sobre ele. Melancolia e frio. O frio cortava feito navalha, golpeava o corpo daqueles meninos que caminhavam arrastados como partes descartadas de um jogo de tabuleiro, onde eles os meninos eram os perdedores.

Caminhavam e desapareciam, seus casacos escuros se misturavam ao cinza do nevoeiro tornando-se apenas vultos que se dividiam em grupos, e em pares.

Alguns caminhavam encolhidos sentindo não só o frio da natureza, mas o frio do abandono e da solidão.

Ele assim como aqueles meninos já foi interno do orfanato. Trazido por tio foi praticamente arrastado pela rua. Entendia o medo, angústia e solidão daqueles meninos que eram os rejeitados entregues a própria sorte.

Entregues nas mãos dos irmãos de caridade que os educavam a sua maneira, tentavam com castigos fazer dos meninos crianças melhores.

Havia ali professores que os amavam e estes tentavam incutir neles um pouco de civilidade e educação, mas a maioria apenas ficava trabalhando no orfanato pelo salário e para ter um lugar onde morar e dormir.

Eles os meninos eram, os abandonados os meninos que a família não queria eram um estorvo para a sociedade.

Aos nove anos chegou ao orfanato puxado pelas mãos do tio Artur, sua mãe faleceu por causa de algo que os adultos chamavam de febre e o pai desesperado saiu pelo mundo.

Os tios tinham sua própria vida e uma criança que não era delas não fazia parte dos seus planos.

Em uma fria quinta-feira ele desceu do trem em um lugar estranho, foi arrastado rua afora pelo tio. Fazia frio, ele chorava e as lágrimas queimavam em seu rosto.

– É para seu bem. Lhe disse o tio com rispidez.

Aos nove anos era um menino muito magro, de baixa estatura tornou-se rapidamente um (saco de pancadas) dos seus colegas que o apelidaram de (formiga), sofria tanto nas mãos dos colegas que por duas vezes foi para a enfermaria seriamente machucado.

Seu único desejo era ser igual aos outros meninos de sua idade, ter uma rotina parecida com a deles.

Tinha uma paixão absoluta pelo jogo de xadrez, era quando ele podia comandar o show. Mesmo nestas horas debochavam dele. Não reclamava. Sentava em sua cadeira e derrotava seus colegas uma a um.

Chegou um dia nenhum menino queria jogar com ele, ele os derrotava sem piedade. O último a ser derrotado foi um menino bem mais alto que ele apesar de ter a mesma idade. Era diferente dos demais, diziam que era louco da cabeça.

O menino derrotado por João jurou vingar-se.

Engraçado como aquela surra ainda doía, as duas costelas quebradas, as mãos que não permitiam que segurasse a colher para alimentar-se.

A raiva, a humilhação daquele dia estava viva em sua memória, mas foi através dela que conheceu irmão Tomas e uma nova vida depois daquele dia.

A neblina que caia úmida cedia aos poucos espaços para a claridade. As lâmpadas da rua continuavam com seu bruxulear amarelado, os vultos agora eram um pouco mais difusos, já os diferenciava dos postes de iluminação. Os vultos surgiam, atravessavam a rua ou a praça e desapareciam.

Aquela cena enevoada trazia lembranças diversas algumas doces outras amargas.

Da janela do escritório do irmão Tomas avistava a praça, e o verde gramado que a circundava e terminava na escada de uma casa branca com suas portas e janelas pintadas de azul-celeste. Ao lado da casa uma grande árvore com suas flores vermelhas que contrastavam com o verde gramado e o azul do céu.

Embaixo da árvore um banco de madeira também pintado de azul e neste quase todas as tardes sentava uma menina com seu livro na mão. Ela ficava tão absorta e sua leitura que não notava que era observada do alto do prédio.

Algumas vezes ela abaixava a cabeça e pela forma que seu corpo sacudia ele imaginava que ela aos prantos soluçava. Por que será que ela chorava?

Tomava cuidado para não ser visto por irmão Tomas, não queria perder seu trabalho.

Agora aos 12 anos já era um experiente serviçal a serviço do escritório do irmão Tomas, o que lhe dava muitas regalias como atividades extracurriculares e acesso a uma vasta biblioteca que os outros meninos nem sonhavam que existia.

Tinha medo de ser descoberto enquanto observava a menina, certa tarde foi flagrado na janela, fechou rapidamente a cortina, porém era tarde demais para escapar da bronca:

– Vá fazer tuas tarefas. Se já as terminou, vá ler um livro. Nada de ficar fenestrando na janela. Vá agora.

Nem esperava uma segunda ordem. Riu com a lembrança.

Realizava suas tarefas com rapidez, estudava sua lição e voltava pé ante pé para junto da janela, espiar a menina lá em baixo.

Era um dos “menino do padre” e por este motivo era odiado pelos outros meninos o chamavam de “maricas, soldadinho do capeta, namorado do padre” e outros palavrões que ele se envergonhava apenas por lembrar.

Para João, os outros meninos eram uns perdedores. Jamais teriam as regalias que ele tinha aos 12 anos trabalhando naquele escritório. Recebia muitos presentes e muitas moedas, que colocava em um cofrinho que o irmão Tomas improvisou com uma lata de biscoitos.

Nunca havia sido tocado de forma libidinosa, apenas era protegido por ser um menino especial que merecia um futuro diferente em relação aos outros tantos.

Devorava os livros da biblioteca um a um. Amava as histórias contada nos livros, achava o máximo as aventuras que os escritores viviam.

Admiravam a forma como escapavam das armadilhas e resolviam questões complexas. Eu sei que u irmão Tomas quer que eu estude para ser professor ou padre, mas eu quero mesmo ser policial e escritor.

Naquela linda tarde em parecia haver uma espécie de concurso de beleza da natureza de tão lindo que estava a árvore florida tocada pelo sol e banhado pela imensidão azul do céu. Uma leve brisa agitava as folhas da árvore que dançavam suavemente enquanto a menina sentada em seu balaço subia até quase tocar os galhos e voltava para perto do solo.

Então ela parou com seu suave balançar e baixou a cabeça. Tinha certeza que ela chorava o pé direito apoiado no chão seu corpo sacudido pelos soluços e então toda a beleza daquele momento desapareceu.

Um homem apareceu e sentou no banco de madeira, a menina sentou ao seu lado, ele a abraçou e afagando seu cabelo a consolava. Ela concordava com a cabeça.

De que cor seriam aqueles olhos? Como será que se chama a menina?

Foi crescendo e conforme o tempo passava, notou que a menina desaparecia por meses então deu-se conta que provavelmente era estudava em um colégio fora da cidade.

Quantos anos haviam passado desde saiu de Campo Santo? Procurava nem lembrar, no dia em que foi embora atendendo ao apelo do irmão Tomas, prometeu nunca mais voltar.

Era apenas uma cidade de passagem, não uma cidade para morar, ele era jovem, tinha um futuro promissor, então por que ficar naquela cidade perdida no tempo.

Irmão Tomas um dia acordou e o avisou que precisava ir embora o dinheiro acumulado nos 9 anos que ficou no internato somava uma pequena fortuna o suficiente para comprar algumas terras em outra cidade e pagar uma faculdade.

E assim como chegou na cidade, partiu, sozinho arrastando sua mala e carregando seus medos e frustrações rumo mais uma vez ao futuro desconhecido.

A neblina suavizou tornando-se menos densa e o velho casarão mostrou sua figura fantasmagórica, ele tremia com a visão, como será encontrar com ela depois de tanto tempo?

O tempo e a distância nunca foram impedimento para seus pensamentos sempre que possível pedia para alguém lhe trazer o jornal de Campo Santo, o pai dela era dono do jornal e assim um belo dia sobe que Arlene Campos, sua amada casaria.

Ficou triste porém entendeu que ela se tornara uma linda mulher e não podia ser diferente, ela seguia com sua vida assim como ele estava fazendo. Será que ela continua casada? Será que tem filhos? Apenas sabia que ela era sua paixão de infância e embora ela nunca soubesse disso, para ele, ela seria sempre a menina que chorava embaixo da árvore.

Seus pensamentos flutuavam entre o passado e o presente. Dias antes ao chegar na delegacia recebeu de sua secretária um papel com um nome escrito e abaixo dele um número de telefone, sua reação foi tão evidente que a secretária perguntou:

– Está tudo bem?

—Sim. Respondeu de forma automática e mentalmente tentou acompanhar seus pensamentos que voavam em direção a Campo Santo.

Aquela ligação despertou nele sentimentos adormecidos, lembranças que ele procurava remeter ao limbo da mente desde que soube que ela se casaria.

Era considerado um homem forte um pouco rude, perdeu o costume de sorrir e gostava de ser assim. Aquela mulher tinha o poder de gerar conflitos com os quais ele não sabia lidar.

A distância entre a mesa da secretária e a sua sala eram de apenas alguns passos, dois ou três talvez, mas neste momento pareciam quilômetros toda sua infância e juventude passou diante de seus olhos naquela curta distância entre a mesa da secretária e a dele.

Durante anos esperou aquela ligação, ou por uma carta que nunca chegou. As cartas que enviou para ela não foram respondidas.

Sentou-se na cadeira colocou o papel na sua frente as duas mãos seguravam a cabeça, seus olhos fixos naqueles números, ligaria? E porque não? Era tão fácil, bastava levantar o fone e discar, mas e se ela não atendesse? Viu que a secretária o observava entre curiosa e surpresa com a reação do homem de quase 1,80 cm diante de um pedaço de papel.

Levantou-se e fechou a porta, sua mão tremia ao discar ao ouvir o alô do outro lado não soube precisar o que sentiu,

Ficou segundos sem responder, enquanto ela repetia com sua doce voz:

-Jornal de Campo Santo, aqui quem fala é Arlene Campos, quem deseja falar?

– Bom dia. Recebi um recado para ligar para este número.

-Quem fala por favor? Ela repetiu de uma forma fria e profissional.

–João Aires.

Ouviu um longo suspiro do outro lado da linha, momentos de indecisão de ambos os lados. Será que ela tinha os mesmos receios que ele? No silêncio daquele momento pelo fio do telefone correram anos de saudade, frustração e mal entendidos.

-Que bom que você ligou. Ela começou a falar.

– Em pensamento perguntava. Você está bem? Continua casada? Tem filhos? Quantos? E o jornal como está? Porem sua voz não saiu.

Do outro lado da linha o silêncio denunciava que nem um dos dois sabia como conduzir aquela conversa.

João estava nervoso, suava frio, rezava para que ninguém entrasse na sala e o visse naquele estado constrangedor como se fora um menino apanhado em uma travessura.

– Desculpa ter ligado. Ela finalmente falou. Eu preciso de ajuda e não tenho mais ninguém a quem recorrer.

Respirou fundo e preparou-se para ser o cavalheiro que resgataria sua donzela em perigo igual nos livros que lia quando criança.

– Diga. Se puder te ajudar. Farei o possível…

A voz dela estava trêmula, seria por causa da emoção de falar com ele?

– Eu não sei como te explicar isso por telefone. Eu preciso que venhas até Campo Santo, se possível com uma certa urgência. Recebi uma carta do meu irmão. Onde ele diz que será assassinado.

– Mas até onde sei, seu irmão está bem.

– Não o José. Meu outro irmão David.

João quase caiu da cadeira por esta surpresa não esperava. Ela tinha outro irmão? Mas como? Então seu pai casou outra vez?

– David. Ele repetiu incrédulo. Não sabia que você tinha outro irmão.

– Nem eu. Só fiquei sabendo da existência dele no dia da leitura do testamento do meu pai.

– Sei pai faleceu?

– Sim. Já faz um par de anos.

Quanta tempo havia passado. Na sua mente a imagem da menina moça de cabelos escuros que agora lhe fazia uma revelação estranha. A voz trêmula do outro lado da linha despertou nele sentimentos que ele habilmente tentava empurrar para o fundo do túnel do esquecimento. Sentia a tristeza dela enquanto falava e tomado de uma forte comoção decidiu:

– Sim. Eu vou até Campo Santo. Tenho alguns assuntos pendentes por aqui, cuidarei deles e assim que possível pego o trem para Campo Santo.

– Não estranhe na sua chegada a cidade cresceu junto conosco, já não é mais como nos tempos passados.

A neblina estava menos densa, já deixava ver os esqueletos das casas e do outro lado da praça a velha casa, a árvore que se desfolhara para esperar o frio e fixo em seus galhos o balanço, o banco de madeira onde roubou um único beijo dela. O beijo de despedida quando soube que deveria partir. E partiu levando ela em seu coração, a amava, mas não tencionava voltar para Campo Santo.

Sentado na construção tosca que servia de estação pensou na voz suave que ainda ecoava em sua mente, e na doçura da imagem da menina moça sentada no balanço embaixo da árvore que de vez em quando secava os olhos com as costas das mãos.

Ela, a menina que ele observava da janela chorando embaixo da árvore. Aquela que ele sem pensar deixou para trás em busca dos seus sonhos. Aquela que casou com outro homem. Aquela mulher que ele amava e que reencontraria dentro de minutos, assim que tivesse reunido coragem suficiente.

Ela o chamou por estar preocupada com uma carta que recebeu.

– Um crime acontecerá. Um crime. Irão matar o meu irmão.

A carta pode ser uma brincadeira de mau gosto, mas algo em seu faro policial despertou. E mesmo que a carta for falsa e não haja crime, quero saber quem enviou a carta que causou tanta aflição e passar no mínimo uma reprimenda no autor.

Toda sua carreira, toda a dureza da vida de investigador, todos os obstáculos já enfrentados, não serviam como preparação para o encontro com Arlene o seu amor de infância.

Saiu do seu devaneio quando uma figura estranha entrou na estação, envolto numa capa que o cobria dos pés a cabeça. O estranho cumprimentou o homem que estava atrás do balcão e olhou em direção ao homem sentado na mesa seu rosto parecia conhecido.

O estranho era um pouco alto, um rapaz bonito com certeza. Usava uma calça social alinhada e uma jaqueta de couro cara.

O estranho levantou a cabeça e seus olhares se cruzaram:

– É você? Meu menino? Meu menino João?

O velho padre tinha a voz tremida pela emoção.

– Sim. Padre Tomas, sou eu, João.

O agora já não estranho largou a xícara e a passos trêmulos foi até o homem sentado na mesa.

– Aquele abraço quente, fraterno deixou o dono da estação comovido.

– Veio para o enterro? Vamos juntos então. Tenho de dar consolo para minha sobrinha nesta hora tão difícil.

Difícil. Difícil é para mim ir neste enterro e encarar Arlene, se eu não tivesse demorado uma semana para atender o pedido dela, quem sabe David estava vivo.

– Vamos meu filho. Vamos ao velório. Depois do rito fúnebre vamos conversar e colocar a conversa em dia.

Os dois homens saíram para o frio da rua, sob o olhar curioso e maliciosa do dono da estação.

O velho padre agora equilibrava o peso das suas pernas com o auxílio de uma bengala.

– Este aí é um fofoqueiro. Ele contará sobre o nosso encontro antes de chegarmos ao velório.

Dito e feito. Assim que chegaram a capela onde o moço estava sendo velado a notícia da sua chegada já o precedera.

12 de Agosto de 2019 às 19:21 0 Denunciar Insira 0
Leia o próximo capítulo O SENTIMENTO DA QUINTA-FEIRA

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 1 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!