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dissecando Edison Oliveira

Há um orfanato um tanto peculiar poraqui neste conto. Um lugar onde você poderá adotar um... bem, leia e descubra.


Horror Literatura monstro Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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BALÕES





Algumas crianças estavam jogando com uma bola feita de trapos, correndo descalças pelo chão de areia enquanto outras pareciam brincar de pique esconde. Thales não sabia se era bem isso ; talvez brincassem de pegar, embora houvesse um garotinho loiro que parecia estar contando até dez com o rosto escondido em uma árvore.

Ele assistia a tudo ao lado da irmã, que naquele instante estava penteando uma boneca de aparência horrível. Ane Costa chamava ela de Paty e Thales não sabia da onde a irmã havia tirado aquele nome. Talvez ela tivesse escutado a senhorita Palmieri chamando alguém daquela forma — mesmo que aquela fosse uma hipótese muito pequena, já que a senhorita Palmieri costumava chamar cada pessoa pelo seu nome completo.

Ele estava prestes a dizer alguma coisa quando um som de estática surgiu do alto falante acima de sua cabeça. Thales fez uma careta e olhou para cima. Sua irmã Ane segurou a boneca com uma das mãos e se aproximou um pouco mais do irmão. Os outros garotos pararam de correr atrás da bola de trapos, que lentamente foi parando de girar no chão de areia. Um menino que corria atrás dela se deteve, girando o corpo na direção de onde vinha o som. Uma nova onda de estática surgiu e logo depois uma voz nasceu em meio aquele chiado.

— Uma boa tarde a todos, — disse a voz. Era a senhorita Palmieri, como todos já imaginavam que seria. — Ao fim da tarde receberemos a visita de duas pessoas. Um casal. Eles estiveram conosco na semana passada atrás de uma criança para adotarem. E eles fizeram a sua escolha.

As crianças se entreolharam animadas no pátio de areia. Algumas até deixaram escapar um sorriso, mas Thales Costa sentiu o estômago embrulhar. Ele passou o braço em torno dos ombros da irmã e não gostou do que viu nos olhos dela. Aquele brilho significava que ela estava empolgada. E ficar empolgado no orfanato Sagrado Coração não era a melhor das idéias.

— Por tanto, — continuava a senhorita Palmieri. — Assim que ouvir o seu nome, faça a gentileza de subir até a minha sala para que possamos concluir o processo.

Algumas crianças começavam a esfregar as mãos, enquanto Thales parecia apertar ainda mais o seu corpo com o de Ane. Se ele escutasse o nome dela sair por aquele alto falante, Thales provavelmente começaria a gritar e tentaria sair correndo o máximo que pudesse com Ane nos braços. Tinha em mente que não conseguiria ir muito longe ( os muros eram altos e a mata que circulava o orfanato parecia traiçoeira como uma hiena ) mas faria a tentativa mesmo assim. Se havia aprendido alguma coisa em seus poucos onze anos de vida, era que o desespero nos deixava corajosos.

— Nathaniel Dias, suba a minha sala, por gentileza — disse a senhorita Palmieri, fazendo um alívio se apossar do corpo de Thales, que não ficou constrangido em demonstrar isto.

Após afagar os cabelos da irmã, ele se viu procurando quem era o escolhido da vez. Não demorou muito para encontrá-lo. Era o menino loiro que estava contando com o rosto escondido na árvore. Ele parecia muito animado, estava sorrindo e recebendo tapinhas nas costas conforme ia cruzando pelos seus colegas. Thales teve a impressão que seus olhos se encontraram rapidamente, mas não dava para ter certeza sobre isso. Ele acompanhou o garoto loiro subir as escadas que levavam ao saguão principal e depois viu o corpo dele sumir nas sombras. Sentiu a mãozinha de Ane puxar a sua e virou o rosto para ela.

— Que há, pirralha?

— Não sou nada disso! — ela resmungou, franzindo a testa. Tinha de olhar para cima para ver o rosto do irmão. — Quando seremos chamados, Thales?

— Eu não sei, — ele respondeu, engolindo em seco. — Espero que nunca.

— Mas eu quero ser um balão!

— Não, você não quer — retrucou Thales. Sentiu uma coisa ruim ao escutar aquilo. Achava que era pavor. — Venha, vamos brincar em outro lugar.

Puxou a irmã pela mão e saíram devagar na tarde fria de julho.




Era quase noite quando Thales viu um homem e uma mulher vestindo roupas caras descendo a escadaria de pedras. Ele usava um casaco de lã verde e tinha um cachecol enrolado no pescoço. A mulher estava com os cabelos negros presos em um coque e usava um sobretudo vermelho. As botas dela ecoavam a cada pisão nos degraus de pedra. Era ela quem levava o balão preso por um barbante. Ele era azul e oscilava de um lado para o outro, devagar, dançando conforme a brisa.

Thales sentiu o estômago se revoltar mais uma vez e puxou as cortinas da janela. De repente teve a certeza de que iria vomitar e correu na direção do corredor, com os braços abraçando a própria barriga.

Então a sensação passou e ele se deteve a ponto de enxergar a senhorita Palmieri conversando com Ane, próxima ao alojamento das meninas. A senhorita Palmieri deveria ter uns sessenta anos, Thales achava, e estava sempre usando uns vestidos coloridos que a deixavam com uma aparência cômica. Os cabelos dela eram grisalhos e estavam penteados para trás, segurados por uma tiara. O rosto dela era fino e muitos ali a achavam semelhante a uma caveira. Ele observou a conversa a uma distância segura.

Não podia ser visto dali ( graças ao bom Deus ) mas também não conseguia escutar uma única palavra.

Deu uma outra espiada e viu a senhorita Palmieri passar uma de suas mãos enrugadas nos cabelos castanhos de Ane, que sorriu de um jeito que Thales detestou. Em seguida, ela pareceu se despedir e deu meia volta, começando a caminhar na direção de sua sala que tinha uma inscrição que dizia apenas DIRETORIA grafado em uma plaqueta de metal presa na porta.

Assim que ela se fechou em sua sala, Thales correu na direção da irmã que levou um susto daqueles quando teve o seu braço sendo puxado pelo cotovelo.

— O que a velha queria, Ane?

— Só estava me dando oi, — disse Ane, e mentir era uma coisa que a irmã de Thales Costa não sabia mesmo fazer. E Thales tinha uma certeza absurda quanto a isso.

— Não diga mentiras, pirralha. Eu vi vocês conversando por um bom tempo. Tempo demais para um simples cumprimento. Então é melhor desenbuchar, ou vou descabelar a Paty.

— Não, não mexa na minha boneca! — gritou Ane, tendo os lábios cobertos logo em seguida por uma das mãos do irmão.

— Shhh!! Não grite, está bem? Não vou tocar nela, mas precisa me contar a verdade. Pode fazer isso?

Ane fez que sim com a cabeça e Thales retirou a mão de sua boca.

— Conte pra mim, Ane.

— A senhorita Palmieri me disse que tem uma família que irá vir aqui amanhã, atrás de uma criança. É um homem e uma mulher. Ela disse que eles possuem muito dinheiro. E que estão atrás de uma menina.

O coração de Thales quase parou. O reflexo disso fez com que seu corpo tremesse dos calcanhares até a cabeça e aquela sensação de que estava prestes a vomitar voltou. Ele pediu para Ane ir para o seu quarto pentear a Paty e antes que ela concordasse, disse uma coisa que fez um pavor agarrar Thales pelo cangote.

— Daí vou virar um balão, mano! Um balãaaaaaaoooo!!! — e então os braços dela se ergueram, apontados para o céu.

Thales ficou tão comovido quanto arrepiado.




A senhorita Palmieri escutou três batidas na sua porta e permitiu que a pessoa entrasse. Ficou surpresa quando Thales Costa surgiu do outro lado, com o rosto pálido e os olhos marejados. E havia uma outra coisa. Ele parecia irritado e Maribel Palmieri sabia muito bem o porquê.

Ela vira o fedelho escondido atrás do corredor, de orelha em pé para tentar captar alguma coisa enquanto conversava com a irmã dele. Disse para ele se sentar e ele retrucou que estava bem de pé.

— E o que você deseja, senhor Thales? — a pergunta soou tão irônica quanto poderia ter soado.

— Deixe a minha irmã em paz!

— Mas ela está, meu querido. E logo será adotada, como você já sabe. Todos vocês estão aqui para adoção, então não há motivos para balburdia. — Ela terminou de assinar alguma coisa em um papel sobre a mesa e logo em seguida guardou o documento dentro de uma gaveta. Seus olhos miúdos caíram sobre o menino magricela que estava de pé do outro lado da mesa. — Mais alguma coisa?

— Ela só tem seis anos, não podem fazer i…

— Já conseguimos que um menino de três fosse adotado — interrompeu a senhorita Palmieri. — Os mais jovens são muito procurados, como bem sabe. A inocência e a juventude são muito apreciadas por nossos pais adotivos. Você tem ideia de quanto vale a alma de uma criança, Thales? Uma alma que fica presa dentro de um balão, para sempre? Nós fazemos isso há tempos, talvez há séculos. Você não faz ideia de como existem compradores para tudo. Gente rica é muito excêntrica. Essas pessoas vem até aqui a procura de um filho eterno, um sopro que é mais que um sopro, é uma alma aprisionada numa bexiga. Já ouvi relatos de pais que até conversam com eles. E, é claro, de pervertidos. Você sabe o que é um pervertido, Thales?

O lábio superior do garoto se ergueu num claro sinal de repulsa.

— Eles também querem uma criança para sempre, — continuava a senhorita Palmieri, com um sorriso doentio no rosto. — Dizem que eles batem uma punheta enquanto soltam o ar da bexiga no próprio rosto. E então a pobre alma deve sofrer a beça, não acha, Thales?

Uma lágrima escorreu pela sua bochecha direita, e um sentimento começou a crescer dentro do peito de Thales Costa. Ele queria matar a velha na sua frente. Já até conseguia imaginar como faria ; saltaria sobre a mesa num único pulo, deslizando para frente e caindo sobre o corpo apavorado dela. Ela provavelmente gritaria, agitaria os braços e as pernas numa tentativa desesperada de se livrar do garoto que agora já erguia uma caneta com uma das mãos. Ele pegaria o objeto assim que cruzasse sobre a mesa, e a senhorita Palmieri nem perceberia, porque ela era velha e os velhos tinham a visão ruim.

A sua fantasia estava ficando muito próxima da realidade, mas então uma coisa a interrompeu abruptamente. Ane estava sozinha em seu quarto. Ele havia lhe pedido que fosse para lá, pentear a Paty. Tentou não demonstrar que havia se dado conta disto, mas suspeitava que a senhorita Palmieri não havia caído nessa. Ela podia não ter uma boa visão, mas sua astúcia era igual a de uma águia.

— Nem pense nisso, pivete — falou ela, percebendo que Thales estava prestes a deixar a sala correndo. — Acho que você não tem muita chance aqui.

Thales teve tempo de ver apenas o mundo começar a escurecer. Em seguida girou rápido com o corpo e disparou em direção a porta.




Sua mão se fechou sobre a maçaneta e então toda a força que havia se apossado de seu corpo de repente se foi. A porta havia sido trancada. Thales começava a perceber que havia se metido em uma enrascada, talvez até em coisa pior ; não estava em condições de proteger a Ane.

Esmurrou inutilmente a porta por um breve momento antes de ouvir a voz da senhorita Palmieri. Se virou na direção dela, sentindo o corpo pesar meia tonelada.

— Não se preocupe com a sua irmãzinha, — disse a velha. Aquele sorriso lunático teimava em não desaparecer. — Ela vai ficar bem. Ela foi uma excelente colaboradora nesta situação. Veja você, menino estúpido. Eu contei a ela que havia um casal atrás de uma menina, porque sabia que ela contaria isso para você. E como um ótimo protetor, você viria até mim voluntariamente. Bem, e aqui estamos.

— Eu vou gritar! Vou gritar e todos os outros irão se agitar ali fora.

O sorriso da senhorita Palmieri pareceu aumentar, esticando o seu rosto de um jeito horroroso.

— Não, você não vai — ela disse. — Ou irei pegar o telefone e ligar para o senhor Schmeichel, que neste momento está na porta do quarto de sua irmã. E você sabe como o senhor Schmeichel é rigoroso.

Thales sabia. Já presenciara algumas situações desagradáveis, como a vez em que vira o velho Schmeichel retirar a boina da cabeça e esbofetear um menino com ela só porque ele havia deixado a biblioteca um tanto desorganizada.

Excluiu a ideia de começar a gritar e sua cabeça virou uma nuvem de fumaça. Estava realmente numa enrascada das grandes.

— Há de fato um casal a procura de uma criança, — dizia a senhorita Palmieri, com as mãos atrás do corpo magro. — Mas eles não querem uma menina. Querem um menino. E adivinha quem está no topo da lista, jovenzinho? — e após fazer a pergunta, o corpo dela se dobrou de modo que o seu rosto ficou bem diante do rosto acuado de Thales.

O garoto segurou o choro. Não daria este prazer para a velha.




Eles andaram lado a lado até chegarem em uma sala isolada que ficava no quintal dos fundos. Thales nunca havia visto aquele lugar. Imaginava que ele deveria existir, mas nunca o tinha enxergado até então.

A senhorita Palmieri abriu a porta dupla de metal com uma chave demasiada grande e os dois entraram sem pronunciar uma única palavra. O lugar cheirava a pinho e era bastante gelado. Os olhos de Thales estavam se habituando a escuridão quando uma lâmpada fluorescente se ascendeu bem acima de onde estava. Seus olhos se apertaram e assim que pôde enxergar melhor seu queixo quase caiu.

Era uma sala ampla, quase completamente vazia não fosse por uma mesa metálica que ocupava o centro. Um pouco mais ao fundo, havia cerca de meia dúzia de balões. Eles estavam amarrados por barbantes uns nos outros. Ver que mais da metade deles eram cor de rosa, fez Thales se lembrar de Ane. A doce Ane que a partir de agora teria de seguir sozinha. E aqueles balões, quem seriam eles? Thales já não via algumas crianças há um certo tempo… então, muito provavelmente, eram elas que estavam enfeitando o fundo da sala naquele momento. A alma delas, na verdade.

— Vai ter de se deitar ali, — disse a senhorita Palmieri, apontando para a mesa de metal. — Não tenha medo. O processo todo não demora quinze segundos. E se bancar o engraçadinho, lembre-se que o senhor Schmeichel ainda está na porta do quarto de sua irmã.

— Não vou — disse Thales. Se surpreendeu com a firmeza da própria voz.

A seguir, a senhorita Palmieri lhe estendeu uma bexiga vazia diante do rosto. Ela tinha uma aparência murcha e era da cor azul. As rosas eram para as meninas.

— Encha, — ela pediu. Não exibia mais o sorriso alucinado e aquilo fez Thales perceber que ela levava aquele ritual a sério. — Ponha sua alma neste balão, garoto. Viva para sempre.

Ele pegou a bexiga e começou a soprar.




Após encher o balão o suficiente, Thales precisou apenas se deitar na mesa de metal e esperar. Conseguiu ver que a bexiga que havia enchido ( a que agora conservava a sua alma ) fora colocada ao lado das outras no fundo da sala. Esperava honestamente que as pessoas que o levassem fossem do tipo " comuns ", por mais que aquela palavra não se aplicasse de forma alguma para aquele tipo de gente.

Conseguiu ver a senhorita Palmieri se aproximando, com uma seringa em uma das mãos. Ela agora usava luvas de látex.

Ela procurou por uma veia em seu braço esquerdo e assim que encontrou esfregou ali um pedaço de algodão que cheirava a álcool. Após fazer isto, descartou o algodão com o polegar e enfiou a agulha no braço magro. O garoto não fez sequer uma careta. Também não daria este prazer para a senhorita Palmieri.

Menos de quinze segundos, ela dissera. Então Thales olhou para o teto mofado e o rosto de Ane surgiu diante de seus olhos, sorrindo e correndo em sua direção com os braços abertos. Thales sorriu. Ou pelo menos achou que tinha sorrido antes de tudo se apagar.




Dois dias se passaram até Ane Costa enxergar um homem e uma mulher descendo a escadaria de pedras. Eles pareciam bastante jovens.

Ane não via o irmão desde a tarde que ele lhe mandara para o quarto para pentear a Paty, e ela sabia que aquela altura ele já havia virado um balão. Estava feliz por saber disso.

E também sabia que aquele balão que a moça carregava, era Thales. Ele oscilava bem devagar, como se abanasse para a irmã. E então Ane abanou de volta, observando a bexiga de repente se desprender do barbante e subir, se erguer pelo ar enquanto o casal tentava sem sucesso algum recuperá-lo.

Ane sorriu, e acompanhou através da janela o balão subir cada vez mais alto e voar pela imensidão do céu.


9 de Agosto de 2019 às 21:20 1 Denunciar Insira 8
Fim

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Tiago Líreas Tiago Líreas
Não esperava chorar com alguma das suas histórias... É que me surpreendeu mesmo como se desenrolou o final. Parecia ter acabado já no antepenúltimo parágrafo
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