A COISA DE AREIA Seguir história

dissecando Edison Oliveira

Um relato perturbador de um idoso, que em sua infância, teve de conviver com a perda da mãe e a obsessão do pai em tê-la de volta. Leia e descubra que os seus desejos podem sim se tornar realidade. Não que isto seja algo bom.


Horror Literatura monstro Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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A COISA DE AREIA


Ainda não sei como contarei isso. Acho que vou deixar minhas lembranças fluírem, e os dedos fazem o resto.

Ainda consigo vê-la, imóvel sob a areia da praia. Não era para algo assim acontecer. Diabos, não era para algo assim nem mesmo existir. Eu não fui o único a presenciar, entendam. Mas fui o cara que saiu vivo para contar. A coisa é clara como os dias eram em Bela Areia naquela época, em minha memória. Compreendam que hoje estou com meus sessenta e cinco anos nas costas, meus dedos tem artrite e a audição é uma bela porcaria. Mas eu lembro das coisas. Sabe, existem manchas que ficam em nossa cabeça como uma espécie de mancha. Você esquece dela por um tempo, guarda na gaveta e joga a chave fora.

Daí a safada começa a chutar lá de dentro. E aquele barulho dos pontapés interferem no seu sono, mesmo que um doutor qualquer lhe receite pílulas para dormir.

Então vou apenas falar. Diabos, não. Vou escrever nessa coisa que parece uma TV, que meu neto Nicolas chama de TABLET. O menino é bom nessa coisa. Fuça nela como se nem houvessem botões ou inúmeros comandos. Ele tem doze anos de idade e usa um boné virado para trás, com fones metidos nos ouvidos que tocam Rock and roll quase o tempo todo.

Era justo essa idade que eu tinha quando morava em Bela Areia. E foi lá que eu peguei o hábito de dormir com a luz acesa.



Em meados de novembro de 1965, deitado em meu quarto na pequena casa em Bela Areia, escutei o meu velho pai choramingar. Ele se chamava Glauco Pires e não sabia fazer absolutamente nada além de ir para o mar e pescar. Mas isso não era de todo mal, compreendam. A pesca era um dos únicos meios de sustento por aquelas bandas, e creio que hoje em dia ainda deva ser.

Levantei com toda a astúcia de um gato, me esgueirei pelo corredor e dali já conseguia ver a luz acesa. Espiei pelo canto da parede e vi que o velho segurava um retrato de minha mãe entre os joelhos. Acho que balbuciava alguma coisa, mas sinceramente não quero contar mentiras. Fato é que meu velho sentia uma saudade absurda de minha mãe, a dona Mari Cortez. Ele passou os últimos meses ao lado dela, sentado na beirada da cama com a mão sobre os lençóis. Às vezes eu entrava no quarto ( principalmente quando o velho tinha de ir para o mar em busca de comida ) e perguntava como ela estava se sentindo. Ela dizia que na medida do possível tudo estava bem, mas aquilo era uma mentira deslavada. Mesmo com meus doze anos, sabia daquilo.

Ninguém poderia estar bem daquela maneira. Sem enxergar e com um tumor do tamanho de uma laranja ao lado do pescoço. Em alguns momentos ela virava o rosto na direção da minha voz e eu podia ver aqueles olhos vazios, brancos e rodopiantes.

Nenhum menino deveria ver a mãe daquela maneira.



Aquele sofrimento durou cerca de oito meses. Foram dias horríveis onde tudo que eu fazia se restringia a limpar a merda da bunda dela, lavar os lençóis imundos e jogar fora o vômito do balde. Houveram noites — isso quando meu velho não estava em casa — onde ela acordava, com dores e chamando pelo meu nome. Eu apertava o travesseiro contra os ouvidos e só soltava quando achava que ela havia desistido e tornado a dormir. Alguns minutos depois isso recomeçava e eu sentia o corpo se arrepiar. Aquela voz fina, empapada, chamando por mim. Sabia que ela deveria estar precisando de alguma coisa, talvez estivesse até engasgando com o próprio vômito, mas eu não queria mais ver aquilo. Olhar para ela era assustador. Não era minha mãe que eu via naquela cama. Era um corpo cada vez mais magro e deformado, agonizando nas sombras.

Quando aconteceu meu velho não estava em casa. Já estava no mar a uns três dias, ele e um marinheiro chamado Luís qualquer coisa. Eu, por outro lado, estava lavando pratos na cozinha. Escutei um lamento agonizante do quarto dela e quase derrubei o copo que lavava no momento. A princípio tentei ignorar. Não me culpem, eu era apenas um menino que de modo algum sabia lidar com uma pessoa à beira da morte.

Continuei esfregando o copo, as mãos engolidas pela espuma. Pouco tempo depois ouvi um estrondo. Meus ombros saltaram e eu corri na direção do quarto, jogando a esponja pelos ares. Assim que empurrei a porta, vi que minha mãe estava estirada no chão; o lençol enrolado em sua cintura cobria parte de suas pernas finas como arames. Seus braços se contorciam para trás, formando um ângulo impossível. Os dedos dela dobraram e se enrijeceram.

Comecei a chorar em total desespero, corri até ela e me ajoelhei diante de sua cabeça. Aqueles olhos revirados brilhavam horripilantemente. A boca sem dentes pendia, frouxa no queixo. Uma espuma brotava no canto do lábio, cada vez maior, aumentando e aumentando. Eu gritava sem saber se alguém iria escutar — muito provavelmente não, o vizinho mais próximo era o senhor Benites, à uns oitocentos metros.

Quando ela finalmente parou de se mexer, entendi que havia acabado. A agonia dela e a minha. Sei que vou parecer um monstro, mas diabos. Acho que senti um alívio quando o coração dela parou. Ela já havia sofrido outras convulsões como aquela ( em uma delas o meu velho colocou o seu dedo gordo na boca dela e puxou sua língua ) mas nada se comparou com a última. Naquela eu senti o corpo dar coices. Quase deu para ver o espírito deixando a carne.



Meu velho chegou de viagem dois dias depois. Eu estava sentado na varanda quando ele entrou pelo pátio chutando a areia, com os pés descalços. Havia um sorriso de satisfação em seu rosto e um saco com peixes em uma das mãos. Assim que o coitado me viu levantar, com lágrimas nos olhos e correr em sua direção, tenho certeza que acabei com a vida do velho. Ele se ajoelhou para ficar da minha altura, me apertou forte contra o peito e disse que tudo iria ficar bem. Diabos, as coisas nunca ficam bem de fato. É só uma porcaria que se diz para tentar fazer com que a mente não entre em parafusos.

O pobre homem se dirigiu até a capela no mesmo dia. O senhor Maurício, um morador da praia, também era o responsável pelos registros das mortes no vilarejo. Ele cuidava da papelada, ou, como gosto de dizer, era ele quem assinava pelo defunto.

Meu velho pegou a urna com as cinzas de minha mãe ( era um desejo dela ser cremada, isso eu mesmo ouvi ela dizer certa vez, após sofrer uma das tantas convulsões ) e levou-a para o mar. Ele navegou até sumir no horizonte, em um dia ensolarado de céu azul. Acho que só retornou quatro horas depois, olhando para o chão e com as mãos escondidas nos bolsos.

Ele ainda se deteve um pouco antes de chegar na varanda. Olhou para o mar, como se pedisse alguma coisa em silêncio. Não consegui ver se seus olhos estavam fechados, assim como em uma oração. Talvez estivessem. Logo depois ele passou por mim, mexeu em meus cabelos e se dirigiu para o quarto. Não estava cheirando a álcool como as vezes estava.

Seja lá o que for que o velho pediu olhando para o mar, só veio a acontecer em Junho seguinte, em um inverno de congelar os ossos.



Naquela tarde fria e cinzenta, coloquei a jaqueta e em seguida o capuz. Retirei as galochas do armário, passei pelo quarto do meu velho e o vi deitado olhando para o teto. Acho que ele estava com aquele casaco xadrez a quase cinco dias.

— Vou até o mercadinho do Nero, — falei. — Quer que eu traga algo para o senhor?

—Só um trago.

A resposta foi dada sem olhar para mim. Ele havia aumentado as doses que bebia desde a morte de minha mãe. O velho nunca foi um boêmio nato, mas o caminho para aquilo estava sendo traçado de maneira firme e diária. Eu até já havia recolhido ele da areia diante da varanda uns tempos atrás.

Deixei ele com seus pensamentos, olhando para o forro comido pelos cupins e sai na tarde cinza. Estava garoando naquele momento. Andei até o mercadinho do Nero — isso dava uns trinta minutos pela orla da praia, sem cruzar por um cidadão sequer — e o cumprimentei assim que cheguei lá.

O tal Nero era o típico dono de quitanda; tinha uma barriga avantajada, um bigode grosso acima dos lábios e uma careca apenas no centro da cabeça. Ele me chamava de pequeno Glauco. Eu não me achava tão parecido com meu velho na época, mas hoje sei que Nero tinha razão.

— E o pai, como vai?

— Bem, senhor Nero — e aquela foi uma mentirinha que saiu de acordo como planejado.

— Não está indo pescar, não é?

— O mês está ruim. Ele está em casa a duas semanas, mais ou menos. Mas acho que assim que o tempo melhorar, ele volta para o mar.

— Oh, claro que volta. Aquele velho é como um peixe.

Dei uma risadinha, peguei o troco da mão sebosa do senhor Nero e me despedi. Fiz aquilo na hora certa, pois o velho Nero adorava uma prosa. Caso contrário, estaria lá até hoje com a sacola de compras nas mãos.

Durante o trajeto da volta, com o rosto sendo atingido pelos respingos da chuva e um vento que me obrigava segurar o capuz sobre a cabeça, consegui enxergar uma coisa diferente. Estava um pouco além da orla, de modo que a água do mar ainda a atingia quando trazida pelas ondas.

Dalí, não conseguia identificar o que era. Meus olhos estavam cerrados por conta da garoa, e a cada passo pesado que dava aquela coisa se aproximava e aumentava no campo de visão. Ao chegar mais perto, vi do que se tratava. Só não sabia como diabos aquilo veio parar ali.



Era como olhar para uma pessoa. Só que feita unicamente com areia. Tinha braços, pernas e até cabeça. Um pouco de musgo do mar sobre o tronco, mas ainda dando para ver que se tratava de uma mulher. Havia uma espécie de seio nela; Dois pequenos calombos que faziam o musgo se sobressaltar. O rosto era apenas um círculo arenoso, sem expressão alguma. Se é que se podia chamar aquilo de rosto.

— Como não vi isso aqui antes? — resmunguei para a figura de areia.

Parecia uma turista tomando banho de sol, se houvesse um sol e fosse Janeiro.

Não quis tocar em nada, segurei firme o meu capuz e me virei para continuar minha agora curta caminhada até em casa.



Não me questionem, entendam. Mas, dois dias depois, enquanto remexia em uma pequena vasilha a procura de pregos, sentado no chão da varanda enquanto meu velho verificava um pedaço de madeira, olhei na direção do mar e meus olhos simplesmente não conseguiram acreditar.

A princípio, era uma pessoa parada diante da praia. Estava em pé, só não consegui identificar se de frente ou de costas. Não havia sol e achei que poderia ser algum morador tentando adivinhar se o tempo iria melhorar logo. Voltei minha atenção para a vasilha de pregos. Um instante depois, percebi que meu velho largou a madeira no chão e caminhou até os degraus da varanda.

— Ei, Lucas? — Ele chamou. Não olhou para mim, manteve os olhos fixos onde eu já imaginava em que.

— Sim, pai?

— Quem é aquele sujeito parado diante do mar? É o Luís?

Forcei os olhos e disse que não sabia quem era. Ficamos olhando por quase uns dez minutos, não vimos um único movimento da pessoa diante do mar e meu velho decidiu ir até lá. Ele limpou as mãos em um pedaço de trapo, disse que eu deveria esperar um segundo e saiu na tarde encoberta. Minha vontade foi segui-lo, não pensem que não foi. Um menino de doze anos é tão curioso quanto um gato.



Ele ficou parado ao lado daquela pessoa por quase meia hora. Da varanda, pareciam dois sujeitos conversando sobre uma coisa qualquer. O único que parecia se mover era o meu velho. Por vezes o vi contornar o outro sujeito, analisando-o dos pés a cabeça. Foi quando peguei alguns pregos, que escutei suas pisadas firmes no soalho da varanda. Parecia eufórico e assustado.

— Que houve? Quem era o sujeito?

— É um milagre, filho! — Os olhos dele estavam assustadoramente fascinados.

— Mas de que...

Assim que comecei a falar, ele se ajoelhou diante de mim e alisou o meu rosto. Era assustador ver aquele brilho de fascínio nos olhos dele.

— Não é que o bom Deus sabe das coisas?

— Pai, eu não... do que está falando?

Então, Glauco Pires, meu velho pai que na época estava com seus cinquenta e poucos anos, disse o que eu jamais iria esquecer.

De pé, diante do mar, aquela figura irreconhecível deveria ser qualquer coisa menos minha mãe.



A pedido do meu velho, fomos até lá. Mesmo que não houvesse um pedido, eu iria mesmo assim. Não dava para afirmar uma loucura como aquela e deixar de lado.

Diabos, eu estava pronto para entrar em parafusos. Quase o deixei para trás, caminhando como um doido, a areia úmida penetrando entre os dedos. Estava frio mas isso não importava.

Antes mesmo de chegar perto o suficiente, já conseguia ver aquilo que meu velho chamava de "sua mãe". Estava rigorosamente idêntica a dois dias atrás. Porém agora estava de pé. Era a figura de areia, com seu musgo cobrindo os seios e o rosto sem expressão alguma. As vezes a água do mar vinha devagar, trazida pelas ondas, e molhava seus calcanhares. Só isso já seria o suficiente para derrubá-la. Mas, diabos, não derrubou.

Meu olhar de pavor parecia de surpresa para o meu velho. Ele envolveu o seu braço em meus ombros e me trouxe até a sua cintura.

— Não é incrível, filho?

— Como ela não cai? — e juro por Deus que foi a única coisa que me veio em mente no momento. Esqueci quase por completa a parte que ele se referia aquilo como sendo a minha mãe.

— Isso não importa! — A voz dele saiu rabugenta como nos dias em que tomava uns tragos. — Sua mãe é dura na queda, oras. Não vai cair. E também não podemos movê-la daí. Caso contrário se quebraria. Ouça o que vamos fazer...



Eu permiti que falasse até o final, mesmo achando que meu velho pai estivesse ficando biruta. Para mim, naquela altura, só uma coisa importava; Como diabos aquela coisa de areia se levantou e andou até a nossa casa?

Se é que se tratava da mesma.



— Ela veio do mar, — disse meu velho, finalmente falando mais devagar e com menos excitação. — Eu pedi isso, filho. Joguei as cinzas dela no meio do oceano e pedi para Deus me trazê-la de volta. E agora ela está aqui! Agora me diga que isso é um milagre, garoto. Me diga!

O medo nos faz dizer coisas terríveis. O receio de magoar quem amamos, sabe. As vezes, a mentira cai como uma luva e você até sente a maciez dela. Dá até vontade de não tirá-la mais. Se eu soubesse até onde tudo isso iria ir, jamais teria mentido para meu velho.

Respondi para ele que sim. Que aquilo era um milagre.



Alguns dias depois, a coisa de areia havia avançado um pouco mais. Não dava para ver as pegadas dela ( muito possivelmente eram apagadas pela água ou pelos grãos de areia soprados pelo vento ), mas ela havia se movido.

A perna direita dela tinha uma curvatura na rótula do joelho. Aquilo não estava ali antes. Deveriam ser passadas muito pequenas, quase imperceptíveis, mas para o meus olhos — e principalmente os do meu velho — elas não passavam despercebidas.

O tempo ruim persistia, afastando qualquer pescador da região. Acho que se alguém fosse até lá e mexesse naquela coisa, meu velho seria capaz de matar.

Apenas algumas gaivotas sobrevoavam ali por perto. Tenho uma certeza dos infernos que vi uma delas bicar aquele musgo, raspar o bico pontudo no pulso da coisa de areia e derrubar a sua mão no chão. Meu velho ficaria maluco. Mas no dia seguinte a mão estava lá outra vez. E a coisa inteira uns passos mais para frente.



Em agosto, ainda com o tempo carrancudo, com dias mais chuvosos do que o de costume, meu velho chegou no extremo. Ele passava os dias e as noites sentado na varanda, em uma cadeira de balanço, tapado com um cobertor, olhando para a figura de areia. Esta, já a um metro do primeiro degrau de madeira.

Ele olhava para aquilo com algo nos olhos que na época eu não fazia idéia do que poderia ser. Hoje, sei que era amor.

Apenas uma noite depois, a perna esquerda da figura de areia já estava sobre o primeiro degrau da varanda. Presenciei o meu velho esticando os braços e chamando aquilo pelo nome de minha mãe. Cada vez que escutava aquilo, meu corpo tremia inteiro.

Assim que vi que a coisa de areia estava diante da cadeira, com os braços estáticos numa posição de abraço, me aproximei de meu velho com o mesmo cuidado que teria ao me aproximar de um cão raivoso.


— Vamos entrar, pai.— falei com cautela. — Está frio aqui fora e já é tarde.

— Vá para dentro, sim. — A voz dele não passava de um sopro na noite.

Eu deveria ter insistido. Diabos, eu quis insistir. Mas não o fiz e peço que não culpem este pobre velho porisso.



Após uma noite ruim de sono — frio, coisas demais para um menino ter na cabeça — me levantei assim que o primeiro raio de sol em quase três meses apareceu.

Ele penetrou pelas brechas na madeira da parede e tocaram os meus olhos ainda embassados.

Bocejei, pus os chinelos e andei até a cozinha. Escutava as gaivotas sobrevoarem o mar, berrando alguma coisa que só elas compreendiam. Alguns pescadores também pareciam murmurar ao longe, talvez aliviados pelo tempo ruim dar uma trégua.

Assim que deixei a cozinha, notei a porta principal da casa ainda aberta. Meu velho deveria estar sentado no mesmo maldito lugar com o mesmo maldito pensamento. E a coisa de areia também. Sei que rezei em segredo para um dia ela desmanchar com a ventania ou até mesmo com a chuva. Diabos, rezei como um pastor por tudo isso.

Aquilo não era minha mãe. Não poderia ser. Lembro de sair até a varanda, ver o meu velho sentado na cadeira de balanço e não haver mais nada ali além dele. Senti uma felicidade tremenda invadir o meu corpo que cheguei até a correr em sua direção.

Me aproximei, com um sorriso tímido, encostando a mão em seu ombro.

— Pai? — a cadeira balançou devagar, seu corpo foi para frente e para trás suavemente.

Meu velho não respondeu. Contornei pelo seu lado, esperando ver os seus olhos fechados mas eles estavam abertos. Insisti em chamá-lo mais uma vez, e foi então que consegui enxergar. Sua boca estava entreaberta e um pouco de areia escorreu por ali. Saltei para trás, antes encostando em uma de suas pernas, o fazendo mexer no embalo da cadeira de balanço. Ainda pude ver alguns grãos de areia escorrer pelos orifícios de suas orelhas antes de correr na direção do mar, aonde fui acolhido por alguns pescadores.



Não sei de fato o que houve naquela noite. As vezes lembro disso durante a noite e preciso correr para acender a luz. Minha esposa Diana, chama por meu nome e vem a meu socorro pensando que estou infartando. Ela não diz, mas sei que é isso que pensa. Ela é a única pessoa que sabe deste período da minha vida. Claro, além de vocês. Mas creio que ela seja a única a acreditar em mim.

Ainda penso que meu velho engoliu toda aquela areia até engasgar. E quando cogito no fundo de minha alma que ele apenas abriu a boca para permitir a passagem daquela coisa, eu sinto um arrepio gelado percorrer minha espinha.

Decidi escrever isso neste tablet sem uma razão específica. Acho que servirá como um desabafo após eu fazer as malas e ir para a terra dos pés juntos. Minha esposa me convenceu a fazê-lo e não sei se a agradeço por fazer este pesadelo renascer tão claro em minha cabeça.

Acho que consegui contar como queria. Como imaginei, as lembranças vieram e os dedos fizeram o resto.

20 de Julho de 2019 às 01:39 1 Denunciar Insira 3
Fim

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Tiago Líreas Tiago Líreas
Imaginaria que o pai teria explodido com tripas voando pra todo lado ou que a sua barriga teria inchado tanto de areia que teria aberto e libertado aquilo. Teria sido mais "Terror", sabe? Mas acho que essa versão foi mais realista e, opinião, sem graça 😕
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