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dissecando Edison Oliveira

Há algo de estranho com aquele telefone que fica no porão...


Horror Literatura monstro Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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APENAS ESCUTE



O telefone estava tocando e Roger Simon era o único que podia atender. O pai deveria estar na garagem que ele usa como oficina, debaixo de algum automóvel e com as mãos sujas de graxa.

E mesmo que não estivesse lá, ele não atenderia ao telefone. Victor Simon não era capaz de escutá-lo. Ninguém além do filho surdo era.

Já estava no quarto toque quando o garoto abriu a porta do porão com um único tranco e desceu as escadas. Suas pernas quase se entrelaçaram mas foi ágil o suficiente para evitar o tombo.

Assim que se aproximou do caixote de madeira onde o telefone preto estava, Roger o catou e o tirou do gancho com um rápido puxão.

O levou até a orelha esquerda e apenas ouviu. Dessa vez era uma voz feminina, talvez uns trinta anos, Roger não sabia ao certo. Imaginava que aquela poderia ser a voz que sua mãe deveria possuir e uma expectativa enorme cresceu em seu peito.

— Você é o menino, não é? — a voz feminina queria saber. Se fosse a sua mãe, ela não faria esse tipo de pergunta. O silêncio de Roger confirmou que sim, que ele era o menino que atendia o telefonema dos mortos e a voz prosseguiu. — Diga a todos que estou bem e que não precisam se preocupar comigo. Que ascender uma vela de vez em quando não é uma má ideia, Deus do céu. Ah, e que estou sempre de olho no Jonas, o meu menino. Eu sempre escuto as orações dele. Deixe essa parte bem clara, para que ele saiba que sou eu. Aqui o tempo é um pouco di…

Uma estática surgiu no meio das palavras da mulher e Roger fez uma careta. Afastou um pouco o telefone e olhou para ele com reprovação. Depois o trouxe de volta para junto da orelha.

— … Um pouco confusa ainda. O endereço é alameda Norte, casa vinte e cinco. Eu preciso desligar. Não sabia que tinha um tempo limite. Acho que…


E isso havia sido tudo. Apenas um ruído distante, seguido por inúmeros bipes que se repetiam sem parar em breves intervalos. Repôs o telefone no gancho e começou a subir as escadas, devagar, guardando mentalmente cada palavra dita pela mulher num cantinho de sua cabeça que tem servido como uma gaveta de recados nos últimos meses. Havia uma caderneta em seu quarto que estava contribuindo com uma grande ajuda para que certas coisas não fossem esquecidas.

Roger chegou no corredor e fechou a porta atrás de sí. Iria para o quarto para anotar o recado da moça do telefonema de hoje. A tarde pegaria sua bicicleta e iria até o endereço que ela lhe informou. Andava um pouco cansado disso tudo, mas tinha esperanças que um dia ouvisse a sua mãe do outro lado da linha.



Estava de volta em sua casa três horas depois, cansado de tanto pedalar ( a alameda Norte ficava mais distante do que Roger imaginava ) e seu pai agora estava de pé diante do balcão de ferramentas mexendo num recipiente com óleo.

Ele deu uma espiada com o canto do olho assim que o filho largou a bicicleta do seu lado direito.

— Demorou dessa vez, hein? — resmungou, e o garoto apenas olhou para ele. As vezes esquecia que o filho não era capaz de ouvi-lo. Não era capaz de escutar nem se gritassem com ele.

O menino manteve os olhos arregalados apontados para o pai e só o que via era os lábios dele mexendo sem que nenhum som fosse escutado. Achava que o pai poderia ao menos aprender a linguagem dos sinais ( assim como o pai de Lucas Farias, seu amigo do outro quarteirão o fizera ) mas Roger bem sabia que o pai não era desses. Quando ele queria de fato papear, escrevia num pedaço de papel alguma coisa e entregava na mão do filho.

Viu que o pai fizera um movimento com uma das mãos — algo que significava claramente um " vá logo para dentro " — e passou por de trás dele sentindo um leve odor de cerveja. O macacão dele estava surrado de graxa e um trapo pendia do bolso traseiro.

Roger entrou pela porta da frente e seus ouvidos não escutaram nada. O telefone só tocaria amanhã ( sempre fora assim, uma chamada por dia desde que o pai ganhara aquela bugiganga de um velho chamado Kaleb ) e se dirigiu até a geladeira.

Tomaria um copo de leite e iria até o quarto na sequência. Faria um risco sobre o endereço que visitou hoje e guardaria a caderneta de volta na segunda gaveta do armário. Era assim que a coisa funcionava. Era assim desde que ouvira pela primeira vez aquele telefone tocar, uns meses atrás enquanto tomava banho e não fazia ideia de como seria um barulho. Lembrava de estar todo ensaboado, perdido no seu mundo silencioso onde tudo que era capaz de escutar era seus pensamentos. O telefone fazia aquele ring-ring estridente, Roger corria até lá sem ao menos saber para o que estava correndo e então uma voz de algum lugar que não era o mesmo lugar que ele e seu pai viviam, começava a falar. A primeira vez foi a voz de um velho. Parecia falar com um pano diante da boca. Ele gritava que não sabia aonde estava, que precisava muito falar com a família e Roger deixou o telefone cair. Isso ocorreu outras duas vezes, até ele começar a perceber.

Que as coisas só ficavam calmas quando ele levava os recados das vozes para as famílias.

Lavou o copo de leite e foi direto para o quarto.




Na outra tarde, Victor Simon catou uma lata de cerveja da geladeira e secou a testa com um pedaço de trapo. Tomou quase a lata inteira num gole só, arrotou e depois devolveu o trapo para o bolso traseiro do macacão.

O telefone berrava dezoito degraus abaixo no porão e ele não fazia ideia. Roger escutava ansioso, escondido no canto da parede entre o seu quarto e a cozinha. O pai não poderia vê-lo indo até lá.

Seria desastroso. Inúmeras perguntas em diversos pedaços de papel, o rosto carrancudo lhe questionando sobre o que estaria de fato acontecendo e suas mãos gesticulando no ar num gesto definitivo de chega dessa porra toda.

Outro toque estridente lá embaixo. Os olhos tensos de Roger espiando para o pai, vendo ele arrotar outra vez mas sem som algum.

Será Sofia dessa vez? Será a sua querida mãe, que lhe beijava a testa antes de dormir e lhe fazia cócegas na barriga dizendo que o amava de um modo que ele entendia, com sinais e não com um pedaço de papel sujo de graxa?

Outro toque. Roger sentia que iria perder a ligação ( provavelmente ligariam depois, mas não queria arriscar, poderia ser sua mãe e não queria fazê-la esperar ) e então viu que finalmente o pai se afastou da cozinha. Ele coçou a barriga e abriu a porta, saindo pelo quintal jogando a lata vazia no piso de concreto. Ela quicou e fez um barulho que Roger sequer conhecia.

Assim que o pai sumira de vista, o garoto correu na direção do porão e abriu a porta quase com o ombro. Não deu importância para os degraus outra vez, mas eles não causaram problemas.

Retirou o telefone do gancho, a ansiedade visivelmente estampada no rosto que quase sorria.

Uma voz. Masculina. Roger sentiu o desânimo repousar a mão em suas costas.

— É o garoto, não é? — a voz tinha algo diferente desta vez. Roger não conseguia identificar o que era, mas não gostou de ouvi-la. — É claro que é. É sim o pestinha. Quem mais atende esse telefone senão Roger, o surdo?

Roger sentia o peito contrair. Pela primeira vez estava começando a sentir medo de ouvir alguém do outro lado da linha. Já ficara surpreso, mas com medo… nunca. Até ouvir aquela voz sinistra.

— Está com seu caderninho aí, pivete? — perguntou a voz. O dono dela sabia que não haveria resposta. Na verdade, ele parecia saber de muita coisa. Nunca o chamaram pelo nome antes, e daquilo Roger também não estava gostando. — Ora, não tem importância se está ou não com aquela bosta. Afinal, você vai se lembrar bem do endereço que vou lhe passar. Antes, ouça o recadinho, está bem?

Não, nada estava bem. As outras vozes sempre foram amigáveis e logo diziam o que queriam. Nada de dizer coisas como " pestinha " ou " bosta ". Aquilo estava ruim e desligar a ligação era uma hipótese que já dava sinal de luz na escuridão da mente.

— Não temos muito tempo para falar, você sabe — continuava a voz mais arrepiante que Roger já ouvira. — É uma burocracia danada aqui neste lugar, saiba você, meu caro surdinho. E saiba mais uma coisinha : eu não dou a mínima para o tempo. Não dou a mínima para porra nenhuma. Aqui eu é quem dou as cartas. Sei que você está sempre esperando uma ligação daquela vadia da sua mãe — uma risada arranhada surgiu do outro lado da linha e o coração de Roger quase saiu pela boca. — E isso é lindo de sua parte. Palavra. Mas…como dizer isso sem machucar o seu coraçãozinho? Bem, ela não vai ligar. Palavra. Está ocupada demais com o meu pau na boca e não vai conseguir falar. Que acha disso, pivete?

Roger olhou para trás — a falsa sensação de ser surpreendido pelo pai descendo os degraus do porão com seu rosto desconfiado ainda era algo presente — e depois ouviu uma gargalhada horripilante penetrar em sua orelha e ricochetear em seu cérebro.

Estava assustado. Apavorado, talvez definisse melhor. Chegou a sentir uma lágrima brotar e escorrer pelo seu rosto bem devagar. O pulso da mão que não segurava o telefone ( agora o maldito telefone ) limpou-a rapidamente.

— Que foi, o gato comeu a sua língua? — e uma nova gargalhada surgiu, desta vez mais contida. — Oh, mas claro que não foi o gato. Você não fala porra nenhuma, além de não escutar caralho algum. Então vou deixar a conversa de lado e ir ao ponto. Quer que eu vá ao ponto, não quer?

Roger não sabia mais o que queria. Não ter nunca atendido este telefone, talvez.

—Apenas me escute. E isso você faz bem. Ao menos aqui neste porão imundo. O recado que quero que leve, é este : EU ESTOU INDO AÍ BUSCAR VOCÊ!!


O telefone caiu sobre o caixote. Fez um barulho e tanto, mas Roger não pôde escutá-lo. Mas conseguia ouvir aquela voz, gritando, gargalhando do bocal do telefone preto. Ainda permaneceu olhando para aquilo por mais alguns segundos que pareceram infinitos, antes de girar o corpo e sair correndo escadaria acima. Suas pisadas nos degraus de madeira ecoavam por todo porão, mas só aquela voz horripilante que Roger podia ouvir.

Deixou o porão para trás e disparou pelo corredor, tendo a pavorosa sensação de ouvir uma gargalhada presa em sua cabeça.



Naquela noite, nada de conseguir dormir. Era um garoto de treze anos sentado na beirada da cama, as luzes do quarto apagadas e os olhos apontados para todos os ângulos que conseguia apontar.


EU ESTOU INDO AÍ BUSCAR VOCÊ!!


A promessa parecia tão clara quanto a lua que penetrava a janela de seu quarto e deixava as sombras tão medonhas quanto aquela voz.



Durante uma semana Victor Simon entrou e saiu da garagem, bebeu mais algumas dúzias de cerveja e conversou com um ou outro sujeito que cruzava pela frente de sua oficina geralmente nos finais de tarde.

Ele havia notado que o filho não estava mais saindo de bicicleta como costumava fazer praticamente todos os dias. E isso não era de todo ruim — achava que um carro poderia acertar o garoto sem mais nem menos e levá-lo embora assim como o câncer levou Sofia — mas também não gostava de vê-lo deprimido. Teve algumas conversas com ele na tarde de ontem e também na de hoje ( conversas através de trocas de papéis, bem como se fazia na época da escola ) e o garoto apenas rabiscava que estava tudo bem.

Na mesma noite, Victor assistia ao jogo de futebol sentado na poltrona da sala, os pés atirados para cima e uma lata de cerveja na mão.

Roger acompanhava do lado, quase cobrindo os ouvidos para não escutar aquele telefone berrando no porão.



Dois dias depois — e inúmeras chamadas perdidas vindas do telefone preto — Roger decidiu descer até o porão.

O pai estava debaixo de um antigo Monza, apenas com a cintura e as pernas de fora. O rádio estava ligado e Victor Simon ouvia o radialista avisar que vinha chuva no final do dia. Roger ouvia apenas o telefone. Nem os seus pensamentos eram tão nítidos.

Ele desceu as escadas devagar ( parecia que o dono daquela voz estaria lhe aguardando ali no escuro, com um sorriso diabólico no rosto e um machado na mão ) e quando por fim se deu conta, já estava encaminhando o telefone até a orelha.

Sentiu as palavras " alô " coçarem na garganta, mas obviamente elas não tinham como sair. E também não conseguiu ouvir nada.

Talvez a magia tivesse se desfeito. Talvez estivesse livre dos pedidos dos mortos, das fugas de bicicleta até endereços que ele não conhecia só para largar na caixa de correios as suas cartas anônimas que a maioria das pessoas talvez nem lessem. Era uma possibilidade, e ela não era ruim.

Estava quase se convencendo disso quando um ruído surgiu do telefone. Um arranhar baixo, distante. Quase como passar a unha no vidro da janela. Afastou o telefone até ele ficar diante de seu rosto. O ruído aumentou e antes mesmo de trazê-lo de volta até a orelha, uma mão com dedos compridos e finos saltou do bocal do telefone e agarrou Roger Simon pelo pescoço.

O garoto saltou para trás, cambaleando, tentando balbuciar qualquer coisa, mas só o que saíram foram uns grunhidos espremidos. Os olhos dele se arregalaram e a língua pendeu para fora.

A mão branca e pálida apertou ainda mais e Roger pôde sentir as unhas perfurando seu pomo-de-adão. A claridade da pequena janela do porão foi sumindo aos poucos, assim como o seu ar.


EU ESTOU INDO AÍ BUSCAR VOCÊ!!


Tentou afastar a mão utilizando de toda a sua força, mas elas já estavam partindo, assim como todo o resto.

Roger Simon ainda teve tempo de lembrar do rosto de sua mãe.



O sol já estava quase se pondo quando Victor decidiu baixar a porta da garagem e dar o dia por encerrado.

Ele ainda teve tempo de dar um olá para o velho Renato Silva, seu vizinho que estava cruzando a calçada segurando uma sacola de compras.

A porta da garagem fez um estardalhaço ao tocar o chão e Victor reparou que a bicicleta do filho permanecia ao lado da caixa de ferramentas, exatamente como há quase duas semanas.

— Mas o que há com esse menino? — perguntou para a oficina vazia, em seguida coçou a testa e caminhou até entrar em casa.

Uma vez lá dentro, Victor Simon chamou pelo filho e logo em seguida sentiu-se um paspalho; o garoto jamais lhe responderia.

— O moleque não escuta, Victor, seu imbecil.

Atirou o trapo que trazia no bolso do macacão encima da mesa e se dirigiu até o quarto de Roger.

Abriu a porta, espiou lá para dentro e viu apenas a cama um tanto desarrumada e uma camiseta dobrada sobre a banqueta ao lado. Os tênis da Nike com o famoso emblema da marca já um tanto gastos repousavam ao lado do guarda roupas. Nada de Roger Simon por ali.

Victor deu uma fungada e pensou imediatamente no banheiro, mas, assim que seus olhos caíram um pouco para a direita ele viu que a porta do mesmo estava escancarada. Ainda assim passou e deu uma olhadinha lá para dentro — a tampa da privada erguida deixando evaporar um aroma de lavanda. Uma espiada na sala de estar revelou que a televisão estava desligada e um copo com o resto do que parecia ser achocolatado estava no braço do sofá.

— Sempre esquecendo da louça, garoto — resmungou, e quando estava prestes a pegar no copo com uma das mãos, ouviu alguma coisa e se deteve.

Estava um pouco distante. Talvez viesse do seu quarto. Não, do quarto não. Vinha do porão. Abafado pela porta fechada, mas claramente era um telefone tocando. Era isso que Victor achava que era.

Franziu a testa e se encaminhou a passos pesados pelo corredor ( não havia telefones no porão na casa dos Simons, exceto uma coisa inutilizável que ganhara certa vez de um vendedor ambulante chamado Kaleb ) e logo que chegou diante da porta do porão, o som se amplificou.

Empurrou a porta e desceu as escadas. Havia um caixote logo ao fundo, quase escondido pelas sombras. Sobre ele o telefone que havia ganhado estava tilintando. Chegou mais perto com uma desconfiança inquietante — não havia como aquilo estar funcionando, sem cabos ou tomadas ali embaixo,— e retirou o telefone do gancho. Levou ele até o glóbulo da orelha direita e nem sequer falou alô. Não houve tempo. Uma voz de um menino logo lhe silenciou.

— Pai?



3 de Agosto de 2019 às 03:55 2 Denunciar Insira 3
Fim

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Tiago Líreas Tiago Líreas
Com certeza o melhor conto seu que li até agora. A nível de terror, tenho de admitir que foi meio fraco, mas a nível de texto num geral, uau.
16 de Agosto de 2019 às 14:57

  • Tiago Líreas Tiago Líreas
    Não me leve a mal, senti apreensão em alguns momentos, mas acho que isso foi afastado todas as vezes que você usava algum adjetivo pra caracterizar algo como "que causa medo". No gênero de terror isso deve ser evitado; o que deve bastar deve ser a descrição daquilo que causa medo de modo a salientar por quê causa medo. Dizer que é apavorador é a saída fácil, e quebra a imersão. Nós temos de imaginar a cena, compreendê-la, e nós próprios determinarmos que é algo que causa calafrios. 16 de Agosto de 2019 às 15:00
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