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S04#13 - GETHSEMANE II - PARTE I

"... Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade, ouve a minha voz.”

João 19, 37


CHAMADA DO EPISÓDIO:

Arquivos X - 11:33 A.M.

Scully está sentada na cadeira de Mulder. A câmera focaliza-a do peito pra cima. Ela fala ao telefone, enquanto come chocolate e sementes de girassol.

SCULLY: - Estou bem, Mulder.

MULDER: - Quem está aí?

SCULLY: - O Frohike está do lado de fora. Eu estou bem, já disse. Alguma novidade?

MULDER: - Nenhuma. Eu e o agente Willmore estamos cansados. Não sei o que transportavam naquele caminhão, Scully. Mas não era um macaco. Scully, você não está comendo chocolate, está?

SCULLY: - Eu? Claro que não. Estou atacando suas sementes de girassol.

MULDER: - O médico proibiu você de comer doces!

SCULLY: - Ora, Mulder, eu não sou criança. Pare de se preocupar comigo!

Geral de Scully na cadeira. Ela passa a mão sobre a barriga enorme, já de nove meses.

VINHETA DE ABERTURA


BLOCO 1:

Maryland – 06:57 P.M.

Um rapaz entra na sala pela porta da frente. Alto, cabelos acobreados, olhos azuis. Está com uma pilha de livros nas mãos. Há uma moça, mais velha que ele, sentada no sofá, lendo uma revista sobre Ufologia. Ela é mais baixa, cabelos castanhos escuros até os ombros, olhos verdes.

BRYAN: -Você não vai acreditar.

VITÓRIA: - No quê?

BRYAN: - Ele está lá fora brigando com o carteiro porque a correspondência estava aberta.

VITÓRIA: - E daí?

BRYAN: - Daí que acho que está ficando maluco.

VITÓRIA: - Ele é maluco.

BRYAN: - Mas ficar discutindo que existe uma conspiração governamental nos Correios, que o governo americano lê a correspondência das pessoas...

Mulder abre a porta. Entra na sala. Cabelos grisalhos, rugas no rosto, bem mais velho.

MULDER: - Vocês acreditam nisso? Ficam bisbilhotando até a correspondência das pessoas! Isso é crime federal!

BRYAN: - Eu desisto! Você é doente! Isso é irracional, pai! O mundo não está perseguindo você! Por que abririam uma conta? Iriam pagá-la?

MULDER: - Por falar nisso, rapazinho, é a conta do cartão de crédito que eu te dei. E é astronômica! Eu, em toda a minha vida, nunca comprei um terno tão caro!

BRYAN: - Preciso impressionar as garotas.

MULDER: - Com o meu dinheiro?

Bryan vai pra cozinha. Mulder vai atrás dele.

MULDER: - Vai explicar isso pra sua mãe! Eu não quero que ela fique enchendo minha cabeça com as suas atitudes.

BRYAN: - Ah, pai, não enche!

Mulder põe a mão na cabeça. Vitória entra na cozinha.

MULDER: -Ah, essa dor de cabeça me enlouquece!

VITÓRIA: - Papai, eu... Está bem?

MULDER: -Estou. É só aquela maldita dor de cabeça de novo! Coisa de velho!

VITÓRIA: - Aposto que não foi fazer os exames! ... Papai, tenho uma boa notícia... Eu consegui.

Mulder olha pra ela num semblante entre feliz e preocupado. Ela o abraça. Ele a abraça também.

MULDER: - Sabia que conseguiria.

BRYAN: - Conseguiu o quê?

VITÓRIA: - Não é da sua conta. Meta-se com a sua vida!

BRYAN: - Eu, hein? Acho que ainda sou da família.

VITÓRIA: - Pois age como se não fosse... Papai, chegou a sua revista. Tem um artigo interessante sobre a queda de um ÓVNI em...

Bryan ri.

BRYAN: - Isso é loucura! Vocês dois não podem ser normais? Estou começando a acreditar em alienígenas. Vocês dois são muito, mas muito estranhos... Isso é que é gastar dinheiro com bobagens!

Bryan sobe as escadas rindo. Mulder fica irritado. Olha pra filha.

MULDER: - Que gêniozinho tem esse garoto! Puxou a quem?

VITÓRIA: - (IRÔNICA) Não sabe?

Barulho na porta da sala. Scully chega com dois sacos de compras. Também está mais velha, com algumas rugas no rosto.

SCULLY: - Duas horas! Duas benditas horas pra conseguir comprar alguma coisa. Tinha fila até no teto!

Scully beija Mulder. Começa a tirar as compras. Pega dois saquinhos.

SCULLY: - Suas sementes de girassol. (ATIRA PRA VITÓRIA) E aqui estão as suas. (ATIRA PRA MULDER). Minhas pernas estão me matando! ... Ah, o resultado da autópsia: ... Apesar de não acreditar nisso, Mulder, o homem morreu de... (RELUTA) Combustão espontânea humana.

MULDER: - Eu não falei?

Scully levanta-se. Vai pra sala. Mulder a segue. Os dois sentam-se no sofá. Scully liga a TV.

MULDER: - Era um Arquivo X, Scully. Eu te disse.

SCULLY: - Mulder, a ciência ainda não conseguiu explicar como essas coisas acontecem. Mas...

Vitória entra na sala. Senta-se ao lado de Mulder.

VITÓRIA: - Há casos registrados no mundo todo, mamãe. Centenas de casos. Pessoas que têm seus corpos destruídos parcialmente, e em alguns casos mais raros, totalmente.

Mulder ri. Scully olha pra ele.

SCULLY: - Meu Deus, onde foi que eu errei? Um já era difícil de suportar, agora dois? ... Ai, estou cansada! Tenho que ajudar o Bryan. Ele vai ter prova na Terça-feira.

MULDER: - Relaxa, Scully. Amanhã é Sábado! O “nerdizinho” sabe se virar!

SCULLY: - (IRRITADA) Mulder, não admito que se refira ao meu filho desse jeito. Ele é uma pessoa normal! Diferente de outras duas por aqui.

Scully levanta-se.

SCULLY: - Alguém quer me ajudar com o jantar?

VITÓRIA: - Eu vou, mamãe.

Scully vai pra cozinha. Mulder olha pra Vitória.

MULDER: - Vai contar pra ela?

VITÓRIA: - Tô tentando criar coragem. Ela vai me deserdar!

MULDER: - Não se preocupe com isso. Não temos nada pra deixar pra vocês mesmo. Isso já serve pra você repensar sua decisão.

VITÓRIA: -Papai, já pensou que você pode deixar pra mim a maior herança que uma pessoa pode ter?

Vitória levanta-se. Mulder acompanha-a com os olhos, admirando-a.


8:06 P.M.

Eles estão sentados à mesa, jantando na cozinha. Scully olha pro filho.

SCULLY: - Como foi seu dia?

BRYAN: - Mãe, fiz a minha primeira autópsia! Tive um corpo ali, todinho meu, pra retalhar!

Mulder faz uma cara de nojo. Afasta o prato.

BRYAN: - Eu não sabia que um fígado humano era tão grande assim!

Vitória afasta o prato.

VITÓRIA: - Perdi o apetite!

BRYAN: - Ótimo. Vou pegar seu filé.

Ele mete o garfo no prato da irmã. Vitória faz cara de nojo.

VITÓRIA: - Como consegue comer carne depois de retalhar um ser humano?

BRYAN: - Quero ser clínico geral, “maninha”. Preciso conhecer o corpo humano por dentro.

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu podia te dar uma resposta bem legal...

SCULLY: - Tá, Bryan. Nem todos aqui são médicos. Temos um psicólogo e uma advogada à mesa. Eles não precisam saber dessas coisas. E você, como foi o seu dia, filha?

VITÓRIA: - Bem, eu fui procurar um emprego, à tarde fui... ao balé.

SCULLY: - Por falar em balé, você nunca dançou pra nós. Eu gostaria de ver.

Mulder olha pra filha. Ela olha pra ele. Respira fundo. Scully percebe algo estranho no ar. Encara-os.

VITÓRIA: - (COM MEDO) Mamãe, e-eu menti... Não estou indo ao balé faz anos.

Scully olha pra ela, erguendo as sobrancelhas. Larga os talheres.

VITÓRIA: - E-eu... Mamãe, eu... Estava frequentando a academia do... do FBI.

Scully ergue-se da cadeira.

SCULLY: - Você o quê?

VITÓRIA: - Mamãe, eu...

Ela puxa a identificação do bolso. Mulder olha pra Scully com piedade.

VITÓRIA: - Eu sou uma agente do FBI agora.

Scully caminha até a pia, com as mãos na testa. Olha pela janela.

SCULLY: - Eu não acredito que você fez isso comigo! A minha própria filha me traiu!

VITÓRIA: - (GRITA) Eu sabia que você nunca permitiria. Precisei mentir!

SCULLY: - Mulder, o que acha disso?

Mulder está bem quieto, com os olhos arregalados.

VITÓRIA: - Ele sabia, mamãe.

SCULLY: - O quê? Mulder, seu desgraçado, como permitiu uma bobagem dessas?

MULDER: - E-eu...

VITÓRIA: - Mamãe, eu só contei ao papai depois que já havia entrado na academia. Contei porque ele sempre descobre as coisas.

SCULLY: - Como ninguém me falou nada no FBI?

MULDER: - Eu pedi sigilo.

SCULLY: - Mulder, eu não sei se estou furiosa com ela ou com você!

MULDER: - O que eu podia fazer? Gritar, brigar com ela? Isso adiantaria? É decisão dela. Só nos resta apoiá-la.

SCULLY: - Decisão? Mulder, eu não quero perder a minha filha, tá legal? Não quero pra ela a vida que tive! Não quero receber um telefonema de madrugada dizendo que ela morreu!

Scully começa a chorar.

SCULLY: - (OLHA PRA FILHA, EM PRANTOS) Só Deus sabe o que passei pra ter você! E não quero perdê-la! Ficaria mais contente se casasse, tivesse filhos e fosse dona de casa! Pelo menos saberia que estava segura! Mas não, você fica trancada naquele quarto, lendo, pensando, criando teorias...

VITÓRIA: - Mamãe...

SCULLY: - (GRITA) Não, você vai me escutar!

Bryan levanta-se e sai de fininho.

SCULLY: - Eu não quero essa vida pra você!

VITÓRIA: - (GRITA) Você não pode mandar na minha vida! Eu sou bem grandinha pra fazer minhas próprias escolhas. Como você fez a mesma escolha, não tem moral pra me criticar!

Scully sai da cozinha. Sobe as escadas chorando. Mulder olha pra Vitória.

MULDER: - Eu vou falar com ela.

VITÓRIA: - (CHORANDO) Tá.

Mulder a abraça. Beija-a na testa. Vai atrás de Scully.

Mulder entra no quarto. Scully está sentada na cama, chorando. Mulder senta-se ao lado dela. A abraça. Scully abraça-se nele.

SCULLY: - Começo a me perguntar onde foi que eu errei.

MULDER: - Se há um culpado nisso tudo, esse sou eu.

SCULLY: - Ela não confia em mim, Mulder. Minha própria filha!

MULDER: - Scully, ela confia em você. Só sabia que você jamais aceitaria que ela entrasse para o FBI. É o sonho dela, Scully. Como vamos dizer que está errada? Você se arrepende de ter escolhido isso pra você?

SCULLY: - Não, Mulder. Eu não me arrependo. É que tenho medo de perdê-la. Só isso. Quando lembro as coisas que passamos e que ainda virão, e-eu temo por ela. Só queria entender por que o FBI?

Mulder solta Scully. Olha pra ela.

MULDER: - Ela quer os Arquivos X.

Scully fecha os olhos.

SCULLY: - Não, Mulder, eu não estou ouvindo isso...

MULDER: - Scully, nós já estamos velhos! Passamos nossa vida toda dentro daquela sala, tentando mostrar a verdade que nunca conseguimos provar que exista. Não saímos de lá ainda porque não confiamos em ninguém. Não queremos deixar anos de trabalho nas mãos de um qualquer. Quer pessoa mais confiável e digna do que nossa filha, pra dar continuação ao nosso trabalho? Ou quer jogar fora tudo o que conseguimos, nas mãos de um agente qualquer?

SCULLY: - Mulder, pára com isso... Eu não quero ouvir mais nada. Danem-se os Arquivos X! Eu quero minha filha viva!

MULDER: - Scully, se você não percebeu ainda, não temos mais uma menina em casa. Temos uma mulher. Decidida e teimosa como a mãe.

SCULLY: - Teimosa? Mulder, ela é seu espelho disfarçada no meu corpo! Quando diz que azul é verde, pode desistir de discutir. É igual à você, teimosa como uma mula!

MULDER: - Tudo bem. Agora imagina que grande agente ela não será! O instinto do pai com a sabedoria e discrição da mãe? Scully, ela é nós dois ao mesmo tempo. Tem um pouquinho de você, um pouquinho de mim. Brigar não vai resolver. Ela me falou que vai embora, se você não aceitar a carreira que ela escolheu.

Scully suspira.

MULDER: - Scully, já perdemos tempo demais. Eu confesso, estou cansando. Pensei que quando descobrisse onde estava a Samantha eu abandonaria tudo... E depois daquilo... Mas não percebi que os Arquivos X eram parte da minha vida. Agora eu sei que ficarão em boas mãos... Posso passar o restinho da vida que tenho, em paz, do seu lado. Você não queria tanto conhecer a Grécia?

SCULLY: - Mulder, não gosto que fale assim. Você ainda vai viver por muito tempo. Mas se me diz que está cansado, eu o respeito por isso.

MULDER: - Não queria estar cansado, Scully. Mas essa coisa que eu tenho, tem me dificultado até mesmo pra pensar.

Scully olha pra ele.

SCULLY: - Mulder, só me diz uma coisa. Qual foi a média dela?

MULDER: - Ela tirou A em tudo. A menina tem intuição, raciocínio rápido, reflexos, é boa de briga e atira bem, Scully. Pra dizer a verdade, quando eu dizia pra você que ia visitar os Pistoleiros, eu e ela íamos treinar tiro.

SCULLY: - Mulder, você nunca prestou mesmo!

MULDER: - Também estou preocupado, tanto quanto você. É minha filha também, Scully. Mas não adianta, ela está decidida.

Scully o abraça. Mulder a beija na testa. A abraça forte.


BLOCO 2:

Quarto de Vitória - 11:43 P.M.

Bryan bate na porta.

VITÓRIA: - Entra!

Bryan entra. Senta-se ao lado dela na cama.

BRYAN: - E-eu queria dizer que... Apoio sua decisão. (DEBOCHADO) Até que vai ser legal ter mais um agente do FBI por aqui. Me sinto mais seguro!

Ela olha pra ele chorando.

BRYAN: - Só queria saber se está fazendo isso por você ou pela situação do papai.

VITÓRIA: - A doença dele me preocupa, gostaria que ele largasse o trabalho e fosse aproveitar a vida. Mas Bryan, o que estou fazendo é por mim mesma.

Scully entra no quarto, num robe, com seus óculos no rosto. Bryan levanta-se.

SCULLY: - Filho, quero falar em particular com sua irmã.

Bryan sai do quarto. Scully senta-se na cama. Olha pra Vitória.

SCULLY: - Eu apoio você, minha filha. Estou do seu lado. Amo você!

As duas se abraçam.

SCULLY: - Só quero que tome cuidado. Não sabe com o tipo de pessoas que vai lidar.

VITÓRIA: - Sei muito bem, mamãe. Não confio em ninguém, tirando vocês, que são minha família.

Scully, cansada, recosta-se num travesseiro. Tira os óculos. Olha pro poster na parede: I want to believe. Sorri.

SCULLY: - Você é igual ao seu pai. Nunca teria argumentos pra fazê-la voltar atrás de sua decisão.

Vitória recosta-se na mãe. Scully afaga seus cabelos.

SCULLY: - Já disse porque seu nome é Vitória? Porque você foi a primeira vitória que eu e seu pai tivemos na vida. Eles nunca conseguiram tirar vocês de mim. Mesmo antes, quando fizeram aquelas experiências que me deixaram estéril. O Mulder roubou meus óvulos que estavam com eles. Escondeu por anos. Seu pai me deu vocês dois.

VITÓRIA: - Mamãe, conta de novo como foi que você e o papai se conheceram. Gosto tanto da história de vocês!

SCULLY: - Ele era o “estranho Mulder” . Eu era a “cética agente Scully”... Depois de anos de convivência, de um lutar pelo outro, de confiança mútua, percebemos que nossa amizade tinha se transformado em um sentimento mais forte. Foi tudo tão esquisito no início. Tínhamos medo um do outro. Levamos tempo para ter alguma coisa mais íntima, por medo, respeito, sei lá. Mas isso era só um complemento. Já tínhamos o amor, que era muito mais difícil de encontrar... No início nos encontrávamos escondidos, pra não alertar aquela gente. Mas eles descobriram. Tentaram de tudo, mas nada nos afastou. Éramos mais fortes. Então, depois de um tempo, decidimos viver juntos. E depois, de mais algum tempo, sentíamos que alguma coisa faltava.

Scully beija a filha. Recosta a cabeça dela em seu peito. Afaga-lhe os cabelos novamente.

SCULLY: - Então resolvemos ter você. Você foi muito amada e desejada anos antes de nascer. Nós já amávamos a ideia de ter um filho. Só que havia aquele problema. Precisei sacrificar um dos meus óvulos para ver se não haviam mutado alguma coisa... Filha, queria que visse a cara do seu pai naquela tarde.


FLASH BACK

Scully empurra Mulder pra dentro de uma sala no hospital.

SCULLY: - Vai, Mulder. Não temos muito tempo!

MULDER: - (NERVOSO) Scully, eu... Eu não consigo fazer isso! É constrangedor!

SCULLY: - Mulder, se quer um filho, vai ter que ser assim. Não há outro jeito. Entre aí e faça a sua parte.

MULDER: - Num recipiente de plástico? Scully, isso é degradante!

SCULLY: - (O EMPURRA) Entra, vai.

MULDER: - Scully, eu não vou conseguir fazer isso! É um hospital, eu...

SCULLY: - Tem revistas aí, você vai se empolgar.

MULDER: - Eu não quero me empolgar com revistas! Isso é cruel!

SCULLY: - Mulder, não há outro jeito. Acha que eu não gostaria do processo natural das coisas? Mas o que posso fazer?

Mulder respira fundo.

MULDER: - Tá, Scully. Tudo pelo nosso filho.


Uma hora depois...

Mulder abre a porta. Scully olha pra ele.

SCULLY: - Então?

MULDER: - Não dá, Scully. Não consigo!

SCULLY: - Quer tentar em casa? Eu posso ajudar.

MULDER: - Você sempre ajuda, Scully.


TEMPO ATUAL:

Vitória e Scully riem.

SCULLY: - Pobre Mulder! Se você visse a cara de pânico que ele fez!

VITÓRIA: - Assim? (E IMITA A CARA DE PÂNICO DE MULDER).

SCULLY: - A própria!

VITÓRIA: - Coitadinho, mamãe. Deve ser uma coisa frustrante!

SCULLY: - Então, depois que conseguimos passar a primeira parte, eu e ele fizemos questão de presenciar o acontecimento. Pena que foi sob a lente de um microscópio. Era o mais perto que poderíamos chegar... Foi o momento de maior expectativa de nossas vidas. Não sabíamos se daria certo. Então, alguns dias depois, o telefone tocou.


FLASH BACK

Apartamento de Mulder

Scully desliga o telefone. Mulder está deitado no sofá.

SCULLY: - Era do hospital.

Mulder senta-se no sofá. Olha apreensivo pra ela.

MULDER: - Tenho medo de perguntar.

Scully sorri.

SCULLY: - Mulder, não conheço um termo adequado pra essa situação, mas... Eu... Eu (CHORA) Nunca pensei que um dia poderia dizer isso... assim... Eu estou grávida!

Os olhos de Mulder enchem-se de lágrimas. Os dois se abraçam fortemente. Scully chora muito. Mulder chora com ela.


TEMPO ATUAL:

SCULLY: - Então colocaram você dentro de mim. Eu não posso descrever a emoção que senti. Eu nunca desejei tanto alguma coisa em minha vida, o quanto desejava você. Então, a pedido do Mulder, eu passei a ficar na sala dos Arquivos X. Ele ia resolver os casos e eu ficava de auxiliar à distância. Ele tinha medo que acontecesse algo à você. Aliás, durante os nove meses de gravidez, o Frohike, o Byers e o Langly, se revezavam pra me fazer companhia. Ordens do seu pai. Na verdade não era bem companhia. Ele queria alguém comigo, pra garantir minha proteção. Tinha medo que tentassem alguma coisa. De fato tentaram. Recebi um tiro que me deixou na UTI por vários dias.

VITÓRIA: - ...

SCULLY: - Pobre do Mulder, ele dormia no hospital com a arma em punho. Ele chorava muito. Quando acordei, o vi deitado com a cabeça na cama, fazendo carinhos na minha barriga, conversando com você, pedindo desculpas por não ser um pai cuidadoso. Não perdi você por um milagre. Nós tínhamos razão, eles queriam nos atingir tentando destruir o que tínhamos de mais importante: Primeiro o nosso relacionamento. Depois você. Mas mesmo com o susto, achei que ainda devia trabalhar.


FLASH BACK:

Arquivos X 11:33 A.M.

Scully está sentada na cadeira de Mulder. A câmera focaliza-a do peito pra cima. Ela fala ao telefone, enquanto come chocolate e sementes de girassol.

SCULLY: - Estou bem, Mulder.

MULDER: - Quem está aí?

SCULLY: - O Frohike está do lado de fora. Eu estou bem, já disse. Alguma novidade?

MULDER: - Nenhuma. Eu e o agente Willmore estamos cansados. Não sei o que transportavam naquele caminhão, Scully. Mas não era um macaco. Scully, você não está comendo chocolate, está?

SCULLY: - Eu? Claro que não. Estou atacando suas sementes de girassol.

MULDER: - O médico proibiu você de comer doces!

SCULLY: - Ora, Mulder, eu não sou criança. Pare de se preocupar comigo!

Geral de Scully na cadeira. Ela passa a mão sobre a barriga enorme, já de nove meses.

SCULLY: - Mulder, tentei fazer a autópsia do corpo do sr. Holtz. Não consegui. Enjoei.

MULDER: - Tudo bem, Scully. Quero que faça o mínimo de esforço. Como está o nosso filho?

SCULLY: - Bem. Só que pelo jeito não gosta muito de autópsias. Puxou ao pai. Mulder, não acho que seja menino. Mamãe disse que pelo tamanho que estou, deve ser uma menina. Me sinto uma pata gorda, minhas pernas doem, meus pés estão inchados, meus seios parecem duas fábricas da Parmalat! Minha barriga está explodindo! Não consigo mais caminhar direito.

Mulder ri.

MULDER: - Ok, Scully, tudo tem seu preço. Mas ainda assim, te acho tão linda desse jeito, mamãe Scully! Tenho saudades! Estou voltando hoje. Amo você! Deixa eu falar com a “Scullyzinha”.

Scully coloca o fone sobre a barriga. Espera segundos. Coloca o fone no ouvido.

SCULLY: - (RINDO) Eu ouvi, Mulder, o que disse à ela.

MULDER: - O quê?

SCULLY: - A parte em que dizia eu te amo.

MULDER: - Amo vocês duas. Se cuida, tá? Em breve estarei aí.

Scully desliga. Volta a comer chocolate.


Sala do diretor-assistente 06:29 P.M.

Mulder e Scully estão sentados de frente para Skinner. Skinner lê alguns papéis. Scully come jujubas. Mulder fecha os olhos. Balança a cabeça pra frente. Está caindo de sono. Acorda. Tenta ficar de olhos abertos.

SKINNER: - (DEBOCHADO) Então é esse o relatório? Inconclusivo?

MULDER: - O que eu posso fazer, Skinner, se o Fumacinha escondeu as provas novamente? Aquilo não era um macaco. Era um alienígena!

Scully enche a boca de jujubas.

SKINNER: - ... Agente Scully, concorda com ele?

SCULLY: - (MASTIGA) Sim, exceto na parte do... (MASTIGA) alienígena. Não estava lá, ... (MASTIGA) não posso afirmar nada.

SKINNER: - E o agente Willmore?

MULDER: - (SONOLENTO, FECHANDO OS OLHOS) Mandou lembranças...

SKINNER: - (INDIGNADO) Estou perguntando sobre o relatório dele!

MULDER: - Enviou para Seattle. Disse que mandará uma cópia.

SKINNER: - (FURIOSO) Disse? Pois eu quero essa bendita cópia agora. Não me interessa se o escritório dele é um Seattle ou no Japão! Eu fui o chefe dessa operação e exijo o parecer dele!

Scully arregala os olhos, assustada. Põe uma das mãos sobre a barriga. Com a outra, pega a mão de Mulder.

MULDER: - (IRRITADO) Eu não tenho culpa se ele prefere se reportar a seu superior primeiro!

SCULLY: -(ASSUSTADA) Mulder...

MULDER: - Eu fiz a minha parte! E tem mais, aquilo era um alienígena. Não quero que fique olhando pra mim como se eu fosse o alienígena!

SCULLY: - (NERVOSA) Mulder...

SKINNER: - Você está ficando agitado demais, agente Mulder.

MULDER: - Agitado?

SCULLY: - (AGITADA) Mulder...

MULDER: - (FURIOSO) Você não me viu agitado ainda!

SCULLY: - (DESESPERADA) Mulder!

MULDER: - Espera aí, Scully. Estou uma pilha de nervos, vou ter uma filha a qualquer momento, não tenho dormido direito nos últimos nove meses! Tem um cara seguindo a minha mulher o dia todo, aquele desgraçado do Fumacinha anda deixando recados ameaçadores na nossa secretária. E você fica brigando comigo por causa de um relatório? Isso não é problema! Problema é o que eu tenho nas minha costas!

SCULLY: - Mulder, eu tenho um problema.

Mulder e Skinner olham pra ela.

SCULLY: - A bolsa estourou!

MULDER: - Ah, meu Deus, Scully!

Skinner sai da sala correndo. Scully começa a suar frio. Mulder fica nervoso e começa a zanzar de um lado pra outro.

MULDER: - Scully, segura aí, pelo amor de Deus! Ah, céus! Scully, o que eu faço? Eu tô perdido! Preciso de um cigarro!


Hospital Geral Maternidade 6:47 P.M.

Alguns paramédicos empurram a maca onde está Scully. Mulder segura a mão dela.

MULDER: - (NERVOSO) Fica calma, Scully. Respira fundo!

SCULLY: -(NERVOSA) Eu estou respirando! Mas dói! Dói quando respiro!

MULDER: - Você já passou por coisas piores.

SCULLY: -Mulder, quero que esteja comigo naquela sala. Por favor.

MULDER: - Eu não perderia esse momento por nada na minha vida. Nem por uma entrada livre em Dreamland, com o Canceroso como guia turístico, depois de tomar o Santo Daime!

Eles entram na sala de parto.


7:01 P.M.

Mulder, vestido num uniforme médico, nervoso, segura as mãos de Scully. Ela grita de dor. O médico pede pra ela forçar. Scully continua gritando. Mulder está assustado.

MÉDICO: - (GRITA) Empurra!

Scully grita. Mulder fecha os olhos. Ela segura as mãos dele com força. Mulder faz aquela cara de pânico. O médico ergue o bebê, ainda sujo. O bebê chora. Scully chora junto. Mulder começa a balançar o corpo de um lado pra outro, tonto.

MÉDICO: -É uma bela garotinha.

O médico coloca o bebê sobre a barriga de Scully. Scully a segura com as mãos. Mulder olha a cena e cai desmaiado no chão.

SCULLY: -Filhinha, seu pai é tão corajoso!


8:13 P.M.

Mulder acorda-se numa cama do hospital. Os Pistoleiros e Skinner olham pra ele.

FROHIKE: -Que papelão!

LANGLY: - Já viu alienígenas gosmentos e desmaia quando vê a filha nascer?

BYERS: -Eu não fiz isso. A Suzanne nunca poderá rir de mim.

MULDER: - (INDIGNADO) Tá certo, seus corajosos. Onde está a Scully?

Frohike sai da frente dele. Mulder vê Scully na cama ao lado, amamentando a filha. Levanta-se. Vai até elas. Skinner deixa algumas flores sobre a cama de Scully. Ele e os pistoleiros saem.

MULDER: - Ela é linda!

SCULLY: - Se parece com você.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ah, o que importa é que tem saúde!

Mulder beija Scully. Coloca seu dedo na mãozinha da filha. Ela o segura.

MULDER: - Ela me parece melhor desse jeito.

SCULLY: -(RINDO) Que cena você fez, hein? Mulder, você estava em pânico!

MULDER: - Scully, eu fiquei apavorado. Nunca assisti um parto. Achei que você estivesse morrendo! Você gritou por mais de 15 minutos, eu não sabia o que fazer, eu...

SCULLY: - Ela é nossa, Mulder... Eu nem consigo acreditar que isto seja verdade! É o momento mais feliz da minha vida. Quer segurá-la, papai?

MULDER: - Papai... (SORRI) Hoje estou descobrindo o verdadeiro significado dessa palavra...

Scully entrega a menina nos braços dele. Mulder segura-a, meio desajeitado. Olha ternamente pra ela. Olha pra Scully. Caem lágrimas de seus olhos. Ele fica por segundos, olhando pra filha, emocionado, chorando.

MULDER: - Como podemos fazer algo tão perfeito, tão meigo, tão lindo? E-eu nem acredito que temos uma filha, Scully! Nunca poderia imaginar isso. Ela é linda!

SCULLY: - Mulder, obrigado. Você me deu ela. Me deu a chance de tê-la, quando eu achava que nunca poderia passar pelo que passei hoje. Mulder, a dor que senti naquela sala não foi nada, se comparada com a dor que senti quando descobri que era estéril.

MULDER: - (OLHA PRA FILHA) Que nome vai dar à ela?

SCULLY: - Não sei. Ela é tão meiga, tão doce! Tem alguma sugestão?

MULDER: - Vitória. Por que foi a única vitória que tive na vida. E porque foi a sua vitória contra aqueles homens que abduziram você e tentaram lhe tirar o que segura nos braços hoje.

SCULLY: - Vitória... Acho que ela combina com o nome.


BLOCO 3:

TEMPO ATUAL:

Scully levanta-se. Caminha até a janela.

SCULLY: - Então decidimos nos mudar pra uma casa, o apartamento de seu pai era pequeno... Precisava ver o desespero do seu pai. Não dormia direito à noite.

VITÓRIA: -Eu chorava muito?

SCULLY: - Não, você nunca deu trabalho. Era tranquila. Seu pai é que dava trabalho! Ele tinha medo de deixar você sozinha.

VITÓRIA: -É, crianças costumam sufocar-se, podem ter problemas durante a noite...

SCULLY: - (RINDO) Não, não era essa a preocupação de Mulder. Ele dormia com a porta do quarto aberta, olhando pro seu quarto. Tinha medo que abduzissem você.

Vitória olha ternamente pra Scully.

SCULLY: - Um dia, um carro perdeu a direção e foi parar no gramado da casa. Quando o Mulder viu as luzes dos faróis refletindo em seu quarto, tirou a arma debaixo do travesseiro e saiu correndo. Acordei assustada. Quando entrei no seu quarto, o peguei olhando pela janela, chorando... Eu estava cada vez mais preocupada com ele. Levávamos você pro trabalho. Você se criou naquela sala e dentro daquele carro, vendo agentes do FBI... Não posso culpá-la por escolher esse caminho agora.

Vitória levanta-se. Abraça Scully. Bryan entra no quarto. Scully olha pra ele. Sorri amavelmente. Bryan vai até elas. Os três se abraçam.

SCULLY: - E você, meu Mulderzinho? Por você seu pai passou por todo aquele constrangimento de laboratórios novamente. Cinco anos depois.

Bryan sorri.

SCULLY: - Também acompanhamos tudo, desde o início. Você era a minha última chance e nós queríamos muito ter mais filhos. Se houvessem mais chances, eu teria dado mais irmãos à vocês. Mas agradeço à Deus por ter tido duas chances.


FLASH BACK:

Necrotério do Hospital Municipal - Erie – Indiana 10:30 P.M.

Mulder come sementes de girassol. Observa Vitória dormindo num sofá. Scully, rosto magro, com uma barriga não tão grande, faz uma autópsia.

SCULLY: - Pelo menos, o seu filho não me dá enjoos quando faço essas coisas...

MULDER: - Aposto que ele não vai querer ser jogador de basquete!

SCULLY: -... Fratura na clavícula. Perfuração na região temporal... Há um... Deus, Mulder! Você estava certo!

MULDER: -O que foi?

Scully retira um chip metálico da cabeça do homem.

SCULLY: - Há um chip!

Mulder aproxima-se dela. Olha pro chip.

MULDER: - Vou levar isso pro “Huguinho, Zézinho e Luizinho” analisarem.

Scully coloca o chip num saquinho de plástico. Entrega pra Mulder. Mulder olha pra Vitória.

MULDER: - Vou levá-la comigo.

SCULLY: - Eu tomo conta dela, Mulder. Preciso acordá-la, está na hora da mamadeira...

MULDER: - Eu faço isso. Você vai se empolgar com esse defunto aí e desviar sua atenção. Alguém pode roubá-la.

SCULLY: - (INDIGNADA) Mulder, por favor! Se quisessem pegá-la já o teriam feito. Não podem mais fazer isso! Tentaram nos expulsar do FBI quando descobriram que estávamos juntos. Nós conseguimos ficar, vencemos. Tentaram me matar e matar sua filha. Mas nós vencemos de novo.

MULDER: - Eu não sei, Scully.

SCULLY: - Mulder, você vai passar o resto da vida dormindo mal à noite? Porque filhos são pra sempre!

MULDER: - (RESIGNADO) Se for preciso.

SCULLY: - (PREOCUPADA) Mulder, relaxe, por favor. Quem não consegue dormir agora sou eu. Me preocupo com você. Está neurótico!

MULDER: - Tá, Scully, eu sei que estou exagerando, mas todo cuidado é pouco.

SCULLY: - Quem sabe você vai tirar algumas férias, vai visitar a Samantha, os filhos dela...

MULDER: - (IRRITADO) Não me fale da Samantha! Você sabe que eu não tenho irmã!

Scully põe as mãos na barriga.

SCULLY: - Mulder, não vai acreditar... Ele tá vindo!

Mulder puxa a arma. Olha pra todos os lados.

MULDER: - (NEURÓTICO) Ele quem?

SCULLY: - (GRITA) Seu filho, Mulder! Ai, meu Deus! Não vai dar pra segurar!

MULDER: - Pensei que fosse o Fumaci... Meu filho? Já? Aqui? Agora?

SCULLY: - Mulder, chame um dos médicos! Deus, ele tá com muita pressa de vir pro mundo! Eu não consigo segurar!

Mulder fica catatônico olhando pra ela.

SCULLY: - (DESESPERADA) Mulder, pelo amor de Deus, é real! Acorda!

Mulder sai desesperado. Scully tenta caminhar, segurando a barriga. Grita de dor. Senta-se numa cadeira.

SCULLY: - Ai, filho, espera só um pouquinho! Só mais um pouquinho... (RESPIRA FUNDO) Ai...

Mulder entra com um médico e algumas enfermeiras.

MÉDICO: -Uma maca!

A enfermeira sai desesperada. Scully grita.

SCULLY: - (DESESPERADA) Ele tá vindo, ele tá vindo!

MÉDICO: -Não dá tempo de removê-la! Ô papai, me ajuda aqui depressa!

O médico e Mulder colocam Scully em cima de uma mesa de autópsia.

MULDER: - Ah, não, meu filho vai nascer num lugar onde todos estão mortos?

Scully continua gritando, segurando-se na mesa. Mulder pega nas mãos dela e as segura.

SCULLY: - Mulder, não desmaia dessa vez! Preciso de você!

Scully começa a gritar. Mulder está assustado. O médico começa a mandar Scully fazer mais força. Ela grita. Mulder fecha os olhos, em pânico. Depois de minutos, ouve-se o choro do bebê. O médico sorri.

MÉDICO: -É um garotão, agente Scully!

Scully respira aliviada. Mulder solta as mãos dela. O médico entrega o bebê para Mulder, enrolado num lençol. Mulder olha pro filho. Mostra-o pra Scully. Chora como criança.

MULDER: - É meu filho. E-eu tenho um filho!

Scully olha pra Mulder e sorri.

SCULLY: - Mulder, você não tem jeito mesmo!


TEMPO ATUAL:

Scully sorri. Senta-se na cama. Olha pra eles.

SCULLY: - Não dava pra levar duas crianças por aí. Então, quando precisávamos viajar, deixávamos vocês dois com o Bill. Seu pai e ele tinham muitos atritos, mas tinham confiança um no outro. Mulder sabia que Bill era muito chato e pegajoso. Não haveria uma babá melhor... Todas as noites, seu pai colocava vocês pra dormir. E contava histórias pra você, assim como ele fazia com a Vitória, desde bebê. Claro que a Vitória adorava ouvir as histórias, desde neném. Ela ouvia isso desde que eu estava grávida! Às vezes acordava ouvindo vozes e flagrava o Mulder conversando com a minha barriga... Ele falava sobre os casos que resolvera nos Arquivos X. Mas, Bryan quando você começou a entender as histórias...


FLASH BACK

10:34 P.M.

Vitória, abraçada num “Marvin, o Marciano” de pelúcia, está deitada na cama. Mulder, deitado ao lado dela.

MULDER: -Então, filhinha, era mesmo um alienígena.

VITÓRIA: - (INTERESSADA) E jogava basebol?

MULDER: -Jogava.

VITÓRIA: -Papai, conta outra.

MULDER: -Você precisa dormir.

VITÓRIA: -Só mais uma papai! Por favor!

Bryan entra no quarto, arrastando sua toalhinha, com as fraldas caindo. Vai até a cama. Mulder o pega em seu colo. O abraça.

MULDER: -Bem, uma vez eu e sua mãe estávamos resolvendo um caso de possessão demoníaca.

VITÓRIA: -O que é possessão?

MULDER: -É quando um espírito malvado entra no seu corpo e controla você.

VITÓRIA: - (EMPOLGADA) Uau!

MULDER: -Claro que a sua mãe não acreditava nisso. Mas você precisava ver o diabo no corpo daquele menino! Era assustador!

Bryan arregala os olhos e começa a chorar desesperado. Scully entra no quarto. Pega Bryan no colo. O embala.

SCULLY: - Mulder, o que aconteceu?

MULDER: -Não sei...

BRYAN: - (CHORANDO) Mamãe, “tá medo do papai”!

SCULLY: - (FURIOSA) Mulder, está assustando as crianças com essas histórias!

VITÓRIA: - Eu não tô assustada, mamãe! Continua, papai.

SCULLY: - (FURIOSA) Não, mesmo, você vai dormir! E você, Mulder, vá para o quarto! Se continuar assim vou ter de contratar um terapeuta pras crianças! Você não entende nada de psicologia infantil!

MULDER: -Mas, Scully...

SCULLY: - Mulder, tente historinhas como o Chapeuzinho Vermelho, o Pequeno Príncipe, João e Maria...

VITÓRIA: - (FURIOSA) Isso é muito bobo! Não existem bruxas que comem criancinhas! Nem florestas com lobos que falam! Isso não é lógico!

Mulder olha pra Scully. Começa a rir.

MULDER: -Tá vendo? Não precisa ter ciúmes. Alguma coisa ela tem da mãe.

SCULLY: - Mulder, não me irrite!

MULDER: -Filha, acho melhor ir dormir. Mamãe tá furiosa com a gente.

VITÓRIA: -Esse menino bobo! Eu quero um quarto só pra mim! Ele tá pegando os meus brinquedos e quebrando tudo! Até meu disco voador!

SCULLY: - Mocinha, acho que está ficando estranha demais pra sua idade! São os genes bastardos do seu pai!

Mulder levanta-se da cama. Beija Vitória. Cobre-a com o lençol. Vitória puxa o Marvin de pelúcia e o abraça. Vira-se na cama, furiosa. Mulder sai do quarto.

SCULLY: - Não quer uma Barbie ou um ursinho pra dormir do seu lado?

VITÓRIA: - (BRAVA) Odeio a Barbie magrela! Odeio ursinho bobo! Gosto do Marvin.

Scully suspira. Bryan ainda está assustado.

SCULLY: - Calma, filhinho... Essas coisas não existem. Seu pai estava só brincando...


11:13 P.M.

Scully entra no quarto, com Bryan no colo. Mulder está deitado. Scully coloca Bryan na cama.

SCULLY: - (FURIOSA) Ele vai dormir aqui por que está com medo do “diabo” entrar no corpo dele durante a noite.

Mulder fica quieto. Olha pro filho.

MULDER: -Vem no papai, vem...

Bryan faz um beiço e franze as sobrancelhas, com os olhos arregalados.

BRYAN: -Buáááááá!

Mulder afasta-se dele com medo.

SCULLY: - (FURIOSA) Você e suas histórias, Mulder!

Mulder se encolhe, olhando assustado pra ela.

SCULLY: - Saia já do quarto! Vá dormir no sofá! Seu lugar é lá mesmo!

Ele faz cara de cachorrinho pidão.

SCULLY: - Sai, Mulder! Sua criança crescida!

Mulder pega o travesseiro. Sai do quarto. Entra no quarto de Vitória. Vitória vira-se na cama e olha pra ele.

MULDER: -Fui expulso da minha cama, acredita?

VITÓRIA: -Dorme aqui comigo.

Mulder deita-se do lado dela. A abraça. Os dois olham pela janela, para o céu estrelado e a lua.

VITÓRIA: -Papai, eu queria ir pra lua. Você não queria?

MULDER: -É, deve ser uma viagem bem interessante.

VITÓRIA: -Papai, as estrelas ficam muito longe daqui?

MULDER: -Muito, muito mesmo.

VITÓRIA: -Como até a casa da vovó Meg?

MULDER: -Não, muito mais.

VITÓRIA: -Papai, por que a lua não cai?

MULDER: -É uma coisa chamada gravidade que você ainda não consegue entender.

VITÓRIA: -O que é gravidade?

MULDER: -... Vitória, essa sua fase de perguntas me assusta. Eu não sei como responder.

VITÓRIA: -Por quê?

MULDER: - Filha, eu não tenho respostas pra tudo.

VITÓRIA: -Papai, sabia que eu tenho um amigo que vem aqui falar comigo?

Mulder olha assustado pra ela.

MULDER: - Que amigo?

VITÓRIA: -Às vezes ele aparece pra mim. A gente conversa, sabe. Ele me disse que um dia eu vou pra Lua com ele.

MULDER: - (ASSUSTADO) Como ele é?

VITÓRIA: -Ele se parece com aquelas figuras que a mamãe tem naquele livro.

MULDER: - Que figuras, Vitória?

VITÓRIA: -Aquelas com asas. Só que ele não tem asa.

MULDER: - E o que ele diz pra você?

VITÓRIA: -Que sempre vai me proteger dos homens maus. Porque eu sou amiga dele.

MULDER: - E o que mais ele diz?

VITÓRIA: -Coisas.

MULDER: - Que coisas?

VITÓRIA: - Ele diz que vem do céu. Que quando eu quiser falar com ele é só chamá-lo. O nome dele é Hayel... Pai, tô com sono. Vou dormir.

Mulder fica olhando pra ela. Olha pro céu. Dorme abraçado na filha.


TEMPO ATUAL:

Scully olha pra Vitória.

SCULLY: - Então, no outro dia, eu demoli o escritório do Mulder e fiz um quarto pro Bryan. Enquanto ele ouvia Chapeuzinho Vermelho, você ficava no seu quarto, ouvindo as loucuras do seu pai. Cada vez que eu mandava ele levá-los ao parque, ele ia armado. Não desviava a atenção de vocês por um minuto. Isso que havia uma loira peituda que levava o filho dela pra brincar e ficava dando em cima do seu pai. Aquela vadia! Mas nem os peitos dela faziam seu pai tirar os olhos de vocês!


FLASH BACK:

Mulder e Scully estão deitados.

SCULLY: - Mulder, todas as crianças têm amigos imaginários. Ela viu aquele livro, e achou que seu amigo imaginário poderia se parecer com aquele anjo.

MULDER: -E como explica o nome dele, se ela não sabe ler?

SCULLY: - Ouviu de alguém, Mulder, sei lá. Não se preocupe com isso.

MULDER: - Acha que estou exagerando com a Vitória?

SCULLY: -Ela gosta disso, Mulder. Eu não aprovo, mas o que posso fazer?

MULDER: -Não queria assustar o Bryan...

SCULLY: -O Bryan, Mulder, é uma criança normal. Puxou a minha família. Evite comentários sobre trabalho na frente dele, tá legal?

MULDER: -Tá. Eu só pensei que deveria ser um bom pai pra eles, coisa que eu nunca tive.

SCULLY: -Mulder, você ama demais os nossos filhos. Às vezes até exagera! Não quero mimá-los.

MULDER: -Tá.

SCULLY: -...

MULDER: -(ELE ABRE UM SORRISO DE FELICIDADE) Scully, obrigado.

Mulder a abraça. Scully franze a testa, sem entender.

SCULLY: -Obrigado por quê?

MULDER: -Por me dar uma família tão maravilhosa... Amo você, sabia?

SCULLY: -Também te amo, Mulder.

MULDER: -O natal está aí. Acho que vou me vestir de Papai Noel.

SCULLY: -Desde que não assuste o Bryan.

Mulder sorri. Scully apaga a luz do abajur.

MULDER: -Você fechou a porta. É melhor deixar aberta.

SCULLY: -Eles estão bem, Mulder. E hoje, eu quero sua atenção todinha pra mim! Pode ser?

MULDER: -Ritual de exorcismo?

SCULLY: -É, mas sem barulho. Não quero acordar as crianças.


TEMPO ATUAL:

VITÓRIA: -Ritual de exorcismo?

SCULLY: - Era a maneira que...

BRYAN: - É o jeito que o pai descreve como a mãe faz amor.

Vitória começa a rir. Scully olha pra Bryan.

SCULLY: - Como sabe disso?

BRYAN: - Mãe, eu descubro tudo, sabia? Sou a raposinha mais nova, mas não menos esperta.

SCULLY: - Você tem um ego muito grande, sabia?

BRYAN: - Quem puxa aos seus, não deve a estranhos.

SCULLY: - Vocês dois... A única que nunca sabe das coisas por aqui sou eu.

Scully beija os dois. Abre a porta.

VITÓRIA: - Mamãe, como ele está?

SCULLY: -... Estou preocupada.

BRYAN: - (NERVOSO) Acha que o tumor se desenvolveu mais?

SCULLY: - (RESPIRA FUNDO) Eu não sei, Bryan. Estou esperando os resultados dos exames... Não vamos pensar no pior, tá? Boa noite, meus filhos. Durmam com os anjos.


BLOCO 4:

01:23 A.M.

Scully deita-se na cama. Mulder está deitado, com uma bolsa de gelo na cabeça. Ela recosta-se nele e o abraça.

SCULLY: - Ainda com dor de cabeça?

MULDER: - Acho que meu inimigo está triunfando, Scully.

SCULLY: - Mulder, não diga isso!

MULDER: - (RINDO) Não quero fazer radioterapia e quimioterapia, Scully. Vou ficar careca!

SCULLY: - (PREOCUPADA) Mulder, se for preciso...

MULDER: - (SÉRIO) Scully, quando isso apareceu ambos sabíamos que não teria cura. Foi um presente do Fumacinha. As conseqüências do que fizeram com o meu cérebro estão aparecendo.

Scully fecha os olhos.

MULDER: - Quero que mantenha nossa família unida, quando o inevitável acontecer.

SCULLY: - Mulder, não vai acontecer nada! Eu escapei de um câncer!

MULDER: - Não há chips a serem implantados dessa vez, Scully.

SCULLY: -...

MULDER: - Só espero que mantenha o meu raciocínio e a minha sanidade até o último dia... Falou com ela?

SCULLY: - Conversamos, revivemos o passado... Amanhã teremos mais uma agente dentro daquele carro, Mulder.

MULDER: - O tempo passa tão rápido. Parece que eles eram crianças ontem...

SCULLY: - Mulder, estamos ficando velhos. É o curso natural da vida.

MULDER: - Tenho uma filha de 23, um filho de 18... Meus cabelos estão brancos, já não consigo mais correr atrás dos suspeitos como fazia antes...

SCULLY: - Mulder, você está em plena forma. O que não posso dizer de mim.

MULDER: - Ah, Scully. Você não envelhece nunca! Pra mim, continua linda como sempre foi.

SCULLY: - Mulder, isso é uma cantada?

MULDER: - É. O que vale é a intenção.

SCULLY: - Mulder, estou com o diabo no corpo hoje.

MULDER: - Scully, você ainda é uma menina má!

Os dois se enfiam pra baixo dos lençóis.


07:14 A.M.

Scully prepara o café. Vitória entra na cozinha, vestida num tailleur.

SCULLY: - Uau! Como estamos chiques!

VITÓRIA: -É meu primeiro dia de trabalho. Quero impressionar.

SCULLY: - Não vai ser difícil. Pode acreditar.

Scully abre a geladeira. Mete o rosto lá dentro. Mulder entra na cozinha.

MULDER: - Filha, você está linda!

VITÓRIA: - Obrigado, papai.

Mulder senta-se à mesa. Pega o jornal. Coloca-o na frente do rosto. Vitória vai pra sala. Scully sai da geladeira e coloca o leite sobre a mesa. Nem olha pra Mulder, está atarefada preparando o café.

SCULLY: - Vai falar com o Sr. Waters?

MULDER: - Vou. Ah, se o Skinner não estivesse aposentado, a coisa ia ser mais fácil. Mas vou tentar. Tomo as responsabilidades pela Vitória.

SCULLY: - Vou comprar duas passagens pra Grécia.

MULDER: - Scully, acho melhor esperar mais uns meses.

SCULLY: - Não quero esperar nada. Quero uma segunda lua-de-mel.

MULDER: - Mas nós nem tivemos a primeira! Nem nos casamos!

SCULLY: - Mais um motivo pra irmos viajar.

MULDER: - Scully, quer se casar comigo?

Mulder tira o jornal da frente do rosto. Larga sobre a mesa. Olha apaixonado pra ela. Scully pega uma caneca. Olha pra ele. Deixa a caneca cair no chão. Mulder olha pra Scully assustado. Percebe que ela calou-se repentinamente, e está estática olhando pra ele.

MULDER: - Credo! Se não quer casar eu não me importo, mas não precisa fazer essa cara!

Scully olha pra ele, olhos arregalados. O vê em preto e branco.


FBI – Gabinete do diretor assistente

8:34 A.M.

Vitória entra na sala de Waters. Ele a observa.

WATERS: -Sente-se, agente Mulder.

Vitória senta-se.

WATERS: -Você entrou com uma solicitação para trabalhar nos Arquivos X. Sabe bem o que vai encontrar?

VITÓRIA: - Sim, senhor.

WATERS: -Quero que fique bem claro que agentes novos não podem ficar escolhendo o que querem fazer por aqui. Achamos que tem potencial para outros departamentos. Tem certeza de que quer colocar uma carreira promissora fora, para ficar num departamento desacreditado?

VITÓRIA: - Tenho certeza sim, Senhor. Isso é muito importante pra mim.

WATERS: -Posso imaginar. Seu pai ficará responsável por você. Pedi relatórios sobre seu desempenho, pra ele e sua mãe. Se for apta, você ficará. Se não for, não poderei fazer mais nada.

VITÓRIA: - Entendo, senhor.

WATERS: -Bom, acredito que seja isso. E não pense que será designada para cuidar dos Arquivos X. Terá de passar por um período de avaliação. Se passar, quando Mulder e Scully se aposentarem, ficará tomando conta do departamento. Com certeza nomearão um agente para trabalhar com você.

VITÓRIA: - Sim, senhor.

Vitória levante-se.

WATERS: -Ah, agente Mulder. Não me crie problemas. E não confie em ninguém. Está me entendendo?

VITÓRIA: - Suas palavras me soam familiares, senhor.

Vitória sai. Passa por alguns agentes no corredor. Eles ficam olhando pra ela, como se a despissem com os olhos. Ela aperta o botão do elevador.

AGENTE 1: -Nossa, vão deixar essa beleza escondida no porão? Que desperdício!

AGENTE 2: -O que querem? Já leram o crachá dela? É filha do Estranho Mulder.

AGENTE 1: -Ah, não! Tão bonitinha, não merecia ser retardada como o pai. Um louco por aqui já era suficiente!

Ele ri. Vitória vira-se para ele, séria.

VITÓRIA: - Se rir mais uma vez do meu pai, eu juro que corto as suas bolas, otário! Não me teste! Você se arrependeria amargamente.

Vitória entra no elevador.


Arquivos X - 8:56 A.M.

Scully tenta não olhar pra Mulder, que está sentado em sua cadeira, atirando lápis no teto.

MULDER: - Scully, você está estranha hoje. O que aconteceu?

SCULLY: - Nada, Mulder. Já disse, estou cansada.

MULDER: - Você fica sexy quando está cansada.

Ela sorri pra ele. Vitória entra.

MULDER: - Ora, bem vinda ao porão, agente Mulder! Aqui ficam os imprestáveis do FBI!

VITÓRIA: - Tudo bem, agente Mulder. Sou filha de dois imprestáveis mesmo!

MULDER: - Sente-se aí. Vai adorar isso. É o seu primeiro Arquivo X.

VITÓRIA: - (DEBOCHADA) E o primeiro Arquivo X a gente nunca esquece!

Mulder liga o retroprojetor. Scully olha pra Vitória.

SCULLY: - Ele faz isso comigo todos os dias. O que vamos ver, Mulder? Chupacabras? Vampiros? Extraterrestres?

MULDER: - Acertou em cheio, Scully. Alguma coisa está fedendo.

VITÓRIA: - Os republicanos? Sabia que não usavam desodorante!

MULDER: - Desodorantes podem ser “perigosos”. Não se esqueça disso!

Mulder passa os slides.

VITÓRIA: - Essa é uma pesquisa realizada pelo departamento de seqüestros do FBI. Como podem notar, há uma quantidade de desaparecimentos inexplicáveis em todo o país.

SCULLY: - Mulder, onde quer chegar com isso?

MULDER: - Scully, somente nesse mês, 247 pessoas desapareceram! Não acha estranho?

SCULLY: - Mulder, não está sugerindo que os extraterrestres abduziram 247 pessoas! Isso é loucura!

MULDER: - Tá vendo, Vitória? Prepare-se.

Vitória sorri.

MULDER: - Não disse nada disso, Scully. O fato intrigante é que dessas 247 pessoas, 211 eram crianças. Quando busquei dados sobre elas, todas estavam com um “confidencial, acesso negado”. Todas, sem exceções, com uma boa e invejável ficha médica, com idades entre 2 à 8 anos... Vitória, agora vem a bronca e a teoria científica. Observe.

SCULLY: - Mulder, se está sugerindo que estão usando essas crianças para experiências com híbridos, acho que está maluco! Minha teoria é de que há uma quadrilha agindo no país, traficando crianças, vendendo seus órgãos...

Mulder vira-se para Vitória.

MULDER: - Viu?

Vitória ri. Scully se indigna.

SCULLY: - Agora, filha, vem a teoria absurda dele. Escute. O improvável vem sempre antes do comum.

MULDER: - Scully, por que não o fariam? Acha que essa gente desiste fácil? Minha teoria é que estão recolhendo as provas, Scully. Por que não há fotos dessas crianças? Porque são clones, umas das outras?

Scully tenta não olhar pra ele, pra não ver a morte que está ao redor dele.

MULDER: - Scully, porque não olha pra mim? Fiz alguma coisa de errado pra você?

SCULLY: - Claro que não... Mulder, deixe esse caso. Vamos pra Grécia, por favor.

Mulder olha desconfiado pra ela.

MULDER: - O que tá acontecendo, Scully?

SCULLY: - Nada, Mulder. Só quero ficar longe disso aqui. Por favor, vamos embora!

Vitória olha pra Scully. Olha pra Mulder.

VITÓRIA: - Papai, vá pra casa e coloque um sapato bem resistente. Temos muito que andar. Iremos na casa de cada uma dessas crianças. Vamos começar por Washington.

Scully sai furiosa, batendo a porta.

MULDER: - O que tá acontecendo com a sua mãe?

VITÓRIA: - Acho que a mamãe não está gostando de ver outra mulher no espaço dela.

MULDER: - Não, não é isso. Tem alguma coisa estranha. Conheço a Scully. Ela sabe de alguma coisa que eu não sei.


8:32 P.M.

Scully está na cozinha. Bryan está estudando ali. Mulder entra. Bryan olha pra ele e levanta-se.

BRYAN: - Vou pra casa da tia Samantha. Prometi que sairia com o John.

Mulder esmurra a mesa.

MULDER: - Não quero que vá até a casa dela!

BRYAN: - Você não manda na minha vida!

MULDER: - Enquanto estiver debaixo do meu teto eu vou mandar!

BRYAN: - Pois não seja por isso! Eu vou embora.

Scully fecha os olhos. Respira fundo.

MULDER: - As pessoas que frequentam a casa dela são as mesmas que tentei afastar de vocês! São as mesmas pessoas que tentam me matar! Que fizeram coisas ruins à sua mãe!

BRYAN: - Ela é sua irmã!

MULDER: - Eu não confio nela!

BRYAN: - Ela não tem culpa se você é maluco! Pelo menos ela me trata melhor do que você!

MULDER: - O que eu te fiz? O que eu faço de errado pra você me tratar como um qualquer e não como o seu pai?

BRYAN: - Talvez você seja um péssimo pai!

Mulder fecha os olhos, triste. Scully fica furiosa.

SCULLY: - (GRITA) Vá já pro seu quarto, Bryan!

BRYAN: - Mãe!

SCULLY: - (GRITA) Já pro seu quarto! Só saia de lá quando estiver em juízo perfeito e pronto para pedir desculpas ao seu pai! Ele não merece ouvir essa besteira!

Bryan sai da cozinha. Scully olha pra Mulder. Respira fundo. Vai até ele. O abraça. Ele começa a chorar.

MULDER: - Ele me odeia!

SCULLY: - Mulder, ele não odeia você. É apenas um adolescente rebelde.

MULDER: - Me odeia sim. Eu queria saber o que faltou pra ele. Tentei ser diferente do meu pai, mas parece que não consegui.

SCULLY: - Mulder, não leve as besteiras do Bryan ao pé da letra. Você é um bom pai. Sempre foi. Muito diferente do pai que teve. O problema do Bryan é que gosta de implicar com você. E você com ele.

O telefone toca. Scully atende.

SCULLY: - Residência dos Mulder... Sim, é ela... (SCULLY FECHA OS OLHOS) Tá... Estamos indo.

Mulder olha pra ela. Ela está preocupada. Parada ali, como se estivesse longe.

MULDER: - O que foi?

SCULLY: - Precisamos sair, Mulder. Pegue um casaco.

A campainha toca. Mulder atende.

JOHN: -Olá, tio Fox! O Bryan está?

Mulder olha pro sobrinho mais velho. Ele tem cerca de 27 anos, muito parecido com Samantha. Tem uma fisionomia fria e calculista.

MULDER: - Está no quarto dele.

JOHN: -Fico feliz que a Vitória esteja no FBI. Dê meus parabéns à ela.

John entra. Sobe as escadas. Mulder o acompanha com os olhos. Scully aproxima-se.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Não gosto desse garoto, Scully.

SCULLY: - Mulder, que implicância!

MULDER: - Ele é neto do Canceroso! Acha que gosto que freqüente a minha casa?

SCULLY: - O menino não tem culpa de ser neto daquele homem. Mulder, está bravo porque a Samantha nos traiu. O menino não tem culpa...

MULDER: - Estou bravo porque dei metade da minha vida por ela pra receber o que recebi!

SCULLY: - ...

MULDER: - Não vamos falar nisso, eu sei. Mas eu ainda sinto ódio por isso.


Hospital Geral

9:33 P.M.

Scully olha algumas radiografias na parede. Fecha os olhos. Mulder a abraça.

MULDER: - Você é médica. Sabe me dizer se isso é correto?

Scully afirma positivamente com a cabeça. Abraça Mulder. Chora. Mulder abraça-a.

MULDER: - Ei, eu sou o doente por aqui, sabia?

SCULLY: -... Mulder, não quero perder você.

MULDER: - Não vai me perder... Scully, quantas vezes eu já saí de situações que ninguém sairia? Acha que um tumor desses vai me matar?

SCULLY: - Mulder, aumentou assustadoramente de volume. Podemos fazer uma cirurgia, mas, assim como antes, não é recomendável... Você pode ficar em estado vegetativo pro resto da vida.

MULDER: - E daí? Eu estava em estado vegetativo até conhecer você.

SCULLY: - Mulder, como pode brincar numa hora dessas?

MULDER: - (TRISTE) Se não brincar, a coisa fica difícil de suportar... Scully, não vou deixar que eles vençam. Sabe disso.

Scully abraça-se nele. Chora. Mulder tenta se controlar.


Hospital George Washington

3:34 A.M.

Câmera de aproximação. O Canceroso, já muito velho, está deitado na cama do hospital. Ligado à vários aparelhos. Há um tubo que o permite respirar pelo pescoço. Barulho de passos. O Canceroso abre os olhos. E um sorriso, com dificuldades. John aproxima-se da cama.

JOHN: - Vovô... Está melhor?

Ele fecha os olhos. Abre-os.

JOHN: - Sabia que o cigarro o mataria.

O Canceroso sorri, com dificuldade.

JOHN: - A filha de Mulder está nos Arquivos X. Acredita?

O Canceroso arregala os olhos.

JOHN: - Por que não a matou quando pôde? Depois de velho ficou burro. Está atrapalhando tudo, Vovô.

John aproxima-se dos aparelhos que mantém o Canceroso vivo.

JOHN: - Sabe, Vovô, você foi meu maior ídolo. Agradeço pelos segredos que revelou a mim, no decorrer do tempo. Mas sabe de uma coisa? Não confie em ninguém.

John desliga os aparelhos. Escora-se na cama. Observa o Canceroso, olhando nos olhos dele, que está agonizando, assustado com a atitude do neto.

JOHN: - A morte deve ser uma coisa dolorida... Acho que já fez muito pelo mundo. Deve descansar... Agora quem cuida das coisas por aqui, sou eu.

O Canceroso arregala os olhos. Depois de segundos se debatendo em desespero, morre por asfixia. John acende um cigarro, indiferente ao fato.

JOHN: - Poder é tudo, vovô. Espero que eu tenha aprendido sua lição.

TO BE CONTINUED...

02/12/1999

9 de Agosto de 2019 às 04:42 0 Denunciar Insira Seguir história
1
Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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