Mil luas de guerra: A penumbra das espadas Seguir história

alken_el Gabriel Eduardo

Tudo se trata do quanto é possível caminhar com alguém, porém, vale lembrar que o caminho se torna incerto com grandes conflitos, o problema é que o grande conflito é constante e eterno. Guerras nunca foram travadas entre cadeiras douradas ou entre homens e espadas, a verdadeira guerra é entre os homens e a Morte, e nessa, somente um vencedor é certo.


Aventura Para maiores de 18 apenas.

#medieval #reinos #mistério #guerras #reis #guerreiros
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Ricc

Depois de um longo e rigoroso verão, no qual inúmeras plantações foram perdidas pelo clima seco e quente, era premeditado o início do inverno depois de um curto período de tensão entre os seres. Era sabido da profecia da Noite Expiatória, na qual em um dos mais rigorosos invernos, o sol se esconderia por inúmeras luas e o exército sombrio dominaria Eom.

Todo o povo de Eom acreditava na punição divina. Acreditavam que os deuses tentariam purificar a criação hora ou outra. Expurgar do mundo a maldade que a racionalidade criou, e, dela, provendo reis, lordes, que, por sua vez, proveram poder e pelo poder guerras e mortes. Acreditavam que se havia guerras e mortes, por guerras e mortes o mundo seria purificado. Profecias esperançosas costumavam ser esquecidas com frequência, na mesma proporção em que os deuses eram deixados de lado.

Certa parcela do povo era descrente com os deuses graças à existência da própria maldade. Em uma das possíveis tentativas divinas de intervir na maldade, surgiram feras gigantes, indomáveis e, acima de tudo, extremamente poderosas. Assim surgiu o Exército Branco, responsável por conter as criaturas imortais. Ao todo, seis postos deste exército se instalaram em Eom.

No extremo sul, onde se abrigava as frias terras de Sulin, Ricc cavalgava com outros três homens altos. O jovem, de apenas dezenove anos, empunhava uma espada com a mão direita enquanto a esquerda segurava firmemente as rédeas do cavalo.

Ricc não era um cavaleiro, tampouco um guerreiro, o que era possível perceber graças à ausência da bainha de sua espada e sua tensão sobre o andaluz de pelagem castanha. Vestia couro por baixo de seu longo manto cinza e exageradamente felpudo com pelos de raposa.

― Me conte como é em Anderhooy, Gacke ― Pediu Tyves.

Tyves talvez fosse o mais velho dali. Sua barba aparada com uma navalha provavelmente cega denunciava seus quarenta e oito anos. Se agasalhava com roupas de couro marrom como a cor de seu cavalo e um manto negro sem muitos detalhes se não o urso que era usado como botão para fechá-lo próximo ao pescoço.

Talvez o urso denunciava quem Tyves era. Ou à quem servia. A família Betrooh era regente das terras do oeste de Eom, cuidando principalmente das províncias altas, onde se instalava o castelo que não escapava da soberania do reino de Sollen.

― Provavelmente o pior dos seis postos dos Panos Brancos. ― Gacke caçoou. ― Está com medo, homem? Podemos arrancar sua mão e enviar para Penuhool alertando os Betrooh que mudou de ideia.

Gacke já era veterano quando se tratava dos Panos Brancos, dos seis postos do exército, ele já havia atuado em quatro e seguia agora, para Anderhooy, o quinto. Gacke vestia o mesmo que Ricc, contudo, seu manto era azul marinho em uma tonalidade confundível com preto. A cicatriz na bochecha e a ausência de um dos lados do nariz denunciava de onde Gacke vinha: C’Xum. Um reino ao leste de Eom, o único regido unicamente pela linhagem C’Xum. Sem alianças políticas e, à princípio, pacífico, mas os boatos se confirmavam com uma única olhada para o rosto de Gacke, nas terras quase inférteis de C’Xum, não andam guerreiros que lutam pelo reino, andam apenas homens com espadas.

― Para um homem de C’Xum dizer isso, imagino o pior mesmo ― Comentou Ricc.

Gacke o olhou com rispidez.

― C’Xum não é nada comparado aos Panos Brancos, rapaz. Fugi de C’Xum quando pude e preferia ter morrido lá.

― Você já os viu?

― Já estive dentro de um ― respondeu Gacke. ― O desgraçado parecia um castelo em seu interior, mas pegajoso e mortal. Perdemos trinta e seis homens naquele dia. Foi lá onde eu consegui isso ― O homem apontou para a metade de seu nariz.

Ricc tinha perguntas infinitas para fazer e Tyves não escapava da curiosidade. Ver uma das Grandes Feras de perto, pior que isso, estar dentro de uma delas era atributo de poucos homens. Apesar de números altos comporem o Exército Branco, poucos homens eram enviados para a contenção do que quer que guardavam em seus postos.

No horizonte, uma parede de pedras começava a surgir. A parede se estendia de leste à oeste, como uma muralha, mas os homens conseguiam ver uma curva em ambas as pontas. Mesmo distante, as pedras negras que davam forma aos muros de Anderhooy cresciam por muitos metros entre o branquidão da neve distante. A cavalgada que se sucedeu foi silenciosa Gacke respeitava o espanto de Ricc e Tyves.

Mesmo servindo à uma família nobre, Tyves jamais vira uma construção daquela extensão. Seguindo o caminho que percorriam, era possível, aos poucos, perceber um portão metálico ao lado de uma torre de comando pouco mais alta que a muralha. Ao lado da torre, a muralha se fazia saliente, como se, por dentro, abrigasse outra construção, mais ao leste, era perceptível outra torre, e o mesmo se fazia presente ao oeste.

Ricc trocou sua espada de mão. Estava estupefato com o que via. Filho de Zion Saehen que, por sua vez era irmão de Thyze Saehen e tio do atual rei de Sollen, Jeffoz Saehen, Ricc se surpreendia fácil, mas aquela visão ia além dos seus sentidos de real e surreal. Os muros de Sollen, pelo o que se lembrava, eram altos, mas principalmente pelo reino residir em uma colina no centro de Eom. Ali era diferente: o terreno era plano, a neve era muita e os recursos, aparentemente, escassos. Nas últimas milhas, Ricc não avistou árvore alguma, ou ao menos se lembrava de ter visto e talvez não houvesse mesmo. O frio do sul era mais ardente que o do norte, o suficiente para que ouvisse de seu irmão, Fahel, antes de partir: “Quando voltar, não irá mais sangrar, seu sangue já terá congelado com a estadia em Sulin”.

O jovem estremeceu.

― Devia ter vestido mais roupas, garoto ― comentou Gacke. ― E trazido outras calças, vai precisar, por experiência, os homens se cagam de medo quando vêem a fera.

― Talvez C’Xum não seja o inferno como dizem ― Ricc debochou.

― Já vi de tudo garoto, mas o que tem atrás daquelas muralhas escuras… Aquilo é a morte que lutamos mais do que com a própria para que esse continente se mantenha inteiro.

― Já fazem eras que essas feras vagam por aí, se fossem tão perigosas, já teriam as eliminado com a junção dos exércitos.

Os outros dois homens riram.

Gacke riu porque sabia da imortalidade das feras. Nenhum homem poderia matá-las se não o citado na profecia. O criador das feras voltaria empunhando um par de espadas flamejantes e lutaria como um deus com cada uma das criaturas, partindo com todas quando a última morresse, levando consigo, além da criatura, um terço dos povos de Eom.

Já Tyves, riu pois sabia da impossibilidade da junção dos exércitos. Os grandes nomes estavam preocupados demais em tomar reinos, manter e retomar poderes. Enquanto o Exército Branco lutasse por eles, jamais haveria aliança entre os exércitos do mundo.

― O que o fez parar aqui, garoto? ― Gacke perguntou para Ricc. ― Eu procurei uma vida melhor, admito que não encontrei muita coisa, mas é melhor que desertar. Tyves traiu um grande nome e, para não morrer, também desertou dos Betrooh. E você? Se endividou com uma prostituta?

Houve silêncio. A história de Ricc poderia não ser muito interessante apesar de envolver mais as grandes famílias do que a história de Tyves. Em verdade, Zion, seu pai, caçula de seu avô, cobiçava fortemente o trono de Sollen e Ricc se encontrou em um beco sem saída. Não poderia trair seu rei, como também seria punido caso seu pai traísse a coroa, logo, optou por desertar dos Saehen e se abster de um problema maior. Eis a grande vantagem do Exército Branco: não há nomes nem reis, e a grande desvantagem, era ser o próprio exército branco.

― Tive medo. ― Disse por fim.

Não era em total mentira. Temia morrer ou ter que trair a coroa, é claro, porém, o medo maior, partia de Jeffoz, seu primo e rei de Sollen.

Em uma conversa, Jeffoz foi claro: “tenho medo de uma armação, fuja, mude o nome, vá para onde ninguém o encontrará, odiaria cortar sua cabeça”. A relação de Ricc com Jeffoz é uma irmandade profunda. Ambos cresceram juntos com a ausência de Zion. Ricc foi protegido de Thyze Saehen desde os doze anos graças às expedições do pai às terras do leste. As descobertas do continente batizado de Ihra ampliaram os horizontes dos grandes nomes de Eom.

O resto da curta cavalgada seguiu silenciosa. Cada vez mais a larga e alta muralha aumentava. Os portões de ferro se abriram imediatamente com a aproximação dos homens e de dentro da fortaleza de Anderhooy saíram seis homens. Todos vestiam peles de animais grossas o suficiente para sequer baterem as mandíbulas.

― Quem? ― Perguntou um deles.

O que falou era calvo e sem barba. O pouco cabelo que tinha era branco e seus olhos eram profundos. Não parecia estar armado e sua voz era fraca.

― Novos desgraçados, senhor ― respondeu Gacke com um sorriso quase malicioso no rosto.

Um dos homens deu um passo à frente.

― Gacke A’und? O filho da puta de Sannhool?

Gacke desmontou do cavalo e olhou bem para o homem. Um clima de tensão começou a crescer.

― Gacke A’und, o filho da puta que comeu a sua irmã ― Ele corrigiu antes de abraçar o outro homem enquanto riam.

O outro homem era Taerin Q’ark. Ambos nasceram e até viveram um período da vida em C’Xum, mas Taerin teve a sorte de sair mais cedo para algum vilarejo Rurik do centro de Yhabe e só foi pois precisava fugir com a família da tirania que C’Xum havia iniciado. Os Q’ark era uma das famílias poderosas do reino e que brigava constantemente contra os C’Xum pelo trono.

Ir para o exército branco talvez tenha sido a melhor escolha. A última notícia que Taerin teve da sua família foi que haviam sido queimados em um saque de C’Xum à uma das aldeias Rurik próximas ao reino. “Foram idiotas” dizia, “deviam ter ido para mais longe”.

Os homens foram recebidos na fortaleza de Anderhooy sem muitas palavras. O interior parecia pequeno se comparado com as dimensões da fortaleza. O frio parecia pior ali. Foram levados para um lugar apertado e muito mais quente, uma sala pequena que abrigava apenas uma mesa e um homem velho. O homem tinha a pele morena e cabelos negros e enrolados. Os olhos eram azuis e muito vivos se comparado à profundidade de seus olhos. Vestia roupas exageradamente acolchoadas para o frio que se fazia na sala.

― São os novos? ― Perguntou.

Não precisou ter resposta alguma, ele apenas continuou enquanto se levantava.

― Guarde a espada, garoto.

Ricc demorou alguns segundos para responder.

― Não estou com a bainha senhor.

O homem o olhou.

― Você é algum tipo de idiota? Quem sai com a espada para um exército e esquece a bainha? Sabe ao menos batalhar?

― O suficiente, senhor.

― Ótimo, vou adorar que morra caso não saiba. Arrume uma bainha assim que possível, rapaz. ― Ele olhou para Gacke. ― Você é o transferido, não é?

Ele confirmou com a cabeça.

― Vim de Sannhool, liderei um hepteto lá. Você deve ser...

― Sou Elur Detoc e pouco me importa o que fez lá em Sannhool, apenas lamento por tudo que deve ter visto, mas bem-vindo à Anderhooy, um inferno pior que o anterior.

― Deu para perceber ― ele abriu um pouco os braços. ― Pelo tamanho.

― É, isso aí. Digamos que a fera aqui é maior.

Maior que a de Sannhool? Impossível.

― Vai engolir a língua quando vê-la. Temos vinte e seis postos ao redor da fortaleza e tentamos manter cem heptetos em vigília no interior, contendo a fera.

― Quantos homens tem aqui, senhor Detoc? ― Perguntou Tyves.

Elur o olhou com julgamento e o motivo parecia claro para Ricc e mais claro ainda para Gacke. Números não significavam nada ali, não lutavam contra outros exércitos, mas contra feras inimagináveis de histórias antigas.

― Por volta de oitocentos.

― E todos se conhecem?

― Mas é claro que não, merda, de onde você vem? ― O tom de voz de Elur soava irritado e ao mesmo tempo surpreso.

― Então como se dividem?

― Três heptetos com um líder compõem uma triple. Cada triple é comandada por um comandante e os comandantes pelo conselho de Anderhooy,

― E você é…? ― Ricc perguntou.

Elur o olhou nos olhos, transmitindo a tensão que deveria transmitir o conselheiro-voz de Anderhooy. O responsável por dizer tudo o que for decidido entre o conselho do posto militar para os soldados da fortaleza.

As punições por desobediência em Anderhooy poderiam ser aplicadas por qualquer superior ao indivíduo condenado. Desertar, também leva à morte e foi muito bem visível para Ricc e Tyves assim que saíram do cômodo. No pátio, três homens eram colocados de joelhos em um tablado e a cabeça dos três caiu com um golpe único dos carrascos.

― Ótimo! ― Elur comemorou e olhou para os novos soldados.

Era claro: Substituiriam os mortos e agora formariam uma triple.

Os mortos eram somente aquilo: nada, e os vivos também, peças descartáveis, ferro à mercê da ferrugem e da fúria de seu ferreiro.

5 de Agosto de 2019 às 03:41 0 Denunciar Insira 1
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