E se tivéssemos asas? Seguir história

tdinizz_ Tainara Diniz

T A B U: substantivo masculino "... interdição cultural e/ou religiosa quanto a determinado uso, comportamento, gesto ou linguagem (...) proibição imposta por costume social ou como medida protetora..." Quando finalmente termina o cansado ano de 2018, Lila não suporta a ideia de que virão outros doze meses pela frente. Ela só quer deitar em sua cama, e ficar ali para todo o sempre. Seria tão mais fácil... É assim, em meio ao desânimo por tudo que ocorreu nos últimos dois anos e a preguiça de tentar novamente, que seu melhor amigo Vine encontra uma caixa escondida no fundo de seu guarda roupas. Lila não pôde acreditar em como se esquecera daquilo e pela primeira vez em meses, talvez, ela terá que finalmente encarar a realidade. A caixa dos tabus. Ah, aquilo sim era o desafio que Lila precisava para se desafiar a sair da sua zona de conforto e alçar voos, como se tivesse asas. Capa pela maravilhosa: Thati Machado Email para contato: blognemteconto


Romance Todo o público.

#amor #feminismo #friendzone #amigo #conto #tabu #fimdeano #desanimo #motivação #tabus
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01

Você já chegou naquele ponto da vida em que nada mais faz sentido e você sente como se fosse um robô programado a fazer cada uma das atividades de sua rotina? A inspiração de acordar cedo para produzir o que ama sumiu — se é que um dia ela esteve ali —, a vontade de correr atrás de seus sonhos evaporou e, talvez, até mesmo o ânimo que o ano novo trás tenha ido dar uma voltinha, e esquecido de voltar.

Depois dos quase trezentos e sessenta e cinco dias que dois mil e dezoito me proporcionou, é exatamente assim que me sinto.

Deitada sobre minha cama com cobertores que deviam ter sido lavados há umas três semanas, rolando o feed para ver as mesma coisa de sempre — pessoas felizes demais para ser verdade — e, às vezes, desviando minha atenção para o arredor, em uma visão nem um pouco animadora: o meu quarto de ponta cabeça.

Com toda certeza do mundo se minha mãe me visse nessa situação, ela se questionaria o que fez de errado. Coitada, ela não tem nada haver com isso. Na verdade, durante todos os anos em que Frida esteve em minha vida, eu fora algo bem admirável do que hoje. É, talvez esteja aí um dos pontos, o fato do meu maior exemplo e guia ter simplesmente virado uma estrela nesse imenso céu.

Quando me tornei essa garota desanimada, sofrendo com um pote de sorvete de menta em uma mão e o celular na outra? Oras, sempre fui bem mais ativa que isso.

Está bem, não adianta, nem sermão mental vai me fazer animar agora.

— LILA WHATSON, ONDE ESTÁ VOCÊ? — ouço a voz grossa de Vine, meu melhor amigo, me chamar e talvez, só talvez, um pouco do meu ânimo resurja das cinzas.

Ajeito minha coluna da cama e confiro meu cabelo pela câmera frontal antes de responder.

— NO QUARTO.

Não são precisos nem dois segundos para que ele me encontre, morar em uma quitinete tem lá suas vantagens, estar com quatros passos já no outro cômodo da casa, é uma delas.

Os cabelos ruivos de Vine são a primeira coisa que vejo assim que ele escora no batente da porta, com os braços cruzados em frente ao corpo. Suas sardas me fazem lembrar as estrelas e consequentemente minha mãe. Não é possível evitar que um sorriso percorra meus lábios.

— Olha, não é que era verdade o que me diziam e eu não acreditava. — ele diz e franzo o cenho.

Vine e suas conversas aleatórias dão curto circuito no meu cérebro às vezes.

— O quê?

— Que algumas coisas imaterias podiam se concretizar. Acabo de ver um substantivo se personificar em uma pessoa na minha frente.

— Do que você está falando Vine?

— Você Lila, está à completa cara da derrota nesse momento. — ele me encara alguns segundos tentando parecer sério, mas não consegue segurar o riso por tanto tempo. Vinicius caminha até a ponta oposta a mim de minha cama e se senta, tocando em minha perna.

Um calor quase visível percorre todo meu corpo, apartir de seus dedos até as minhas bochechas. Desvio a atenção tentando disfarçar e acho que sou uma ótima atriz porque ele não faz nenhuma brincadeira sobre.

— Você é um idiota, sabia? Me deixa curtir minha bad em paz. — murmuro, puxando as cobertas para cima de meu rosto.

— Estão uns trinta e quatro graus e você se cobrindo. Não, essa não é a Lila que conheço. Anda, levanta daí!

Tento negar, mas quase solto um grunhido em vez disso.

— Nem vem, o ano novo está logo aí, você sempre amou essas coisas. Qual é Lila, vamos lá, você tem que levantar dessa cama.

— Eu não saio daqui nem arrastada.

— Ah, mas você vai sim. — sinto que Vine se levanta da cama, porém não retiro as cobertas para ter certeza. Não demora em ouvir sons no meu armário, com medo que ele encontre algum de meus cadernos e anotações às quais ele não deve ler, empurro rapidamente as cobertas.

— O que pensa que está fazendo? Que invasão é essa?

Ele dá de ombros e continua fuçando nas minhas coisas.

— Você vai sair comigo e vai agora. Se você não quer levantar daí, eu mesmo escolho uma roupa para você tirar esse pijama imundo, e pode ter certeza que vou escolher a pior coisa possível. Começando pelo sapato, vamos ver, qual a caixa mais velha que temos aqui...

Solto o ar com força e cruzo os braços para mostrar minha indignação. Ok, talvez seja um tanto fofo a preocupação dele comigo e minha fossa, mas realmente não quero sair dessa cama agora. É... Contá-lo onde fica a chave reserva abrindo a possibilidade de sempre que quiser, ele poder entrar aqui, pode ter sido uma má ideia.

— Achei! Nossa, essa está velha mesmo, deve ser um sapato de quanto tinhas uns quinze anos ou algo assim. — ele diz retirando uma caixinha rosa com desenhos de laços brancos do armário e mostrando para mim.

Encaro-a alguns segundos. Não me lembro dela existir e muito menos qual sapato está ali dentro. Deve ser mesmo alguma coisa bem velha. Preciso mesmo limpar esse armário e doar algumas coisas.

Vine tira a poeira de cima da caixa e a abre, o franzir de suas sobrancelhas fica tão nítido que me deixa instigada.

— É tão feio assim?

— Não, é... não é um sapato.

— Então o que é?

Ele meche um pouco dentro da caixa e levanta para mim um pedaço de papel dobrado e um anel. Antes mesmo que ele diga algo já sei do que se trata e uma onda elétrica percorre por todas as veias de meu corpo e junto com Vine, que lê a parte de cima da folha, falo:

A lista dos tabus.

5 de Agosto de 2019 às 11:36 1 Denunciar Insira 2
Continua…

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lh laura huerta
bien
14 de Agosto de 2019 às 03:57
~

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