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nataliaassuncao Natalia Assunção

Heloísa perde a memória sem motivos aparentes. Disposta a reaprender a viver, ela se depara com algumas descobertas intrigantes. Uma delas é saber que passou a vida amando o próprio primo. Obra Registrada Plágio é crime


Erótico Todo o público.

#romance #sãopaulo #literaturabrasileira #primos #amnésia #memória #erótico #258
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Capítulo 1

– Preciso falar alguma coisa?

– Aham. – a psicóloga me olhava com serenidade por trás de seus óculos de armação branca.

– É que... – raspei a garganta. – Bem, como a senhora já sabe, esqueci tudo que vivi. Então não tenho muito o que contar.

– Conte sua recordação mais antiga. O que acha se começar com o dia em que acordou no hospital?

– Mas isso só tem cinco dias.

– Exatamente. Conte-me sobre eles.

Doutora Ângela sorriu com calma. Não soube distinguir se aquilo era bom ou ruim. Sua atitude enigmática poderia significar muitas coisas. Mas era uma especialista no assunto e eu precisava confiar nos profissionais que estudavam meu caso.

Aquele era nosso segundo encontro. O primeiro havia sido no próprio hospital, quando tudo ainda parecia um sonho onírico.

– A vantagem de lembrar tão pouco é poder narrar tudo nos mínimos detalhes – falei, apoiando meus antebraços sobre as pernas. Ainda não me sentia à vontade para descansar as costas sobre o encosto da poltrona. Corri os olhos para o consultório bem decorado e depois voltei a encarar aquela mulher. Eu queria contribuir com meu próprio progresso, mas não sabia por onde começar. Fiquei em silêncio pensando como poderia iniciar minha breve, porém intrincada história.

– Vamos! Fale como foi acordar no quarto de um hospital. – ela me incentivou mantendo a mesma postura centrada.

Naquele instante, percebi que poderia citar minhas primeiras impressões sensoriais. Seria um bom ponto de partida ser objetiva para depois me abstrair dentro das minhas próprias emoções.

– Sede. – pronunciei, absorta mais em meus questionamentos do que na orientação da psicoterapeuta.

– O quê? – ela sorriu, franzindo o cenho e pela primeira vez mostrou algo diferente em sua feição.

– Acordei com muita sede. Meus olhos estavam recém-abertos e as palavras não estavam prontas dentro da minha cabeça. Eu sabia do que precisava, mas não conseguia definir minha necessidade. – puxei uma longa respiração pelo nariz e soltei pela boca. De repente, me vi pronta para relatar e reviver a total incerteza dos últimos dias.

– Fiquei um bom tempo olhando para o teto bege. De alguma maneira, a cor impessoal me ajudou. Como já disse, as palavras estavam num processo lento de formação dentro da minha mente. Se alguém tivesse me visto acordar, provavelmente me faria perguntas que eu não saberia responder. Só procurei por alguém quando obtive respostas por mim mesma – disse, esperando uma reação de interação com a doutora.

Mas recebi silêncio.

– Não vai me perguntar quais eram essas respostas?

– Quais eram essas respostas? – ela riu como um adulto experiente.

– Não sei explicar, mas eu sabia que era mulher. Algo em mim me fazia sentir isso mas, caso houvessem dúvidas, bastava olhar para volume dos meus seios, ou para minhas mãos e minhas unhas que estavam pintadas. Mesmo que existam homens com seios, unhas esmaltadas e que se sentem como mulheres, mas isso não vem ao caso. Meu Deus, se drag queens ouvissem o que estou dizendo, com certeza eu teria problemas...

Minha voz foi diminuindo à medida em que eu devaneava, sem conseguir me controlar. Encostei na poltrona, absorvida por pensamentos aleatórios. Eu tinha um vasto vocabulário que cada dia se mostrava mais extenso, tinha consciência dos impasses e discussões da sociedade contemporânea, também sabia coisas simples como tomar banho e escovar os dentes. Contudo, eu era incapaz de lembrar das pessoas mais próximas da minha vida. Quando percebi que estava indo longe demais dentro das minhas atuais angústias, recobrei minha narração.

– Voltando ao assunto, também descobri que estava em um hospital. O tripé com o soro, a mangueira e a agulha em minha veia eram provas disso. Tinha também o cheiro, não sei explicar, mas reconheci o local pelo odor. Mesmo deitada, pude ver meus braços bronzeados, pele jovem, mãos pequenas e um corpo comum. Nem magra, nem gorda.

– Sua percepção foi bastante inteligente.

– Obrigada, mas tive tempo o suficiente para isso. – sorri sem graça e prossegui com minha história. – Com essas respostas, me senti um pouco mais segura. Então, meus olhos começaram a procurar por alguém. Avistei um capacete sobre uma mesa de canto ao lado de um sofá. Sobre o sofá, um homem dormia de um jeito desconfortável. Digo isso não só porque ele vestia jaqueta de couro, jeans e botas, mas também porque seu corpo era grande e mal cabia no móvel. Apenas uma de suas pernas repousava esticada, a outra se encontrava dobrada e apoiada no chão. Ele dormia com a barriga para cima e os braços estavam cruzados sobre o peito. Mesmo vendo apenas o perfil de seu rosto, pude perceber que tinha o queixo quadrado, nariz grande e bem desenhado. Confesso que era muito mais agradável olhar para ele do que para o teto ocre – sorri, fitando para além da grande janela com vista para a cidade. - A sensação de relembrar o que senti ao vê-lo foi boa. Me perguntei quem ele era e qual tipo de vínculo teríamos. Ele poderia ser meu namorado, meu amigo ou até mesmo um parente. Não descartei essa possibilidade, apesar de nossas diferenças físicas. Ele era loiro, na verdade, doutora, muito loiro, seus fios quase brancos. – voltei a olhar para Ângela, que parecia interessada naquilo que eu dizia.

– Ele era... como posso dizer? Tudo nele era tão... tão excessivo. Não bastava ser só alto e extremamente loiro, sua pele era muito branca com alguns pontos avermelhados, era forte e seus músculos se espalhavam por todos os lados. Aquilo era bonito de se ver e eu ficaria assim por horas se ele não tivesse acordado. Quando seu rosto virou para o lado, nossos olhares se cruzaram. Seu rosto não esboçava nenhum tipo de reação. Apenas me encarava em silêncio, na mesma posição que estava dormindo. Então, tomei a iniciativa e me manifestei primeiro.

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CINCO DIAS ANTES

– Oi. – foi tudo que consegui dizer. Não tive resposta. Apesar da minha voz ter saído baixa, sei que ele tinha me escutado. O loiro, extremamente loiro, de olhos que, então, percebi serem exageradamente azuis, demonstrou que não estava com vontade de conversar. Seu rosto severo me constrangia sem que eu soubesse o motivo. Quando estava prestes a repetir meu cumprimento escutei uma voz feminina ao pé da minha maca.

– Querida, você acordou.

Meu pescoço acompanhou o som cordial. Ela também era loira, altura mediana, magra, porém seus quadris largos denunciavam a idade madura. Não deixava de ser uma figura tão marcante quanto a que estava no sofá.

Ela deixou sobre uma bancada dois copos de bebida quente que segurava. Depois veio em minha direção, mas dirigindo a palavra ao loiro.

– Ela está muito tempo acordada, meu filho?

– Não sei. – ele se colocava de pé, passando a mão pelo cabelo quase raspado. – Acabei dormindo e...

– Sim. – respondi, interrompendo o que ele dizia. – Acordei e fiquei olhando para o teto.

– Ficou olhando para o teto?

A loira riu ajeitando meu lençol. Fiquei sem saber como responder sua pergunta. Como poderia dizer a ela que ao acordar meu cérebro mal conseguia formar palavras?

– Água! Isso mesmo! A palavra é água! – falei para mim mesma ao lembrar do que precisava. – Fiquei olhando para o teto, pensando como poderia ter água. Estou com sede.

– Será que posso dar algo para ela beber? – ela olhou para o loiro que estava ao lado. – Os médicos deram alguma restrição?

– Ela pode tomar água. Injetaram apenas uma pequena quantidade de sedativo. Vou chamar uma enfermeira.

Acompanhei a saída do loiro com o olhar sem entender o seu jeito rude e impaciente.

– Como está se sentindo, querida? – a mulher me perguntou enquanto eu ainda olhava para a porta.

– Com sede e confusa.

– Não se preocupe. Hans vai dar um jeito.

– Hans? – voltei a fitá-la. – Quem é Hans?

A mulher me olhou desacreditada, mas ao perceber que minha pergunta havia sido verdadeira mudou o semblante. Seus lábios branquearam e parecia pensar no que poderia dizer.

– Querida, você sabe o seu nome? – perguntou.

Meu silêncio respondeu por mim. Aquela mulher ficou apavorada. Disparou a fazer perguntas: seu eu me lembrava dos meus pais, do meu irmão Maurício, do meu primo Hans. Entendi que o loiro era o Hans, e ele era meu primo! Diante daquele turbilhão devolvi a pergunta:

– Qual é o meu nome?

– Heloísa. – ela disse, e eu sorri com a sonoridade. Heloísa era um nome bonito.

– Qual o seu nome?

– Me chamo Cristina. Sou sua tia, a tia Cris.

– Você é minha tia. – refleti sem deixar de receber bem aquela notícia. Pelo visto, se eu pirasse, a tia Cris piraria junto comigo. – Bem... parece que tenho uma família. Isso é bom, não é?

– É sim, meu bem. Isso é bom.

Não tivemos tempo para mais interações. Hans e outro homem entraram pela porta. Imediatamente, tia Cristina disse:

– Preciso conversar com os dois lá fora – eles a olharam desconfiados. – Heloísa ficará bem, não é mesmo querida?

– É... eu vou?

– Claro que vai. Será apenas um minuto, – pôs as mãos sobre meus ombros e sorriu. Então olhou para eles. – Os dois, lá fora. Agora.

Os homens saíram sem questionar a autoridade da mulher que dizia ser minha tia.

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1 de Agosto de 2019 às 16:06 5 Denunciar Insira 5
Leia o próximo capítulo Capítulo 2

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gaKk🔥mura gaKk🔥mura
Intrigante! Vou continuar.
29 de Outubro de 2019 às 06:53

E Eve
foi a melhor história que eu li, aqui no app, até agora mttt boa
1 de Outubro de 2019 às 11:19

~

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