Gore Seguir história

psiu_psycho Billy Who

Se sua escrita pudesse falar, o que ela diria? Da revista Ito Magazine, Kai comanda uma coluna chamada "Gore" que disseca casos estranhos, mas nenhuma história foi tão perturbadora quanto a que encontrou no caso do escritor Yamamoto Ren.


Horror Literatura monstro Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

#fantasia #ficção #terror-psicológico
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Prelúdio sobre o estranho caso do senhor Ren.


— Como uma coisa dessas aconteceu? — questionou o jornalista em tom de descrença enquanto lançava um olhar para o homem á sua frente, o bloco de notas ainda em sua mão não parecia ter sido usado naquela peculiar tarde de um inverno rigoroso, quase ás vésperas do natal do ano de 2012. Apesar de sem utilidades, o bloquinho do tipo compacto, páginas sem linhas — por descuido do comprador, já que detestava escrever á esmo, parecia sempre começar em uma ponta e subir o Fuji até terminar a sentença — servia apenas para apoio do homem na casa dos trinta anos, apesar de ser mais velho que sua aparência sugeria.

Possuía um rosto pálido, este jornalista, os cabelos negros, na altura do queixo bem formado e lábios delineados pela natureza, embora os olhos habitualmente não fossem daquele tamanho exagerado, como portava naquele momento, tinha traços fortes e um rosto jovial, covinhas quando ria.

Covinhas que definitivamente não saberia dizer quando iriam ser vistas outra vez, dado ao absurdo que ouvia.

Hojo Yutaka, o jornalista, conhecido como Kai em seus artigos da Ito Magazine era um celebre entusiasta dos fanzines antigos de suspense que saiam nas revistas quinzenais, às vezes quando a historia era muito boa, ele até mesmo dormia a noite com as luzes acessas quando era criança, mas as melhores eram sobre assassinatos e casos misteriosos.

Certa vez leu sobre uma chuva de sapos no oeste do Arizona, até hoje em roda de amigos jurava plenamente se tratar de um caso verídico, seu suporte, aquelas gigantescas enciclopédias marrons cujo na lombada em dourado estava escrito “O LIVRO DO MARAVILHOSO E FANTASTICO” dissecava casos e mais casos curiosos, outros, extremamente bizarros e desta veia lovecraftiana sua carreira era solidificada na revista mensal onde havia uma coluna mensal chamada “GORE”, lá dissecava casos que fossem inexplicáveis e surreais. Na maioria das vezes, era necessário inventar algumas coisas, dado a falta de material latente, recorria ao famoso “relato dos leitores”, onde sobrepunha uma carta com sua opinião acerca da questão. Jamais algo próximo aquilo... Jamais algo daquele porte. Com certeza ganharia a capa daquele mês.

Kai se lembrou de molhar os lábios enquanto olhava do outro lado da mesa o homenzinho com rosto arrogante que lhe encarava em silencio.

— Como uma coisa absurda dessas aconteceu, doutor? — repetiu o repórter, desta vez com mais ênfase.

As mãos unidas, mãos pequenas e delicadas de mais para o trabalho de um legista, em sua opinião, um leve bico pensativo e o doutor Matsuoka Takashi, diante de si, rodopiando em sua cadeira de couro ligeiramente de um lado ao outro fez um gesto com a cabeça.

Não sabia dizer mais nada ao que parecia.

Provavelmente o pobre homem ainda não havia visto nada igual diante si, Kai tinha esta certeza.

— Isso é tudo o que sei, Kai. — respondeu com a voz ligeiramente tremula, tremula a ponto de correr a mão pequena até a gaveta da escrivaninha e tirar dali um maço de cigarros de marca indefinida, acendeu um, ainda sob o olhar chocado do repórter que observou atentamente seu ritual de acender, traguear, girar a cadeira para a janela coberta de persianas atrás de si e abrir uma brecha para a fumaça se exaurir mesmo com o clima frio que adentrava na sala.

Ambos se encararam novamente, o pequeno médico maneou a cabeça, um gesto solene e arrogante que sugeria que o baixinho não tinha ideia de como aquilo havia acontecido, Kai tinha certeza que tal fato o fazia perder algumas horas de sono à noite.

— Às vezes a natureza faz coisas estranhas, não há outro tipo de explicação clinica que posso encontrar para algo... — fez um gesto, para o bloco inocente que sequer continha palavras sobre o caso. —... algo assim.

Kai abanou a cabeça, soltando uma risada nasal que foi má recebida pelo legista, este, não riu, ficou o observando se erguer da cadeira, ainda rindo e guardar o bloco, o gravador, a caneta e todos seus pertences espalhados sem proposito sobre a mesa, como se fosse de suma repugnância ouvir alguém rir diante tal caso, mas Kai não achava graça, talvez suas covinhas estivessem mais perto de serem vistas que imaginou, pensou incrédulo controlando uma gargalhada nervosa.

— Kai. — a voz rouca do médico disse, ainda o observando atento.

— Sim? — retrucou atravessando a pasta de couro sobre um dos ombros doloridos.

Após um longo olhar, o médico suspirou, desistindo de fumar devido á forte corrente de ar que entrava bagunçando o laudo assombroso a sua frente, fazendo ambos se encolherem devido ao frio.

Com a desculpa do frio.

Não, nenhum deles iria deixar visível o quão perturbador aquela conversa havia sido, quão bizarra a natureza — segundo Matsuoka— poderia ser e fazer os pelos do corpo de um homem adulto se arrepiarem.

— Vá pra casa. — advertiu Matsuoka. — Tire um tempo pra si, esqueça essa historia. Escreva sobre qualquer outra coisa, mas, por favor... Não se aprofunde nesse legitimo filme de terror que saiu das prateleiras do próprio infeliz do Yamamoto Ren.

Kai compreendia a suposta preocupação clinica do homenzinho, mas deixou com ele um sorriso de canto, quase sarcástico, mas na verdade era cansado. Exausto.

Excitado.

— Ai está o suprassumo da ironia, Matsuoka-san. — respondeu se dirigindo á porta, onde cogitou que ele iria o acompanhar, mas percebeu tardiamente que o legista sequer parecia pronto para se erguer da cadeira. — Yamamoto Ren e eu temos muitas coisas parecidas, ele era meu autor favorito, poxa. Eu jamais deixaria que ele ficasse sem o final feliz dele.

— Final feliz em uma coluna chamada Gore? — questionou franzindo a testa.

Kai apoiou-se na maçaneta e fez uma mesura curta, segurando com a outra mão a alça da pasta.

— E para onde mais vão os escritores de horror, senhor, se não para um paraíso chamado Gore?

Deixou para trás o legista que rapidamente se ergueu, olhando o relógio de pulso e garantindo de sumir daquele andar do prédio antes que não restasse mais ninguém além daquela crescente onda de horror depois de tudo que viu.

Kai possuía uma aura sinistra, talvez porque na sola de seus sapatos, precisamente na ponta de seus dedos trouxesse sempre enganchado nele um rastro de coisas grotescas, histórias terríveis e casos bizarros de mais para fazerem parte do mundo comum onde às pessoas se cobrem a noite e em sua segurança apenas vão dormir.

Kai trazia consigo a verdadeira alma da Ito, aquela revista maldita que ele tanto venerava. Matsuoka não duvidava que uma noite uma coisa não saísse de baixo da cama do repórter e o levasse consigo para o inferno que ele tanto escrevia, um tipo novo de Night Visions real ou um Creepyshow, daquele bastardo do Stephen King.

Um bando de escritores de mau gosto que serviam para assustar criancinhas, em sua opinião, por tal razão jamais leu nada daquele sujeito, Yamamoto Ren.

Mas Kai leu, não apenas isso, possuía todas suas entrevistas.

Enquanto andava pelas calçadas escorregadias segurando um cigarro entre o polegar e o dedo, Kai imaginava como iria começar aquela matéria, havia tantos e tantos modos...

Como contar uma coisa daquelas?

Ou seria chacota por anos ou simplesmente teria que ser um pouco mais verossímil, mostrando todas as provas cujo reuniu depois que passou a pesquisar a fundo todos os eventos ocorridos.

Pegou o metrô, onde foi comprimido por um velho de nariz adunco que o encarava sem parar e ria, sob a luz doentia de um amarelado pálido enquanto o encarava com olhos ejetados de sangue, algo desagradável.

Talvez naquele dia até mesmo o ilustre gato preto cruzando seu caminho o assustaria facilmente.

Chegou a casa em torno das oito horas, o céu nada possuía de bonito como uma noite natural de inverno, onde os namorados logo estariam se preparando para sair com seus pares no fatídico Natal, data cujo comemoravam o nascimento de um homem torturado que voltou como um zumbi.

Ah, a historia é tão gore quanto qualquer ficção.

Preparou rapidamente um prato de misô enquanto olhava em direção a sua sala, onde o notebook já o esperava sorridente, comeu, absorvendo o sabor quente da refeição, deixou a louça atirada na pia, pois sabia que o soco no estomago da inspiração havia chegado.

Era hora de dissecar aquela maldita matéria.

A matéria na integra, está à disposição do leitor.

COLUNA GORE, nª 301.

DEZEMBRO/2012

“O MISTERIOSO CASO DE YAMAMOTO REN”

Por Kai.

Quando pensamos em Yamamoto Ren, nos remetemos logo aos seus romances de fantasia, suspense e horror, um imaginário atormentado e crimes chocantes. Talvez, atualmente, em nosso país, este nome seja o mais consumido, acima dos patronos do estilo como Poe, Lovecraft ou King por uma razão potencialmente previsível; Ren sabia como nos assustar com o que temos no aqui e agora.

O cemitério Micmac de King é longe de mais para que nos de um medo real, embora a maluca de Misery com sua porca quebrando as pernas de escritores possa provavelmente apavorar um escritor, o deixando com medo em qualquer lugar do mundo.

Acredito porem, nada dessas coisas assustava Ren, sequer a maluca de Misery, sequer aquele fanático religioso que matava pecadores e se intitulava Corvo, na historia daquela esquisita com nome de pintor, sequer os pesadelos que ele nos ajudou a criar em nosso imaginário. A razão, bem, depois de dar uma boa lida no diário pessoal que o homem deixou especialmente para o jornalista que vos fala, não fica totalmente claro que tais ficções, embora apavorantes não lhe causassem nada.

Pois Ren possuía demônios que provavelmente á primeira vista, diria se tratar da boa e velha loucura.

Mas depois do ocorrido da ultima semana, não, ele não será capa da Psychiatrisc Magazine, mas da Ito.

Yamamoto Ren, seu lugar é na Gore. Méma.

Quando conheci Ren, em uma das entrevistas que me deu, fiz uma série de perguntas, era um sujeito muito conservador, espirituoso, porem, sempre possuía algo de interessante sobre si a contar. O homem era nascido em janeiro, dia vinte para ser especifico, mas comemorava no dia 19 quando estava em países ocidentais, questão do fuso horário, dizia. Meio capricorniano, desta base podemos dizer que pessoas desta data não são muito normais.

Allan Poe era nascido no dia 19 de janeiro também, mas se fosse japonês, ele sempre dizia sempre muito orgulhoso, teria nascido no meu dia.

As particularidades com Poe, do senhor Yamamoto iam além das páginas escritas e a solitária jornada de ser um escritor, como companhia, apenas boas doses de álcool, mas detalhes perturbadores que o colocam nesta coluna.

Você não é um escritor caso não queira vender a sua alma para a escrita”, ele disse certa vez em um encontro em Vancouver com outros figurões do gênero para um rapaz na plateia que dizia ser aspirante a escritor, mas apenas escrevia romances saudáveis. “Se você só escrever por divertimento, seja lá seu ou do seu publico acéfalo, você é apenas um bom palhaço remunerado, não nos ofenda com esse papo furado de escritor, garoto. A alma humana vai além dos seus romances perfeitos, vai além dos seus fetiches bizarros e nojentos, vai além do seu desejo por ser outra pessoa, vai além de toda essa publicidade que os deixa cegos para olharem para dentro de si mesmos e encontrarem pequenos demônios risonhos. A essa altura, nem o diabo se preocupa com aspirantes a escritores que apenas consideram bom o que vende, vocês não são escritores, vocês são o cimentos que sela o muro da ignorância. Vocês me dão asco, vocês desrespeitam quem senta sua bunda em uma cadeira e tem tendinites, que sofrem de dores de cabeça, que sentem o bloqueio os devorando, que são consumidos pelas correntes da escrita. Vocês me enojam”.

Não foi a declaração mais polemica do homem, mas diante de tal pensamento, podemos partir desta frase, onde pela primeira vez ele citou algo que no decorrer passou a ser presente em seus discursos horrorizados com os autores cujo ele dizia serem “palhaços brincando de contar historinhas”.

Se não ficou claro, vou clarear, Yamamoto Ren não acreditava que apenas os autores de suspense ou horror eram bons o bastante, não, ele jamais alegou isto, mas alegava que escritores possuem uma maldição a qual são todos fadados e não apenas os bons escritores ou os de gênero semelhante ao seu, mas em suas palavras, os verdadeiros escritores quando confrontados com apenas o calor das chamas da maldição jamais iriam se curvar a escrever frivolidades, não totalmente.

Dois, três, quarenta e cinco, um milhão”, ele disse sobre uma franquia de filmes baseado em livros. “Que diferença fazem todos esses números? Meus caros, esta franquia é para adolescentes, não há nada errado com escrever para adolescentes, mas não conteste a verdadeira escrita com números alegando que a venda de A culpa é das estrelas e toda sua corja se compara com um bom Byron ou Hawthorne por causa dos números. Sou escritor, não um contador” e acrescentava um sorriso mordaz, de canto, encantador que fazia a todos rir mesmo que nervosos.

Assim como Yamamoto odiava o que estava em voga, a moda o odiava, era arrogante e geralmente acido, mas nós, seus fãs ele sempre alimentou muito bem. Seja de pesadelos, seja de reflexões. Ele não era um homem para suspirarmos de amor, era um homem para temer, um amaldiçoado, dizia.

Quando publicou “As correntes do mal”, as coisas passaram a piorar, creio eu, pois vimos um Yamamoto totalmente perturbado no lançamento cujo sequer teve mais de duas horas de autógrafos, ele parecia abatido, mais magro e é aqui onde entra seu diário.

Nas correntes, sempre as malditas correntes...

22 de Julho de 2019 às 17:02 1 Denunciar Insira 2
Leia o próximo capítulo Dos diários do senhor Ren.

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Karimy Karimy
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23 de Julho de 2019 às 06:31
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