O HOMEM NO BANCO DE TRÁS Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Ele estava atrasado para o jantar e mesmo assim achou que dar aquela carona seria o mais correto a ser feito. Só que o sujeito grande no banco de trás não está nada bem. Ele sente dores e não fala coisas com sentido. É melhor não olhar para trás...


Horror Literatura monstro Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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O homem no banco de trás

Por mais que Igor Frazão estivesse com uma certa pressa ( e estava, pois Caroline havia ligado para o seu celular cerca de quinze minutos atrás e lhe perguntado se estava mesmo disposto à perder a porcaria do jantar ), ele não exitou quando viu o vulto de alguém parado na beirada da estrada.

Era um homem vestindo um sobretudo preto que ía até quase os calcanhares, magro e alto e estava fazendo a clássica pose de quem pede carona.

Seu braço estava estendido na altura do peito e seu polegar apontava para cima. Igor foi diminuindo aos poucos — sempre de olho no trânsito que naquela noite fria não era algo tão desafiador assim — e encostou logo a frente do sujeito. Acompanhou ele se aproximando pelo retrovisor ; não parecia estar com tanta pressa. Caminhava devagar, claramente sentindo alguma dor na perna esquerda.

Assim que o sujeito chegou diante da porta, Igor lhe fez um sinal com uma das mãos para entrar pela porta de trás. O banco ao seu lado estava repleto de sacolas de compras ( rabanetes, alfaces, cenouras, tudo que Caroline adotara em seu cardápio desde que decidira se tornar vegetariana ) e o sujeito fez um positivo com o polegar — o mesmo que usou para conseguir esta carona — e abriu a porta traseira.



Igor estava virado com o corpo um pouco para trás, com um sorriso nos lábios típico daqueles velhos matutos que trabalham noite e dia nas granjas.

— Boa noite, amigo — cumprimentou Igor, ajeitando o óculos no nariz logo depois.

— Bo… Boa noi… noite — gaguejou o sujeito. Era um homem alto e parecia estar desconfortável ali atrás. Seus joelhos ficaram na altura de seu peito.

— Para onde está indo?

— Sa… sabe me dizer onde tem um hos… hospital poraqui?

Igor franziu a testa. O único hospital próximo era o das Graças, e ele ficava à quase cinqüenta quilômetros à oeste. E Igor estava indo para o leste, onde sua esposa Caroline já devia estar sentada no sofá com sua tradicional expressão de fúria.

— Olha, amigo, eu sei onde fica um. Mas não vou naquela direção, me desculpe.

Igor notou o desânimo que se transformou o rosto do homem. Ele tinha os cabelos curtos e estavam devidamente desarrumados, dando a impressão que ele havia acabado de acordar.

— Pu… putz grila! — exclamou o sujeito e Igor tentou se lembrar de quando havia escutado alguém dizer aquilo uma outra vez. Achava que ouvira o seu neto dizer há muito na semana em que ele passara as férias escolares em sua casa. Isso fazia quase vinte anos e agora seu neto já beirava a casa dos trinta.

— Eu sinto muito, — disse Igor. — Talvez tenha sorte de encontrar uma carona que siga para aquelas bandas. Mas precisa ficar do outro lado da estrada.

Igor percebia que não era apenas desânimo que havia no rosto daquele sujeito. Ele parecia estar com algo muito maior. Talvez estivesse com medo. Aquilo fez com que Igor soltasse a manivela de seu cinto de segurança bem devagar, sempre com os olhos fixos no homem grande ali atrás.


Você não aprende mesmo, pensou Igor. Não se pode dar carona assim hoje em dia. Se Caroline estivesse aqui isso nunca teria acontecido e você sabe.


— Eu de… deveria ter feito i… isso antes — disse o sujeito. O olhar dele estava na direção dos próprios joelhos. Embora Igor suspeitasse que ele não estava olhando para coisa alguma.


São olhos de um drogado! Pensou de repente, e aquilo fez com que sua atenção se elevasse para um outro nível. Ainda não era o de pavor, mas Igor suspeitava que estava à caminho.


— Feito o que, amigo? — perguntou, e os olhos do homem se viraram para ele. Antes não tivesse feito aquilo. Igor viu que aqueles olhos não possuíam uma cor saudável. Eles estavam ficando… verdes. Ou pareciam estar. Igor ainda não tinha certeza.

— Pro… procurado um hos…. hospital!

— Você sofreu algum acidente? — quis saber Igor, e nisso uma claridade absurda invadiu o interior do Santana fazendo com que Igor olhasse para frente. Era um automóvel que vinha na direção oposta, mandando ver e com o farol alto. Ele passou à toda, zunindo, e Igor imaginou que aquela poderia ter sido a carona certa para aquele homem grande ali atrás. Ao menos ele estava se dirigindo para o oeste.

Quando virou o corpo para trás mais uma vez, Igor levou um susto dos diabos ao não ver o sujeito logo de cara, e então percebeu que ele agora estava deitado sobre o seu banco traseiro.

Ele estava em posição fetal, lembrando à Igor um doente mental com quase dois metros de altura. Cogitar que aquele sujeito poderia possuir uns parafusos à menos fez o estômago de Igor se contrair.

— Ei, amigo, não pode se deitar aí. Já disse que não vamos na mesma direção.

— Está doendo! — resmungou o homem. Não dava para ver o rosto dele, mas o tom de sua voz confirmava o que ele acabara de dizer.

Igor esticou o braço para ligar a luz interna do Santana e ela não funcionou. Ótimo. Coisas ruins dois, notícias boas, zero.

— Onde é que está doendo, amigo? — perguntou, e só o que recebeu como resposta foi um resmungo típico de dor daquele vulto enorme deitado naquele banco.

Ele parecia alguém prestes à vomitar.

— É dor ou está ruim do trago?— insistiu Igor. Já não estava mais com o seu cinto de segurança.

O vulto grande pareceu se mover.

— Eu caí… den…dentro — balbuciou o sujeito, fazendo Igor espremer os olhos no escuro.

— Dentro dá onde?

Outro resmungo. Este lembrou à Igor alguém recebendo um soco no estômago.

— Dentro do es… esgoto, — finalmente disse o sujeito. — Estava escuro e eu não…eu não vi o bo… boeiro aberto.

— Jesus, isso não é nada bom. Há quanto tempo foi isso?

— Três... três dias, eu acho.

Aquilo não era nada bom. Igor sabia que aquele homem deveria estar numa cama de hospital e não no banco traseiro de seu carro. Desconfiava até que teria de trocar aquele banco assim que chegasse em casa. Um simples desinfetante não ajudaria o bastante. E por mais incrível que pudesse lhe parecer, o sujeito não estava fedendo. Mesmo que tenha sido há três dias atrás ( Igor não confirmaria isso de jeito nenhum, o sujeito não parecia saber nem aonde estava ) ainda achava que o cheiro deveria estar impregnado em sua pele como sarna em cachorro.

Então uma ideia lhe veio à mente e ela não parecia ser boa, mas talvez fosse a certa. Ele teria de levar o sujeito ao hospital.

Igor não era um senhor egoísta ( mesmo com Caroline pensando o contrário na maioria das vezes ) e achava ser a coisa certa a se fazer naquele momento. Caso contrário aquele homem poderia morrer. Já parecia estar morrendo, na verdade. Isso ou algo bem perto, pois cerca de um minuto atrás Igor ouviu um barulho espantoso vindo daquela escuridão. Parecia um graveto sendo partido.

Pegou o celular que estava no bolso interno de seu casaco e ligou para casa. Três chamadas depois a voz rabugenta de Caroline surgiu do outro lado da linha.

— Onde diabos você se enfiou, homem de Deus?

— Se cale e escute, sim? — retrucou Igor, sabendo que aquela audácia por mandá-la se calar teria represália. Um tabefe no ombro, talvez. — Estou com um sujeito aqui no carro, e ele não me parece bem.

— Você deu carona para um estranho?

— Isso não vem ao caso, Caroline — disse Igor, mas ele bem sabia que isso vinha sim. E muito. Só depois de ouvir a voz da esposa lhe indagando sobre isso é que pareceu estar claro a burrice que havia cometido. Sentiu-se um velho idiota e ruim da cabeça. — O fato é que ele precisa de ajuda.

— Como você pôde dar carona à um desconhecido, seu velho burro? — resmungou Caroline, parecendo nem ouvir o que o marido acabara de dizer. — Você não vê as notícias, por acaso? Eu sabia que deveria ter ido com você. É um hábito seu se meter em idiotices. Ou por acaso esqueceu daquela jovenzinha em Tristeza?

Para falar a verdade, até aquele momento, havia esquecido de fato. A tal jovenzinha estava num posto de gasolina e parecia inofensiva. Igor havia deixado Caroline dentro do Santana e se dirigido ao interior da lojinha de conveniência para comprar uma garrafa de agua com gás.

A jovem se aproximou de Igor no balcão e lhe fez uma pergunta, algo que o próprio não fazia ideia qual era. Mas lembrava das pernas dela naquele shorts jeans. Depois disso ela lhe agradeceu com uma piscadinha sexy com um dos olhos e Igor desejou ter vinte anos outra vez.

Só foi perceber que sua carteira havia sumido quando chegaram na casa dos netos. Ouviu poucas e boas durante todo o percurso de volta para casa.

— A coisa aqui é um pouco mais séria, Caroline — disse ele ao telefone, virando a cabeça na direção do sujeito. Dava para ver muito pouco dele. À Igor parecia que estava transportando um cadáver.

— O que afinal tem esse homem?

— Eu não sei ao certo. Mas ele disse que caiu em um esgoto à céu aberto. E está sentido muita dor.

— Esgoto?

— Positivo, — e nisso Igor ouviu outro estalo vindo do vulto no escuro. Olhou imediatamente para ele e por dois segundos permaneceu em silêncio. — Não está nada bom, Caroline. Acho que vou levá-lo até o hospital.

— Mas você está na direção oposta. Vai chegar em casa lá pela madrugada, se for o caso.

— Ele pode morrer se não for levado até lá. E não passa um automóvel sequer na outra direção. Bem, passou um agora à pouco… mas estava correndo pra burro.

Apenas um silêncio do outro lado da linha. Então outro som de galho se partindo surgiu às costas de Igor e sua nuca se arrepiou. Caroline pareceu suspirar e então disse :

— Por que não liga para uma ambulância ir até aí?

— Porque acho que levaria muito tempo. O hospital é distante, mas creio que é melhor ir até lá do que ficar aqui parado esperando. E além disso… — outro ruído. Desta vez algo diferente. Foi como ouvir um cão irritado rosnar baixinho.

— Que foi, Igor?

— Eu não sei, acho que… — olhou para trás e os dedos de sua mão se abriram involuntariamente, deixando o celular cair sobre as suas pernas. Ainda pôde ouvir a voz de Caroline perguntando alguma coisa, baixinho, sumindo conforme o celular se distanciava da sua orelha.

Ainda estava escuro como a entrada de uma caverna ali atrás, mas não tinha como Igor não ver aqueles olhos vivos e esverdeados brilhando para ele. Na direção dele. Tentou gritar mas só o que saiu foi um grunhido baixo, apavorante. Uma mão com milhares de bolhas repugnantes pousou em seu ombro e o apertou tão forte que Igor teve a certeza que seus ossos se quebraram.

Agora sim conseguiu gritar. Não apenas gritar, urrar de dor, ver inúmeras estrelas surgirem diante dos olhos.

Com a outra mão tentou afastar aquela garra deformada mas só o que conseguiu foi estourar uma daquelas bolhas horrendas. Um líquido amarelado escorreu dali, acompanhado de um odor podre ( o cheiro que um esgoto teria, ainda teve tempo de pensar Igor ) e depois só o que conseguiu ver foi uma cabeça repleta de bolotas surgir ao lado da sua.

Eram as mesmas bolhas que havia naquela mão, só que maiores e com veias roxeadas contornando cada uma delas. Era como olhar para um rosto tomado por tumores cancerígenos. Uma boca com um milhão de dentes afiados se abriu e abocanhou o pescoço de Igor, que só teve um grito horripilante como resposta. O corpo dele se debateu como um peixe fora da água.

Seu óculos escorregou pelo nariz e caiu. A voz de Caroline gritava alguma coisa ao telefone, mas Igor não podia ouvir mais nada que não fosse aquele rosnado e seus ossos se partindo. Um carro vinha na direção oposta, não muito depressa, e por um breve instante pareceu que ele iria parar.

Mas não parou. Pareceu dar apenas um sinal de luz, como se cumprimentasse o motorista estacionado no acostamento da rodovia.


O Santana saculejava como se um casal estivesse empolgado ali dentro. Em algum lugar na mata ali próxima, uma coruja pareceu bater as asas e levantar vôo.


23 de Julho de 2019 às 22:10 1 Denunciar Insira 5
Fim

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Tiago Líreas Tiago Líreas
Espera... Três dias inteiros passados sem um pingo de alteração no corpo e depois se transforma num mutante em questão de minutos depois de entrar no carro do senhor? quais as probabilidades huhsajuhsasajihhu??
16 de Agosto de 2019 às 13:20
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