Viradela Seguir história

raquelterezani Raquel Terezani

Val era aquela garota que sentava no meio da sala de aula, que não era inteligente, que não era bonita, que não era bagunceira, que não era simpática, que não era ninguém. E então, por causa de uma viagem, as coisas começam a mudar. Ela vai se apaixonar por um cara, por uma cidade e, principalmente, por ela mesma.


Ficção adolescente Todo o público.

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Eu comecei a gostar de mim mesma nas férias de julho do ano passado.

Até então eu era aquela menina que sentava no meio da sala de aula, que não era inteligente, que não era bonita, que não era bagunceira, que não era simpática, que não era ninguém.

Algumas das minhas amigas só tiravam nota máxima, ou eram boas em esportes, ou ao menos tinham um namorado, já eu, seguia observando o mundo pela tela do meu celular. Eu curtia e comentava a vida alheia da segurança do meu sofá e sentia que tudo o que precisava era da minha televisão, que às tardes e nos finais de semana exibia muita ficção científica.

Meus pais começaram a comentar sobre a nossa viagem para Viradela uns dois meses antes. Era a cidade natal do meu pai e ele pretendia visitar um tio-avô que estava nas últimas e morava com uma prima dele. Uma cidade com dez mil habitantes era só o que eu tinha me dado o trabalho de aprender porque o que me importava é que a casa tinha wifi.

Depois de seis horas dentro do carro, apenas com uma parada de quinze minutos porque meu pai nunca perdia tempo em viagens, chegamos a Viradela pouco depois do meio dia. Mal passamos por três ou quatro ruas desertas eu já conseguia enxergar terrenos vazios indicando o final da cidade. Virei para trás e fiz um stories do prédio da prefeitura se afastando de mim “Dez dias nesse fim de mundo... Socorro!”. Se ao menos fosse verão eu poderia usar a piscina, mas nem isso... A prima Diana já tinha visitado algumas vezes nossa casa ao longo dos anos e sempre comentava do quintal imenso, com uma jabuticabeira e uma piscina que raras vezes era usada agora que os filhos dela estavam adultos e tinham se mudado.

Quando meu pai estacionou e eu pulei do carro me espreguiçando tive duas surpresas. A primeira foi o cheiro maravilhoso de feijão fresco misturado com terra molhada, igual a quando acaba de chover. Mas não tinha chovido, era apenas o cheiro daquele lugar, totalmente oposto ao cheiro de fumaça que eu sentia diariamente em São Paulo. A outra foi prima Diana, sentada no muro baixo que ficava na frente da casa que deveria ser a dela, batendo papo com outra senhora. Nesse caso a surpresa veio da falta de segurança daquele muro. Eu sempre ouvi dizer que as cidades do interior eram mais seguras, mas aquilo já era desafiar a sorte.

A prima Diana sorriu e gritou cada um de nossos nomes, conforme nos abraçava:

- Gilmar!

- Catarina!

- Valquíria!

E nos levou para dentro. A sala e a cozinha da casa formavam um único e enorme cômodo e havia cinco portas ao longo de duas paredes. Pontos positivos para o fato de que eu dormiria sozinha num dos quartos, coisa que eu não estava contando, e pontos negativos porque só havia um banheiro e eu sou uma pessoa que gosta de banhos demorados.

Largamos as malas na sala e entramos os quatro na primeira das portas. O tio Ozório estava numa cadeira de rodas assistindo televisão. Nós nos sentamos em seu entorno: meus pais na cama, a prima Diana numa banqueta e eu no chão.

A conversa discorreu por uma meia hora sobre a doença do tio. Ele, por sua vez, quase não participou do bate-papo, apenas balançava a cabeça e corrigia o nome dos remédios que a prima Diana falava errado. De vez em quando a conversa morria e meu pai se apressava em preencher o silêncio perguntando sobre algum outro parente. Ele pretendia visitar todos os que moravam em Viradela e nas cidades ao redor durante suas férias. De repente ele estava muito interessado em rever aquele monte de gente que para mim não passava de nomes citados raramente durante as festas de final de ano na casa dos meus avós. Talvez saber que o tio estava morrendo fez com que meu pai quisesse se reconectar com os parentes, vai saber.

Meu pai empurrou tio Ozório para a cozinha e nós finalmente almoçamos. Aquele cheiro estava me matando e a abundância de comida disponível me rendeu outro stories. Quando acabávamos de comer ouvi uma voz atrás de mim, vindo da direção da porta de entrada:

- Chegaram?

Virei-me e dei de cara com uma garota sorridente. Meus olhos imediatamente seguiram para seu cabelo: ela usava um rabo de cavalo super apertado, sem nenhum fio fora do lugar. Se ela fosse mais velha e tivesse rugas, o cabelo se encarregaria de esticá-las. A partir daquele momento eu não conseguia pensar em nada além de “eu preciso tirar uma foto dessa pessoa e mostrar pras minhas amigas”.

- Essa é a Valquíria – a prima me tirou dos meus pensamentos – e essa é a filha da minha vizinha, a Lorena. Valquíria, eu falei pro seu pai que você e a Lorena têm mais ou menos a mesma idade e poderiam sair juntas.

A Lorena cortou um pedaço do doce que a prima Diana estava colocando na mesa e eu me senti como quando a gente tem cinco anos e nossos pais nos empurram para a primeira criança que aparece numa festa “fala oi pro seu amiguinho”. Servi-me de sobremesa também e acabei tendo que sorrir para a vizinha:

- Pode me chamar de Val.

Em seguida os “adultos” recomeçaram o papo sobre doença, a Lorena fez um sinal com a cabeça e caminhou para a porta dos fundos. Nunca que em São Paulo um vizinho entraria na minha casa sem tocar a campainha, se serviria sem cerimônia e se encaminharia pra qualquer parte da casa sem a companhia dos meus pais ou da minha. Achei graça e a segui para o quintal.

“As definições de casa foram atualizadas com sucesso” eu postaria mais tarde. Pra mim aquele lugar já poderia ser classificado como um sítio. Nos fundos da casa observei uns cinquenta metros de terra com plantas, árvores e uma horta. E, é claro, a piscina. Cercada por ladrilhos coloridos ao lado de uma edícula com churrasqueira que eu torcia para que incluísse um segundo banheiro.

Sentamos lado a lado em um banco de madeira, próximo da máquina de lavar roupas. O cheiro de terra era ainda mais forte naquela parte da casa e eu fiquei me perguntando se gostava ou não dele.

- Vocês vão na quermesse hoje?

É claro que tinha uma quermesse, eu sorri:

- Não sei, não tô sabendo de nada.

- Vamos, vai ser legal, eu venho te chamar lá pras seis e meia.

Provavelmente a Lorena estava fazendo um favor pra prima Diana que achava que eu precisava de alguma coisa além do meu celular durante as férias. Então eu dei de ombros e concordei.

***

Vesti calças jeans, tênis e um moletom grosso pra aguentar o vento e os quinze graus daquele sábado à noite e me arrependi assim que a Lorena abriu a porta da sala. Ela usava botas de cano alto por cima de uma calça skinny, uma blusinha de renda e uma jaqueta vermelha de couro falso. Sem contar os brincos enormes e o batom escuro (o rabo de cavalo esticado ainda era o mesmo). Eu pulei do sofá e corri pro quarto ao menos pra passar um batom e ela veio atrás de mim.

- Melhor eu me trocar? Vai estar todo mundo assim, arrumado? – questionei.

- É... – ela tentou não dizer que eu estava mulamba, mas a inclinação da cabeça dela disse.

Troquei o tênis por uma bota e os brincos pequenos por uma argola porque era o máximo que dava pra fazer. Nunca tinha passado pela minha cabeça que eu precisaria levar uma produção completa para passar dez dias no interior visitando parentes.

Meus pais estavam na cozinha com a prima Diana e, quando eu avisei que estava saindo, eles sequer perguntaram aonde eu ia, que horário voltaria ou qualquer uma das perguntas normalmente feitas nas raras vezes em que eu saia em São Paulo.

Andamos meio quarteirão, a Lorena parou em frente outra casa e gritou:

- Camila! Cíntia! Vamo!

Duas meninas saíram de dentro da casa mascando chicletes. Elas tinham cabelos impecavelmente cacheados e fiquei me perguntando por quanto tempo elas ficaram se arrumando para uma simples quermesse. A Camila também usava botas por cima de calças e a Cíntia usava ankle boots e uma saia curta. Durante a caminhada até o ginásio da cidade as três foram falando e rindo sem parar.

- O Juliano vai estar lá? – a Camila perguntou.

- Não sei, mas o Humberto vai. – a Lorena deu uma risadinha

- Pelo amor de Deus, não me deixa sozinha com o Beto porque eu não quero ficar com ele.

- Tá bom... E o Juliano tá viajando... Com a Pati.

- Com a Pati?! Mas eles não tinham largado? – a Cíntia bateu uma palma e deu um pulinho do mesmo jeito que minhas amigas de São Paulo reagiam quando ficavam sabendo de alguma fofoca.

Eu estava acostumada à sensação de ser uma espectadora, então apenas as segui.

As ruas, desertas naquela manhã, agora estavam repletas de pessoas e carros indo e vindo, e sim, todo mundo estava mais arrumado do que eu esperava. A cada dez passos as três meninas paravam para cumprimentar alguém e me apresentar. As pessoas me davam beijinhos no rosto, me olhavam com admiração quando eu dizia que era de São Paulo e diziam coisas como “E o que você veio fazer aqui?”.

Não decorei o nome de ninguém.

Entramos no ginásio por uma das grandes portas de metal. Havia vários pontos de venda de comida e bebidas típicas na parte de cima e mesas cheias de gente forrando a quadra, um nível abaixo. Na arquibancada em forma de escadaria havia alguns grupinhos, na maioria crianças e jovens, comendo e conversando. A música alta me impedia de prestar atenção no assunto das meninas e eu já estava arrependida de não estar esparramada no sofá da prima Diana assistindo Supergirl.

A Lorena acenou para alguém e três meninos se aproximaram. Eles usavam calças jeans, camisas polo e jaquetas. Fiquei impressionada por que eles, de modo algum, se encaixavam no que eu classificava como “caipiras”. Dois morenos e um loiro, muito perfumados, abraçaram cada uma das meninas. Eu quis rir quando um deles apertou a Camila por alguns segundos além do necessário levantando-a do chão. Em seguida eu confirmei que se tratava do tal Beto. A Lorena me apresentou a eles: Beto e Miguel eram os morenos e Jonas o loiro. Eles me deram beijos no rosto e ficaram parados na rodinha. Alguns minutos depois, ainda sem fazer parte da conversa, avisei que ia buscar um refrigerante. Eu pretendia demorar um longo tempo para voltar para aquela tortura. Se eu já me sentia deslocada com minhas amigas em São Paulo que dirá com aquele pessoal que eu tinha acabado de conhecer. Entrei na fila e saquei meu celular para responder algumas mensagens quando alguém me cutucou:

- Vendo mensagens do namorado?

Era o Beto parado logo atrás de mim na fila.

- Não! Imagina...

- É seu cachorro? – ele apontou pra foto do Shih Tzu no meu plano de fundo.

- É o cachorro que eu quero ter assim que convencer meus pais.

Ele mexeu no próprio celular e virou a tela pra mim:

- Eu tenho um... O nome dele é Max.

Eu sequer prestei atenção no Max porque a foto era do Beto sem camisa e de óculos escuros, segurando o cachorro.

- Que bonitinho... – respondi a primeira coisa que me veio à mente e torci para não ficar vermelha.

Comprei minha Coca-Cola, o Beto comprou a dele e voltamos pra rodinha das meninas. Ele passou vários minutos conversando comigo, contando histórias do Max com detalhes, como se tivesse falando a coisa mais importante do mundo e queria ter certeza de que eu estava prestando atenção. Eu estava um pouco tímida então cutuquei minha unha, bebi quase todo o refrigerante e tentei fazer alguns comentários que soaram bobos.

Um dos outros meninos sugeriu comerem cachorros quentes e eles se afastaram. Em seguida as meninas decidiram arrumar uma mesa e nós também comemos algumas coisas.

Depois de umas três ou quatro selfies que a Lorena tirou da gente eu postei uma série de fotos: as bandeirinhas tremelicando no teto do ginásio, uma de mim sozinha fazendo uma careta e uma de nós quatro com a legenda “Sábado à noite no interior”.

Na volta pra casa a Lorena anotou meu celular, me adicionou no Instagram e brincou:

- Posso passar seu número pro Beto?

- Ãh? – meu coração deu um pulo no peito. Eles tinham conversado sobre mim? Quando? Do que falaram? Ele tinha me achado bonita? Legal? Ou o que?

- Pode ou não pode?

- Pode ué...

Eram dez e meia da noite e o portão da casa da prima Diana continuava aberto, ela e meus pais estavam em torno da mesa da cozinha, jogando baralho e bebendo cerveja. Do lado de fora eu já ouvia as gargalhadas. Eu nunca tinha visto Seu Gilmar e Dona Catarina jogando baralho em toda a minha vida e fiquei me perguntando o que mais aquela cidade era capaz de fazer com a gente.

Entrei no quarto e deletei o primeiro stories daquele dia, só por precaução.

8 de Agosto de 2019 às 13:41 0 Denunciar Insira 0
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